sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 153 *


Poema de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Belos tempos...

Belos tempos, na infância, eu pude vivenciar.
Muitas brincadeiras nas ruas calmas:
de pega-pega, de roda, de cordas, de casinhas,
e muitas outras, de tirar o chapéu e bater palmas,
com as crianças vizinhas.

Belo tempo teve a minha adolescência...
De descobertas, de incertezas, de contestação!
De olhares lânguidos e de efervescência.
Do culto ao modismo e da secreta paixão...

Belos tempos... Os da minha juventude!
A faculdade, o estudo e o trabalho escolhido.
Os bailes, o grupo de amigos, a plenitude!...
O namoro não mais escondido.

Belos tempos... Vivi na maturidade,
aprendendo e transmitindo conhecimentos.
Ensinando tive a oportunidade
de o sonho concretizar e viver belos momentos.

Belos tempos... Usufruo hoje, muito bem,
com novos tipos de aprendizagens;
muitas surpresas e descobertas também!
Feliz, divirto-me em minhas viagens!
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Soneto de
JANSKE NIEMANN SCHLENCKER
Curitiba/PR

Restinho de natal 

Estou só nesta sala fria e nua
onde dorme uma sombra em cada vão;
um pinguinho de luz fugiu da rua
e cai, por uma fresta, no meu chão.

Um ar, bem de Natal, pelo ar flutua
e faz nascer de novo uma ilusão.
Um pouco de luar caiu da lua
como uma gota branca em minha mão.

E tantos pensamentos em mim dançam
que os dedos ansiosos os alcançam
e apalpam-lhes a forma tão real! 

E os toco, e os acalento de mansinho
como se acalentasse, com carinho,
o pouco que restou do meu Natal…
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Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Paixão antiga

Volta meu olhar ao passado
quando mocinha olhava curiosa
os poucos livros que minha mãe trazia
e, como joias raras os guardava.

Apesar da longa jornada, a cada noite,
havia um livro na mesa que a esperava.
Ela lia, e também tricotava...
Fazia isso com extrema agilidade.

Quando as minhas aulas se iniciavam,
eu percorria as ruas das livrarias.
Encantava-me na frente das vitrines,
admirando as capas dos livros, ilustradas.

Queria ter dinheiro para comprá-los...
Todos aqueles com os títulos atrativos,
com as imagens que e mim acendiam
tamanhos sonhos e fantasias.

Nos estudos amava ler as epopeias,
havia me apaixonado pela mitologia.
A professora de letras se empolgava
aclarando o texto, e com ela eu navegava.

Abria as asas da fantasia...
Um dia era sereia, outro dia rainha;
Tecendo o pano, e a noite desmanchando.
Esperando seu amado voltar da guerra.

A vida me levou a ser escritora,
gostar de brincar com as palavras.
Falar com elas, é como jogar sementes.
Após, vê-las nascer nos livros como flores.

Pelos caminhos percorridos
já colecionei os livros sonhados.
Um deles é filho muito amado,
leva dentro dele o meu legado.

Livro! Impossível viver sem ele;
ocupa lugar privilegiado...
Sobre a mesa de minha alma...
É meu néctar, o alimento preferido!
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Trova Popular

O anel que tu me deste
era de vidro e quebrou;
o amor que tu me tinhas
era pouco e acabou.
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Soneto de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ

A chegada do amor

Cabisbaixo, entre as flores me encontrava,
tão várias, com que os campos, langorosa,
adorna a primavera. Ah, se apagava
de meus olhos a chama esperançosa!

— “Que sentido, meu Deus! — me interrogava —
há nesta vida fútil, dolorosa,
em que as pessoas mandam-me à fava
quando lhes falo da alma mais chorosa?”

Sentia-me pequeno, e dissolvido
estava no fel de minha pequenez...
Foi quando um vulto claro apareceu

e de novo criança então me fez,
e tudo aquilo que havia perdido,
em lágrimas e amor, me devolveu.
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Poema de
DILMA DAMASCENO
Caicó/RN

A paz dos poetas

No dadivoso “Livro dos Poetas”,
as palavras revelam sentimentos…
e entre o realismo e a fantasia,
os Poetas – românticos profetas -,
vão predizendo os acontecimentos,
na linguagem suprema da poesia!...

Falam de sonhos, crenças, devoções!...
Pintam caminhos plenos de beleza!…
"Paisageando" cenas de bonança,
os Poetas alegram os corações!...
E sob a luz da sábia Natureza,
vão tatuando as almas, de esperança!
Eclodem assim, Poéticas Confrarias!
Soam forte, os “Teares do Amor”!
De forma inspiradora e pertinaz,
os Poetas, tecendo alegorias,
vão sublinhando um mundo encantador,
onde o encanto principal, é: PAZ!
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Soneto de
FLORBELA ESPANCA
Vila Viçosa/Portugal, 1894 — 1930, Matosinhos/Portugal

Maria das Quimeras

Maria das Quimeras me chamou
Alguém.. Pelos castelos que eu ergui
P’las flores d’oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh’alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh’alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d’oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?…
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?
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Soneto de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994) Porto Alegre/RS

Mundos

Um elevador lento e de ferragens Belle Époque
me leva ao antepenúltimo andar do Céu,
cheio de espelhos baços e de poltronas como o hall
de qualquer um antigo Grande Hotel,

mas deserto, deliciosamente deserto
de jornais falados e outros fantasmas da TV,
pois só se vê, ali, o que ali se vê
e só se escuta mesmo o que está bem perto:

é um mundo nosso, de tocar com os dedos,
não este — onde a gente nunca está, ao certo,
no lugar em que está o próprio corpo

mas noutra parte, sempre do lado de lá!
não, não neste mundo — onde um perfil é paralelo ao outro
e onde nenhum olhar jamais se encontrará...
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

Confidente

Velho mar, meu eterno confidente,
quantas vezes chorei ao confessar:
esta mágoa que fere, inconsequente,
e o tempo que não pode mais voltar.

E me dizes, então, naturalmente:
só o amor é capaz de me curar,
enquanto tuas ondas, mansamente,
os meus pés, com carinho, vêm beijar.

Exerces sobre mim grande fascínio,
porque tens sobre todos o domínio
e és tão frio nas tuas mutações.

Ao contrário de ti, eu sofro tanto,
e fico aqui a derramar meu pranto,
onde sepulto as minhas ilusões!
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Poema de
ALCIDES BUSS
Salete/SC

Afeito à sorte

Circunscrevem-me acasos
que me veem.
Seu intento, sou.
E também seu logro.

Numa praia, à meia-noite,
o tempo no corpo
armazenado se apodera
dos processos sob a alma.

Renascer, renasço.
Mas a flâmula de afrontas
me submete à cicatriz
do caos, ao recorte
de martírios e recessos.

Movimento-me, imóvel.
O porto do meu corpo
está aberto. Ao não-ser
me nego, mesmo que
de tudo só me reste
quase nada.
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Pantun do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun dos mares da vida

TEMA:
Singrei mares de agonia,
lutei contra vendavais,
para achar a calmaria
que só encontro em teu cais.
Lisete Johnson 
(Butiá/RS, 1950 – 2020, Porto Alegre/RS)

PANTUN:
Lutei contra vendavais,
tentando encontrar alguém,
que só encontro em teu cais,
e no cais de mais ninguém.

Tentando encontrar alguém,
procuro por todo canto;
e no cais de mais ninguém,
ninguém verá mais meu pranto.

Procuro por todo canto,
esse alguém, que disse adeus;
ninguém verá mais meu pranto
no pranto dos olhos meus.

Esse alguém, que disse adeus,
me tez sofrer todo dia;
no pranto dos olhos meus,
singrei mares de agonia.
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Hino de 
Barbacena/MG

Terra de encantos mil, jardim de flores
grande berço de antigas tradições
aqui ficas risonha como sempre
como sempre a prender os corações

Assentada no dorso das montanhas
tu tens a solidez das pétreas rochas
e assim o teu viver será perene
como a chama vivaz das grandes tochas

(Refrão)
Cidade dos encantos e das flores
ó Barbacena formosa e altaneira
tu és custosa gema que rebrilha
sobre o peito da pátria brasileira

Do teu seio tem vindo muitos homens
grandes pelo saber e no valor
nas letras, na política, nas artes
tu já tens muitos nomes de fulgor

Teu povo generoso, hospitaleiro
traz sempre como esplêndido troféu
nos brios a rijeza dos teus serros
na mente esplendores do teu céu.
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Poema de
DENNIS RADUNZ
Blumenau/SC

Metapoesia

I

    o fonema
fabula
    e se fia
na fábula

encadeia asas

II

    o poema
incende
    insula

    música
em miniatura
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

As orelhas da lebre

Conta-se que em noite escura
Certo animal cornifronte
Pôde ferir à traição,
Junto da encosta de um monte,
O rei das feras, leão;

Que em despique mandou logo
Banir por ordens legais,
Para horror de tal delito,
Os bicornes animais
De todo aquele distrito:

Bois, veados, cabras, todos
Que na fronte armas traziam,
Aqueles sítios deixavam;
E os que logo o não faziam,
Dura morte suportavam!

Notando tímida lebre
Cumprirem-se leis tão cruas,
Na sombra um dia observando
As longas orelhas suas,
Disse a um grilo titubando:

«Ai! que estas minhas orelhas
Por chifres se tomarão!
E se houver um delator
Que o vá dizer ao leão,
Da lei me exponho ao rigor!

— Tu fazes de mim pateta?
Fala, tola; pois é crível,
Lhe disse o grilo em bom ar,
Que um par de orelhas flexível
Possa por chifres passar?

— Sim, disse ela; e por que não?
Tenho-os visto mais pequenos.»
Tornou-lhe o grilo: «Vaidosa!
Se os teus fumos fossem menos,
Serias mais venturosa.

Quem és conhece e descansa;
Porque sempre que supomos,
Pela vaidade que temos,
Ser aquilo que não somos,
Mil incômodos sofremos.»
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Contos das Mil e Uma Noites (Um parasita modelo)


Conta-se que o califa Al-Ualid, filho de Iazid, da dinastia dos Omaiadas, comprazia-se na companhia de um certo comilão cujo nome passou a caracterizar a profissão dos parasitas, que se convidam a si mesmos a bodas e banquetes. O nome desse famoso comilão era Tufail dos Festins. Ao lado de sua gula, o homem era inteligente, culto, espirituoso, cínico, com boas réplicas e atitudes simpáticas. Foi ele que estabeleceu o código do bom parasita nestes versos:

Aquele que for convidado a uma festa 
deve comportar-se com a segurança 
de um dominador;
entrar com ar alegre e ocupar o melhor lugar
sem prestar atenção a ninguém 
para que cada conviva o considere 
um homem de importância; 
desprezar os pratos como indignos 
de tão alto personagem;
e, contudo, manobrar para ter perto de si 
o melhor vinho e os melhores cigarros; 
e enquanto trinchar e engolir os frangos 
pedaço a pedaço,
lançar olhares de homem superior,
rodeado por homens que não lhe chegam da altura.

Certa vez, um mercador de projeção convidou alguns amigos a um jantar de peixes selecionados. Quando a voz bem conhecida de Tufail foi ouvida falando ao porteiro, um dos convivas exclamou: “Alá nos proteja do parasita. Escondamos pelo menos esses peixes maiores e só deixemos nas bandejas os peixes menores. Depois de ter ele engolido estes peixes e ido embora, daremos prosseguimento a nossa festa.” 

Quando, após saudar os presentes, Tufail se sentou à mesa, satisfez-se com uma insignificante fatia de peixe. Os convivas alegraram-se e perguntaram-lhe: 

“Bem, mestre Tufail, o que achas destes peixes? Não parecem agradar-te.” 

- Há muito tempo que estou de relações cortadas com o mundo dos peixes. Mais ainda, detesto-os. Meu pai morreu afogado no mar, e esses selvagens o devoraram. 

- Aí tens a ocasião de vingar-te deles, comendo-os por tua vez, disseram vários convivas. 

-Tendes razão, mas esperai um instante. Apanhou um peixe magricela e aproximou-o do ouvido, parecendo escutar sua conversa. 

- Sabeis o que este pedacinho de peixe está me dizendo? perguntou finalmente aos demais. 

- Por Alá, como iremos saber? responderam. 

Disse Tufail: “Está me dizendo: “Eu não tinha ainda nascido quando teu pai foi devorado no mar. Se quiseres vingá-lo, ataca os peixes grandes que se refugiaram lá no canto. Foram eles que se jogaram sobre o santo homem e o devoraram.” 

O anfitrião e seus convidados se deram conta de que o olfato treinado do parasita havia localizado os peixes e desmascarado a malícia dos que queriam enganá-lo. Não vendo escapatória, preferiram rir gostosamente, e trouxeram a bandeja escondida para a mesa, dizendo ao parasita: 

“Come, em nome de Alá. E tomara que sofras uma terrível indigestão”.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

José Feldman** (Crônicas em Versos Diversos) A Saudade que eterniza

Crônica em versos tendo por base a trova de A. A. de Assis* (Maringá/PR).
A saudade sintetiza,  
sonhos, glórias, sentimentos,  
como um filme que eterniza  
nossos melhores momentos.
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A Saudade que Eterniza

Na brisa suave da cidade,  
recordações vêm à tona,  
um sorriso, uma saudade,  
a vida que emociona.

Na infância, os risos claros,  
as brincadeiras no quintal,  
lembranças que já são raros  
tesouros de um tempo igual.

Os amigos, companheiros,  
nas aventuras afim,  
eram sonhos verdadeiros,  
um laço que era sem fim.

Mas o tempo é viajante,  
e leva o que se ama,  
transformando o amor constante  
em lembrança que se inflama.

Na juventude, a paixão,  
os olhares que se cruzavam,  
a dança em cada canção,  
os corações que pulsavam.

E na sombra da memória,  
os ecos vão ressoar,  
cada instante é uma história,  
um retrato a nos guiar.

Mas a vida é um filme,  
e as cenas vão mudando,  
a saudade é um sublime  
sentimento que vai brotando.

Às vezes, uma canção,  
um perfume no ar,  
trazem à tona a emoção,  
e nos fazem recordar.

E ao olhar para o passado,  
como um filme a rodar,  
percebo que o amor é legado,  
e sempre irá brilhar.

A saudade é um carinho,  
um abraço do que era,  
é um fio, um caminho,  
que nos une e que nos libera.

Porém, não é só tristeza,  
é também gratidão,  
por cada instante de beleza,  
e cada coração.

Assim, ao final do dia,  
quando a luz começa a se apagar,  
a saudade traz a alegria  
de saber que se vai amar.

Porque o amor é eterno,  
mesmo quando não satisfaz,  
na saudade, um terno  
reencontro que não se desfaz.

E ao fechar os olhos, em paz,  
veja cenas a rodar,  
a saudade é a voz que traz  
a vida a resgatar.

A memória é um presente,  
um tesouro a guardar,  
e na saudade latente,  
aprendemos a amar.

MORAL:
"A saudade sintetiza,  
sonhos, glórias, sentimentos,  
como um filme que eterniza  
nossos melhores momentos."
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* A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.
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** JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se com a professora e tradutora Alba Krishna mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus),, Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas); "Almanaque Poético Brasileiro vol.1"; “Canteiro de trovas”; “Trovas de José Feldman e Izo Goldman” (Coleção Terra e Céu).
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Versos", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas", "Grinaldas Indígenas".

Fontes:
José Feldman. Chafariz de Versos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Mensagem na Garrafa 151 = Morte na empresa



Autor Anônimo
Morte na Empresa

Certa vez uma empresa estava em situação muito difícil. As vendas iam mal, os trabalhadores estavam desmotivados, os balanços há meses não saíam do vermelho. Era preciso fazer algo para reverter o caos, mas ninguém queria assumir nada. Pelo contrário, o pessoal apenas reclamava que as coisas andavam ruins e que não havia perspectivas de progresso na empresa. Eles achavam que alguém devia tomar a iniciativa de reverter aquele processo. 

Um dia, quando os funcionários chegaram para trabalhar, encontraram na portaria um cartaz enorme no qual estava escrito:

Faleceu ontem a pessoa que impedia o seu crescimento e o da empresa. Você está convidado para o velório na quadra de esportes.

No início, todos se entristeceram com a morte de alguém, mas depois de algum tempo, ficaram curiosos para saber quem estava bloqueando o crescimento da empresa. A agitação na quadra de esporte era tão grande que foi preciso chamar os seguranças para organizar a fila do velório. Conforme as pessoas iam se aproximando do caixão, a excitação aumentava:

- Quem será que estava atrapalhando meu progresso? Ainda bem que esse infeliz morreu!

Um a um, os funcionários, agitados, aproximavam-se do caixão, olhavam o defunto e engoliam em seco. Ficavam no mais absoluto silêncio, como se tivessem sido atingidos no fundo da alma, e saíam cabisbaixos.

Pois bem! Certamente você já adivinhou que no visor do caixão havia um espelho.

Só existe uma pessoa capaz de limitar seu crescimento: você mesmo! 

É muito fácil culpar os outros pelos problemas, mas você já parou prá pensar se você mesmo poderia ter feito algo para mudar a situação? Você é o único responsável por sua vida. Ela foi entregue a você por Deus, e você terá que prestar contas do que fez com ela no final da sua existência.

Fonte: Lendas para reflexão. Autoria desconhecida
Imagem criada com Microsoft Bing.

Célio Simões* (O Nosso Português de Cada Dia): “Para Inglês Ver”


Essa conhecidíssima expressão, que muitos reiteradamente já utilizaram na linguagem coloquial, tem como significado fingir que se fez algo, simular que se adotou determinada providência, que algo foi mal feito ou feito de forma superficial e passageira, burla muitas vezes exercitada para salvar as aparências, enganar alguém, um grupo ou uma coletividade de pessoas.

Ela é tipicamente brasileira, tendo surgido no século XIX, referindo-se às leis e fiscalizações propositadamente ineficazes criadas pelo governo brasileiro para atender às pressões exercidas pela Inglaterra exigindo o fim do tráfico de escravos, sem realmente ter a menor intenção de cumpri-las ou efetivá-las. 

O comércio e a manutenção de escravos africanos pelos senhores feudais, impondo-lhes abomináveis castigos físicos, psicológicos, humilhações e ultrajes de toda ordem, é um episódio que nos envergonha, mesmo porque, o último país das Américas a abolir a escravidão foi o justamente o  Brasil, em 13 de maio de 1888, por meio da Lei Áurea, assinada pela veneranda Princesa Isabel, que passou por esse gesto a ser popularmente chamada de "Redentora", embora seu título nobiliárquico oficial fosse o de Princesa Imperial do Brasil. 

Acrescente-se, por oportuno, que lamentavelmente fomos também a nação com o maior número de escravizados no continente e só mais recentemente - mercê de legislação rigorosa contra a discriminação, o preconceito, o racismo, a injúria racial, as piadas de mau gosto que enxovalhavam e deprimiam a condição humana apenas pela cor da pele - é que os negros passaram a exercer, não sem uma série de percalços e tribulações, com mais liberdade, autoestima, autonomia e independência, todos os direitos inerentes à sua cidadania.   

Voltando à origem do tema hoje abordado e num breve retrospecto histórico, antes da Lei Áurea, de 13 de Maio de 1888, foi promulgada em 1885 a Lei dos Sexagenários (concedendo liberdade aos escravos maiores de 60 anos), a Lei do Ventre Livre de 1871 (libertando filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir de sua promulgação), a Lei Eusébio de Queirós de 1850 (que proibiu definitivamente o trafico de escravos pelo atlântico) e a famigerada Lei Feijó, de 1831, fruto da pressão da Inglaterra com ameaça de sanções, caso o País não abolisse a prática do tráfico negreiro, de incipiente ou nenhuma aplicação na prática, encenação que a tornou conhecida como lei “PARA INGLÊS VER”.

Ou seja, o Brasil Império simulava tomar providências efetivas, determinava à Marinha Imperial que patrulhasse o nosso avantajado litoral, porém tudo era feito de mentirinha, sem a menor intenção de reprimir as embarcações que transportavam escravos africanos para o trabalho nas lavouras, porém sem qualquer intenção concreta de acabar com a escravidão, apenas para acalmar a Inglaterra, eis que o labor gratuito dos escravizados era indispensável durante os ciclos do açúcar, do café e depois no cultivo do algodão, do tabaco, do milho e finalmente na pecuária, considerando que toda a produção agrícola brasileira da época, baseava-se no trinômio “monocultura”, “latifúndio” e “trabalho escravo”. 

A expressão é usada para descrever situações em que uma atividade é feita sem seriedade, apenas para criar boa impressão ou disfarçar aquilo que se deseja ou pretende ocultar. De há muito ela passou a ser utilizada em diversos contextos, entretanto todas como o mesmo sentido de simulação, como as “reformas para inglês ver", os "relatórios para inglês ver", as “prestação de contas para inglês ver”, as “eleições para inglês ver”, etc. 

Prestou-se também esse dito popular para satirizar a nossa realidade social, como se depreende da música “Canção Pra Inglês Ver” do célebre Lamartine Babo, criticando de forma divertida o vezo dos brasileiros, que tudo copiam da cultura estrangeira, isso desde os anos 30 até hoje. Veja-se, a propósito, no nome de vários edifícios residenciais ou estabelecimentos comerciais aqui mesmo em Belém, para essa fácil e lamentável constatação. 

A letra é uma mistura de português, inglês e francês de forma intencionalmente confusa e sem tradução para a língua pátria, sem sentido lógico, como no exemplo citado pelo acadêmico e romancista Ademar Amaral, ao noticiar a existência de uma menina batizada com o nome de “Madenusa”, depois que os pais ribeirinhos, residentes no telúrico Paraná de Dona Rosa, região do Baixo Amazonas, leram na embalagem de um produto que lhes chegou às mãos, a sua origem: “Made in USA”. Esse fato, se verdadeiro, evidencia como o uso de termos estrangeiros era e continua sendo adotado apenas para impressionar, sem qualquer compreensão verdadeiro sentido ou sem nenhuma necessidade de substituição pelas expressões do vernáculo.

Na esteira da genialidade de Lamartine Babo, as Frenéticas (que saudade delas!...) não deixaram por menos e engataram um histriônico foxtrot denominado “Para Inglês Ver”, da qual vale destacar uma estrofe do longo texto poético, que materializa a reação do famoso grupo de cantoras à invasão dos estrangeirismos na cultura brasileira: 

Ai Jesus!
Abacaxi, whisky of chuchu
Malacacheta independancin day
No strit flash me estrepei (step way)

Penso que o século XX foi o período de ouro da música popular brasileira, tomando por referência o samba, nosso ritmo representativo por excelência. Prova disso é que Zizi Possi foi um pouco além da expressão aqui abordada e compôs a música “Para Inglês Ver...e Ouvir” em 2005, primeiro álbum “ao vivo” da famosa cantora, entre os muitos que ela possui, lançado em 2005 pela Universal Music. Realmente, tratando-se de fertilidade de imaginação, quero crer que os brasileiros são realmente imbatíveis... 
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* CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. É autor de seis livros, coautor de outros quatro e organizador de obras de autores paraenses. Recebeu várias menções honrosas e três prêmios literários.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Arthur Thomaz (Professor Pardal)


Juvenal era conhecido no bairro em que morava pelo apelido de Professor Pardal, por estar sempre a inventar aparelhos e maquinários extravagantes e quase sem utilidade prática.

Nos “butecos” que frequentava com assiduidade, também era chamado pela mesma alcunha, mas porque, depois de algumas doses, passava a inventar histórias inverossímeis.

Seus pais torciam para que ele concluísse o curso técnico em Química Industrial, arrumasse um emprego e mudasse de casa, já que, com suas estapafúrdias invenções, havia colocado fogo na garagem três vezes. Mas Juvenal justificava os incidentes, convicto, afirmando que todas as grandes invenções que mudaram o rumo do mundo sofreram percalços semelhantes.

Sua mãe, então, precisou tapar a boca do marido, que já ia dizendo que Juvenal fosse ter percalços em outro lugar.

– Dorival, por favor, não vá ferir a sensibilidade do nosso menino. Afinal, ele está apenas em busca de realizar seu sonho em prol de um futuro melhor para a humanidade.

Dorival pensou que seria melhor se o filho sonhasse bem longe de casa, mas calou-se para evitar discussões inúteis.

Juvenal conheceu Maria Letícia quando tomava café em uma padaria antes de ir trabalhar, apresentado pela moça do caixa, que já o conhecia por ser freguês assíduo. Começaram a namorar e, passado algum tempo, a moça levou-o até sua casa para apresentá-lo aos pais.

À noite, após o trabalho, Juvenal ia até a casa de Letícia para namorar no sofá da sala e depois trocar beijinhos no portão ao se despedir.

Em certa ocasião, presenciou a sogra, com sérios problemas na coluna, apresentar enorme dificuldade em calçar os sapatos. Juvenal, que até aquele dia se contivera em não mostrar suas invenções, não resistiu e, na noite seguinte, levou uma de suas criações para facilitar o ato da sogra.

O resultado foi desastroso: ela ficou com os pés presos, gritando de dor, e ninguém conseguia soltá-la da geringonça.

Tiveram que chamar os bombeiros para serrar o invento. De repente, Juvenal olhou para trás e viu o sogro correndo em sua direção com algo nas mãos. Nem tentou ver o que era e saiu correndo, só parando em casa. Nunca mais viu Maria Letícia.

Solitário, já que seus pais, cansados das invenções malucas, mudaram-se para uma cidade a 1.800 km de distância, teve a oportunidade de desenvolver suas criações sem colocar a família em perigo.

Buscou incessantemente a produção de algo que substituísse o caríssimo combustível utilizado nos veículos.

Certa manhã, precisando abastecer sua moto 125 cc para ir ao trabalho e estando sem dinheiro, resolveu colocar no tanque um produto no qual estivera trabalhando a noite toda, mas que ainda não havia testado.

Surpreso, viu sua moto desenvolver um excelente rendimento.

Naquele dia, após o expediente, nem passou pelo “buteco”, como sempre fazia, e foi direto para casa aprimorar sua inesperada invenção. Na manhã seguinte, descobriu que havia criado um tipo de combustível de baixíssimo custo e com rendimento muito acima do comum.

Precavido, foi registrar sua fórmula no Departamento de Marcas e Patentes. O funcionário que o atendeu, percebendo ali uma oportunidade de lucro ilícito, procurou um diretor de uma estatal petrolífera, cuja fama de corrupto era notória, e expôs a situação.

Foi imediatamente levado ao gabinete do presidente da empresa, a quem Juvenal reconheceu por já tê-lo visto várias vezes em noticiários de corrupção e desmandos.

O funcionário vendeu a preciosa informação e saiu de lá com os bolsos cheios de dinheiro.

Já o presidente, acostumado ao ambiente nefasto da corrupção, foi pessoalmente ao endereço de Pardal.

Para ele foi fácil enganar o inocente Juvenal, afirmando que, ao comprar a fórmula do combustível barato, iria fabrica-lo em grande escala e, assim, ajudar a população mais carente.

O dirigente abriu a maleta que trouxera e ofereceu R$5 milhões em espécie ao rapaz, dizendo que ele nem precisaria declarar à Receita Federal, pois isso já estaria regularizado.

Sem entender muito de assuntos financeiros, Pardal aceitou, acreditando ingenuamente que seu invento ajudaria os pobres do país.

Na volta, o presidente da estatal pediu ao motorista que parasse em frente a um terreno baldio. Ali, destruiu a fórmula e o registro da patente.

Voltando ao carro, disse, regozijando-se:

– Ajudar os pobres? Que tolice! Vamos continuar a vender combustível caro e alimentar nosso esquema de desvio de verbas.

Com o dinheiro, Juvenal adquiriu uma propriedade na zona rural, distante da opressiva megalópole. A casa confortável vinha acompanhada de um galpão a prudente distância, onde ele podia criar suas extravagantes invenções sem colocar nada, nem ninguém, em risco.
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Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
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Nilto Maciel (Águas de Badu)


Moscas voejavam ao redor do cadáver. Choravam filhos e amigos, noras e netos, vizinhos e filhas, genros e netas. A mulher, se chorava, só Deus sabe. Nos olhos do cachorro Chué, no entanto, não se viam lágrimas. Quiçá ainda não soubesse do fim do seu protetor. Eu não chorei. Para que chorar, se o choro não conta histórias? Cabia a mim acompanhar os últimos momentos daquele ser entre os vivos. Retribuir, de alguma forma, o muito que dele ouvi. Pois de sua boca saíram dezenas e dezenas de crônicas sertanejas, todas elas por mim transformadas em contos. Consolar os seus parentes e, até pagar as despesas do sepultamento. Antes, porém, devíamos velar o corpo mirrado do velho Balduino. Não, Balduino não, Badu, como gostava de ser chamado. Quem quisesse ser seu amigo não o chamasse pelo nome de batismo. Isso vinha desde os tempos de rapaz. Ora, se até o major Saulo o tratava por Badu, não ia permitir cerimônias de outros.

De vez em quando alguém espantava moscas da cara enrugada do finado. E dos olhos cerrados, da boca murcha, da testa franzida. Badu parecia imagem de museu. Como se estivesse apenas a dormir. A qualquer momento se sentaria na rede, pediria uma caneca d’água e passaria a contar histórias. No sertão... Não, eu não tinha vontade de chorar. Talvez porque acostumado a fins e fins e a ver nele, o velho vaqueiro, apenas mais um homem que conheci e de quem colhi histórias.

Cerca de sessenta anos atrás vivia Badu na Fazenda da Tampa, vale do Rio das Velhas, Minas Gerais. Montava cavalo e cuidava de gado, como tantos outros nas terras do major Saulo. Quem sabe fosse melhor dizer “viveu”, “montou” e “cuidou”, porque apenas dois meses durou sua estada naquele lugar, de dezembro a janeiro. Tempo suficiente para conhecer Ritinha e por ela se engraçar. Para Ritinha dele se aproximar e desprezar Silvino. Para Silvino se encher de ódio e prometer vingança. Pois esse Silvino passou, então, a dizer a uns e a outros que não tardava a hora de meter uma faca nos peitos do rival. Pretendia matá-lo na primeira oportunidade. Sangrá-lo como se sangra porco. Badu, no entanto, não queria briga. Nada de porfiar com o sujeito.

Conheci o antigo vaqueiro por acaso. Entrei num boteco do Pirambu, em Fortaleza, perto da praia, para matar a sede. Pedi água mineral. Três ou quatro velhos conversavam na calçada, sentados em tamboretes. O sotaque de um deles me pareceu estranho. Demorei-me com a água, a escutar a conversa. Ao perceber minha curiosidade, ele se calou. O que tanto eu assuntava? Pedi mais uma garrafinha. Ele falava de um burrinho heroico que atravessava uma correnteza, em noite escura. Dele mesmo nada dizia. Não se pabulava (vangloriava) de nada. Na história só havia um herói: o burro. Dias depois pude saber o motivo do seu receio. Eu talvez fosse espião do major Saulo ou de quem o tivesse sucedido no comando da fazenda. Aquilo podia ser uma arapuca. Se não me conhecia, não podia confiar em mim.

Tudo mudou quando me apresentei como professor, pesquisador, jornalista, folclorista, o levei ao meu apartamento, apresentei-lhe minha família, meus livros, escancarei minha vida. Do alto do edifício, no Meireles, mostrei-lhe o mar. A princípio, como se em êxtase, ele não disse uma só palavra, olhos afundados nas águas azuis. Ou verdes. Nos verdes mares bravios. Súbito, sem piscar, sem tirar os olhos da vasta pintura, e como se eu fosse sábio, quis saber de onde vinham e para onde iam tantas águas. Tentei uma explicação científica. Ele então compreendeu que eu não sabia tudo. Aquilo era muito bonito, mas preferia o chão, o sertão. O homem não fora feito para as alturas. Quem vivia pendurado em galhos era macaco. E nas águas viviam os peixes. Perguntei se queria ouvir umas histórias. Só se fossem de matutos. Serviram sorvete de graviola. Corri às minhas gavetas, trouxe uns cadernos e passei à leitura. Às vezes ria; outras, se entristecia. E não deixava de mirar o mar. 

Com ele saí a passeios pela cidade, como se turistas fôssemos. Caminhamos  pelo calçadão da Beira-Mar, pela Ponte dos Ingleses, fomos à Barra do Ceará, ao Mucuripe, à Praça do Ferreira, vasculhamos toda a cidade. Ele não conhecia esses lugares ou os conhecia de relance. Um dia, ao voltarmos de um desses passeios, estacionei o carro diante de sua casinha e me despedia, quando ele me convidou a conhecer sua família. Mandou eu me abancar. Mostrou um banquinho de madeira. Deixou a sala e entrou pela casa. Morava com um filho, a nora e alguns netos. Falou dos outros familiares, de onde moravam, do que faziam. E se pôs a contar a sua vida ou parte dela. Sobretudo a partir do dia da grande desgraça acontecida num rio, quando ele, bêbado, montado num burro velho, em fins de vida, se salvou da correnteza, enquanto os seus companheiros de jornada morreram afogados. Cavaleiros e cavalos arrastados pelas águas. A custo o burrico alcançou a casa da fazenda. Mais morto do que vivo. Badu encharcado de água e cachaça apeou e se recostou na parede. Atordoado, com medo, sem rumo, resolveu arribar, fugir daquele lugar o mais cedo possível. Montou de novo o animal e enveredou para o norte. Mas o burrico, de tão velho, não suportou tanto peso, tantas veredas. 

Diante do cadáver, Badu chorou. Retirou o cabresto, porque disso ele não carecia mais. Nunca mais. Beijou-lhe a testa, abraçou-lhe o pescoço, ajoelhou-se diante do corpo e agradeceu por estar vivo. Abriu uma cova rasa e nela o enterrou. Fez uma cruz de paus, fincou-a sobre a terra e seguiu em frente. Sempre a pé. Pois desse dia em diante nunca mais montou burro ou cavalo. Fez a jura. Andou por veredas, matas, dias e noites de fome e sede. Para sobreviver, topava qualquer serviço. E assim aprendeu de quase tudo um pouco. Um dia cavava cacimba, uma semana apanhava feijão, um mês cuidava de porcos. Areou-se todo o tempo, sem saber se ia para cima ou para baixo. Meteu-se nas brenhas, sem avistar vivalma durante dias e noites. E, por acaso, se viu diante de muitas águas. Seria o Velho Chico? Esperou, esperou, até avistar um barco. Mas dessas peripécias ele não quis falar muito. Sem saber onde se achava, sem atinar com geografias, fugia do passado e de Minas. Queria atravessar o São Francisco e seguir em frente.

Cerca de um ano depois alcançava o sul do Ceará. Entretanto, as histórias de cangaço e de lutas entre grupos políticos o empurraram do Cariri. Não queria conhecer padre Cícero? Não, não e não. Queria conhecer sossego. E se enfiou de novo pelo sertão, até alcançar a serra de Baturité. Arranchou-se num sítio nas proximidades de Mulungu. Precisava de descanso e, se não fosse pedir demais, um pouco de comida. Falava quase nada, com receio de se enroscar nas conversas. Arranjou serviço de capinar. E outros e outros serviços. Trabalhava do nascer do sol ao escurecer. Sempre calado e obediente. Precisava se aprumar na vida e esquecer pelo menos aquele dia de mortes. E conheceu a cabocla Joana, com quem se casou um ano depois. Disso também contou pouco. 

O tempo passava devagar. Às vezes pensava em voltar, rever os pais e irmãos. Com certeza o tinham por morto. Ora, e se não conseguisse acertar o caminho de volta? Melhor mesmo virar cearense de vez e esquecer o passado. Aprendia aos poucos a fala do povo da serra. Nascido o primeiro filho, perdeu a vontade de voltar. Joana não fazia perguntas. Só falava do ontem dela. E do hoje do menino. Badu gostava disso. O tempo andava lerdo. Outros meninos nasciam e cresciam. Joana não fazia perguntas. Só falava de seus meninos, rapazes e moças. Badu gostava muito disso. E criava bodes, cabras, galinhas, porcos. O tempo corria. O primeiro  filho inventou de morar na capital. Queria ser chofer. Na serra não se viam caminhões, nem jipes. Só em Mulungu, Baturité, Guaramiranga. Uma vez Badu olhou para trás, para o sítio, para os matos, para a mulher e não viu mais os filhos. Todos tinham arribado para Fortaleza. Um dia o mais velho chegou com jeito de lorde. Queria levar pai e mãe para a cidade. E levou.

Esses enredos se alongaram, sempre pacíficos, sem correntezas e sem secas. Para contar tudo, porém, seriam precisos dias e noites de fala. Até o último dia, até aquele momento de despedida: Badu deitado numa rede, sem vida. Seu povo triste, choroso. O cachorro Chué a vadiar entre as pernas das pessoas. Badu, por que esse nome Chué? O velho não ria nunca, mas sabia fazer rirem os outros. Mais chué do que este vira-lata só o mais chué dos cachorros. E Mais Chué existe? Devia existir. Em razão da idade, quem sabe, o velho vaqueiro muitas vezes confundia a natureza do animal com a de outro. Com voz sumida, chamava Chué de “meu burrinho”. Num desses momentos de afago ouvi – creiam – a promessa: “Chué, não vou deixar ninguém montar você”.

E o burrinho pedrês? O vaqueiro pouco sabia dele. E, se sabia muito, pouco dele falou. Não lhe lembrava o nome nem as características. Recordava tão-somente a sua bravura naquele dia de angústia e mortes. E quiçá nem lembrasse muito, porque a cachaça escureceu-lhe a mente durante algum tempo.

Parecia coisa do destino ou o avesso dele. Pois quem imaginava que um jegue velho, miúdo, magricela, quase cego, pudesse salvar uma vida? Que um homem bêbado sobrevivesse à travessia de um rio em rebuliço, após a chuva? E que cavalos bonitos, de estirpe, naufragassem, como pedras, e com eles levassem tantos vaqueiros valentes no roldão das águas?

A partir daquele dia Badu nunca mais foi o mesmo. Nunca mais tomou suas bicadas. Parou de beber, numa ojeriza sem par de aguardente. Não por isso, passou a ter sonhos esquisitos. Num deles, vagava no mar montado num burro. As ondas vinham, gigantescas, e os jogavam para o alto. Logo não havia mais burro. Badu montava, então, enorme peixe, porventura um peixe-boi. E mergulhava no abismo. Fazia frio, faltava ar. No fim do pesadelo, Badu não sabia mais de burro nem de peixe: agarrava-se a um pedaço de pau, um galho de árvore. E a correnteza os levava para os confins do mundo. Ancorava numa ilha. No entanto, cobras na praia não o deixavam pisar a terra.

Tudo começou quando o major determinou o ajuntamento de uns bois para serem levados à estação do arraial distante quatro léguas da fazenda, onde seriam embarcados em trens. Coisa corriqueira. Entretanto, o dia começou com chuva. Não fazia mal. Precisava, para tanto, de todos os vaqueiros, dos onze da fazenda. Mas faltava um cavalo. Sendo assim, que o burrico servisse de montaria a um dos homens. E a viagem se começou. Badu num velho poldro pampa; os outros nos seus cavalos e no burro; o major no seu cardão. Não fosse tanto boi para tão poucos cavalos, talvez Saulo não se lembrasse do jumento. Não fossem de Ritinha o amor e de Silvino o ódio, possivelmente Badu não tivesse bebido tanta cachaça. Não fosse a bebedeira, certamente Badu tivesse voltado no velho poldro. E assim teria morrido como tantos outros levados pela correnteza.

Deixados os bois nos trens, despediu-se o fazendeiro dos vaqueiros. Precisava pernoitar no arraial. Para seu lugar nomeou um deles. Conduzisse os homens em paz. Ficasse de olho em Silvino e Badu. Impedisse briga, discussão, muita conversa. Não queria saber de morte. Voltassem para a fazenda. Antes, porém, foram os homens comer e beber. Após o que, cada um pegou a sua montaria. Menos o vaqueiro do burrinho, que se engraçou do poldro de Badu. Restou o jegue, a um canto, solitário. Bêbado demais, o último a chegar ao telheiro onde os cavalos descansavam, Badu se irritou. Como voltar naquele burro sem serventia? Ora, se não quisesse o muar, que seguisse a pé. Passou a perna sobre o animal, equilibrou-se como pôde e saiu no encalço dos outros. Tudo escuro ao redor. E a chuvinha insistente. No fim da rua, os cavaleiros se haviam ajuntado para confabular sobre a situação. Quem sabe fosse melhor esperar o amanhecer. Ou o estiar. Se o córrego tivesse enchido, seria perigoso tentar atravessá-lo. Ao deixar para trás os cavalos, no passo lerdo do jumento, Badu ouviu risadas. Caçoavam dele. Não se importou com aquilo. Queria voltar para a fazenda e dormir. Mesmo debaixo de chuva e escuridão. E se deixou levar pelo animal. Seguiram-no os cavaleiros pelos caminhos molhados, aos pares. E a chuva engrossou. Pouco a pouco, tudo ao redor se transformou num aguaceiro medonho. Um balcedo (terreno alagado) só, as patas dos animais afundavam, enquanto o breu da noite envolvia o mundo.

Na sala do casebre o choro ia e voltava. Lamentavam a morte inesperada do velho Badu. Tão cheio de saúde! Deus o tivesse em bom lugar. Chué entrava e saía, desconfiado da novidade. O seu protetor jazia numa rede, calado e inerte. Nunca mais o chamaria para passear. Nunca mais passaria a mão em sua cabeça. Badu, você gosta muito de Chué? Ora se gostava. Como não gostar dos brutos, se dos homens só recebiam maldades em troca de trabalho, companhia, amizade? Por acaso algum homem é capaz de servir de montaria? De conduzir um homem bêbado de um lado a outro do rio? Chué passava horas aos pés de Badu. Ouvia-lhe histórias de burros, cavalos e bois, compenetrado, sisudo, sem um riso de deboche.

Naquela noite de breu, depois de muita chuva, o mundo parecia um alagadiço só. Mas os homens precisavam voltar para a fazenda e não havia onde se arrancharem. Galoparam, galoparam e, ao se aproximarem da margem do córrego, sofrearam os cavalos. As águas tinham inundado tudo. Então deixassem o burro ir à frente. Se conseguisse atravessar o rio... “Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair!” Como se não temesse as águas, a correnteza, a escuridão, o burro meteu as patas no córrego. Chapinhou, chapinhou, alcançou o meio, afundou-se até a barriga, seguiu. Badu agarrava-se ao seu pescoço, equilibrava-se. Os cavalos se viram obrigados pelos vaqueiros a tentar a travessia. As águas, porém, aumentavam de volume e tomavam mais ímpeto.

Encerradas as rezas, as mulheres se retiraram para a cozinha. Os homens sentiram vontade de beber uns goles. A meninada andava há muito pela calçada, a correr e rir. Apenas Chué permaneceu na sala. Súbito deu alguns passos e se postou ao lado da rede. Olhou para os lados, retesou as orelhas, ergueu-se, levantou as patas e as pousou no peito do morto. A rede balançou. Badu se despedia da vida como se ninado. Despedia-se de nós, parentes e amigos, daqueles que gostavam de ouvir suas histórias do sertão, de bichos e gentes. Sua derradeira história ele me contou numa tarde muito quente. À noite, dormindo, ele se finou. Parece ter sido um sonho. Ou invenção. Ele via do alto, como se flutuasse nas nuvens, as águas saindo do mar pelos caminhos dos rios e correndo para o sertão. Ao mesmo tempo, ele caminhava pelo chão, ao lado de um burrinho que às vezes latia. Molhava os pés na beira do rio, banhavam-se, alegres como meninos em brincadeira.

Um menino entrou no recinto e viu o cão a lamber o rosto de Badu. Mas não lhe pareceu um cão como os outros. Assemelhava, antes, outro tipo de animal. Talvez um burrinho. Pois nas faces do defunto aflorava um tímido sorriso, como se agradecesse o carinho. Chué se pôs a relinchar baixinho, como se dissesse ao amigo palavras de consolação. Ou como se rezasse e dele se despedisse. Como se dissesse: “eu fiz o que pude, cumpri o meu dever. Cumprimos nossas sinas.”  O menino levou as mãos à cabeça e quis gritar. O cachorro lambeu de novo o rosto do homem e saiu cabisbaixo no rumo da rua. E Badu voltou a ser morto.
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Fortaleza, junho/julho de 2005.

(Recriação de “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa, para Quartas Histórias – contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, org. Rinaldo de Fernandes. Rio de Janeiro, Ed. Garamond, 2006.)
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 
Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.
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