quinta-feira, 18 de junho de 2026

José Feldman (O Ladrão que entrou pelo cano)


Era uma noite de terça-feira, chuvosa e escura — o cenário perfeito para quem quer agir sem ser visto. Pedro, um ladrão de meia-tigela que já tinha errado mais alvos do que acertado, escalou o muro da casa dos Silva com uma mochila velha e um plano que cabia na palma da mão: entrar, pegar o que fosse fácil e sair antes que alguém percebesse.

Ele arrombou uma janela dos fundos com uma chave de fenda que tinha achado na rua, entrou devagar e ficou parado no escuro, ouvindo. Nenhum barulho. Sorriu, achando que dessa vez ia dar certo. Mas mal tinha dado dois passos, acendeu-se a luz da cozinha, e Dona Marisa apareceu de pijama, com um pente na mão e um olhar de quem esperava por alguém.

— Finalmente! — exclamou ela, sem dar tempo de ele falar nada. — Já estava pensando que você não vinha mais. O cano da cozinha está vazando desde ontem à tarde, e a água já molhou metade do armário.

Pedro ficou parado, com a boca aberta, sem saber o que dizer. Ele vestia uma calça jeans surrada, uma camisa velha e tinha a mochila nas costas — nada que lembrasse um encanador. Mas Dona Marisa não deu espaço para dúvidas.

— O que é esse silêncio? Vamos, vamos, o problema é aqui mesmo — puxou ele pelo braço até a pia, apontando para um cano que realmente pingava devagar. — E por que você está com essa mochila? Não trouxe as ferramentas?

O ladrão, completamente perdido, resolveu seguir o jogo. Quem sabe assim não conseguia sair de lá sem problemas?

— Ah… é que… as ferramentas estão… aqui dentro — respondeu, com a voz enrolada, batendo na mochila. — Eu só… cheguei um pouco atrasado porque tinha outro serviço antes.

— Pois devia ter avisado — resmungou ela, mas já saiu andando. — Vou chamar o Carlos, ele quer ver como você faz o serviço.

Pedro suou frio. Meu Deus, o que eu fiz?, pensou. Mas antes que pudesse fugir, apareceu Carlos, de chinelos e um copo de café na mão, olhando para ele com curiosidade.

— Então é você o encanador? — perguntou ele, analisando o ladrão da cabeça aos pés. — Parece mais um… bem, não importa. Você sabe arrumar esse cano, não sabe?

— Claro que sei! — mentiu o Pedro, tentando parecer confiante. — É só… apertar umas coisas, trocar umas peças… coisa simples.

Abriu a mochila, desesperado para achar alguma coisa que parecesse útil. Tirou uma lanterna, um alicate velho, um pedaço de corda e até um parafuso que tinha achado na rua. Os dois olharam para aquilo tudo com cara de estranhamento.

— Que tipo de ferramentas são essas? — perguntou Dona Marisa, franzindo a testa.

— É… ferramentas especiais! — inventou ele na hora. — Só uso para serviços mais difíceis. Esse cano aí é um modelo antigo, precisa de técnica especial.

Carlos assentiu, como se entendesse tudo.

— Ah, sim, modelos antigos são complicados mesmo. Uma vez tentei arrumar um e quase quebrei a pia toda.

Pedro respirou aliviado e começou a mexer no cano, sem ideia do que estava fazendo. Torceu uma peça aqui, empurrou outra ali… até que, de repente, o cano se soltou de vez, e um jato de água saiu com força, acertando ele bem no rosto.

— AI, MEU DEUS! — gritou ele, pulando para trás, todo molhado.

Dona Marisa deu um grito também.

— O que foi que você fez? Agora está pior do que antes! Meu Deus! É o apocalipse hidráulico! — ela berrou.

— Foi… foi um acidente! — tentou explicar, limpando o rosto com a manga. — É que… a peça estava mais solta do que parecia. Deixa eu consertar rápido.

Ele tentou segurar o cano de novo, mas na pressa, bateu o cotovelo no tubo ao lado, que também começou a vazar. Agora eram dois jatos de água, molhando tudo: o chão, os armários, as paredes e o próprio ladrão.

Carlos já estava com a mão na cabeça.

— Rapaz, você sabe o que está fazendo ou não? Parece que está destruindo a casa, não arrumando!

— Claro que sei! É só… ajustar a pressão! — falou o Pedro, já todo molhado e com o coração disparado. — É um método novo, vocês não conhecem.

Nesse momento, apareceu a filha do casal, Luísa, de oito anos, que tinha acordado com o barulho. Ela olhou para o homem todo molhado, com ferramentas estranhas na mão e cara de quem não entendia nada, e perguntou bem alto:

— Mamãe, esse homem não é um ladrão? Ele parece muito com o ladrão que vi na televisão semana passada!

O coração do Pedro quase parou. Agora acabou, pensou, pronto para correr. Mas Dona Marisa apenas riu.

— Que ideia é essa, Luísa? Esse é o encanador, veio arrumar os canos. Ladrão não vem com ferramentas, nem fica consertando coisa na casa dos outros.

Carlos concordou.

— É mesmo, filha. E esse daqui é só… um pouco desastrado, só isso.

Pedro sentiu um alívio tão grande que quase caiu sentado. Mas o problema não tinha acabado. Ao tentar tampar um dos canos com o alicate, ele escorregou no chão molhado, bateu com a cabeça na pia e, ao se levantar sem querer, puxou um fio que estava solto — e de repente, toda a luz da cozinha apagou.

— Agora acabou a luz também! — gritou Carlos, batendo o pé no chão. — Que serviço é esse, meu filho? Primeiro os canos, agora a energia!

No escuro total, Pedro já não sabia onde era a porta, onde era a janela, nem o que fazer. Ouvia os dois reclamando, a menina perguntando o que tinha acontecido, a água pingando e escorrendo pelo chão. Ele estava todo molhado, com dor na cabeça, confuso, com medo de ser descoberto e achando que tudo aquilo era uma punição por ter tentado roubar.

— Eu… eu acho que preciso de mais peças! — gritou ele, já andando às cegas em direção à porta da cozinha. — Vou buscar na loja e já volto!

— Espera, não vai não terminar o serviço? — gritou Dona Marisa, mas ele já tinha saído correndo, tropeçando em tudo o que via pela frente.

Ele largou tudo, correu pelo corredor pisando em falso, desceu as escadas rolando os últimos quatro degraus, passou pela sala, bateu num sofá, esbarrou numa mesa, abriu a porta da frente e saiu disparado pela rua, na chuva, no escuro, sem olhar para trás.

Dentro da casa, Carlos acendeu uma lanterna e olhou para a bagunça toda: água por todo lado, canos soltos, fios pendurados.

— Que encanador mais atrapalhado, meu Deus! — disse ele, balançando a cabeça. — Nunca vi um que fizesse tanta confusão.

Dona Marisa limpou a água do balcão.

— Pois é. Mas pelo menos ele foi embora rápido. Amanhã chamamos outro, um que saiba o que está fazendo.

E o Pedro? Dali em diante, sempre que passava na frente daquela casa, ele cruzava a rua, com medo até de ser confundido de novo — e jurava para si mesmo que nunca mais iria mexer em canos, afinal quase entrou pelo cano.
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca.
Nasceu em São Paulo (SP), em 1954,: sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Ele residiu em cidades como Curitiba e Ubiratã e em Maringá (PR) no ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no setor hospitalar. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Ele é o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, na Romênia.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias do célebre. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Arthur Thomaz (Um dia na vida de Romildo, o Desastrildo)


Romildo, cujo apelido entre os amigos e familiares era Desastrildo, trabalhava como marceneiro em uma pequena construtora. 

Ao toque do despertador, não conteve o ímpeto de quebrar o aparelho, xingando a segunda-feira. Um dos pedaços do despertador atingiu a testa da esposa.

Ouviu a lamúria dela.

– Romildo, você continua o mesmo trapalhão.

Apressado, queimou a boca com o café quente demais. Muita demora no ponto de ônibus, e teve que embarcar em um coletivo lotado. Ficou colado a uma moça, que parecia ter tomado um banho com um perfume de discutível qualidade, e que o deixou impregnado com aquele cheiro nauseabundo o dia inteiro.

Nisso, a ponta da sombrinha de uma velhinha que estava atrás dele cutucou suas costas. Irritado, deu um safanão sem olhar, quase derrubando a senhora, que teve de ser amparada pelos outros passageiros.

A idosa xingou-o com todos os palavrões que conhecia, desferindo-lhe golpes com a sombrinha, o que o obrigou a descer em um ponto anterior ao seu destino. Chegou atrasado ao serviço, ouvindo um palavrão do patrão.

Devolveu o palavrão, mas só mentalmente. Na hora do almoço, ao abrir a marmita, ela escorregou das mãos, derrubando toda a comida no chão. À tarde, chateado e com fome, distraiu-se e deu uma martelada no próprio dedo. Teve que continuar trabalhando assim até o fim do expediente.

Para relaxar dos problemas do dia, Romildo foi até o “buteco” tomar algumas bebidas e conversar com os amigos habituais. Um deles disse:

– Romildo Desastrildo, seja bem-vindo, mas tome cuidado com as suas trapalhadas.

Todos riram, inclusive Romildo, que, cansado, sentou-se à mesa dos amigos e pediu uma dose de cachaça para brindar com eles. Ao primeiro gole, engasgou e foi ajudado pelos companheiros, recuperando-se. Com voz rouca, disse:

– É melhor eu ir para casa, chega de confusão por hoje.

Todos ao redor riram e concordaram. Chegando em casa, ao fechar o portão, prendeu, sem querer, o rabo do cachorrinho que veio contente recebê-lo. Ouviu lá de dentro o palavrão com que a esposa o brindou.

Ressabiado, entrou em casa, já sabendo que as reprimendas da mulher continuariam por muito tempo, e que a comida do jantar não seria esquentada por ela. Muito cansado, foi para a cama e, na hora em que estava quase adormecendo, os pés frios da esposa encostaram nele.

Pensou:

– Será que nem aqui eu terei paz?

A resposta veio logo a seguir. Para culminar, a esposa insinuou-se desejando um ato de amor. Esgotado, ele fingiu estar dormindo profundamente, mas ela insistiu até conseguir seu intento.

No dia seguinte, Romildo Desastrildo acordou extremamente cansado, antevendo mais um dia repleto de catástrofes. Levantou-se, pisou no cachorro que dormia ao lado da cama e assim iniciou seu dia…
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ARTHUR THOMAZ (assinando em concursos de trovas também como Arthur Thomaz da Silva Neto) é um escritor, médico e poeta paulista contemporâneo, de Campinas/SP. Ele vem se destacando no cenário da literatura do interior de São Paulo, pela versatilidade na prosa e pelo resgate ativo do movimento trovadoresco regional. A trajetória profissional de Arthur Thomaz concilia a carreira na saúde, o serviço militar e a dedicação integral à escrita: É médico de formação e atuou na área da saúde no interior paulista; Serviu ao Exército Brasileiro, onde alcançou o posto de 2º Tenente da Reserva (R2) do Corpo de Oficiais Médicos; Suas atividades literárias frequentemente se cruzam com espaços de reabilitação e saúde integrada, realizando lançamentos de livros em centros e clínicas especializadas da região de Campinas.
Embora com uma carreira consolidada na medicina como anestesista, Arthur Thomaz despontou no universo literário com uma produção altamente prolífica e diversificada, publicada e distribuída principalmente pela Bueno Editora. Sua vida literária transita por três vertentes principais: 
Os Romances e Ficção de Costumes: Escreve histórias que valorizam a simplicidade, o cotidiano e a vida no campo. Suas principais obras de prosa incluem Leves contos ao Léu (alguns volumes): Pedro Centauro (2024), Sofia e o Circo (2025) e Laura, a Autoridade.
Presença no Movimento Trovadoresco: Consolidou-se como um trovador premiado em importantes competições dos Trovadores e academias paulistas. Conquistou colocações de destaque em certames tradicionais, como o Concurso de Trovas da Academia Campinense de Letras e os Jogos Florais de Curitiba.
Produção de Trovas em Livro: No ano de 2024, lançou a obra de trovas Rimando Ilusões e Rimando Sonhos. O livro inovou no mercado editorial recente ao focar de maneira temática e exclusiva na estrutura clássica da trova.
A relevância de Arthur Thomaz na literatura contemporânea de Campinas e região apoia-se em fatores estéticos e de incentivo cultural: Em um mercado literário dominado por versos livres e e-books rápidos, Thomaz atua na contramão ao publicar Rimando Ilusões, trazendo visibilidade de mercado para a estrutura da trova (redondilha maior, com rimas fixas e métrica rigorosa de sete sílabas). Suas obras de ficção resgatam uma "literatura gentil", focada na vida rural paulista, no acolhimento de sua gente e nas sutilezas de personagens comuns. Isso ajuda a documentar a identidade sociocultural da região metropolitana de Campinas para além do caos puramente urbano. Por meio de seus lançamentos e de sua dupla jornada antigamente como médico e se mantendo como escritor, ele fomenta discussões sobre o papel da escrita como ferramenta de bem-estar, aproximando a literatura de círculos de saúde e desenvolvimento psicossocial na comunidade campineira.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

quarta-feira, 17 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 9 *


 Na vida tudo se alcança,
quando a Esperança se tem!...
Porém se morre a Esperança,
a vida morre também.
A..B. LOPES RIBEIRO

Esperança - voam aves...
Galhos, cascas flutuando...
Colombo comanda as naves
cheias de nautas cantando.
ADALBERTO DUTRA DE RESENDE

Descobri no envelhecer,
em meus momentos tristonhos,
que eu não tive, em meu viver,
nada mais além de sonhos!...
ADEMAR MACEDO

Quanta vez em tristes rotas
tombei sem me ter queixado
porque nas minhas derrotas
tive a Esperança ao meu lado.
AGMAR MURGEL DUTRA

No verdor da mocidade,
 quanta esperança entretive!
 Agora tenho saudade
 das esperanças que tive!
 ALFREDO DE CASTRO

Nossa vida é mesmo assim,
qual um rolo de papel...
quanto mais perto do fim,
mais dispara o carretel!
AMILTON MACIEL MONTEIRO

A esperança é voz do Além
  que nesta vida nos guia.
Sem este amparo ninguém
às mágoas sobrevivia.
ANA ROLÃO PRETO M. ABANO

Mãe que traz uma criança
nas entranhas do seu ser,
carrega a própria esperança
no filho que vai nascer.
ANIS MURAD

Há muita gente na vida
que a felicidade alcança,
não por ter sorte florida,
mas por viver de Esperança!
ANTONIETA BORGES ALVES

Pensando, na tarde calma,
 logo me ocorre à lembrança
 que a própria vida tem alma,
 e a alma da vida é a esperança!
 APARÍCIO FERNANDES

A Esperança se revela
 em cousa bem natural:
 um sapato na janela
 numa noite de Natal!
 ARCHIMINO LAPAGESSE

Desde o tempo de criança
- de ingênua colegial -
fiz de ti minha esperança
e só tenho esse fanal.
ARIETE REGINA DE PAULA FERNANDES

Carnaval retrata a vida
de fugazes tentações...
E lá no fim da avenida
restam cinzas de ilusões!
ARTHUR THOMAZ

Que não seja a tua esmola,
vazia de coração;
a esperança mais consola
do que um pedaço de pão.
CÉLIA CAVALCANTE

Há muito mais esperança,
 segundo o meu evangelho,
 numa lágrima de criança
 que num sorriso de velho.
 COLBERT RANGEL COELHO

Entre o meu pai - já velhinho,
 e o meu filho - uma criança,
 vejo estender-se o caminho
 por onde passa a esperança.
 DENANCY MELLO ANOMAL

Esperança - chama acesa
no coração a brilhar.
quando ela morrer, a tristeza
vem tomar o seu lugar.
DINARTE BARBOSA ARMOND

A esperança é como um sopro
 de vida, dado por Deus.
 É o dia, depois da noite,
 é a volta, depois do adeus.
 EDGAR BARCELOS CERQUEIRA

Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida,
onde se abriga a esperança!
EDNA DE CASTRO

A família alicerçada,
na fé, na  paz e no estudo,
transforma o seu quase nada,
com amor, no quase tudo!
FRANCISCO NEVES DE MACEDO

A dor de tua partida,
que não sai da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA

Esperança - bem que enleva
nossa vida, no presente;
- um raio de luz na treva
  do incerto amanhã da gente.
GERALDO PIMENTA DE MORAES

Ante a inclemência dos fados
da vida em cada revés...
Consolo dos desgraçados!
- Esperança é o que tu és!...
HONÓRIO SANTANA

Se o homem conquista o espaço,
por que é que, lutando a esmo,
é incapaz de dar um passo
para dentro de si mesmo?!...
IZO GOLDMAN

Com mágoa de toda a sorte,
se a velhice nos alcança,
crendo que há vida na morte,
temos na morte, Esperança.
JOÃO BATISTA DE AZEVEDO

Esperança - céu nublado
 no Nordeste, os bois ao léu;
 o sertanejo ajoelhado,
 de mãos postas para o céu...
 JORGE MURAD 

Dói demais, é muito triste
a cruel separação...
A revolta sempre existe,
onde existe a ingratidão.
JOÃO BATISTA SERRA

Neste mundo que nos cansa
 tanta maldade se vê,
 que a gente tem esperança
 mas já nem sabe de quê...
 JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Antes de sair de cena,
peço tempo aos céus risonhos,
pois acho a vida pequena
para a vida de meus sonhos.
JOSÉ LUCAS DE BARROS

Esperança e, simplesmente
um sentimento perjuro:
são mentiras no presente...       
desenganos no futuro...
LECTÍCIA PIRES RANGEL COELHO

Quando a ventura está morta,
deixando a dor como herança,
nossa alma se reconforta,
buscando a luz da esperança!
LEONARDO HENKE

Mesmo sendo uma quimera
 a Esperança anima e acalma,
 pois ela, enquanto se espera,
 enche de rosas nossa alma!...
 LINCOLN DE SOUZA

Esperança é aquela estrela
de verde luz envolvida,
a cintilar, pura e bela,
no céu escuro da vida.
LÚCIA LOBO FADIGAS

Numa era de baixeza,
num mundo de podridão,        
a esperança  é a tocha acesa
que trago no coração.
 LUIZ EVANDRO INOCÊNCIO

A Esperança corre, voa,
mas deixa por onde passa,
uma impressão suave e boa:
de paz, de amor e de graça.
MANOELITA AMORIM MEYER

Quando um bem está perdido
outro nos vem consolar -
Esta esperança, querido,
Deus não me pode negar.
MARIA CARMEM SAUER BATISTA

Culpada de minha dor,
 foi a esperança, Maria.
 Leu nos teus olhos - amor
 em vez de ler simpatia.
 MARIA JOSÉ BARCELLOS CERQUEIRA

De flores tão enfeitada,
loiros cabelos em trança
Neste esquife azul , deitada,
vai toda a minha Esperança.
MARIA JOSÉ FORTES BRAGA

Esperança, isto se chama
e a todo instante acontece:
uma carta... um telegrama...
um meigo olhar... uma prece...
MAURO BARBOSA ARMOND

Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
NATAL MACHADO

Podes perder mocidade,
amor, ventura, abastança,
nada perdes, em verdade,
se te ficar a esperança.
OCTACÍLIO AZEVEDO

Esperança - nordestino                
numa cerca debruçado,
contemplando, sol a pino,
o verdejante roçado.
OLDEMAR ANDRADE

No porto dos meus anseios
 esperanças são navios,
 que de manhã partem cheios
 e à tarde voltam vazios...
 ORLANDO BRITO

Por que é verdade a esperança?...   
Se todo o mundo soubesse...
- É que, por mais que se espere,
ela nunca amadurece...       
PADRE BELCHIOR D'ATHAYDE

Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
inda me resta na vida
- graças a Deus ! - a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI

Quem quiser ver a Esperança
olha uma noiva no altar,
fite um rosto de criança,
repare uma mãe rezar!
SEVERINO UCHOA

Se a família é rica ou pobre
e se o lar é acolhedor,
a gente sempre descobre
pela grandeza do amor! 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

No tédio de minha vida
de emoções vazia e nua,
só me torna comovida
a Esperança de ser tua...
VERA MILWARD DE CARVALHO

Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,           
se no meio dos espinhos,    
a esperança não brilhasse...
VIRGILIO GUERREIRO

A fonte da minha vida
- o meu  sonhar de criança -
não ficou toda perdida…
- Vive um pouco na Esperança...
 ZALKIND PIATIGORSKY

Manuel Bandeira (O Enterro do Sinhô)


J. B. SILVA, o popular Sinhô dos mais deliciosos sambas cariocas, era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente. Zeca Patrocínio, que o adorava e com quem ele tinha grandes afinidades de temperamento, era assim também: descarnado, lívido, frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um moribundo galvanizado provisoriamente para uma farra. Que doença era a sua? Parecia um tísico nas últimas. Diziam que tinha muita sífilis. Certamente o rim estava em pantanas. Fígado escangalhado. Ouvia-se de vez em quando que o Zeca estava morrendo. Ora em Paris, ora em Todos os Santos, subúrbio da Central. E de repente, na Avenida, a gente encontrava o Zeca às três da madrugada, de smoking, no auge da excitação e da verve. Assim me aconteceu uma vez, e o que o punha tão excitado naquela ocasião era precisamente a última marcha carnavalesca de Sinhô, o famoso Claudionor…

que pra sustentar família
foi bancar o estivador…

Me apresentaram a Sinhô na câmara-ardente do Zeca. Foi na pobre nave da igreja dos pretos do Rosário. Sinhô tinha passado o dia ali, era mais de meia-noite, ia passar a noite ali e não parava de evocar a figura do amigo extinto, contava aventuras comuns, espinafrava tudo quanto era músico e poeta, estava danado naquela época com o Vila e o Catulo, poeta era ele, músico era ele. Que língua desgraçada! Que vaidade! mas a gente não podia deixar de gostar dele desde logo, pelo menos os que são sensíveis ao sabor da qualidade carioca. O que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais profunda. De quando em quando, no meio de uma porção de toadas que todas eram camaradas e frescas como as manhãs dos nossos suburbiozinhos humildes, vinha de Sinhô um samba definitivo, um Claudionor, um Jura, com um “beijo puro na catedral do amor”, enfim uma dessas coisas incríveis que pareciam descer dos morros lendários da cidade, Favela, Salgueiro, Mangueira, São Carlos, fina-flor extrema da malandragem carioca mais inteligente e mais heroica… Sinhô!

Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana. Daí a fascinação que despertava em toda a gente quando levado a um salão.

Vi-o pela última vez em casa de Álvaro Moreyra. Sinhô cantou, se acompanhando, o “Não posso mais, meu bem, não posso mais”, que havia composto na madrugada daquele dia, de volta de uma farra. Estava quase inteiramente afônico. Tossia muito e corrigia a tosse bebendo boas lambadas de Madeira R. Repetiu-se a toada um sem número de vezes. Todos nós secundávamos em coro. Terán, que estava presente, ficou encantado.

Não faz uma semana eu estava em casa de um amigo onde se esperava a chegada de Sinhô para cantar ao violão. Sinhô não veio. Devia estar na rua ou no fundo de alguma casa de música, cantando ou contando vantagem, ou então em algum botequim. Em casa é que não estaria; em casa, de cama, é que não estaria. Sinhô tinha que morrer como morreu, para que a sua morte fosse o que foi: um episódio de rua, como um desastre de automóvel. Vinha numa barca da Ilha do Governador para a cidade, teve uma hemoptise fulminante e acabou.

Seu corpo foi levado para o necrotério do Hospital Hahnemanniano, ali no coração do Estácio, perto do Mangue, à vista dos morros lendários… A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous baratos, meretrizes, choferes, macumbeiros (lá estava o velho Oxunã da Praça Onze, um preto de dois metros de altura com uma belida* num olho), todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito, mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas… Essa gente não se veste toda de preto. O gosto pela cor persiste deliciosamente mesmo na hora do enterro. Há prostitutazinhas em tecido opala vermelho. 

Aquele preto, famanaz (célebre) do pinho, traja uma fatiota clara absolutamente incrível. As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vaivém incessante da capela para o botequim. Os amigos repetem piadas do morto, assobiam ou cantarolam os sambas (Tu te lembra daquele choro?). 

No cinema d’a Rua Frei Caneca um bruto cartaz anunciava “A Última Canção” de Al Johnson. Um dos presentes comenta a coincidência. O Chico da Baiana vai trocar de automóvel e volta com um Landau que parece de casamento e onde toma assento a família de Sinhô. Pérola Negra, bailarina da companhia preta, assume atitudes de estrela. Não tem ali ninguém para quebrar aquele quadro de costumes cariocas, seguramente o mais genuíno que já se viu na vida da cidade: a dor simples, natural, ingênua de um povo cantador e macumbeiro em torno do corpo do companheiro que durante tantos anos foi por excelência intérprete de sua alma estoica, sensual, carnavalesca.
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Belida no olho = trata-se de uma pele que cresce sobre a parte branca do olho em direção à córnea.

(O autor narra sua convivência em vida com o famoso compositor da música popular brasileira, Sinhô, que muitos dizem ser o autor do primeiro samba, e a cena de seu velório.)
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     MANUEL CARNEIRO DE SOUSA BANDEIRA FILHO (Recife/PE, 1886 – 1968, Rio de Janeiro/RJ) foi um dos maiores poetas, críticos literários e tradutores do Brasil, consolidando-se como figura central da Primeira Geração do Modernismo Brasileiro. Marcada por uma profunda sensibilidade, sua poesia transformou a fragilidade da saúde em força criativa, libertando a literatura nacional das amarras formais do passado e consagrando sua cadeira na Academia Brasileira de Letras. Embora tenha iniciado os estudos em Engenharia-Arquiteto na Escola Politécnica de São Paulo, Bandeira abandonou o curso em 1904 devido à tuberculose. A partir daí, sua subsistência e rotina profissional se dividiram entre as letras e o ensino. Escreveu intensamente para jornais e revistas, atuando como crítico de literatura, artes plásticas, cinema e música em veículos como O Jornal e Diário de Notícias. Foi nomeado professor de Literatura no tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1938. Mais tarde, tornou-se professor catedrático de Literatura Hispano-Americana na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Trabalhou no serviço público como inspetor do Ministério da Educação e Saúde Pública. Traduziu para o português grandes obras do teatro e da poesia mundial, incluindo autores como William Shakespeare, Friedrich Schiller, Sor Juana Inés de la Cruz e Federico García Lorca.
A vida literária de Manuel Bandeira é intrinsecamente ligada à sua biografia e à história do movimento renovador de 1922. Aos 18 anos, recebeu o diagnóstico de que teria pouca expectativa de vida devido à tuberculose. Essa iminência constante da morte moldou sua sensibilidade poética, gerando uma urgência em viver e uma melancolia profunda, mas frequentemente tratada com fina ironia. Seus primeiros livros, A Cinza das Horas (1917) e Carnaval (1919), ainda guardavam resquícios das formas poéticas tradicionais, mas já revelavam uma atmosfera íntima e inovadora. Embora não tenha comparecido presencialmente à Semana de Arte Moderna de 1922 por motivos de saúde, seu poema Os Sapos foi lido no evento por Ronald de Carvalho. O texto, uma sátira feroz ao formalismo parnasiano, tornou-se o grande hino iconoclasta da revolução modernista. Com livros como Libertinagem (1930) — que contém o famoso poema Vou-me embora pra Pasárgada — e Estrela da Manhã (1936), estabeleceu uma linguagem poética revolucionária e madura.
A relevância de Manuel Bandeira reside na democratização e na redefinição do fazer poético no Brasil. Foi pioneiro em validar o uso do verso livre, do verso branco e da linguagem coloquial (o "português errado" do povo). Ele provou que a poesia não dependia de palavras difíceis ou rimas ricas, mas sim da sensibilidade em extrair o sublime do cotidiano e do banal. Ao contrário de outros modernistas mais radicais, Bandeira manteve um diálogo afetuoso com a tradição literária. Ele dominava as formas clássicas (como o soneto), o que lhe deu autoridade para desconstruí-las com elegância e técnica irretocável. Criou o conceito de "alumbramento" (o êxtase diante das pequenas epifanias da vida). Sua obra conseguiu equilibrar temas pesados, como a solidão, a doença e a morte, com uma leveza lírica, humor cortante e uma profunda celebração da infância e das memórias do Recife.

Fontes:
Manuel Bandeira. “Os Reis Vagabundos e mais 50 crônicas”. RJ: Ed. do Autor, 1966.
Biografia: Academia Brasileira de Letras, Brasil Escola, Ebiografia, Wikipedia, Amazon, etc.

Renato Benvindo Frata (A cobrinha sobre o A)


Um dos maiores pecados que minha família cometeu (eu, como caçula, me incluo) foi o de não ter dado à minha mãe, quando jovem, o direito de aprender a ler e a escrever. Ela só teve a oportunidade pelo Mobral, já com um dos pés na velhice.

Na sua época, o direito à aprendizagem escolar era do homem. A elas, os deveres domésticos e maternais, as “prendas domésticas” convertidas no lavar, arrumar, cozinhar, bordar, parir, cuidar. As tarefas de lidar com o dinheiro: comprar, vender, receber, pagar, fazer contas ou se comunicar por escrito, cabiam somente a eles.

Quando minhas irmãs penavam ao me ensinarem as tarefas escolares, ela se sentava ao lado, e calada, admirava a magia da junção das letras para formar palavras. Mas nunca, nem eu, nem elas, fomos capazes de lhe colocar um lápis entre os dedos e ensiná-la.

Pudesse voltar no tempo... Mas não. Não fomos capazes de conceder esse direito. Nem quando ela, ao ouvir pelo rádio, a oferta do curso de aprendizagem pelo Mobral. Decidida, ela se dispôs a andar quarteirões pelas ruas escuras e buscar, nas carteiras escolares daquele projeto, a bênção do aprendizado. Meus cadernos deixados incompletos por relaxo foram, um a um, aproveitados nos seus escritos tremidos, de a a z a formar palavras, que até ali ela somente sabia dizer, não ler, nem escrever.

Levando meus olhos para o ontem, vejo, na escuridão do tempo, ela debruçada à mesa ao lado do fogão que, ressentido com as últimas brasas, a acompanhava nos estudos. E ela escreveu: “a menina abriu o portao”. Sem o til. Ainda não havia aprendido o uso dele nos sons anasalados das letras. E a ensinei, diante de seu olhar crescido, quase fosforescente, de agradecimento, a colocar a ‘cobrinha’ sobre o a.

Por que me lembro agora? Não sei. Talvez a saudade, essa marota que sai a cutucar lembranças belas e más, satisfatórias e doloridas, me sirva para avaliar o tempo que não aproveitei como devia.

Diante da edição do Diário da última terça, dia 9, lembro que o DN acabou de lançar mais uma etapa do seu belíssimo projeto: “Semeando Leitores”. Ele visa incentivar os jovens à leitura e à escrita na formação da cidadania.

Motiva o hábito da leitura para que nossas crianças desenvolvam imaginação, vocabulário, criatividade, empatia, concentração e senso crítico, habilidades que as acompanharão por toda a vida.

Se você, amigo leitor, tiver uma criança à sua volta, não perca a oportunidade que minha família perdeu. Ensine-a na boa prática da leitura, e deixará de cometer os pecados pelos quais pagamos o preço.
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    RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Antônio Callado (Bar Don Juan)


Quando estacionou diante do edifício, na Lagoa, Karin já estava na calçada à sua espera, sapatos de corda, um impermeável por cima da roupa de banho, e, no bolso, um frasco de prata com vodca.

Escandalizou-se ao ver que Mansinho não vinha de calção de banho por baixo da capa.

— Você não vai cair n’água?

— E você? Está querendo me ver, depois desse tempo todo, ou só quer tomar banho de mar?

No apartamento de Karin tinha uísque, vodca, sardinha e pão. Que besteira tomar banho de mar. Foram subindo a Rua Montenegro e, ao chegarem à praia, dobraram à direita. Resignado que estava de andar até o Arpoador, Mansinho se animou, achando que iam parar talvez diante do Country, mas Karin prosseguiu pela calçada. Pelas alturas do Cinema Miramar, Mansinho teve uma dúvida atroz. Será que a Karin queria andar pela Avenida Niemeyer até o Vidigal, a Gávea, a própria Barra? Karin parou no fim do Leblon e obrigou Mansinho a tirar os sapatos para andarem na beira do mar. Entre as pedras achou flores da véspera, três copos-de-leite de talos amarrados com fita branca. Karin declamou para o mar, restituindo as flores às ondas;

Todo coberto de lírios 
de velas, fogos e círios
o ano estava estendido
das areias de Ipanema
aos rochedos do Leblon.
Diante do ano morto
lemanjá dá reveillon.

— O que é isso? — disse Mansinho.

— Ora! O poema do Murta. 

— Você sabe tudo de cor, hem!

— Claro! Pois o poema foi feito para mim.

Mansinho ficou meio amuado. Karin tomou um trago de vodca. Apesar da ressaca, Mansinho, resignado, bebeu também. Estava se sentindo mofado, úmido.

— Por que é que Murta depois começou a fugir de mim? Eu sempre tive tanta vontade de ser amada por uma poeta.

— Murta é cineasta. Pelo menos é o que ele diz.

— Quem faz versos é poeta. Onde é que ele anda?

— Em caso de dúvida, procure no Don Juan’s. Se formos até lá é quase certo encontrar o Murta.

— Ele me adorou aquela noite na areia, se lembra, de joelhos, e depois deixou a festa e veio me procurar, andou comigo pela praia inteira, recitando os versos que tinha feito. Mas não me propôs nada.

Mansinho deu de ombros. Puseram-se a andar pela beira da praia, Karin apanhando conchas, cantarolando, inventando uma música para cantar com o poema:

Dançando no gume fino
da meia-noite lunar!

Mansinho foi ficando mais emburrado e Karin cada vez mais alegre e cantadeira. Ao passarem pela frente da Rua General Urquiza ele propôs que fossem para o Bar Don Juan mas Karin, sem responder, enfiou o braço no braço dele andando e cantando. Quando chegaram à desembocadura do canal do Jardim de Alá, sentou-se no paredão que avançava pelas ondas cinzentas. Mansinho já tinha molhado as calças até os joelhos e a garoa lhe pingava dos cabelos. Dois desocupados, no paredão oposto, olhavam em frente, ou vagamente estudavam a grande escavadeira empregada no alargamento do canal. Enquanto os trabalhadores, na areia, enchiam a boca com a comida tirada da marmita, a bocarra de ferro da escavadeira descansava, os dentes imensos imobilizados em torno de uma rocha. Karin passou a mão nos cabelos encharcados de Mansinho e tomou mais vodca.

— Fala alguma coisa

— Você gosta de versos e eu só tenho prosa. De mais a mais você é que deve ter alguma coisa a contar. O que é que fez durante uma semana inteira?

Karin o olhou séria.

— Aproveitei o pretexto de estudar a festa do Círio de Nazaré e fui conhecer a tua terra.

Mansinho arregalou os olhos.

— Você foi a Belém do Pará?

Karin fez que sim com a cabeça e tomou as mãos de Mansinho nas suas. Mansinho teve grande desejo dela e vontade de deitá-la ali mesmo, na areia ou até no dorso do paredão, mas ao mesmo tempo sentiu com certa melancolia aquele principio de enjoo que sempre lhe davam as mulheres quando passavam do porre da posse e da boa cegueira física inicial para uma fixação de sentimentos.

Domesticadas e ciscando o chão até as garças viram galinhas.

Da janela do escritório do Bar Don Juan, Aniceto viu Mansinho e Karin que chegavam da praia e ficou pensando na Da Glória. Que estaria fazendo em Pão de Açúcar da beira do São Francisco, ela da voz rouca e que sabia falar longa e misteriosamente — como se tivesse aprendido a falar com o rio — mas que era tão breve de carta e de escrita tão vazia? Tinha medo dos escritos.

“Palavra escrita é feito passarinho na gaiola”, dizia. “Se um dia eu receber um telegrama me mato mas não abro.”
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    ANTÔNIO CARLOS CALLADO (Niterói/RJ, 1917 – 1997, Rio de Janeiro/RJ) foi um dos maiores intelectuais, jornalistas e ficcionistas brasileiros do século XX. Conhecido por seu profundo engajamento político, ele usou a literatura e o jornalismo para decifrar a identidade do Brasil e denunciar as injustiças sociais. Em 1994, sua trajetória foi consagrada com sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. Embora tenha se formado em Direito em 1939, Callado nunca exerceu a advocacia. Sua verdadeira subsistência e grande escola do mundo foi o jornalismo, profissão que exerceu por quase 40 anos: Começou em 1937 no jornal O Globo e no Correio da Manhã (onde chegou a ser redator-chefe). Também teve passagem marcante pelo Jornal do Brasil. Correspondente Internacional durante a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Londres e trabalhou na BBC (de 1941 a 1947), cobrindo o conflito histórico. Logo após, atuou no Serviço Brasileiro de Radiodifusão em Paris. De volta ao Brasil, realizou coberturas históricas sobre as Ligas Camponesas e a causa indígena. Além disso, coordenou a edição da famosa Enciclopédia Barsa na década de 1960. Callado via o jornalismo como ganha-pão e a literatura como sua primeira e maior vocação. Ele estreou na ficção nos anos 1950, mas atingiu o ápice literário ao se tornar o principal cronista ficcional da resistência à ditadura militar. Escreveu peças de grande relevância nacional, como Pedro Mico (1957) e A Revolta da Cachaça. Seus livros formam um painel vivo sobre o autoritarismo e a luta armada: Quarup (1967): Seu livro mais célebre, narra a transformação do Padre Nando, que deixa o misticismo religioso para se conscientizar politicamente no interior do país; Bar Don Juan (1971): Focado nas desilusões e impasses da esquerda intelectual. Seu engajamento não ficou só no papel. 
    Callado foi preso duas vezes pelo regime militar por causa de suas opiniões e de sua ligação com redes de apoio à militância. A relevância de Antônio Callado para as letras nacionais baseia-se em: 1. Criação do "Romance-Reportagem" moderno: Callado uniu a precisão da apuração jornalística à sensibilidade da prosa literária. Ele não esperou a história esfriar para escrever; transformou o calor dos acontecimentos políticos urgentes do Brasil em alta literatura contemporânea.  2. Discussão da Identidade Nacional: Suas obras colocaram em pauta temas negligenciados pelas elites urbanas, como as fronteiras geopolíticas brasileiras, a exploração dos povos indígenas e a miséria do homem do campo. O Xingu e o Nordeste aparecem em seus livros como o coração geográfico e social do país. 3. Memória Viva da Resistência: Enquanto a censura tentava apagar os crimes do Estado, os romances de Callado funcionaram como um arquivo vivo de denúncia. Ele deu voz às contradições, fraquezas e coragens da geração que combateu o totalitarismo.

Fontes:
Antonio Callado. Bar Don Juan. Publicado originalmente em 1971.
Biografia:: Revista Cult, Revista da USP, Itau Cultural, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, etc.