quarta-feira, 25 de março de 2026

Leonardo da Vinci (A Figueira)


Era uma vez uma figueira que não dava frutos. Todos passavam por ela sem olhá-la.

Durante a primavera as folhas cresciam, mas quando chegava o verão, e as outras árvores estavam carregadas de frutos, nada aparecia em seus galhos.

- Eu gostaria tanto que me apreciassem! - suspirou a figueira - queria só produzir frutos como as outras árvores!

Tentou e tornou a tentar até que, em certo verão, viu-se carregada de figos. O Sol fez os figos crescerem e incharem, tornando-os doces e perfumados.

Todos repararam nisso. Jamais alguém tinha visto uma figueira tão carregada de frutos. E imediatamente houve uma correria para ver quem colhia mais figos. Subiram pelo tronco. Curvaram os galhos mais altos com varas compridas e o peso das pessoas fez com que alguns ramos ficassem partidos. Todos tentavam roubar os deliciosos figos, e em breve a pobre figueira viu-se toda torta e quebrada.

Moral da Estória:
Portanto, àqueles que querem chamar a atenção pode acontecer, para sua desgraça, receberem mais do que desejam.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Leonardo de Ser Piero da Vinci nasceu em 1452 na Itália e morreu em 1519, na França, era para seus contemporâneos um personagem discutido e controvertido. Como pintor era mal visto, porque jamais terminava as obras iniciadas; como escultor despertou suspeitas por não ter forjado em bronze o monumento equestre a Francisco Sforza; como arquiteto era perigosamente ousado; como cientista era de fato um louco. Sobre um ponto, no entanto, seus contemporâneos viam-se obrigados a concordar: Leonardo era um argumentador fascinante, um polido conversador, um contador de histórias “mágico” e fantástico, um gênio da palavra acompanhada da mímica. Falando da ciência, fazia calar os cientistas; argumentando sobre filosofia, convencia os filósofos; inventando fábulas e lendas, conquistava os favores e a admiração das cortes. Sempre, e em qualquer lugar, Leonardo era o centro das atenções. E jamais decepcionava seu auditório porque tinha sempre, alguma história nova para contar. As fábulas e lendas de Leonardo têm um objetivo e finalidade moral, algumas foram traduzidas por Bruno Nardini e publicadas no Brasil em 1972. O único personagem constante dessas fábulas e lendas é a natureza: a água, o ar, o fogo, a pedra, as plantas e os animais têm vida, pensamento e palavras. O homem, pelo contrário, aparece como instrumento inconsciente do destino, e sua ação, cega e implacável, destrói vencidos e vencedores.
“O homem é o destruidor de todas as coisas criadas”, escreveu Leonardo no “Livro das Profecias”; e nunca, como hoje em dia, na longa história de nosso planeta, uma asserção foi mais verdadeira e tão tragicamente atual.

Fontes:

Dicas de Escrita (A Crônica) 3. Crônica Crítica

Título: "O Silêncio da Indiferença"

Na esquina da minha rua, uma criança de olhos grandes e famintos estende a mão. Ao seu lado, um cachorro magro observa, como se estivesse esperando um milagre. O que me chama a atenção não é apenas a cena, mas a pressa dos pedestres que passam, ignorando a realidade crua que se desenrola diante deles. 

Estamos tão ocupados em nossas rotinas que esquecemos o que realmente importa. O que é mais fácil: olhar para o lado e seguir em frente ou parar e oferecer um pouco do que temos? A indiferença se tornou um hábito, uma forma de proteção contra a dor do mundo. Mas, afinal, até quando vamos fechar os olhos para a miséria alheia?

As redes sociais bombardeiam nossas mentes com imagens de felicidade e sucesso, mas e as vozes que nunca aparecem nas fotos? O que fazemos por aqueles que não têm acesso a esse mundo perfeito? O silêncio da indiferença ecoa mais alto do que as palavras de solidariedade que, muitas vezes, são apenas postagens vazias.

A criança continua ali, com seu olhar esperançoso, enquanto seguimos nossas vidas como se nada estivesse acontecendo. A pergunta que fica é: quem é mais pobre? Aquele que não tem comida ou aquele que se recusa a enxergar a realidade?

ANÁLISE DOS ELEMENTOS UTILIZADOS

1. Narrador:

- A voz do narrador é pessoal e observacional, refletindo suas emoções e opiniões sobre a situação social.

2. Tema:

- O tema central é a indiferença social, abordando a pobreza e a falta de empatia na sociedade contemporânea.

3. Estilo Crítico:

- O autor critica a apatia das pessoas diante da miséria, utilizando um tom provocativo que instiga o leitor a refletir sobre sua própria postura.

4. Elementos Descritivos:

- Descrições vívidas da criança e do cachorro criam uma imagem emocional que impacta o leitor, fazendo-o sentir a gravidade da situação.

5. Ironia:

- O uso da ironia é sutil, especialmente ao contrastar a felicidade nas redes sociais com a realidade das pessoas em situação de vulnerabilidade.

6. Perguntas Retóricas:

- O autor utiliza perguntas retóricas para envolver o leitor e provocar uma reflexão mais profunda sobre suas atitudes e responsabilidades.


Esse exemplo e análise mostram como uma crônica crítica pode ser poderosa ao abordar questões sociais, utilizando elementos literários para criar impacto e reflexão.
========================
continua...

FonteS:
I. A. Dola 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

terça-feira, 24 de março de 2026

José Feldman (Ecos do Deserto) 4. A verdadeira riqueza

Contos curtos inspirados em Malba Tahan e As Mil e Uma Noites

"Salaam’aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus atentos amigos. Sentem-se mais perto, pois o segredo que vou lhes contar agora é como o almíscar: quanto mais se espalha, mais doce se torna o ambiente. Eu sou Mustafá, o peregrino, e hoje as estrelas nos guiam até o Cairo, onde as areias guardam lições que o ouro não pode comprar.

"Bismillah" (Em nome de Deus), abramos o cofre do conhecimento.

Havia um jovem chamado Karim que, ao ficar órfão, recebeu de seu pai uma herança incomum: uma pequena bolsa de couro contendo apenas três moedas de cobre e um pergaminho que dizia: "Estas são as moedas da sabedoria. Use-as quando o caminho escurecer e a dúvida for sua única companheira."

Karim, decepcionado, pois esperava joias ou propriedades, partiu para a grande cidade para tentar a sorte. 

No caminho, encontrou um ancião sentado à beira de uma estrada empoeirada. 

"Ya Waladi" (meu filho), disse o velho, "estou com fome e não tenho nada além de conselhos para vender."

Karim, movido por compaixão, entregou a primeira moeda de cobre. O velho sorriu e disse: – "Nunca tome uma decisão importante enquanto a raiva governar seu sangue." 

Karim guardou a frase e seguiu.

Mais adiante, em um mercado movimentado, ele viu um homem errante sendo injustiçado. Ele entregou a segunda moeda a este homem, um sábio errante que fora confundido com um ladrão. 

O sábio lhe disse: – "A verdade dita no momento certo vale mais que mil orações em silêncio."

Por fim, ao chegar às portas de um palácio onde se buscava um novo conselheiro para o Vizir, Karim encontrou um mendigo cego. 

"Inshallah" (Se Deus quiser), disse o mendigo, "você encontrará o que busca se ouvir o que o coração dita e não o que o ego grita." 

Karim deu sua última moeda e o mendigo sussurrou: – "A verdadeira riqueza é o que você dá, pois é a única coisa que levará para o túmulo."

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pensou Karim, sentindo-se estranhamente leve. Ao entrar no palácio, ele não tentou impressionar o Vizir com títulos ou mentiras. Quando o Vizir perguntou o que ele trazia para oferecer ao reino, Karim contou as três lições.

O Vizir, cansado de bajuladores que só queriam ouro, viu em Karim a clareza de um oásis. 

"Shukran" (Obrigado), disse o governante, "você não trouxe moedas de metal, mas moedas que nunca perdem o valor." 

Karim tornou-se o conselheiro mais respeitado da região, provando que a herança de seu pai era, de fato, a maior de todas as fortunas.

Que a sabedoria seja sempre a vossa moeda de troca mais valiosa. “As-salaam'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
* = * = * = * = * = * = * = * 

JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Foi Delegado de Ubiratã, subdelegado de Arapongas e subdelegado de Campo Mourão. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Romênia). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos), Pérgola de Textos (textos de sua autoria). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.).
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Nilto Maciel (A menina dos olhos)

Corríamos pelo campo, não sei bem com que intenções. Possivelmente desejávamos pegar borboletas ou grilos. Talvez quiséssemos apenas correr. Não consigo lembrar-me dessas migalhas. Já faz muito tempo. Eu devia ser um pedacinho de gente de uns cinco ou seis anos.

Havia uma cerca de arame a dividir o terreno em dois mundos opostos: de um lado capim rasteiro; de outro, terra nua. E tratamos de transpô-la. E já então arrastava-nos a determinação de achar não sei o quê. Uns pareciam mais decididos, como se comandassem os demais. Raquel sobretudo, que caminhava à frente e de vez em quando parava, abaixava-se, cutucava o chão. Uns acercavam-se dela, faziam-lhe perguntas, arranjavam gravetos e espetavam a terra. Imitavam-na ou queriam agradá-la. Outros, como eu, permaneciam ao largo, mais curiosos que agitados, à espera de novas invenções de Raquel.

Aqui e ali a terra se apresentava fofa, como se a tivessem revolvido profundamente. E eu sentia medo, a imaginar cadaveres enterrados, tesouros encobertos, buracos que fossem dar no país dos anões. Raquel, porém, parecia saber de tudo, conhecer palmo a palmo o terreno e nem sequer se espantava quando metia o pé num buraco mais fundo.

Pouco a pouco, só eu permaneci mais afastado e até voltei à cerca. O ciúme não me deixava ir atrás de Raquel, feito um qualquer. Por que não me havia falado nada? Por que não me dava atenção? Por que preferia a companhia dos outros?

Ela falava sem parar e todos a escutavam. Apontava para o chão, como se explicasse coisas muito interessantes, a origem dos buracos, o nome dos mortos, o valor dos tesouros, a vida dos anões. Eu não conseguia ouvir sua voz, e mais me emburrava.

  Para onde fosse Raquel, iam os outros, como se ela os tivesse atados por cordões. Arrastava-os de lá para cá, de cá para lá. E eu sem saber o que tanto buscavam. A casa do preá, o ovo da galinha, a cova da avozinha?

Primeiro Raquel apalpava o chão com um pé, o corpo sustentado no outro, para só então seus súditos criarem coragem de avançar, como se a terra pudesse abrir-se para os engolir.

A cada passo de Raquel meu coração dava um pulo e eu fechava os olhos para não vê-la desaparecer. Abria-os, o coração de novo a pular, e já ela aparecia noutro lugar, um passo aqui, pum-pum, um passo acolá, pum-pum.

Súbito Raquel afundava e gritava, estarrecida, chorava e agitava as mãos, perdida. E os outros corriam, chocavam-se, tombavam, e eu ainda agarrei-me à cerca, a ferir-me as mãos, paralisado, frio.

E muitos anos depois, toda vez que eu via Raquel, eu a imaginava morta, a passear na sua transparência através das paredes, dos objetos, de mim mesmo, e vir alojar-se bem dentro de meus olhos.
= = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Dicas de Escrita (A Crônica) 2. Temas e estilos presentes nas crônicas

TEMAS DA CRÔNICA

1. Cotidiano:
  
 - A crônica frequentemente aborda situações do dia a dia, como a rotina, hábitos e pequenos eventos que fazem parte da vida comum.

   - Exemplo: A experiência de ir ao mercado ou um passeio no parque.

2. Relações Humanas:

   - Explora interações, amizades, amores, e conflitos familiares, refletindo sobre as emoções e dinâmicas sociais.

   - Exemplo: Um reencontro inesperado com um amigo de infância.

3. Questões Sociais:

   - Pode abordar problemas sociais, políticos e culturais, trazendo uma crítica ou reflexão sobre a realidade.

   - Exemplo: A desigualdade social em uma grande cidade.

4. Memórias e Nostalgia:

   - Muitas crônicas trazem lembranças, revivendo experiências passadas e refletindo sobre o que significam para o autor.

   - Exemplo: Recordações de festas de infância ou tradições familiares.

5. Humor e Ironia:

   - O humor é um tema recorrente, usado para tornar a narrativa leve e divertida, mesmo ao tratar de assuntos sérios.

   - Exemplo: Situações embaraçosas ou mal-entendidos cômicos.

6. Natureza e Cotidiano:

   - Pode descrever a relação do ser humano com a natureza, refletindo sobre a importância da preservação e do contato com o ambiente.

   - Exemplo: A beleza de uma manhã ensolarada ou a transformação das estações.

ESTILOS DA CRÔNICA

1. Estilo Pessoal:

   - O autor expressa suas opiniões e emoções de forma subjetiva, criando uma conexão íntima com o leitor.

   - Exemplo: Um relato pessoal sobre uma experiência marcante.

2. Estilo Crítico:

   - O autor utiliza a crônica para criticar comportamentos sociais ou políticos, instigando reflexões profundas.

   - Exemplo: Uma análise das consequências de uma política pública.

3. Estilo Humorístico:

   - Emprega o humor como principal recurso, utilizando ironia e sarcasmo para abordar temas variados.

   - Exemplo: Uma descrição engraçada de uma situação cotidiana.

4. Estilo Reflexivo:

   - Foca em provocações e reflexões sobre a vida, a sociedade e o ser humano, levando o leitor a pensar mais profundamente.

   - Exemplo: Reflexões sobre o envelhecimento ou a passagem do tempo.

5. Estilo Narrativo:

   - Conta uma história, com personagens e enredos, mas de forma mais leve e breve do que em outros gêneros como o conto.

   - Exemplo: Uma história sobre um evento inusitado em uma festa.

Esses temas e estilos tornam a crônica um gênero muito versátil e atraente, permitindo que cada autor imprima sua própria voz e perspectiva.
==============================
continua...

segunda-feira, 23 de março de 2026

Asas da Poesia * 166 *


Poema de
MAURO MOTA
Mauro Ramos da Mota e Albuquerque
Nazaré da Mata/PE (1911-1984) Recife/PE
 
    Chuva de vento

    De que distância
    chega essa chuva
    de asas, tangida
    pela ventania?

    Vem de que tempo?
    Noturna agora
    a chuva morta
    bate na porta.

    (As biqueiras da infância, as lavadeiras
    correm, tiram as roupas do varal,
    relinchos do cavalo na campina,
    tangerinas e banhos no quintal,
    potes gorgolejando, tanajuras,
    os gansos, a lagoa, o milharal.)

    De onde vem essa
    chuva trazida
    na ventania?

    Que rosas fez abrir?
    Que cabelos molhou?

    Estendo-lhe a mão: a chuva fria.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
RAQUEL ORDONES
Uberlândia/MG

Quero fugir com as flores

Ao passar pelo jardim, que as flores me acompanhasse
Que todas elas sorrissem e que juntas fugissem comigo
Fizessem em volta de mim uma roda, que eu a olhasse
No fundo da pétala onde o perfume se deita em abrigo!

Que todas as flores dançassem ao vento ao meu redor
Que exalassem por toda minha alma a sua fragrância
Fizessem com que eu degustasse um toque de amor
E deliciar-me nesse momento de abissal importância!

Que as flores fujam comigo, quero fugir com as flores
E as borboletas não ficam fora da minha imaginação
E essa imagem está tatuada em cores no meu coração.

Quero flores; do jardim do lado e do jardim da frente
Quero as flores da alma dos seres em nuança de amor
Quero fugir com as flores no outono, inverno e calor!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
CASIMIRO DE BRITO
Casimiro Cavaco Correia de Brito
Loulé/Portugal, 1928 – 2024, Braga/Portugal

    O nascimento

    Nasces no instante em que tomo
    consciência de estar só

    Nasces no deserto das minhas mãos
    no espaço que separa as coisas
    umas das outras nasces renasces
    no mar que se visita ó sabor do sol
    de olhos abertos

    Nasces no instante em que tomo
    nas mãos o peso da morte o peso
    deste pobre movimento que nos vem
    do centro da terra ó vinho ó repouso
    Infinito
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Popular

Se onde se mata um homem,
por uma cruz é preceito,
tu deves trazer, Maria,
um cemitério no peito.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
ANDERSON C. D. DE OLIVEIRA
Anderson Carmona Domingues de Oliveira
São Paulo/SP

Casa...

Aluguei uma casa,
O fogo em brasa,
Por timbres atalaia,
A essência arraia.

O coração geme,
A Deus tudo teme,
Um bom sentimento,
Aprendi o mandamento.

Chove pela tempestade,
Creio ser uma verdade,
Pelo coração contexto.

Um grande arvoredo,
O rochedo do texto,
Foi quando senti medo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Deus abençoa o artista
que invista no sentimento.
Quem faz parte desta lista,
transforma dons em talento.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
SONIA RÉGIS
Florianópolis/SC

Um cais chamado saudade

havia um porto
antes
ao alcance da vista

um ponto
onde as naus
suspendiam viagem

as velas arfavam
desenfurnadas
e sonhavam

a lua sobre o mar
era um sabre
aparando a água

havia um porto
antes
ao alcance do corpo

(um ponto
onde hoje atraco a saudade
e mais nada)
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

"0 que faz dentro do armário ?!"
Nu, no aperto, ele se poupa:
- "tem traças!... e o esposo otário:
- "Xi !!! comeram sua roupa!?
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
GUILHERME BAPTISTA FADDA
Rio de Janeiro/RJ

A cigana

Olhou meus olhos, segurou minha mão,
por instante baixou a cabeça e murmurou,:
"sozinho está seu coração",
mas parece-me que um novo amor encontrou.

Intrigado com aquela ponderação
afinal, nunca ninguém me falou
a respeito de amor, de paixão,
nem sei como isso começou.

Era uma cigana graciosa e inteligente,
por coincidência, encontrou-me
e mexeu com meu coração...de repente.

Hoje, vivo num acampamento com ela
ouvindo o trinar de seu violão
debruçado numa tosca e improvisada janela.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Torna-se longo o momento
da mais breve despedida,
se atormenta o pensamento
no decorrer de uma vida.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
MARI ANE ARAÚJO
João Pessoa/PB

O sentir do coração 

Relembro com saudade 
tremendo de emoções, 
ausente coração sente.

No amor, quero: Plenitude absoluta;
Versos lindos, caprichados de amor
pra minha alma dançar suavemente 
Corpos colados, numa só proporção
queira-me como sua dama presente!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
SÁ DE FREITAS
Samuel Freitas de Oliveira
Avaré/SP

Nos braços da saudade

Olhando pelas frestas dos meus dias,
Que já se foram pela vida afora,
Apenas vejo a luz daquela aurora
Da juventude, em sombras fugidias.

E hoje ao enfrentar as noites frias,
Neste vazio em que minh' alma chora,
Busco momentos que já foram embora,
Mergulhando a memória em fantasias.

Ah! Tempo que se foi! Por que deixaste
Essas recordações? Por que guardaste
Tantas coisas da minha mocidade?

Resta-me agora, após tantas andanças,
Adormecer no leito das lembranças
E acordar nos braços da saudade.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
RENATO ALVES
Rio de Janeiro/RJ

Quando a feia se “embeleza”,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa que sou mágico!…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
ROBERVAL PEREYR
Feira de Santana/BA

Galope

 Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos

(com uns cavalgo para o silêncio
com outros marcho para a saudade).

Meus pensamentos são meus cavalos
Meus pensamentos são meus camelos

(sou sertanejo, nasci nos matos,
ando a cavalo para mim mesmo).

Meus sentimentos são meus desejos
em que me vejo perdido, e calo.

Meus pensamentos são meus camelos
Meus pensamentos são meus cavalos
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Convido-os a partilhar 
uma gostosa jantinha: 
massa com frutos do mar, 
ou seja, pão com sardinha...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Nemésio Prata Crisóstomo
Fortaleza/CE

Mote 
A cadeira sem balanço, 
a rede em triste orfandade... 
Uma se rende ao descanso, 
a outra embala a saudade. 
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Glosa 
A cadeira sem balanço 
com sua perna partida, 
já não pode dar remanso 
a quem lhe pede guarida! 

Hoje, presa aos armadores, 
a rede em triste orfandade, 
cumpre sua pena, em dores; 
numa cadeia sem grade! 

A cigarra, no bem manso, 
a formiga, na migalha... 
Uma se rende ao descanso, 
a outra, duro, trabalha. 

A mocinha, no frescor, 
a velhota, já de idade... 
Uma a procura do amor, 
a outra embala a saudade.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
CAMPINA DA LAGOA/ PR

Oh, Campina da Lagoa, teu progresso é real,
O teu nome longe soa em território nacional.
És menina e formosa que inspira confiança
Em teu futuro colocamos toda nossa esperança

Rico solo abençoado, rainha dos cereais,
És o orgulho do Estado, da terra dos pinheirais.

Tua gente hospitaleira vem mostrando seu valor,
Nesta terra brasileira todos cultivando amor
És a terra prometida deste povo varonil,
Trabalhando em ordem unida construindo o nosso Brasil

Rico solo abençoado, rainha dos cereais,
És o orgulho do Estado, da terra dos pinheirais.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
HENRIQUETA LISBOA
Lambari/MG (1901-1985) Belo Horizonte/MG

Os lírios

Certa madrugada fria
irei de cabelos soltos
ver como crescem os lírios.

Quero saber como crescem
simples e belos — perfeitos! —
ao abandono dos campos.

Antes que o sol apareça
neblina rompe neblina
com vestes brancas, irei.

Irei no maior sigilo
para que ninguém perceba
contendo a respiração.

Sobre a terra muito fria
dobrando meus frios joelhos
farei perguntas à terra.

Depois de ouvir-lhe o segredo
deitada por entre os lírios
adormecerei tranquila.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
CLÁUDIO DE CÁPUA
São Paulo/SP, 1945 – 2021, Santos/SP

Nesta noite prateada
minha sombra, junto à tua,
vai trilhando a mesma estrada,
tendo por cúmplice a lua.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A panela de ferro e a panela de barro

A panela de ferro, um certo dia,
Ao sair do esfregão da cozinheira
Mui fresca e luzidia,
Disse à de barro, sua companheira:

«Vamos dar um passeio,
Fazer uma viagem de recreio.
— Iria com prazer, disse a de barro;
Mas sou tão delicada,
Que se acaso num seixo ou tronco esbarro,
Lá fico esmigalhada!

Acho mais acertado aqui ficar,
Ao cantinho do lar.
Tu sim, que vais segura:
A pele tens mais dura.

— Se é só por isso, podes ir comigo;
É medo exagerado o teu — contudo,
Se houver qualquer perigo,
Serei o teu escudo».

A tal dedicação, a tal carinho
Não pôde a companheira replicar,
E as duas a caminho
Lá vão nos seus três pés a manquejar.

Mas, ai! não tinham dado quatro passos,
Numa vereda estreita,
Eis que se tocam — e a de barro é feita,
Coitada, em mil pedaços!

Para sócio não busques o mais forte,
Que te arriscas de certo à mesma sorte.
* = * = * = * = * = * = * = *