sábado, 4 de julho de 2026

Asas da Poesia * 198 *

  
Trova Humorística de 
JAIME PINA 
 São Paulo/SP

Só três?! (o paizão lamenta),
vendo os bebês no bercinho.
Ah, se a rede não rebenta,
"nóis" enchia esse quartinho!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
ÁLVARES DE AZEVEDO
(Manuel Antônio Álvares de Azevedo)
1831 – 1852, Rio de Janeiro/RJ

Soneto do anjo

Pálida, à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar! na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! o seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti — as noites eu velei chorando,
Por ti — nos sonhos morrerei sorrindo!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de 
CIDA PINHO
Mesquita/MG

colo
de
mãe
cantinho
de
céu
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de 
ARTHUR* DE AZEVEDO
(Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo)
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

Infantilidade

Que reboliço vai em casa de Marieta!
É que fugiu Mignonne, a gata favorita,
E tanto chora e chora a pobre pequenita,
Que o papai manda pôr anúncio na gazeta.

Da vizinhança alguém, com olho na gorjeta,
A trânsfuga encontrou, que andava de visita
Ao demo de um maltês filósofo que habita
De um canto de fogão a cálida saleta.

Marieta, ao ver Mignonne, estende-lhe os bracinhos.
Dá-lhe um banho de amor em beijos e carinhos,
Nervosa, a soluçar, e, ao mesmo tempo, a rir.

E entre afagos lhe diz: "Senhora, foi preciso
Pôr um anúncio! Veja o que é não ter juízo!"
E todo o anúncio lê para Mignonne ouvir...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 
* Segundo registrado na Biblioteca Nacional, o correto é Arthur (com h após o t)
====================================================

Poema de 
EDLA FEITOSA
(Edla Feitosa Costa)
Recife/PE

Órion
 
Não está escuro!
Existe um jogo de luz e sombra
E um certo silêncio.
Órion muda de lugar
E me confunde ….
Um cão ladra ao longe
Um gato ágil escala telhados
A taça enche e esvazia
Como a maré que sussurra ao longe.
As nuvens cobrem as estrelas ….
E dói a solidão.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Quadra Popular de 
ISIDORO CAVACO
(António Isidoro Viegas Cavaco)
Faro/Portugal

Destino que me condenas
a viver da dor tão perto,
não sendo ave de penas
de penas estou coberto.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de 
FILINTO DE ALMEIDA
(Francisco Filinto de Almeida)
Porto/Portugal, 1847 – 1955, Rio de Janeiro/RJ

Cansaço

A velhice é cansaço... E esse cansaço
Não nos vem de trabalho ou movimento...
O que ora faço é demorado e lento
E acho mal feito o pouco que ainda faço.

Tudo me cansa: — até o pensamento!
Já pouquíssimo ando e arrasto o passo...
Quase sempre dorminte ou sonolento,
Vivo uma triste vida de madraço.

Nunca fui mandrião nem calaceiro,
Nem também muito ativo, é bem que o diga,
Mas domei sempre a inércia, sobranceiro.

Agora, a própria inércia me castiga,
Pois se acaso repouso um dia inteiro
Esse mesmo repouso me fatiga!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LISETE JOHNSON
Butiá/RS, 1950 – 2020, Porto Alegre/RS

Às vezes, da terra bruta
e de um par de pés no chão
que vêm o exemplo de luta
e ânsias de superação!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de 
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

As maritacas

No alto do ipê, com galhos ressequidos,
chegaram de repente
duas maritacas multicoloridas.
Pararam para conversar
e, encantaram meu olhar.

O ipê tão despido de flores,
agora é rico de vagens,
cheias de sementes.
Espera as visitas das aves,
que alegram o final das tardes.

O casal de maritacas, rodeando os galhos.
Mostravam os belos trajes,
abriam as asas avermelhadas.
Enchiam o peito esverdeado,
para gorjear com mais vaidade.

Com a janela aberta, apreciando a dança,
entrei no ritmo da fotografia.
Elas observavam, arranjavam pose,
haviam percebido
uma presença amiga…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Haicai de 
ABEL PEREIRA
Ilhéus/BA

O Ocaso

No rio profundo,
o sol parece outro sol
a emergir do fundo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Sextilha de
ADEMAR MACEDO
Santana do Matos, 1951 – 2013, Natal+

Eu sempre passo o domingo
sentindo e dando alegrias,
visitando meus amigos
que não vejo há vários dias;
e caçando inspiração
pra fazer minhas poesias…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Sozinho na madrugada,
cabelos brancos ao vento,
canta o boêmio... e a toada
é um triste e doce lamento!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Glosa de
NEMÉSIO PRATA
 Fortaleza/CE

MOTE 
Chamaste meu pai de otário? 
Repete-o, se és homem... vem! 
- Chamei não, pelo contrário... 
Mas que ele tem cara, tem!
A. A. de Assis 
(Maringá/PR) 

GLOSA 
Chamaste meu pai de otário? 
Pois saiba..., mexeu comigo! 
Puxe logo o seu "rosário" 
pois vou furar teu umbigo! 

Cabra, não fale besteira! 
Repete-o, se és homem... vem! 
Pois comigo é na peixeira; 
não dou sopa pra ninguém! 

- Se eu chamei teu pai de otário? 
- Isto é pergunta que faça? 
- Chamei não, pelo contrário... 
acho-o até um "boa praça"! 

Eu juro, por Cristo, o Rei, 
e por São José, também, 
que, nem na "mente" eu falei.. 
Mas que ele tem cara, tem!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de 
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

árvores
alpinistas
escalam
montanhas
cumprimentando
nuvens
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de 
ELISA BARRETO
(Elisa Virgínia Kirsten Barreto Rolim de Moura)
São Paulo/SP, 1919 – 2005

Soneto Trágico III

É o fingido, o mentiroso
com olhos desmesurados
num sofrimento horroroso,
tributo dos seus pecados.

É o ladrão, o usurpador,
que sem dó nem piedade
fez de um puro e santo amor
um campo de crueldade.

É o opressor que suplica
aflito, desesperado,
comutação para a pena.

Minha alma em dúvida fica:
Que caos desesperançado
que sufoca e que envenena!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Premiada de
MARISA VIEIRA OLIVAES 
(Porto Alegre/RS) 

Inspiração, não me deixes 
neste mundo imerso em dor! 
– Sem ti, sou rio… sem peixes… 
Sou coração… sem amor…!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de 
FILEMON FRANCISCO MARTINS
São Paulo/SP

Prefiro ser...

Prefiro ser a flor
Que perfuma, ainda que fira com seus espinhos...

Prefiro ser o orvalho da noite
Que cai, aos poucos, umedecendo a terra
E deixando as plantas e flores com seiva e vida...

Prefiro ser o pássaro, em algazarra,
Pulando de galho em galho
No cantar das manhãs.

Prefiro ser a água que corre pelos rios
Entre serras e vales, contornando obstáculos
Até chegar ao oceano...

Prefiro ser o mar imenso e forte, 
que apesar de belo,
Traz na valentia a marca da morte...

Prefiro ser a praia com areia branca e fina
Beijando as ondas que vão e vêm... Inconstantes...
Como se fossem inquietos amantes.

Prefiro ser um sonho bom cheio de cores e sons
De quem ama e sonha... 
De quem nunca sonhou...

Prefiro ser a lua que vagarosamente ilumina a todos
E emociona os casais de namorados
Inspirando-lhes idílios de amor...

Prefiro ser o sol que brilha intensamente para todos
E até empresta sua luz à lua 
para iluminar a noite...

Mas prefiro ser mesmo
A esperança no rosto da criança que, infelizmente,
O mundo nunca viu e sempre a abandonou...
Mas traz, dentro de si, 
o futuro, a paz, o amor e o perdão!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Triverso de 
A. A. DE ASSIS
(Antônio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Na fila de idosos,
troca-troca de sintomas.
Quem não tem inventa.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Setilha de 
MARCOS MEDEIROS
Natal/RN

A chuva mal começava,
a meninada partia
pra debaixo das biqueiras,
por onde a água escorria
e, depois na enxurrada,
morria de dar risada
extravasando alegria.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de 
ERCY MARIA MARQUES DE FARIA
Bauru/SP

A insônia que vai além
das horas da madrugada,
por teimosia mantém
minha saudade acordada...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

HINO DE 
PINHALÃO/ PR

Letra e Música: Lairton Trovão de Andrade

Sob a crista altaneira da serra,
proliferas febril Pinhalão.
Do humilde recanto da terra
surges meiga na imensa nação.

Bis: Nas sombras dos teus bosques
brilhou o céu de anil,
profundo desafio
a virgem selva em flor.

Estribilho
Doce Torrão querido,
Reino dos cafezais,
Bis: Onde se tem palmeiras
E lindos pinheirais.

Verdes campos de reses mimadas,
tremulantes jardins de cereais,
enobrecem tuas mãos calejadas
sobre o solo de mil minerais.

Bis: As ondas das colinas,
Planícies, serranias,
emitem melodias
do ouro vegetal.

Estribilho
Doce Torrão querido,
Reino dos cafezais,
Bis: Onde se tem palmeiras
E lindos pinheirais.

Terra amada de eterna bonança,
com firmeza aderiste ao Brasil.
Turbilhões em caudais de esperança
Revigoram-te o ardor varonil

Bis: "Rio Cinzas"!... "Boa Vista"!
"Triângulo" e "Serrinha"!
"Campina" e "Lavrinha"!
Oh! Salve! Salve! Salve!

Estribilho
Doce Torrão querido,
Reino dos cafezais,
Bis: Onde se tem palmeiras
E lindos pinheirais.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de 
ÂNGELA TOGEIRO
Belo Horizonte/MG

Leitura

Os dedos do cego
captam detalhes mais íntimos
nas rugas, leem o ego
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de 
DOM PEDRO II
(Pedro de Alcântara João Carlos Leopoldo Salvador Bibiano Francisco Xavier de Paula Leocádio Miguel Gabriel Rafael Gonzaga)
Rio de Janeiro/RJ, 1825 – 1891, Paris/França

A Vida e o Barco

Andar e mais andar é a vida a bordo;
Mal estudo, e apenas eu vou lendo;
A noite com a música entretendo;
Deito-me cedo, e mais cedo acordo.

Saudosíssimo a pátria eu recordo,
E, pra consolo versos lhe fazendo,
Desenho terras só aquela vendo,
E para não chorar os lábios mordo.

Enfim há de chegar, eu bem o sei,
Que o Brasil eu reveja jubiloso;
E, se outrora eu servi-lo só pensei,

Muito mais forte e muito mais zeloso,
Para ainda mais servi-lo, voltarei
‘Té que nele encontre o último repouso.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de 
PAULO R. O. CARUSO
(Paulo Roberto Oliveira Caruso)
Niterói/RJ

Fogueira em festa junina...
Eu me queimei um bocado!
Na quadrilha eu vi menina
e saí de lá casado!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de 
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Introspecção

MEU SER
Vou confessar-te agora
A distância me apavora
Sinto-me mal sem amor
Sem carinho, sem ternura...
Caminho na desventura
D’uma senda de amargor

Sou barco vagando ao léu
Nas ondas deste escarcéu
Que se acercam de mim...
Estou quase soçobrando
Triste batel esperando
Chegar afinal meu fim

Marinheiro sem guarida
Tão só, ilha perdida,
Sou proscrito de amor
Sinto sede de afeto
Este vil e pobre feto
Neste mar de amargor

E, quem eu não queria
Que fizesse companhia
Junto ao meu coração,
Antes da sua estada,
Deu seu nome na entrada:
“– Eu me chamo “SOLIDÃO”

SOLIDÃO
“...– Eu trouxe também comigo
Alguém pra ficar contigo
Com quem terás amizade
Vai falar-te no passado
Do que tenhas mais gostado
Seu nome é “SAUDADE...”

SAUDADE
“... Serei tua amiga inglória
Narrarei muitas histórias
De amor, de incertezas
Mas, se eu tiver que ir
Há de me substituir
Minha irmã – a TRISTEZA...”

TRISTEZA
“... Serei o teu destino
E também teu desatino
Quando estiveres a sós
Principalmente agora
Que o teu coração chora
Embargando tua voz...”

EU
Ah, meu ser, que loucura
Tamanha a desventura
Pela qual tenho passado...
Quisera morrer agora
Exatamente nesta hora
Estou abatido, acabado!

DOR
“... Espere, eu sou a Dor
Sinto imenso desamor
A corroer tua alma
Quero ao teu lado ficar
Te dar a paz e a calma
Mas preciso contigo morar"

EU
Assim falou-me a dor
Resoluta, com dulçor
Implorando pra ficar
Mas, ah, minha doce amada
Não te posso dar pousada
Se o meu amor regressar

Quisera ter em verdade
Comigo a Felicidade
Que se foi sem um adeus...
Deixou-me há muito tempo
Dando lugar ao Tormento,
Um dos parentes teus.

TORMENTO
"Também quero me aconchegar,
Ao teu lado, ser teu amigo,
Fazer parte do teu mundo...
Se não me deixares ficar,
Posso até vir a soçobrar,
Devido a desgosto profundo."

EU
"Não, Tormento, não te quero
Fica bem longe, peço que vá
Hoje, bem sei, estou perdido
Mas não me pilhei,
De todo, vencido,
Minha Amada breve retornará"

AMADA
"Que bom que acreditastes
Na minha volta, paixão
Se magoei teu coração
Perdoa, eis-me aqui
Acabou tua infelicidade
Sou tua Felicidade: voltei pra ficar."

Geraldo Pereira (Um novo século)

Os que estão na minha faixa de idade têm muitas histórias para contar e muita conversa para fiar, neste início de século, começo, também, do milênio. É que sou nascido na efervescência da Segunda Guerra Mundial e criado no pós-guerra. Assim, pude assistir de camarote ao desenvolvimento todo da ciência e pude participar das grandes mudanças que sofreram os hábitos e os costumes. Sou do tempo da rádio AM, dos telefones funcionando com quatro números, das ligações para Boa Viagem intermediadas pela telefonista e das radiolas enormes tocando discos long-play. Ou sou do tempo das cadeiras na calçada, das avós gordas e de longos cabelos, cegas ou quase cegas, com catarata e glaucoma. Ou ainda, dos colégios masculinos isolados dos femininos, da farda caqui e da gravata azul, dos alunos do Nóbrega brigando com os do Marista ou aqueles do Salesiano.

Quando o fim de ano chegava e as férias começavam – três meses de desespero para os pais –, pela manhã havia uma pelada jogada na rua, com bola de borracha ou de meia e à tarde outro futebol, no chão de terra batida da rua Padre Miguelinho ou se armavam os alçapões, um desses de rede, para aprisionar canários abarrancados do Parque 13 de Maio. À noite, a roupa bem passada, calça de mescla e camisa de buclê, tempos depois o nycron e a helanca. E os intermináveis passeios na Festa da Mocidade, sem respeitar as severas determinações paternas: “Tudo! Menos o teatro de rebolado! Tenho escrito no jornal artigos de condenação a essa prática, que atenta os costumes!” 

Assistíamos a tudo, aos ensaios e às apresentações da mulherada de Walter Pinto, todas bem compostas, se comparadas às de hoje. Às vezes, uma fé no jogo de azar, às escondidas do Marcha–Lenta, o cabo responsável pela segurança do lugar. Muito raramente, uma dose de Cinzano para animar.

Na noite do Natal, a Missa do Galo era parada obrigatória no mundano das coisas. Prestava-se mais atenção às meninas, de véu à cabeça na pureza do branco, que ao cura celebrante. Alguns dos penitentes, mais precoces que os outros, enlaçavam as namoradas e sussurravam juras deixadas nos ares. À hora do ritual, a confissão antecedia o ato de comungar e ao padre se dizia, aos cochichos, os pecados todos do ano, firmando-se o compromisso de nunca mais falhar. Passava-se uma semana, sempre, evitando os pensamentos, as palavras e as obras, mais os pensamentos que as palavras e mais as palavras que as obras. Vencida essa carência, repetia-se tudo, da mesma forma. E de culpa em culpa a rapaziada juntava remorsos e aguardava a próxima vez, para revelar aos santos ouvidos as malícias de todos os dias. Certo sacerdote dormia a sono solto no momento da escuta e se contava tudo e um pouco mais. Havia quem confessasse os próprios pecados e os dos outros, dos amigos ou dos colegas!

Quando chegava o dia de Ano Bom, era uma festa na casa de toda gente. O peru, cevado às custas de um pirão bem cuidado, empurrado de goela abaixo aos bolões, morto às vésperas, depois de ter sido anestesiado com aguardente da venda da esquina, sofria o necessário cozimento em panela apropriada, sob tempero das avós, especialistas naqueles tempos em aves e noutros acepipes. Preparava-se a mesa e autorizava-se o champanhe, mesmo aos meninos, impedidos pela idade de acesso a qualquer líquido alcoólico. Nas proximidades da meia-noite as luzes eram acesas, pois que se uma única restasse desligada seria de mal agouro, para o dono da casa, sobretudo. O Dr. F. Pessoa de Queiroz pronunciava seu discurso e o relógio tocava as doze badaladas, anunciando a mudança do calendário. Nos postes da iluminação pública, de ferro fundido naqueles anos, a molecada batia forte e o barulho do metal contra o metal estimulava os abraços. Feliz Ano Novo, diziam todos! E ninguém imaginava que assistiria o passar do século! E ninguém deu atenção às histórias das avós, sobre igual passagem noutros pretéritos!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
GERALDO JOSÉ MARQUES PEREIRA nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. 
Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas, tendo algumas no Recanto das Letras e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público

Contos e Lendas do Mundo (Suécia: Pelle, o cozinheiro)


Era uma vez um marinheiro chamado Pelle, o qual desde longa data navegava com o mesmo patrão, mas sempre como cozinheiro, apesar de ser muito atilado, trabalhador e estimado por toda a tripulação. O patrão chegou a ter tanta confiança nele, que o deixava administrar as provisões do barco e aceitava tudo o que Pelle considerava conveniente.

Certa ocasião em que navegavam nos mares de Espanha, aconteceu que um marinheiro com o qual Pelle mantinha estreitos laços de amizade caiu pela borda abaixo e desapareceu nas profundezas do oceano. Não se voltou a saber dele, e Pelle, o Cozinheiro, sentiu-se extremamente amargurado durante muito tempo.

Alguns anos mais tarde, quando navegavam de novo nos mares de Espanha, mais ou menos no local onde o marinheiro desaparecera, Pelle desceu ao camarote do comandante e pediu-lhe que saldasse a sua conta, a qual era muito elevada, pois nunca lhe fizera semelhante exigência em todos aqueles anos. E acrescentou que lhe permitisse abandonar o barco.

O comandante surpreendeu-se e perguntou-lhe porque queria o dinheiro precisamente naquela altura e como tencionava deixar o barco no alto mar. No entanto, Pelle limitou-se a rogar que lhe pagasse e cedesse o bote, para poder içar a vela e afastar-se. Por fim, recebeu as piastras que lhe eram devidas, em número considerável, e a embarcação, com a qual se fez ao mar.

Quando ainda se encontrava à vista do barco que acabava de abandonar, um homem surgiu da água e sentou-se a seu lado sem proferir uma única palavra. Era o amigo que se afogara! Em seguida, quebrou o mutismo para lhe agradecer a sua velha amizade e declarar que desejava recompensá-lo por isso e proporcionar-lhe toda a sorte do mundo. 

De súbito, apareceu uma baleia enorme, que prendeu uma barbatana ao cabo da vela, após o que arrastou o bote a toda a velocidade. Depois de um longo percurso, chegaram a uma ilha desabitada. Quando Pelle, o Cozinheiro, quis desembarcar, viu que o amigo estava realmente morto, pelo que o sepultou na praia. Por último, internou-se na ilha para se inteirar do que o destino lhe reservava.

Pouco depois, viu uma pequena galeria que se introduzia na terra e enveredou corajosamente por ela. Não tardou a achar-se a uma grande profundidade, atravessou algumas salas magníficas e deparou-se-lhe uma linda princesa, a qual, ao vê-lo, exclamou:

- Infeliz! Porque vieste aqui, onde doze piratas sanguinários me mantêm sequestrada e não tardarão a aparecer? Sou uma princesa. Convém que te faças passar por pirata, do contrário assassinam-te.

Com efeito, os piratas surgiram pouco depois e perguntaram-lhe quem era.

- Um pirata como vocês - replicou Pelle.

- A parte isso, qual é o teu ofício? - insistiram.

- Sou cozinheiro.

Ficou então decidido que ficaria com eles, cozinharia e ajudaria a jovem que haviam recolhido a cuidar da casa. Em seguida, Pelle entregou-lhes voluntariamente a pesada bolsa cheia de piastras.

No dia seguinte, os piratas partiram para assaltar os viajantes que faziam escala na ilha. Entretanto, Pelle lamentava profundamente a sorte da princesa, e não tardaram a amar-se e a prometer que se casariam. Ela ofereceu a Pelle metade de um anel em que estavam gravados o seu nome e o do pai, o rei, assim como um lenço que rasgara previamente ao meio, de forma que ficou com a metade que continha o seu nome e parte da do pai.

Posto isto, Pelle, o Cozinheiro, pôs uma panela enorme ao lume, verteu nela uma parte de melaço, outra de rum e um pouco de alcatrão e deixou a mistura coser. A seguir, colocou na mesa um anker* de rum e duas tinas de açúcar. Quando os piratas regressaram, à noite, comunicou-lhes que saíra para roubar e obtivera tudo aquilo, convidando-os para provar o ponche.

- Que é isto? - perguntaram, desconfiados.

Pelle preparou com o rum e o açúcar um ponche saboroso e forte, que os outros beberam e quiseram repetir. Ele comprazeu-os sem cessar, até que ficaram tão ébrios que não se aguentavam de pé.

Serviu-lhes finalmente a sopa de melaço, rum e alcatrão a ferver e fingiu que ia transferir uma parte para os pratos. De súbito, tropeçou propositadamente e verteu em cima dos doze piratas a escaldante mistura. Ato contínuo, matou todos à paulada, foi chamar a princesa e explicou-lhe o que acontecera.

- Agora, estamos livres! - exclamou ela.

Durante algum tempo, Pelle, o Cozinheiro, viveu feliz com ela na ilha, na suntuosa residência dos ladrões.

No entanto, não queriam continuar ali. A princesa ansiava por regressar ao reino do pai e casar devidamente com Pelle, que agora amava com intensidade. 

Um dia, chegou à ilha uma embarcação vazia à deriva e Pelle, o Cozinheiro, recolheu todos os seus pertences, a prata e o ouro da gruta dos piratas e transferiu-os para lá. Em seguida, zarparam e navegaram diretamente ao reino do monarca que era o pai da princesa. Entraram numa pousada e carregaram os seus tesouros em quatro coches, mas cometeram a imprudência de divulgar as suas aventuras, quando ainda se encontravam a alguns quilômetros da capital.

Dois vagabundos inteiraram-se, assaltaram-nos pelo caminho, espancaram de tal modo Pelle, o Cozinheiro, que ele ficou inanimado na estrada, raptaram a princesa e ameaçaram-na com a morte se negasse a anunciar ao pai que a tinham salvado. Por último, seguiram, com todos os tesouros, para a corte do rei, onde foram recebidos cordialmente.

Um pouco mais tarde, passou um homem no local em que se conservava Pelle, o Cozinheiro, e levou-o a um médico. Quando se recompôs e soube o que acontecera, ficou horrorizado ante a perspectiva de a princesa ter de escolher marido entre os vagabundos. Mas isso não sucederia enquanto o monarca, que se encontrava gravemente doente, não recuperasse a saúde.

Ora, o médico de Pelle era o seu amigo, o marinheiro morto, o qual o aconselhou a conseguir trabalho na cozinha real e a aguardar o momento oportuno para mexer a sopa do rei com uma colher que lhe entregou. O monarca ficaria curado e tudo se resolveria como Pelle e a princesa desejavam.

- Nada mais posso fazer por ti - concluiu. - Obrigado pela nossa velha amizade, e adeus!

Com estas palavras, desapareceu para sempre.

Entretanto, o rei sentia-se cada vez pior e a princesa cada vez mais aterrorizada, pois os dois vagabundos desfrutavam de honras supremas na corte. Mas nessa altura contrataram Pelle como ajudante de cozinheiro do palácio, e ela exultou quando o reconheceu. Uma vez por outra, deparava-se-lhes o ensejo de conversar a sós. Ele indicou-lhe que convencesse o pai a encomendar ao chefe da cozinha uma sopa que lhe restabelecesse a saúde. A ordem foi transmitida pelo próprio rei ao cozinheiro acompanhada da ameaça de morte, na eventualidade de não ser cumprida, pelo que o homem encarou como um fato inevitável o termo iminente dos seus dias.

Estava desesperado, sem saber o que fazer, e, por fim, revelou tudo a Pelle, porém este aconselhou-o a não se preocupar muito com a sopa destinada à Sua Majestade, pois ele próprio trataria de tudo. O chefe da cozinha duvidava seriamente de que o seu modesto colaborador lhe pudesse salvar a vida, mas deixou-o atuar livremente, e Pelle pôs a panela ao lume.

E o pasmo do homem atingiu o auge ao ver que ele se limitava a utilizar água pura. Quando o relógio badalou o meio-dia e foi necessário levar ao rei a sopa com o resto da refeição, o medo dominava-o de tal forma que não sabia o que fazer. Pelle retirou a panela fumegante do lume, mexeu o conteúdo com a colher oferecida pelo amigo morto e proferiu:

- Oxalá isto cure Sua Majestade!

Quando provou a sopa, o chefe da cozinha sentiu-se como se acabasse de nascer, e foi com confiança crescente que a levou ao quarto do rei. Este, só de aspirar o odor, ficou mais animado. A primeira colherada, encontrou-se muito melhor. A segunda, empertigou-se na cama. A terceira, manifestou o desejo de se levantar, e assim fez. No final, já com o prato vazio, considerou-se restabelecido e perguntou ao chefe da cozinha se confeccionara a sopa.

- Não, Majestade - replicou o homem. - Esta obra-prima é da autoria de um dos meus ajudantes.

O monarca mandou chamar Pelle, o Cozinheiro, e nomeou-o encarregado de pôr a mesa, além de lhe entregar uma generosa recompensa. Assim, ele disporia de mais oportunidades de se encontrar com a princesa. 

No entanto, como o pai recuperara a saúde, ela tinha de escolher um dos dois vagabundos para esposo. Ao mesmo tempo, era cada vez maior a consideração do rei por Pelle, o Cozinheiro, e nomeou-o copeiro real - aquele que se postava atrás da cadeira do monarca e lhe servia o vinho. 

Pouco antes da data para a princesa se decidir, realizou-se um suntuoso banquete e, no momento em que teve de servir o vinho ao rei, Pelle depositou o seu meio anel na taça de ouro, sem que ninguém percebesse. Ao levá-las aos lábios, o monarca ouviu um ruído metálico, pegou no pequeno objeto e viu que tinha gravado metade do seu nome e o da filha, pelo que perguntou à jovem o que acontecera à outra metade.

Ela não se pôde conter mais tempo e descreveu todo o seu infortúnio e aventuras: Pelle, o Cozinheiro, copeiro do rei, salvara-a das mãos dos piratas e os dois vagabundos naquele momento sentados à mesa real, cada vez mais embaraçados, tinham-na obrigado a revelar uma versão diferente, ameaçando-a de morte.

O rei levantou-se quase de um salto e mandou encerrar estes últimos na torre, onde aguardariam o merecido castigo. A princesa mostrou a sua metade do lenço e Pelle, o Cozinheiro, imitou-a. O monarca ficou tão eufórico, que abraçou a filha e concedeu-a em matrimônio ao honrado ajudante de cozinheiro. Quando ele morreu, Pelle herdou todo o reino e aquilo que lhe pertencia, e viveu feliz com todas as honras de uma longa existência.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
* Anker = antiga medida de vinho, aguardente e azeite, equivalente a cerca de 40 litros.

Fonte:
Contos tradicionais da Suécia. em Ulf Diederichs. Palácio dos Contos. Lisboa/Portugal: Círculo de Leitores, 1999.

Caetano W. Galindo (O grande escritor)

O grande escritor havia já semeado sobre o mundo bela meia dúzia de grandes livros. Ele deveria ser tido como responsável por nada mais que boa, muito boa, meia dúzia de grandes livros. Repetir antes das refeições.

Contudo o grande escritor tinha entre seus feitos amealhado belo milhar de grandes fãs. Admiradores. Responsabilidades?

Ele muito possivelmente não sabia disso com qualquer grau de precisão. E muito provavelmente (o grande escritor era de natureza particularmente reclusa, especialmente em tempos de quase patológica exposição midiática, sequer tendo seu próprio website, não dando muitas entrevistas: quando se casou, a notícia levou meses para surgir na internet: Talvez esse itálico seja desnecessário. O grande escritor, afinal, sublime manejador de itálicos e outras convenções gráficas, parecia ainda acreditar que podia levar uma vida algo independente da mídia e do milhar de admiradores que seu trabalho sempre incansável, brilhante e original com a palavra escrita e com as almas humanas que manipulava como compositor e como regente de seres lhe havia amealhado) pouco se importava com essa ou qualquer outra quantificação. Distinção.

Era talvez por isso mesmo que havia conseguido se tornar um grande escritor e, mais especificamente, o grande escritor que era.  

Cerca de cinco anos antes do momento em que se passa a angústia, esta angústia, o grande escritor havia aceitado participar de um programa de resident writers em uma grande universidade norte-americana. Como parte de seu contrato, para além de um período de efetiva residência no campus da dita universidade norte-americana, período esse entremeado por seminários e palestras diversos de diversa natureza, havia a obrigatoriedade de, transcorridos os xis meses dessa estada, o grande escritor participar de um grande evento coletivo (junto de outro escritor, significativamente menos ‘grande’ que o grande escritor como escritor, conquanto em tudo e por tudo equiparável a ele como ser humano que percorre o mesmo vale de lágrimas. Realçar.) em que seria entrevistado por um dos professores daquela grande universidade norte-americana antes de terminar a noite com a leitura de alguns fragmentos (de qualquer natureza: muitos ou um, com a duração desejada de cerca de trinta minutos em leitura pausada, conveniente a situação semelhante) da literatura que lhe as musas houvessem outorgado compor durante os xis meses em que fora alimentado pelos milionários que doavam suas fortunas à grande universidade norte-americana e pagavam ainda tuitions extorsivas para nela verem seus filhos, futuros presidentes, ceos e, por que não, ‘grandes’ grandes escritores, sendo que a referida universidade contava, como de regra, com um programa de creative writing, e contava na verdade sondar o grande escritor (ainda jovem e vinculado de forma algo insatisfatória a uma não-tão-grande universidade norte-americana) a respeito da possibilidade de vir ele a ocupar a recém-criada cadeira Walt Disney de redação criativa naquela instituição. (Esses filhos também tenderiam a doar parte significativa de suas futuras fortunas a sua alma mater. Era a ideia.) 

Naquela situação, o grande escritor, quase proverbialmente tímido, se saiu com galhardia (Virou folclore entre os alunos da universidade, e posteriormente, depois que a transcrição do evento vazou para a internet, já sem itálico, entre leitores urbi et orbe, o momento em que ele declarou que, apesar de saber que a etiqueta que rege esse tipo de eventos pedia que ele periodicamente erguesse os olhos da folha de papel para dirigir ligeiros olhares a seu público enquanto lia seus fragmentos – numa demonstração que reconhecia servir como manifestação fática e, simultaneamente, ter certa função solidária, por minimizar, diríamos nós, o anatopismo que é a leitura em voz alta de literatura romanesca concebida original e finalmente para leitura silenciosa – era incapaz de fazê-lo [levantar os olhos da folha para etc.] sem perder irremediavelmente sua localização no texto que lia e que, assim, ver-se-ia obrigado a fechar os olhos [metáfora] para essa constrição sem que, no entanto, deixasse de estar [verbatim] agudamente consciente da presença de seu público [Risos]) e criatividade.

Neste momento, transcorridos cerca de cinco anos daquela leitura alguns dos fragmentos e mesmo um conto completo lido naquele momento já haviam sido encontrados em livros efetivamente publicados pelo grande escritor.

Mas não todos.

Dois deles se mantinham inéditos.

Ambos tratavam de meninos. Homens. Homens que ainda não eram. Meninos em algo que o leitor (leitor das obras do grande escritor, nesse momento ouvinte, no entanto – nesse e em muitos outros subsequentes [momentos], pois que retornava incessantemente aos arquivos na internet que registravam a leitura daqueles fragmentos) convencionou definir como ritos de passagem, momentos de transição. Momentos de formação. Ele. É que convencionou. Frisar.

Por sua única conta e único seu risco; não pequeno, ver-se-á.

O primeiro deles (menino, não fragmento) era menos interessante. Aliás, era precisamente sua natureza não-interessante o assunto do “fragmento” (e as aspas se revestiam cada vez de muitos e mais significados muito e mais profundos e diversificados para o “leitor”). Ponto.

Era um menino basicamente perfeito, em um momento perfeito. Ele montava sua festa de aniversário e, nela, propiciava ao narrador todas as oportunidades de iconizar em um momento chave (a festa de aniversário = o rito de passagem) as características que formavam sua perfeição.

Ele não queria presentes. Pedia que as pessoas enviassem, ao invés disso, pequenas somas de dinheiro (que não fossem lhes fazer falta) para instituições de caridade (afinal de contas, havia tantas pessoas que tinham necessidades tão mais sérias que as suas [dele, menino em questão [Isso era óbvio, já]. E eram comentários de teor semelhante aos que estão aqui entre colchetes que, mais que os fatos em si, representavam a irritante perfeição do menino, nítido símbolo de toda uma classe culpística da sociedade americana.

O grande escritor era americano.

Sua festa seria toda servida em material descartável, reciclável... assim por diante.

Ninguém comparece.

Ninguém suporta a perfeição absoluta do menino que, conquanto expressa de forma a levantar os pelos de qualquer leitor minimamente sensível a lugares-comuns de caridade e boas-intenções das classes elevadas, não deixava, por um minuto sequer, de representar de fato fatos e informações inquestionavelmente bons.

(Da necessidade de se aprender a necessidade de se italicizar o adjetivo bom.)

O rito de passagem.

O segundo era muito mais inventivo, e também desenvolvido mais longamente.

Tratava de um menino, bem mais novo que o anterior, talvez com cerca de oito anos de idade, que se dedicava, de início levianamente, depois com uma dedicação insana que o isolava de todo o resto do são convívio social e o levava a se enfiar em leituras e estudos médicos e anatômicos (o que propicia também ao narrador largo campo para verdadeiras incursões ensaísticas em torno das mesmas questões, potencializando assim a aparente trivialidade da situação do menino, discutida em termos médicos frios, e apenas mensurada em seu todo impacto emocional e humano pela figura do pai que, imóvel, se colocava contra a porta do quarto do filho e, mudo, ficava ali sem entrar, sem bater, preso ele a sua angústia, incapaz de tocar a de seu filho), à tarefa autoproposta de tentar tocar com seus lábios (e a recusa do narrador em usar o verbo beijar mais uma vez demonstrava o ângulo e a distância que tinha se proposto) todas as partes de seu corpo. Ele se dedicava a tal.

E anotava em um caderno todas as partes que já tinha tocado. E pelas quais imediatamente perdia interesse.

Tocado o períneo, era partir para a parte de dentro do joelho. Sublinhar a frieza.

O menino, em sua monomania, se lesionava. O menino se deformava e seus professores começavam a reclamar de seus lábios (artificiosamente distendidos por séries de exercícios específicos) que lhe davam um ar vagamente sorridente, vaga, mas concreta e incomodamente, lúbrico.

O menino parecia perdido.

E acima de todo o processo restava a sombra da expectativa dos locais (sua nuca, o espaço entre os ombros, nas costas.) que jamais poderia tocar.

Ritos de passagem.

Passados os anos todos, o leitor passou a se conformar com a ideia de que o grande escritor apenas poderia estar preparando um imenso romance mosaico (imenso, devido à conhecida prolixidade do grande escritor) a respeito dos momentos singelamente terríveis e horrendamente cotidianos que regem a criação de homens, a cada dia, em cada canto daquela América.

Baseado em nada mais que sua expectativa. Mesmo.

Nem mesmo boatos na internet (e as comunidades dedicadas a discutir a obra e a vida do grande escritor pululavam por todos os cantos da rede) vinham acudi-lo em suas suspeitas. Sozinho. Trancado em seu apartamento, dedicado à tarefa de reler ciclicamente toda a produção do grande escritor enquanto mineirava a web em busca de confirmação, em busca de certeza.

Ele desenvolveu todo o arcabouço do novo romance, que seguiu adaptando à medida que o grande escritor publicava novos livros de contos (mas ainda não um terceiro romance, ainda não o romance que seria o ápice definitivo de sua carreira) que revelavam clarissimamente evoluções, mudanças, correções de trajetória. Ele precisava adequar o novo romance do grande escritor, afinal, a o que de fato o grande escritor parecia estar se tornando.

E o novo livro ia se formando mais e melhor. Muito. Muito melhor...

A grande obra de um grande escritor. Definitivamente definitiva. E o leitor, sentado na cama, sorria ele também de forma algo preocupante (algo lúbrica?) ao vislumbrar a perfeição do romance que apenas o grande escritor poderia escrever. Ele. Ele era incapaz. Ele não era grande. Nem era escritor.

Em seus momentos mais desesperados ele temia que nem mesmo o escritor fosse grande à altura da grandeza daquele romance inexistente. Mas ele o estava escrevendo...?

E tudo que o leitor mais temia agora era o lançamento de um novo grande romance do grande escritor, que jamais poderia igualar o seu romance do grande escritor. E que poderia mesmo representar o definitivo engavetamento daqueles fragmentos (experiências vãs, teria pensado ele, que não valem mais o papel em que seriam impressas neste ponto da minha carreira... quase me arrependo de ter escrito) e da ideia de que eles poderiam ter sido importantes a ponto de justificar dez, mais, anos de maturação e desenvolvimento.

Escritores são vis.

Seria traído de maneira indizível.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
CAETANO WALDRIGUES GALINDO é um dos mais importantes intelectuais, tradutores e escritores do Brasil contemporâneo. Reconhecido internacionalmente por traduzir clássicos de extrema complexidade e por aproximar a história da língua portuguesa do grande público, ele desempenha um papel fundamental na renovação e na acessibilidade da literatura no país. Nasceu em Curitiba (PR), em 1973, construiu sua vida pessoal e profissional em Curitiba, cidade onde reside até hoje. Começou sua formação como violonista clássico, mas uma lesão na mão o obrigou a abandonar o conservatório e o direcionou para as Letras. Aprovado em concurso público aos 24 anos, tornou-se professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 1998, onde leciona Linguística Histórica e História da Língua Portuguesa. É doutor em Linguística pela Universidade de São Paulo (USP).
Sua consagração literária aconteceu no campo da tradução. Ele passou anos dedicando-se a verter para o português brasileiro o monumental Ulysses, de James Joyce. Traduziu mais de 60 livros de gigantes da literatura mundial, como Thomas Pynchon, David Foster Wallace, J. D. Salinger, T. S. Eliot e Charles Darwin. Ao contrário de escritores de perfil mais tradicional, Caetano Galindo não pertence a academias de letras. Sua atuação dá-se estritamente no ecossistema universitário, de pesquisa e no mercado editorial.
Sua célebre tradução de Ulysses e seus livros de ensaio receberam as distinções mais cobiçadas do país: Prêmio Jabuti (2013) – Categoria Tradução; Prêmio da Academia Brasileira de Letras / Paulo Rónai (2012); Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte, 2012); Prêmio Paraná de Literatura (2013) – Pelo livro Ensaio sobre o entendimento humano; Prêmio Euclides da Cunha da ABL (2026) – Escolhido como o melhor livro de não-ficção do ano por Na Ponta da Língua.
Livros Publicados: Onze poemas (Poesia); Sobre os canibais (Contos, 2019); Sim, eu digo sim: uma visita guiada ao Ulysses de James Joyce (Ensaio/Guia, 2016); Latim em pó: um passeio pela formação do nosso português (Divulgação científica, 2022/2023); Lia: cem vistas do monte Fuji (Romance, 2024); Ana Lívia e outras mulheres (Dramaturgia, 2024); Na ponta da língua: nosso português da cabeça aos pés (Linguística/Etimologia, 2025); As cidades (Poesia).
A relevância de Caetano W. Galindo para as letras nacionais sustenta-se em três pilares fundamentais:
1. A Desmistificação de Clássicos: Ao traduzir James Joyce com uma linguagem viva, inventiva e genuinamente brasileira, ele provou que a alta literatura experimental não precisa ser árida ou inacessível. Ele abriu as portas de obras complexas para gerações de novos leitores no Brasil.
2. Popularização Criativa da Linguística: Com obras como Latim em Pó, Galindo tornou-se o maior divulgador da história da nossa língua. Ele retirou a filologia das gavetas acadêmicas e explicou a evolução do português falado no Brasil com humor, leveza e paixão, gerando um forte sentimento de orgulho e identidade linguística nos leitores.
3. Versatilidade Artística: Poucos intelectuais conseguem manter o rigor científico de um doutor em linguística enquanto escrevem peças de teatro, romances ficcionais contemporâneos e poesias de alta qualidade, consolidando-se como uma das mentes mais brilhantes e multifacetadas da cultura brasileira atual.

Fontes:
Caetano W. Galindo. Ensaio sobre o entendimento humano: contos. Curitiba, PR : Secretaria de Estado da Cultura : Biblioteca Pública do Paraná, 2013.
Biografia = SESC SP, Wikipedia, Rascunho, Via Editorial, Companhia das Letras, UFPR, Círculo de Poemas, etc.