sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Asas da Poesia 148


Poema de
MÁRCIA WAYNA KAMBEBA
Castanhal/PA

ACREDITAR EM SI

Nem toda palavra
que tentam nos impor é verdade.
Algumas são ditas apenas
para testar se vamos desistir ou seguir.

Se disserem:
“você não consegue”,
“isso é impossível”,
“está longe do seu alcance”,
ainda assim, não deixemos de tentar.

Tentar, mesmo com medo,
é coragem.
É ousadia.
É desejo profundo de viver,
progredir e ser feliz.

Seguir em frente é a melhor opção:
arriscar, insistir e persistir.
O final é gratificante
quando vencemos o medo, a insegurança
e a dúvida
daqueles que achavam ser impossível.
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Poema de
MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS
Huambo/Angola

O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
0 garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.

Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte.
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Soneto de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
(José Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC (1914 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Dedicatória

Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta coisa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Solitários Passos

Pra mim, és agasalho das Alturas,
Que chegou à metade do caminho.
Contigo, jamais estarei sozinho,
Pois somos cúmplices nas horas duras. 

Teus olhos reergueram minha autoestima;
A mando dEle, na raia tu entraste.
De minha vida, tu foste o guindaste;
De Deus, para eu dar a volta por cima. 

Hoje; estar só, não passa de lembrança,
Solitários passos foram de vez.
No mar bravio, o tempo se refez;
Finda a tempestade, veio a bonança. 

Foste o bálsamo pra minha ferida,
Que surgira em meus passos solitários.
Trouxeste os ingredientes necessários
Ao amor, em retomada de vida. 

És mais um anjo do que uma mulher.
E teu aconchego, igual nunca vi.
Dos reclusos passos antes de ti,
Não tenho saudade, um pingo sequer…
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Trova Popular

Sonhei contigo esta noite,
mas oh! Que sonho atrevido!
Sonhei que estava abraçado
à  forma  do  teu  vestido!
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Bentinho e Capitú

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura,
em cujos lábios demorou meu beijo,
se ontem foste a razão do meu desejo,
hoje és causa da dor que em mim perdura!

Eu fui o teu Bentinho de alma impura
que fez de ti, em juízo malfazejo,
a fonte da vergonha e do meu pejo,
a causa, enfim, da minha desventura!

Foi preciso que ao roxo da mortalha
na tua mudez me desses a entender
por quanta vez a nossa mente falha!

E hoje distante, esse teu meigo ser
parece das alturas me dizer:
¨perde-se a vida, ganha-se a batalha¨!
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Poema de
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

O azulão e os tico-ticos

Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorjeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Quero…

Constato ao alvorecer,
também ao clarão da lua:
mesmo depois de morrer
quero ser somente tua!

Quero sentir de novo as tuas mãos
a tatear meu corpo, docemente…
Quero apagar meus pensamentos vãos
para entregar-me a ti, confiantemente.

Quero pisar sem medo em quaisquer chãos,
seguir feliz na estrada à minha frente.
Quero a renúncia pronta dos meus nãos,
dar-te o meu sim, sonoro e ardentemente!

Porque quem ama sempre retrocede,
porém as consequências nunca mede,
quando a paixão reinflama o coração...

Por isso eu quero tudo o que quiseres,
ser a  mais tua dentre outras mulheres:
— aquela que te amou... sem restrição!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Prelúdio 4

Hoje eu soube apreciar com emoção
O feliz casal que despertou sorrindo...
A MANHÃ e o SOL!
Ambos com um misto de beleza e esplendor
Num canto primaveril de amor infindo…

Senti-me também assim,
Como eles, feliz e esplendoroso
todo cheio e orgulhoso
Com o coração a cantar em mim!...

É porque hoje... hoje irei vê-la
Com o seu sorriso de criança
Falando-me de carinho e paixão
E de nós dois...

Sem mais receios, ou embaraços...

Hoje, serei o SOL e ela, a MANHÃ,
Feliz e envolta
Bem solta
Em meus braços!...
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Soneto de
RITA MOUTINHO
Rio de Janeiro/RJ

Soneto da ausência seleta

A saudade, hoje, é alvo da pungência
e certa flecha bêbada vagueia
na aura da chama anil da inconsciência,
porque a verdade de hoje escamoteia

realidade avessa, de carência,
que não quero entender porque a meia
estadia na vida, por sua ausência,
faz-me vítima, abate-me e fundeia.

O que queria ver é o que vês,
o que queria ser é o que és,
o que queria ter é o que tens.

Mas nunca para isso haverá vez:
somos aos nossos, não a nós, fiéis
e seleta é a sensata insensatez.
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Poema de
ARMANDO BETTINARDI
Maringá/PR

Caminhando

Por que o sol,
a praça,
o burburinho da cidade
estão aqui?

Por que: a luz
o dia aberto diante de mim,
o convite à vida,
se eu estou sozinho?

Sem você, o momento
passa como o vento,
sem consumação,
naturalmente, inutilmente.

Não entendo momento,
só momento, sem ação,
sem movimento,
sem nós dois
que juntos somos vida.

Só aceito momento,
que não seja fugaz nem
efêmero;
- que seja total completamente.

Então, seremos nós
eu e você,
caminhando juntos,
de mãos dadas
rasgando a luz da tarde;
rumo ao crepúsculo.

Agora, o dia ainda está todo
aberto diante de nós;
e, é um convite à vida.

Vamos pois, inebriados
beber a vida, gota a gota
até o fim, enquanto,
juntos caminhamos.
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Décima de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 – 2020

Meu sertão sou teu pedaço
Berço de gente feliz
Que dança ao som de Luiz
no escurinho do terraço.
Tem sol quente tem mormaço,
Tem ave de arribação,
Xaxado xote e baião
Tem um Santo Padim Ciço.
Quem nunca viu tudo isso 
Não sabe o que é sertão. 
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Hino de 
Feira de Santana/BA

Salve ó terra formosa e bendita
Paraíso com o nome de Feira
Toda cheia de graça infinita
És do norte a princesa altaneira

Bem nascida entre verdes colinas
Sob o encanto de um céu azulado
Ao estranho tu sempre dominas
Com o poder do teu clima sagrado

Sorridente como uma criança
Descuidosa da sua beleza
Do futuro és a linda esperança
Terra moça de sã natureza

Poetisa do branco luar
Pelas noites vazias de agosto
Fiandeira que vive a fiar
A toalha de luz de sol posto

De Santana és a filha querida
Noite e dia por ela velada
E o teu povo tão cheio de vida
Só trabalha por ver-te elevada
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Dobradinha Poética de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Sonhos

Vejo uma luz no horizonte,
a paz no mundo a brilhar.
Pode ser sonho distante...
Um dia ele irá vingar...

Sempre quis pintar um mundo encantado,
com tintas da aquarela de meus sonhos,
Pintar na tela um céu todo estrelado,
e lá no fundo, corações risonhos.

Sempre quis espargir versos no mundo,
perfumá-lo com aura de esperança,
plantando sementes em chão fecundo,
qual o amor num coração de criança.

A vida é um caminho de idas e vindas,
momentos de alegria e de tristeza,
no anseio de encontrar paisagens lindas,

anda-se encruzilhadas da incerteza,
fazendo o destino em ruas infindas,
com toda a força de nossa grandeza.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O marido, a mulher e o ladrão

Um marido extremoso,
Que adorava a mulher
Sendo, embora, feliz — julgava-se inditoso.
Dos olhos dela nunca um só fugaz volver,
Um modo gracioso,
Uma frase de amiga, um lânguido sorrir,
Mil expressões gentis, rápidas, mas sinceras,
Lisonjeando o descrido,
Conseguiram jamais de leve persuadir
Que era amado deveras.
Enfim... era um marido!

Se amor neste himeneu,
Como bênção divina,
Mudado lhe tivesse a tão estéril sina...
Mas... tal não sucedeu!
Batida pela sorte,
Sem mais um desafogo,
Nem mimos para o triste e mísero consorte,
Esta esquiva mulher
Ouvia-lhe uma noite o lamentar de fogo,
Sem um suspiro só de todo compreender,
Quando surge um ladrão,
E interrompe o queixume acerbo e dolorido.

Ela sente do susto a fria contorção...
Procura amparo e cai... nos braços do marido!.

«Amigo, exclama então
O jubiloso amante,
Ao pérfido ladrão:
Foram-se os meus pesares!
Sem ti, eu não teria um tão gostoso instante!
Ventura tão intensa!
Toma, leva, arrecada aquilo que encontrares,
Leva a casa também... É justa a recompensa!»

Não se perdem ladrões por homens delicados,
E a crer ninguém se inclina
Que eles sejam um pouco honestos ou vexados:
Este, pois, atirou-se impávido à rapina!

Deste conto se infere
Que o medo é das paixões a que mais largo fere;
Pois quando audaz assoma,
Como vence a aversão,
Algumas vezes doma
O amor que avassalou de todo um coração.

Tu bem viste, leitor,
Somente para ter
Nos braços a mulher...
Um marido o que fez! Foi vítima do amor!

Eu gosto deste amor altivo e temerário
Que brilha e não se estiola,
Que cresce e não se apouca!
O conto me agradou de um modo extraordinário:
Ele bem diz numa alma indômita, espanhola,
Mais sublime que louca!
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Célio Simões (O nosso português de cada dia) “Tirar o cavalo da chuva”


Neste início de inverno, quando as chuvas passam a cair com frequência diária na Amazônia durante todo o primeiro semestre, em especial a invariável chuva da tarde da capital paraense, aí está um tema apropriado para abordagem, embora a modernidade de há muito nos propicie os automóveis, a motos e os transportes coletivos como meio de locomoção pessoal, para folga dos animais de tração, não raro muito maltratados pelos próprios donos. 

Porém, em tempos pra lá de recuados, principalmente no interior o meio de transporte mais utilizado era o cavalo e as carroças puxadas pelas parelhas, estas, inclusive, incumbidas da venda do leite para o café da manhã até mesmo nas cidades de maior porte, antes da turma miúda se mandar para a escola. 

Desde tempos imemoriais, ainda na antiguidade Eurasiana (região que outrora abrangia a Ucrânia, parte da Rússia e o Cazaquistão), se tem notícia do uso do cavalo para a movimentação de charretes, carroças, arados, grades, e cultivadores, tanto no plantio como na colheita, afora pomposas carruagens imperiais, estas, inicialmente na região da Mesopotâmia, espalhando-se depois por todas as cintilantes monarquias europeias, consagrando o uso do cavalo para o transporte, para a arte da guerra (a arma de Cavalaria decorre dessa longínqua época) e de modo indispensável na agricultura não mecanizada, para o amanho (cultivo) da terra e mobilidade das pessoas e da produção.

No Brasil, sem qualquer vínculo com esta ou aquela região geográfica, as viagens a cavalo duravam dias e as paradas na casa de conhecidos ou amigos, para descanso e alimentação, eram vistas com absoluta naturalidade. Pedir ao dono da casa “um agasalho” para pernoitar não era extravagante ou inusitado, pleito escorado quase sempre na relação de confiança da gente simples do campo, conhecida pela sua tradicional hospitalidade, fazendo com que a família não só permitisse a pousada, como também lhe fosse oferecida água e alimento, para a recuperação do corpo e a mitigação do cansaço.

O modo de chegar cavalgando a determinado sítio para postular tais favores, tinha o condão de deixar evidente, de plano, a intenção do visitante. Se a montaria fosse amarrada à frente da residência, significava uma estada breve, apenas para mitigar a sede e seguir em frente. Entretanto, se o cavaleiro o fazia num dos barracões da parte posterior da morada, era óbvio que a intenção era o peão demorar mais, coisa de muitas horas ou até de dia inteiro.

Na primeira situação, um cumprimento cortês, um gole d’água, uma conversa rápida e boa viagem... Na segunda, além da água, uma prosa mais elaborada despertava o subjacente interesse do anfitrião pela narrativa do visitante, que acabava ficando. Mas a expressão surgiu justamente na hipótese mais improvável, quando o viajante demonstrando pressa, decidia se mandar, prosseguir na jornada, sendo surpreendido pelo dono da casa ao lhe dizer: “Pode tirar o cavalo da chuva, fique mais um pouco”. Estava assim o estranho autorizado a levar sua montaria para um local mais abrigado, pois a conversa seca e breve ia demorar bastante, por alguma empatia surgida entre eles.

Com o passar do tempo, o sentido da expressão foi mudando, ampliou-se e atualmente significa que alguém deve desistir de um propósito qualquer, que se mostra ou se tornou impossível para quem acalenta determinada pretensão, às vezes pronunciada de forma irônica, no diminutivo como fazem em Portugal, para melhor ironizar quem alimenta esperança de êxito em algo inalcançável: “Pode ir tirando o cavalinho da chuva”...

Certas expressões sintetizam situações que gastariam mais tempo para serem explicadas ou descritas, revelando o que se deseja exprimir numa única frase. Neste aspecto, “tirar o cavalo da chuva” chega a ser emblemático. Hoje, quando alguém a usa, sugere que o sujeito não deve esperar que determinado acontecimento se materialize, que alguém deve desistir de algo, perder as esperanças, pois o objetivo perseguido não se concretizará:
– Vai viajar para São Paulo, amigo? 
– Sim, amanhã!
– Pois pode tirar o cavalo da chuva, que o teu voo foi cancelado... 

Na nossa música popular, a conhecida expressão inspirou a dupla sertaneja Leôncio e Leonel a uma composição com o nome de “Pode Tirar seu Cavalo da Chuva”, estilo sofrência, cujo texto poético aqui parcialmente reproduzido, só confirma o sentido com que atualmente é empregada: 

Meu coração não é carro de praça
Que pega e deixa quando lhe convém
Você saiu a passear com outro
Eu não liguei para mais ninguém

Já fui seu bobo, já fui seu palhaço
Hoje de trouxa você não me faz
Pode tirar o seu cavalo da chuva
Que a seu lado eu não volto mais

O professor Dionísio Silva, da Universidade Federal de São Carlos (SP), entende que tal expressão nasceu no Brasil na região dos pampas, mercê do costume do gaúcho de recolher seu cavalo no galpão ao primeiro sinal de chuva, quando ia ao armazém fazer compras. Assertiva que no mínimo conflita com o costume português ("tirar o cavalinho da chuva") considerando que quase tudo o que herdamos, em termos linguísticos, veio de lá com Cabral...
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Célio Simões de Souza é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. Membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana e da Confraria Brasileira de Letras, em Maringá (PR). Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados e recebeu três prêmios literários.

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor

quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Grinalda Indígena * 2 *



José Feldman (Floresta/PR)

HERÓIS DA TERRA

Em cada fibra que compõe o Brasil,
pulsa a batida do vosso tambor.
Longe do mito do povo servil,
ergue-se a força de um povo senhor.

Se a mata canta, é por vossa voz,
zelo que guarda o que o lucro consome.
Pois sem a terra, o que resta de nós?
Apenas o vazio e a sombra da fome.

Vossa presença é o norte fiel,
cura que nasce da raiz profunda.
Escrevem o mundo sem usar papel,
em uma sabedoria que o tempo inunda.

Sem o indígena, a pátria se esvai,
torna-se pó sob o asfalto sem vida.
Onde o espírito do ancião não cai,
a esperança se mantém erguida.

Corpo e alma de um solo sagrado,
pilar que sustenta o que ainda é real.
O Brasil verdadeiro está ao vosso lado,
sendo o princípio e o fim de seu ritual.

Eduardo Martínez (Quem não comunica se trumbica)


Vitor, renomado engenheiro civil de Brasília, era do tipo que gostava de trabalhar no aconchego do seu amplo escritório, cadeiras acolchoadas, diplomas pregados pelas paredes, que também eram ornadas por réplicas quase perfeitas de quadros famosos, ar condicionado sempre ligado no máximo. Raramente acompanhava a execução das obras, pois era alérgico a cimento, bem como a todos os cheiros desses lugares. 

Lá estava o Vítor, com uma enorme xícara de café gourmet sobre a mesa, quando o telefone tocou. Ele até tentou não atender, mas, diante de tal insistência, não resistiu. Era o Zé, o mestre de obras com quem trabalhava desde sempre. Ele não poderia ir ao canteiro de obras, pois havia testado positivo para Covid-19. "Que droga!", pensou Vitor. 

Não teve outro jeito e, então, o engenheiro teve que abandonar o seu delicioso café e se dirigiu até a obra. Assim que chegou, notou que dois pedreiros discutiam sobre como encaixar uma enorme viga de madeira. Por alguns instantes, Vitor, quase atônito com aquilo tudo, apenas observou, até que não aguentou e disse:

– Essa viga vai na diagonal.

– O quê? - perguntou um dos pedreiros.

– Sim, na diagonal.

– Dia o quê? - continuou sem entender.

– De trevesso! - disse o segundo pedreiro.

– Ah, tá! De trevesso!

Fonte:
Blog do Menino Dudu. 29.05.2022

Aparecido Raimundo de Souza (Totalmente falsa como uma pedra de Nagamani*)


O REPÓRTER chega para entrevistar as candidatas a “MISS BONECA DA SERRA”. E aquela loirinha de cabelos longos e olhos azuis foi a que, sem sombra de dúvidas, mais lhe chamou a atenção. Não só pela beleza inquestionável como igualmente pelo sorriso lindo e pelo porte elegante. Vibrou quando seu cinegrafista informou que ela seria a primeira de uma lista de quinze. 

A princípio, o jornalista a achou não só bonita e interessante, como surreal, a ponto de confidenciar com seus botões que se ele fosse um dos jurados, certamente o seu voto seria para ela. No decorrer da conversa, entretanto, a sua opinião foi se modificando literalmente. Quais motivos o fizeram alterar o arbítrio a ponto de perder totalmente a maviosidade por aquela deusa rara e deslumbrante saída de um conto de fadas?

— Oi, linda. Meu nome é João Sabugo. Sou repórter da “Revista Espia Vê Tudo”. Estou aqui para lhe entrevistar juntamente com as suas coleguinhas concorrentes ao título “Miss Boneca da Serra”. Podemos começar?
— Começar o que exatamente?
— A entrevista...
— Ah, mil perdões. Podemos sim. Por favor repita seu nome. João de quê...? 
—  João Sabugo. Por que você riu?
— Pelo seu sobrenome, Sabugo. Até onde sei, sabugo é uma espiga de milho sem o milho grudado. E você não se parece com um sabugo de milho.

Risos.
— Ok. Gostei da comparação. Agora me diga o seu nome. 
— O meu? Ipysilone Canuda da Costa. Esse Ipysilone com ípsilon.
— Perfeito. Idade?
— A minha? Acho que 22. Não, 21. Esquece. 23...
— Local de nascimento?
— O meu? Berço da maternidade Dona Carmelita Umbingosa. Fica ao lado da prefeitura de Palo dos Cavalos.
— Quem nasce em Palo dos Cavalos é?
— Jumenta...
— O quê? Ah, tá. Entendi. Peso?
— O meu? 58. Mas sempre sobe um pouco. Agora por exemplo estou com 56.
— Altura?
— A minha? 1.60. Mas de uns dias pra cá, diminuiu...
— Diminuiu?
— É.
— Como assim?
— Estiquei...
— Legal. Seu apelido?
— O meu?  “Letra morta”.
— Letra morta? Por quê?
— Meu pai diz sempre que o ypsilone do meu nome não se usa muito. Logo, o treco pegou. Irado, né?
— Qual a sua maior qualidade?
— A minha? Gostar de coisas perigosas. 
— Do tipo?
— Tipo? Que tipo?
— Do que você gosta que acha perigoso?
— Ah...! Outro dia eu acendi um cigarro...
—  Nossa, você fuma?
— Não. Detesto cigarros. É que eu estava sentada em cima de um latão cheio de gasolina. Todo mudo que estava perto, saiu em debandada... foi massa...
— Meu Deus! Que horror! Que mais?
— Ontem eu subi no topo desse hotel onde estamos. Se você olhar pra cima lá do alto, verá que ele tem 30 andares. No terraço me dependurei de cabeça pra baixo.
— E para que fez isso?
— Quem? Eu? Pra quê? Queria ver como era enxergar as coisas de cabeça pra baixo de um arranha-céu dessa envergadura.
— E você não teve medo de cair?
— Quem? Eu? Não. O bicho é bem seguro...
— Qual o seu maior defeito?
— O meu? Achar que sou doida.
— E é?
— Quem? Eu? Não!

Mais risos.
— O que mais aprecia em seus amigos?
— Quem?  Eu? O que mais aprecio em meus amigos? O que eles mais apreciam em mim!
— Legal. E o que eles mais apreciam em você?
— O que eu mais aprecio neles.
— Sua atividade favorita?
— Qual, a minha? Ah, tá. Plantar bananeiras.
— Você frequenta alguma academia?
— Quem? Eu? Não!
— E como aprendeu a plantar bananeiras? Com as amigas da escola, suponho?
— Não, moço. Foi com meu vô Alpiste. O pai do meu pai tem um sítio enorme e nos finais de semana ele me ensina a plantar e a lidar com a terra...
— Que maneiro! E qual a sua maior felicidade?
— A minha? “Pra mim” é como uma coisa gostosa que a gente come. E quando você come o que gosta você se sente feliz...
— Entendi. E nessa linha, o que seria a maior das tragédias?
— Cair da Montanha...
— Como? Cair da montanha? Você é chegada em praticar alpinismo?
— Se eu sou chegada em quê?
— Em alpinismo. Pratica esse esporte?
— Que diabo é isso?
— Deixa pra lá. Voltemos à montanha. Você já subiu em alguma?
— Quem? Eu? Não!
— Continuo sem entender. Você disse que a maior tragédia seria...
— Moço, Montanha é o nome da égua preferida do meu vô Alpiste. Eu adoro subir nela e andar por toda parte, trotando, trotando... 
— Ah, caiu a ficha. Pois bem, vamos mais. Quem você gostaria de ser se não fosse você mesma?
— Quem? Eu? Acho que a Mulher Maravilha.
— E por quê?
— Adoro quando ela dá aquelas voltinhas...
— Qual a sua viagem preferida?
— Qual? A minha? Ah, capturei. Ter ido à lua...
— Não me diga. Você já foi à lua?
— Quem? Eu? Já.
— E como foi?
— Com meu primo Juju Perneta.
— Seu primo Juju Perneta?
— É moço. Ele só tem uma perna... a outra um trator levou...
— Conta aí. Deve ter sido uma experiência bastante interessante. Quero detalhes...
— Foi assim. Aconteceu lá no celeiro do meu vô Alpiste. À noite, depois do jantar, o Juju Perneta me convidou pra dar uma volta. Aceitei. Fomos até o celeiro. Chegando lá, ele me agarrou, me jogou contra umas “tálbas” velhas, me beijou, me deu uns amassos, e depois me jogou no chão...

O repórter a interrompeu:
— Calma, calma. Relaxa. Vamos mudar de assunto. Por favor. Suas cores preferidas?
— As minhas? São três. O azul e aquela outra que quando acontece alguma coisa muito gostosa...
— Você quer dizer excitante?
— Isso. Quando acontece isso aí que você falou, a gente fica e não só fica, vê tudo vermelho piscando.
—E a terceira?
— Terceira? Que terceira?
 — Esquece. Uma flor?
— Mamãe!
— Flor, flor. Margarida, orquídea, tulipa, jasmim, cravo... 
— Então, moço.  Mamãe. Ela é uma rosa...
— Um animal?
— Onça pintada.
— Nossa você gosta de bichos? Interessante. Acaso já viu alguma onça pintada?
— Muitas vezes. Quando eu era pequena, papai vivia me botando medo por conta de uma onça pintada que um amigo dele, o Zé Abestado desenhou no muro do nosso vizinho, que ficava do outro lado da rua, em frente ao nosso portão. Se eu fizesse algo errado, se desobedecesse, ele, a mãe, ou o vô Alpiste, me botava sentada à noite, no portão de cara para a tal onça pintada. Era cruel.
— Imagino... 
— Quais são seus autores preferidos?
— Os meus? Gilberto Gil, e Chico Buarque.
— Autores, autores. Não cantores...
— Pois então. Gilberto Gil é um grande autor. O Chico Buarque também...
— Ta legal. Me diga então o nome de uma música do Chico Buarque que você aprecia?
— Mulheres de antenas...
— Não conheço. Canta um pedacinho...
— “Mirem-se no espelho daquelas mulheres de antenas, sofrem por seus sofridos...”
— Não são antenas, querida. O certo é Atenas.
— Então, foi o que eu disse. Antenas.
— Pois bem. Qual superpoder gostaria de ter?
— Quem? Eu? Hum, deixa ver! Voar como o Tarzan...
— Pera lá, Ipysilone. O Tarzan não voa...
— Como não, moço. De galho em galho.
— Como gostaria de morrer?
— Quem? Eu? Morrendo...
— Eu sei, mas de que forma?
— Deixando de viver... 
— Qual seu maior pecado?
— O meu? Gostar de paixão da minha amiga Simone Lantejoulas.
— Você gosta da sua amiga Simone Lantejoulas?
— Gosto. E muito. Sou vidrada nela.
— E eu posso saber por quê?
— Pode. Ela é ele. E ele é ela.
— Ela o quê? Como? Repita, por favor.
— Ela, a Simone Lantejoulas é ele, e, ao mesmo tempo, é ela e vice-versa...

O jornalista coça a cabeça num gesto desesperado:
— Minha linda. Obrigado pela sua atenção. Beijos, abraços. Tenha um bom dia. Foi um prazer. Por favor, mande vir para cá a sua outra coleguinha. Se ela for igual a você e concorrendo ao mesmo troféu, tanto faz. Espera. Pode ser aquela moreninha vestida de prisioneira.

Ipysilone arregala os olhos, fica pálida:
— Moço, posso lhe dar um aviso, ou melhor, um conselho. Falo sério!
— Sou todo ouvidos, tanto de um lado, como de outro.
— Melhor eu chamar no lugar dela, a candidata vestida de laranja.
— E por qual motivo eu não poderia entrevistar a de roupa de presidiária?
— Ela rouba, afana, tem a mão leve...
— Nossa! Obrigado pelo aviso. Agradeço. Ok. Manda vir então, por gentileza, a de laranja. 
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* Pedra de Nagamani
O título do presente texto faz referência aos encantadores de serpentes indianos que apregoam ser possuidores de poderes míticos, e, que por conta, dizem retirar joias raras, ou seja, removem pedras ou gemas preciosas encontradas nas cabeças e nos rabos das cobras venenosas como a Naja. A intenção desse povo, não é outra, senão a de passar a perna na grandiosa massa de curiosos que acreditam estar diante de uma realidade incontestável. Todavia, de passagem, e a bem da verdade, uma lorota mentirosa. No texto, a Ipysilone, embora deslumbrante, sedutora e glamorosa não vai além de uma moça jovem, de fundo falso. Em outras palavras, a criatura, em comparação, é totalmente vazia, oca e sem conteúdo. Não passa, em resumo, de uma pedra bruta sem valor. Uma autêntica joia de aparência dissimulada. Bonita por fora, mas por dentro... nada que se possa ser aproveitado, apesar de ser, como um todo, uma extasiante escultura em formato angelical.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 
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quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

Grinalda Indígena * 1 *


José Feldman 
(Floresta/PR)

LOUVOR AOS POVOS INDÍGENAS

Piso este chão que o tempo consagrou,
nas matas vivas onde o sol se deita.
Pelo seu sangue a terra despertou,
nesta herança que a alma respeita.

Eu, que carrego a cor do invasor,
curvo meu peito à vossa resistência.
Pois contra o ódio e o braço opressor,
vós sois a vida e a pura consciência.

Guardais os rios, o sopro e o trovão,
antigos cantos que o vento propaga.
Mesmo no fogo da vil negação,
vossa verdade jamais se apaga.

Corpo de argila e alma de luz,
filhos da mata, de garra sem fim.
Vossa crença que a todos conduz,
é o que salva o que resta de mim.

Aos pés do tronco, o espírito é rei,
povo que luta, que planta e que sente.
Em cada passo que aqui caminharei,
honro o passado que faz o presente.

A. A. de Assis (Orgulho X Perdão)


“Orgulho humano, qual és tu mais: feroz, estúpido ou ridículo?” Essa célebre pergunta está no clássico “Eurico, o presbítero”, do escritor português Alexandre Herculano. A melhor resposta creio que seria esta: “o orgulho é tudo isso ao mesmo tempo: feroz, estúpido e ridículo. E além de tudo cego.”

Na verdade abri o computador pensando em escrever sobre o Dia do Perdão – 30 de agosto. O orgulho entrou na cena de metido, como o Coringa entraria num filme do Batman, ou seja, como inimigo número um. Ele é o Coringa do perdão. Está sempre bloqueando os esforços do perdão na busca da paz.

Começar um conflito é fácil. Qualquer pezinho-de-briga basta: ganância, ciúme, inveja, raiva, rivalidade, vingança. Difícil é reacalmar os ânimos.

Dois fulanos, por uma razão qualquer, se desentendem. Poderiam pensar calmamente nos motivos de cada um, cada um ceder um pouco, buscar um consenso e voltar a conviver em harmonia. Simples assim, porém o orgulho, com apoio nos tais brios feridos, impede o acordo.

Da mesma forma os dirigentes de dois países começam uma desavença, a desavença vira rompimento de relações e com mais um pouco acaba virando guerra.

Os de um lado e os de outro sabem que todos sofrerão prejuízos gravíssimos. Poderiam então, em nome do bom senso, resolver suas questões mediante o diálogo e fumar o cachimbo da paz. No entanto o orgulho entra no meio, endurece e embaça os sentimentos e o raciocínio dos envolvidos e não deixa cessar as agressões.

Esse tal de orgulho é fera, ainda mais quando ferido. Cria situações que levam a consequências terríveis. Como consertar os estragos?

O caminho teria que ser assim: esfriar a cabeça > verificar serenamente as razões de cada um > ceder cada um o que tiver que ceder > cada um pedir desculpas ao outro > efetivar a troca de perdão > assinar o acordo de paz > viver felizes para sempre.

O mais difícil será a troca de perdão, porém será o passo mais bonito, mais sábio e decisivo – a atitude sine-qua-non. Sem perdão não há anistia (esquecimento) e sem anistia a mágoa continuará latente, podendo a qualquer instante reacender o conflito.

O remédio indicado pelo Mestre é perdoar setenta vezes sete, ou seja, infinitamente. Por mais teimoso que seja o orgulho, haverá um momento em que o perdão vencerá.

(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 28-8-25)
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A. A. DE ASSIS (Antonio Augusto de Assis), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. 
Imagem criada com Microsoft Bing e desenho do autor

Hans Christian Andersen (O Galho da Sorte)


Quero agora contar uma história da Sorte. Todos nós conhecemos a Sorte. Há quem a encontre todos os dias; mas há também aquele que somente a veem de anos em anos, e num único dia. E há até quem a tenha visto apenas uma única vez em toda a vida.

Não há, entretanto, ninguém que não a tenha jamais encontrado - isso não!

- Não julgo necessário contar, pois que todo o mundo sabe, que Deus manda as criancinhas para o colo das mães. Tanto no castelo dos ricos e na casa abastada, como nos campos desprotegidos, varridos pelos ventos frios. Mas nem todos sabem, e contudo, é indubitável! Nem todos sabem que Deus, quando manda as criancinhas, as dota com um brinde da Sorte. É certo que esse brinde não fica exposto e visível aos olhos curiosos de todo o mundo, não! Fica instalado em algum lugar, no lugar onde menos esperaríamos encontrá-lo, e contudo, é sempre achado no momento oportuno, o que vem a ser muito agradável. Pode estar escondido em uma maçã, por exemplo, como sucedeu com um sábio chamado Newton. A maçã caiu, e ele encontrou nela a Sorte. Se  não sabes essa história, pede a alguém que te conte a história da maçã. Quanto a mim, vou contar outra - a história de uma pera.

Era uma vez um homem pobre, que nascera na indigência, criara-se na miséria, e casara sem dela se apartar. Era torneiro de profissão, e torneava de preferência cabos e argolas para guarda-chuva, mas isso mal dava para o sustento de cada dia. E ele costumava dizer:

- Eu jamais tive sorte... Nunca a encontrei na vida – eu podia dizer o nome do país e até do lugar onde morava aquele homem. Mas isso é coisa que não importa à história.

A casa era toda rodeado de sorveiras (é uma árvore da família das Rosaceae), vermelhas e acres, eram o maior adorno do pomar, mas havia também ali uma pereira, que não dava pera alguma. Contudo, naquela árvore é que estava escondida a Sorte, oculta nas peras invisíveis.

Uma noite sobreveio uma terrível tempestade. O jornal até contou que a diligência, tão pesada, fora erguida pelo vendaval e lançada para dentro da valeta, como um farrapo. Imagine-se pois com que facilidade não seriam partidos os galhos de uma pereira!

Pois um galho partido foi ter à oficina e, por mera brincadeira, o torneiro tirou-lhe um toro e torneou dele uma grande pera, depois torneou outra igual, depois outra menor, e afinal outras pequeninas.

Deu as peras às crianças, para que lhes servissem de brinquedo, e acabou dizendo:

- Ora, afinal aquela árvore tinha de produzir peras mesmo...

Em uma terra de nevoeiros, o guarda-chuva faz parte das coisas indispensáveis, certamente. A família inteira possuía um só, para o uso comum. Quando o vento soprava com muita violência, o guarda-chuva chegava a virar do avesso, e às vezes se partia em dois, mas logo o homem o consertava. O pior era o botão que servia para mantê-lo fechado, depois de enrolado: despregava-se com frequência, e a argola que o mantinha também se quebrava facilmente

Ora, um dia desprendeu-se o botão. O torneiro procurava-o pelo chão quando deu com uma das perinhas menores, das que dera aos filhos para brinquedo.

- Não acho o botão, mas isto serve.

Furou então a pera, enfiou-lhe um cordãozinho, e a pera pequenina prendeu perfeitamente a argola partida - e foi aquele, na verdade, o melhor fecho que já tivera o guarda-chuva.

No ano seguinte, quando o torneiro remeteu cabos de guarda-chuva para a capital, onde eram vendidos os seus trabalhos, enviou também algumas daquelas peras pequeninas, torneada na madeira, e enfiadas em meia argola, e pediu que as experimentassem, a ver se agradara. Assim foram elas ter à América. Lá viram logo que a perinha fechava muito melhor do que qualquer outro botão, e daí resultou que pedissem ao fornecedor que dali em diante todas as remessas de guarda-chuva trouxessem uma perinha no fecho.

É claro que aumentou muito o trabalho. Peras, peras aos milhares! peras de madeira em todos os guarda-chuvas!

O torneiro tinha muito que fazer. Torneava sem cessar. Toda a pereira se desfez em perinhas. E entravam os xelins, entravam os ducados.

- Pois a minha Sorte estava escondida na pereira - dizia o homem.

Possuía agora uma grande oficina, tinha oficiais e aprendizes. Andava sempre muito contente, e costumava dizer:

- A Sorte pode bem estar escondida em um galho!

  E eu, que contei a história, digo o mesmo.

Lá diz o rifão: "Põe na boca um galinho branco e ficarás invisível." Mas há de ser o galinho apropriado, o que Deus nos destinou, como brinde da Sorte.

Eu o achei e, como aquele homem, posso extrair ouro, ouro fulgurante, o ouro mais puro que existe, aquele que resplandece nos olhos das crianças, e lhes canta na boca, e que também brilha nos olhos dos pais, quando leem as histórias, e eu estou na sala, entre eles, mas invisível - porque trago na boca o galinho branco.

E quando percebo que a história que contei lhes traz alegria... então também eu digo:

- A Sorte pode esconder-se em um galho!
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Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fonte:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. Disponível em Domínio Público
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terça-feira, 27 de janeiro de 2026

Renato Benvindo Frata (A Mulher – trabalho não considerado)


Sem qualquer alusão metafórica, pejorativa ou discriminatória ao ato da Criação, como consta na Bíblia (Gênesis, 2…), a mulher teria sido moldada com o fim de distrair o homem, como mera auxiliadora, com papel complementar. Isto é: estaria disponível para que dela — corpo e serviços — ele usasse a seu bel-prazer e necessidade, já que penava por solidão.

Não é preciso grande esforço intelectual para assim se entender. Deixo claro que não é intenção condenar ou questionar preceitos, nem incentivar levantes contra o parceiro explorador de mão de obra — que, se não chega a ser escrava, é, no mínimo, parcial e desprovida de reciprocidade.

Ocorre que, desde a manhãzinha, à mulher são destinadas tarefas que se iniciam com (todas) as do lar e dos familiares — estendendo-se aos negócios — e que, por não serem reconhecidas como trabalho, deixam de ser remuneradas. E aí mora a injustiça.

Só entenderá a que me refiro o homem que se obrigar — por um só dia que seja — aos cuidados dispensados às crianças e às demais tarefas de lavar, limpar, esfregar, cozer, passar, recolher, corrigir, vestir e… sorrir… desde o amanhecer até o apagar das luzes, nos trezentos e sessenta e cinco dias do ano, por toda uma vida. E mais: obrigar-se a aturar o que vier depois do apagar das luzes.

Se uma casa com mulher dentro já é um hospício (e o é…), imagine uma casa sem a figura dela a comandar! — Esse raciocínio não é meu: é público e notório.

O segredo dessa injustiça social esconde-se na “essencialidade dos serviços” a ela destinados e dos quais nós, homens, nos aproveitamos, por termos cedido ao Sagrado Artesão uma de nossas costelas.

Não sei se Adão, sabedor do desejo do Senhor em lhe propiciar uma companhia, teria pedido que caprichasse modelando-a assim ou assado, com ou sem curvas e outros apetrechos que fazem de nossas mãos, olhos e outras partes do corpo verdadeiras estrepolias quando próximos. O fato é que o projeto deu certo e bem representa alegria ao todo — aí incluídos o corpo e a mente do vivente.

Pois bem: se tudo foi bem pensado, planejado e construído, onde então está o erro?

Na essencialidade da prestação de seu serviço. Na não geração de renda pelo trabalho desenvolvido. No excesso de carga horária. No desgaste emocional e na sobrecarga mental. Mas, se essa “companheira-ajudante” é reconhecida como a “sustentação das bases para o desenvolvimento de toda uma sociedade”, qual o motivo de tamanha desvalorização?

Quanto valem — em dinheiro — as tarefas domésticas, os cuidados com as crianças, o amparo a idosos ou pessoas dependentes, a gestão familiar, o voluntariado comunitário? A pensar.

Até porque reconhecimento e valorização do trabalho (independentemente do sexo do trabalhador) são essenciais para garantir que todas as formas de labor sejam devidamente apreciadas e recompensadas, como também para que se alcance a igualdade de gênero tão buscada. A hora é de mudança, é ou não é? 
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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Silmar Bohrer (Croniquinha) 150


Final de ano é o período em que muita gente faz o inventário das realizações dos últimos doze meses. E como não estar contente. A grande vitória é a de mais um ano vivido. Triunfos, conquistas, grandes ou pequenas, quantos risos, quantos sóis, chuvas, ventos, chuvisqueiros. Derrocadas no contrapeso. 

A minha faina anual foi próspera - muito pensado, muito escrito, prosa e verso, o verbo solto. Trinta anos de caminhadas, agradecendo à carcaça por ter proporcionado esta pequena façanha. E louvando meus pensares por tudo que foi adquirido neste viandar de quase-ócio-criativo.

As andanças diárias promovem a a cultura e a catarse. Busca e apreensão pelos caminhos. A curiosidade como apanágio no roteiro de conhecimentos ao ar livre, em diálogos, pesquisas nas matas, audição de pássaros, escrutínio de flores silvestres.  

Os andejares também são importantes para o espírito - descargas emocionais, purificação da mente, renovação e arejar, espairecendo ideias ao ar livre. Instantes de carregar baterias.

Falar do Ano Novo é falar do desconhecido, onde tanta coisa seguirá avante. Tempo de pensar que a vida é um constante renovar  de afãs, independentes de fases da lua, de calendários, de superstições, e o ano novo será bom ou melhor se cada um se ajudar pessoalmente.  
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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