terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

Newton Sampaio (Tríptico)


I. Botequim

Era um botequim. Muito triste, muito desajeitado. Perdido lá no fim daquele beco de luzes tímidas. Enfurnado no bairro mais esquecido da cidade.

Era um botequim. Triste, desajeitado, miserável. Bem como o rapaz de azul-escuro que ia entrando. Que ia entrando e pedindo um trago bem forte. O trago mais forte daquele comércio.

O portuga amansou a bigodeira e procurou a garrafa que era branquinha. O trio da mesa do fundo se virou sem discrição. O casal do lado direito se beijocou publicamente. Ele pegou na coxa dela, ela soltou um palavrão, os dois soltaram uma gargalhada enorme que fez eco e mais parecia uma vontade de se amarem ali mesmo, só pra divertir a vizinhança e matar de inveja o marinheiro de blusa encardida. O marinheiro fechou a cara, lembrou-se de quando esfaqueara um parceiro em qualquer porto sem importância do estrangeiro, afogou a raiva no copo de cerveja ordinária. Nem percebeu o agrado que lhe queria fazer um cachorrinho de cor inexplicável. O animal ficou mexendo o rabo, o qual era curto e quase sem pelo. De repente tomou coragem, lambeu-lhe a perna, saltou-lhe ao colo. Foi a conta. O marinheiro descarregou nele o que desejaria jogar sobre o rival. Socos, pontapés, e substantivos obscenos. Como convém a marinheiros solteiros em noite de feriado nacional...

Todos riram. Com exceção do portuga, por nobre prudência comercial. E do moço de azul-escuro, porque este tinha o pensamento muito longe. Tão longe que ia até saindo sem pagar a despesa. No que foi imediatamente impedido pela mesma prudência lusitana. Sentou-se outra vez, como represália à própria distração. E pediu um trago ainda mais carregado. O trago mais forte de todos os comércios.

Pediu, enquanto o casal da direita se entortava todo nos assentos, para que as mãos peludas do homem continuassem a fazer viagens proibidas...

II. Coreto

Era um coreto. Redondo, pequeno. Erguido numa pracinha sem nome glorioso. Na pracinha em que, aos domingos e feriados, as mulatas costumavam brilhar exuberantemente. Sobretudo quando a banda da polícia chega pra executar suas valsinhas enlanguescentes e aqueles trechos tão bonitos de operetas velhíssimas. Há, até, uma valsa em si menor cuja terceira parte consegue nutrir o pessoal de romantismo para todo o resto do mês. Nesse momento, ficam os olhares menos furtivos, e as palavras adquirem intenções mais perigosas, e os fins de noivado parecem infinitamente mais doloridos.

Era um coreto pequeno e redondo. Que sequer possuía bom teto. Porque a chuva atravessa aquela fenda antiga, e está caindo logo em cima do segundo banco. Nesse mesmo lugar que o clarinetista semanalmente ocupa, para a exibição (aliás comentadíssima) do seu grande talento suburbano.

Por causa da chuva, a praça permanece abandonada, sem cabrochas namoradeiras nem trigueiros galãs invencíveis. E o coreto está úmido, sem luz, silencioso. Silencioso, sem personalidade.

Porque a personalidade dos coretos das pracinhas existe em função das valsas em si menor. Dessas valsas e de quaisquer trechos de operetas velhíssimas...

Nos postes solitários, a chuva, que é fininha e impertinente, escorre mansamente e põe, nas bordas das lâmpadas, refrações instantâneas. Ao mesmo tempo, substitui a banda da polícia, executando, na cobertura do coreto, certa música esquisitíssima. A cobertura é de zinco e a água faz, sobre ela, um chiado monótono, desafinado, sem fim, capaz de adormecer todos os homens inquietos da vizinhança.

Então ele chega. Devagar, devagarinho. De mãos enterradas nos bolsos. Com os cabelos empastados na grande cabeça. Com os olhos brilhando em terríveis brilhos ignorados.

Ele chega, ladeia os postes, pisa as poças da pracinha adormecida, sobe ao coreto, senta-se no segundo banco, violando o privilégio do clarinetista. Continua de mãos nos bolsos, deixa que a água chegue pela fenda do teto de zinco e encharque ainda mais seus cabelos, e caminhe mansamente em seu rosto cheio de sombras.

Então, ele fica sendo, na noite quieta do bairro inútil, o homem mais triste, mais úmido, mais abandonado do mundo.

III. Cais

Encostou-se ao cais. Afundou olhos ansiados nas águas tão serenas, nelas procurando a solução para o mistério dos seres. Mas as águas continuaram serenas, não responderam nada.

Era úmido, o frio. Um frio que entrava nas carnes, que punha manchas, que punha discretas manchas arroxeadas no livre rosto do homem triste.

A luz das lâmpadas — das lâmpadas dispostas sem nenhuma regularidade — se refletia, tremelicando. Os reflexos não tinham sentido, mas eram fiéis, não cessavam.

Jogou as pernas no lado do poente. Caminhou até o fim. Até o ponto em que desaparecia o cais, rebatido pela montanha. Olhou-a, de frente. Pareceu-lhe mais inimiga, a montanha, protegida pela noite, dilatada pelas sombras. A lâmpada, que assinalava aquela fronteira, pendia de um poste carcomido, desnivelado, distante dos companheiros.

E a sua luz era fraquinha, agonizante, medrosa do vento de mar alto que chegava de vez em quando.

Debruçou-se no ângulo da terra com as águas. E sentiu ímpetos absurdos. O mistério crescia, crescia a angústia. As dúvidas se repetiam, renovando-se as torturas. A tortura de penetrar a misteriosa fundura dos destinos. De dominar o significado inicial das coisas. De compreender o sentido daquele coração pulsando magnífico, daqueles nervos que tanta sutileza sabiam colher.

O vento cresceu, o mar engrossou, ficou violentando o cais estrepitosamente. As águas perderam a serenidade, mas guardavam – os olhos do homem – o mesmo brilho ansiado. Os olhos então se fixaram na lâmpada da fronteira, na lâmpada distante da grande curva iluminada do cais. A luz era fraquinha, parecia agonizar. Mas o homem não queria que ela morresse. Desejou, com todas as forças, que o poste carcomido adquirisse a segurança dos companheiros, e não tentasse tanto o amparo da montanha dilatada pelas sombras.

Lampadazinha solitária, não se apague, não se apague não! Porque aquele homem está desesperado, só lhe resta essa luzinha da fronteira, todas as outras luzes, todos os outros postes se anularam na tormenta.

A tormenta se declarou como nunca, o mar invadiu o cais, a cerração domina a cidade, todos os seres se recolheram ao abrigo mais próximo. Por isso não se apague, lampadazinha, não se apague não. A montanha já desapareceu, a água também perdeu a compostura, não sabe o que faz, sobe na terra, volta pro mar, gesticula no ar, doidamente. Só a luzinha da fronteira não fugiu aos olhos do homem. O homem não quer que ela se apague, porque então seu desespero não terá remédio. Luzinha, luzinha do poste carcomido! Vá resistindo, vá resistindo sempre, sempre, sempre. Mas, talvez não resista, a luzinha. Talvez acompanhe o coro das trevas, abandone o homem do cais. Agora está piscando. Piscando duas vezes, três vezes, quatro vezes. Ameaça desaparecer, começa a agonizar.

Um grito agudíssimo parte do peito do homem, daquele peito abrigando um coração que pulsava magnífico. O grito se perde, não encontra resposta, não ecoa na montanha nem ecoa no mar.

A luz ainda não morreu de todo, vai diminuindo, devagar.

Mas o homem pede que não o abandonem tanto. Por isso, luzinha do cais, não se apague. Não se apague, não, pelo amor de Deus!
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Newton Sampaio natural de Tomazina/PR, 1913 e falecido na Lapa, em 1938,  foi um médico, ensaísta, escritor e jornalista brasileiro. Newton é considerado um dos mais importantes contistas paranaenses sendo o precursor do conto urbano moderno. Em 1925, saindo da pequena Tomazina foi estudar no Ginásio Paranaense, em Curitiba, e precocemente, passou a lecionar nesta instituição, além de colaborar para alguns jornais da capital paranaense, principalmente o "O Dia". Ao ser admitido na Faculdade Fluminense de Medicina, transferiu-se para a cidade de Niterói. Após formado em Medicina, permanece na capital do país, porém, com a saúde bastante abalada, retornou a Curitiba e em seguida internou-se em um sanatório na cidade da Lapa onde faleceu no dia 12 de julho de 1938. Duas semanas após o seu falecimento, recebeu o Prêmio Contos e Fantasias concedido pela Academia Brasileira de Letras, pelo livro Irmandade. Newton Sampaio pertenceu ao Círculo de Estudos Bandeirantes de Curitiba e como homenagem ao jovem modernista, um dos principais prêmios de contos do Brasil leva o seu nome: Concurso Nacional de Contos Newton Sampaio. Algumas obras:  Romance “Trapo”: trechos publicados em jornais e revistas; Novela “Remorso”, 1935; “Cria de alugado”, 1935; Contos: “Irmandade”, 1938, “Contos do Sertão Paranaense”, 1939; “Reportagem de Ideias”: contos incompletos, etc.

Fontes:
Newton Sampaio. Ficções. Secretaria de Estado da Cultura: Biblioteca Pública do Paraná, 2014. Disponível em Domínio Público.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 149 *


Poema de 
MÁRCIA WAYNA KAMBEBA
Castanhal/PA

Mulheres Indígenas na Pesquisa

Mulheres de rosto firme e olhar profundo,
Filhas da floresta, do rio, do mundo,
Carregam nos passos a voz dos seus 
Saberes antigos, herdados dos céus.

Entre cantos, rezas e sementes,
Erguem-se firmes, persistentes,
Nas aldeias e nas universidades,
Tecem pontes entre duas verdades.

Com lápis na mão e pés na raiz,
Desafiam o que antes se quis:
Silenciar vozes, calar coragens
Mas elas escrevem suas próprias margens.

Pesquisam a cura, o clima, a memória,
Com olhos de quem honra a história.
Sabem que o saber não é só papel,
Mas também fogo, tambor, céu.

Indígenas, sim, e doutoras também,
Na luta por justiça vão mais além.
Porque ciência com alma e coração
Nasce do povo, do chão, da canção.
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Poema de
ANTÔNIO JURACI SIQUEIRA
Belém/PA

Oleiro e Barro

Acorda! Já é dia e o teu destino
é fazer teu destino caminhando!
Tu és, ao mesmo tempo, oleiro e barro;
Tu és, num só momento, o boi e o carro!

Acorda! O tempo urge... Tu não sabes
que deténs as rédeas da ação?
Tu és a solução dos teus problemas
e a chave que abre tuas algemas
repousa, eternamente, em tua mão!

Levanta! O sol se põe... Bate a poeira
acumulada por tantos verões!...
Tu és a vela-mestra da História,
o caminho que conduz à glória,
a semente das revoluções!
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Dobradinha Poética (trova e soneto) de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Reencontro

Na tua ausência formei
um rosário dos meus “ais”
e, hoje, que te reencontrei:
– Meu Deus, sofrer, nunca mais!

Antevendo o momento em que irei reencontrar-te,
repensando, feliz, quanto ainda te quero,
intento este preencher do meu tempo com arte,
vindo expor num soneto o amor puro e sincero.

A ansiedade me envolve e já sei que faz parte,
leva quase à loucura e quando eu desespero,
desse anseio sofrido, almejando o descarte,
ouço a voz da esperança e esta angústia, supero!

Com excelso desvelo eu desejo te olhar,
abraçar-te bem forte e, depois, mergulhar
na paixão que revela o que sinto por ti.

Hora e dia a apontar, terra e céu presenciando
o milagre da volta e eu prossigo rogando:
— teu amor para sempre... e esquecer que sofri!
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Poema de 
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

A cortina úmida 
Molha a terra que 
Entusiasmada exala 

O cheiro suave de seu ventre 
A água em livre demanda 
Carrega pelas sarjetas 

As mágoas da natureza 
Do nosso tempo, a alegria 
E a tristeza do viver.
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Poema de
FERNANDO PESSOA
Lisboa/Portugal 1888 – 1935

Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
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Trova Popular

Quem não nasceu pra sofrer
desafiar pode os fados,   
que os próprios deuses respeitam
os entes afortunados.
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Soneto de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Dor Oculta

Quando uma nuvem nômade destila
gotas, roçando a crista azul da serra,
umas brincam na relva; outras, tranquila,
serenamente entranham-se na terra.

E a gente fala da gotinha que erra
de folha em folha e, trêmula, cintila,
mas nem se lembra da que o solo encerra,
da que ficou no coração da argila!

Quanta gente, que zomba do desgosto
mudo, da angústia que não molha o rosto
e que não tomba, em gotas, pelo chão,

havia de chorar, se adivinhasse
que há lágrimas que correm pela face
e outras que rolam pelo coração!
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Poema de
CACO PONTES
São Paulo/SP

Nu olhar

 A gente vê
gente
pelas ruas da cidade
A gente vai passando
e fica só olhando
gente
fora das janelas
peixes sem aquário
A gente vê
besta certeza
guardada nu olhar
a gente quer ir
antes que chegue
a hora
as vezes
e vê gente
que diz assim:
- aí bicho, isso daí não tá cum nada!
rabisca, amassa, chuta
e tenta outra vez
A gente vê
mas no fim da parada
não enxerga quase nada.
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Soneto de
MARTINS FONTES
Santos/SP 1884 – 1937

Como é Bom Ser Bom

Tu, que vês tudo pelo coração,
Que perdoas e esqueces facilmente,
E és, para todos, sempre complacente,
Bendito sejas, venturoso irmão.

Possuis a graça como inspiração
Amas, divides, dás, vives contente,
E a bondade que espalhas, não se sente,
Tão natural é a tua compaixão.

Como o pássaro tem maviosidade,
Tua voz, a cantar, no mesmo tom,
Alivia, consola e persuade.

E assim, tal qual a flor contém o dom.
De concentrar no aroma a suavidade,
Da mesma forma, tu nasceste bom.
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Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Morte do Poeta

Tu, poeta, cantas a vida,
Aquela que nunca finda.
Sutil brisa no alvorecer,
Pelo arrebol do Eterno Sol 
Que o mundo ilumina.

Tu, poeta, cantas a morte,
Arte despojada,
Estrutura informe, inacabada.
Vazia, sem réplica.
Da cor do mistério da terra muda.

Tu, poeta, falas de vida e de morte.
Um dia vive de alegria,
Noutro chora de tristeza.
Num só abraço
de braços sem força.

Tu, poeta, viverás para sempre…
Teus versos o vento jamais levará.
Cinzelados despontam De inúteis devaneios
Pela desconhecida morte
Inspirados!
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Soneto de
BENEDITA AZEVEDO
Magé/RJ

Desgaste

Se alguém diz que te ama se precisa
Que cuides de sua vida e dos negócios,
Cuidado! Pois de acordo com a pesquisa
É provável que acabe em dois divórcios.

Primeiro são os bens que já não tem
Pois  tudo divido já foi dantes
Que te arriscasses neste vai e vem
De filhos, ex-mulheres e amantes.

Mas o pior de tudo é perceber
Que por mais que se faça é olvidado
E quem nunca fez nada é premiado.

E teus neurônios vão se desgastando
Que às vezes já não pode ser levado
Um casamento assim, atrapalhado.
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Um Vazio

Um vazio põe além do horizonte 
Um querer que à distância se lança, 
Pois a ânsia que o barco desponte 
Jacta o falso sabor da esperança. 

Eu bem sei, não mudou a janela, 
Mas o barco de longe não vem. 
A saudade é bem mais do que "aquela" 
E a vontade do beijo também! 

É verdade que após as tormentas 
O mar calmo se faz tão presente, 
Como é certo que as nuvens cinzentas 
Põem o Sol a brilhar novamente. 

Por aqui, vejo a chuva caindo; 
Logo mais, chega a luz desde o leste, 
A mostrar todo o azul do céu lindo, 
Um desenho de Deus, inconteste! 

Pensamento vai longe, de vez! 
Traz, enfim, esse barco; reitero! 
Penso até que meu porto, talvez, 
Não comporte o navio que eu espero.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE 
Sai do bar - e já sem prumo - 
tropeçando, cuca em brasa, 
pergunta, todo sem-rumo: 
- "Onde fica a minha casa?" 
Héron Patrício  
Ouro Fino/MG, 1931 – 2018, Pouso Alegre/MG

GLOSA 
Sai do bar - e já sem prumo - 
com sua cabeça "feita", 
diz o Saraiva, sem rumo: 
- Eita calçadinha estreita! 

Caminhando em ziguezague 
tropeçando, cuca em brasa, 
o Saraiva, e não é blague, 
perdeu o rumo de casa! 

E neste seu desarrumo, 
o Saraiva, já abatido, 
pergunta, todo sem-rumo: 
será que eu estou perdido? 

A mulher, cheia de raiva 
respondeu: - Na cova rasa! - 
ao perguntar-lhe o Saraiva: 
- "Onde fica a minha casa?"
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Hino de 
Loanda/PR

Terra boa, Loanda querida
Berço augusto de sonho e de amor
Nasce em ti a esperança que agita
No sorriso de fé e de amor
O teu céu, o teu sol, tua gente,
Tudo é glória perene imortal
Que ilumina no porvir esplendente
Filho altivo de nosso ideal.

Em ti deixamos nossa esperança
Sempre inspirada no teu amor
E só por ti, querida Loanda,
Nos corações haverá louvor.
Em ti deixamos nossa esperança
Sempre inspirada no teu amor
E só por ti, querida Loanda
Nos corações haverá louvor.

Pioneira feliz do progresso
Sintetizas a paz e o labor
E teu solo bendito é acesso
As riquezas que são teu fulgor
O teu nome, Loanda querida
Será sempre divina canção
A inspirar nossos passos
A vida para a tua formosa ascensão.
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Sob as cinzas

… as saudades queimam mais do que brasas…
Silveira Bueno

Como supostas brasas apagadas,
que ao sopro de um vadio e inquieto vento,
livre das cinzas, não mais abafadas,
revivescessem, retomando alento,

certas recordações em nosso peito,
de há muito adormecidas e caladas,
revolvem-se, de súbito, no leito,
despertando agressivas e agitadas.

E essas lembranças todas revividas
que imaginávamos já recolhidas
ao abrigo silente do passado,

vêm ralar nosso peito de amargura,
e as saudades, em dúlcida tortura,
queimam mais que o carvão reativado.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O conselho dos ratos

Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome,
Sua alcunha — Esgana-ratos.

As ratazanas mais feras
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;

Que amortalhava nas unhas
Ainda o rato mais machucho,
Tendo para o sepultar
Um cemitério no bucho.

Passava entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por um gato maltês,
Sim por um vivo diabo.

Mas janeiro ao nosso herói
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio lhe buscava.

Dona Gata Tartaruga,
De amor versada nas lides,
Era só por quem na roca
Fiava este novo Alcides.

Em tanto o deão dos ratos,
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhe falou:

«Enquanto o permite a noite,
Cumpre, irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.

Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça;
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.

Creio que evitar-se pode
Este fatal prejuízo;
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.

Bem que ande com pés de lã,
Quando o cascavel tinir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir.»

Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era a dúvida achar
Quem fizesse a diligência.

«Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão,
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.

— Eu não vou lá, disse aquele;
— Menos eu, outro dizia;
— Nem que me cobrissem de ouro,
Respondeu outro, eu lá ia!

— Pois então quem há de ser?
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: «Eu não, eu não!»

Tomou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal
Que o remédio que se encontra
Ainda é pior do que o mal.

Assim mil coisas se assentam
Numa assembleia, ou conselho;
Mas vê-se na execução
Que têm dente de coelho.

Sammis Reachers (Gás Hélio)


Foi nomeado pela paixão do pai e fonte de sustento da família, desde antes dele fazer parte da mesma: Hélio.

Seu pai, Airton, era vendedor de balões ou bexigas infladas por gás hélio, aqueles bólidos flutuantes em forma de peixe, escudo do flamengo ou cabeça do Mickey.

Aluno destaque do sexto ano do CIEP 051 Municipalizado Anita Garibaldi, em São Gonçalo/RJ, Helinho nutria carinho todo especial pelos balões que ajudaram a nomeá-lo e a provê-lo. O menino auxiliava o pai nos enchimentos e montagens, e sempre que podia era levado aos pontos de venda: Rotineiramente o Campo de São Bento, em Niterói, ou eventos sazonais, um aniversário de Itaboraí aqui, um feriado de São Gonçalo acolá, um festival de pipas em Maricá, por Trás-os-montes. O menino já conhecia toda a Região Metropolitana do Estado do Rio.

O mesmo não ocorrera com seu predecessor em chegada na família, Heitor, irmão mais velho. Aliciado no portão de casa, ponto de revenda de drogas no depauperado bairro Jardim Catarina, cedo tomou o caminho da marginalidade.

Morreu no dia primeiro do segundo ano de carreira, a 200 metros do portão da casa do “seu Airton do Gás”; seu portão, seu pai.

Baque no sonhador Helinho, bordoada de moer menino tenro. Notas decaíram, participação nas aulas, na igreja. Seu sangue e companheiro de pelada no quintal, seu parceiro de “playstation”, seu incentivador nas paqueras, seu torto herói se fora.

Na velha coleção de biografias achada por seu pai no lixo, nas portas de um grande edifício, ao chegar pela manhãzinha lá no niteroiense Campo de São Bento, Helinho mergulhava sua solidão. Numa das biografias, a do padre brasileiro Bartolomeu Lourenço de Gusmão, nosso primeiro inventor e pai do balão a ar quente, um estalo.

Inspirado numa prática de produção textual que aprendera na escola, o aluno destaque do Anita Garibaldi passou a escrever cartas; primeiro para si mesmo, refletindo sobre sua perda. Logo as endereçava a seu irmão. Por fim, o salto humanitário, digno de um Gusmão, uma Anita: Helinho passou escrever ternas mensagens para pessoas que tivessem perdido alguém, tal como ele perdera. E assim surgiram “Carta a uma mãe que perdeu um filho”, “Carta à criança que perdeu a avó”, “Carta a quem perdeu um irmão”. Contando brevemente sua história, Hélio contextualizava sua mensagem para diversos leitores em potencial.

Um belo dia, tendo impresso uma quantidade de cópias de cada cartinha, Helinho as atou a balões inflados de hélio – não os artísticos balões vendidos pelo pai, mas a modelos simples, como as bexigas de festa de aniversário – e, subindo para a laje de sua humilde casa, soltou os balões, vagões de sonho lotados de afeto, nos ares de sua São Gonçalo.

No primeiro dia foram 30. Quinze dias depois, o menino despachava mais 15. E assim, usando de suas economias, o menino adquiria os balões e inflava-os com os botijões de gás do pai, liberando suas mensagens pelo ar.

Em apenas três dias depois dos primeiros lançamentos, duas marcações no perfil do menino no Instagram apareceram. Pessoas curiosas, que encontraram uma das mensagens, nas quais constava também o endereço do menino, e seu perfil naquela rede social. Mas demorou 45 dias para chegarem as primeiras cartas. Cartas de papel, como as de Helinho. Uma mãe e uma irmã.

“Querido menino Hélio. Encontrei seu balão pendurado nos galhos de uma árvore em Alcântara. Era de manhãzinha, eu ia pro meu trabalho nos Correios. Sua mensagem me fez chorar no ônibus, pois perdi minha mãe há seis meses. Ainda sofro. Mas acredito que Deus usou você para me mandar uma mensagem de conforto. Obrigado, meu filho. Não te conheço, mas você já conquistou uma amiga.”

A segunda carta – outras viriam – era de uma adolescente de 17 anos, Ágatha. Ela vira o balão do menino caído em seu quintal, de tarde, ao chegar do cursinho pré-vestibular. Com a mensagem em mãos, Ágatha entrou no quarto de seu irmão, deitou-se em sua cama e chorou. Mateus partira ia pra um ano.

“Oie!

Me chamo Ágatha, sou moradora aqui do Vila Três, em São Gonçalo também. Cara, sua cartinha chegou a mim, bem no meu quintal! Eu perdi meu irmão assim como você. Meus sentimentos por sua perda.

Sua mensagem me trouxe uma alegria que não sei expressar; era como um recado de meu irmão, dizendo para mim e minha mãe sermos fortes, que ele está bem.

Precisei escrever para você. Ia mandar mensagem no privado em seu perfil, mas resolvi escrever uma carta, assim como você. Minha primeira carta. Nem sei como enviar! Mas vou no correio me informar.

Estou escrevendo essa carta na cama de meu irmão. Minha mãe doou as coisas dele, roupas e tais, mas deixou a cama como estava. Pra lembrar dele, sabe? Mas não sei se isso é saudável, pra nós duas. Pois ambas choramos muito nesta cama. Já a peguei de madrugada ajoelhada aos pés da cama dele, chorando sozinha, e dizendo ‘onde foi que eu errei?’ Mas somos tantas famílias nessa situação...

Hélio, venho agradecer seu gesto, sua forma de ajudar as pessoas. Você é um anjo que, não tendo asas, criou as suas com palavras e bexigas de gás. Obrigado obrigado obrigadooooo!”
* * * 

Voa, Helinho. Voa e trabalha, que faltam anjos no mundo, e os que desistem, no lugar de uma segunda chance, são mortos a bala.
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Sammis Reachers Cristence Silva nasceu em 1978, em Niterói/RJ, mas desde sempre morador de São Gonçalo/RJ, ambos municípios fluminenses. Sammis é poeta, escritor, antologista e editor. Licenciado em Geografia atua em redes públicas de ensino de municípios fluminenses. É autor de dez livros de poesia, três de contos/crônicas e um romance, e organizador de mais de cinquenta antologias.  Aos 16 anos inicia seus escritos e logo edita fanzines, participando do assim chamado circuito alternativo da poesia brasileira, com presença em jornais e informativos culturais. Possui contos e poemas premiados em concursos do Brasil, bem como textos publicados em antologias e renomadas revistas de literatura.

Fonte:
Mar Ocidental. 23.12.2025
https://marocidental.blogspot.com/2025/12/gas-helio-um-conto-sobre-acolhimento-e.html#comment-form

domingo, 1 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 3 *


José Feldman (Floresta/PR)

GRALHA AZUL

Nas matas frias de verde pinheiro,
vivia a ave de penas comuns.
Sem o azulado do céu por inteiro,
buscava o brilho em tempos de jejuns.

Diz a lenda que o bicho dormia,
no galho seco que o vento balançou,
mas um machado, com fúria e agonia,
o pinheiral no chão derrubou.

A ave subiu ao reino do alto,
pedindo a Tupã um novo poder,
ganhou o manto do azul do planalto,
para as florestas de novo erguer.

Voltou à terra com foco e coragem,
colhendo o pinhão com o bico fiel.
Enterra a semente em cada pastagem,
sob a proteção do sagrado dossel.

É a Gralha Azul, que a mata semeia,
plantando a araucária no solo do sul,
enquanto o destino no bico se enleia,
pinta o destino em tom de azul.

José Luiz Boromelo (Domingo no parque)


O garoto era muito esperto para a idade. Com apenas seis anos se mostrava espirituoso, captava tudo no ar e dava trabalho aos pais, que evitavam certos comentários em sua presença. A mãe, incomodada com a situação chegou a levá-lo a um especialista. “É um dom natural, não há motivos para preocupação” tranquilizou o médico. Por via das dúvidas a atenção era redobrada e os diálogos restritos ao cotidiano da casa, para evitar constrangimentos com estranhos. Mas naquele fim de semana a programação estava definida. O pai, taxista,  trabalharia a noite toda e ficaria em casa descansando. Somente à tarde os apanharia no local combinado. Era domingo, fazia frio e o garoto cismou em não aceitar o passeio. Exigia que a mãe cumprisse com a promessa da semana passada. “Quero ir ao rodízio de pizza” dizia ele, bufando como touro bravo. A irmã menor o apoiava, para desespero da mãe que via seu tão esperado programa, adiado por diversas ocasiões, ir literalmente pelos ares. “Vai ter bastante gente lá”, tentava argumentar ela já antevendo a resposta na ponta da língua quando o pirralho empacava. “Na pizzaria também tem”. Foi preciso o pai convencer o menino, que não escondia sua contrariedade. Ficou acertado que depois do passeio, todos iriam saborear a tão desejada pizza.

Logo a mãe se arrependeria daquele programa dominical. Famílias inteiras chegavam ansiosas por desfrutarem da natureza generosa em forma de clorofila. No início o menino se distraiu com as novidades, mas não demorou muito para mostrar seu gênio difícil, principalmente quando se aproximavam de algum grupo de pessoas. “Mãe, o prefeito está doente?” soltou ele, com sua voz estridente. Diante da inusitada pergunta e dos olhares curiosos, a mãe hesitou e o garoto emendou: “Papai disse que ele está sofrendo de pressão política”. A mãe ficou sem ação por alguns instantes, no que o garoto completou: “É por isso que essas pessoas estão chorando?” Desconcertada com a espontaneidade da criança a mãe tratou de sair logo dali, com a intenção de mostrar o parque aos pequenos. E foi explicando que algumas pessoas estavam emocionadas pelo retorno da santinha ao seu local original, por conta das obras na gruta onde foi recolocada novamente.

 Os pedidos por refrigerante, pipoca, doces e outras guloseimas fizeram a mãe exceder sua dose extra de paciência, naquele que prometia ser um dia todo especial. A companhia do pai seria oportuna, visto que o garoto a testava ao máximo para se assegurar até onde chegariam seus limites. “Quero ir ao banheiro” avisou ele, em tom de desespero. “Faz ali, atrás da árvore mesmo” respondeu impaciente a mãe, diante da fila interminável para utilização do sanitário. Mais uma vez, o menino radicalizou: “Só se ninguém olhar”, arrancando gargalhadas dos visitantes que em solidariedade, formaram um cordão de isolamento para que o pequeno se aliviasse.

O passeio pelo parque continuava e como a temperatura ficou agradável resolveram permanecer até mais tarde. O garoto não deixava passar nada em branco. Comentou que os bichos de concreto eram “sem sal”, melhor seria se transformados em bancos. Quase não se conteve quando a mãe o proibiu de alimentar os saguis. Mesmo com a temperatura amena insistia em molhar os pés nas águas do lago. Depois de um bom tempo, a disposição do garoto já não era mais a mesma. Agora não apresentava o deboche do início, típico de quando era contrariado, limitando-se a tecer alguns comentários dispersos. Era uma das táticas da mãe vencê-lo pelo cansaço. Isso quase sempre funcionava.

 Mas eis que num descuido, aproximou-se de uma família e logo entabulou conversa. Contou que estava ali contra sua vontade, a mãe o deixara com fome, estava com os pés molhados e com frio e o pai ficara em casa dormindo. A mentira dessa vez foi longe demais, somente esclarecida quando a mãe apavorada com o sumiço do filho notou a presença de uma viatura policial e em seu interior um garotinho que reinava absoluto, falando pelos cotovelos. Prometendo não deixar o filho sozinho nem por um instante sequer, encerrou o passeio imediatamente. Na saída, a mãe se deu por vencida: “Melhor ir para a pizzaria” disse ela. “De táxi”, rematou imediatamente o encrenqueiro. E assim, com essa e outras divertidas histórias, a população teve a oportunidade de usufruir de um belo domingo ensolarado no parque público.
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José Luiz Boromelo, é de Marialva/PR, policial rodoviário aposentado, escritor, cronista e agricultor, colaborador da Orquestra Municipal Raiz Sertaneja.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 07.06.2015
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/5269507

Geraldo Pereira (O Segundo Bandolim)


À tardinha e em sábado assim, de uma tropicalidade exagerada, sentado no alpendre de casa e sob o trinar derradeiro do sabiá, li O Segundo Bandolim, de Octávio Pernambucano da Costa. Um pequeno romance, no qual estão inscritas e escritas velhas histórias, transformadas em estórias. Algumas do século XIX, ouvidas dos antepassados e outras do tempo contemporâneo, por isso mesmo posta ali, no livro, a título de resgate pessoal das memórias. Personagens que foram reais, diz o autor, que preencheram cenários e que protagonizaram cenas da vida, menos Aurora, nascida do imaginário, simplesmente criada ao gosto do ficcionista. Essa, a mulher ideal, que aflora na hora da inspiração literária, forjada às custas de muitas outras, trazendo no todo uma integralidade construída em partes. Pela beleza que impressionou e pelas formas de corpo que mais se adequaram às sensuais exigências do escritor, pela inteligência e pela loquacidade, como pela sensibilidade, de almas femininas tocadas pelas virtudes do espírito e do sentimento. Figurante, pois, de enredos carregados de afetividade, de carinhosas palavras dantes verbalizadas e anos após novamente expressas sob o manto agora mais do que protetor da ficção. Só assim o prosador, poeta tantas vezes, faz ressurgir figurantes dos tempos, que as brumas do passado embalam com as nostálgicas loas das lembranças!

E com o texto de Pernambucano da Costa tive a satisfação de fazer uma longa viagem de volta nos anos, a lugares até que não imaginava retornar dessa forma, em pensamento. Fui rever o Quem-me-Quer, aquela longa mureta no centro da cidade, emoldurando as margens do rio das capivaras, de um lado e de outro, na qual sentavam muitos dos que me acompanharam na jornada da juventude. Lugares reservados às moiçolas casadoiras da banda de cá, nas proximidades do São Luiz. E mais outros, na banda de lá, para as mulheres de vida fácil, mas de cujas dificuldades tantas se sustentaram. E diz o nosso romancista, estreante na arte da ficção, que ali há: “... gente fazendo uma parada para esquecer a mágoa, gente expandindo felicidade, gente pedindo gente com os olhos”. E era isso mesmo! Quantas e quantas vezes vi com esses olhos de agora figuras absortas, olhando o largo vazio do firmamento, distante do mundo e das coisas, como as pessoas pensando na vida, no existir terreno, mastigando desditas e mitigando o padecer d’alma! Ou quantas vezes assisti o riso brotar das viçosas faces de meus contemporâneos, de moças e de rapazes vendendo alegria e distribuindo humores! Do mesmo jeito os amores, aqueles que floresceram e de todos os deuses mereceram as bênçãos e os que feneceram no pranto chorado, silente ou ruidoso, nas muretas de pedra!

Fui à rua Formosa – a Conde da Boa Vista de hoje –, à Imperatriz e à rua Nova, à rua do Sol e a muitas outras, todas do Recife daqueles antanhos, fiz o footing e outra vez me sentei no Quem-me-Quer, destino derradeiro dos encantos urbanos. Nos bairros de São José e Santo Antônio, na Boa Vista e no Espinheiro vi as cadeiras nas calçadas e o povo fiando conversa. Nas casas de grandes quintais, nos terreiros de outrora, estavam estendidas as roupas lavadas, a secarem ao sol e ao vento, despertando fantasias, como no livro, no imaginário dos meninos! Ouvi os pregões do Recife, cantados e decantados por Octávio Pernambucano da Costa. Temática, aliás, sobre a qual já me detive e para a qual obtive a maior de todas as repercussões! O escritor lembra do homem que trazia às costas verdadeiro armazém de utilidades: “papé pega-mosca, abridô de lata, espanadô, vassoura e abano, rapa-coco e grêia…”. Mais interessante ainda o amolador de tesouras, que, na verdade, a tudo amolava, tocando um realejo de tubos crescentes, a deslizar nos lábios, para um lado e para outro, sob a ação de um sopro nascido das inspirações do espírito. E foi no povoado de Duarte Coelho, na velha Olinda, onde Aurora encontrou-se com Álvaro, que eu me encantei também com a musa de meus dias e fiz daquilo ali, das calçadas altas e largas, os meus altares, deixando-me fluir o culto à magia da beleza e da inteligência.

Eu também li A Carne às escondidas, no quarto da empregada, com a cumplicidade de Virgínia, nascida nos Palmares, criada na palha da cana e amada na bagaceira. E conheci a petisqueira, na qual se guardavam as frutas das árvores do quintal e na qual estavam penduradas as xícaras, pelas asas. Desapareceu do ambiente doméstico por falta de espaço, substituída pelos armários da modernidade! E fui, então, acrescentando as minhas coisas, para misturar as saudades! Na sala, o velho Lavatório, em desuso já, mas trazendo de volta a minha avó paterna, a casa-grande do engenho, como a louça inglesa e os talheres de prata, com inscrições que diferenciaram a família antes da debacle do açúcar.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing