sábado, 14 de fevereiro de 2026

Cristina Peri Rossi (Poemas Avulsos)


DEDICATÓRIA

A literatura nos separou: 
tudo o que eu sabia sobre você
aprendi nos livros
e o que faltava,
coloquei em palavras. 
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A PAIXÃO

Emergimos do amor
como de um acidente de avião
Tínhamos perdido nossas roupas
nossos documentos
a mim faltava um dente
e a você, sua noção de tempo
Foi um ano tão longo quanto um século
ou um século tão curto quanto um dia?

Através dos móveis
pela casa
destroços quebrados:
copos, fotos, livros com páginas rasgadas
Éramos os sobreviventes
de um deslizamento de terra
de um vulcão
das águas furiosas
e nos despedimos com a vaga sensação
de termos sobrevivido
embora não soubéssemos por quê.
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AS PALAVRAS SÃO ESPECTROS...

As palavras são espectros,
pedras abracadabra
que rompem os selos
da memória ancestral

E os poetas celebram a festa
da linguagem
sob o peso da invocação

Poetas acendem as fogueiras
que iluminam os rostos eternos
de antigos ídolos

Quando os selos se rompem,
o homem descobre
o rastro de seus ancestrais

O futuro é a sombra do passado
nas brasas vermelhas de um fogo
que veio de longe,
de sabe-se lá onde.
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EU NÃO QUERIA QUE CHOVESSE

Eu não queria que chovesse,
eu juro,
que chovesse nesta cidade
sem você,
e ouvir o som da água
caindo,
e pensar que onde você está morando
sem mim,
está chovendo na mesma cidade.

Talvez seu cabelo esteja molhado,
seu telefone à mão
que você não usa
para me ligar,
para me dizer
esta noite que te amo.

Lembranças suas me inundam.

Me perdoe,
a literatura me matou,
mas você se parecia tanto com ela.
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ORAÇÃO

Livra-nos, Senhor,
de reencontrar
anos depois,
nossos grandes amores.
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REMINISCÊNCIA

Eu não conseguia parar de amá-la porque o esquecimento não existe
e a memória é modificação, de modo que sem querer
eu amava as diferentes formas em que ela aparecia
em transformações sucessivas e eu ansiava por todos os lugares
onde nunca estivemos, e eu a desejava nos parques
onde nunca a desejei e eu morria de lembranças das coisas
que nunca saberíamos e elas eram tão violentas e inesquecíveis
quanto as poucas coisas que havíamos conhecido.
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Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu/Uruguai em 1941, romancista, poetisa, tradutora e autora de contos. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar sua terra natal por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, onde reside até hoje. Durante sua carreira, ela atuou como professora, além de se destacar como romancista, poetisa, contista e ensaísta. Também colabora frequentemente em revistas e publicações periódicas internacionais.

A autora aborda questões que exploram as complexidades das relações humanas, gênero e sexualidade. Seus poemas são bem marcantes, com uma estrutura que mistura narrativa, confissão e metafísica. Por meio de suas obras, Peri Rossi também critica o autoritarismo, a opressão e luta por liberdade e justiça.

Como exilada uruguaia, sua experiência pessoal de deslocamento e busca por pertencimento ecoa em sua escrita, na qual temas de exílio são frequentemente explorados. A escritora é a única mulher incluída dentro do chamado boom latino americano, movimento que incorpora nomes influentes da literatura nas décadas de 1960 e 1970 como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes.

Ela ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes em 2021.

Algumas obras são:
La insumisa; Los Amores Equivocados; Julio Cortázar y Cris; Habitaciones privadas; Playstation; Habitación del hotel; Mi casa es la escritura; La nave de los locos; Desastres íntimos, etc.

Fontes:
Poemas = tradução do espanhol por José Feldman

Eduardo Martínez (Beócio, o espertalhão)


Beócio nasceu de um casal normal, mas estava longe de receber a atenção dos olhares femininos. Não que fosse disforme de aparência, apesar de nunca ter sido considerado bonito, mas não era tido como feio, aliás, muito feio. Entretanto, além da aparência não tão agradável, o que mais chamava a atenção das pessoas era a sua capacidade de falar bobagens ou, como sua mãe gostava de falar: "Beócio, deixa de bobice!"

Já adolescente, ouviu pela primeira vez do melhor amigo, o Restolho: "Quem gosta de homem é boiola! Mulher gosta é de dinheiro!" E, assim, Beócio foi formando o seu caráter, digno da extraordinária sociedade brasileira, sempre aliada aos bons costumes. Obviamente que sim! Tanto é que, certa vez, Beócio, ainda sem um pelinho sequer despontando em sua face, saía bem cedo para comprar pão na padaria da esquina, quando avistou uma lindíssima garota de uns vinte e poucos anos, em trajes minúsculos, se despedindo sorridentemente de um homem muito mais velho e, pasmem, até mais feio que ele. O tal homem estava em um carrão conversível! "O Restolho sabe mesmo das coisas!", pensou quase em voz alta.

Já adulto, Beócio não conseguia se firmar em emprego algum. Não que fossem trabalhos difíceis de serem executados, mas os salários oferecidos nunca iam além de, no máximo, um salário mínimo. Sem muito estudo, Beócio resolveu montar uma empresa de segurança com o velho amigo, o Restolho, que também nunca havia se dado muito bem com os livros. O nome da empresa: Falcões Detonadores.

E, graças aos contatos que o pai do Restolho possuía, conseguiram alguns contratos meia-boca com empresas de renome: Birosca do seu Zé, Salão de Beleza da Dirce e Churrasquinho de Gato do Balacobaco. Na primeira, os dois sócios, cada um plantado de um lado da porta do banheiro, observavam se um cliente mais alcoolizado faria xixi nas paredes. Na Dirce, eles ficavam de olho se alguma cliente levava sem querer um frasco ou outro de esmalte. Já no terceiro estabelecimento, Beócio e Restolho tinham a função de fazer cara feia para os clientes que quisessem colocar mais farofa nos espetinhos. 

No final do mês, a Falcões Detonadores não conseguia angariar muita coisa. No entanto, os dois adoravam a sensação de poder, como se tivessem algum. Encolhiam as barrigas enormes, estufavam os peitos peludos, mexiam repetidamente nos cavanhaques, faziam beicinho, como se estivessem bravos. Tudo, obviamente, os dois haviam aprendido nos excelentes filmes do Steven Seagal, que, injustamente, jamais venceu um Oscar.

Beócio acabou se casando com Rose, manicure do Salão da Dirce. Restolho juntou os trapos com Meire, moça dali mesmo do bairro. Cada casal teve dois filhos, todos praticamente sustentados pelas esposas, já que os Falcões Detonadores, de fato, jamais alçaram voo. Os sócios, teimosos, continuaram acreditando e, talvez por isso, a amizade continuou firme. Tanto é que os dois, apesar dos protestos das respectivas esposas, votaram em um candidato que prometia armas para todos. 

Pois é, o tal candidato venceu as eleições, a crise veio que veio e levou a Birosca do seu Zé, o Salão de Beleza da Dirce e o Churrasquinho de Gato do Balacobaco. A Dirce acabou se engraçando por um rapaz bonito mais novo, que criava galinhas caipiras na parte rural em volta da cidade. A Meire pegou os filhos e foi trabalhar na cidade ao lado, onde dizem ter tido sucesso na venda de salgadinhos e docinhos. Já o Beócio e o Restolho continuam juntos, a amizade ainda mais firme. Não conseguiram comprar a tal arma prometida, mas estão cada vez mais convictos de que mulher gosta mesmo é de dinheiro.
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Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 18.05.2022
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/05/beocio-o-espertalhao.html
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José Feldman (Ecos do Deserto) 1. Entre o ódio e o perdão


“Salaam' Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus jovens amigos de alma nova e antiga. Aproximem-se, não tenham pressa, pois o tempo é um rio que corre, mas aqui, sob o dossel de estrelas de Bagdá, nós aprendemos a nadar contra a corrente.

Eu sou Mustafá, o peregrino. Olhem para estas mãos: elas estão sulcadas como o leito seco de um "wadi" (rio), cada linha uma estrada que percorri. Por mais de cinquenta anos, minhas sandálias beijaram a areia ardente do Saara, as pedras frias das montanhas do Cáucaso e o barro fértil das margens do Nilo. Fui um "musafir" (viajante) por destino e um colecionador por vocação.

Enquanto outros mercadores enchiam seus alforjes com ouro, seda ou mirra, eu buscava algo que os ladrões não podiam roubar: as histórias. Ouvi lendas sussurradas por beduínos ao redor de brasas moribundas e decifrei parábolas escondidas nos mercados de Damasco e nas bibliotecas de Alexandria. Vivi aventuras que fariam o coração do mais bravo guerreiro palpitar como o de um passarinho, e cometi erros que me ensinaram mais do que mil livros.

Agora, "alhamdulillah" (Louvado seja Deus), meus pés pedem repouso, mas minha voz ainda anseia por voar. Aqui, nestas almofadas gastas no coração de Bagdá, entre o cheiro do sândalo e o aroma do café com cardamomo, eu abro o baú da minha memória.

Deixem que o barulho do mercado se apague e que as minhas palavras pintem o ar. Pois uma história não é apenas entretenimento; é um espelho onde a alma se vê por inteiro.

Acomodem-se sobre as almofadas, pois a noite é longa e a lua de prata hoje testemunha uma história que guardo no fundo do meu alforje. Trago comigo a poeira de mil estradas e o eco de mil vozes.

"Bismillah" (Em nome de Deus), iniciamos este relato sobre o peso que carregamos nos ombros e a leveza que só o perdão pode trazer.

Nas terras de Omã, vivia um homem chamado Omar, cuja riqueza era superada apenas por seu orgulho. Ele tinha um filho, o jovem Karim, o pupilo de seus olhos. 

Em uma tarde de mercado, uma discussão fútil por causa de uma dívida de poucos dinares escalou para uma tragédia. Um jovem estrangeiro, num momento de desespero e cego de raiva, empurrou Karim, que caiu e bateu a cabeça contra uma pedra. 

O filho de Omar não despertou mais.

O estrangeiro, apavorado, fugiu para o deserto. Omar, consumido por um fogo negro, jurou: "Wallahi" (Eu juro por Deus), não descansarei até que o sangue desse homem lave a terra que meu filho pisou.

Anos se passaram. Omar tornou-se um homem amargo, caçando sombras. 

Certa noite, uma tempestade de areia terrível açoitou sua tenda. Alguém bateu à porta implorando por hospitalidade. Seguindo a lei sagrada do deserto, Omar abriu a porta e acolheu o viajante exausto, dando-lhe tâmaras e água fresca.

Enquanto o estranho dormia, a luz da lamparina revelou uma cicatriz no braço do hóspede. Omar reconheceu o homem que tirara a vida de seu filho. A mão de Omar voou para o punhal. "Ya Allah" (Ó Deus), sussurrou ele, "a vingança está em minhas mãos."

Mas, ao olhar para o rosto cansado do homem, ele viu não um monstro, mas um ser humano que também fora devorado pela culpa durante anos. Omar lembrou-se das palavras de seu próprio pai: "O perdão é a fragrância que a violeta deixa no calcanhar que a esmagou."

Na manhã seguinte, antes que o sol queimasse o horizonte, Omar acordou o homem. "Sabah al-Khair" (Bom dia), disse ele com uma voz que parecia vir de uma montanha. O estrangeiro, ao reconhecer Omar, caiu de joelhos, esperando o golpe fatal.

Em vez disso, Omar entregou-lhe as rédeas de seu melhor camelo e uma bolsa de ouro. 

"Tome", disse Omar. "Ontem eu era um prisioneiro do seu erro. Hoje, ao te perdoar, eu quebro minhas próprias correntes. Vá em paz, pois a justiça pertence ao Altíssimo."

O homem chorou e partiu, mas o peso que saiu do coração de Omar foi maior do que todo o ouro do deserto.

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a paz que o perdão traz é o único oásis que nunca seca. 

"Shukran" (Obrigado) pela vossa atenção. Que vossos corações sejam sempre mais leves que vossas sandálias. “As-salaam 'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados e 7 livros em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos (de sua autoria) e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).


Fontes;
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
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Nilto Maciel (Chão pintado de sangue)


Havia anos George Pinho escrevia umas prosas sem pé nem cabeça. E se regozijava com a cara de burrego dos leitores. Diziam não ter entendido nada. Ele ria muito e completava: o problema é seu. Mas se cansou de tanto rir dos outros e decidiu escrever contos urbanos realistas. Arranjava pretextos para passear pela cidade. Queria conhecer de perto os tipos populares, presenciar cenas do cotidiano. Anotava num caderno sinopses de histórias. Uma delas teria apenas dois personagens: um mendigo ou menino de rua, drogado, e um poeta popular ou panfletário. A ação se daria numa praça. Que ação seria essa? Que conflito ocorreria? Para encontrar as respostas, quase todo dia passava pela Praça do Ferreira, metia-se em lojas, lanchonetes, bancos, e, principalmente, andava de lá para cá, olhos e ouvidos atentos.

 Um dia caminhava pela calçada da praça na direção da Guilherme Rocha. Diante do Cine São Luiz, um mendigo comeu uma banana e lançou a casca ao chão. Sentou-se junto à parede e se pôs a olhar para as pessoas que batiam palmas ou vaiavam o rapaz barbudo e de roupas exóticas, em pé num banco, a vociferar: O poema é um punhal que brilhará na carne dos condescendentes. Seus reflexos parirão estrelas que habitarão o céu. Marinas cintilarão como ametistas nas bocas dos desvalidos. Imensas pérolas de enfeite da grande festa anunciada. Nas ruas novamente habitadas por benjamins, sorrisos, brisas nos dentes de marfim, onde se inscreverão os versos dos decapitados. 

Nesse momento George voltou a vista para o espetáculo, pisou na casca de banana e caiu espalhafatosamente. Livros e cadernos se espalharam na calçada do cinema. Uns deram vaias, outros riram. O mendigo se levantou e se esgueirou junto à parede, até desaparecer na galeria que separa o prédio do cine das lojas. 

Conduziram George ao banco da praça. Gemia de dor e pedia insistentemente para lhe trazerem os livros e cadernos. 

O rapaz anunciou outro poema e voltou a gritar: Como será nosso amanhã, criança? O meu, o teu, o da vizinhança? Talvez verde-esperança como sempre razão de viver. Talvez branco-matança, talvez negro black-power soco na cara do branco. Talvez amarelinho-da-silva. Ou será vermelho-festança? Criança? Ou pura lembrança de Ontem e de Hoje? Como será nosso amanhã, criança? Amanhança? 

Bateram palmas, vaiaram, bradaram. George permanecia deitado no banco, pálido e triste. Por que o senhor caiu? Pisei numa casca de banana. Sempre é assim. E esse maluco a dizer besteiras. Pensa que é poeta. 

George se sentou no banco. Está melhor? Preciso ir embora. O rapaz barbudo se entusiasmou de novo e passou a bramar: Neste nove de setembro há mais nove do que tudo e eu me sinto novamente o mais novo dos mortais. É como se o Zé Sarney já não fosse nosso rei e existisse no Brasil o vermelho de novembro. 

Quem é esse maluco? É o poeta Mário Menezes. Policiais passaram, em correria, pela frente do cinema. Deve ter havido algum roubo na Guilherme Rocha. 

Mário deixou o banco e se dirigiu a George. Faria um poema para lamentar a queda do outro. Não precisa disso. Escute só: Ai, meu joelho preferido, como eu queria ser você, pra descansar durante um mês e me sentir o bem-querido. O mais querido das mulheres ou das muletas, das mulatas. Como eu queria ver talheres em vez do fórum e suas batas. Ai, meu joelho maltratado pelas andanças e as peladas, como eu queria diplomado já me sentir e diplomata. Eu preferia, joelhinho, viver na Bósnia, se eu fosse embaixador – com queijo e vinho – em vez de aqui viver na doce vidinha nesta Fortaleza – carimbos, autos, petições, parafernália, tudo para me dar suores e aflições. 

O mendigo reapareceu na esquina da galeria. Alguém alertou: foi ele que jogou a casca no chão. A polícia também reapareceu. Em pouco tempo o mendigo se viu cercado de cassetetes e bordoadas. Houve quem tentasse impedir o sacrifício. 

George Pinho e Mário Menezes imploravam: não façam isso com o coitado. O povo vaiava e aplaudia ao mesmo tempo. Gotas de sangue pintavam o chão da Praça do Ferreira. E mais os soldados batiam no negrinho. George se afastou, a capengar.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 153 *


Poema de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Belos tempos...

Belos tempos, na infância, eu pude vivenciar.
Muitas brincadeiras nas ruas calmas:
de pega-pega, de roda, de cordas, de casinhas,
e muitas outras, de tirar o chapéu e bater palmas,
com as crianças vizinhas.

Belo tempo teve a minha adolescência...
De descobertas, de incertezas, de contestação!
De olhares lânguidos e de efervescência.
Do culto ao modismo e da secreta paixão...

Belos tempos... Os da minha juventude!
A faculdade, o estudo e o trabalho escolhido.
Os bailes, o grupo de amigos, a plenitude!...
O namoro não mais escondido.

Belos tempos... Vivi na maturidade,
aprendendo e transmitindo conhecimentos.
Ensinando tive a oportunidade
de o sonho concretizar e viver belos momentos.

Belos tempos... Usufruo hoje, muito bem,
com novos tipos de aprendizagens;
muitas surpresas e descobertas também!
Feliz, divirto-me em minhas viagens!
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Soneto de
JANSKE NIEMANN SCHLENCKER
Curitiba/PR

Restinho de natal 

Estou só nesta sala fria e nua
onde dorme uma sombra em cada vão;
um pinguinho de luz fugiu da rua
e cai, por uma fresta, no meu chão.

Um ar, bem de Natal, pelo ar flutua
e faz nascer de novo uma ilusão.
Um pouco de luar caiu da lua
como uma gota branca em minha mão.

E tantos pensamentos em mim dançam
que os dedos ansiosos os alcançam
e apalpam-lhes a forma tão real! 

E os toco, e os acalento de mansinho
como se acalentasse, com carinho,
o pouco que restou do meu Natal…
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Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Paixão antiga

Volta meu olhar ao passado
quando mocinha olhava curiosa
os poucos livros que minha mãe trazia
e, como joias raras os guardava.

Apesar da longa jornada, a cada noite,
havia um livro na mesa que a esperava.
Ela lia, e também tricotava...
Fazia isso com extrema agilidade.

Quando as minhas aulas se iniciavam,
eu percorria as ruas das livrarias.
Encantava-me na frente das vitrines,
admirando as capas dos livros, ilustradas.

Queria ter dinheiro para comprá-los...
Todos aqueles com os títulos atrativos,
com as imagens que e mim acendiam
tamanhos sonhos e fantasias.

Nos estudos amava ler as epopeias,
havia me apaixonado pela mitologia.
A professora de letras se empolgava
aclarando o texto, e com ela eu navegava.

Abria as asas da fantasia...
Um dia era sereia, outro dia rainha;
Tecendo o pano, e a noite desmanchando.
Esperando seu amado voltar da guerra.

A vida me levou a ser escritora,
gostar de brincar com as palavras.
Falar com elas, é como jogar sementes.
Após, vê-las nascer nos livros como flores.

Pelos caminhos percorridos
já colecionei os livros sonhados.
Um deles é filho muito amado,
leva dentro dele o meu legado.

Livro! Impossível viver sem ele;
ocupa lugar privilegiado...
Sobre a mesa de minha alma...
É meu néctar, o alimento preferido!
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Trova Popular

O anel que tu me deste
era de vidro e quebrou;
o amor que tu me tinhas
era pouco e acabou.
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Soneto de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ

A chegada do amor

Cabisbaixo, entre as flores me encontrava,
tão várias, com que os campos, langorosa,
adorna a primavera. Ah, se apagava
de meus olhos a chama esperançosa!

— “Que sentido, meu Deus! — me interrogava —
há nesta vida fútil, dolorosa,
em que as pessoas mandam-me à fava
quando lhes falo da alma mais chorosa?”

Sentia-me pequeno, e dissolvido
estava no fel de minha pequenez...
Foi quando um vulto claro apareceu

e de novo criança então me fez,
e tudo aquilo que havia perdido,
em lágrimas e amor, me devolveu.
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Poema de
DILMA DAMASCENO
Caicó/RN

A paz dos poetas

No dadivoso “Livro dos Poetas”,
as palavras revelam sentimentos…
e entre o realismo e a fantasia,
os Poetas – românticos profetas -,
vão predizendo os acontecimentos,
na linguagem suprema da poesia!...

Falam de sonhos, crenças, devoções!...
Pintam caminhos plenos de beleza!…
"Paisageando" cenas de bonança,
os Poetas alegram os corações!...
E sob a luz da sábia Natureza,
vão tatuando as almas, de esperança!
Eclodem assim, Poéticas Confrarias!
Soam forte, os “Teares do Amor”!
De forma inspiradora e pertinaz,
os Poetas, tecendo alegorias,
vão sublinhando um mundo encantador,
onde o encanto principal, é: PAZ!
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Soneto de
FLORBELA ESPANCA
Vila Viçosa/Portugal, 1894 — 1930, Matosinhos/Portugal

Maria das Quimeras

Maria das Quimeras me chamou
Alguém.. Pelos castelos que eu ergui
P’las flores d’oiro e azul que a sol teci
Numa tela de sonho que estalou.

Maria das Quimeras me ficou;
Com elas na minh’alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi
Que da minh’alma, Alguém, tudo levou!

Maria das Quimeras, que fim deste
Às flores d’oiro e azul que a sol bordaste,
Aos sonhos tresloucados que fizeste?

Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?…
Aonde estão os beijos que sonhaste,
Maria das Quimeras, sem quimeras?
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Soneto de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS (1906 – 1994) Porto Alegre/RS

Mundos

Um elevador lento e de ferragens Belle Époque
me leva ao antepenúltimo andar do Céu,
cheio de espelhos baços e de poltronas como o hall
de qualquer um antigo Grande Hotel,

mas deserto, deliciosamente deserto
de jornais falados e outros fantasmas da TV,
pois só se vê, ali, o que ali se vê
e só se escuta mesmo o que está bem perto:

é um mundo nosso, de tocar com os dedos,
não este — onde a gente nunca está, ao certo,
no lugar em que está o próprio corpo

mas noutra parte, sempre do lado de lá!
não, não neste mundo — onde um perfil é paralelo ao outro
e onde nenhum olhar jamais se encontrará...
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Soneto de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

Confidente

Velho mar, meu eterno confidente,
quantas vezes chorei ao confessar:
esta mágoa que fere, inconsequente,
e o tempo que não pode mais voltar.

E me dizes, então, naturalmente:
só o amor é capaz de me curar,
enquanto tuas ondas, mansamente,
os meus pés, com carinho, vêm beijar.

Exerces sobre mim grande fascínio,
porque tens sobre todos o domínio
e és tão frio nas tuas mutações.

Ao contrário de ti, eu sofro tanto,
e fico aqui a derramar meu pranto,
onde sepulto as minhas ilusões!
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Poema de
ALCIDES BUSS
Salete/SC

Afeito à sorte

Circunscrevem-me acasos
que me veem.
Seu intento, sou.
E também seu logro.

Numa praia, à meia-noite,
o tempo no corpo
armazenado se apodera
dos processos sob a alma.

Renascer, renasço.
Mas a flâmula de afrontas
me submete à cicatriz
do caos, ao recorte
de martírios e recessos.

Movimento-me, imóvel.
O porto do meu corpo
está aberto. Ao não-ser
me nego, mesmo que
de tudo só me reste
quase nada.
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Pantun do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun dos mares da vida

TEMA:
Singrei mares de agonia,
lutei contra vendavais,
para achar a calmaria
que só encontro em teu cais.
Lisete Johnson 
(Butiá/RS, 1950 – 2020, Porto Alegre/RS)

PANTUN:
Lutei contra vendavais,
tentando encontrar alguém,
que só encontro em teu cais,
e no cais de mais ninguém.

Tentando encontrar alguém,
procuro por todo canto;
e no cais de mais ninguém,
ninguém verá mais meu pranto.

Procuro por todo canto,
esse alguém, que disse adeus;
ninguém verá mais meu pranto
no pranto dos olhos meus.

Esse alguém, que disse adeus,
me tez sofrer todo dia;
no pranto dos olhos meus,
singrei mares de agonia.
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Hino de 
Barbacena/MG

Terra de encantos mil, jardim de flores
grande berço de antigas tradições
aqui ficas risonha como sempre
como sempre a prender os corações

Assentada no dorso das montanhas
tu tens a solidez das pétreas rochas
e assim o teu viver será perene
como a chama vivaz das grandes tochas

(Refrão)
Cidade dos encantos e das flores
ó Barbacena formosa e altaneira
tu és custosa gema que rebrilha
sobre o peito da pátria brasileira

Do teu seio tem vindo muitos homens
grandes pelo saber e no valor
nas letras, na política, nas artes
tu já tens muitos nomes de fulgor

Teu povo generoso, hospitaleiro
traz sempre como esplêndido troféu
nos brios a rijeza dos teus serros
na mente esplendores do teu céu.
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Poema de
DENNIS RADUNZ
Blumenau/SC

Metapoesia

I

    o fonema
fabula
    e se fia
na fábula

encadeia asas

II

    o poema
incende
    insula

    música
em miniatura
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

As orelhas da lebre

Conta-se que em noite escura
Certo animal cornifronte
Pôde ferir à traição,
Junto da encosta de um monte,
O rei das feras, leão;

Que em despique mandou logo
Banir por ordens legais,
Para horror de tal delito,
Os bicornes animais
De todo aquele distrito:

Bois, veados, cabras, todos
Que na fronte armas traziam,
Aqueles sítios deixavam;
E os que logo o não faziam,
Dura morte suportavam!

Notando tímida lebre
Cumprirem-se leis tão cruas,
Na sombra um dia observando
As longas orelhas suas,
Disse a um grilo titubando:

«Ai! que estas minhas orelhas
Por chifres se tomarão!
E se houver um delator
Que o vá dizer ao leão,
Da lei me exponho ao rigor!

— Tu fazes de mim pateta?
Fala, tola; pois é crível,
Lhe disse o grilo em bom ar,
Que um par de orelhas flexível
Possa por chifres passar?

— Sim, disse ela; e por que não?
Tenho-os visto mais pequenos.»
Tornou-lhe o grilo: «Vaidosa!
Se os teus fumos fossem menos,
Serias mais venturosa.

Quem és conhece e descansa;
Porque sempre que supomos,
Pela vaidade que temos,
Ser aquilo que não somos,
Mil incômodos sofremos.»
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