domingo, 1 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 3 *


José Feldman (Floresta/PR)

GRALHA AZUL

Nas matas frias de verde pinheiro,
vivia a ave de penas comuns.
Sem o azulado do céu por inteiro,
buscava o brilho em tempos de jejuns.

Diz a lenda que o bicho dormia,
no galho seco que o vento balançou,
mas um machado, com fúria e agonia,
o pinheiral no chão derrubou.

A ave subiu ao reino do alto,
pedindo a Tupã um novo poder,
ganhou o manto do azul do planalto,
para as florestas de novo erguer.

Voltou à terra com foco e coragem,
colhendo o pinhão com o bico fiel.
Enterra a semente em cada pastagem,
sob a proteção do sagrado dossel.

É a Gralha Azul, que a mata semeia,
plantando a araucária no solo do sul,
enquanto o destino no bico se enleia,
pinta o destino em tom de azul.

José Luiz Boromelo (Domingo no parque)


O garoto era muito esperto para a idade. Com apenas seis anos se mostrava espirituoso, captava tudo no ar e dava trabalho aos pais, que evitavam certos comentários em sua presença. A mãe, incomodada com a situação chegou a levá-lo a um especialista. “É um dom natural, não há motivos para preocupação” tranquilizou o médico. Por via das dúvidas a atenção era redobrada e os diálogos restritos ao cotidiano da casa, para evitar constrangimentos com estranhos. Mas naquele fim de semana a programação estava definida. O pai, taxista,  trabalharia a noite toda e ficaria em casa descansando. Somente à tarde os apanharia no local combinado. Era domingo, fazia frio e o garoto cismou em não aceitar o passeio. Exigia que a mãe cumprisse com a promessa da semana passada. “Quero ir ao rodízio de pizza” dizia ele, bufando como touro bravo. A irmã menor o apoiava, para desespero da mãe que via seu tão esperado programa, adiado por diversas ocasiões, ir literalmente pelos ares. “Vai ter bastante gente lá”, tentava argumentar ela já antevendo a resposta na ponta da língua quando o pirralho empacava. “Na pizzaria também tem”. Foi preciso o pai convencer o menino, que não escondia sua contrariedade. Ficou acertado que depois do passeio, todos iriam saborear a tão desejada pizza.

Logo a mãe se arrependeria daquele programa dominical. Famílias inteiras chegavam ansiosas por desfrutarem da natureza generosa em forma de clorofila. No início o menino se distraiu com as novidades, mas não demorou muito para mostrar seu gênio difícil, principalmente quando se aproximavam de algum grupo de pessoas. “Mãe, o prefeito está doente?” soltou ele, com sua voz estridente. Diante da inusitada pergunta e dos olhares curiosos, a mãe hesitou e o garoto emendou: “Papai disse que ele está sofrendo de pressão política”. A mãe ficou sem ação por alguns instantes, no que o garoto completou: “É por isso que essas pessoas estão chorando?” Desconcertada com a espontaneidade da criança a mãe tratou de sair logo dali, com a intenção de mostrar o parque aos pequenos. E foi explicando que algumas pessoas estavam emocionadas pelo retorno da santinha ao seu local original, por conta das obras na gruta onde foi recolocada novamente.

 Os pedidos por refrigerante, pipoca, doces e outras guloseimas fizeram a mãe exceder sua dose extra de paciência, naquele que prometia ser um dia todo especial. A companhia do pai seria oportuna, visto que o garoto a testava ao máximo para se assegurar até onde chegariam seus limites. “Quero ir ao banheiro” avisou ele, em tom de desespero. “Faz ali, atrás da árvore mesmo” respondeu impaciente a mãe, diante da fila interminável para utilização do sanitário. Mais uma vez, o menino radicalizou: “Só se ninguém olhar”, arrancando gargalhadas dos visitantes que em solidariedade, formaram um cordão de isolamento para que o pequeno se aliviasse.

O passeio pelo parque continuava e como a temperatura ficou agradável resolveram permanecer até mais tarde. O garoto não deixava passar nada em branco. Comentou que os bichos de concreto eram “sem sal”, melhor seria se transformados em bancos. Quase não se conteve quando a mãe o proibiu de alimentar os saguis. Mesmo com a temperatura amena insistia em molhar os pés nas águas do lago. Depois de um bom tempo, a disposição do garoto já não era mais a mesma. Agora não apresentava o deboche do início, típico de quando era contrariado, limitando-se a tecer alguns comentários dispersos. Era uma das táticas da mãe vencê-lo pelo cansaço. Isso quase sempre funcionava.

 Mas eis que num descuido, aproximou-se de uma família e logo entabulou conversa. Contou que estava ali contra sua vontade, a mãe o deixara com fome, estava com os pés molhados e com frio e o pai ficara em casa dormindo. A mentira dessa vez foi longe demais, somente esclarecida quando a mãe apavorada com o sumiço do filho notou a presença de uma viatura policial e em seu interior um garotinho que reinava absoluto, falando pelos cotovelos. Prometendo não deixar o filho sozinho nem por um instante sequer, encerrou o passeio imediatamente. Na saída, a mãe se deu por vencida: “Melhor ir para a pizzaria” disse ela. “De táxi”, rematou imediatamente o encrenqueiro. E assim, com essa e outras divertidas histórias, a população teve a oportunidade de usufruir de um belo domingo ensolarado no parque público.
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José Luiz Boromelo, é de Marialva/PR, policial rodoviário aposentado, escritor, cronista e agricultor, colaborador da Orquestra Municipal Raiz Sertaneja.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 07.06.2015
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/5269507

Geraldo Pereira (O Segundo Bandolim)


À tardinha e em sábado assim, de uma tropicalidade exagerada, sentado no alpendre de casa e sob o trinar derradeiro do sabiá, li O Segundo Bandolim, de Octávio Pernambucano da Costa. Um pequeno romance, no qual estão inscritas e escritas velhas histórias, transformadas em estórias. Algumas do século XIX, ouvidas dos antepassados e outras do tempo contemporâneo, por isso mesmo posta ali, no livro, a título de resgate pessoal das memórias. Personagens que foram reais, diz o autor, que preencheram cenários e que protagonizaram cenas da vida, menos Aurora, nascida do imaginário, simplesmente criada ao gosto do ficcionista. Essa, a mulher ideal, que aflora na hora da inspiração literária, forjada às custas de muitas outras, trazendo no todo uma integralidade construída em partes. Pela beleza que impressionou e pelas formas de corpo que mais se adequaram às sensuais exigências do escritor, pela inteligência e pela loquacidade, como pela sensibilidade, de almas femininas tocadas pelas virtudes do espírito e do sentimento. Figurante, pois, de enredos carregados de afetividade, de carinhosas palavras dantes verbalizadas e anos após novamente expressas sob o manto agora mais do que protetor da ficção. Só assim o prosador, poeta tantas vezes, faz ressurgir figurantes dos tempos, que as brumas do passado embalam com as nostálgicas loas das lembranças!

E com o texto de Pernambucano da Costa tive a satisfação de fazer uma longa viagem de volta nos anos, a lugares até que não imaginava retornar dessa forma, em pensamento. Fui rever o Quem-me-Quer, aquela longa mureta no centro da cidade, emoldurando as margens do rio das capivaras, de um lado e de outro, na qual sentavam muitos dos que me acompanharam na jornada da juventude. Lugares reservados às moiçolas casadoiras da banda de cá, nas proximidades do São Luiz. E mais outros, na banda de lá, para as mulheres de vida fácil, mas de cujas dificuldades tantas se sustentaram. E diz o nosso romancista, estreante na arte da ficção, que ali há: “... gente fazendo uma parada para esquecer a mágoa, gente expandindo felicidade, gente pedindo gente com os olhos”. E era isso mesmo! Quantas e quantas vezes vi com esses olhos de agora figuras absortas, olhando o largo vazio do firmamento, distante do mundo e das coisas, como as pessoas pensando na vida, no existir terreno, mastigando desditas e mitigando o padecer d’alma! Ou quantas vezes assisti o riso brotar das viçosas faces de meus contemporâneos, de moças e de rapazes vendendo alegria e distribuindo humores! Do mesmo jeito os amores, aqueles que floresceram e de todos os deuses mereceram as bênçãos e os que feneceram no pranto chorado, silente ou ruidoso, nas muretas de pedra!

Fui à rua Formosa – a Conde da Boa Vista de hoje –, à Imperatriz e à rua Nova, à rua do Sol e a muitas outras, todas do Recife daqueles antanhos, fiz o footing e outra vez me sentei no Quem-me-Quer, destino derradeiro dos encantos urbanos. Nos bairros de São José e Santo Antônio, na Boa Vista e no Espinheiro vi as cadeiras nas calçadas e o povo fiando conversa. Nas casas de grandes quintais, nos terreiros de outrora, estavam estendidas as roupas lavadas, a secarem ao sol e ao vento, despertando fantasias, como no livro, no imaginário dos meninos! Ouvi os pregões do Recife, cantados e decantados por Octávio Pernambucano da Costa. Temática, aliás, sobre a qual já me detive e para a qual obtive a maior de todas as repercussões! O escritor lembra do homem que trazia às costas verdadeiro armazém de utilidades: “papé pega-mosca, abridô de lata, espanadô, vassoura e abano, rapa-coco e grêia…”. Mais interessante ainda o amolador de tesouras, que, na verdade, a tudo amolava, tocando um realejo de tubos crescentes, a deslizar nos lábios, para um lado e para outro, sob a ação de um sopro nascido das inspirações do espírito. E foi no povoado de Duarte Coelho, na velha Olinda, onde Aurora encontrou-se com Álvaro, que eu me encantei também com a musa de meus dias e fiz daquilo ali, das calçadas altas e largas, os meus altares, deixando-me fluir o culto à magia da beleza e da inteligência.

Eu também li A Carne às escondidas, no quarto da empregada, com a cumplicidade de Virgínia, nascida nos Palmares, criada na palha da cana e amada na bagaceira. E conheci a petisqueira, na qual se guardavam as frutas das árvores do quintal e na qual estavam penduradas as xícaras, pelas asas. Desapareceu do ambiente doméstico por falta de espaço, substituída pelos armários da modernidade! E fui, então, acrescentando as minhas coisas, para misturar as saudades! Na sala, o velho Lavatório, em desuso já, mas trazendo de volta a minha avó paterna, a casa-grande do engenho, como a louça inglesa e os talheres de prata, com inscrições que diferenciaram a família antes da debacle do açúcar.
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Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

sábado, 31 de janeiro de 2026

José Feldman ( O Porquê dos Livros)


O relógio de carrilhão da Biblioteca Infinita bateu treze vezes, um horário que só existe no plano das letras. Entre estantes que sumiam nas nuvens de poeira dourada, três figuras se materializaram ao redor de uma mesa de carvalho maciço.

José de Alencar, com sua barba fidalga e postura ereta de quem ainda acredita no Império, ajustou o monóculo. À sua frente, Clarice Lispector, envolta em uma aura de mistério e fumaça de um cigarro invisível, olhava para o nada como se decifrasse o DNA do silêncio. Ao lado dela, Monteiro Lobato, de sobrancelhas arqueadas e olhar inquieto, tamborilava os dedos na mesa, impaciente.

— A biblioteca é o pulmão da civilização — começou Alencar, com a voz empolada. — Sem o registro da alma de um povo, de suas raízes e de seu solo, o homem é apenas um náufrago sem bússola. Meus livros buscaram isso: dar ao Brasil uma certidão de nascimento, desde as selvas de O Guarani até os salões do Rio.

Lobato soltou uma risada curta, quase um latido.

— Certidão de nascimento, Alencar? Ora, o povo não quer saber de certidões, quer saber de progresso! O livro é uma ferramenta, um martelo para quebrar as correntes da ignorância. Se eu não tivesse colocado o Visconde de Sabugosa para explicar o mundo, ou a Emília para questionar até a gramática, o Brasil ainda estaria lendo manuais de etiqueta enquanto o petróleo jorra debaixo dos nossos pés!

Clarice, que até então parecia feita de pedra, moveu os olhos lentamente para Lobato. Sua voz veio baixa, vinda de um lugar profundo.

— O mundo não se explica com petróleo, Monteiro. Nem com martelos. O livro... o livro é um ferimento que a gente toca para saber que está vivo. Eu não escrevo para ensinar, nem para fundar nações. Eu escrevo porque o silêncio dói e eu preciso dar um nome a essa dor.

— Mas Clarice, minha cara — interveio Alencar, inclinando-se para frente. — A forma! A estética! O livro deve ser o espelho da nobreza. Em Iracema, eu dei à língua portuguesa o perfume das matas. O livro é importante porque eleva o espírito através da beleza.

— Beleza? — Lobato interrompeu, gesticulando para as prateleiras. — Beleza não enche barriga de criança, nem tira o país do atraso. O livro para o mundo tem que ser o despertar da imaginação crítica. Uma criança que lê sobre o Picapau Amarelo hoje é o cientista que descobre a cura de uma praga amanhã. O livro é fermento! Sem ele, a massa humana não cresce, fica um pão murcho.

Clarice soltou uma pequena nuvem de fumaça espiritual.

— Vocês falam do país, da ciência, da história. Mas o que importa o petróleo ou a nação se, quando você apaga a luz, você não sabe quem é aquela pessoa refletida no espelho? Meus livros são importantes porque são espelhos quebrados. Cada caco reflete uma angústia. O mundo só se salva se cada um se encontrar no labirinto de si mesmo. O livro é o fio de Ariadne que nos leva para dentro, não para fora.

— Mas para onde iremos se não tivermos uma identidade comum? — questionou Alencar, quase ofendido. — Se eu não tivesse escrito sobre o sertão e a corte, seríamos apenas uma cópia pálida da Europa. O livro cria a pátria!

— A pátria é uma invenção de quem tem medo da solidão — retrucou Clarice, com um sorriso enigmático. — A única pátria real é a língua. E a língua é traiçoeira. Ela falha quando a gente mais precisa. Escrever é o esforço de dizer o que não pode ser dito.

Lobato bateu na mesa, fazendo um tinteiro pular.

— Pois eu digo o que deve ser dito! E digo com clareza! O livro é o melhor amigo do homem, mas só se ele o fizer pensar. Se um livro não causar uma revoluçãozinha que seja na cabeça de quem lê, ele serve apenas para calçar pé de mesa. Meus livros são convites à insolência. O mundo precisa de mais Emílias e menos bacharéis!

Alencar suspirou, alisando a barba.

— Somos três cegos descrevendo o elefante. Eu vejo a majestade do animal, sua história e sua pele. Monteiro vê a força do bicho para puxar o arado do progresso. E você, Clarice... você vê o medo que o elefante sente da própria sombra.

— Talvez — disse Clarice, levantando-se. — Mas o elefante só existe porque alguém, um dia, teve a coragem de sentar e escrever a palavra "elefante" no papel.

— Nisso concordamos — assentiu Lobato, subitamente calmo. — Um país se faz com homens e livros.

— E com o mistério que há entre as letras — concluiu Clarice.

As luzes da biblioteca piscaram. O carrilhão bateu a décima quarta hora. Os três escritores, em um último aceno de respeito literário, dissiparam-se entre as estantes, deixando para trás apenas o cheiro de papel antigo, café e uma leve brisa de mar de Copacabana. 

Na mesa, restava apenas uma página em branco, esperando que o próximo habitante do mundo decidisse, afinal, por que os livros importam.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.

Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”, “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas).
Em andamento: “Pérgola de textos”, “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas", "Almanaque Poético Brasileiro vol. 1".

Fonte: 
José Feldman. Pérgola de Textos. Biblioteca Sunshine, 2026.

Monsenhor Orivaldo Robles (Cuide de sua vida)


“Feliz foi Adão que não teve sogra”, diz jocosamente nosso povo. Claro que se trata de brincadeira sobre interpretação literal do texto bíblico. Nessa linha de leitura, haveria de ser um tédio viverem somente os dois num paraíso suficientemente espaçoso para abrigar uma multidão. Que novidade ia ter um para contar ao outro, no fim do dia? Pior que a deles, só a situação de Robinson Crusoé, na sua ilha, ao lado do selvagem Sexta-Feira, a quem se viu forçado a ensinar inglês para ter com quem conversar.

Por razão diferente, no entanto, ocorre-me que, apesar da solidão, Adão e Eva devem ter formado um casal feliz. Se houve aperreação com que não precisaram se preocupar foi com o falatório de pessoas, que parece terem nascido para bisbilhotar o que acontece aos que se encontram à sua volta. Não foram azucrinados, no jardim do Éden, pelos que investigam, até com lupa, o que se passa com quem teve a má sorte de viver ao alcance de sua língua.

A vida é repleta de ocupações e problemas tantos que, ainda com grande trabalho, cada um mal consegue dar conta dos próprios. Alguns gênios, entretanto, parecem dispor de capacidade e tempo para controlar também e, talvez sobretudo, a vida alheia. Com a posterior e irreprimível necessidade de divulgá-la. Trata-se, quase sempre, não de fatos importantes, mas de invencionices, fantasias ou fofocas repletas de maldade. Tudo proporcional à pequenez de alma do maledicente. Entretanto é difícil existir quem não lhes dê crédito. E, como o gosto de mexericar não se restringe a dois ou três, o comentário se expande em proporções impensadas. Quando lesivas à dignidade, arrastam a honra da vítima para o cesto de lixo. Nunca mais ela será vista com os olhos de antes. De pouco adiantam desmentidos. Sempre persistirá nem que seja uma sutil desconfiança.

Conta-se que São Felipe Neri (1515-1595), o alegre confessor de Roma, recebeu, certo dia, uma senhora que confessou ter falado mal da vizinha. Ele aconselhou-a bondosamente e recomendou que, como gesto penitencial, matasse uma galinha, a depenasse, soltasse as penas no alto de uma colina, e voltasse, depois, para vê-lo.

– “Pronto”, falou ela, de regresso, horas mais tarde, “cumpri a tarefa que o senhor me deu”.

  – “Ainda não”, disse ele. “Agora volte lá, recolha todas as penas e traga-as aqui”.

  – “Isso é impossível”, desesperou-se a pobre mulher. “O vento espalhou-as por toda a cidade”.

  – “Pois é justamente o que acontece com a boa fama da pessoa de quem falamos mal”, ensinou o santo. “Ainda que confidenciemos a um único amigo, daí a pouco, a cidade inteira estará sabendo. Então, não há mais como recuperar o bom nome que nosso comentário destruiu”.

  A mulher tanto apreciou a lição, que não se constrangeu em ela mesma divulgá-la para que mais pessoas tirassem proveito. Sabia a boa senhora não ser ela a única a fazer fofoca. A língua, adverte São Tiago (Tg 3,2-11), é uma arma terrível.

 A moderna mídia colocou o mundo inteiro na minha mão. Que penitência daria São Felipe Néri para a fofoca eletrônica?
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras do autor. 31.01.2012
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3471951

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Asas da Poesia 148


Poema de
MÁRCIA WAYNA KAMBEBA
Castanhal/PA

ACREDITAR EM SI

Nem toda palavra
que tentam nos impor é verdade.
Algumas são ditas apenas
para testar se vamos desistir ou seguir.

Se disserem:
“você não consegue”,
“isso é impossível”,
“está longe do seu alcance”,
ainda assim, não deixemos de tentar.

Tentar, mesmo com medo,
é coragem.
É ousadia.
É desejo profundo de viver,
progredir e ser feliz.

Seguir em frente é a melhor opção:
arriscar, insistir e persistir.
O final é gratificante
quando vencemos o medo, a insegurança
e a dúvida
daqueles que achavam ser impossível.
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Poema de
MARIA ALEXANDRE DÁSKALOS
Huambo/Angola

O garoto corria corria
não podia saber
da diferença entre as flores.
0 garoto corria corria
não podia saber
que na sua terra há
morangos doces e perfumados,
o garoto corria corria
fugia.

Ninguém lhe pegou ao colo
ninguém lhe parou a morte.
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Soneto de
J. G. DE ARAÚJO JORGE
(José Guilherme de Araújo Jorge)
Tarauacá/AC (1914 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Dedicatória

Este meu livro é todo teu, repara
que ele traduz em sua humilde glória
verso por verso, a estranha trajetória
desta nossa afeição ciumenta e rara!

Beijos! Saudades! Sonhos! Nem notara
tanta coisa afinal na nossa história...
E este verso - é a feliz dedicatória...
onde a minha alma inteira se declara...

Abre este livro... E encontrarás então
teu coração, de amor, rindo e cantando,
cantando e rindo com o meu coração...

E se o leres mais alto, quando a sós,
é como se estivesses me escutando
falar de amor com a tua própria voz!
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

Solitários Passos

Pra mim, és agasalho das Alturas,
Que chegou à metade do caminho.
Contigo, jamais estarei sozinho,
Pois somos cúmplices nas horas duras. 

Teus olhos reergueram minha autoestima;
A mando dEle, na raia tu entraste.
De minha vida, tu foste o guindaste;
De Deus, para eu dar a volta por cima. 

Hoje; estar só, não passa de lembrança,
Solitários passos foram de vez.
No mar bravio, o tempo se refez;
Finda a tempestade, veio a bonança. 

Foste o bálsamo pra minha ferida,
Que surgira em meus passos solitários.
Trouxeste os ingredientes necessários
Ao amor, em retomada de vida. 

És mais um anjo do que uma mulher.
E teu aconchego, igual nunca vi.
Dos reclusos passos antes de ti,
Não tenho saudade, um pingo sequer…
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Trova Popular

Sonhei contigo esta noite,
mas oh! Que sonho atrevido!
Sonhei que estava abraçado
à  forma  do  teu  vestido!
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Soneto de
HUMBERTO RODRIGUES NETO
São Paulo/SP

Bentinho e Capitú

Oh! Flor do céu! Oh! Flor cândida e pura,
em cujos lábios demorou meu beijo,
se ontem foste a razão do meu desejo,
hoje és causa da dor que em mim perdura!

Eu fui o teu Bentinho de alma impura
que fez de ti, em juízo malfazejo,
a fonte da vergonha e do meu pejo,
a causa, enfim, da minha desventura!

Foi preciso que ao roxo da mortalha
na tua mudez me desses a entender
por quanta vez a nossa mente falha!

E hoje distante, esse teu meigo ser
parece das alturas me dizer:
¨perde-se a vida, ganha-se a batalha¨!
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Poema de
CATULO DA PAIXÃO CEARENSE
São Luís/MA, 1863 — 1946, Rio de Janeiro/RJ

O azulão e os tico-ticos

Do começo ao fim do dia,
um belo azulão cantava,
e o pomar que atento ouvia
os seus trilos de harmonia
cada vez mais se enflorava.

Se um tico-tico e outros bobos
vaiavam sua canção,
mais doce ainda se ouvia
a flauta desse azulão.

Um papagaio, surpreso
de ver o grande desprezo
do azulão, que os desprezava,
um dia em que ele cantava
e um bando de tico-ticos
numa algazarra o vaiava,
lhe perguntou: " Azulão,
olha, diz-me a razão
por que, quando estás cantando
e recebes uma vaia
desses garotos joviais,
tu continuas gorjeando,
e cada vez cantas mais?!"

Numas volatas sonoras,
o azulão lhe respondeu:
"meu amigo, eu prezo muito
esta garganta sublime,
este dom que Deus me deu!

Quando há pouco, eu descantava,
pensando não ser ouvido
nestes matos, por ninguém,
um sabiá que me escutava,
num capoeirão, escondido,
gritou de lá: "meu colega,
bravo!....Bravo!...Muito bem!"

Queira agora me dizer: -
quem foi um dia aplaudido
por um dos mestres do canto,
um dos cantores mais ricos
que caso pode fazer
das vaias dos tico-ticos?!"
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Dobradinha Poética de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Quero…

Constato ao alvorecer,
também ao clarão da lua:
mesmo depois de morrer
quero ser somente tua!

Quero sentir de novo as tuas mãos
a tatear meu corpo, docemente…
Quero apagar meus pensamentos vãos
para entregar-me a ti, confiantemente.

Quero pisar sem medo em quaisquer chãos,
seguir feliz na estrada à minha frente.
Quero a renúncia pronta dos meus nãos,
dar-te o meu sim, sonoro e ardentemente!

Porque quem ama sempre retrocede,
porém as consequências nunca mede,
quando a paixão reinflama o coração...

Por isso eu quero tudo o que quiseres,
ser a  mais tua dentre outras mulheres:
— aquela que te amou... sem restrição!
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Prelúdio 4

Hoje eu soube apreciar com emoção
O feliz casal que despertou sorrindo...
A MANHÃ e o SOL!
Ambos com um misto de beleza e esplendor
Num canto primaveril de amor infindo…

Senti-me também assim,
Como eles, feliz e esplendoroso
todo cheio e orgulhoso
Com o coração a cantar em mim!...

É porque hoje... hoje irei vê-la
Com o seu sorriso de criança
Falando-me de carinho e paixão
E de nós dois...

Sem mais receios, ou embaraços...

Hoje, serei o SOL e ela, a MANHÃ,
Feliz e envolta
Bem solta
Em meus braços!...
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Soneto de
RITA MOUTINHO
Rio de Janeiro/RJ

Soneto da ausência seleta

A saudade, hoje, é alvo da pungência
e certa flecha bêbada vagueia
na aura da chama anil da inconsciência,
porque a verdade de hoje escamoteia

realidade avessa, de carência,
que não quero entender porque a meia
estadia na vida, por sua ausência,
faz-me vítima, abate-me e fundeia.

O que queria ver é o que vês,
o que queria ser é o que és,
o que queria ter é o que tens.

Mas nunca para isso haverá vez:
somos aos nossos, não a nós, fiéis
e seleta é a sensata insensatez.
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Poema de
ARMANDO BETTINARDI
Maringá/PR

Caminhando

Por que o sol,
a praça,
o burburinho da cidade
estão aqui?

Por que: a luz
o dia aberto diante de mim,
o convite à vida,
se eu estou sozinho?

Sem você, o momento
passa como o vento,
sem consumação,
naturalmente, inutilmente.

Não entendo momento,
só momento, sem ação,
sem movimento,
sem nós dois
que juntos somos vida.

Só aceito momento,
que não seja fugaz nem
efêmero;
- que seja total completamente.

Então, seremos nós
eu e você,
caminhando juntos,
de mãos dadas
rasgando a luz da tarde;
rumo ao crepúsculo.

Agora, o dia ainda está todo
aberto diante de nós;
e, é um convite à vida.

Vamos pois, inebriados
beber a vida, gota a gota
até o fim, enquanto,
juntos caminhamos.
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Décima de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 – 2020

Meu sertão sou teu pedaço
Berço de gente feliz
Que dança ao som de Luiz
no escurinho do terraço.
Tem sol quente tem mormaço,
Tem ave de arribação,
Xaxado xote e baião
Tem um Santo Padim Ciço.
Quem nunca viu tudo isso 
Não sabe o que é sertão. 
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Hino de 
Feira de Santana/BA

Salve ó terra formosa e bendita
Paraíso com o nome de Feira
Toda cheia de graça infinita
És do norte a princesa altaneira

Bem nascida entre verdes colinas
Sob o encanto de um céu azulado
Ao estranho tu sempre dominas
Com o poder do teu clima sagrado

Sorridente como uma criança
Descuidosa da sua beleza
Do futuro és a linda esperança
Terra moça de sã natureza

Poetisa do branco luar
Pelas noites vazias de agosto
Fiandeira que vive a fiar
A toalha de luz de sol posto

De Santana és a filha querida
Noite e dia por ela velada
E o teu povo tão cheio de vida
Só trabalha por ver-te elevada
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Dobradinha Poética de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR

Sonhos

Vejo uma luz no horizonte,
a paz no mundo a brilhar.
Pode ser sonho distante...
Um dia ele irá vingar...

Sempre quis pintar um mundo encantado,
com tintas da aquarela de meus sonhos,
Pintar na tela um céu todo estrelado,
e lá no fundo, corações risonhos.

Sempre quis espargir versos no mundo,
perfumá-lo com aura de esperança,
plantando sementes em chão fecundo,
qual o amor num coração de criança.

A vida é um caminho de idas e vindas,
momentos de alegria e de tristeza,
no anseio de encontrar paisagens lindas,

anda-se encruzilhadas da incerteza,
fazendo o destino em ruas infindas,
com toda a força de nossa grandeza.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O marido, a mulher e o ladrão

Um marido extremoso,
Que adorava a mulher
Sendo, embora, feliz — julgava-se inditoso.
Dos olhos dela nunca um só fugaz volver,
Um modo gracioso,
Uma frase de amiga, um lânguido sorrir,
Mil expressões gentis, rápidas, mas sinceras,
Lisonjeando o descrido,
Conseguiram jamais de leve persuadir
Que era amado deveras.
Enfim... era um marido!

Se amor neste himeneu,
Como bênção divina,
Mudado lhe tivesse a tão estéril sina...
Mas... tal não sucedeu!
Batida pela sorte,
Sem mais um desafogo,
Nem mimos para o triste e mísero consorte,
Esta esquiva mulher
Ouvia-lhe uma noite o lamentar de fogo,
Sem um suspiro só de todo compreender,
Quando surge um ladrão,
E interrompe o queixume acerbo e dolorido.

Ela sente do susto a fria contorção...
Procura amparo e cai... nos braços do marido!.

«Amigo, exclama então
O jubiloso amante,
Ao pérfido ladrão:
Foram-se os meus pesares!
Sem ti, eu não teria um tão gostoso instante!
Ventura tão intensa!
Toma, leva, arrecada aquilo que encontrares,
Leva a casa também... É justa a recompensa!»

Não se perdem ladrões por homens delicados,
E a crer ninguém se inclina
Que eles sejam um pouco honestos ou vexados:
Este, pois, atirou-se impávido à rapina!

Deste conto se infere
Que o medo é das paixões a que mais largo fere;
Pois quando audaz assoma,
Como vence a aversão,
Algumas vezes doma
O amor que avassalou de todo um coração.

Tu bem viste, leitor,
Somente para ter
Nos braços a mulher...
Um marido o que fez! Foi vítima do amor!

Eu gosto deste amor altivo e temerário
Que brilha e não se estiola,
Que cresce e não se apouca!
O conto me agradou de um modo extraordinário:
Ele bem diz numa alma indômita, espanhola,
Mais sublime que louca!
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