quarta-feira, 29 de abril de 2026

Um agradecimento especial aos leitores e amigos

Olá, queridos amigos e leitores,


Escrevo hoje com o coração cheio de gratidão. Como souberam, na semana passada passei por um susto: acabei desmaiando em minha casa e, na queda, sofri alguns ferimentos que exigiram minha ida de ambulância ao Pronto Socorro.

Quero dizer que, graças a Deus e aos cuidados médicos, já estou plenamente restabelecido. Sinto-me renovado e em plenas condições de continuar o meu trabalho de divulgação, que tanto amo e que nos conecta diariamente.

Mas o motivo principal deste contato é agradecer. Fiquei profundamente emocionado com a avalanche de mensagens, palavras de incentivo e desejos de melhoras que recebi vindos de diversas regiões do Brasil, México, Estados Unidos, Romênia, Portugal e outros. Em momentos de fragilidade, esse carinho é o melhor remédio que alguém pode receber. Meus sinceros agradecimentos a cada leitor e amigo que dedicou um momento do seu dia para me enviar palavras consoladoras.

Essas atitudes reforçam o que sempre defendo: é justamente disso que o mundo mais precisa. Precisamos de mais empatia e de uma fraternidade real, que se manifesta no cuidado com o próximo. Acredito que esses valores são a base para uma sociedade melhor.

Muito obrigado por estarem ao meu lado. Seguimos juntos!

Com gratidão,
José Feldman

José Feldman (Ecos da Violência em um Mundo em Desacordo)


Vivemos em tempos em que a dor e o terror parecem estar cada vez mais entrelaçados em nosso cotidiano. As guerras se multiplicam como ervas daninhas, brotando em qualquer parte do mundo onde líderes, ávidos por poder e controle, não hesitam em sacrificar a paz em nome de ambições pessoais. É um espetáculo trágico, onde o valor da vida é reduzido a meras estatísticas, enquanto as balas e os bombardeios ressoam como uma sinfonia macabra, privando a vida de milhares de pessoas sem um respingo de amor pela vida humana.

A televisão, um dos principais meios de formação de opinião e comportamento, tornou-se um campo de batalha onde a violência é glorificada. Os programas que atraem a atenção dos jovens estão recheados de cenas grotescas, onde vampiros e zumbis dominam narrativas que banalizam a morte e o sofrimento. Entre uma série e outra, há uma programação que mistura a ficção mais aterrorizante com os realities mais cruéis, trazendo uma nova forma de entretenimento que, na verdade, reflete uma sociedade em profunda crise. Enquanto a realidade clama por vozes de justiça e compaixão, enredamo-nos em histórias que alimentam a violência ao invés de promover a compreensão.

Os ecrãs se tornam janelas para um abismo que ecoa sentimentos destrutivos. As crianças e adolescentes, diante desses conteúdos, modelam suas perspectivas e comportamentos. Ao invés de imaginarem um mundo repleto de possibilidades pacíficas, absorvem uma visão distorcida, onde a força e a agressão se tornaram a norma. As conversas que poderiam girar em torno do amor e da solidariedade são substituídas pela retórica do “nós contra eles”, perpetuando barreiras que deveriam ser destruídas.

Nos séculos passados, a humanidade fez progressos impressionantes em ciência e tecnologia. As inovações nos conectaram de maneira que nunca antes se viu. Contudo, essa mesma evolução parece despontar uma falência moral. A arte e a educação, potências para o desenvolvimento humano, são frequentemente ofuscadas pelo brilho da violência. O retrato atual é o de uma sociedade em que a empatia e o respeito pelo próximo parecem resquícios de um passado que não se revisitou.

E em meio a essa turbulência, as mulheres continuam a ser tratadas como objetos, corpos que, em muitas culturas, são vistos como prêmios em disputas, ou vítimas em circunstâncias que escandalizam os mais sensíveis. Em um mundo que deveria ser de igualdade, a misoginia ainda ressoa com força, como se houvesse um consenso silencioso de que suas vidas têm menor valor. Assistimos a atos brutais, discursos odiosos e uma cultura que perpetua a ideia de que é aceitável desumanizar a mulher. O que é mais chocante: o ato em si ou a indiferença que o rodeia?

As novas gerações erguem-se sob o peso desse legado de desamor e agressão. É desesperador pensar que, ao invés de estarmos moldando um futuro de paz, estamos semeando as sementes da discórdia e da intolerância. O mundo digital, que poderia ser uma plataforma de troca de ideias e construção de pontes, acaba se tornando um terreno fértil para o ódio e a divisão.

Entretanto, há uma esperança latente. Cada crise traz consigo uma oportunidade de reflexão e transformação. É possível que as vozes que clamam por paz e por equidade ganhem força em meio ao ruído ensurdecedor da violência. Educadores e artistas têm um papel fundamental na reconstrução do tecido social. É através da arte que podemos inspirar mudança, e por meio da educação que podemos abrir os olhos das futuras gerações, mostrando que um mundo baseado no respeito e na empatia é não apenas desejável, mas possível.

A verdadeira evolução não está apenas nas máquinas que criamos, mas na capacidade de nos entendermos e apoiarmos uns aos outros. A resistência à violência começa com pequenos atos de bondade, com diálogos abertos sobre as verdades que nos machucam e com um compromisso coletivo de construir um futuro que respeite a dignidade de todos.

Que possamos, então, ser agentes de mudança nesse cenário nebuloso, ampliando a luz em vez de alimentar a escuridão. Porque no fim, a verdadeira luta é aquela que travamos no interior de nós mesmos. A guerra que queremos vencer não é contra um inimigo distante, mas contra os preconceitos e as barreiras que nos afastam um dos outros. Se de fato quisermos um amanhã, cabe a nós plantarmos as sementes dessa revolução silenciosa e poderosa.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
Imagem criada com IA Microsoft Bing 

Aparecido Raimundo de Souza (O morto no caixão)


DE VEZ EM QUANDO A GENTE precisa colocar em evidência a parte social da vida, ou seja, aquele eventual em que literalmente nos propomos a fazer, grosseiramente falando, um programa de índio, e por ser exatamente de índio, este nativo deverá literalmente surgir em cena paramentado, com tudo o que tem direito, como aldeia, arco, flecha, lança, tacape, a borduna, o chuço e etc, etc. 

Com este pensamento, bem cotidiano à flor da pele, fomos acompanhar o amigo Varíola Pegajoso que havia perdido um parente e os funerais do falecido se dariam logo cedo, numa bela manhã de um sábado radiante e apetitosamente convidativo à um banho de mar.

— Carretão — observou ele —, só vamos mesmo porque o cara era meu tio e acredito, minha tia ficaria deveras chateada se não me visse na hora do derradeiro adeus. 

— Fique tranquilo, Varíola. Os amigos são para os momentos bons e ruins. Saiba, desde sempre, estamos  junto nesta para o que der e vier.

— Tenho certeza que apesar do convite meio que esquisito — observou ele, a certa altura —, você irá gostar e quem sabe até se apaixonar ao ver uma prima minha, a Chiquinha do Catatau. Cara, um pedaço de mau  caminho!

Chegamos no ato fúnebre na hora exata em que o padre Bentão  celebrava a missa de corpo presente. 

A capela estava lotada, com gente saindo pelo ladrão —  ladrão não, esta expressão é, sem dúvida alguma, uma modalidade vulgar e chula de falar, claro. O certo, seria, como de fato soa melhor, ‘com gente saindo à francesa’. Pois bem! O povo dava uma escapulida básica usando uma porta discretamente estratégica que desembocava para uma lanchonete com as iguarias mais apetitosas para um cemitério tido como o eterno Jardim da Paz. 

Dona Canindé Formigão, esposa do ‘de cujus’, tia de Varíola Pegajoso, o rosto cerrado em transe, as vistas derramadas de tanto chorar, mostrava em meio às lágrimas, um par de olhos vermelhos como dois tomates recém colhidos. Apesar da desmedida dor que a consumia, eles não deixavam de revelar o fulgor da sua juventude. 

A triste senhora se fazia acompanhar de familiares próximos, entre os quais, Jericó, seu filho mais novo e, ao lado dele, um pedacinho engalanado de um aconchegante futuro promissor vestido numa saia azul celeste, com todos os tropeços que a vida ofereceria a quem tivesse a sorte e o prazer de cair nas graças daquela beldade. 

De fato, neste ponto, o Varíola Pegajoso não medira esforços para descrever a belíssima prima Chiquinha do Catatau. A  exuberante fazia jus à fama que o meu amigo houvera feito de seu conjunto dos caracteres exteriores, figura extraordinariamente admirável e pecaminosamente infernal. Nos aproximamos a ponto de (à certa altura) nos juntarmos aos aparentados, quase a tropeçarmos na bela Chiquinha Catatau. 

O sacerdote, tecia comentários elogiosos sobre  o falecido e, exatamente naquele momento de nossa chegada, ele apregoava, à alta voz,  o seguinte: 

— Estamos diante de um grande homem, dono de um coração magnífico, excelente pai de família, bom marido, católico incondicional, amigo de todas as horas, vizinho exemplar e colaborador assíduo da nossa humilde paróquia. A isto, acrescentaríamos um primoroso trabalhador ‘pau pra toda obra’ e  sindioso cumpridor de seus deveres... 

Foi nesta sequência da esparramação dos elogios, que a viúva  cutucou Jericó num cochicho vapt vupt. Toda a igreja, ainda que não quisesse, captou e fez escancarar as bocas cheias de dentes (e as banguelas também) irmanadas num Oh! retumbante e espantado, doido e único, ao tempo em a cônjuge soltou o que parecia estar engasgado em sua garganta:

— Jericozinho, meu filho se aproxime ali do caixão de seu pai, discretamente... 

E completou, sem mais delongas:

— Veja, estou pra lá de aperreada. Perceba, minha agonia. Confesso a você, com todo este rol  de mesuras e rasgação de sedas que o padre Bentão está trazendo à baila... 

— Mas por que isto agora, mamãe?

— Filho meu, com toda certeza, quero crer estamos todos aqui velando o defunto errado.
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Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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Afrânio Peixoto (Trovas Populares Brasileiras) – 1

Atenção: Na época da publicação deste livro (1919), ainda não havia a normalização da trova para rimar o 1. com o 3. Verso, sendo obrigatório apenas o 2. Com o 4. São trovas populares coletadas por Afrânio Peixoto.

Alguém te chamou de feia
e te puseste a chorar…
O agrado supre tudo
bela — é quem sabe agradar.
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De muita gente que existe
e que julgamos ditosa,
toda a ventura consiste
em parecer venturosa.
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Dês a ponta do dedo,
que eles desejam a mão;
se vai a mão, vai-se o braço,
vai-se o peito e o coração.
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Dizem que a fortuna é cega,
é mentira, ela vê bem...
Dá milhões a quem tem muito,
a quem não tem, nem vintém.
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Menina bonita ou feia,
tudo tem sua procura:
Amor não enjeita nada,
porque tudo é criatura.
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Ninguém se julgue feliz,
inda tendo bom estado,
às vezes tirana sorte
faz dum feliz, desgraçado.
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O mal dos outros faz pena,
só o nosso faz cuidado.
Não se aprende com os outros
a ser menos desgraçado.
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Quem dá o seu coração
àquele que não conhece,
por muitas penas que passe
dobradas penas merece.
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Quem tiver o seu segredo,
não conte à mulher casada,
que a mulher conta ao marido,
e o marido ao camarada.
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Não se mostra o possuído
para não ser cobiçado;
Dinheiro ou mulher à vista
falta pouco pra roubado.
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Não há vantagem no mundo
que não tenha o seu senão;
Nunca vi rapaz bonito
que não fosse paspalhão.
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Meu amor está mal comigo
eu não sei por que motivo;
Que me importa, lá se venha,
não é de amores que eu vivo.
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Quem corre nem sempre alcança,
nem vence por madrugar.
Quem quiser chegar a tempo
ande firme e devagar.
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Vê o que dizes: tu passas
de livre a preso, num’ hora:
Palavra guardada é escrava
palavra solta é senhora.
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Hoje, Sancho é muito bom,
amanhã, Sancho é ruim...
Já fica sendo um demônio,
quem ontem foi serafim.
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Os tolos pensam que regras
ao mundo vieram dar;
Vão ver que pra ter juízo
na caneca hão de apanhar.
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Eu quero dar um conselho
a quem o quiser tomar,
quem quiser viver no mundo
há de ouvir, ver e calar.
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Quem muito alto quer subir
sem ter asas para voar,
as nuvens já estão se rindo
da queda que ele há de dar.
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Minha gente, venham ver
coisa que nunca se viu:
O tição brigou com a brasa
e a panelinha caiu!
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Eu quero a minha malícia
tal e qual se eu mesmo visse;
eu nunca maliciei
que certo não me saísse,
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Como o sereno da noite
procura o seio da flor,
assim minha alma amorosa
suspira por teu amor.
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Menina da saia verde,
de verde cor de esperança,
teus desdéns não me amotinam,
quem espera sempre alcança.
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JÚLIO AFRÂNIO PEIXOTO nasceu em Lençóis, na Bahia, em 17 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de janeiro de 1947. Foi um polímata brasileiro, destacando-se como médico legista, político, professor e um dos grandes nomes da literatura nacional. Formou-se em Medicina em Salvador em 1897. Sua tese, "Epilepsia e Crime", ganhou reconhecimento internacional. Foi professor de Medicina Legal na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Romancista e ensaísta influente, ocupando a Cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras a partir de 1910. Suas obras literárias frequentemente retratavam os cenários do interior baiano. Atuou como Deputado Federal pela Bahia entre 1924 e 1930, focando em temas como saúde pública e educação.

Fonte:
Afrânio Peixoto (seleção). Trovas populares brasileiras. RJ: Francisco Alves, 1919.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 159


Ele reinava garboso ali no outro lado da rua, junto ao terreno vago, sempre agitando seu verde. Certa noite um vento mais forte no outono quebrou um galho grosso, sendo ele uma das estruturas do pé de mamona crescendo altaneiro.

De manhã abro a porta e vejo parte do tronco, aquele galho, tortinho na vertical. Quebrado. Lamentei, não gostei, até fiquei triste. Estava linda a roupagem do pé de mamona. 

Passaram-se dois dias e então cortei a parte que já secava. Disse a mim mesmo, vou esperar, logo mais estará com uma galhada nova.

Outros quinze dias, eis senão quando olho ao lado da cerca vizinha e enxergo o pé de mamona novamente cheio, verdejante, ao sabor da brisa da tarde.

Exultei lembrando da nossa Cecília Meireles num dos seus versos, "Se me cortarem um braço, eu cresço do lado...".

Fiquei ainda com a memória daquele dito popular de que muitos não acreditam  – "Há males que vêm para o bem".

Eu sempre acreditei. E você?
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Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
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terça-feira, 28 de abril de 2026

Asas da Poesia * 182 *


Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Com a filha "naquele estado",
o pagode interrompeu:
“- Confessa ou morre ... tô armado!”
Os três confessam: "Fui eu".
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Chuva e saudade

Cai a chuva... é triste o dia...
A manhã é cinzenta e baça...
E eu mudo vejo a chuva fria,
A correr de leve na vidraça...

E a chuva cai... cai e não passa...
Nem sequer a chuva estia...
Para que um pouco se desfaça,
A saudade de quem eu tanto queria!...

Qual essa vidraça, está meu rosto...
E meus olhos não querem desanuviar...
É por demais sofrido o meu desgosto...

Aumenta a chuva e com ela a minha dor...
Soluço qual criança perdida, sem cessar,
Na incerteza de ao menos rever-te amor!...
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Aldravia de
MARISA GODOY
Ponte Nova/MG

Abelha
morta:
menos
mel
no
pote
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
(Emílio Nunes Correia de Meneses)
Curitiba/PR, 1816– 1918), Rio de Janeiro/RJ

Um Homúnculo

Tão pequenino e trêfego parece,
Com seu passinho petulante e vivo,
A quem o olha, assim, com interesse,
Que é a quinta-essência do diminutivo.

Figura de leiloeiro de quermesse,
Meloso e parecendo inofensivo,
Tem de despeitos a mais farta messe,
E do orgulho é o humílimo cativo.

Não há talento que ele não degrade,
Não há ciência e saber que ele, à porfia,
Não ache aquém da sua majestade.

Dele um colega, há tempos, me dizia:
É o Hachette* ilustrado da vaidade,
É o Larousse da megalomania!
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* Hachette = Originalmente, a Hachette era uma livraria e casa editorial fundada por Louis Hachette em 1826
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Trova de
DARLY O. BARROS 
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Passando a vida em revista
descubro, ao fim dos meus dias,
ter sido o nada a conquista
que eu trago nas mãos vazias...
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Poema de
EMILIANO PERNETA
(Emiliano David Perneta)
Curitiba/PR, 1866 – 1921

Para Um Coração

Um dia, vi-te, assim, bailando,
E a uma pergunta, que te fiz,
Tu respondeste : "Eu amo, e quando,
E quando eu amo, eu sou feliz!"

Por uma noite perfumada,
Cantaste, sobre o teu balcão.
E eu disse, ouvindo a áurea balada :
- Ah! Que feliz é o coração!

Quanta felicidade, quanta,
Não há ninguém feliz assim :
Um dia baila e noutro canta,
Como se fosse um arlequim...

Eu disse .. Mas agora vejo,
Nesse silêncio tumular,
Que estás sofrendo, e o teu desejo
Já não é mais o de bailar...

Nem de bailar, e nem, de certo
De nada mais, de nada mais...
Que fazes, pois, triste deserto,
Que fazes pois, que não te vais?

Mas, choras, creio, choras? Onde?
Se viu chorar um Lúcifer?
Pobre diabo, vamos, esconde
Essas fraquezas de mulher...
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TROVA POPULAR

A árvore do amor se planta
no centro do coração;
só a pode derrubar
o golpe da ingratidão.
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Soneto de
MÁRIO QUINTANA
(Mário de Miranda Quintana)
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

O Auto-retrato

No retrato que me faço
— traço a traço —
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore...

às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança...
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão...

e, desta lida, em que busco
— pouco a pouco —
minha eterna semelhança,

no final, que restará?
Um desenho de criança...
Terminado por um louco!
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Trova de
A.M.A. SARDENBERG
(Antonio Manoel Abreu Sardenberg)
São Fidélis/SP

A vida segue de arrasto,
do sonho nada me resta…
E o que sentia tão vasto,
vejo agora que não presta.
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Poema de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR, 1912 — 2004, Curitiba/PR

Alegria de Viver

Amo a vida. 
Fascina-me o mistério de existir. 
Quero viver a magia 
de cada instante, 
embriagar-me de alegria. 

Que importa a nuvem no horizonte, 
chuva de amanhã? 
Hoje o sol inunda o meu dia.
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Trova de
SELMA PATTI SPINELLI
São Paulo/SP

Foi galantear, o Pérsio,
e o otário se deu mal:
"Tu és de fechar o comércio!”
E a morena era fiscal!
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Soneto de
LUIZ ANTONIO CARDOSO
Taubaté/SP

Solidão
  
Propensos a quereres semelhantes,
tendo a poesia inata em nossas mentes,
tínhamos o infinito... e como amantes
seríamos estrelas reluzentes.
 
Mas eis que seus desejos, tão arfantes,
fizeram dos meus sonhos, tão descrentes,
migalhas de lembranças arquejantes,
fenecendo em processos deprimentes.
 
Recusaste o poeta que há em mim,
e todos os meus versos, que sem fim,
esculpiram o amor que eu quis te dar...
 
e decretaste enfim, a solidão,
para me acompanhar à imensidão...
onde hei de eternamente te esperar!
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Trova de
LUCILIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Na pouca pressa que tens
de aliviar minha saudade,
enquanto espero e não vens,
transcorre uma eternidade!
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Não Sei...

MOTE:
Não sei escrever bonito,
pois me falta inspiração,
mas o que aqui está escrito
eu sinto em meu coração!
Sofia Irene Canalles
Pedro Osório/RS, 1911 – 2004, Porto Alegre/RS

GLOSA:
Não sei escrever bonito,
mas sei amar e sentir
a beleza do infinito,
simplesmente em ir e vir!

Às vezes, eu não escrevo,
pois me falta inspiração,
outras vezes, eu me atrevo
e escrevo com emoção!

Meu verso não é erudito,
possui grande singeleza,
mas o que aqui está escrito,
sai-me da alma, com certeza!

Eu sou feliz escrevendo,
e não é mera ilusão,
ver a alegria nascendo...
eu sinto em meu coração!
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Trova de
HAROLDO LYRA
Fortaleza/CE

Confirma-se o sofrimento
do pobre homem, coitado!...
pois desde o seu casamento
que ele vive acorrentado.
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Soneto de
SÉRGIO BERNARDO
Nova Friburgo/RJ

Êxodo

Ir-me de mim, mas ir com desapego
de tudo quanto sou ou tenha sido
-- eu, que imagem me fiz de um mito grego,
no espelho de outros olhos refletido.

Partir... Mas quando? Se ainda agora chego
de algum lugar onde vaguei perdido,
trazendo, para meu desassossego,
a inconsciência total de haver partido.

Ir louco, a deflorar os horizontes,
o espírito andarilho, a carne errante,
na fome, as árvores; na sede, as fontes.

Venha junto o que igual absurdo enfrente,
de partir para longe a cada instante
e ficar em si mesmo eternamente.
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Poema de
LAURA RIDING
 Nova Iorque/EUA ,1901 – 1991, Sebastian/Flórida/EUA

Uma Gentileza

Estar viva é estar curiosa. 
 Quando perder interesse pelas coisas 
 E não estiver mais atenta, álacre 
 Por fatos, acabo este minguado inquérito. 
 A morte é a condição do supremo tédio. 

Vou deixar que me desintegre 
 E aí, por saber da paz que a morte traz, 
 Seria bom seguir convencendo o destino 
 A ser mais generoso, estender, também, 
 O privilégio do tédio a todos vocês.
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Haicai de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Porque o dia é curto,
eu curto ao máximo o dia.
Vovô já o dizia.
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Setilha de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Nós temos tanto calor
e poeira em nosso chão,
que recebemos em festa
toda chuva no sertão,
e eu sinto, nessa bonança,
uma chuva de esperança
lavando meu coração.
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Hino de 
GUARAPARI/ ES

Quer viver o sonho lindo
Que eu vivi?
Vá viver a maravilha
De Guarapari.

Um recanto que os poetas
E os violões
Não conseguem descrever
Nas mais lindas canções.

Pelas suas noites claras,
A lua serena
Vem brindar os namorados
Na areia morena.

Ninguém poderá sonhar
Nem viver o que eu vivi
Longe desta maravilha
Que se chama Guarapari.
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A Maravilha de Guarapari: Um Hino de Encantamento e Nostalgia
O 'Hino de Guarapari' é uma celebração poética da cidade de Guarapari, localizada no estado do Espírito Santo, Brasil. A letra da música exalta a beleza natural e a atmosfera encantadora da cidade, convidando o ouvinte a vivenciar a mesma experiência mágica que o narrador teve. A música começa com um convite direto: 'Quer viver o sonho lindo que eu vivi? Vá viver a maravilha de Guarapari.' Esse verso inicial já estabelece um tom de admiração e nostalgia, sugerindo que a cidade possui uma qualidade quase onírica.

A segunda estrofe destaca a dificuldade de capturar a essência de Guarapari em palavras ou música, afirmando que nem os poetas nem os violões conseguem descrever a cidade em suas 'mais lindas canções.' Isso sugere que Guarapari é um lugar que deve ser experimentado pessoalmente para ser verdadeiramente apreciado. A cidade é apresentada como um recanto de beleza indescritível, um lugar que transcende a arte e a poesia.

A terceira estrofe pinta uma imagem romântica das noites em Guarapari, onde a lua serena ilumina a areia morena, criando um cenário perfeito para os namorados. Essa imagem reforça a ideia de que Guarapari é um lugar de sonhos e romance, um refúgio para aqueles que buscam beleza e tranquilidade. A música termina com uma declaração enfática de que ninguém pode sonhar ou viver plenamente longe de Guarapari, solidificando a cidade como um lugar de importância emocional e espiritual para o narrador. 
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Poetrix de
DOUGLAS SIVIOTTI
Rio de Janeiro

passageira

a vida se vai
na espera ansiosa
do ponto de ônibus
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Soneto de
ORLANDO BRITO
Niterói/RJ, 1927 – 2010, São Luís/MA

A Trova

A trova é uma janela para o Sonho
que eu abro quando estou triste e sozinho.
A trova faz o mundo mais risonho,
com ela eu sou feliz no meu caminho.

Tudo cabe na trova: ora o medonho
tombar de um raio, ora o burburinho
do vento, ora um violão meigo e tristonho,
clamor de oceano, sons de passarinho.

Gosto da trova desde aquela data
em que andava a caçar tiés na mata,
armando uma arapuca e pondo alpiste.

Pois hoje, na arapuca de uma trova,
tento prender alguma ideia nova
para ouvi-la cantar, quando estou triste.
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Trova de
ÁUREO BAIKA
Campo Largo/PR

Eu curto todo momento
e não perco um só segundo.
Num minuto em pensamento
posso estar em outro mundo!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A galinha que punha ovos de ouro

Um homem tinha
Uma galinha,
Que Juno bela
Por desenfado
Tinha fadado:

Vivia ela
Dentro dum covo,
E punha um ovo
De ouro luzente
Em cada um dia,
Que valeria
Seguramente
Dobrão e meio;

Mas o patrão
Um dia cheio
De ímpia ambição,
Foi-se à galinha
E degolou-a.

Examinou-a;
Porque supunha
Que em si continha
Rico tesouro,
Visto que punha
Os ovos de ouro;

Mas nada achou!
E por avaro
Se despojou
Do rico amparo
Que nela tinha.

Outra galinha
Jamais topou
Com tal condão;
E assim pagou
Sua ambição.
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