quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Arthur Thomaz (Professor Pardal)


Juvenal era conhecido no bairro em que morava pelo apelido de Professor Pardal, por estar sempre a inventar aparelhos e maquinários extravagantes e quase sem utilidade prática.

Nos “butecos” que frequentava com assiduidade, também era chamado pela mesma alcunha, mas porque, depois de algumas doses, passava a inventar histórias inverossímeis.

Seus pais torciam para que ele concluísse o curso técnico em Química Industrial, arrumasse um emprego e mudasse de casa, já que, com suas estapafúrdias invenções, havia colocado fogo na garagem três vezes. Mas Juvenal justificava os incidentes, convicto, afirmando que todas as grandes invenções que mudaram o rumo do mundo sofreram percalços semelhantes.

Sua mãe, então, precisou tapar a boca do marido, que já ia dizendo que Juvenal fosse ter percalços em outro lugar.

– Dorival, por favor, não vá ferir a sensibilidade do nosso menino. Afinal, ele está apenas em busca de realizar seu sonho em prol de um futuro melhor para a humanidade.

Dorival pensou que seria melhor se o filho sonhasse bem longe de casa, mas calou-se para evitar discussões inúteis.

Juvenal conheceu Maria Letícia quando tomava café em uma padaria antes de ir trabalhar, apresentado pela moça do caixa, que já o conhecia por ser freguês assíduo. Começaram a namorar e, passado algum tempo, a moça levou-o até sua casa para apresentá-lo aos pais.

À noite, após o trabalho, Juvenal ia até a casa de Letícia para namorar no sofá da sala e depois trocar beijinhos no portão ao se despedir.

Em certa ocasião, presenciou a sogra, com sérios problemas na coluna, apresentar enorme dificuldade em calçar os sapatos. Juvenal, que até aquele dia se contivera em não mostrar suas invenções, não resistiu e, na noite seguinte, levou uma de suas criações para facilitar o ato da sogra.

O resultado foi desastroso: ela ficou com os pés presos, gritando de dor, e ninguém conseguia soltá-la da geringonça.

Tiveram que chamar os bombeiros para serrar o invento. De repente, Juvenal olhou para trás e viu o sogro correndo em sua direção com algo nas mãos. Nem tentou ver o que era e saiu correndo, só parando em casa. Nunca mais viu Maria Letícia.

Solitário, já que seus pais, cansados das invenções malucas, mudaram-se para uma cidade a 1.800 km de distância, teve a oportunidade de desenvolver suas criações sem colocar a família em perigo.

Buscou incessantemente a produção de algo que substituísse o caríssimo combustível utilizado nos veículos.

Certa manhã, precisando abastecer sua moto 125 cc para ir ao trabalho e estando sem dinheiro, resolveu colocar no tanque um produto no qual estivera trabalhando a noite toda, mas que ainda não havia testado.

Surpreso, viu sua moto desenvolver um excelente rendimento.

Naquele dia, após o expediente, nem passou pelo “buteco”, como sempre fazia, e foi direto para casa aprimorar sua inesperada invenção. Na manhã seguinte, descobriu que havia criado um tipo de combustível de baixíssimo custo e com rendimento muito acima do comum.

Precavido, foi registrar sua fórmula no Departamento de Marcas e Patentes. O funcionário que o atendeu, percebendo ali uma oportunidade de lucro ilícito, procurou um diretor de uma estatal petrolífera, cuja fama de corrupto era notória, e expôs a situação.

Foi imediatamente levado ao gabinete do presidente da empresa, a quem Juvenal reconheceu por já tê-lo visto várias vezes em noticiários de corrupção e desmandos.

O funcionário vendeu a preciosa informação e saiu de lá com os bolsos cheios de dinheiro.

Já o presidente, acostumado ao ambiente nefasto da corrupção, foi pessoalmente ao endereço de Pardal.

Para ele foi fácil enganar o inocente Juvenal, afirmando que, ao comprar a fórmula do combustível barato, iria fabrica-lo em grande escala e, assim, ajudar a população mais carente.

O dirigente abriu a maleta que trouxera e ofereceu R$5 milhões em espécie ao rapaz, dizendo que ele nem precisaria declarar à Receita Federal, pois isso já estaria regularizado.

Sem entender muito de assuntos financeiros, Pardal aceitou, acreditando ingenuamente que seu invento ajudaria os pobres do país.

Na volta, o presidente da estatal pediu ao motorista que parasse em frente a um terreno baldio. Ali, destruiu a fórmula e o registro da patente.

Voltando ao carro, disse, regozijando-se:

– Ajudar os pobres? Que tolice! Vamos continuar a vender combustível caro e alimentar nosso esquema de desvio de verbas.

Com o dinheiro, Juvenal adquiriu uma propriedade na zona rural, distante da opressiva megalópole. A casa confortável vinha acompanhada de um galpão a prudente distância, onde ele podia criar suas extravagantes invenções sem colocar nada, nem ninguém, em risco.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Nilto Maciel (Águas de Badu)


Moscas voejavam ao redor do cadáver. Choravam filhos e amigos, noras e netos, vizinhos e filhas, genros e netas. A mulher, se chorava, só Deus sabe. Nos olhos do cachorro Chué, no entanto, não se viam lágrimas. Quiçá ainda não soubesse do fim do seu protetor. Eu não chorei. Para que chorar, se o choro não conta histórias? Cabia a mim acompanhar os últimos momentos daquele ser entre os vivos. Retribuir, de alguma forma, o muito que dele ouvi. Pois de sua boca saíram dezenas e dezenas de crônicas sertanejas, todas elas por mim transformadas em contos. Consolar os seus parentes e, até pagar as despesas do sepultamento. Antes, porém, devíamos velar o corpo mirrado do velho Balduino. Não, Balduino não, Badu, como gostava de ser chamado. Quem quisesse ser seu amigo não o chamasse pelo nome de batismo. Isso vinha desde os tempos de rapaz. Ora, se até o major Saulo o tratava por Badu, não ia permitir cerimônias de outros.

De vez em quando alguém espantava moscas da cara enrugada do finado. E dos olhos cerrados, da boca murcha, da testa franzida. Badu parecia imagem de museu. Como se estivesse apenas a dormir. A qualquer momento se sentaria na rede, pediria uma caneca d’água e passaria a contar histórias. No sertão... Não, eu não tinha vontade de chorar. Talvez porque acostumado a fins e fins e a ver nele, o velho vaqueiro, apenas mais um homem que conheci e de quem colhi histórias.

Cerca de sessenta anos atrás vivia Badu na Fazenda da Tampa, vale do Rio das Velhas, Minas Gerais. Montava cavalo e cuidava de gado, como tantos outros nas terras do major Saulo. Quem sabe fosse melhor dizer “viveu”, “montou” e “cuidou”, porque apenas dois meses durou sua estada naquele lugar, de dezembro a janeiro. Tempo suficiente para conhecer Ritinha e por ela se engraçar. Para Ritinha dele se aproximar e desprezar Silvino. Para Silvino se encher de ódio e prometer vingança. Pois esse Silvino passou, então, a dizer a uns e a outros que não tardava a hora de meter uma faca nos peitos do rival. Pretendia matá-lo na primeira oportunidade. Sangrá-lo como se sangra porco. Badu, no entanto, não queria briga. Nada de porfiar com o sujeito.

Conheci o antigo vaqueiro por acaso. Entrei num boteco do Pirambu, em Fortaleza, perto da praia, para matar a sede. Pedi água mineral. Três ou quatro velhos conversavam na calçada, sentados em tamboretes. O sotaque de um deles me pareceu estranho. Demorei-me com a água, a escutar a conversa. Ao perceber minha curiosidade, ele se calou. O que tanto eu assuntava? Pedi mais uma garrafinha. Ele falava de um burrinho heroico que atravessava uma correnteza, em noite escura. Dele mesmo nada dizia. Não se pabulava (vangloriava) de nada. Na história só havia um herói: o burro. Dias depois pude saber o motivo do seu receio. Eu talvez fosse espião do major Saulo ou de quem o tivesse sucedido no comando da fazenda. Aquilo podia ser uma arapuca. Se não me conhecia, não podia confiar em mim.

Tudo mudou quando me apresentei como professor, pesquisador, jornalista, folclorista, o levei ao meu apartamento, apresentei-lhe minha família, meus livros, escancarei minha vida. Do alto do edifício, no Meireles, mostrei-lhe o mar. A princípio, como se em êxtase, ele não disse uma só palavra, olhos afundados nas águas azuis. Ou verdes. Nos verdes mares bravios. Súbito, sem piscar, sem tirar os olhos da vasta pintura, e como se eu fosse sábio, quis saber de onde vinham e para onde iam tantas águas. Tentei uma explicação científica. Ele então compreendeu que eu não sabia tudo. Aquilo era muito bonito, mas preferia o chão, o sertão. O homem não fora feito para as alturas. Quem vivia pendurado em galhos era macaco. E nas águas viviam os peixes. Perguntei se queria ouvir umas histórias. Só se fossem de matutos. Serviram sorvete de graviola. Corri às minhas gavetas, trouxe uns cadernos e passei à leitura. Às vezes ria; outras, se entristecia. E não deixava de mirar o mar. 

Com ele saí a passeios pela cidade, como se turistas fôssemos. Caminhamos  pelo calçadão da Beira-Mar, pela Ponte dos Ingleses, fomos à Barra do Ceará, ao Mucuripe, à Praça do Ferreira, vasculhamos toda a cidade. Ele não conhecia esses lugares ou os conhecia de relance. Um dia, ao voltarmos de um desses passeios, estacionei o carro diante de sua casinha e me despedia, quando ele me convidou a conhecer sua família. Mandou eu me abancar. Mostrou um banquinho de madeira. Deixou a sala e entrou pela casa. Morava com um filho, a nora e alguns netos. Falou dos outros familiares, de onde moravam, do que faziam. E se pôs a contar a sua vida ou parte dela. Sobretudo a partir do dia da grande desgraça acontecida num rio, quando ele, bêbado, montado num burro velho, em fins de vida, se salvou da correnteza, enquanto os seus companheiros de jornada morreram afogados. Cavaleiros e cavalos arrastados pelas águas. A custo o burrico alcançou a casa da fazenda. Mais morto do que vivo. Badu encharcado de água e cachaça apeou e se recostou na parede. Atordoado, com medo, sem rumo, resolveu arribar, fugir daquele lugar o mais cedo possível. Montou de novo o animal e enveredou para o norte. Mas o burrico, de tão velho, não suportou tanto peso, tantas veredas. 

Diante do cadáver, Badu chorou. Retirou o cabresto, porque disso ele não carecia mais. Nunca mais. Beijou-lhe a testa, abraçou-lhe o pescoço, ajoelhou-se diante do corpo e agradeceu por estar vivo. Abriu uma cova rasa e nela o enterrou. Fez uma cruz de paus, fincou-a sobre a terra e seguiu em frente. Sempre a pé. Pois desse dia em diante nunca mais montou burro ou cavalo. Fez a jura. Andou por veredas, matas, dias e noites de fome e sede. Para sobreviver, topava qualquer serviço. E assim aprendeu de quase tudo um pouco. Um dia cavava cacimba, uma semana apanhava feijão, um mês cuidava de porcos. Areou-se todo o tempo, sem saber se ia para cima ou para baixo. Meteu-se nas brenhas, sem avistar vivalma durante dias e noites. E, por acaso, se viu diante de muitas águas. Seria o Velho Chico? Esperou, esperou, até avistar um barco. Mas dessas peripécias ele não quis falar muito. Sem saber onde se achava, sem atinar com geografias, fugia do passado e de Minas. Queria atravessar o São Francisco e seguir em frente.

Cerca de um ano depois alcançava o sul do Ceará. Entretanto, as histórias de cangaço e de lutas entre grupos políticos o empurraram do Cariri. Não queria conhecer padre Cícero? Não, não e não. Queria conhecer sossego. E se enfiou de novo pelo sertão, até alcançar a serra de Baturité. Arranchou-se num sítio nas proximidades de Mulungu. Precisava de descanso e, se não fosse pedir demais, um pouco de comida. Falava quase nada, com receio de se enroscar nas conversas. Arranjou serviço de capinar. E outros e outros serviços. Trabalhava do nascer do sol ao escurecer. Sempre calado e obediente. Precisava se aprumar na vida e esquecer pelo menos aquele dia de mortes. E conheceu a cabocla Joana, com quem se casou um ano depois. Disso também contou pouco. 

O tempo passava devagar. Às vezes pensava em voltar, rever os pais e irmãos. Com certeza o tinham por morto. Ora, e se não conseguisse acertar o caminho de volta? Melhor mesmo virar cearense de vez e esquecer o passado. Aprendia aos poucos a fala do povo da serra. Nascido o primeiro filho, perdeu a vontade de voltar. Joana não fazia perguntas. Só falava do ontem dela. E do hoje do menino. Badu gostava disso. O tempo andava lerdo. Outros meninos nasciam e cresciam. Joana não fazia perguntas. Só falava de seus meninos, rapazes e moças. Badu gostava muito disso. E criava bodes, cabras, galinhas, porcos. O tempo corria. O primeiro  filho inventou de morar na capital. Queria ser chofer. Na serra não se viam caminhões, nem jipes. Só em Mulungu, Baturité, Guaramiranga. Uma vez Badu olhou para trás, para o sítio, para os matos, para a mulher e não viu mais os filhos. Todos tinham arribado para Fortaleza. Um dia o mais velho chegou com jeito de lorde. Queria levar pai e mãe para a cidade. E levou.

Esses enredos se alongaram, sempre pacíficos, sem correntezas e sem secas. Para contar tudo, porém, seriam precisos dias e noites de fala. Até o último dia, até aquele momento de despedida: Badu deitado numa rede, sem vida. Seu povo triste, choroso. O cachorro Chué a vadiar entre as pernas das pessoas. Badu, por que esse nome Chué? O velho não ria nunca, mas sabia fazer rirem os outros. Mais chué do que este vira-lata só o mais chué dos cachorros. E Mais Chué existe? Devia existir. Em razão da idade, quem sabe, o velho vaqueiro muitas vezes confundia a natureza do animal com a de outro. Com voz sumida, chamava Chué de “meu burrinho”. Num desses momentos de afago ouvi – creiam – a promessa: “Chué, não vou deixar ninguém montar você”.

E o burrinho pedrês? O vaqueiro pouco sabia dele. E, se sabia muito, pouco dele falou. Não lhe lembrava o nome nem as características. Recordava tão-somente a sua bravura naquele dia de angústia e mortes. E quiçá nem lembrasse muito, porque a cachaça escureceu-lhe a mente durante algum tempo.

Parecia coisa do destino ou o avesso dele. Pois quem imaginava que um jegue velho, miúdo, magricela, quase cego, pudesse salvar uma vida? Que um homem bêbado sobrevivesse à travessia de um rio em rebuliço, após a chuva? E que cavalos bonitos, de estirpe, naufragassem, como pedras, e com eles levassem tantos vaqueiros valentes no roldão das águas?

A partir daquele dia Badu nunca mais foi o mesmo. Nunca mais tomou suas bicadas. Parou de beber, numa ojeriza sem par de aguardente. Não por isso, passou a ter sonhos esquisitos. Num deles, vagava no mar montado num burro. As ondas vinham, gigantescas, e os jogavam para o alto. Logo não havia mais burro. Badu montava, então, enorme peixe, porventura um peixe-boi. E mergulhava no abismo. Fazia frio, faltava ar. No fim do pesadelo, Badu não sabia mais de burro nem de peixe: agarrava-se a um pedaço de pau, um galho de árvore. E a correnteza os levava para os confins do mundo. Ancorava numa ilha. No entanto, cobras na praia não o deixavam pisar a terra.

Tudo começou quando o major determinou o ajuntamento de uns bois para serem levados à estação do arraial distante quatro léguas da fazenda, onde seriam embarcados em trens. Coisa corriqueira. Entretanto, o dia começou com chuva. Não fazia mal. Precisava, para tanto, de todos os vaqueiros, dos onze da fazenda. Mas faltava um cavalo. Sendo assim, que o burrico servisse de montaria a um dos homens. E a viagem se começou. Badu num velho poldro pampa; os outros nos seus cavalos e no burro; o major no seu cardão. Não fosse tanto boi para tão poucos cavalos, talvez Saulo não se lembrasse do jumento. Não fossem de Ritinha o amor e de Silvino o ódio, possivelmente Badu não tivesse bebido tanta cachaça. Não fosse a bebedeira, certamente Badu tivesse voltado no velho poldro. E assim teria morrido como tantos outros levados pela correnteza.

Deixados os bois nos trens, despediu-se o fazendeiro dos vaqueiros. Precisava pernoitar no arraial. Para seu lugar nomeou um deles. Conduzisse os homens em paz. Ficasse de olho em Silvino e Badu. Impedisse briga, discussão, muita conversa. Não queria saber de morte. Voltassem para a fazenda. Antes, porém, foram os homens comer e beber. Após o que, cada um pegou a sua montaria. Menos o vaqueiro do burrinho, que se engraçou do poldro de Badu. Restou o jegue, a um canto, solitário. Bêbado demais, o último a chegar ao telheiro onde os cavalos descansavam, Badu se irritou. Como voltar naquele burro sem serventia? Ora, se não quisesse o muar, que seguisse a pé. Passou a perna sobre o animal, equilibrou-se como pôde e saiu no encalço dos outros. Tudo escuro ao redor. E a chuvinha insistente. No fim da rua, os cavaleiros se haviam ajuntado para confabular sobre a situação. Quem sabe fosse melhor esperar o amanhecer. Ou o estiar. Se o córrego tivesse enchido, seria perigoso tentar atravessá-lo. Ao deixar para trás os cavalos, no passo lerdo do jumento, Badu ouviu risadas. Caçoavam dele. Não se importou com aquilo. Queria voltar para a fazenda e dormir. Mesmo debaixo de chuva e escuridão. E se deixou levar pelo animal. Seguiram-no os cavaleiros pelos caminhos molhados, aos pares. E a chuva engrossou. Pouco a pouco, tudo ao redor se transformou num aguaceiro medonho. Um balcedo (terreno alagado) só, as patas dos animais afundavam, enquanto o breu da noite envolvia o mundo.

Na sala do casebre o choro ia e voltava. Lamentavam a morte inesperada do velho Badu. Tão cheio de saúde! Deus o tivesse em bom lugar. Chué entrava e saía, desconfiado da novidade. O seu protetor jazia numa rede, calado e inerte. Nunca mais o chamaria para passear. Nunca mais passaria a mão em sua cabeça. Badu, você gosta muito de Chué? Ora se gostava. Como não gostar dos brutos, se dos homens só recebiam maldades em troca de trabalho, companhia, amizade? Por acaso algum homem é capaz de servir de montaria? De conduzir um homem bêbado de um lado a outro do rio? Chué passava horas aos pés de Badu. Ouvia-lhe histórias de burros, cavalos e bois, compenetrado, sisudo, sem um riso de deboche.

Naquela noite de breu, depois de muita chuva, o mundo parecia um alagadiço só. Mas os homens precisavam voltar para a fazenda e não havia onde se arrancharem. Galoparam, galoparam e, ao se aproximarem da margem do córrego, sofrearam os cavalos. As águas tinham inundado tudo. Então deixassem o burro ir à frente. Se conseguisse atravessar o rio... “Burro não se mete em lugar de onde ele não sabe sair!” Como se não temesse as águas, a correnteza, a escuridão, o burro meteu as patas no córrego. Chapinhou, chapinhou, alcançou o meio, afundou-se até a barriga, seguiu. Badu agarrava-se ao seu pescoço, equilibrava-se. Os cavalos se viram obrigados pelos vaqueiros a tentar a travessia. As águas, porém, aumentavam de volume e tomavam mais ímpeto.

Encerradas as rezas, as mulheres se retiraram para a cozinha. Os homens sentiram vontade de beber uns goles. A meninada andava há muito pela calçada, a correr e rir. Apenas Chué permaneceu na sala. Súbito deu alguns passos e se postou ao lado da rede. Olhou para os lados, retesou as orelhas, ergueu-se, levantou as patas e as pousou no peito do morto. A rede balançou. Badu se despedia da vida como se ninado. Despedia-se de nós, parentes e amigos, daqueles que gostavam de ouvir suas histórias do sertão, de bichos e gentes. Sua derradeira história ele me contou numa tarde muito quente. À noite, dormindo, ele se finou. Parece ter sido um sonho. Ou invenção. Ele via do alto, como se flutuasse nas nuvens, as águas saindo do mar pelos caminhos dos rios e correndo para o sertão. Ao mesmo tempo, ele caminhava pelo chão, ao lado de um burrinho que às vezes latia. Molhava os pés na beira do rio, banhavam-se, alegres como meninos em brincadeira.

Um menino entrou no recinto e viu o cão a lamber o rosto de Badu. Mas não lhe pareceu um cão como os outros. Assemelhava, antes, outro tipo de animal. Talvez um burrinho. Pois nas faces do defunto aflorava um tímido sorriso, como se agradecesse o carinho. Chué se pôs a relinchar baixinho, como se dissesse ao amigo palavras de consolação. Ou como se rezasse e dele se despedisse. Como se dissesse: “eu fiz o que pude, cumpri o meu dever. Cumprimos nossas sinas.”  O menino levou as mãos à cabeça e quis gritar. O cachorro lambeu de novo o rosto do homem e saiu cabisbaixo no rumo da rua. E Badu voltou a ser morto.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = = 
Fortaleza, junho/julho de 2005.

(Recriação de “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa, para Quartas Histórias – contos baseados em narrativas de Guimarães Rosa, org. Rinaldo de Fernandes. Rio de Janeiro, Ed. Garamond, 2006.)
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 
Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 152 *


Poema de
FÁTIMA VENUTTI
Blumenau/SC

Recado

Entre os corpos,
Entre os astros,
Entre as estrelas...
Sob o mar,
Sob o azul,
Sob o luar...
Então, o amor.
Então, o nascer.
Então, o encontrar.
Eu estarei
eternamente
A te embalar
Em meus fictícios
Versos a voar...
Tua
Nua
A te esperar
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
HEGEL PONTES
Juiz de Fora/MG (1932 – 2012)

A alma da pedra
  
Longa pesquisa. E o mestre hindu descobre
que existe uma fadiga nos metais;
que o descanso renova, do ouro ao cobre,
o reino singular dos minerais.

Eu também sinto que a matéria encobre
estranhas vibrações emocionais.
É que a pedra tem alma, simples, nobre,
sonhando evoluções espirituais.

E a alma da pedra imóvel é a energia
que evolui, na ilusória letargia,
entre seres gigantes e pigmeus.

E sonha, nos milênios que a consomem,
ser um cacto que sonha ser um homem,
ser um homem que sonha ser um Deus.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
PEDRO DU BOIS
Passo Fundo/RS, 1947 – 2021, Balneário Camboriú/SC

Palavras

Ásperas
ditas como ordens
assustadas
macias
ditas como esperas
controladas
raivosas
ditas como verdades
escancaradas
melífluas
ditas como mentiras
dissimuladas
rezadas
ditas como saudades
santificadas
cantadas
ditas como músicas
silenciadas
caladas
ditas como lembranças
extremadas.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Popular

Carvalho que dá bugalho,
porque não dás coisa boa?
Cada um dá o que tem,
conforme a sua pessoa.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)

A um poeta moço

Desanimado, entregas-te, sem norte,
Sem relutância, à vida; e aceitas dessa
Torrente que te arrasta — a só promessa
De ir lentamente desaguar na morte.

Que pode haver, em suma, que te impeça
De seguir o teu rumo contra a sorte?
Sonha! e a sonhar, e assim armado e forte,
Vida e mágoas, incólume, atravessa.

Ouve: da minha extinta mocidade
Eu, que já vou fitando céus desertos,
Trouxe a consolação, trouxe a saudade,

Trouxe a certeza, enfim, (se há sonhos certos)
De ter vivido em plena claridade
Dos sonhos que sonhei de olhos abertos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
FERNANDO JOSÉ KARL
Joinvile/SC

O jardim suspenso

 Atirei pedra no sopro,
que fez da pedra uma ode.

Menos palavras, mais sopros,
porque o invisível é simples amor
coberto de flores na curva do vento.

Palavras são visíveis,
com elas posso ler o que passa
por dentro e por fora do jardim suspenso.

 Prefiro palavras a sopros,
porque de sopros o poço é cheio,
e não haveria sopros e poço sem palavras.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
ALPHONSUS DE GUIMARAENS FILHO
Ouro Preto/MG, 1870 – 1921, Mariana/MG

Momento

Minha amada tão longe! Com franqueza:
eu penso sempre em me mudar daqui.
Pôr na sacola o pão que está na mesa,
sair vagabundando por aí.

A luz do quarto ficará acesa.
(Foi neste quarto que eu me conheci...)
Deixarei um bilhete sobre a mesa,
dizendo a minha mãe por que parti.

Ah! ir cantando pelo mundo afora,
como um boêmio amigo das cantigas,
alma febril que a música alivia!

Se perguntarem, digam: "Ainda agora
saiu buscando terras mais amigas,
mas é possível que ele volte um dia."
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
HUGO MUND JUNIOR
Mafra/SC

Um único verso

Um único verso sustenta
o equilíbrio do pássaro,
celebra a queda da folha
ao chão, brilha no coração
ilícito. Um único verso
sangra o papel em branco.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

O brigue

Num porto quase estranho, o mar de um morto aspecto,
Esse brigue veleiro, e de formas bizarras,
Flutua há muito sobre as ondas, inquieto,
À espera, apenas, que lhe afrouxem as amarras...

Na aparência, a apatia amortece-lhe o esforço;
Se uma brisa, porém, ao passar, o embalsama
Ei-lo em sonho, a partir, e, então, empina o dorso,
Bamboleia-se, mais gentil do que uma dama...

Dentro a maruja acorda ao mínimo ruído,
Deita velas ao mar, à gávea sonda, o ouvido
Alerta, o coração batendo, o olhar aceso...

Mas a nau continua oscilando, oscilando...
Ó quando eu poderei, também, partir, ó quando?
Eu que não sou da Terra e que à Terra estou preso?
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
JUVÊNCIO MARTINS COSTA 
Florianópólis/SC (1850 — 1882)

Sonho (II)

 Tranquilo o coração adormecera
Na doce languidez de um beijo ardente. . .
Entre sonhos de flor beijara a crença
A perfumar minh' alma incandescente.

 E amei a vida, respirei das auras
O tépido frescor, banhando a fronte
Da formosa mulher, por quem meu peito
Estremece de amor, tão puro, insonte.

 E amei o sonho desfolhando risos,
Almo* prenúncio d' almo encantamento;
E minh' alma jaze o imersa em gozo,
Numa luta febril com o pensamento.

 E a sonhar vi a imagem predileta
Por entre sombras de uma luz fulgente;
Nus os seios tremendo de volúpia,
E no lábio a brincar beijo inocente.

 E a voz tremente balbucia um termo, —
Repassado de aromas e ambrósias,
Termo tão doce como sons de harpa
Desprendendo ignotas harmonias.

 Esse termo exprimira a majestade
De um profundo sentir, d'alma arrancado:
Amor em cujos elos se enlaçara
O coração do vate apaixonado.

 Termo tão doce a revelar carinhos,
Desprendido de lábios sedutores;
Termo a deslumbrar meu lindo sonho,
Ventura a reviver num céu de amores!

 Ouvi a frase rebentar dos lábios:
Eu sou o teu amor, amo-te tanto!
Não sei o que senti: em doce arroubo
Contemplei a mulher, celeste encanto!

 Era um anjo: sobre a nívea espádua
Vi roçar seu cabelo brandamente. . .
Nos seus olhos o brilho que cintila
Fogo de amor que queima e não se sente!

 Ai! Cedo se turvou a crença d'alma,
Breve se transformou o encantamento. . .
Acordei-me do sonho e não vi nada.
E sinto arder em febre o pensamento!
= = = = = = = = = = = = = = =
* almo = santo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
Barra do Piraí/RJ

Em dez de março de noventa,
Um sonho fez-se realidade.
Sem a menor visão sangrenta,
Surgiu a tua liberdade.

E tu, outrora tripartida,
Rompeste em marcha triunfante.
E nesta luta pela vida
Foste um exemplo edificante.

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!

Entre colinas verdejantes,
Ricas, tão ricas de beleza,
Com teus dois rios coleantes,
És um primor da natureza.

Terra feliz, feliz e calma,
Sob este céu sempre de anil,
Tu és a cidade que tem alma,
Ó meu pedaço do Brasil!

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!

Ó terra minha, berço amado!
Ó meu torrão bem brasileiro!
Cheio de glória no passado
E de futuro alvissareiro!

À luz da tua própria história,
O teu caminho percorrido
É rumo certo para a glória
Deste Brasil estremecido!

Salve! Salve! Boa terra hospitaleira!
Barra! Barra! Progressista e altaneira!
Barra! Barra! Tu serás a vida inteira,
Em terras fluminenses,
Todo o nosso orgulho
De fiéis barrenses!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN (1876 – 1901) Natal/RN

Estrada afora

Ela passou por mim toda de preto,
Pela mão conduzindo uma criança...
E eu cuidei ver ali uma Esperança
E uma saudade em pálido dueto.

Pois, quando a perda de um sagrado afeto
De lastimar esta mulher não cansa,
Numa alegria descuidosa e mansa,
Passa a criança, o beija-flor inquieto.

Também na vida o gozo e a desventura
Caminham sempre unidos, de mãos dadas,
E o berço, às vezes, leva à sepultura...

No coração — um horto de martírios!
Brotam sem fim as ilusões douradas,
Como nas campanhas desabrocham lírios.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O lavrador e seus filhos

Um lavrador sentindo vir chegando
O fim da sua vida, e desejando
Que os filhos trabalhassem na cultura,
Chamou-os, e lhes disse: «A sepultura
Por instantes me espera: os bens, que tinha,
Enterrados estão na nossa vinha.»

Morto o pai, e tendo eles suspeitado
Que algum grande tesouro sepultado
Lhes deixava na vinha, aparelharam
Enxadas, e solícitos cavaram.
Não acharam tesouro, é bem verdade;
Mas a vinha deu tanta novidade,

Que se pode dizer que foi tesouro,
Segundo o que rendeu de prata e ouro
==================

Silmar Bohrer (Croniquinha) 151


Escrito nas estrelas que a comunicação é uma forma de transmitir conhecimentos. E não é à toa que o século vinte e um é chamado de Era da Comunicação - estendida para Era do Conhecimento.

A explosão das redes sociais nos dá a chance de buscar e armazenar conhecimentos e o saber de toda espécie.  Não tenho notícia de outras civilizações que tenham tido a democratização de conhecimentos como a nossa.

Mas como temos as tecnologias a serviço da informação e do conhecimento, muita gente também usa os meios tradicionais de buscar e disseminar cultura.

Sou desta casta que usa os correios quase incessantemente, encaminhando livros e versos e prosas - meus pássaros perdidos - , assim como escrevo e recebo cartas há décadas, algumas, sazonais, outras, semanais, como é o caso de dois missivistas com quem troco envelopes há quase trinta anos.

E quem não gosta de receber o agente do correio, entregando algo inesperado, e também o não esperado?  Este até parece mais gostoso, aguça a expectativa...

E quem não fica contente quando chega um pacote amarrado com barbante, sabendo que chega um livro, ou dois, ou mais? Comunicação chegando, cultura pertinho, o saber tocando a campainha.

Alvíssaras sempre!  Delícias perenes!
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Aposentado da Caixa Econômica Federal há quinze anos, segue a missão do seu escrever, incentivando a leitura e a escrita em escolas, como também palestras em locais com envolvimento cultural. Criou o MAC - Movimento de Ação Cultural no oeste catarinense, movimentando autores de várias cidades como palestrantes e outras atividades culturais. Fundou a ACLA-Academia Caçadorense de Letras e Artes. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com Microsoft Bing, e desenho do autor. por por Jfeldman 

Washington Daniel Gorosito Pérez* (Luis García Montero: “A escrita poética não tem muito sucesso comercial.”)

(tradução do espanhol por José Feldman)
O escritor espanhol Luis García Montero (Granada, Espanha, 1958) falou sobre seu livro mais recente, "Antologia Pessoal", uma coletânea de poemas na qual reúne três temas que considera fundamentais, apresentando suas reflexões sobre linguagem, idade e amor.

Vale lembrar que, ao receber o Prêmio Literário Carlos Fuentes, ele declarou: "Sou poeta. Na Granada pós-Franco, me senti herdeiro de Federico García Lorca, porque me senti testemunha do mundo que o assassinou."

O diretor do Instituto Cervantes também afirmou que "a poesia não tem muito sucesso comercial, ao contrário dos romances, que às vezes são escritos até como entretenimento grosseiro, desprovidos de valor cultural", uma observação crítica do poeta espanhol, cuja "Antologia Pessoal" reúne quatro décadas de sua obra poética.

Para García Montero, a poesia é mais um gênero que mantém uma relação próxima com a solidão e a meditação humana, como ele compartilhou em entrevista ao jornal mexicano Excélsior.

Por exemplo, quando uma pessoa chega em casa sozinha, olha-se no espelho e se pergunta como se sente, como foi o seu dia. Esse ato de solidão tem uma conexão com a poesia. “É por isso que, mesmo que a poesia não seja um sucesso de massa, anos depois podemos nos encontrar lendo Garcilaso de la Vega, São João da Cruz ou Sor Juana Inés de la Cruz, identificando-nos com seus sentimentos, sua solidão e suas dúvidas”, afirma García Montero.

Isso implica que a poesia não é concebida instantaneamente. “O poema diz o que o poeta sente, mas para evitar cair no fanatismo do papagaio, que repete verdades já ditas, o poeta deve garantir que o poema, mais do que um desabafo pessoal, se torne uma meditação sobre a condição humana que resista ao teste do tempo”, afirmou o poeta.

Lembremos que, quando García Montero recebeu o Prêmio Internacional de Criação Literária em Língua Espanhola de 2024, declarou: “Se alguém se dedica à poesia, não é o mesmo escrever 'Eu te amo' quando existe uma relação de igualdade, respeito e liberdade, como quando existe uma relação de subjugação”.

Para García Montero, a poesia “tem sido uma forma de defender a dignidade e a liberdade humanas, com suas nuances. O perigo não é apenas o ditador que se encontra; o perigo também está em defender uma boa causa e esses sonhos se corromperem, terminando em desrespeito e ignomínia”.

O escritor espanhol acredita que as humanidades são outro fator determinante na concepção de um poema e expressou: “Para mim, é necessário resgatar valores, porque os tempos passam a passos largos e vivemos em momentos em que o tempo se tornou um grande conceito cultural e uma mercadoria descartável”.

No entanto, o poeta espanhol afirma que: “As humanidades servem para refletir sobre a condição humana e pensar o tempo não como uma mercadoria descartável, mas como uma experiência compartilhada a partir do presente”.

Ele declarou: “Os poetas que mais respeito são herdeiros do passado. Devo reconhecer que aprendi muito com poetas como José Emilio Pacheco e Rubén Bonifaz Nuño, pessoas que se sentiam herdeiros de uma tradição poética que remontava ao mundo indígena pré-hispânico”.

Ao ser questionado se um único leitor é suficiente para a existência da poesia, García Montero reflete: “Acredito que um leitor é essencial para a existência da poesia. Se você escreve e o texto permanece apenas uma reflexão pessoal, o poema está lá, mas não o ato poético. O poeta catalão Joan Margarit expressou isso muito bem, afirmando que um leitor é necessário para que o ato poético funcione. Acredito que o diálogo entre o autor, o texto e o leitor é fundamental, mas também acredito que, se o poema atinge apenas um leitor… sua recepção é limitada.”

O escritor García Montero considera que um dos perigos que a poesia enfrenta está relacionado à linguagem. “Penso no perigo de acreditar que se é um gênio. Por exemplo, o poeta que se imagina muito talentoso porque escreve poesia tão difícil que apenas outros poetas a entendem, e assim transforma a linguagem poética em um dialeto entre poetas”, e afirmou: “Acredito que seja perigoso escrever poemas acreditando que são de alta qualidade quando não são facilmente compreendidos.”

Abaixo compartilho o poema: “Oração” que faz parte do livro “Antologia Pessoal” e que o escritor hispano-mexicano Paco Ignacio Taibo II, amigo de García Montero e atual diretor do Fondo de Cultura Económica do México, adotou como lema pessoal:

Oração

A vós,
que cortastes a maçã da morte,
com o anonimato da guerra,
imploro caridade.

Por um Deus
em quem nunca acreditei.

Por uma justiça
na qual desconfio.

Pela ordem de um mundo
que não respeito.

Para que renuncieis à vossa guerra,
eu renuncio às minhas dúvidas,
que me são tão intrínsecas
como a luz amarga
é intrínseca ao outono.

E escrevo a Deus, Justiça, Mundo,
e imploro caridade
e vos suplico.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = === 

* Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991, tendo obtido a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. Professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias.

Fonte:
Sumar Literomania nr. 394 (2026). 01.02.2026