sexta-feira, 8 de maio de 2026

José Feldman (A Flor Abandonada)

Texto sobre o trístico de José Feldman
No jardim, só uma flor,
triste, abandonada...
é o resto de nosso amor.
Certa manhã, enquanto caminhava por um antigo jardim da cidade, fui atraído por uma flor solitária que brotava em meio ao mato. Era uma flor simples, mas sua beleza tímida se destacava no cenário de descaso e abandono. Olhei para ela e senti uma pontada de tristeza. Aquela flor parecia representar muito mais do que um mero elemento paisagístico; era um símbolo de algo perdido.

A lembrança de um amor que um dia floresceu em minha vida invadiu minha mente. Lembrei-me de como tudo começou: sorrisos, promessas e a esperança de um futuro juntos. O jardim de nossas vidas estava repleto de cores vibrantes, onde cada momento compartilhado era como uma pétala que se abria em direção ao sol. Mas, como muitas histórias, a nossa também teve seus altos e baixos. Com o tempo, as brigas e desentendimentos começaram a sufocar a beleza que havíamos cultivado, até que um dia, aquele amor se foi, deixando apenas uma flor triste e abandonada.

O que restou foram memórias e ecos de risadas, mas também um profundo vazio. Assim como a flor, eu sentia que aquilo que um dia fora vibrante se tornara algo solitário e melancólico. A vida seguia em frente, mas havia uma parte de mim que ainda permanecia naquele jardim, presa ao que poderia ter sido.

Enquanto observava a flor, percebi que, apesar de sua aparência triste, ela ainda lutava para sobreviver. Era um testemunho silencioso de resiliência em meio ao descaso. Aquela flor, assim como eu, estava tentando encontrar seu lugar em um mundo que parecia esquecer. A beleza da luta pela vida, mesmo em condições adversas, era algo que não poderia ser ignorado.

Decidi me aproximar e toquei suavemente suas pétalas. Foi quando percebi que, mesmo em sua solidão, ela ainda guardava uma esperança silenciosa. A flor estava tentando se adaptar, a buscar luz mesmo em meio à sombra. O coração apertou ao compreender que, muitas vezes, o amor também é assim: uma luta constante por reconhecimento e cuidado, mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.

De repente, uma ideia surgiu em minha mente: e se eu cuidasse daquela flor? O jardim poderia ser restaurado, e a beleza poderia voltar a florescer. A vida é feita de ciclos, e, assim como a flor, nós também podemos renascer, mesmo após um amor que deixou marcas.

Com essa nova perspectiva, decidi que não apenas me importaria com aquela flor, mas também com meu próprio jardim interior. Começaria a regar as memórias boas, a cultivar novos sentimentos e a deixar para trás o que já não servia mais. Afinal, a vida continua, e cada um de nós tem a capacidade de florescer novamente.

Ao me afastar do jardim, percebi que a flor, embora triste e abandonada, tinha me ensinado uma valiosa lição: mesmo as situações mais difíceis podem nos ensinar sobre resiliência e esperança. E, assim, o resto do nosso amor poderia se transformar em um novo começo, onde novas flores poderiam brotar, trazendo cor e alegria aos dias que ainda estão por vir.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber. Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Sunshine.
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Renato Benvindo Frata (A sopa de sim e não com o tempero talvez)


Na família dos advérbios, sim e não são irmãos antagônicos. Um afirma, o outro nega. Ambos carregam a força da decisão — quando ditos com inteireza.

O problema começa quando surge o talvez a lhe pôr tempo indesejado na sopa. 

Esse elemento inconveniente quebra a impositividade de ambos, dilui a certeza e enfraquece a essência do antagonismo.

Sim e não, quando pensados ou ditos sem firmeza, deixam de cumprir o que prometem. Tornam-se frouxos, indecisos, sem cheiro nem sabor. Não convencem. E, pior, pela insipidez, não movem.

Assim, suas certezas escorregam para o campo da possibilidade. Um disparate. Alimentado ainda por seus parentes menos frequentes, mas sempre à espreita: o quiçá, o acaso, o porventura. Todos conspiram para fortalecer a dúvida.

Há remédio? Em tese, sim. Chama-se persistência — acompanhada de perseverança, tenacidade, obstinação e firmeza, cada qual no seu devido uso. São elas que sustentam o enfrentamento dos obstáculos e permitem seguir adiante ou parar, mas com consciência.

Esses elementos exigem paciência, adaptação e, às vezes, mudança de estratégia. Não para agradar ao talvez, mas para superá-lo.

Ainda assim, muitos de nós acabamos vivendo nesse intervalo morno, presos à indecisão e sussurrando desgostos por não saber lutar.  
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
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Afrânio Peixoto (Trovas Populares Brasileiras) - 2

Atenção: Na época da publicação deste livro (1919), ainda não havia a normalização da trova para rimar o 1. com o 3. Verso, sendo obrigatório apenas o 2. Com o 4. São trovas populares coletadas por Afrânio Peixoto.


Um suspiro de repente,
um certo mudar de cor,
são infalíveis sinais
de quem sofre o mal de amor.
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O amor, quando se encontra,
mete susto, mas dá gosto,
sobressalta o coração,
faz fugir a cor do rosto.
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Quem quiser amar direito,
para não se desconfiar,
quando olhar, não deve rir,
quando rir, não deve olhar.
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Amor é como pigarro,
não se pode disfarçar:
Se a cócega dá direito,
tem de tossir ou de olhar.
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Feliz quem ama na terra
inda que seja uma flor.
Pra que existir neste mundo
quem é incapaz de amor?
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Ainda eu não tinha dentes,
começava a engatinhar,
com a filha da vizinha
já me punha a namorar…
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Os pais não podem privar
os filhos de querer bem;
Se as leis dos pais são sagradas,
as do amor mais força têm.
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Querer bem não é pecado,
querer bem é devoção.
Santo não há só no céu,
há também no coração.
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Fui no mato buscar lenha,
Santo Antônio me chamou.
Quando santo chama a gente,
que fará quem é pecador…
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O amor de dois solteiros
é como a flor do feijão:
Quando olham um para o outro,
logo mudam de feição.
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Até menino pequeno
se consegue desmamar:
Coração acostumado
não pode deixar de amar.
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Amor não gosta de acaso,
amor gosta de esperar:
Comida sem apetite
farta ou faz enjoar.
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Plantei o amor no meu peito
pensando que não pegasse,
tanto pegou, que nasceu,
tanto nasceu, que inda nasce.
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Abra-me a porta, menina,
pra que eu entre devagar,
que amor que entra com fúria,
bem cedo se há de acabar.
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Contra faca, bala e cobra
eu tenho o corpo fechado,
mas contra o amor me esqueci:
Aproveitou-se o malvado!
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Se o amor não fosse cego
eu seria bem feliz,
porque tu, lendo em meu peito
verias o que ele diz.
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O primeiro amor da gente
deve ter gosto dobrado,
chegam uns e vão-se outros…
Aquele é sempre lembrado.
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Ai daqueles que perderam
seu primeiro e santo amor:
Pois nas próprias distrações
agravarão sua dor.
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O amor que eu te queria,
de subir se derramou,
botaste água na fervura,
encolheu-se e resfriou.
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Quem me dera livre ser
qual os peixinhos do mar,
que descuidados de amores
correm, brincam, sem cessar
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Uma ausência me retira,
uma saudade maltrata,
uma pena me atormenta,
uma dor é que me mata…
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Eu tomei amor ao longe
por ser a linha mais forte,
rebentou-se a linha ao meio
triste de quem não tem sorte!
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Não tenho onde me esconder
do meu amor inimigo:
Perto, estou fora de mim,
longe, está dentro comigo!
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Fui fraca, facilitei,
cuidei que amor n'era nada.
Amor é mal sem remédio,
hoje estou desenganada!
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Eu sofri e fiz sofrer,
amei e me fiz amar,
se a partida fosse errada,
que gosto principiar!
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Eu sofri por ter de amar
e sofri por ser amado,
mas tudo quanto sofri
eu dou por bem empregado.
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Na galera dos amores,
todos se embarcam cantando,
porém no fim da viagem
todos se apartam chorando.
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JÚLIO AFRÂNIO PEIXOTO nasceu em Lençóis, na Bahia, em 17 de dezembro de 1876, e faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de janeiro de 1947. Foi um polímata brasileiro, destacando-se como médico legista, político, professor e um dos grandes nomes da literatura nacional. Formou-se em Medicina em Salvador em 1897. Sua tese, "Epilepsia e Crime", ganhou reconhecimento internacional. Foi professor de Medicina Legal na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Romancista e ensaísta influente, ocupando a Cadeira 7 da Academia Brasileira de Letras a partir de 1910. Suas obras literárias frequentemente retratavam os cenários do interior baiano. Atuou como Deputado Federal pela Bahia entre 1924 e 1930, focando em temas como saúde pública e educação.

Fonte:
Afrânio Peixoto (seleção). Trovas populares brasileiras. RJ: Francisco Alves, 1919. Disponível em Domínio Público.  

Nilto Maciel (Sonhos)


Um dia, em plena lua-de-mel, ela amanheceu de cara fechada para o marido. Durante o café só abriu a boca para o leite. Nem biscoito quis. Não sentia fome. Indisposta. Ele insistia, ela recusava. Ele amável, ela áspera. Não, não se tratava apenas de inapetência. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.

E ela contou o sonho horrível. Flagrava o marido com outra, no maior amor. E ainda riam da cara dela.

Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! A mulher mais parecia criança. Pessoa de mentalidade atrasada.

Durante o almoço, ela conversou muito e comeu como nunca. Quis até biscoito na sobremesa.

À noite, quase não dormiram. Sonhos, só os de sempre: ela e ele. E acordaram amáveis, apetitosos, cheios de disposição, sem um só mistério nos lábios.

Passada a lua-de-mel, o sonho horrível se repetiu. E ela de novo amuada, a xícara de leite diante dos olhos mudos. Mistérios, mentiras, discussão.

Ele gargalhou, se engasgou, quase vomitou. Não concebia ter casado com mulher tão tola. Se fosse analfabeta, uma pobre camponesa, uma vassala medieval, dava-lhe até razão.

Ela chorou, não quis mais sequer o leite. O marido não a compreendia. Se soubesse quem ele era, não teria casado.

Compadecido, ele deixou de rir, pediu desculpas. Ela não tinha culpa de sonhar infidelidades. Sonho nenhum. Estudiosos, psicanalistas, Freud, Jung, fulano e sicrano, ninguém ainda conseguira revelar o misterioso mundo do sonho. Talvez coubesse a ele, o marido, a glória dessa revelação. Se ela, a esposa, tivesse mais confiança nele, contasse tudo, todos os sonhos. Futuros e passados.

Quando menina, sonhava brigas, safadezas, castigos. Acordava com raiva da irmã, nojo do coleguinha, ódio da mãe.

Cresceu e nada mudava. Vivia brigando, discutindo, arranjando inimizades. Chamavam-na de menina problemática. Doida até.

Depois da confissão, viveram em paz por dias e meses seguidos. Toda manhã ela contava sonhos para ele. Riam, pacíficos, civilizados e apetitosos. Ele, porém, nunca contava sonho nenhum. Não sonhava ou não se lembrava dos sonhos.

Numa dessas manhãs, ela acordou de cara fechada para ele. De biscoito nem queria saber. Derramou o leite. Patife, bandido, safado! Ele também se exaltava. Maluca, sonhadora, problemática!

Mesa posta: xícaras, copos, pratos, garfos, facas — tudo luzidio, intacto, perfeito. Como num sonho de fartura e felicidade. Ela empunhou uma faca pontuda. Ele arregalou os olhos. Ela continuou a xingar. Não suportava mais tanta infidelidade. Traidor, adúltero, marido perverso!

A faca reluzia na mão trêmula. Havia ódio nos olhos dela. Não sentia fome? De jeito nenhum. Nem para um biscoitinho? Não, muito indisposta. Ele insistia, ela recusava. Falasse a verdade, deixasse de mistérios.

Flagrara o marido com outra, no maior amor. E ainda riram da cara dela.

Ele riu, gargalhou. Que tolice acreditar em sonho! Não concebia ter casado com mulher tão tola.

Ela empurrava a cadeira para trás, furiosa, faca em punho. Bandido, traidor, safado! O leite transformava-se em sangue. Não podia haver amor onde havia traição.

Sonho desfeito.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
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Célio Simões (O Nosso Português de Cada Dia) “A mesma procissão por outra rua”


A Igreja Católica, desde tempos imemoriais, sempre utilizou as procissões (cortejo solene que se desloca com um objetivo comum e destino predeterminado) para evangelizar.

Na liturgia do catolicismo existem miniprocissões dentro dos templos, antes, durante ou ao final das missas, como a cerimoniosa entrada do sacerdote, a das oferendas e a do momento da comunhão, o que evidencia sua relevância no processo de evangelização, simbolismo e a manutenção das tradições religiosas do povo católico. 

A primeira procissão que ocorreu no Brasil foi a de Corpus Christi (celebração dos 60 dias após a Páscoa) e veio com os colonizadores portugueses, realizada pela Igreja com o decisivo apoio da monarquia, tendo até hoje duas marcantes peculiaridades: é o único préstito onde o Santíssimo Sacramento é exposto em via pública e também a única que se desloca sobre as ruas profusamente decoradas, criando um caminho simbólico e artístico, para lembrar o momento em que Jesus foi triunfalmente recebido em Jerusalém. 

Os desenhos coloridos são artesanalmente feitos com serragem, sal, areia, borra de café, palha de arroz e tintas especiais, versando sobre temas bíblicos,  cenas da vida de Cristo e objetos do culto eucarístico como cálices, pães e outros símbolos religiosos, fruto do trabalho coletivo, na quietude da madrugada, que reforça a união de famílias, vizinhos, bairros e comunidades, fortalecendo laços de amizades e a fé católica, haja vista que os belos tapetes e passarelas são efêmeros - duram apenas o tempo do cortejo sobre eles desfilar, simbolizando a brevidade da vida humana diante da eternidade de Deus.

Quem mora em Belém do Pará, testemunha todo ano aquela que é considerada a maior romaria católica do Brasil e uma das maiores do mundo - o Círio de Nazaré – invariavelmente no segundo domingo de outubro, congregando mais de dois milhões de romeiros, tradição iniciada nos idos de 1793, e com toda justiça reconhecida como Patrimônio Cultural Imaterial pelo IPHAN e declarado Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO. 

Tão fabuloso é o evento, que além das principais - Círio e Transladação - acontecem “a latere” nada menos que catorze outras romarias oficiais, todas eivadas de grande significado, como o belíssimo Círio Fluvial tendo como palco as águas turvas da Baía de Guajará e a Moto-Romaria, esta pela principal rodovia de acesso à Capital, com a participação de milhares de motoqueiros.

A Procissão do Mastro é outro desfile portentoso que acontece no badalado distrito de Alter do Chão, considerado o “Caribe Brasileiro” em Santarém (PA). Após o ritual de levantamento, acontece a procissão do mastro, considerada a maior e mais antiga manifestação cultural do interior da Amazônia, prestigiada por autoridades, moradores, turistas e visitantes. 

No auto, homens e mulheres transportaram nos ombros o pesado tronco de árvore abatida na floresta, ornamentado com galhos, flores e frutas que simbolizam a fartura, levando-o com esforço até o Barracão da Festa na Praça do Çairé, onde tem lugar o hasteamento das bandeiras do Brasil, do Pará, de Santarém, de Alter do Chão e também do próprio Çairé. É uma festa para ninguém botar defeito, tal o alto astral de seus entusiasmados participantes. 

Uma das mais cativantes criações do cantor Gilberto Gil e Edvaldo Araújo brindou a música popular brasileira com a composição “Procissão”, cuja letra bem retrata o formado do cortejo em seu lento deslizar pelas ruas das grandes e pequenas cidades brasileiras: 

“Olha lá vai passando a procissão
Se arrastando que nem cobra pelo chão
As pessoas que nela vão passando acreditam nas coisas lá do céu
As mulheres cantando tiram versos, os homens escutando tiram o chapéu
Eles vivem penando aqui na Terra
Esperando o que Jesus prometeu...(...)”
E Jesus prometeu coisa melhor

Até aqui, tudo bem, considerando que não há nada muito antigo que não tenhamos herdado dos costumes e das tradições lusitanas. Mas qual o significado de alguém comentar, sempre em tom jocoso, de que “já viu essa mesma procissão por outra rua”?

Exatamente o que todo mundo sabe ou sempre soube. De ser essa uma expressão que se popularizou para demonstrar que uma situação ou problema continua exatamente do mesmo tamanho que sempre teve, que apenas mereceu mudança cosmética na sua exteriorização, sem nada ou quase nada alterar na essência ou no resultado final. 

Ou seja, o mesmo drama ou episódio continua, vestido de nova roupagem que lhe disfarça o caráter repetitivo e inoperante. Em suma, é uma forma de dizer que as aparências mudaram, mas ao fim e ao cabo permanece inalterada. É como também se fala: “já vi esse filme antes...”

Ano eleitoral é uma época propícia para promessas de políticos em campanha, como o fim da corrupção, saúde pública de primeiro mundo, redução de impostos, aumento da segurança pública, ensino de qualidade nas escolas, isso para ficar apenas em algumas, que os eleitores, abertamente ressabiados por tanto cinismo e enganação, se limitam a redarguir que, ganhando esse ou aquele candidato, terão de novo a velha procissão andando por outra rua...
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CÉLIO SIMÕES DE SOUZA é paraense, advogado, pós-graduado em Direito e Processo do Trabalho, escritor, professor, palestrante, poeta e memorialista. É membro da Academia Paraense de Letras, membro e ex-presidente da Academia Paraense de Letras Jurídicas, fundador e ex-vice-presidente da Academia Paraense de Jornalismo, fundador e ex-presidente da Academia Artística e Literária de Óbidos, membro da Academia Paraense Literária Interiorana, da Confraria Brasileira de Letras em Floresta (PR) e membro honorário da Academia de Letras e Artes da Polícia Militar do Estado do Pará. Foi juiz do TRE-PA, é sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, sócio correspondente do Instituto Histórico e Geográfico do Tapajós, fundador e membro da União dos Juristas Católicos de Belém e membro titular do Instituto dos Advogados do Pará. Tem seis livros publicados, dentre eles um E-book e recebeu três prêmios literários. 

Fonte:
Texto e imagem enviados pelo autor

domingo, 3 de maio de 2026

Mel (2003 – 2019)


A genética, às vezes, gosta de brincar de poeta. Maya, uma Pastora Belga albina, imponente como um bloco de neve, em sua segunda cria, trouxe ao mundo uma única herdeira. Não houve ninhada barulhenta, apenas ela: Mel. Contrariando a imponência física da mãe, Mel nasceu pequena, com uma pelagem que honrava o nome — um tom de mel dourado que contrastava com o focinho muito preto, como se tivesse sido mergulhado em nanquim.

Mel não era apenas uma cadela; era uma lição de etiqueta e caráter em quatro patas. Enquanto o mundo canino costuma ser movido por instintos caóticos, Mel parecia ter nascido com um código de conduta invisível debaixo da pata. Nunca lhe ensinei as regras da casa, mas ela as conhecia por uma espécie de osmose espiritual. Ela nunca cruzava o umbral da porta sem que meu olhar ou minha voz dessem o "amém" necessário. E na hora do carinho, aquele momento em que a matilha se torna uma confusão de pelos e lambidas, ela mantinha a sobriedade. Esperava, com uma paciência de monge, ser chamada. Quando eu finalmente dizia seu nome e passava a mão em seu rosto, a "Dama de Mel" se desmanchava. Ela se derretia, perdendo a pose, revelando que por trás daquela educação britânica batia um coração carente de toque.

Mas essa doçura tinha um limite bem claro: a disciplina da casa. E o alvo principal era Fluffy, o Border Collie que era a personificação da travessura. Fluffy era o caos; Mel era a ordem. Sempre que o pegávamos retornando de alguma estrepolia — Mel não se omitia. Ela chegava junto, com latidos curtos e autoritários, uma verdadeira "bronca" que deixava claro: "Nós não fazemos isso nesta família, garoto". Era impossível não admirar aquela pequena autoridade. Ela não precisava morder; sua postura e seus sermões caninos colocavam o bagunceiro nos trilhos.

A vida era um quintal seguro enquanto Maya estava lá. Mel e a mãe eram grudadas, uma simbiose de branco e dourado que parecia eterna. Mas o tempo, esse senhor implacável, trouxe mudanças. Mudamos de casa e, logo depois, aos 11 anos de Mel, a luz de Maya se apagou. O luto de um animal é um silêncio que ensurdece a gente. Mel entrou em depressão. A cadela que cuidava de tudo, que ralhava com o irmão e guardava o portão, recolheu-se à sua casinha. Seus olhos, antes atentos, tornaram-se janelas para uma tristeza profunda. Ela estava sozinha, a última de sua linhagem, e parecia apenas esperar o tempo passar.

Foi então que a vida, em sua sabedoria de ciclos, nos trouxe Shine e Cléo. Duas pequenas retiradas das ruas, cheias de energia e sem modos. No início, Mel apenas observava. Mas a alegria caótica das novatas foi o remédio que nenhum veterinário poderia receitar. Ao ver aquelas duas brincando, Mel sentiu o chamado do dever. Ela recuperou as forças, levantou-se da casinha e assumiu o papel de matriarca. Ensinou a Shine e à Cléo tudo o que sabia: como vigiar o portão, como latir para o estranho com a medida certa de autoridade e como manter a dignidade da casa. Ver as três juntas no portão, formando uma barreira de proteção e lealdade, era um espetáculo que enchia o peito de orgulho.

Mas os anos pesam, mesmo para os anjos. Aos 15 anos, o corpo de Mel começou a falhar. Vieram os desmaios. O diagnóstico era o de uma velhice avançada, o coração já cansado de tantas batidas e de tanto amor. Aqueles foram meses de uma vigília desesperada. Eu me tornei a sombra da Mel. Sempre que percebia que ela ia desfalecer, eu corria. Cruzava o quintal em um desespero mudo, estendendo os braços para que ela não atingisse o chão duro, para que não se machucasse. Quando ela voltava a si, eu a envolvia em carinhos, com meu próprio coração acelerado, tentando passar para ela um pouco da minha própria vida através das mãos.

Até que chegou o fatídico 8 de outubro de 2019.

Dizem que o sol brilha de forma diferente quando uma história de quinze anos se encerra. Mel se foi, e com ela, a última memória viva da linhagem de Maya. A dor de perder um animal assim não é algo que se descreve com facilidade; é um vazio que tem o formato exato do corpo dela.

Ficou o silêncio no lugar das broncas no Fluffy. Ficou o portão vazio de sua presença dourada. Mas, acima de tudo, ficou a lembrança daquela cadelinha cor de mel que, sem que ninguém pedisse, decidiu ser a guardiã da nossa ordem e o consolo da nossa alma. Mel não foi apenas uma cachorra; foi o exemplo de que a educação vem do coração e que, mesmo quando perdemos o chão, sempre podemos encontrar forças para ensinar os que vêm depois de nós a latir para a vida com coragem.

(texto integrante do livro de José Feldman: “Minhas irmãs de quatro patas”)

sábado, 2 de maio de 2026

Asas da Poesia * 184 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Terra Prometida

O sol caiu em minha mão,
uma profecia sinistra
alimentando o fogo eterno
da vida.

As rosas despertam,
o vento carrega seu perfume.

Um trem se perde na distância
da imperfeita geografia.

Os migrantes
nos tetos dos vagões
como uma procissão de alebrijes*,
passageiros de palavras fugazes
domando seus monstros interiores.

Rumo à terra prometida,
onde a dor, a pobreza e
a tristeza são esquecidas.

Onde eles amassarão o pão
com suas lágrimas.
(tradução do espanhol por JFeldman)
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* Alebrijes = são esculturas artesanais mexicanas, vibrantes e surreais, que combinam partes de diferentes animais (reais ou imaginários) em uma única criatura. Criados por Pedro Linares representam a fusão entre o mundo real e o espiritual, servindo como guias espirituais ou protetores, especialmente populares no Dia dos Mortos.
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Trova Humorística de
DOMITILLA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

O marido agonizante,
insistindo quer saber:
– Fui traído? – e ela, hesitante:
– E se você não morrer?…
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Poema de
TERESINKA PEREIRA
Ohio/EUA

Carta

Uma folha de papel
faz milagres de emoções!
Uma letra, que como voz,
vem de longe com segredos,
confessando o seu pensar...
A carta se abre
como flor da tarde
na palma da minha mão.
A lembrança de quem escreveu
se faz estrela-guia
e vem com o carinho
da querida pessoa amiga
que na carta mandou
o melhor de seus sonhos.
Viva a amizade de quem
ainda sabe escrever cartas!
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Aldravia de
GORETH DE FREITAS
Ipatinga/MG

O
trem
leva
e
traz
poesia
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Soneto de
JOÃO JUSTINIANO DA FONSECA
Rodelas/BA

A beleza da vida

A beleza da vida está na própria vida,
nas flores do jardim, no fruto do pomar.
No amanhecer do dia, o sol vindo do mar,
ou da várzea, da serra – eterno na subida.

A beleza da vida está no conjugar
os rios, a floresta, e a comprida avenida…
Pista e velocidade, os pneus a rolar!
Ou, no espinho e na rosa? Ou na idade vivida?

A beleza da vida – o homem no trabalho,
no campo ou na cidade. A enxada. A pena. O malho.
Mover de sonho e fé, de luz, de cabedais.

A beleza da vida – o todo na impulsão
de tudo que se move. O amor, o coração…
O destino da paz, a paz. A íntima paz!
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Poema de
FÁTIMA MALDONADO
Santo Amaro Sousel/Portugal

Um Fado

Quem viu barcos
ir ao fundo
tem nos olhos a certeza
aposta firme na boca
rude descrença na reza

Quem viu barcos trazer escravos
munições e artifícios
figueira brava na costa
açoite preso no riso

Quem viu barcos
magoá-lo,
ferros, lavas e palmeiras
descrê santos e novenas,
nega laços, destrói cercos,
toma ventos por lareiras. 
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TROVA POPULAR

Esta noite dormi fora,
na porta do meu amor;
deu vento na roseira
me cobriu todo de flor.
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Sol

Hoje estás escondido. Olhando para fora,
em meio à névoa densa, em vão eu te procuro.
Que falta fazes quando, ao se esboçar a aurora,
vejo o céu carrancudo e tão cinzento e escuro!

És tu que trazes vida, a ausência eu te censuro.
Sem ti sofre a semente a emergir para a flora,
falta a luz dos teus raios ao trigo maduro,
esmaecem os tons quando te vais embora.

De repente, através de uma nesga apareces…
Com que força vital a alma da gente aqueces
e afastas tão depressa as nuvens de tristeza!

És dono do universo, a nada te comparas;
e ao sentir teu calor reconfortando as searas,
feliz volta a sorrir, de novo, a Natureza!
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Poema de
PAULO LEMINSKI 
Curitiba/PR, 1944 - 1989

O Que Passou, Passou

Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a crônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.
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Haicai de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Mais além, a mata 
e um azulão na gaiola, 
cabisbaixo, mudo…
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Soneto de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Soneto sonhado

    Meu tudo, minha amada e minha amiga,
    Eis, compendiada toda num soneto,
    A minha profissão de fé e afeto,
    Que à confissão, posto aos teus pés, me obriga.

    O que n'alma guardei de muita antiga
    Experiência foi pena e ansiar inquieto.
    Gosto pouco do amor ideal objeto
    Só, e do amor só carnal não gosto miga.

    O que há melhor no amor é a iluminância.
    Mas, ai de nós! não vem de nós. Viria
    De onde? Dos céus?... Dos longes da distância?...

    Não te prometo os estos*, a alegria,
    A assunção... Mas em toda circunstância
    Ser-te-ei sincero como a luz do dia.
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* Estos = ardores, paixões
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Trova de
OEFE SOUZA
(Othoniel Fabelino de Souza)
Ribeirão Preto/SP

Eu tenho muita saudade
do tempo em que eras só minha.
Mas, é que sofro em verdade,
por te ver, também sozinha…
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Glosa de
GILSON FAUSTINO MAIA
Petrópolis/RJ

Chuva

MOTE:
Desde os tempos de Noé
O mundo pôs-se a saber
Que a manga só cai do pé
Porque não sabe descer.
Ademar Macedo
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN

GLOSA:
Desde os tempos de Noé
que, de medo, morre o mundo.
Talvez por falta de fé,
esse pavor é profundo.

Hoje existe a previsão,
o mundo pôs-se a saber,
com grande antecipação,
o dia em que vai chover.

Como filhos de Javé,
devemos acreditar
que a manga só cai do pé
quando Ele determinar.

Veja: o vapor ao subir
faz a chuva acontecer,
liquefaz-se pra cair,
porque não sabe descer.
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Trova de
MESSIAS DA ROCHA
Juiz de Fora/MG

No rastro dos desenganos,
registrei bem na memória,
que os erros mudam os planos
mas jamais mudam a história.
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Soneto de
ADELMAR TAVARES
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

Soneto

No teu palácio de vitrais preciosos,
espelhos altos, e tapeçarias,
tu, milionário, entre cortesanias,
vives os teus momentos caprichosos.

Braços vendidos e mentidos gozos,
de amores fáceis, enches os teus dias.
Mas, passada a delícia das orgias,
vês, protestos e beijos, mentirosos.

E ah! quantas vezes, solteirão, cansado,
invejarás o "guardador de gado"
que pelo escurecer, sem falsos brilhos,

volta para a cabana, e alegre janta,
cachimba um pouco, afina a viola, e canta
para o amor da mulher, e o amor dos filhos...
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Trova de
JACY PACHECO 
Duas Barras/RJ, 1910 – 1989, Niterói/RJ

Quando te vejo, Teresa,
tão bonita e jovial,
eu considero a tristeza
mais um pecado mortal!
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Parolagem da vida 

Como a vida muda.
Como a vida é muda.
Como a vida é nuda.
Como a vida é nada.
Como a vida é tudo.
Tudo que se perde
mesmo sem ter ganho.
Como a vida é senha
de outra vida nova
que envelhece antes
de romper o novo.
Como a vida é outra
sempre outra, outra
não a que é vivida.
Como a vida é vida
ainda quando morte
esculpida em vida.
Como a vida é forte
em suas algemas.
Como dói a vida
quando tira a veste
de prata celeste.
Como a vida é isto
misturado àquilo.
Como a vida é bela
sendo uma pantera
de garra quebrada.
Como a vida é louca
estúpida, mouca
e no entanto chama
a torrar-se em chama.
Como a vida chora
de saber que é vida
e nunca nunca nunca
leva a sério o homem,
esse lobisomem.
Como a vida ri
a cada manhã
de seu próprio absurdo
e a cada momento
dá de novo a todos
uma prenda estranha.
Como a vida joga
de paz e de guerra
povoando a terra
de leis e fantasmas.
Como a vida toca
seu gasto realejo
fazendo da valsa
um puro Vivaldi.
Como a vida vale
mais que a própria vida
sempre renascida
em flor e formiga
em seixo rolado
peito desolado
coração amante.
E como se salva
a uma só palavra
escrita no sangue
desde o nascimento:
amor, vidamor!
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Triverso de
CARLOS SEABRA
São Paulo/SP

ave calada — 
ninho em silêncio 
na madrugada 
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Trova de
ADILSON DE PAULA 
Joaquim Távora/PR

Pôr do sol, campos desertos,
e o pinheiro então parece
estar de braços abertos
a sussurrar uma prece ...
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Hino de 
ITARARÉ/ SP

Itararé das campinas
e mil recantos amados 
das verdejantes colinas  
e dos vales ondulados...

Das araucárias e pinus,
envolvidos na fragrância, 
os ventos te cantam hinos, 
ó terra de nossa infância!

Do Rio Verde e Caiçara, 
da Gruta das Andorinhas, 
quem dera eu te alcançara 
nessa trilha que caminhas!

Das araucárias e pinus 
envolvidos na fragrância, 
os ventos te cantam hinos 
ó terra de nossa infância!

De tua gente expansiva  
brilhantes realizações 
 te fazem sempre mais viva 
 junto aos nossos corações!

Das araucárias e pinus 
envolvidos na fragrância,
os ventos te cantam hinos, 
ó terra de nossa infância!
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Itararé: Uma Ode à Terra Natal
O 'Hino de Itararé - SP' é uma celebração poética da cidade de Itararé, localizada no estado de São Paulo. A letra exalta as belezas naturais e a riqueza cultural da região, destacando elementos como as campinas, colinas, vales, araucárias e pinus. Esses elementos são apresentados de forma a evocar um sentimento de nostalgia e pertencimento, especialmente para aqueles que cresceram na cidade.

A música também faz referência ao rio Verde e à gruta das Andorinhas, locais emblemáticos que contribuem para a identidade local. A menção a esses pontos geográficos não é apenas descritiva, mas também simbólica, representando a conexão profunda entre os habitantes e sua terra natal. A repetição da frase 'terra de nossa infância' reforça essa ligação emocional, sugerindo que as memórias e experiências vividas em Itararé são fundamentais para a formação da identidade de seus moradores.

Além das belezas naturais, o hino destaca as realizações da 'gente expansiva' de Itararé, sugerindo um povo trabalhador e orgulhoso de suas conquistas. A letra transmite um sentimento de orgulho e amor pela cidade, celebrando tanto o passado quanto o presente. A música, portanto, serve como um lembrete constante da importância de valorizar e preservar a cultura e as tradições locais, mantendo viva a memória coletiva da comunidade.
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Poetrix de
GOULART GOMES
Salvador/BA

Horroris Causa

engenheiro de obras prontas 
advogado de causas perdidas 
doutor em letras vencidas
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Soneto de
ABADE DE JAZENTE
(Paulino António Cabral)
Quinta do Reguengo/Amarante/Portugal, 1719 – 1789, Jazente/Portugal

Amor é um arder que se não sente

Amor é um arder que se não sente;
É ferida que dói, e não tem cura;
É febre, que no peito faz secura;
É mal, que as forças tira de repente.

É fogo, que consome ocultamente;
É dor, que mortifica a Criatura;
É ânsia, a mais cruel e a mais impura;
É frágua, que devora o fogo ardente.

É um triste penar entre lamentos;
É um não acabar sempre penando;
É um andar metido em mil tormentos.

É suspiros lançar de quando em quando;
É quem me causa eternos sentimentos.
É quem me mata e vida me está dando.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Ao notar a Lua cheia, 
surpreso o Sol resmungou: 
– Se um mês atrás eras meia, 
quem foi que te engravidou?... 
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Júpiter e o fazendeiro

Jove*, outrora, arrendou certas fazendas.
Deitou Mercúrio o bando: acodem gentes:
Uns dão tanto; outros põem-se ali à escuta.
Não faltou regateio.

Punha-lhe um defeito, que era de ruim lavra
A terra; outro senão lhe punha ess’outro.
Enquanto assim os lanços bandeavam,
Vem um mais abelhudo,
Não de mais siso — e os lanços todos cobre;
Contanto que lhe Júpiter prometa
Dar-lhe o governo do ar, e as sazões dar-lhe
A seu sabor e alvitre.
Dar-lhe calma quando ele a desejasse,
Dar frio, dar bom tempo, dar norteas,
Chuvas, secura. — A tudo anui  Jove.
Passa em forma o contrato.
Eis o biltre chapado rei dos ares,
Que venta, chove, e que se engenha um clima,
De que algum dos vizinhos mais não prova
Que os que moram na América.
Nem por isso pior se acharam: foi-lhes
Esse ano de ampla ceifa, ampla vindima,
E mui fraca a colheita do abelhudo.
Assim, no ano seguinte,
Muda o teor dos céus. Mas melhor fruto
Lhe não dá a terra; a dos vizinhos rende,
Frutifica. — Então é, que ele confessa
Quanto imprudente obrara.
Como brando senhor, se há Jove com ele.
Que convém que infiramos deste conto?
Que, melhor do que nós, a Providência
Sabe o que nos compete
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Jove é um dos nomes dados ao deus romano Júpiter
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