domingo, 25 de janeiro de 2026

Autor Anônimo (Os três conselhos)


Um casal de jovens recém-casados, era muito pobre e vivia de favores num sítio do interior.

Um dia o marido fez a seguinte proposta para a esposa: "Querida eu vou sair de casa, vou viajar para bem longe, arrumar um emprego e trabalhar até ter condições para voltar e dar-te uma vida mais digna e confortável. Não sei quanto tempo vou ficar longe, só peço uma coisa, que você me espere e enquanto eu estiver fora, seja fiel a mim, pois eu serei fiel a você".

Assim sendo, o jovem saiu. Andou muitos dias a pé, até que encontrou um fazendeiro que estava precisando de alguém para ajudá-lo em sua fazenda. O jovem chegou e ofereceu-se para trabalhar, no que foi aceito.

Pediu para fazer um pacto com o patrão, o que também foi aceito. O pacto foi o seguinte: "Me deixe trabalhar pelo tempo que eu quiser e quando eu achar que devo ir, o senhor me dispensa das minhas obrigações. Eu não quero receber o meu salário. Peço que o senhor o coloque na poupança até o dia em que eu for embora. No dia em que eu sair o senhor me dá o dinheiro e eu sigo o meu caminho". 

Tudo combinado. Aquele jovem trabalhou durante vinte anos, sem férias e sem descanso. Depois de vinte anos chegou para o patrão e disse: "Patrão, eu quero o meu dinheiro, pois estou voltando para a minha casa".

O patrão então lhe respondeu: "Tudo bem, afinal, fizemos um pacto e vou cumpri-lo, só que antes quero lhe fazer uma proposta, tudo bem? - Eu lhe dou o seu dinheiro e você vai embora, ou lhe dou três conselhos e não lhe dou o dinheiro e você vai embora. Se eu lhe der o dinheiro eu não lhe dou os conselhos, se eu lhe der os conselhos, eu não lhe dou o dinheiro. Vá para o seu quarto, pense e depois me dê a resposta". 

Ele pensou durante dois dias, procurou o patrão e disse-lhe: - Quero os três conselhos.

O patrão novamente frisou: - Se lhe der os conselhos, não lhe dou o dinheiro.

E o empregado respondeu: - Quero os conselhos.

O patrão então lhe falou:
1. "Nunca tome atalhos em sua vida. Caminhos mais curtos e desconhecidos podem custar a sua vida.

2. Nunca seja curioso para aquilo que é mal, pois a curiosidade para o mal pode ser mortal.

3. Nunca tome decisões em momentos de ódio ou de dor, pois você pode se arrepender e ser tarde demais.

Após dar os conselhos, o patrão disse ao rapaz, que já não era tão jovem assim:

- Aqui você tem três pães, dois para você comer durante a viagem e o terceiro é para comer com sua esposa quando chegar a sua casa.

O homem então, seguiu seu caminho de volta, depois de vinte anos longe de casa e da esposa que ele tanto amava. 

Após o primeiro dia de viagem, encontrou um andarilho que o cumprimentou e lhe perguntou:

- Para onde você vai?

Ele respondeu:

- Vou para um lugar muito distante que fica a mais de vinte dias de caminhada por essa estrada.

O andarilho disse-lhe então:

- Rapaz, este caminho é muito longo, eu conheço um atalho que é dez, e você chega em poucos
dias.

O rapaz contente, começou a seguir pelo atalho, quando lembrou-se do primeiro conselho, então voltou e seguiu o caminho normal. 

Dias depois soube que o atalho levava a uma emboscada.

Depois de alguns dias de viagem, cansado ao extremo, achou uma pensão à beira da estrada, onde pode hospedar-se. "Pagou" a diária e após tomar um banho deitou-se para dormir. De madrugada acordou assustado com um grito estarrecedor. Levantou-se de um salto só e dirigiu-se à porta para ir até o local do grito. Quando estava abrindo a porta, lembrou-se do segundo conselho.

Voltou, deitou-se e dormiu.

Ao amanhecer, após tomar café, o dono da hospedagem lhe perguntou se ele não havia ouvido um grito e ele disse que tinha ouvido. O hospedeiro: e você não ficou curioso? Ele disse que não. No que o hospedeiro respondeu: Você é o primeiro hóspede a sair daqui vivo, pois meu filho tem crises de loucura, grita durante a noite e quando o hóspede sai, mata-o e enterra-o no quintal. 

O rapaz prosseguiu na sua longa jornada, ansioso por chegar a sua casa. Depois de muitos dias e noites de caminhada... já ao entardecer, viu entre as árvores a fumaça de sua casinha, andou e logo viu entre os arbustos a silhueta de sua esposa. Estava anoitecendo, mas ele pode ver que ela não estava só. Andou mais um pouco e viu que ela tinha no seu colo, um homem a quem estava acariciando os cabelos.

Quando viu aquela cena, seu coração se encheu de ódio e amargura e decidiu-se a correr de encontro aos dois e a matá-los sem piedade. Respirou fundo, apressou os passos, quando lembrou-se do terceiro conselho. Então parou, refletiu e decidiu dormir aquela noite ali mesmo e no dia seguinte tomar uma decisão. 

Ao amanhecer, já com a cabeça fria, ele pensou: - "Não vou matar minha esposa e nem o seu amante. Vou voltar para o meu patrão e pedir que ele me aceite de volta. Só que antes, quero dizer a minha esposa que eu sempre fui fiel a ela".

Dirigiu-se à porta da casa e bateu. Quando a esposa abre a porta e o reconhece, se atira em seu pescoço e o abraça afetuosamente. Ele tenta afastá-la, mas não consegue. Então com as lágrimas nos olhos lhe diz:

- Eu fui fiel a você e você me traiu...

Ela espantada lhe responde:

- Como? Eu nunca lhe trai, esperei durante esses vintes anos.

Ele então lhe perguntou:

- E aquele homem que você estava acariciando ontem ao entardecer?

E ela lhe disse:

- Aquele homem é nosso filho. Quando você foi embora, descobri que estava grávida. Hoje ele está com vinte anos de idade.

Então o marido entrou, conheceu, abraçou o filho e contou-lhes toda a sua história, enquanto a
esposa preparava o café. Sentaram-se para tomar café e comer juntos o último pão. 

Após a oração de agradecimento, com lágrimas de emoção, ele parte o pão e ao abri-lo, encontra todo o seu dinheiro, o pagamento por seus vinte anos de dedicação.

Muitas vezes achamos que o atalho "queima etapas" e nos faz chegar mais rápido, o que nem sempre é verdade...

Muitas vezes somos curiosos, queremos saber de coisas que nem ao menos nos dizem respeito e que nada de bom nos acrescentará...

Outras vezes, agimos por impulso, na hora da raiva, e fatalmente nos arrependemos depois... 

Espero que você, não se esqueça desses três conselhos e não se esqueça também de confiar (mesmo que a vida muitas vezes já tenha te dado motivos para a desconfiança).

Fonte:
Lendas para reflexão
Imagem criada com Microsoft Bing

Washington Daniel Gorosito Pérez (Chafariz de Versos) * 1 *

Tradução do Espanhol por José Feldman


ARCO-ÍRIS

O vagabundo urbano cinzento
caminha sem rumo,
chutando objetos que cruzam
seu caminho.

Entre sombras
e os detritos do tempo.

Desapontado e entediado,
buscando incessantemente o arco-íris da vida.

Os homens,
como os pássaros,
têm muitos destinos. 
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ESPERANÇA

Que se espatifa
no asfalto, fazendo-nos sentir
a queda amarga.

Às vezes,
é um crânio desdentado,
um suspiro rouco,
ansiedade,
inquietação.

Outras vezes,
um buraco negro.

Ternura íntima,
conforto,
amor,
respiração,
plenitude,
abrigo.

Vale a pena lutar por ela
antes que
a arranquem de nós. 
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FLOR DE CACTO, 
Poesia em Peralta*

As cinzas da aurora se dispersaram
e uma pomba-rola canta
aos raios do sol.

As nuvens dançam
e os ventos sopram
onde passado e presente convergem.

Pedra sobre pedra
carregadas de histórias
dormem hoje,
talvez tenham sido espectadoras
dos aviadores
memória nas paredes
do “recinto dos governantes”.

É abril, a terra está sedenta
um lagarto-de-colarinho-espinhoso
para abruptamente
e borboletas azuis esvoaçam
inquietas ao seu lado
uma coreografia magistral.

Em meio à vegetação raquítica e escassa
os cactos estoicos se destacam
esbeltos, testemunhas silenciosas do tempo.

Um deles me atrai
apresenta a dualidade da vida e da morte
parte do órgão parece seca
cor de ocre, outra resplandecente, muito verde.

Vestida com uma bela flor
coroada de espinhos
com a suavidade de suas pétalas abertas
ela cresce áspera e solitária.

Ao meu lado, graças a você
uma palavra vibra
uma palavra relâmpago
e versos germinam
ao longo dos caminhos pedregosos
de um poema que desabrocha docemente
como a flor do cacto.

*Peralta - Zona Arqueológica do Estado de Guanajuato. Foi um centro cívico, cerimonial e religioso das civilizações tolteca e chichimeca. Construída por volta de 300 d.C., possui magníficas estruturas, muitas delas de natureza cerimonial.
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GAIOLA POÉTICA

As grades estão vazias,
apenas uma sombra percorre os corredores.

O dia inexorável se encerra,
a borracha das consciências noturnas
foge pelas cornijas,
telhados mudos e úmidos.

À tarde,
choveu torrencialmente,
isto é, em torrentes.

Pela rua do tempo,
a poeira do esquecimento voa,
chicoteada pelo lento e doloroso açoite das horas.

Tudo permanecerá em seu lugar,
os livros afogados em suas tintas,
rios de letras enferrujadas
de cores acobreadas.

As palavras são testemunhas,
poesia eternamente eficaz,
verbos conjugados pelo sol e pela lua,
metáforas,
imagens cegas,
escritas em mesas tortas.

Dócil, frágil, volátil,
como uma folha seca
acariciada pelo vento.

Você está preso,
em sua gaiola de papel,
vivendo a solidão
fragilidade de uma pétala
como um grão
em uma ampulheta.
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LETRAS MISTERIOSAS

Minhas palavras
não são minhas,
eu as tomo emprestadas.

Minha poesia é inaudível,
guarda o mistério
de letras desbotadas,
e vence a morte
apenas com palavras. 
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MATANDO O TEMPO

Com palavras,
busco uma explicação.

Não estamos navegando
com certeza.

Às vezes, a náusea me domina
pela humanidade e pela sociedade.

Um homem que habita
o vazio.

Convencido de que nesta vida
só existe uma máxima
da qual não pode escapar:
matar o tempo,
quando os sonhos se desvanecem. 
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O FIM

A névoa me envolve,
impedindo-me de entrar no mundo
da criação.

Devo esperar
esperar…

Com muita paciência

Esperar que algo chegue
que nem sempre é o que eu esperava
e que destrói a esperança.

Há um aviso confuso,
a névoa não se dissipa
e me encontro aos pés
de uma parede branca.

As palavras se perdem
entre as sombras.

O ato criativo
desvanece lentamente.

É o fim da poesia. 
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PERCEPÇÃO

A morte
não mata a poesia,
se necessita algo mais.

Esse silêncio eterno
que nada quer,
o poeta o percebe.

Como a orquídea lilás
que tem um cheiro doce
e treme nua
no outono
esperando a última
carícia
do vento
que parece estar adormecido.
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PESCADOR DE VERSOS

Um bando de gaivotas
mergulha, arranhando o mar.

A vasta extensão azul-esverdeada é êxtase.

Há restos de barcos adormecidos nas rochas,
fragmentos de histórias de naufrágios
de pescadores e poetas
que compartilharam águas
povoadas por peixes esquivos
e versos à deriva.

Uma paixão marítima que atormenta
a consciência rebelde do homem,
buscando o caminho para a libertação
na brisa do mar
que acaricia suavemente as velas.

Enquanto isso…
As horas se esvaem,
as estrelas guiam a escrita,
e a palavra teimosa
deixa sua marca na água. 
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VENCIDOS

Uma gaivota solitária
anuncia a chegada
dos navios vencidos.

Não havia cardumes agitados de peixes
nas profundezas das águas
do Rio da Prata.

Um golpe fatal para os
pescadores.

No cais do porto, as águas afiadas
feriam as rochas ruidosas
que exalam sons harmoniosos.

Enquanto inúmeras
borboletas de espuma voam,
a tarde oxida
e a luz adormece.
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Washington Daniel Gorosito Pérez nasceu em Montevidéu/Uruguai, em 24 de junho de 1961. Vive em Irapuato, Guanajuato/ México, desde 1991. Em 1999, obteve a cidadania mexicana. Formou-se em Jornalismo, possui graduação em Sociologia da Educação, pós-graduação em Ensino Universitário e mestrado em Ciências com especialização em Sociologia. Atualmente, é doutorando em Ciências com especialização em Pedagogia. É professor universitário, jornalista e poeta. Recebeu prêmios por jornalismo, ensaios, contos e poesia em diversos países das Américas e da Europa. Seus trabalhos foram incluídos em 31 antologias literárias. Alguns de seus poemas sobre a história uruguaia, como "Victoria Oriental en Las Piedras" e "El genocidio Charrúa", são material de estudo recomendado e também são recitados e apresentados em escolas e em eventos patrióticos oficiais. Seu poema "Gaucho del Uruguay" foi ilustrado pelo pintor Mario Giacoy.

sábado, 24 de janeiro de 2026

José Feldman (O silêncio ensurdecedor da solidão)

Caminha a passo bem lento,
na estrada que a vida armou;
Hoje está no esquecimento
de quem ele tanto amou.

Em um mundo que valoriza a velocidade, a eficiência e a produtividade, os idosos que não possuem um diploma de graduação universitária são frequentemente relegados ao esquecimento. São como folhas secas levadas pelo vento, esquecidas em um canto, sem valor aparente. A vida solitária e desanimadora desses indivíduos é um grito silencioso que ecoa nas ruas vazias, um lembrete cruel de que a sociedade pode ser cruel e injusta.

Eles se sentem desvalorizados, desprezados e rejeitados, como se suas realizações e experiências não tivessem importância. A falta de um diploma é como uma marca de inferioridade, um estigma que os impede de serem vistos como seres capazes e valiosos. Eles se fecham em casa, sem ânimo para sair, sem vontade de se arrumar, sem esperança de serem vistos e ouvidos.

E assim, os idosos se sentem cada vez mais isolados, como se fossem invisíveis aos olhos da sociedade. Eles começam a duvidar de si mesmos, a questionar sua própria capacidade de raciocínio, de julgamento, de decisão. Eles se sentem como se estivessem perdendo a noção de quem são, de o que são capazes.

A falta de reconhecimento e valorização é como um veneno lento, que se infiltra em suas mentes e corrói sua autoestima. Eles começam a acreditar que são realmente inferiores, que não são capazes de contribuir para a sociedade, que não têm nada de valor a oferecer.

E assim, eles se fecham ainda mais, se escondem do mundo, se protegem de mais rejeição e desvalorização. Eles se sentem como párias, como se estivessem à margem da sociedade, sem direito a voz, sem direito a serem ouvidos.

A solidão se torna uma companheira constante, uma sombra que os segue a todos os lugares. Eles se sentem como se estivessem morrendo por dentro, como se estivessem perdendo a vontade de viver.

A casa, que antes era um lar, se transforma em uma prisão, um lugar de isolamento e solidão. As coisas que antes traziam alegria e propósito agora são apenas objetos sem sentido, lembranças de uma vida que não foi vivida. A bagunça e a desordem se acumulam, refletindo a desordem interior, a sensação de vazio e inutilidade.

Mas, é importante lembrar que essas pessoas não são apenas vítimas da sociedade. Elas são seres humanos, com histórias, experiências e sabedoria para compartilhar. Elas são capazes de grandes realizações, de inspirar e motivar outros, de fazer a diferença no mundo.

O que é necessário é que as pessoas as enxerguem, as ouçam e as valorizem. É necessário que as pessoas entendam que um diploma não é o único indicador de valor e capacidade. É necessário que as pessoas reconheçam a dedicação, o esforço e a perseverança dessas pessoas, que muitas vezes trabalharam arduamente para se sustentar e para contribuir para a sociedade.

É necessário que as pessoas sejam empáticas, que se coloquem no lugar dessas pessoas e entendam o que elas estão passando. É necessário que as pessoas sejam gentis, que ofereçam um sorriso, um abraço, um ouvido atento.

Não é necessário ser um especialista para fazer a diferença. Basta ser humano, basta ser presente. Basta dizer "eu estou aqui", "eu te vejo", "eu te valorizo".

A vida é curta, e o tempo é precioso. Não se deve desperdiçá-la com julgamentos e preconceitos. Deve-se aproveitar cada momento para fazer a diferença, para tocar vidas, para inspirar e motivar.

É só olhar para os idosos com novos olhos, com respeito e admiração. Ouvir suas histórias, aprender com suas experiências. Valorizar suas realizações, celebrar suas vitórias, porque, no final, não é o diploma que define uma pessoa, é o seu coração, é a sua alma, é a sua capacidade de amar e ser amado. O que vale é fazer a diferença, fazer com que esses idosos se sintam vistos, ouvidos e valorizados. Fazer com que eles se sintam vivos novamente.

E, quem sabe, talvez um dia possam sair de casa, com a cabeça erguida, prontos para mostrar ao mundo que eles são mais do que um diploma, são homens de experiência, de sabedoria, e, acima de tudo, de valor. 
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Título Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna) etc. Certificados e Medalhas de Mérito Cultural de diversas Academias do Brasil, Portugal e Romênia. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”., “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas),
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas",  “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

Asas da Poesia * 146 *


Poema de
JAQUELINE MACHADO
Cachoeira do Sul/ RS

Eu e o mundo

Eu não tive infância...
Mas Deus não tirou – me a ânsia
de buscar... tocar... saber...

Desde muito menina,
o mistério da vida me fascina...
e de mim indaga sobre coisas que não posso ver...

Eu não tive infância...
Mas essa minha aliança com o universo,
despertou em mim um desejo confesso,
pelas artes do descobrir...

Meus olhos buscavam o céu,
e por detrás de sete véus,
uma voz perguntava:
e se ao invés do tudo, existisse o nada?
Se ao invés do princípio, restasse apenas o fim?

Eu não tive infância...
Mas as eras habitavam minha alma...
E uma senhora de sabedoria infinda,
com doçura me acalentava...

Eu não tive nada.
E por isso, tive tudo...
O mundo adentrou o meu puro ventre.
E eu o amamentei com as lágrimas do meu sofrer
e o ninei com as canções que fazem girar o mundo...
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Soneto sobre Cenas do Cotidiano
FERNANDO ANTÔNIO BELINO
Sete Lagoas / MG

A feira

É puro encantamento e poesia
a feira de domingo na cidade!
Envolve intensamente a sociedade,
num vai-e-vem, repleto de alegria!

Ali, circula gente, nesse dia,
de toda classe e de qualquer idade!
Produtos há de grande variedade,
para atender à imensa freguesia. 

Os importados têm presença certa!
Salgados, doces, caldos com pimenta!
Sempre bem-vindos, quando a fome aperta!

Roupa usada, sapato, ferramenta
e um burburinho, que a atenção desperta:
É a fila do pastel que só aumenta!
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Poema de
JOÃO MARIA VILANOVA
Madeira/Angola, 1933 – 2005, Vila Nova de Gaia/Portugal

O Poeta vestido a rigor
em nossa terra

 o poeta pondera o fato
poeta transcende o fato & a notícia
poeta sem astúcia
poeta sempre sempre com alguma malícia

 os racistas temem o poeta
os golpistas temem o poeta
os inimigos do povo oh
esses temem o poeta

 o poeta sem teto
o poeta sem teto
o poeta vestido a rigor
em seu cadáver putrefato.
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TROVA POPULAR

Ninguém descubra o seu peito
por maior que seja a dor;  
quem o seu peito descobre      
é de si mesmo traidor.         
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Soneto sobre Cidade do Interior
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/ PR

Cidadezinha do interior 

Sequer se vê no mapa o seu ingresso…
parece um vilarejo e não cidade.
Gente pacata e afeita à honestidade,
mas sem anseios próprios do progresso.

Das frutas sobrevive a sociedade 
com poucos lucros, quase em retrocesso.
Dali se vão os jovens (sem regresso),
e a lentidão prossegue, na verdade.

Ao fim da tarde, o som da “Ave-Maria,”
lá na Matriz, despede-se do dia
e, nas janelas, povo atento à fé.

Carroças e compadres se visitam…
Compartilhando tudo em que acreditam,
comadres vão servindo um bom café…
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Poema de
ALBANO DIAS MARTINS
Aldeia do Telhado/Portugal (1930 – 2018) Vila Nova de Gaia/Portugal

Compêndio
 
Dizias: daqui o mar parece    '
uma tarântula
azul. Eu respondi:
vermelhas
são as flâmulas,
das algas e o fermento
das águas.
Escrever
é isso: fazer
da vida uma pauta
e um compêndio de espuma
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Soneto sobre Cidade do Interior
RICARDO CAMACHO
Rio de Janeiro/RJ

Humilde lugar

Diante do cenário prazenteiro,
Imerso no silêncio, à luz do dia,
Contemplo o micromundo brasileiro,
Volvido numa doce calmaria.

Na praça, um sorridente pipoqueiro...
E, logo, a criançada, na alegria,
Pula ao sentir o irresistível cheiro,
Rompendo o império da monotonia.

De vez em quando a brisa, sonolenta,
Passa no embalo da carroça lenta
No entardecer pacato do lugar...

A escuridão dos morros argilosos 
Mostra o poente e os astros luminosos
Como atração no interior de um lar.
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Poema de
ALBERTO DE SERPA
Porto/Portugal (1906 – 1992)

Riqueza

Por parques e praças,
Ruas e travessas,
Tu, meu olhar, caças
A vida.  E tropeças.

Uma gargalhada
Vem dum par contente. 
Guarda-a bem guardada,
Mas caminha em frente.

Surgem-te sorrisos
Dum e de outro lado.
Não faças juízos
Rápidos.  Cuidado!

Uma face grave
Nada te revela?
Talvez a dor cave,
Só mais tarde, nela.

Num choro, num grito,
Pressentes a dor?
E quedas, aflito.
Seque, por favor!

Seque, bem aberto
Para cada canto!
Olha o desconcerto
Que parece tanto!

Corre, olhar, em roda!
O que me intimida?
A vida?  Só toda
Pode amar-se, a vida.
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Soneto sobre Cidade do Interior
GILLIARD SANTOS
Fortaleza/CE

Cidadezinha do sertão

Mulheres andam entre as aroeiras,
Enquanto o dia segue sossegado...
Um homem, devagar, conduz o gado
Para o curral e fecha-lhe as porteiras.

Chegando a noite, acendem-se as fogueiras
E o prato principal é milho assado.
Pelos terreiros corre, lado a lado,
A criançada em suas brincadeiras...

Neste cenário rústico e tão belo
Não tenho as mordomias de um castelo,
Mas sigo por caminhos que são meus.

Nenhuma falta sinto da cidade,
Pois neste reino da simplicidade 
Eu vivo a vida que pedi a Deus.
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Soneto sobre a Vida no Interior
JÉRSON LIMA DE BRITO
Porto Velho/ RO

Vida interiorana

Entregue à inapetência do ponteiro
que marca seu compasso lentamente,
o tempo, generoso e complacente,
afaga o coração de um povo ordeiro.

A prosa na calçada, o sol dormente,
a brisa, a mata e o clima hospitaleiro
produzem novas linhas do roteiro
escrito na memória dessa gente.

Na rubra passarela preparada
desponta a noite calma e, na chegada,
promete mais brandura ao fim do dia.

Quando a simplicidade prepondera,
nenhum prazer suplanta o da quimera
que a vida interiorana propicia...
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Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun da alma arrependida

TROVA TEMA:
Na praça da minha vida
vi, de joelhos, em vão,
uma ofensa arrependida
pedindo abraço ao perdão...
José Valdez de Castro Moura 
Pindamonhangaba/SP

PANTUN:
Vi, de joelhos, em vão,
um alguém, que nunca via,
pedindo abraço ao perdão
no altar da Virgem Maria.

Um alguém, que nunca via,
Confessa os pecados seus,
No altar da Virgem Maria,
pedindo perdão a Deus.

Confessa os pecados seus,
por sentir-se angustiada;
pedindo perdão a Deus
vi a pobre alma penada.

Por sentir-se angustiada,
tristonha e arrependida,
vi a pobre alma penada
na praça da minha vida.
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Hino de 
Ponta Grossa/PR

Ponta Grossa aparece na altura
Dominando campanhas natais
Temos crença na glória futura
Da princesa dos campos gerais

Nossa terra sempre será
Por seu gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Há na história de nossa cidade
O destino de um povo feliz
Dando as mãos em penhor da amizade
Onde agora se eleva a matriz

Nossa terra ainda será
Por gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Como a pomba que o barco sagrado
Com o ramo da paz retornou
Um casal de pombinhos soltado
No lugar da cidade pousou

Nossa terra ainda será
Por gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Quantas vezes o tropeiro valente
Não saudou das bandas do sul
Ponta grossa em seu trono virente
Junto à barra do céu sempre azul

Nossa terra sempre será
Por seu gênio varonil
O orgulho do Paraná
Na grandeza do Brasil

Pátria livre! No teu centenário
Férreos braços nos fazem ligar
Briareu com seu dom legendário
Bandeirantes, gaúchos e o mar
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Soneto sobre Cidade do Interior
ARLINDO TADEU HAGEN
Juiz de Fora/MG

Vida no interior

Já não há mais cadeiras nas calçadas 
nas maiores cidades do país 
mas podem ser às vezes encontradas
na parte onde a nação é mais feliz.

Deixa o progresso a sua cicatriz
ao tornar as pessoas separadas.
Porém no interior a diretriz
é manter sempre as almas irmanadas.

Os laços de amizade permanecem...
Quase todos, de fato, se conhecem.
A vida é mais pacata e mais profunda.

Pela questão somente financeira,
no entanto, muita gente de primeira 
vai levando uma vida de segunda.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A ostra e os pleiteantes

Dois peregrinos,
Um dia encontram
Na praia uma ostra,
Que o mar lançara.
Já com os olhos a sorvem, já com o dedo
A apontam um ao outro.
Pôr-lhe dente? Isso é ponto contestado.
Um se debruça
A colher preia,
E o outro o arreda.
E diz: «Saibamos
A quem compete
Ter dela o gozo.
O que a avistou primeiro, a trinque; e o outro
Veja-a com o olho,
Coma-a com a testa!
— Se o negócio, diz o outro, assim se julga,
Tenho — graças a Deus — esperto lúzio (olhos).
— Nem os meus são ruins, disse o primeiro:
Que antes que tu, a vi; por vida o juro.
— Se a viste, a mim cheirou-me.»
Neste comenos,
Chega ao pé deles
Juiz da Casinha,
Nele se louvam.
Mui grave o juiz recebe a ostra e — papa-a.
E os dois a olhar... Refeição feita:
Tomai — lhes diz, em tom de presidente —
Cada um sua casca,
Salva de custas,
E vão-se andando.»

Contai quanto hoje custa uma demanda,
E o que a muitas famílias depois fica;
E vereis que o juiz vos leva o bolo,
E vós ficais com o saco, e com os trebelhos.
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