domingo, 19 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 20 *


 (nota: antigamente não havia a obrigatoriedade de rimar o 1. com o 3. verso)

Nesta insípida rotina
do meu destino mesquinho,
só teu amor ilumina
as trevas do meu caminho!
APARÍCIO FERNANDES
- - - - - –

Estou no inverno da vida
e o meu amor continua:
ainda tenho estendida
a mão que procura a tua…
ISABEL CHOLBY SANTOS
- - - - - –

Amar é bom, porque amando
tudo na vida seduz!
Não se vive reclamando
0 peso brando da cruz…
JOSÉ BRASIL
- - - - - -

O nauta afoito se esquiva
do perigo dos escolhos.
Por mais que em perigos viva,
não me esquivo dos teus olhos...
JOSUÉ MONTELLO
- - - - - -

Nesta receita pequena
meu coração satisfaço:
metro e meio de morena
salpicado de mormaço.
MARCUS MORAES
- - - - - –

Na minha boca o teu beijo,
no meu corpo, os teus abraços.
E o meu supremo desejo
de assim morrer nos teus braços!
MARIA LUIZA AMARAL
- - - - - -

Dos meus cantos de menina,
tão cheios de amenidade,
só resta a sombra divina
desta palavra: Saudade!
MARIA SUSETE MARTINS CABRAL
- - - - - -

Menina, formosa e louca,
que beija tudo que vê;
beije então a minha boca,
que ando louco por você!...
MÁRIO GOMES
- - - - - -

Quem, ante o deslumbramento
de uma noite enluarada,
não lembrou com sentimento
os beijos de sua amada?
MARIOMAR
- - - - - -

A mulher merece apreço
dos mais finos madrigais.
E é porque não a conheço
que a adoro cada vez mais.
MARTINS FONTES
- - - - - -

Do que amantes hão contado,
não se duvide, porque
olhares de namorado
veem coisas que ninguém vê!
MOREIRA CARDOSO
- - - - - -

De joelhos, eu te proponho,
com toda sinceridade:
— Tu me devolves o sonho,
eu te devolvo a saudade!
MURILLO DE SOUZA ARAÚJO
- - - - - –

Muito pior que o castigo
de ver meu sonho desfeito,
é saber que não consigo
arrancar-te do meu peito.
NAIR DE MEDEIROS
- - - - - -

Nas batalhas desta vida,
sempre saí vencedor.
Mas me venceste, querida,
com teu aliado — o amor...
NEWTON MARQUES DE AZEVEDO
- - - - - -

Meu amor, quando em teus braços
eu desfruto o teu carinho,
sinto o amor em ternos laços
nos prender devagarinho.
NILZA COSTA
- - - - - -

O luto preto é vaidade
neste funeral de amor.
O meu luto é a saudade
e saudade não tem cor...
NOEL ROSA
- - - - - -

Existe quem não me estima,
porque falo muito em dor.
A dor é a única rima
que serve à palavra amor.
ORESTES BARBOSA
- - - - - -

Olhando uma bela joia
de resplendente fulgor,
pensei no valor da vida
na plenitude do amor,
ORÉSTIA THEREZINHA
- - - - - -

Pago pesados tributos
ao cofre dos desenganos:
amei-te cinco minutos,
sinto saudade há dez anos!
ORILO DANTAS
- - - - - -

O sol como um poeta risonho,
doirava o céu alto e escampo;
e nós, perdidos num sonho,
fomos a rir pelo campo.
PAULO SETÚBAL
- - - - - -

Não mostra o amor que irradia
o meu coração ao vê-la:
— como o céu, em pleno dia,
parece não ter estrela.
PAULO DE TARSO COSTÁBILE
- - - - - -

Em qualquer parte onde esteja,
eu somente vejo a ti:
— vendo-te, há dias, na igreja,
a própria igreja não vi...
PLÍNIO MOTA
- - - - - –

Dentro da trama indizível
das mais ternas emoções,
o amor é fio invisível
que entrelaça os corações.
RAYMUNDO TRAVASSOS ALVIM
- - - - - –

Se amar é mesmo pecado,
eu sei que sou pecador,
pois sempre tenho sonhado
em lhe beijar, meu amor.
RENATO HERVÉ
- - - - - -

A asa triste do teu lenço
me palpita tais degredos,
que sinto a vida em suspenso
pender do adeus dos teus dedos.
SANTINO GOMES DE MATOS
- - - - - -

É o amor, alma querida,
um filtro embriagador:
— Onde quer que exista vida,
haverá também amor!
SEBASTIÃO LASNEAU
- - - - - –

A dúvida que me assalta
é não saber — que ironia! —
se a você eu farei falta
como a mim você faria...
SIRLENE RIBEIRO
- - - - - -

0 beijo é a esmola que a boca
vive implorando nas ruas…
A minha boca é mendiga,
mas só quer esmolas tuas.
SYLVIO RANGEL
- - - - - -

Amando, ninguém se iluda
com palavras de esplendor:
— o beijo é linguagem muda,
subentendida no amor...
THÉRCIO DE OLIVEIRA


Fonte:
Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva

José Feldman (O Canto do Rouxinol)


O rouxinol aprisionado num canto,  
nas grades da vida, seu eco é profundo.  
Os sonhos de voar são o seu pranto,  
e as notas perdidas sussurram ao mundo.  
 
Nas folhas verdes, onde o sol desponta,  
a liberdade clama, mas ele não vai.  
Em cada melodia, a vida se afronta,  
e a tristeza no peito que lhe subtrai.  
 
Mas dentro do peito, a canção esperançosa,  
a alma do rouxinol não se esquece de amar.  
Na busca de um ramo, uma vida gloriosa,  
o canto ainda ecoa, mesmo que a chorar.  
 
Um dia, as correntes irão se desfazer,  
e o rouxinol livre poderá renascer. 

Poema de José Feldman (Floresta/PR)

O som do silêncio que se instala após o último acorde é o que mais machuca. Não é a ausência de som, mas o peso do que deveria estar ali e já não está.

Há anos observo aquela gaiola pendurada na varanda do apartamento vizinho, balançando discretamente ao sabor de um vento que traz o cheiro da chuva, mas que nunca traz a liberdade. Dentro dela, habita um rouxinol. Um pequeno fragmento de vida, com penas que perderam o brilho fosco das matas, mas que carrega nos olhos o tamanho exato de um horizonte que ele desaprendeu a tocar.

O soneto que alguém escreveu um dia sobre ele não mentia. Cada nota que escapa daquele bico pequenino, nas primeiras horas da manhã, não é um espetáculo para os nossos ouvidos humanos, é um pranto disfarçado de arte. 

O rouxinol canta nas grades da vida, e o eco de sua voz é de uma profundidade que chega a doer no peito de quem se detém para escutar. Nós, os transeuntes apressados de nossas próprias rotinas aprisionadas, costumamos chamar aquilo de "belo cantar". Que terrível cegueira a nossa. Confundir o grito de socorro de uma alma com entretenimento doméstico.

Olho para ele agora, enquanto o sol desponta timidamente entre as folhas verdes das árvores da rua. Aquelas árvores estão tão perto. Apenas alguns metros separam o pássaro do galho mais próximo de uma mangueira frondosa, onde outros de sua espécie pousam, gritam, brigam e voam sem rumo. A liberdade clama ali fora, escancarada, vestida de vento e folhas secas que dançam no asfalto. Mas ele não vai. Ele não pode ir. A fronteira invisível do arame galvanizado define o limite do seu universo.

Em cada melodia que ele ensaia quando o dia clareia, a vida parece se afrontar. É um embate silencioso e cruel entre o instinto de ser céu e a realidade de ser ferro. Há uma tristeza densa, quase palpável, que se instala no ambiente a cada trinado mais longo. É a melancolia pura de quem sabe exatamente o que perdeu, mesmo sem nunca ter vivido plenamente o que perdeu. O peito do pequeno cantor sobe e desce rapidamente, num ritmo frenético que parece subtrair-lhe as forças, um pouquinho a cada dia. Quantas canções faltam para que o coração dele desista de bater?

E, no entanto, o mistério mais profundo daquela criatura não é a sua dor, mas a sua insistência.

Mesmo no calabouço daquela varanda cinzenta de cimento encardido, há algo dentro daquele peito que se recusa a morrer. Uma canção esperançosa insiste em brotar de onde só deveria haver desespero. A alma do rouxinol não se esquece de amar. Ele ama o fiapo de sol que toca a gaiola às nove da manhã. Ele ama a água fresca que trocam de seu pequeno pote. Ele ama, acima de tudo, a própria memória do voo, uma herança genética de asas abertas que o tempo e o cativeiro não conseguiram apagar.

Ele canta na busca de um ramo, de uma vida que ele intui ser gloriosa e vasta. O canto ainda ecoa pela vizinhança, cortando o barulho dos motores e das buzinas, mesmo que a chorar. É um choro afinado, uma lágrima em forma de solfejo que atravessa as frestas da minha janela e me faz parar o café pela metade, com os olhos fixos no vazio. 

Quantos de nós também não cantamos nossas dores em nossas próprias gaiolas invisíveis, esperando que alguém entenda o código do nosso lamento?

Fico olhando o pequeno rouxinol e uma onda de melancolia me invade por completo. Penso na fragilidade da vida, no tempo que passa e nas correntes que nós mesmos criamos ou aceitamos carregar. Mas o soneto termina com uma promessa, e é nela que decido ancorar o resto do meu dia, para não sucumbir à tristeza de vê-lo ali.

Um dia, as correntes irão se desfazer. Seja pela mão compassiva de quem finalmente enxergar a crueldade daquele cativeiro, seja pelo ciclo inevitável da própria natureza que a tudo liberta no final. O rouxinol livre poderá renascer. Suas asas, hoje entorpecidas, encontrarão o ponto de apoio exato na densidade do ar. Ele subirá tão alto que o som do seu canto finalmente deixará de ser um lamento para se tornar, em absoluto, a pura tradução do espaço.

Até lá, eu continuo aqui, na janela da minha própria solidão, servindo de testemunha e plateia para a mais triste e bela ópera da terra: o canto de quem sofre, mas não desiste de esperar o céu.
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     JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título “Magnus Magister” da Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Alquimia do Tempo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

Interlúdio * 9 *

 

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JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.

Renato Benvindo Frata (Lágrimas para o (des)gosto)


Nos silenciosos canais lacrimais, a profundidade de uma lágrima é única. 

Ela verte impulsionada pela dor ou pelo amor. Um ou outro sentimento saído por impulso, em volúpia. Não há como evitá-la.

Não importa que aflore rasa, e fique a se equilibrar. Nem que se acumule e se inche, a engrossar. Ou que se multiplique em duas, ou mais, a umedecer o interno das pálpebras e olhos, ou que escorra se desgastando pela face. 

Suas dimensões, que são abstratas mas sensíveis, prevalecerão sobre a extensão física do rosto. Um risco, ou dois no máximo. O tempo? Segundos de imensidão! 

É o tempo dela, que não pode ter sua profundidade comparada à de um poço, ou à intangibilidade das profundezas e nem da extensão da mais escura caverna. 

A sua profundidade e dimensão enquanto porção de líquido, estão na gota salgada que a perfaz. Pequena. Esférica. Brilhante. Transparente. Translúcida. 

Se a emoção é grande, nasce às pencas, a escorrer. Se a emoção é cândida, faz-se em filamento. Forma-se e fica, como se a alma a ajudasse a se equilibrar entre a esclera e a conjuntiva. Silenciosamente estática. A viver momentos de intensa emoção.

Lágrima, apenas. 

Sem força ou intenção de sair. É a emocional que brota motivada como resposta a sentimentos dali brotados. De tristeza profunda. De alegria contagiante. De frustração dolorida. De estresse.

Não é, entretanto, somente esse o caminho da lágrima. Há as basais e as reflexas, não menos importantes, mas não tão significativas quando as emocionais. Nascem cada qual em proteção aos olhos. Para mantê-los lubrificados e como curativos.

Elas, as lágrimas, porém, nem sempre nascem de um choro. Mas do ambiente seco e até de um cisco, num borrifar ardente. Todas, embora compostas de maneiras distintas, possuem a mesma conformação estética, límpida, pura e bela.

Seu segredo, no entanto, se esconde na profundidade do âmago ao mostrar amor, tristeza, saudade; também a intensidade da fé, a existência ou a mística. Sentimentos ocultos que afloram. Até no simbolismo de um poema, a dramaticidade de um romance, os conflitos do inconsciente.

Há lágrimas e lágrimas. Para o gosto, ou, para o desgosto.

Todas, porém, carregam na gota mínima a profundidade inteira do que sentimos.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto e imagem da crônica enviados pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Nilto Maciel (O Confessor Lascivo)


O primeiro livro de Frederico Ozanam fez muito sucesso. Talvez em razão do título: Histórias indecorosas.

Começa por onde poucos terminam — chegaram a dizer. Na verdade, o livro foi editado pela empresa editorial mais rica do país. Os direitos autorais foram pagos antecipadamente. Jornais, revistas, televisões se referiam, diariamente, ao novo fenômeno literário. Nunca um livro vendera tanto em tão pouco tempo — meio milhão de exemplares em questão de dias.

Ozanam teve que se esconder, viajar para a Europa. Não suportava mais tantos repórteres à sua porta. Queriam entrevistas, depoimentos, fotografias, um simples alô. Pagavam fortunas por uma palavra sua. Ozanam dizia não. Lessem o livro. Bastava isso. Não entendia de política, economia, comportamento.

O editor se irritava, coçava a cabeça, praguejava. Uma entrevista no canal 10 valia mais meio milhão de exemplares. Ozanam enlouquecera. Um idiota!

Saiu o segundo livro. Título também muito sugestivo: Gemidos de amor. O grande público, porém, virou a cara para seu ídolo. Passado um mês do lançamento, uns cem exemplares haviam sido vendidos. As livrarias brigavam com a editora. Queriam devolver tudo. O editor coçava a cabeça, praguejava. O público enlouquecera. Idiotas!

Ozanam escancarava as portas de casa. Onde andavam os repórteres, os fotógrafos. Telefonava para as redações. Desligavam o telefone na sua cara. Insolentes!

O mal de Frederico Ozanam — diziam críticos e leitores — era meter latim na cama. Referiam-se, de maneira geral, a seu eruditismo. Apesar da vulgaridade dos títulos e da tradicionalidade da técnica de narrar.

O editor, que não lera os livros de Ozanam, ameaçou: ia requerer indenização. O prejuízo poderia levá-lo à falência.

Dedicado ao terceiro livro, o escritor esqueceu os dissabores e deixou a briga por conta dos outros. Escrevia à noite, pacientemente. Buscava a perfeição. O erotismo mais requintado. Nada de Sade, Laclos, Henry Miller.

Passados alguns anos, deu por concluído o trabalho. Restava cuidar da edição. Menos pelo editor dos primeiros livros. O homem ainda ameaçava matá-lo, se o visse.

Dois ou três anos depois, conseguiu convencer um pequeno editor a financiar a publicação de O pecado do prazer. Não importava a quantidade de exemplares. Podia ser cinco mil. O editor propôs mil. Chegaram a um acordo: três mil.

Nenhum dos dois tinha razão: ao cabo de um ano, venderam-se duzentos livros.

Nos vinte anos seguintes, Frederico Ozanam escreveu muitos outros contos eróticos. E gastou muito dinheiro. Pagou a impressão de todos eles. Em pequenas gráficas de máquinas obsoletas.

Já não ouvia bem e discutia com os tipógrafos. Diziam-lhe uns preços, ouvia outros. Resmungava, irritava-se com facilidade, envelhecia.

                                                 ***

  Frederico Ozanam é o pseudônimo de Vicente de Paulo Azevedo. O padre Vicente. Religioso recatado e erudito. Nunca fez sermões, nunca celebrou missas solenes, nunca visitou o bispo. Em compensação, sempre leu a Bíblia, Santo Agostinho, São Tomás de Aquino. E também Virgílio, Júlio César, Horácio. No original.

Confessa ele só ter tido interesse por escrever depois de sua ordenação. Muito depois. Quando seminarista, mal rabiscava as redações escolares. Nem cartas escrevia. A caneta caía da mão, o papel se enchia de desenhos enigmáticos. Não negava, muitos desses desenhos escondiam mulheres nuas. Seios de todos os feitios, ventres exuberantes e pernas cheias de curvas.

A vontade de escrever só se manifestou mais tarde. Ia para o confessionário e passava horas seguidas a ouvir pecados. Ouvido grudado na boca do pecador. Aquele cicio, aquele balbucio medroso, quase mudo, como se vindo de muito longe, do mais fundo da alma.

Todo dia, rosários e rosários de pecados desfiados. Homens e mulheres repletos de pecados. Uns mais acanhados, discretos. Falavam pouco, medindo as palavras, temerosos de pronunciar obscenidades. Outros mais francos. Abriam a boca e contavam as mais íntimas cenas de alcova.

Nos primeiros tempos, Vicente ouvia, perdoava, esquecia. Vinha outro fiel. E assim o tempo passava.

Algumas cenas, porém, ele não conseguia esquecer com facilidade. Por mais que lesse os salmos, os evangelhos, a guerra gaulesa. Repetiam-se aos seus ouvidos, como se os pecadores não parassem de ciciar seus pecados. Vicente lia e relia, rezava, ajoelhava-se, martirizava-se.

Ouvir confissões tornou-se um hábito, um passatempo, um prazer. Se não havia pecadores a confessar, Vicente se amofinava. Não sossegava enquanto não chegava a hora das confissões. Ia e vinha pela casa, impaciente. Corria à igreja, animado. Postava-se diante do confessionário, a morder os lábios.

Via de regra, a confissão de cada cristão não durava menos de meia hora. Vicente se valia de um caderno de perguntas, por ele mesmo elaboradas. Interessavam-lhe os grandes pecados, os atos incomuns, os hábitos esquisitos. A história em si. A biografia dos personagens. Do narrador, sobretudo.

Os mentirosos, os desonestos, os perversos, esses recebiam pronto perdão. Rezassem, jejuassem, resistissem ao pecado. Os gulosos, os preguiçosos, os gananciosos, esses também não precisavam contar muito. Pecados leves, penas brandas. E fossem com Deus.

Contudo, se o fiel tinha a confessar pecado da carne, padre Vicente se enchia de ouvidos. Contasse tudo, tintim por tintim. E fazia perguntas, reperguntas, insinuações. Falasse devagar e com clareza. Não queria confundir dedo com gelo, gemer com tremer. Muito menos alhos com bugalhos.

Os ouvidos de Vicente, porém, já não ouviam direito. E os pecadores foram, pouco a pouco, se afastando dele. Preferiam outros padres, outras igrejas.

Desiludido, o velho sacerdote tirou a batina. Em compensação, mandou publicar mais um livro: Memórias de um confessor lascivo.

Frederico Ozanam deixava de ser autor para se tornar um amargo personagem.

Como de costume, não faltou latim. Desde a epígrafe: Cornu bos capitur, voce ligatur homo. (*)

(*) O boi se pega pelo chifre, o homem pela palavra.
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O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Literatura Sem Fronteiras, UFSC, Academia Cearense de Letras, Jornal Opção, etc.

sábado, 18 de julho de 2026

Minhas Trovas Premiadas * 2 *

 

Asas da Poesia * 203 *


Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Inconsequente

Queria lhe ver de novo
ao meu lado, me amando,
calar a boca desse povo
que só vê você e em você,
o nosso amor desprezando...
De outra feita, seu orgulho me jogando pra baixo,
como se eu não fosse ninguém...
Cá entre nós, às vezes também acho;
eles estão certos, por certo, meu bem...
virei pra você, um simples capacho.
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Trova Humorística de 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Ao operar seu nariz
perdeu um olho, o Batista.
Vem outro louco e, então, diz
que o pagamento era... a vista!
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Soneto de
ANIBAL BEÇA
(Anibal Augusto Ferro de Madureira Beça Neto)
Manaus/AM (1946 – 2009)

Soneto com Estrambote Enviesado

Alfaiate de mim costuro a roupa
que cabe ao figurino que me coube.

Só meu verso protege essa amargura
desfiada de dia ao sol veloz,
para à noite tecer nova textura,
novelo de silêncio ao rés da voz.

Enxoval construído nessa usura
solitária de andaimes, num retrós
de linha vertical, que se pendura
na pênsil teia atada, fio em foz

desse rio agulha que me costura
ao rendilhado de águas tropicais,
que sabe de saudades no meu cais.

Viageiro de uma sanha que me traz
sempre de volta ao tear do meu destino
na seda depressiva me assassino.
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Aldravia de
BENEDITO PEREIRA DA COSTA
Brasília/DF

lua
estrelas
mar:
eu
e
você
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Soneto de
MAJELA COLARES
Recife/PE

O soldador de palavras

Fazer poemas é soldar palavras,
fundir o signo – literal sentido -
do verbo frio, transformado em chama,
aceso verso, pensado e medido

sob a moldura da expressão intensa
fingem palavras um som mais fingido
além, no ocaso, da sintaxe extrema,
fuga do verbo não mais definido.

Criado o texto, com ideia e tinta,
forma e figura na linguagem extinta,
quebrando regras de comuns fonemas.

A ideia é fogo. Fogo… o verbo aquece.
A tinta é solda que remenda e tece
versos, metáforas e, por fim, poemas.
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Trova Premiada de
MOACYR SALLES 
Brasília/DF

Numa aposta de carreira,
usa a mentira os atalhos.
A verdade chega inteira,
chega a mentira aos frangalhos.
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Poema de
LYGIA MENEZES
Maceió/AL

Sonho

Ou foi sonho ou foi loucura,
Dizê-lo bem, nem eu sei.
Sei que apenas uma criatura...
Amei.

E foi tão grande e divino
O grande amor que senti...
Que querendo fugir do meu destino
Sofri.

Sonho lindo! Amor risonho!
Onde me levas? Aonde vais?
— Quem me dera que esse sonho
Não se acabasse nunca mais!...
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Quadra Popular

Amar e saber amar
são dois pontos delicados:
os que amam, são sem conta:
os que sabem, são contados.
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Soneto de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Da Condição Humana

Jamais eu te direi que estou feliz
e me reservo agora este direito
de sofrer por aquilo que não fiz,
pois este é o meu destino e assim o aceito.

Não quero que me julgues satisfeito
e nem tampouco um mísero infeliz,
o meu caminho embora seja estreito
tem amplitudes que sonhei e quis.

Se desejarmos merecer a vida
profundamente além da concebida
iremos naufragar em dissabores…

Por isso aonde eu for e aonde fores
não é preciso conseguir extremos:
sejamos o que somos e seremos… 
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Trova de
MÁRIO ZEMATARO
Curitiba/PR

Não há lágrima no pranto
“chorado” numa viola,
mas notas de um desencanto
que a lágrima não consola.
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Poema de
ANGÉLICA TURINI FERREIRA
Jaú/SP

Neste labirinto que se chama terra,
que se chama cérebro
que se chama vida,
há estruturas complexas
fragmentos bíblicos
notícias escorrendo…

Pés sangrando.

Dragões alados
alfaias
palavras que se perdem
eis o resultado da meditação!
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Triverso de
MAHELEN MADUREIRA 
Santos/SP

Manhã de sol –
Na praia os caminhantes
Também as libélulas.
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Sextilha de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
São João da Ponte/MG

Não revelo meu segredo,
se temo ventos ao léu…
Relâmpago é luz que acende;
se um trovão faz escarcéu,
eu penso: é festa de arromba
dos anjinhos, lá no céu!
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Trova de
RUBENS DE CASTRO
Corumbá/MT

Você já foi escolhida
para ser, em meu caminho...
na Santa Ceia da Vida,
meu Céu... meu Pão... e meu Vinho!
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE: 
O beco é tão estreitinho, 
lá onde mora o Janjão, 
que da janela o vizinho 
cumprimenta dando a mão!
Jorge Murad 
Rio de Janeiro/GB, 1910 – 1998

GLOSA: 
O beco é tão estreitinho, 
que Janjão, sempre, ao cruzar, 
de manhã, com seu vizinho, 
tem que nele se esfregar! 

Tem um beco tão estreito 
lá onde mora o Janjão, 
que ninguém passa direito 
sem levar um esfregão! 

Janjão curte estar sozinho, 
mas o beco é tão estreito 
que da janela o vizinho 
vê tudo. Quem vai dar jeito? 

Pense num beco estreitinho, 
este, onde mora o Janjão; 
que, ao sair, o seu vizinho 
cumprimenta dando a mão!
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Aldravia de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Nuvens
passantes
escondem
estrelas:
tímidas
top-models
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Soneto de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
Bandeirantes/PR

Ao Poeta

Imprime a tua lavra no papel,
teu sentimento expõe, sem medo, ali;
junta ao mover das cores, com cinzel,
a agilidade dada ao colibri!

Desliza os versos, sem pensar, ao léu,
revela tudo o que se esconde em ti,
pois tu consegues ir do inferno ao céu,
falar de amor com calma ou frenesi!

Depressa, enxuga as lágrimas do pranto,
põe na poesia o mais doce acalanto,
no sonho, o reflorir da primavera!…

Com teu cantar, que fica, além da vida,
podes curar, do amor, muita ferida,
com teu ressoar de vozes da quimera!…
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Trova Premiada de
EULINDA BARRETO
Bauru/SP

Passaste por minha vida
e eu escrevi nossa história…
na página envelhecida
eu te prendi… na memória!
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Sonetilho de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Num quartinho, sem ninguém…

Num quartinho, sem ninguém,
dorme o moço de Pasárgada,
sonha um homem que não tem
mais ninguém na madrugada.

Num quartinho, sem ninguém,
pousa o pássaro em jornada,
com jornais que não se leem
nestas margens da pousada.

Não tem sono, mas viola,
nota a nota, um violão,
com mil coisas na cachola...

Cão sem dono, pede esmola,
porta a porta, com seu cão
e, sozinho, os seus amola.
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Triverso de
ROSALVA FREITAS BRÜSCH
Curitiba/PR

Vento de inverno
Folheou o meu livro
E não leu nada.
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Setilha sobre o Mar, de
GONÇALO FERREIRA DA SILVA
Ipu/CE

Quando vejo o mar viajo
No doce rumorejar
A saudade evanescente
Como ao ouvido ditar:
Poeta a sua saudade
Recorda a necessidade
De novo retorno ao mar.
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Trova de
ADELMAR TAVARES
(Adelmar Tavares da Silva Cavalcanti)
Recife/PE, 1888 – 1963, Rio de Janeiro/RJ

O perfume do teu lenço
trago comigo na mão.
Mas o cheiro da tua alma,
dentro do meu coração.
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Poetrix de
ÉVANES PACHE
Campo Grande/MS

sobre a mesa
velas acesas
emprestam luz à sobremesa.
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Soneto de
DOROTHY JANSSON MORETTI
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Soneto à Trova

Atrai-me um bom poema modernista,
embora eu mais o sinta como prosa;
por mais encanto nele, à minha vista,
é como se faltasse aroma à rosa.

Poesia clássica... há quem lhe resista,
dizendo que é cerceada e artificiosa.
Não é verdade; o poeta nasce artista,
brunir seu verso é lide venturosa.

Por isso à trova eu mais me delicío;
a rima, o metro, o ritmo, o desafio
de dizer tudo em quadra pequenina...

Para cumprir tão exigente prova
e compor essa joia que é uma trova,
certamente nos guia... mão divina.
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Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Nas costas, leva a criança
seus livros numa sacola;
nos olhos, leva a esperança
como colega de escola!
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Poema de
JUÇARA VALVERDE
(Juçara Regina Viégas Valverde)
Cruz Alta/RS

Noite

Na penumbra da noite,
desfio lembranças.
Escondidos sonhos afloram,
Despertam-me,
insone percebo a amplidão.

O cheiro da noite que a brisa trás
suavemente embala a vida.
Acalento recordações,
fantasias deliram
no passar das horas.

Surge a manhã.
Anunciado, vem o sol,
afaga as montanhas,
acaricia o mar
e me desperta.

Sigo dia adentro
entre bruma e sol,
fantasmas em despedida.
E a cada novo momento,
dispo-me
e livre
vou desfrutar o dia.
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