quinta-feira, 4 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 5 *


 Olhando as folhas caídas
que o vento arrasta no chão,
fico a pensar nessas vidas
a que ninguém deu a mão.
ANA ROLÃO PRETO
Soalheira/ Portugal
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Saboreando a lembrança 
das artes de um meninote, 
me sinto outra vez criança 
roubando doces de um pote. 
ADILSON DE PAULA 
Joaquim Távora/PR
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No refúgio de teus braços
encontro a felicidade,
mas, longe de teus abraços,
viro refém da saudade!
ALICE CRISTINA VELHO BRANDÃO †
Caxias do Sul/RS
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Se de barro fomos feitos
nesta olaria divina,
somos dois corpos perfeitos
partilhando a mesma sina.
ANTONIO FACCI †
Maringá/PR
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A vida é um laço apertado
que nos tortura sem dó;
e quanto mais amarrado,
mais atado fica o nó!
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG 
São Fidélis/RJ
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Sou feliz! Não vivo ao lado
das estrelas na amplidão,
mas posso ter um punhado
de vaga-lumes na mão.
ANTONIO ROBERTO FERNANDES †
Campos dos Goytacazes/RJ
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A mulher, eu sei, confesso, 
é luxo da natureza... 
Fruir seu corpo é acesso 
às loucuras da beleza! 
APOLLO TABORDA FRANÇA †
Curitiba/PR
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Diz um sábio singular 
este aforismo, a valer: 
Deus criou o bem e o mal 
compete à gente escolher. 
ARGENTINA DE MELLO E SILVA †
Curitiba/PR 
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Quando perto, o trem apita,
batem forte os corações…
Tudo na estação se agita,
provocando as emoções.
ARTHUR THOMAZ 
Campinas/SP
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Velha foto esmaecida 
deixou lágrima de herança! 
Hoje a vejo colorida 
pelo cristal da lembrança! 
ÁTILA SILVEIRA BRASIL †
Cornélio Procópio/PR 
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Quantas vezes, sem maldade,
dizemos que estamos sós...
E é quando Deus, na verdade,
está mais perto de nós!
CAROLINA AZEVEDO DE CASTRO
Recife/PE, 1909 - ????, Curitiba/PR
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Quem se agarra a uma quimera,
quem persegue uma utopia,
age como se soubera
que sem sonhos... morreria!
CAROLINA RAMOS
Santos/SP
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É verdade, neste inverno, 
vou dar tudo a quem não tem, 
porque sei que para o inferno 
nunca vai quem faz o bem. 
CECIM CALIXTO †
Tomazina/PR
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A canção do amor primeiro
o teu sorriso gravou...
Mas foi assim tão ligeiro,
como o vento que passou!
CIDINHA FRIGERI †
Londrina/PR
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Da Tribuna, manda o aviso:
 - Não roubo por ser ladrão,
 tampouco porque preciso,
 mas por coceira na mão!
CLÁUDIO DERLI SILVEIRA
Porto Alegre/RS
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Coincidência que me arrasa,
que me assusta e me espezinha…
– Meu marido chega em casa
quando chega o da vizinha!
CLENIR NEVES RIBEIRO
Nova Friburgo/RJ
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Não pule do trem do tempo
em desembarque apressado.
Viaje sem contratempo
e não pare adiantado.
DINAIR LEITE
Paranavaí/PR
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Bendigo a mão calejada
que, num trabalho fecundo,
presa ao cabo de uma enxada,
dá cabo à fome do mundo!
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Miguel Couto/RJ
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Quem dera se o povo inteiro,
num gesto de amor profundo,
fosse apenas jardineiro
plantando rosas no mundo!
EDUARDO A. O. TOLEDO
Pouso Alegre/MG
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Andar por ínvios caminhos
buscando a Felicidade,
é como colher espinhos
na Rosa da Eternidade.
ELISABETE DO AMARAL
Mangualde/ Portugal
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Vassoura de bruxa arrasa, 
é enorme a sua ação, 
depois de limpar a casa, 
inda vira condução! 
FERNANDO VASCONCELOS †
Ponta Grossa/PR
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Nesta vida de atropelos
os empecilhos são tantos,
que já afoguei meus apelos
na correnteza dos prantos.
FRANCISCO JOSÉ PESSOA †
Fortaleza/CE
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Quem no lar planta o carinho 
sempre colhe muito mais: 
o filho molda o caminho 
pelas pegadas dos pais! 
GERSON CEZAR SOUZA 
São Leopoldo/RS
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O meu amor é bonito,
é grande, imenso, sem fim...
É bem maior que o infinito,
mas cabe dentro de mim!
GISLAINE CANALES †
Porto Alegre/RS
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Na vidraça do passado,
onde revivo os meus sonhos,
sinto a saudade ao meu lado
nos longos dias tristonhos.
GUTEMBERG LIBERATO DE ANDRADE
Fortaleza/CE
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Minha mãe, que orava aqui, 
é nos céus que reza agora; 
foi no meu sonho que a vi 
aos pés de Nossa Senhora! 
HARLEY CLOVIS STOCCHERO †
Almirante Tamandaré/PR
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Nasci onde o vento bate 
e junto a um grande terreiro, 
ao lado um pé de erva-mate e 
um majestoso pinheiro. 
HELY MARÉS DE SOUZA †
União da Vitória/PR
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Gosto de verão “caliente”,
sol daqueles de rachar,
que aquece a alma da gente
e nos convida a amar.
HENRIETTE EFFENBERGER
Bragança Paulista/SP
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As lembranças de nós dois 
fui guardando nas caixinhas... 
Para descobrir depois... 
Que em verdade... Eram só minhas! 
ISTELA MARINA GOTELIPE LIMA 
Bandeirantes/PR
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Cartas de amor escondidas, 
no meu baú de esperança, 
são testemunhas de vidas 
que ficaram na lembrança. 
JANETE DE AZEVEDO GUERRA 
Bandeirantes/PR 
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Meu barracão na favela,
onde vou vivendo ao léu,
na moldura da janela,
não tem vidraça: -Tem céu!
JOSÉ ANTONIO JACOB
Juiz de Fora/MG
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Ao perder-se um grande amor 
nosso coração dá um brado: 
– Por favor, tire essa dor! 
Oh, pranto! Fique calado!!! 
JOSÉ FELDMAN 
Floresta/PR
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Se toda literatura, 
fosse obra de certos críticos, 
carecia sepultura 
pra enterrar versos raquíticos. 
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE 
Pinhalão/PR
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Monsenhor Orivaldo Robles (Deus quis assim)

Eram quatro irmãs jovens e lindas. Iam dos dezesseis aos vinte e três anos, mas não aparentavam. A caçula passaria por uma criança de treze. Não tinham antes chamado, de forma especial, minha atenção. Eu as via sempre juntas nas missas dominicais. Era de onde me conheciam. Agora, entram na sala de atendimento as quatro de uma vez. À minha frente, quatro rostos de imensa beleza e profundamente tristes.

Sua história me encheu de dor. Também de revolta com gente que fala o que não sabe. Eram de outra cidade, distante mais de cem quilômetros. O pai aqui as colocara para estudarem. A mãe se dividia entre marido e filhas; mais tempo para elas do que para ele. Proprietário rural trabalhador, ele dava duro, de segunda a sexta, no sítio, mas o final de semana era da família. Chegava, às vezes, quando ainda dormiam. Apaixonado pelas meninas, junto delas virava um moleque. Acordava-as atirando pedrinhas na janela do apartamento. Elas despertavam aos saltos e se atiravam, todas juntas, no seu pescoço. Sufocavam-no com excessos de carinho que raros pais tiveram a felicidade de experimentar. O sábado e domingo eram, para a família, uma festa de quarenta e oito horas.
 
Esse idílio de amor inocente um caminhão canavieiro destruiu de forma brutal. No caminho da propriedade, atropelou e matou o pai das garotas. Mãe e filhas sentiram o chão fugir-lhes sob os pés.

Então, apareceu o estranho conforto que alguns oferecem nessa hora: “Consolem-se. Deus quis assim. Vocês precisam aceitar a vontade de Deus”. A educação cristã sugada com o leite materno perigou de sofrer um abalo. Fitavam-me angustiadas, inquirindo mais com o coração do que com os lábios: “Deus quis mesmo o acidente que matou nosso pai? Foi vontade dele?”

Quando a aflição é por demais intensa, prende-se a voz no peito. Fitei-as, uma a uma, mergulhando no oceano de dor e saudade daquelas lágrimas quentes. Lutei para segurar as minhas. Elas buscavam apoio em quem imaginavam forte. Mas forte como, num caso assim?

Espero ter-lhes devolvido a certeza de que Deus é o pai de cujo amor e doçura, elas tiveram em casa, desde que nasceram, a mais deliciosa amostra. Melhor do que ninguém elas têm autoridade para falar que Deus não quis aquela tragédia. Que pai ia fazer aquilo?

Ocorre que um misterioso elo de solidariedade nos liga tanto para a alegria quanto para a dor. Somos pessoas vivendo ao lado de pessoas. Queiramos ou não, nossos caminhos se cruzam. Nesse cruzamento, existe a dolorosa possibilidade de produzirmos luto em vez de festa. Fomos dotados de inteligência, de criatividade, de vocação para o bem, para a verdade, unidade, beleza... Também dispomos, para nossa grandeza ou vilania, do livre arbítrio. Deus não manda em nós. Não toma nossas decisões. Não violenta nosso querer. Nosso agir é decidido por nós. Se há erros, nós os cometemos.

Não há liberdade para o mal, para agravo à consciência, que é instância próxima da vontade de Deus. Mesmo que muitos, por desfaçatez e descaso do bem, se atribuam o direito de praticar atos condenáveis.

Inseparável da liberdade, a responsabilidade é sua irmã gêmea. Sem ela, a liberdade se converte em anarquia. Quando ocorre, é desgraça a caminho e sofrimento na certa.
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Monsenhor Orivaldo Robles nasceu em Polôni (SP) em 1941. Estudou em Jales e Poloni e ingressou no Seminário Nossa Senhora da Paz, em São José do Rio Preto, em 1953. Cursou Filosofia em Curitiba (PR), graduando-se na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, de Mogi das Cruzes SP, com diploma reconhecido pela USP, São Paulo. Graduou-se em Teologia no Studium Theologicum de Curitiba, afiliado à Pontifícia Universidade Lateranense, de Roma. Lecionou no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, e no Instituto de Educação, em Maringá (PR) (1967-1969). No Colégio Estadual e na Escola Normal de Paranacity (PR) (1970-1972). Por quase onze anos trabalhou como pároco de Marialva, de onde saiu no início de 1983 para assumir, por seis anos, o cargo de reitor do Seminário Arquidiocesano Nossa Senhora da Glória – Instituto de Filosofia de Maringá. Em 1989 assumiu a Paróquia Santa Maria Goretti, em Maringá, onde trabalhou por mais de 20 anos. Desde 2009, trabalhou na Catedral Metropolitana de Maringá, exercendo a função de vigário paroquial. Foi palestrante convidado a discorrer, em colégios ou outros núcleos humanos, sobre temas ligados à cidadania, formação pessoal e sobre ética pessoal ou pública. Em 2012 teve publicado o livro “Celeiro Desprovido”, com 270 páginas, contendo 118 crônicas e artigos escritos desde 1995. Em 2017, foi publicado o livro dos 60 anos da Diocese de Maringá. Foi articulista mensal ou semanal, por mais de quinze anos, de jornais editados em Maringá, além de ter matérias reproduzidas em revistas ou blogs da região. Faleceu de enfisema pulmonar, em 2019, em Maringá/PR.

Fonte:
Recanto das Letras 12.01.2012
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/3436391

Nilto Maciel (Um simples boneco)

Aberta a porta, Joaquim passeou a vista pela sala e pôs-se a abrir as janelas de vidro. Tudo em perfeita ordem, como haviam deixado no dia anterior. Mesas, cadeiras, armários, carimbos, cinzeiros, tudo em seus devidos lugares. Com pouco, chegariam os outros. E mais um dia igual ao passado. O mesmo toque-toque das máquinas, as mesmas perguntas, as mesmas tarefas, as mesmas horas lentas.

Seguiu em frente e chegou ao banheiro. Nada escapava ao seu olhar vigilante. Precisava ver se também lá havia ordem e respeito. Um dia pegaram um rapaz e uma moça agarrados no banheiro destinado ao público, ao fundo do corredor.

Empurrou a porta, como se tivesse medo de encontrar fantasmas, e virou pedra. Que horror! Deus, que horror! Meu Deus!!! Um corpo pendurado, horrível, rijo, apavorante. Ou não era verdade, sonhava, delirava? Abriu, arregalou os olhos. Talvez fosse pura impressão, um pensamento de medo, desses de todo dia. Olhou para o vaso, a pia, o espelho. Sim, havia um corpo pendurado, os pés enormes entre o chão e a vida. E se estivesse vivo, se ainda não tivesse morrido?

Desesperado, Joaquim tocou o corpo, exatamente a perna do enforcado, e, a esperança num olho, a piedade noutro, olhou o rosto desfigurado do morto. E deu um pavoroso grito. Aquele corpo era o seu. Sim, tudo no outro assemelhava a ele.

Preocupado, deu dois passos para trás e se viu no espelho, triste e pesaroso. Ora, aquilo devia ser um boneco. Brincadeira dos colegas. Sim, só podia ser um boneco. Horrível boneco morto.

Olhou mais uma vez para a língua estirada do outro. Aquele rosto, na verdade, parecia o seu. As mesmas feições, os mesmos braços cabeludos, sua roupa preferida, aqueles sapatos rotos e sujos, tão idênticos aos que usava todo dia. Pura coincidência, mero acaso, como diziam. E, decidido, puxou a porta do banheiro. Precisava avisar a polícia. Antes da chegada dos colegas. Com urgência. Um crime bárbaro na repartição, uma desgraça, um suicídio talvez. E pôs-se a discar números e mais números. Que não davam em nada. Discava, discava, e nada. Melhor mesmo ir à polícia. Pegava um táxi, contava tudo ao motorista e, em poucos minutos, se livrava daquilo. Deixava janelas e portas abertas. Os colegas chegariam logo. Não podia esperar.

— Quem é o morto, Seu Joaquim? — irritou-se o policial de plantão.

Não sabia, talvez o conhecesse, porém não lhe sabia o nome. Além do mais, podia ser um simples boneco. Trabalho perfeito, obra de artista. O policial trancou a cara mais ainda, deu um murro na mesa e urrou. Não admitia gracinhas. Ou Joaquim não desconfiava das boas surpresas reservadas a quem brincava com a polícia? E acendeu um cigarro nauseabundo, soprou a fumaça na direção do interrogado, gargalhou.

— Confesse logo, seu engraçadinho.

Joaquim diminuiu de tamanho, encolheu-se todo e pôs-se a balbuciar inúteis defesas. Sim, tudo não passava de sonho. Ninguém se matara, ninguém se enforcara. Não havia corpo nenhum pendurado no banheiro da repartição. Que tolice procurar a polícia para contar sonhos!

— Confesse, Seu Joaquim — gritou de novo o policial, arma apontada para a cabeça do pequenino informante, que diminuiu ainda mais de tamanho.

  E os colegas? Já teriam visto o cadáver? Certamente lamentavam seu derradeiro ato. Tão trabalhador, tão honesto, tão cumpridor dos deveres! Por que se matara? Dívidas? Amor? Dúvidas? Tumor? Precisava voltar logo, tudo não passara de sonho, alucinação, pensamento ruim. Continuaria abrindo a porta e as janelas da repartição, averiguando palmo a palmo as salas, como sempre fizera.

— Confessa ou não confessa? — berrou mais alto o policial.

Assustado, Joaquim Xavier fechou a porta do banheiro. Os colegas chegavam, em grupo, na alegria de um novo dia.
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Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes:
Nilto Maciel. As Insolentes Patas do Cão. SP: João Scortecci, 1991. Enviado pelo autor.

Sílvio Romero (História de João)

(Folclore do Pernambuco)
HOUVE UM HOMEM QUE TEVE UM FILHO chamado João: morrendo o pai o filho herdou um gato, um cachorro, três braças de terra e três pés de bananeiras. João deu o cachorro ao vizinho, vendeu as bananeiras e as terras, e comprou uma viola. Foi tocar no pastorador das ovelhas do rei; quando o pastor chegava, ele se escondia, e nunca o pastor podia ver quem tocava a viola. 

As ovelhas, já muito acostumadas com o som da viola, não queriam mais se recolher ao curral, e quando o vaquejador as perseguia elas se metiam pelo mato, e cada dia desaparecia uma cabeça. João as ia ajuntando e exercitando ao som da viola todas as manhãs e tardes, e acostumando-as com o gato seu companheiro. 

O rei vendo as suas ovelhas sumidas, e pensando ser desmazelo do pastor, o despediu. Vindo João à feira fazer compras para levar para o mato, viu um criado do rei procurando um homem ou menino que quisesse ser pastejador de suas ovelhas. Logo que o criado viu a João se agradou dele, e disse: “Amarelo*, queres tu servir ao rei como seu pastor?” 

Respondeu João: “Que qualidade de rei é este que não caça e pasta no mato e precisa de ser pastorado? Esse rei é de pena, pelo ou cabelo?” 

O criado insultou-se, e disse-lhe: “Como te chamas?” 

João respondeu: “O Menino Ditoso.” 

O criado tomou-lhe o nome e largou-se para o palácio, e contou ao rei o que se tinha passado. Logo o rei mandou buscar o Ditoso debaixo de prisão. Chegou João com a sua viola e o gato metido num saco, e disse:

“Deus vos salve, rei senhor,
nesta sua monarquia!
Salve a mim primeiramente
e depois a companhia.”

Disse o rei: “Saibas que estás com sentença de morte, se não deres conta de todas as ovelhas que fugiram do rebanho.”

Respondeu o Ditoso: “Eu sei lá quantas ovelhas faltaram no rebanho!”. 

Disse o rei: “Fugiram mil e quero todas aqui.”

Retirou-se o João bem fresco; foi para o mato e deitou-se a dormir, e o gato foi caçar rolas para o jantar. Chegando a tarde, acordou o Ditoso e viu que nada ainda tinha feito, e pôs-se a tocar viola. Logo se reuniram todas as ovelhas, que eram duas mil e trezentas. Ele foi tocando a viola e seguindo para o palácio do rei, e as ovelhas foram acompanhando. 

O rei ficou espantado de ver tantas ovelhas, e disse-lhe: “Como pudeste ajuntar tantas ovelhas?” 

Respondeu: “Achei-as à toa.” 

— “Serão minhas todas?”, perguntou o rei. 

— “Quem sabe não sou eu; veja se as conhece, eu trouxe as que encontrei.” 

— “Tu agora tomarás conta do rebanho, que agora és meu pastor.” 

No outro dia antes do sol sair, o Ditoso pediu que batessem na porta do rei e dissessem que era tempo de seguirem para o mato. O rei acorda e chega à janela e diz: “Vai, Ditoso, pastorar.” 

O Ditoso respondeu: “Não posso sair sem rei, senhor, seguir no meio do rebanho, visto ser eu seu pastor, como disse.” 

— “És o pastor das ovelhas do rei”, disse este. “Agora sim, respondeu João, já me convenço de que o rei, meu senhor, não é de lã, nem de pena ou pelo; é rei de cabelo”.

Nisto seguiu com o gato e as ovelhas para o mato.
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* Amarelo =  é o sujeito reles, ordinário, chinfrim, em posição inferior. Pálido; débil. Diz-se do indivíduo que sofre de paludismo (malária). [N. do E.]
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SÍLVIO VASCONCELOS DA SILVEIRA RAMOS ROMERO (1851-1914) foi crítico e historiador da literatura brasileira. Fundador da Academia Brasileira de Letras. Pensador social, folclorista, poeta, jornalista, professor e político. Era sócio correspondente da Academia de Ciências de Lisboa. Nasceu na vila de Lagarto, Sergipe, 1851. Em 1868 mudou-se para o Recife e ingressou na Faculdade de Direito. Polêmico, combativo e contraditório, foi influenciado por seu conterrâneo Tobias Barreto. Juntos, lideravam uma escola que reunia jovens inteligentes e destemidos, que se encarregavam de irradiar as recentes ideias vindas da França. Quando estava no 2. Ano da faculdade, Sílvio Romero colaborou com vários jornais. Em 1873 concluiu o curso de Direito. Em 1876 mudou-se para o Rio de Janeiro onde obteve a cátedra de filosofia. Romero foi também professor da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro. Como poeta, teve uma breve carreira. O primeiro livro de poemas foi Cantos do Fim do Século, lançado em 1878, em uma tentativa de aderir poesia filosófica científica que pregava desde 1870 em artigos, mas que não obteve êxito. Em 1883 publicou Últimos Arpejos, seu segundo e último volume de poesia. Desenvolveu intensa atividade como escritor. Escreveu vários livros que abordavam praticamente tudo que se referia à realidade cultural brasileira como: filosofia, literatura, folclore, educação, política e religião. Publicou assuntos ligados à cultura popular revelando-se um grande folclorista. Escreveu sobre filosofia no Brasil e sobre escolas filosóficas diversas. Em 1878 escreveu Filosofia no Brasil, publicado em Porto Alegre. Sua obra História da Literatura Brasileira (1888), em dois volumes, menos uma história literária do que uma enciclopédia de conhecimentos sobre o Brasil, a origem e evolução de sua cultura, suas raízes sociais e técnicas, foi considerada sua obra mais revolucionária. Deixou uma vasta obra culturalmente valiosa e pioneira em muitos aspectos. Respeitado pela imprensa nacional, conquistou seu lugar como um dos mais importantes críticos e historiadores da literatura brasileira do século XIX. Faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Fonte:
Sílvio Romero. Contos populares do Brasil. Publicado originalmente em 1883. Disponível em Domínio Público.

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Asas da Poesia * 188 *


Trova humorística de
JOUBERT DE ARAÚJO E SILVA 
Cachoeiro de Itapemirim/ES, 1915 - 1993, Rio de Janeiro/RJ

Cegonha é coisa de rico
e não passa de pilhéria...
- Quem trouxe o filho do Chico
foi o urubu da miséria!
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Poema de
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
São Francisco de Itabapoana/RJ

Caminhos

Caminhos… Caminhos!
Cada um com a sua história,
cada um com um destino!…
Caminhos que levam e trazem;
caminhos cruzados, esquecidos, abandonados;
caminhos que se encontram;
caminhos que se perdem!…
Caminhos do medo, da incerteza e da revolta;
caminhos dos enganos e dos desenganos,
onde durante anos aguardei a sua volta!…
Caminho da insensatez, da vaidade;
pelo qual você foi
deixando de vez
um peito angustiado,
sofrendo de saudade.
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Aldravia de
J. B. DONADON-LEAL
Mariana/MG

brigadeiro
cajuzinho
quindim
barrigas
nos
olhos
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Soneto de
JOSÉ RIOMAR DE MELO
Caucaia/CE

Meu verso

 Se meu verso te agrada, te conforta,
 Faz lembrar-te emoções que já viveste,
 Com algum deles talvez te comoveste,
 Ativando a esperança quase morta!

 É sinal que choveu na minha horta,
 Na emoção que a mim tu concedeste,
 Ao sentir que no verso que tu leste
 De euforia e de paz teu peito aborta;

 Entretanto se um deles não ressoa,
 Na fiel sintonia e te magoa,
 Na palavra ou na frase te feriu...

 Eu te peço perdão em tom profundo,
 Porque mesmo agradar a todo mundo,
 Jesus Cristo também não conseguiu...
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Na velhice, idade mestra
já sem forças para o embate,
vem a morte e nos sequestra
sem sequer pedir resgate.
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Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR (1944 – 1989)

Pareça e Desapareça

Parece que foi ontem.
Tudo parecia alguma coisa.
O dia parecia noite.
E o vinho parecia rosas.
Até parecia mentira,
tudo parecia alguma coisa.
O tempo parecia pouco,
e a gente se parecia muito.
A dor, sobretudo,
parecia prazer.
Parecer era tudo
que as coisas sabiam fazer.
O próximo, eu mesmo.
Tão fácil ser semelhante,
quando eu tinha um espelho
pra me servir de exemplo.
Mas vice versa e vide a vida.
Nada se parece com nada.
A fita não coincide
Com a tragédia encenada.
Parece que foi ontem.
O resto, as próprias coisas contem.
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Quadra Popular de
MARIA DE LOURDES GRAÇA CABRITA
Portugal

Já tenho sinal aberto
pra no céu poder entrar,
não sei qual o dia certo,
vou quando Deus me chamar.
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Soneto de
EMÍLIO DE MENESES
Curitiba/PR, 1866 – 1918, Rio de Janeiro/RJ

Um narigudo

Homem sério, porém politiqueiro,
De inteligência mais ou menos clara,
É um edil, camarista ou camareiro,
De raro estofo e de feição bem rara.

Mais seco do que arenque de fumeiro,
Todo feito em lasquinhas de taquara,
Sacode em contorções o corpo inteiro
E tem puxos de filme pela cara.

Tem um nariz de cinco ou seis andares.
Se ele o entulhasse, num mister diverso,
De bicha, traques, fogos populares,

Faria uma fortuna, — é incontroverso, —
Pois, naquele nariz, turvem-se os ares!
Cabem todos os traques do universo!
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Trova de
ANTONIO MANOEL ABREU SARDENBERG
São Fidélis/RJ

Nascemos com o passaporte
com visto para a partida,
mas só de pensar na morte,
sinto saudade da vida!
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Poema de
LAWRENCE FERLINGHETTI
Bronxville/New York/EUA, 1919 – 2021,  São Francisco/Califórnia/EUA

15

Correndo risco constante
de absurdo e morte
toda vez que atua em cima
das cabeças da audiência
o poeta sobe pela rima
como um acrobata
para a corda elevada que ele inventa
e equilibrado nos olhares acesos
sobre um mar de rostos
abre em seus passos uma via
para o outro lado do dia
fazendo além de entrechats
truques variados com os pés
e gestos teatrais da pesada
tudo sem jamais tomar uma
coisa qualquer
pelo que ela possa não ser
Pois ele é o super-realista
que tem de forçosamente notar
a verdade tensa
antes de ensaiar um passo ou postura
no seu avanço pressuposto
para o poleiro ainda mais alto
onde com gravidade a Beleza
espera para dar
seu salto mortal

E ele um pequeno
homem chapliniano
que poderá ou não pegar
aquela forma eterna e bela
projetada no ar
vazio da existência
(tradução: Leonardo Fróes)
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Haicai de
ÂNGELA TOGEIRO 
Belo Horizonte/MG

Traças nos armários,
destroem qualquer passado,
roendo o inútil.
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Soneto de
EMILIANO PERNETA 
Pinhais/PR, 1866 — 1921, Curitiba/PR

Iguaçu

Ó rio que nasceu onde nasci, ó rio
Calmo da minha infância, ora doce, ora má,
Belo estuário azul, espelhado e sombrio,
Quanto susto me deu, quanto prazer me dá!

Quantas vezes eu só, nestas manhãs de estio,
Ao vê-lo deslizar, pomposamente, lá,
Pálido não fiquei, tão majestoso vi-o,
Orgulho do Brasil, glória do Paraná!

Companheiro ideal! Durante toda a viagem,
Foi o espelho fiel a refletir a imagem,
Dos mantos e dos céus, discorrendo através

Da floresta, ora assim como um cão veadeiro,
A fugir, a fugir alegre e alvissareiro,
Ora deitado aqui quase a lamber-me os pés!
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES 
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ

Os noivos fazem questão
de ter as mãos sempre unidas.
- É fácil unir as mãos...
difícil é unir as vidas!
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Glosa de
LUPÉRCIO MUNDIM
Ipameri/GO

Sonhos e ilusões

MOTE:
Quantos sonhos e ilusões
tecemos na mocidade!
Mas, nas cinzas das paixões,
nos resta apenas saudade.
Angela Stefanelli de Moraes 
(Niterói/RJ)

GLOSA:
Quantos sonhos e ilusões
juntamos pela existência,
sendo que as desilusões
do sonho é a desistência.

Milhares de sonhos lindos
tecemos na mocidade!
Muitos deles não são findos,
nos trazendo ansiedade.

Machucamos corações,
tirando-lhes a esperança.
Mas nas cinzas das paixões
encontramos temperança.

Seguimos mesmo feridos,
mantendo a afetividade,
porque dos sonhos perdidos
nos resta apenas saudade.
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Aldravia de
FLÁVIA GUIOMAR ROHDT
Anastácio/MS

seus
olhos
faróis
necessários
nessa
escuridão
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Soneto de
CLÁUDIO MANOEL DA COSTA
Mariana/MG, 1729 – 1789, Ouro Preto/MG

Onde estou?

Onde estou? Este sítio desconheço:
quem fez tão diferente aquele prado?
Tudo outra natureza tem tomado;
e em contemplá-lo, tímido esmoreço.

Uma fonte aqui houve; eu não me esqueço
de estar a ela um dia reclinado;
ali em vale um monte está mudado:
quanto pode dos anos o progresso!

Árvores aqui vi tão florescentes,
que faziam perpétua a primavera:
nem troncos vejo agora decadentes.

Eu me engano: a região esta não era;
mas que venho a estranhar, se estão presentes
meus males, com que tudo degenera!
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Trova de
ELISABETE AGUIAR
(Elisabete do Amaral Albuquerque Freire Aguiar)
Mangualde/Portugal

Não quero correr Contigo,
mas a Teu lado correr,
pra correr com o perigo
que corre pra me vencer.
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Poema de
ÂNGELO DE LIMA
Porto/Portugal, 1872 – 1921, Lisboa/Portugal

Olhos de lobas

 Teus olhos lembram círios
Acesos num cemitério...
Dr. Rogério de Barros

 Têm um fulgor estranho singular
Os teus olhos febris... Incendiados!...
 
Como os clarões finais... - Exaustinados
Dos restos dos archotes, desdeixados...
— Nas criptas dum jazigo tumular!...

 — Como a luz que na noite misteriosa
— Fantástica - Fulgisse nas ogivas
das janelas de estranho mausoléu!...

 — Mausoléu, das saudades do ideal!...

 — Oh saudades... Oh luz transcendental!
— Oh memórias saudosas do ido ao céu!...

 — Oh perpétuas febris!... - Oh sempre vivas!...
— Oh luz do olhar das lobas amorosas!...
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Haicai de
JEFFERSON HENRIQUE MODESTO
São Paulo/SP

Vovô na varanda
Só tem um pensamento –
Mais uma geada!
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Setilha de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Quanto sonho o verso opera...
Da Argentina a Portugal,
de Porto Alegre ao Caribe,
da Venezuela a Natal.
Sonho que une as nossas mãos
numa corrente de irmãos
tecendo um lindo ideal.
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Trova de
ELEN DE NOVAES FELIX
Niterói/RJ

As espadas da descrença
não ferem meu coração,
nem há presságio que vença
o poder de uma oração.
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Hino de 
SANTOS/ SP

Santos poema, jardins pela praia
Cidade e porto de mar
Tens a magia de barcos estranhos
Na barra esperando adentrar
Morros, varandas alegres
Suspensas no arvoredo
Santos das ruas antigas
À beira do cais
Que escondem segredos

Tuas paineiras floridas
Salgueiros que choram
Nos velhos canais
Santos, cuidado menina
As tuas belezas
Não percas jamais

Os flamboiãs florescentes
Palmeiras imperiais
Ilha Urubuqueçaba
O verde reduto
Nas ondas do mar

Oh! Santos
És linda demais!
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A Beleza e a Magia de Santos: Um Hino à Cidade
O 'Hino de Santos - SP' é uma celebração poética da cidade de Santos, localizada no litoral do estado de São Paulo. A letra da música destaca a beleza natural e a importância histórica da cidade, que é conhecida por seus jardins à beira-mar, suas ruas antigas e seu porto movimentado. A canção começa exaltando a magia dos barcos que chegam ao porto, trazendo consigo um ar de mistério e aventura. Essa imagem evoca a importância de Santos como um ponto de conexão entre o Brasil e o mundo, um lugar onde culturas se encontram e se misturam.

A música também faz referência aos elementos naturais que compõem a paisagem de Santos, como os morros, as varandas alegres e as paineiras floridas. Esses elementos são apresentados de forma quase nostálgica, como se fossem guardiões dos segredos da cidade. A menção aos salgueiros que choram nos velhos canais adiciona um toque de melancolia, sugerindo que a cidade tem uma história rica e complexa, cheia de momentos de alegria e tristeza.

Além disso, o hino faz um apelo para que a cidade preserve suas belezas naturais e arquitetônicas. A referência à Ilha Urubuqueçaba e às palmeiras imperiais reforça a ideia de que Santos é um lugar único, com uma biodiversidade e uma arquitetura que merecem ser protegidas. A exaltação final, 'Oh! Santos, és linda demais!', resume o sentimento de admiração e amor pela cidade, convidando os ouvintes a valorizar e cuidar desse patrimônio. 
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Poetrix de
CARLOS ALBERTO FIORE
Limeira/SP

dia-a-dia 

Rostos pesados.
Corações ásperos.
As ruas se apressam.
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Soneto de
MIGUEL RUSSOWSKY
Santa Maria/RS, 1923 – 2009, Joaçaba/SC

Outono em meio

O vento desistiu de seus andares,
cansou-se e resolveu dormir mais cedo.
As folhas, nem balançam no arvoredo.
Borboletas...algumas pelos ares.

Nuvenzinhas solteiras e sem medo
buscam no céu seus noivos ou seus pares.
Cá por dentro borbulham os cismares
numa ausência de rumos e de enredo.

(- Ó tardes, de domingo, ensolaradas!...)
O silêncio murmura uma cantiga
para ouvirmos a sós...mas de mãos dadas.

Deixemos, por enquanto o lábio mudo!
E o relógio, deixemos que prossiga...
Conversar?...Para que, se sabes tudo?!.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A andorinha e os passarinhos

Certa andorinha que por esse mundo
Mil viagens fizera,
De muito e muito ver muito aprendera.
Chegara a tal primor, que ainda a tormenta
Nem sequer negrejava,
E já ela às marítimas companhias
A queda anunciava.
Sucedeu que no tempo em que é costume
Começar-se do linho as sementeiras,
Viu que um maltês andava nessa faina
Pelas compridas leiras.
«Mau vai isto — disse ela aos passarinhos —
Causais-me dó; por mim, tenho caminhos
De sobra onde vogar.
Vedes-me aquela mão que diligente
Gira e torna a girar?
Pois não vem longe o dia em a semente
Que hoje essas linhas traça,
Vos cause, pobre gente,
Eu sei, quanta desgraça!
Tereis a cada canto uma armadilha,
Perpétuo susto em horas de canseira;
Que na estiva sazão quando o sol brilha,
Anda perto a gaiola da caldeira.
Devorai-me esse pão já semeado,
E lestes, podeis crer».
Fez-lhe chacota o bandozinho alado:
Tinha mais que comer.
Ao surdir o linhal volta a andorinha:
«Fora com esta planta que é daninha,
Ou perdidos ficais!
Profeta de desastres, tagarela,
Bom feito nos lembrais;
Fora mister para um desbaste desses
Mil pessoas, ou mais!»
Crescera o linho, e a astuta conselheira
Insiste em martelar:
«Vejo que não há forma nem maneira
De vos poder guiar;
Pois, olhai: dentro em pouco o seareiro.
Apenas vir que a messe lhe loureja,
Põe logo mão na rede, e muito arteiro
Convosco entra em peleja
Sem vos deixar a cola;
Não sair do cadoz, e muito tento,
Ou dar asas ao vento
Como sucede ao pato e à galinhola.
Mas vós não podeis tal, não vos é dado
Transpor o monte, o cerro, a extensa onda:
Pois cada qual, prudente e a bom recado,
Na mais profunda toca se me esconda».
Refartos de presságios, os incautos
Rompem a vozear num desatino,
Quais Troianos no tempo em que Cassandra
Lia o porvir nas folhas do destino.
Andaram por igual: da passarada.
Muita se viu prender.

Nós damos peito à nova, se ela agrada,
E só cremos no mal depois de o ver.
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