segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Edy Soares (Caderno de Trovas)

 

Ah, mas que espirro maldito,
que me deixou avexado.
Além de forçar um grito,
ainda veio acompanhado!
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A memória enfraquecida,
a fronte calva, a bengala,
mostra no ciclo da vida
o velho que o neto embala.  
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A morte, visita chata,
desprezível,  deprimente
vem sorrateira,  arrebata,
levando a vida da gente.
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A mulher, pura beleza...
foi feita a partir de um osso,
mas a sogra, com certeza...
da carne de algum pescoço.
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Ao deparar com a cena
de uma boa escorregada,
confesso que tenho pena,
mas não seguro a risada.
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A trapaça é artifício
do covarde sem pudor,
que sem nenhum sacrifício
quer se fazer vencedor.
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Cabisbaixo pelos cantos
me pego pensando em ti.
Pai, o maior dos meus prantos,
é saber que te perdi.
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Cada mulher preparando
em seu ventre uma criança,
é o mundo se renovando,
é Deus nos dando esperança.
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Com o planeta por um fio,
tanta gente a desmatar.
Queira Deus que algum plantio,
seja feito no lugar.
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Da semente, a nova planta;
 da planta, a semente e o pão.
Do pão, a vida que encanta,
 que planta e cultiva o chão. 
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Deixemos de lado o orgulho,
pois nobre é o dom do perdão;
rancor guardado é entulho,
que adoece o coração.
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- Era profunda a raiz!
Disse o dentista ao cliente,
ao perceber que o nariz
saiu agarrado ao dente.
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Esse meu corpo curvado,
feito quem reverencia,
já dá sinais de cansado
e agradece mais um dia!
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Este amor que me oferece,
sinto – já não me convence.
Meu coração não merece,
pois a outro já pertence.
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É uma agressão desumana,
uma falta de respeito...
Num país com tanta grana,
hospitais faltando leito.
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Eu... você... as confidências...
Que pena que o tempo passa!
Hoje vivo de aparências
e a vida já não tem graça...
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Há que se enxergar o amor
em cada olhar, cada canto.
E perceber que onde for,
todo olhar tem seu encanto.
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Meu Noel é de dar dó...
Nesta crise, veio a pé,
sem renas e sem trenó...
E entalou na chaminé!
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Necessita ser “curado”,
todo aquele que imagina,
que quando estiver errado,
compra o certo com propina.
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Nunca vi trova sem rima,
macaco enjeitar banana;
nunca vi chover pra cima.
nem político sem grana.
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O chato que mais me irrita
e que mais me funde a cuca...
é aquela pessoa aflita,
que enquanto fala, cutuca.
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Os olhos as vezes falam
mais que palavras em vão;
silentes as bocas calam
enquanto amando se dão.
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Por egoísmo e ganância
a Terra está dividida.
Tanto poder e arrogância,
ante a pobreza sofrida.
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Por se valer da trapaça,
ás vezes quem trapaceia,
por mais esforço que faça,
se enreda na própria teia.
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Qualquer tipo de trapaça,
será sempre repugnante.
Mesmo que vencedor, faça...
Não fará mais que um farsante!
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Quando saio em devaneios,
navegando em pensamentos,
cruzo bravos mares cheios,
velejo em grandes tormentos.
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Quer, ricos ou indigentes,
todos são filhos de Deus;
sejam mansos ou valentes,
sejam nobres ou plebeus. 
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Refletia a luz da lua,
o orvalho da noite fria;
sobre o menino de rua,
que na calçada dormia.  
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Sem o amor do jardineiro,
o que seria da flor?...
Rosas não teriam cheiro,
jardins não teriam cor!...
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Sempre achei que o céu é aqui,
à sombra dessa palmeira...
escutando o bem-te-vi,
no meu banco de madeira. 
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Se não posso  amar a Bela
ou tê-la aqui junto a mim,
ainda sim, sonho com ela
entre as flores, no jardim.
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Sete vidas eu tivesse
ou talvez, setenta mil,
quantas vidas Deus me desse...
Que elas fossem no Brasil...
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Supera tristeza e dor,
quem na vida por batalhas,
aprende ser vencedor,
sem contentar com migalhas.
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Terra molhada no cio,
pronta, esperando a semente
das mãos que fazem plantio...
Tal qual amada nubente.
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Trago essa grande saudade,
longe, no peito que dói,
por amor a essa cidade...
Por amar-te Niterói.  
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- “Três dias de penitencia”,
pede o padre ao confessado.
- "Pode dobrar a exigência,
vou repetir o pecado!"
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Velhas fotos no monóculo,
na gaveta de uma estante...
É como ver de binóculo,
um tempo já bem distante.
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Vi sumir ao longe o trem.
Levou, chorando, Maria.
Na estação fiquei também
chorando porque a perdia.
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Edy Soares (1964)
EDY SOARES (cujo nome de batismo é Edmardo Lourenço Rodrigues) é um poeta, sonetista clássico e trovador brasileiro. Nascido na cidade de Ibatiba/ES, em 1964, se destaca nacionalmente como uma das principais vozes da revitalização e preservação do movimento trovadoresco e do soneto clássico no Sudeste do Brasil. Nascido em solo capixaba e filho de pais agricultores, sua trajetória internacional e regional moldou sua vivência. Residiu nos Estados Unidos entre os anos de 1991 e 2006. Santo: Após retornar ao Brasil, fixou residência no município de Vila Velha/ES, onde vive, trabalha e mantém sua base de atuação cultural e empresarial. Paralelamente ao seu envolvimento de décadas com as letras, Edy Soares atua profissionalmente como empresário do ramo hoteleiro. Destaca-se por sua atuação em grandes eventos literários, tendo integrado ativamente as equipes de apoio, debates e programação da FLIC (Feira Literária Capixaba) nas edições de 2015, 2016 e 2017, além de participar da Bienal Capixaba do Livro.
Edy Soares possui uma vasta folha de serviços dedicados à comunidade literária de forma institucional, atuando de maneira marcante na liderança de agremiações de fomento à poesia. Exerceu o cargo de Presidente Estadual da UBT no Espírito Santo e presidiu a seção municipal em Vila Velha. Membro efetivo da Academia Brasileira de Sonetistas (ABRASSO); Membro da Academia Pan-Americana de Letras e Artes (APALA);* Acadêmico Correspondente da Academia Iunense de Letras (AIL); Membro da ASSEI (Associação de Escritores de Ibatiba), em sua terra natal.
O autor é amplamente reconhecido por dominar a técnica de formas poéticas fixas. Suas principais publicações incluem: Poemas, Canções e Sonetos; Flores no Deserto; Sonetos Sonantes; Três em Trovas (coautoria); Além de participação como prefaciador de obras regionais e publicação em dezenas de antologias e coletâneas literárias nacionais. Ao longo de sua trajetória na poesia acumulou importantes distinções, como Troféu Carlos Drummond de Andrade (2015): Recebido na histórica cidade de Itabira/MG, em reconhecimento à sua produção poética. Diploma Especial de Mérito Cultural concedido por academias literárias capixabas devido à sua dedicação e contribuição para a difusão da arte e das letras. Classificado recorrentemente em certames nacionais e internacionais e convidado frequente para compor comissões julgadoras de concursos de trovas.
A relevância de Edy Soares para a literatura contemporânea reside essencialmente no seu papel de preservador e articulador das formas poéticas tradicionais no Brasil. Em uma época literária amplamente dominada pelo verso livre, ele atua como resistência estética ao produzir e ensinar o soneto clássico e a trova. Mais do que produzir textos, sua importância manifesta-se no associativismo: ao liderar a UBT no Espírito Santo, ele ajudou a transformar a trova de uma prática de escrita solitária em um movimento coletivo forte. Edy estimula o surgimento de novos trovadores, organiza concursos de fomento à escrita rápida e sintética e atua ativamente conectando a literatura clássica às novas dinâmicas das redes sociais e feiras de livros modernas.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)

Cantinho do Frata (Arte de bem acordar)

Aprendi com Lispector que há duas maneiras de se acordar: de dentro para fora e de fora para dentro. Mesmo não tendo de imediato concordado com ela, vejo que tem razão.

Geralmente, de segunda à sexta, quando temos mil coisas a fazer pela sobrevivência, acordamos de fora para dentro com os gritos desesperados do despertador. Aos sábados, domingos e feriados com o embusteiro desligado, geralmente acordamos de dentro para fora quando alguém, de manso, lá do nosso interior, parece nos tocar com a voz melodiosa de gata siamesa a nos dizer que já podemos acordar, mas que fiquemos uns instantes a gozar do não ter o que fazer de especial.

É nessas horas que a ouvimos bem.

Compreendemos o quão bom é desfrutar dessa preguiça contagiosa. Essa, a que me refiro, se comunica com gestos e sem que percebamos levanta nossos braços, estica nossas pernas, abre-se em longos e gostosos bocejos em nossas bocas a se comprazer conosco quando, com o corpo esticado juntinho ao amarfanhado dos lençóis, deixa que sem qualquer pressa nos desfaçamos deles. E só depois dessa gloriosa labuta é que pensamos em pisar naqueles chinelos macios a dizer ao mundo que estamos bem e vivos.

Aí, repetimos os esticares de braços e os abrires de boca para olhar o mundo com os olhos mais límpidos que estrelas, mais brilhantes que a mais cintilante das esmeraldas, mais aconchegantes que o agradável travesseiro que nos abrigou á noite. Digamos, olhando o mundo com olhos de domingo, e a esse acordar denominamos vida!

Ao outro, o tocado pelo infernal despertador, chamamos dos nomes que nos chegam á boca todas manhãs, quaisquer nomes que podem conter muitas letras, e aí serão palavrões, ou com poucas, quando serão 'palavrinhões' pela conotação que queiramos dar à obrigação que nos empurra para um café rápido, à juntada de tralhas que nos acompanham no trabalho, à chave do carro, às ordens deixadas a quem quer que seja e um tchau à meia-boca, já que a essa altura os ponteiros do inimigo da humanidade tiquetaqueiam sem parar. Ele não respira!

Olha-nos com olhos de patrão! Cobra-nos pontualidade e cordialidade. Ora, veja! O pior é que obedecemos.

Bem, como vemos, existem dois acordares. Ambos têm o poder de nos colocar de pé, queiramos ou não, gostemos ou não, aceitemos ou não. Resta, nesse contexto, porém que ao deitar, nos planejemos.

Se sabemos que a manhã nos espera com trabalho do dia inteiro e que teremos de cumpri-lo, gostemos ou não, por que não nos prepararmos para ele? Por que não transformarmos essa obrigação em satisfação e tentar substituir o prazer das esticadas e bocejares do domingo também das segundas às sextas, de maneira que facilite as tarefas agendadas?

Talvez devamos agir como ela, a Clarice, que no conto "O relatório da coisa" temia perder o "time" da literatura, tantos eram os relatórios a que se obrigava. A estafante tarefa diária para ela era sinal de que estava "matando" sua inspiração, daí a chateação que a dilacerava.

Mas se enganara. Muito.

Bastou que usasse dos horários disponíveis à sua estupenda verve para escrever o que hoje nos deleita. Sabe por quê? Porque a inspiração não possui relógio e, consequentemente, não tem hora certa para chegar, nem dia da semana ou do mês, nem se o tempo está para chuva ou se o ar está morno qual a água da torneira exposta ao sol.

Recado que talvez sirva para todas as manhãs em nosso acordar com o fim de oferecer a verdadeira arte de é exclusivo a cada um.
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Renato Benvindo Frata (1946)
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP, em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Membro da Confraria Brasileira de Letras (CBL). Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fonte:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais: contos e crônicas.  Editora EGPACK Embalagens, 2024. Enviado pelo autor.
Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet

Arthur Thomaz (Lúcio e Lécio)

Lúcio resolvera não trabalhar e aproveitar sua voz e a habilidade para tocar violão. Em um barzinho na Avenida Afonso Pena, em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, começou a apresentar-se, recebendo R$50 mais o jantar.

Em um pequeno palco improvisado no canto do estabelecimento, cantava algumas músicas sertanejas, acompanhado pelos frequentadores.

Lécio, já meio embriagado, sentou na beira do palco e começou a fazer a segunda voz nas canções.

Incomodado para ver se inibia o inoportuno, chamou-o ao palco. Cantaram alguns sucessos sertanejos conhecidos, e para sua surpresa, foram aplaudidos, inclusive com a chegada ao bar de pessoas que passavam pelo local e ouviram a dupla cantar.

Sucesso repentino, com o dono do estabelecimento oferecendo R$200 para a dupla apresentar-se na noite seguinte.

Os dois rapazes que sequer se conheciam, no final da noite, tomando uma cerveja, perceberam a coincidência dos nomes Lúcio e Lécio, que poderiam aproveitar como nome artístico de uma dupla sertaneja.

Combinaram de ensaiar na garagem de uma tia, que quase enlouqueceu com o barulho que fizeram, pois chamaram João Mecânico, amigo de Lúcio, sanfoneiro de fim de semana, para acompanhá-los.

O bar encheu de curiosos que ouviram comentários na internet sobre uma nova dupla na noite da cidade.

Os familiares de Lúcio, mesmo sabendo que ainda não havia gravações, ligaram o dia todo para as rádios locais, solicitando que tocassem a canção da dupla, simulando que eram várias pessoas encantadas com o sucesso.

No dia seguinte, um vídeo gravado por um anônimo, viralizou nas redes sociais. O dono do bar ofereceu R$500 por nova apresentação, imediatamente recusado pelo tio de Lúcio, que arvorou-se em empresário da dupla.

Um convite para realizarem uma “Live”, com boa compensação financeira, aceita pela dupla, tornou-se um fenômeno na cidade, alastrando-se por todo o Estado.

Notando o aparecimento da dupla, um empresário do ramo ofereceu o estúdio para a gravação do primeiro DVD. Mas impôs a condição de terem que ser acompanhados pelos músicos da gravadora, o que implicaria no afastamento do sanfoneiro João Mecânico. Isto causou revolta em Lúcio, seu amigo de infância, e que o considerava como um irmão.

Para não atrapalhar o futuro da dupla, tiveram que aceitar essas condições. O sucesso foi estrondoso com a venda e a enorme quantidade de shows pelo país com alta remuneração.

Lécio começou a perceber a alteração no comportamento de seu parceiro, que a todo momento mostrava-se inconformado com o que ele considerava ter sido uma traição ao amigo sanfoneiro, bebendo muito após os shows e também em outras horas.

Lúcio engordava a olhos vistos e nunca aparentava ser feliz, mesmo com o sucesso e o assédio das fãs, sempre lembrando o nome do amigo João.

Até que em uma noite, apresentou-se embriagado para o show, comprometendo a performance da dupla.

Conversaram longamente e optaram por uma internação em clínica especializada na recuperação de alcoólatras.

Depois de alguns meses de tratamento, foi autorizada pelos médicos a visita de familiares e amigos.

Nessa ocasião, Lécio e João Mecânico foram até lá, e após um longo e emocionado abraço, resolveram refazer o antigo trio musical. Foi o que bastou para a recuperação total de Lúcio, que em pouco tempo obteve a alta da clínica.

Voltaram à noite em Campo Grande, agora com cachês bem menores, mas cantando com a felicidade que o sucesso anterior lhes roubara. Formaram um quinteto inseparável, composto pela Gratidão, Amizade, Lúcio, Lécio e o amigo João.

Fonte:
Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: imponderáveis. Volume 3. Santos/SP: Bueno Editora, 2022. Enviado pelo autor 

Antonio Brás Constante (Como Seria o Pior Restaurante do Mundo?)

Visto que estamos em um período do ano repleto de festividades, com muita comilança e tudo mais. Onde as festas são regadas por mesas fartas e saborosas, botei o cérebro para funcionar em engenharia reversa (ou qualquer coisa assim) e fiquei pensando: Como poderia ser o pior restaurante do mundo? Provavelmente seria um lugar onde os mais horríveis e horripilantes pesadelos da culinária seriam servidos ao freguês sem dó nem piedade. Lá você encontraria vários tipos de pratos frios, aliás, todos os pratos lá seriam frios, até as sopas, mas em compensação o suco estaria sempre quente. Falando em suco, quem descobrisse o gosto do suco ganharia um copo limpo (porém, quebrado) para bebê-lo.

As tentativas do restaurante em criar porcos e galinhas para serem servidos nas refeições acabariam sendo infrutíferas, porque ao tentaram engordar os animais alimentando-os somente com a comida servida no restaurante, os porcos passariam a fazer greve de fome e as aves virariam canibais.

A comida seria servida a moda da casa, tipo assim, da casa de detenção. Chegando lá você nem precisaria consultar o cardápio, já que existiriam apenas duas opções: Comer ou não. Para saber o que já foi servido lá durante todo mês, o cliente (cliente?) bastaria olhar para a roupa encardida das atendentes, onde as manchas em seus uniformes detalhariam a comida que foi por elas maltratada, digo: cozinhada.

O pior restaurante do mundo seria o único lugar do planeta onde, além de lavar as mãos, a pessoa também teria que lavar os pratos, talheres e copos, caso quisesse comer utilizando utensílios limpos. Também seria um restaurante considerado 100% “self service” já que antes de se servir no bufê a pessoa teria que buscar sua bandeja e demais acessórios que estariam espalhados e sujos pelas mesas, pela pia da cozinha, e até pelo chão.

Podemos dizer que seria um local que conseguiria aflorar a religiosidade nas pessoas, pois, após provar da comida qualquer indivíduo passaria a acreditar que o inferno existe e que resolveu abrir uma franquia justamente naquele lugar. Neste restaurante os clientes perceberiam que o que não mata engorda (e muitos dos que comeriam lá não engordariam exatamente por esse motivo), poderíamos até comparar suas refeições com os cogumelos, pois como muitos já sabem: todos os cogumelos são comestíveis, alguns só uma vez...

A pessoa que se aventurasse a conhecer este restaurante se obrigaria a comer devagar, bem devagar, saboreando o que tem na boca e evitando assim, mastigar alguma pedra ou inseto que por ventura estivesse camuflado no meio dela.

Como todo restaurante tem normas de conduta, não seria permitido fumar nas mesas, por isso os funcionários do lugar fumariam na cozinha mesmo, enquanto preparariam os alimentos, separando, por exemplo, a parte boa das carnes e legumes das partes estragadas, pois essas seriam utilizadas para preparar os molhos, purês, bolinhos e tudo mais que pudesse disfarçar que aquilo já não prestaria mais para o consumo.

Enfim, para não se pensar que no pior restaurante do mundo só encontraríamos coisas ruins, vale lembrar que lá seria um ótimo lugar para quem quer perder peso, iniciar uma dieta forçada, ou simplesmente tentar o suicídio gastronômico através da ingestão de sua incomestível comida.

Fonte:
Texto enviado pelo autor. em 12.12.2010 

Abgar Renault (Antologia Poética)


 ENCANTAMENTO

Ante o deslumbramento do teu vulto,
sou ferido de atônita surpresa
e vejo que uma auréola de beleza
dissolve em luar a treva em que me oculto.

Estás em cada reza do meu culto,
sonhas na minha lânguida tristeza
e, disperso por toda a natureza,
paira o deslumbramento do teu vulto.

E' tua vida minha própria vida
e trago em mim tua alma adormecida . . .
mas, num mistério surdo que me assombra,

tu és, as minhas mãos, vaga, fugace,
como um sonho que nunca se sonhasse
ou como a sombra vã de uma outra sombra...

ALEGORIA

Em vão busco acender um diálogo contigo:
a alma sem tom da tua boca de água e vento
despede cinza, névoa e tempo no que digo,
devolve ao chão o meu mais longo pensamento,

e entre cactos estira esse deserto ambíguo
que vem da tua altura ao vale onde me ausento,
procurando o teu verbo. O silêncio, investigo-o,
e ouço o naufrágio, o vácuo e o deperecimento.

Sonho: desces a mim de um céu de algas e rosas,
falas às minhas mãos vozes vertiginosas,
e palavras de flor no teu cabelo enastro.

Desperto: pairas ainda em silêncio e infinita:
meu ser horizontal chora treva e medita
tua distância, teu fulgor, teu ritmo de astro.

SONETO DO IMPOSSÍVEL

Não ouvirás nem luz, nem sombra inquieta
das sílabas que beijam tuas asas,
nem a curva em que morre a ardente seta,
nem tanta eternidade em horas rasas.

Não medirás a bêbeda corola
que abriste no final do meu sorriso,
nem tocarás o mel que canta e rola
na insônia sem estradas onde piso.

Não saberás o céu construído a fogo,
que tua jovem chave cerra e empana,
nem os braços de espuma em que me afogo.

Não verão os teu olhos quotidiana
a minha morte de homem embebida
no flanco de ouro e luar da tua vida.

COMO QUEM PEDE UMA ESMOLA

Preciso de uma palavra.
Em que dia ou em que noite
estará essa, que almejo,
ideal palavra insabida,
a única, a exclusiva, a só?
Dela me sinto exilado
todas as horas por junto,
com minha face, meu punho,
meu sangue, meu lírio de água.
Soletro-me em tantas letras,
e encontrá-la deve ser
encontrar a criança e o berço,
a unidade, a exatidão,
o prado aberto na rua,
a rua galgando a estrela.
Preciso de uma palavra,
uma só palavra rogo,
como quem pede uma esmola.
Em florestas de palavras
os calados pés caminham,
as caladas mãos perquirem,
os olhos indagam firmes.
Em que parábola cruel,
em que ciência, em que planeta,
em que fronte tão hermética,
em que silêncio fechada
estará viajando agora
- mariposa de ouro azul -
a palavra que desejo?
Lâmina sexo cristal
fulcro pântano convés
voraginoso fluvial
Antígona circunflexa
catastrófico crepúsculo
ênula ventre rosal
sibila farol maré
desesperadoramente
nenhuma será nem é
aquela do meu anseio.
Como será, quando vier,
a palavra entrepensada,
necessária e suficiente
para a minha construção
de lápis, papel e vento?
Dura, espessa, veludosa
ou fina, límpida, nítida?
Asa tênue de libélula
ou maciça e carregada
de algum plúmbeo conteúdo?
Distante, insone e cativo,
debaixo da chuva abstrata,
eu me planto decisivo
no tráfego confluente,
aéreo, terrestre, marítimo,
e espero que desembarque,
triste e casta como um peixe
ou ardendo em carne e verbo,
e pouse na minha mão
a áurea moeda dissilábica,
a noiva desconhecida,
a coroa imperecível:
a palavra que não tenho.

NA RUA FEIA

Na rua feia,
de casas pobres,
morreu o filhinho daquela mulher
que lava o linho rico
de um bairro distante.
Morreu bem simplesmente,
assim como um passarinho.
O enterro saiu...lá vai...
um caixãozinho azul
num carro velho de 3a. classe.
Atrás dois autos. Dois.

A tarde irá pôr luto
na rua feia,
de casas pobres?

Garotos brincam de esconder
atrás do muro de cartazes.
Lá no alto
vai-se abrindo grande céu sem mancha
cruzeiro-do-sulmente iluminado.

POEMETO MATINAL

O ar da manhã beija a minha face.
A minha alma beija o ar leve da manhã
e olha a paisagem longínqua da cidade,
que branqueja alegremente na distância
e sorri humanamente
um sorriso branco no caiado das casas
que montam os flancos das colinas azuis
e espiam pelos olhos escancarados das janelas.

7 horas. Vai começar a função.
O despertador das sirenes fura liricamente
o silêncio doirado da manhã.
Parece que a vida acorda agora pela primeira vez
e esfrega os olhos deslumbradamente...

Meu Ford fordeja dentro da manhã
e sobe a rua velha do meu bairro,
arquejando, bufando, fumando gasolina.
Meu Ford a cabriolar nos buracos da rua descalça
é um cabrito todo preto a cabriolar, prodigioso.
O ar leve beija o radiador
e beija a minha face.

A meninice de todo o meu ser
na doirada névoa desta manhã!

NOITE

Há duas pombas brancas no telhado.
Junto delas pousa o silêncio do dia já parado,
e entre asas caladas o primeiro gesto da noite vai crescendo.
É tarde nos telhados e nas árvores,
é tarde (triste e mais tarde) nessa rua
que se reabriu no fundo de um olhar,
onde se movem ressurrectos mármores
e começam a discorrer ventos e velas
por sobre a limpidez das mesmas águas velhas,
e pássaros azuis bicam frutos de astro soltos no ar.

Sobem (de onde?) vultos escuros de coisas e de entes,
alongam a última distância, somem a luz que se destece
e a linha dos caminhos, apagam o verde prado.
Não há duas pombas brancas no telhado:
sobre elas, seu vôo e seu arrulho ausentes
a lápide sem cor das horas desce.
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Abgar Renault (1901 – 1995)
ABGAR DE CASTRO ARAÚJO RENAULT nasceu em 1901, em Barbacena/MG. Faleceu em 1995 (aos 94 anos), na cidade do Rio de Janeiro. Passou sua infância e juventude em Barbacena, mudando-se para Belo Horizonte para os cursos superiores. Posteriormente, em razão das suas funções públicas e de sua consagração literária, viveu em Brasília e fixou residência definitiva no Rio de Janeiro. Teve uma carreira de enorme destaque no funcionalismo público, no judiciário e na educação brasileira. Foi professor catedrático, lecionando em instituições como a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o Colégio Pedro II e a Universidade do Distrito Federal. Atuou como Deputado Estadual e assumiu o cargo de Secretário de Educação de Minas Gerais. Entre 1955 e 1956, alcançou o ápice político ao se tornar Ministro da Educação e Cultura do Brasil sob o governo de Nereu Ramos. Integrou os comitês de currículo secundário e de educação de adultos da [UNESCO] na década de 1950. Exerceu o cargo de Ministro do Tribunal de Contas da União (TCU).
Abgar Renault foi uma figura central do Modernismo Mineiro. Em 1925, ao lado de seu amigo Carlos Drummond de Andrade, fundou a histórica publicação A Revista em Belo Horizonte, que serviu de principal veículo difusor das ideias modernistas no estado de Minas Gerais. Embora fizesse parte do grupo modernista, sua poesia manteve-se original e independente, não se prendendo a fórmulas fixas. Ele uniu com maestria o rigor formal e a melancolia herdados da tradição barroca e simbolista de Minas Gerais a um forte senso existencial moderno. Seus versos exploravam temas profundos como o tempo fugaz (tempus fugit), a perda, a solidão e a morte. Além disso, sua contribuição como tradutor de poesia foi monumental. Ele foi um dos maiores difusores no Brasil de autores de língua inglesa, francesa, alemã e espanhola, com destaque para a tradução da obra do filósofo e poeta indiano Rabindranath Tagore.
Pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL), tomando posse em 1969, chegando a presidir a ABL em 1993. Academia Mineira de Letras (AML). Academia Brasileira de Filologia (ABF).
Embora fosse conhecido por sua postura humilde e discreta, avesso a vaidades literárias, seu trabalho recebeu prestígio nacional e internacional. Recebeu uma medalha honorífica concedida pela Rainha Elizabeth II em reconhecimento ao seu extraordinário esforço na difusão da cultura britânica no Brasil através da tradução de poemas de guerra ingleses. Título de Professor Emérito concedido pela Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
O autor demorou a reunir seus poemas em livro, publicando suas principais coletâneas poéticas originais de forma tardia: Poemas ingleses de guerra (1942) – Antologia de traduções; A palavra e a ação (1952) – Ensaios / Discursos; Sonetos antigos (1968) – Poesia; A Lápide sobre a Lua (1968) – Poesia (sua obra poética de maior destaque); Sofotulafai (1971) – Poesia; A outra face da lua (1983) – Poesia; Obra Poética (1990) – Compilação de seus poemas; Poesia, tradução e versão (1994) – Reunião de seus trabalhos poéticos e traduções.

Fontes:
Poesias = Jornal de Poesia
Biografia = Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Universidade Federal de Minas Gerais, Antonio Miranda, Enciclopedia Itaú Cultural, Diário de Minas, etc.

Nilto Maciel (A Última Festa de um Homem Só)

 Estirado no sofá, Fausto lia. Ou talvez apenas namorasse as letras. Não havia mulher no resto da casa. Ninguém mais. Apesar disso, ele vestia um roupão elegante e de seu corpo recendiam perfumes de devassidão.

O livro por pouco não lhe caiu das mãos, quando uma campainha tocou. Não eram horas de despertar. Quem estaria à porta?

Tocou de novo. Fausto largou o livro e correu ao telefone. Alô, boa noite, quem fala?

A voz dizia ser de Sardanapalo.

No entanto, Fausto não se lembrava de ninguém com esse nome. Não seria Assurbanipal?

De qualquer forma, desejava o quê?

Ajuda. Preciosa ajuda. Só ele, Fausto, poderia ajudá-lo. Queria promover uma festa em seu palácio.

Fausto riu. O sujeito só podia estar brincando. Ora, não entendia nada de festas nem de palácios. Fosse para o inferno.

Ia desligar o aparelho e dizer, embora para si mesmo, mais uns desaforos.

— Sou o rei da Assíria.

Conteve-se e comprimiu o fone contra o ouvido. À festa deveriam comparecer os monarcas de todos os tempos. Vivos e mortos.

Riu mais uma vez Fausto. Aquele rei vivia em algum manicômio. Continuasse, pois, a dizer disparates. Rir até fazia bem.

Como Fausto fosse pessoa bem relacionada, amigo de reis e rainhas, contava Sardanapalo com a valiosa ajuda dele. Em troca, oferecia-lhe a sua amizade. Aliás, precisavam se conhecer pessoalmente. Aguardasse, pois, sua visita. Assim arranjariam juntos a relação dos nomes dos convidados. Porque nenhum monarca poderia faltar à sua festa.

Despediam-se e Fausto voltava ao sofá. Conversa mais sem sentido. Parecia até sonho.

O livro jazia aberto sobre o sofá. Nem se lembrava mais do que havia lido. Seriam versos de Goethe? Histórias do Diabo? As vidas dos imperadores romanos?

Fausto agarrou o livro, leu um trecho. Riu satisfeito. Não havia perdido a memória. O livro chamava-se A morte de Sardanapalo.

Preocupou-se de novo. A “conversa” de há pouco teria sido sonho ou realidade? No entanto sonhos não faziam mal a ninguém. Além do mais, costumava sonhar com personagens de livros. Sobretudo quando o personagem o impressionava muito. Sardanapalo, então, comovia o leitor mais insensível. Sua vida era de uma riqueza sem limites. Até sua morte, durante o incêndio do palácio real.

O livro caiu-lhe das mãos, quando tocou uma campainha. Mais uma vez o louco? Não, nem pegaria o telefone. Tocasse à vontade.

A campainha tocou de novo. Porém a da porta. Talvez algum amigo.

Correu e girou a chave. Um sujeito esquisito deu-lhe boa-noite. Vestia roupas fosforescentes. E se dizia Sardanapalo.

Mudo, Fausto deixou-o entrar. E o homem entrou, luminoso, esquisito.

E toda a casa se pôs a pegar fogo.

Fonte:
MACIEL, Maciel. As Insolentes Patas do Cão. In Contos Reunidos volume II. Porto Alegre/RS: Bestiário, 2010.

Estante de Livros (O Calor das Coisas, de Nélida Piñon) Conto: O Sorvete é um Palácio

Ambiente:
Praia de Copacabana e apartamento, no Rio de Janeiro.

Foco narrativo:
Primeira pessoa.

Personagens:
Uma mulher: Solteira, solitária, de certa idade.
Sorveteiro: Dono de pequena fábrica de sorvetes que vende na Praia de Copacabana.

O texto fala de um encontro entre uma mulher de certa idade, solitária, solteira, com um sorveteiro. Ela quer encontrar alguém que a ame; ele quer encontrar um sócio para a sua fábrica de sorvetes. Apesar da idade, ela ainda se sente profundamente ligada ao pai de quem se recorda muitas vezes e de quem busca a aprovação para o que faz. Ela convida o sorveteiro para um lanche. Precisa de alguém para suprir-lhe as carências de companhia e de amor. Ele não se desliga da esposa e dos filhos. Ele vai embora. Ela vai continuar à espera.

O sorvete é um palácio, é escrito sob a forma de depoimento uma mulher, rica, narra as vicissitudes em torno de um caso que mantém com um homem pobre, sorveteiro, casado e pai de três filhos. A mulher narradora também não é nova (“Esquecida do espelho a proclamar que a carne não é mais um sortilégio para as mulheres de minha idade”.), e encontra o amor onde menos esperava, na figura de um homem simples, sem beleza física, casado e, além de tudo, pertencente a outra classe social. Por estranho que pareça, esse homem diferente é que lhe devolve alegria, que contribui para a construção de si mesma, de sua identidade por inteiro.

"Ao seu lado, não sinto medo. A própria vida fortaleceu-me desde que o vi pela primeira vez nesta manhã."

Começaram a conversar e ele lhe pediu para que fossem sócios em seu negócio de vender sorvetes na praia. O estranho do pedido é o que garante a percepção de um poderia completar o outro, de se formar um todo. A narradora revela não ter vida própria, assistia a novelas como meio de projetar na vida alheia aquilo que não era. Assim, ao ver-se diante de uma situação estranha, com um homem com vida alheia a sua, distante física, social e culturalmente, isso poderia completá-la, a despeito de ele ser casado. (“Viver será transferir para o outro o que é nosso por direito.”)

"Deus sabe que não quero falsas aflições, mas um homem capaz de interpretar meus sentimentos, serei acaso a última flor do Lácio?"

A “última flor do Lácio” é uma referência a um poema de Olavo Bilac, intitulado “Língua portuguesa”, em que fala ser o português o último idioma surgido do latim, falado na região do Lácio, que deu origem ao Império Romano. Não parece haver uma relação imediata. A rigor, o que a narradora quis expressar é que ela poderia ser a última mulher a encontrar o homem perfeito e ideal para ela. Poderia ter dito também que era seria “a última dos moicanos”, por alusão ao famoso romance de James Fenimore.

Um momento significativo é que ele vai até a casa dela e se senta na poltrona que pertencera ao pai e ela na poltrona em que ficava a mãe. Por analogia, é como se cada qual estivesse ocupando os papéis, sonhados, de marido e mulher.

A questão a que sempre retorna é o da identidade (“Serei eu mesma o tempo todo?”). Como construir algo para o qual é preciso primeiro destruir? Destruir a antiga identidade dele, seu casamento, abandonar sua vida no outro lado da cidade?

Essa ideia de construção/destruição está metaforizada no fato de o homem ser sorveteiro, de fabricar para vender um produto que se perdia com facilidade, que, diante do calor, desaparecia.

"Eu respeitava aquele arquiteto a erguer um mundo frágil pela força da sua vontade. A lidar com formas que o calor desfazia."

Por este motivo, o sorveteiro tem sempre de retornar à sua casa, à sua fábrica, entre idas e vindas e, com isto, o amor entre ele e a narradora não se totaliza nunca.

Após ouvir a história de Colombo, Rubem volta a narrar sua história com Alice, sua ex-mulher. Aos poucos, percebeu que Alice representava, mais do que amor, relacionamento de um casal, apenas a aventura, os passeios. Não se via completo efetivamente por ela. Foi um amor sem ciúmes, não fazia sofrer. Os outros podiam desejá-la, aplaudi-la ao seu lado.

"Não queria um amor solitário, ou que lhe faltassem amigos com quem dividi-la."

Esse conto lembra As cartas portuguesas, escritas por Sóror Mariana Alcoforado (1640-1723), de um convento localizado Beja, dirigidas a um oficial francês, chamado DeChamilly, que lhe prometera amor eterno e que a iria tirar do convento para se casarem. No entanto, a promessa não se cumpre.

Foram cinco curtas cartas de amor, em que se percebe um amor incondicional e exacerbado. O tom das cartas vai do sentimento de esperança à desilusão, por não receber notícias e correspondência equivalente.

Nélida Piñon é uma autora pós-moderna, no sentido de tematizar questões modernas, como o feminismo, o respeito às diferenças, a construção de nova identidades, a reconstrução de identidades perdidas.

Fontes:
– Celso Leopoldo Pagnan. Resenhas dos livros de leitura obrigatória da UEL 2017/2018. Londrina: Maxi, 2016.
– Profa. Sônia Targa. in OBRAS DA UEM- 2012-2013

domingo, 4 de outubro de 2026

Renato Alves (Plantando Trovas)

 

1
A água pura não tem cor,
nem branca, nem amarela;
não tem cheiro, nem sabor...
Mas ninguém vive sem ela!
2
Agradeço a quem quiser-me
como eu sou, como um irmão...
Não é na cor da epiderme
que se vê meu coração!
3
Ao receber tuas cartas
uma frustração me invade:
tu me dás notícias fartas,
mas me matas de saudade!
4
Ao repensar minha história,
encontrei com emoção
por trás de cada vitória
um mestre no coração!
5
Ao te encontrar, velha agenda,
lá no fundo da gaveta,
meu passado se desvenda...
És a minha “caixa-preta”!
6
Beleza de mais efeito
que este colar de rainha
tu não tens sobre o teu peito,
dentro dele é que se aninha...
7
Com esplendor natural
e fulgor exuberante,
de uma gota no varal
o sol faz um diamante.
8
“Conhecer não é saber”
- ensina a douta ciência...
”Pôr alma no que aprender” ,
isto, sim, é sapiência!
9
Coração, relógio louco
que registra o meu desejo,
bate muito ou bate pouco,
na medida em que te vejo!
10
De meu pai herdei o nome,
de minha mãe, a ternura;
da pobreza herdei a fome,
a minha herança mais dura!
11
Eis meu desejo ideal,
minha utopia e quimera:
– Ver teus braços, afinal,
abrirem-se à minha espera!
12
Escute a voz da razão:
– Nunca esmoreça, persista!...
É com determinação
que o sonho vira conquista.
13
Mais rápido do que a luz,
através do imaginar,
pensamento nos conduz
a todo e qualquer lugar,
14
Mesmo em meio à dura lida,
fazer versos nos renova:
– Cabe todo o bem da vida
nas quatro linhas da trova!
15
Mil livros já devorei,
mas neles não achei graça,
até hoje eu nada sei...
– Muito prazer, sou a traça!
16
Minha vida era rotina
tão amarga quanto fel,
mas transformou-se, menina,
com sua chegada, em mel!
17
Não diga que é velho alguém
pela idade transcorrida...
Só é velho quem não tem
mais sonhos em sua vida!
18
Ninguém há que saiba tudo,
nem tudo pode saber...
Muito se aprende e, contudo,
há sempre o que se aprender!
19
No campo foi algodão,
tornou-se fio e tecido,
ganhou cor e confecção...
Está pronto o seu vestido!
20
Nunca condenes o irmão
sem de provas ter ciência;
dá-lhe, sem contestação,
a presunção da inocência.
21
O gajo, sendo um velhaco,
engajou-se bem no ofício:
– um cargo de puxa-saco
pra puxar palma em comício!
22
O mar geme nos rochedos
prantos tão desconsolados,
pois guarda muitos segredos
e sonhos dos afogados...
23
O mestre faz da alma um templo
para ouvir nossa oração,
e, assim, mostra que é o exemplo
que ensina qualquer lição!
24
O muro é separação,
produto de preconceito;
se você quer união,
construa pontes no peito!
25
O trabalho é punição,
uma herança do passado...
Deus quis castigar Adão,
e sobrou pro nosso lado!..
26
“O vinho seco faz bem!”
- recomendou sua avó...
E ele foi ao armazém,
e lá pediu: “Vinho em pó!”
27
Pandorga... cafifa... pipas...
tens nomes em abundância,
mas com todos participas
dos sonhos da nossa infância!
28
Planto o grão com uma meta:
- Gerar vida em profusão...
E este ciclo se completa
quando o trigo vira pão.
29
Pode ser pobre ou poeta,
sem perder a autoestima;
mas há de ter como meta
não ter pobreza na rima.
30
Quando a feia se “embeleza” ,
mas o resultado é trágico,
diz o espelho, que se preza:
– Ela pensa quer eu sou mágico!...
31
Quando a humana insensatez
dissemina a poluição,
para ter sol outra vez,
só com imaginação...
32
Quando do meu lar amado
transpus o velho portão,
pedaços do meu passado
espalharam-se no chão!
33
Quando estou no teu regaço,
tu me dás consolo e mel...
Como há sonho em teu espaço,
livro, amigo de papel!
34
Quando o amor é inconsequente,
nas mais tórridas paixões,
pode fundir-se a corrente
que liga os dois corações!
35
Quem de si não cede nada,
no céu não terá lugar.
Coisa mais abençoada
do que receber... é dar!
36
Quem não tem medo da morte,
quem nunca faz nada em vão,
quem, antes de tudo é um forte...
Este é o homem do sertão!
37
Que nome você daria
ao que sente a mãe que chora
ao pé da cama vazia
de um filho que foi embora?...
38
Razão e Emoção, na gente,
são irmãs, mas não se dão:
a primeira habita a mente,
a segunda, o coração!
39
Se és de fato um vencedor
deves sempre ter em vista,
não o prêmio e seu valor,
mas o prazer da conquista!
40
Se és duro de coração,
não perdes por esperar:
do céu só terá perdão
quem é capaz de perdoar.
41
Ser poeta é transformar
a palavra em brasa ardente
para com ela queimar
a emoção que está na gente!
42
Se tens pela vida apreço,
não entres na droga braba!
Tu decides o começo,
mas não sabes como acaba.
43
Sigo, no delírio infindo
da saudade que me arrasa,
uma só música ouvindo:
os teus passos pela casa!
44
Sob chuva ou sol que abrasa,
como nos tempos antigos,
o portão da minha casa
não se fecha aos meus amigos!
45
Tal qual pérola valiosa
que na ostra tem morada,
minha alma tão pretensiosa
mora no peito da amada.
46
Te enfeiticei, fui omisso,
quis um “caso” passageiro;
mas o Amor fez o feitiço
virar contra o feiticeiro!
47
Ter fé, amor, otimismo
e uma inabalável crença
nos faz saltar sobre o abismo
de qualquer indiferença!
48
Terrível palavra é o “não”
que corta, poda, cerceia...
Feliz quem, no coração,
traz o “sim” que a paz semeia!
49
Trovador que espalha o sonho
que lhe mora n’alma inquieta
confessa ao mundo, risonho,
a bênção que é ser poeta!
50
Tua pele o vento alisa,
sensual, com seu frescor.
Como eu invejo esta brisa
que te alisa, meu amor!...
51
Tu me prendes, me agrilhoas,
me escravizas sem sentir,
mas destas algemas boas
eu não pretendo fugir..
52
“Vitamina está na casca!”
- De um comilão eu ouvi...
E quase que ele se enrasca
ao comer abacaxi!
53
Voltei a ter confiança
neste mundo tão ruim
ao descobrir a criança
que ainda habitava em mim!
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Renato Alves (1939)
    O professor e trovador RENATO ALVES é uma das figuras mais respeitadas e influentes do movimento trovadoresco contemporâneo no Brasil, reconhecido por sua erudição técnica e sensibilidade lírica. Nasceu na cidade do Rio de Janeiro (RJ), em 1939. Filho de Alberto Alves e da portuguesa Maria Thereza Alves. Desenvolveu toda a sua vida e trajetória intelectual radicado na própria capital fluminense. Renato Alves graduou-se como Licenciado em Letras pela Universidade do Brasil (a atual UFRJ). Dedicou grande parte de sua vida ao magistério, atuando como professor de Língua Portuguesa e Literatura nas redes pública e privada de ensino do Rio de Janeiro. Ele permaneceu ativo nas salas de aula até sua aposentadoria, ocorrida em 2005.
Sua inserção no meio literário confunde-se com a história da própria Trova no Brasil. Destacou-se como um profundo estudioso da redondilha maior (versos de sete sílabas poéticas) e das estruturas de rima e ritmo da trova tradicional. Teve papel de liderança na diretoria da UBT - Seção Rio de Janeiro. Tornou-se também o editor do Informativo desta seção. Possui forte colaboração com certames e academias literárias fluminenses e nacionais (como a Academia Fluminense de Letras e a Academia Brasileira da Trova). É detentor de inúmeras premiações de relevância, incluindo medalhas de Ouro nos concursos de trovas da Academia de Letras e Artes de Paranapuã (ALAP), classificações de destaque nos Jogos Florais e primeiros lugares em disputas como o Concurso de Poesia da Bauernfest.
Sua produção poética está espalhada em dezenas de antologias oficiais da trova, almanaques trovadorescos e publicações coletivas. É muito reconhecido por sua faceta didática, sendo o autor de colunas críticas importantes como a "Comentando Trovas" e o "Manual de Orientação para Julgadores”. 
A relevância de Renato Alves para a literatura brasileira reside em sua atuação como guardião e pedagogo da Trova. Ele não se limitou a escrever poemas; ele dedicou-se a ensinar os critérios técnicos para que uma trova atinja o chamado "achado poético" (a imagem original condensada em 28 sílabas). Como uma das principais "cabeças pensantes" do movimento trovadoresco fluminense, ele moldou as diretrizes modernas de julgamento de concursos literários, ajudando a manter viva uma das manifestações mais tradicionais e populares da poesia em língua portuguesa.

(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet)