domingo, 16 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 32 *

 

 Regresso e de peito aberto,
dás-me perdão às mancheias:
- quem anda no rumo certo
entende as culpas alheias…
Carlos Guimarães
Rio de Janeiro/RJ, 1915 – 1997
= = = = = = = = =

Não quero morrer agora,
quero contigo viver;
quero ver chegar a hora
desse sonho acontecer!
Dalvina Fagundes Ebling
Cruz Alta/RS (?? – 2020)
= = = = = = = = =

Sofrem tantos na agonia
do delírio, dito "amor";
isso tudo acaba um dia:
faz frio após o calor…
Diamantino Ferreira
Campos dos Goytacazes/RJ
= = = = = = = = =

Quando a tarde abre seus braços
ao dia que vai morrer,
mata a vida os seus cansaços
para outra vez renascer…
Domingos Freire Cardoso
Ilhavo/Portugal
= = = = = = = = =

O desencanto magoa,
ás vezes sem compaixão,
quando a saudade agulhoa
bem fundo no coração!
Dorothy Miranda
Salvador/BA
= = = = = = = = =

Despedimos no portão,
senti seu beijo gelado...
Descobri, sem ilusão,
que estava tudo acabado.
Ed Louzi
= = = = = = = = =

Em sua inspirada prece
com muita serenidade
é que São Francisco tece
toda a trilha da verdade!
Eduardo Domingos Bottallo
São Paulo/SP
= = = = = = = = =

Minha identidade eu vejo
no teu olhar refletida,
e tudo o que mais desejo
é ser teu amor, na vida!
Eleandra Bonatto
Santiago/RS
= = = = = = = = =

Com o mais lindo sorriso
e aquele olhar da ternura,
me levaste ao paraíso
quase cheguei à loucura.
Gledis Tissot
Balneário Camboriú/SC
= = = = = = = = =

Quero só o que mereço,
pelos princípios morais;
fazer festa a qualquer preço,
é sempre caro demais!
Hélio Castro
São Paulo/SP
= = = = = = = = =

Por minhas inúteis fugas,
entre tormentos medonhos,
deu-me a Vida, nestas rugas,
todo o prêmio dos meus sonhos.
Helvécio Barros
Macau/RN, 1909 – 1995, Bauru/SP
= = = = = = = = =

Feito o sol da madrugada,
tu chegaste de mansinho,
e minha alma enamorada
aqueceu-se em teu carinho!
Ieda Marini de Souza Oliveira
Belo Horizonte/MG
= = = = = = = = =

Se encontrei tudo na vida,
acho que posso falar:
você é tudo querida,
o que eu queria encontrar!
Isaías Teves
Amparo/SP
= = = = = = = = =

O poeta voa leve...
Além da vida e da mente,
mas teima em dizer que escreve
bem menos do que ele sente.
Jair Sales de Almeida
Tomé Açú/PA
= = = = = = = = =

Num mar de pura magia
o umbral do tempo transponho,
rumo ao reino da utopia,
na caravela do sonho.
João Costa
Saquarema/RJ
= = = = = = = = =

Unindo-me a ti pensei
"união de eternos laços"…
Hoje eu vivo como um rei
enlaçado em teus abraços!...
José Manuel Veloso Galvão
São Paulo/SP
= = = = = = = = =

Até podes dizer não
mas não te esqueças, jamais,
de que, na vida, é o perdão
que faz que sejamos mais.
José Roberto Pereira de Souza
= = = = = = = = =

As rugas são, com certeza,
se grande for o desgosto,
as estradas que a tristeza
vai abrindo em cada rosto!
Lavinio Gomes de Almeida
Barra do Piraí/RJ, ?? – 2009
= = = = = = = = =

Pelas vias pedregosas,
com sacrifício eu subia...
mas, ao descer, colhi rosas
que me encheram de alegria!
Lourdes Borelli
= = = = = = = = =

O barco dos meus desejos,
vencendo tempos e espaços,
entre carícias e beijos,
ancorou-se nos teus braços.
Luiz Machado Stabile
Uruguaiana/RS
= = = = = = = = =

Coração que canta e chora,
coração tão desigual,
que não tem, até agora,
um parecido ou igual.
Maria Aparecida Pires
Curitiba/PR
= = = = = = = = =

Se é virtude, ou se é defeito,
sei não... Sei que ages assim:
da mansidão do meu peito
tiras proveito de mim...
Maria de Fátima S. Oliveira
Juiz de Fora/MG
= = = = = = = = =

Paixões, eu digo e sustento,
pela inconstância da forma
são dunas de sentimento
que o tempo varre e transforma!
Maria Helena O. Costa
Ponta Grossa/PR
= = = = = = = = =

Alvorada, em teu regaço,
de encantos indescritíveis,
eu vejo ampliar-se o espaço
em que os tenho - são possíveis!
Marlê Beatriz Araújo
Viamão/RS
= = = = = = = = =

É feliz quem faz na vida,
sem, em troca, pedir nada,
da fé — ponto de partida -
do amor - meta de chegada!
Nádia Huguenin
Nova Friburgo/RJ, 1946 -2008
= = = = = = = = =

Se a amizade for além
demais, entre o gato e o rato;
sobra ao dono do armazém
um prejuízo de fato!
Roberto Nini
= = = = = = = = =

A vida é um mar de rosas
legando beleza e olor,
às criaturas bondosas,
que sabem semear o amor,
Sara Furquim
Rio Branco do Sul/PR, 1918 – 2020
= = = = = = = = =

Feliz quem, olhos sem pranto,
viu-se, alegre, envelhecer,
tanto amando e amando tanto
que se esqueceu de morrer.
Trigueiro Lins
Santos/SP
= = = = = = = = =

Na infância, o sumo interesse;
- calças longas, sem demora!…
(Ah, se a vida devolvesse
as calças curtas de outrora!…)
Waldir Neves
Rio de Janeiro/RJ, 1924 – 2007
= = = = = = = = =

Qual uma fonte de luz,
o sorriso resplandece
e tira da alma o capuz
da tristeza, que a fenece...
Wildman dos Santos Cestari
Taubaté/SP
= = = = = = = = =

Mia Couto (A velha e a aranha)


Deu-se em época onde o tempo nunca chegou. Está-se escrevendo, ainda por mostrar a redigida verdade. O tudo que foi, será que aconteceu? Começo na velha, sua enrugada caligrafia. Oculta de face, ela entretinha seus silêncios numa casinha tão pequena, tão mínima que se ouviam as paredes roçarem, umas de encontro às outras. O antigamente ali se arrumava. A poeira, madrugadora, competia com o cacimbo. A mulher só morava em seu assento, sem desperdiçar nem um gesto. Em ocasiões poucas, ela sacudia as moscas que lhe cobiçavam as feridas das pernas. Sentada, imóvel, a mulher presenciava-se a sonhar. Naquela inteira solidão, ela via seu filho regressando. Ele se dera às tropas, serviço de tiros.

- Esta noite chega Antoninho. Vem todo de farda.

Para receber António ela aprontava o vestido mais a jeito de ser roupa. Azul-azulinho. O vestido saía da caixa para compor sua fantasia. Depois, em triste suspiro, a roupa da ilusão voltava aos guardos.

- Apressa-te, Antoninho, a minha vida está à te esperar.

Mas era mais as esperas do que as horas. E o cansaço era sua única carícia.

Ela adormecia, um leve sorriso meninando-lhe o rosto. E assim por diante. Desconhece-se a data, talvez nem tenha havido, mas num dos seus olhares demorados, a velha encontrou um brilho cintilando num canto do teto. Era uma teia de aranha. Ali onde apenas o escuro fazia esquina, havia agora a alma de uma luz, flor em fundo de cinza. A velha levantou-se para olhar o achado. Não era a curiosidade que lhe puxava o movimento. Assustava-lhe a sua transparência demasiada. E, de logo, lhe surgiu a pergunta que luz tecera aquele bordado? Não podia ser obra de bicho. Não. Aquilo era trabalho para ser feito por espírito, criaturamente. A teia podia só ser um sinal, uma prova de promessa. Decidiu-se então a velha surpreender o autor da maravilha. 

A partir dessa tarde, seus olhos emboscaram o tempo, no degrau de cada minuto.
Esquecida do sono e do sustento, não houve nunca sentinela mais atenta. Até que, certa vez, , se escutou um rumor quase arrependido, desses feitos para ser ouvido apenas pelos bichos caçadores. Por uma breve fresta penetrava pela janela uma aranha. Era de um verde pequenino, quase singelo. Com vagaroso gesto a velha foi tirando o vestido do caixote. Usava os mais lentos gestos, para o bicho não levar susto.

- Qualquer coisa vai acontecer!

Era suspeita que ela bem sabia. Confirmou-se quando as duas, mulher e aranha, se olharam de frente. E se entregaram em fundo entendimento, trocando muda conversa de mães. 

A velha sentiu o bicho pedia-lhe que ficasse quieta, tão quieta que talvez qualquer coisa pudesse acontecer. Então ela se fez exata, intranseunte. As moscas, no sobrevoo das feridas, estranharam nem serem sacudidas. Foi quando passos de bota lhe entraram na escuta. Antoninho! 

A velha esmerava-se na sua imobilidade para que o regresso se completasse, fosse o avesso de um nascer. E lhe vieram as dores, iguais, as mesmas com que ele se havia arrancado da sua carne. Encontraram a velha em estado de retrato, ao dispor da poeira. Em todo o seu redor, envolvente, uma espessa teia. Era como um cacimbo, a memória de uma fumaragem. E a seu lado, sem que ninguém vislumbrasse entendimento, estava um par de botas negras, lustradas, sem gota de poeira.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

ANTÓNIO EMÍLIO LEITE COUTO (71), mundialmente conhecido pelo pseudônimo de MIA COUTO, é o escritor moçambicano mais traduzido e celebrado internacionalmente. O autor é amplamente reconhecido por sua prosa poética e por reinventar a língua portuguesa com o uso de neologismos inovadores. Nasceu em 1955, na cidade da Beira/ Moçambique. Filho de imigrantes portugueses, cresceu em sua cidade natal. Em 1971, mudou-se para a capital, Lourenço Marques (atual Maputo), para estudar, onde reside e trabalha . Na juventude, juntou-se à FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) na luta anticolonial. Abandonou o curso inicial de Medicina para se dedicar ao jornalismo pós-independência. Foi diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM), da revista Tempo e do jornal Notícias. Em 1985, deixou o jornalismo para se formar em Biologia, especializando-se em Ecologia. Trabalhou na gestão de zonas costeiras, lecionou na universidade e fundou uma empresa de impactos ambientais.
Estreou na escrita aos 14 anos com poemas publicados na imprensa local. Adotou o pseudônimo "Mia" devido à sua paixão de infância por gatos e ao fato de seu irmão não conseguir pronunciar seu nome. Sua literatura transita de forma única entre a tradição oral africana (mitos e lendas locais) e a escrita formal herdada do colonialismo. O autor é mestre em fundir realismo e fantasia, criando palavras novas (neologismos) para expressar a identidade de Moçambique. Pertence à Academia Brasileira de Letras, em 1998 como Sócio Correspondente. Foi o primeiro moçambicano e o segundo escritor de todo o continente africano a integrar a academia.
Prêmio Camões (2013), O mais prestigiado prêmio da literatura em língua portuguesa, concedido pelo conjunto de sua obra; Neustadt International Prize for Literature (2014): Conhecido como o "Nobel Americano"; Prêmio Vergílio Ferreira (1999): Atribuído em Portugal pelo conjunto de sua obra; Prêmio Nacional de Ficção (1995): Concedido pela Associação dos Escritores Moçambicanos por “Terra Sonâmbula”.
Alguns Livros Publicados: Raiz de Orvalho (1983) – Poesia (sua estreia em livro); Vozes Anoitecidas (1986) – Contos; Cada Homem é uma Raça (1990) – Contos; Cronicando (1991) – Crônicas; Terra Sonâmbula (1992) – Romance (considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX); Antes de Nascer o Mundo (2009) – Romance; Trilogia As Areias do Imperador (Mulheres de Cinza, A Espada e a Azagaia e O Bebedor de Horizontes – 2015 a 2017) – Romances históricos, etc.
Mia Couto revolucionou as letras lusófonas ao provar que a língua portuguesa não pertence apenas a Portugal ou ao Brasil. Ele "moçambicanizou" o português, moldando a gramática e o vocabulário europeu ao ritmo das línguas locais e da cosmovisão africana. Suas obras foram fundamentais para cicatrizar as feridas sociais da violenta Guerra Civil Moçambicana, usando a poesia da ficção para tratar de traumas históricos brutais. Colocou a literatura contemporânea de Moçambique no mapa-múndi da alta literatura, influenciando novas gerações de escritores em todo o planeta. 

Fontes:
Mia Couto. Cronicando. Moçambique, 1991. Publicado originalmente em 1988, no jornal Notícias, em Maputo/Moçambique.
Biografia: Tag Livros, Ebiografia, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Mundo Educação, Brasil Escola, Portal da Literatura, etc.

Clarice Lispector (Divagando sobre tolices)


Depois de esporádicas e perplexas meditações sobre o cosmos, cheguei a várias conclusões óbvias (o óbvio é muito importante: garante certa veracidade). Em primeiro lugar concluí que há o infinito, isto é, o infinito não é uma abstração matemática, mas algo que existe. Nós estamos tão longe de compreender o mundo que nossa cabeça não consegue raciocinar senão à base de finitos.

Depois me ocorreu que se o cosmos fosse finito, eu de novo teria um problema nas mãos: pois, depois do finito, o que começaria? Depois cheguei à conclusão, muito humilde minha, de que Deus é o infinito. Nessas minhas divagações também me dei conta do pouco que sabia, e isso resultou numa alegria: a da esperança. Explico-me: o pouco que sei não dá para compreender a vida, então a explicação está no que desconheço e que tenho a esperança de poder vir a conhecer um pouco mais.

O belo do infinito é que não existe um adjetivo sequer que se possa usar para defini-lo. Ele é, apenas isso: é. Nós nos ligamos ao infinito através do inconsciente. Nosso inconsciente é infinito.

O infinito não esmaga, pois em relação a ele não se pode sequer falar em grandeza ou mesmo em incomensurabilidade. O que se pode fazer é aderir ao infinito. Sei o que é o absoluto porque existo e sou relativa. Minha ignorância é realmente a minha esperança: não sei adjetivar. O que é uma segurança. A adjetivação é uma qualidade, e o inconsciente, como o infinito, não tem qualidades nem quantidades. Eu respiro o infinito. Olhando para o céu, fico tonta de mim mesma.

O absoluto é de uma beleza indescritível e inimaginável pela mente humana. Nós aspiramos essa beleza. O sentimento de beleza é o nosso elo com o infinito. É o modo como podemos aderir a ele. Há momentos, embora raros, em que a existência do infinito é tão presente que temos uma sensação de vertigem. O infinito é um vir-a-ser. É sempre o presente, indivisível pelo tempo. Infinito é o tempo. Espaço e tempo são a mesma coisa. Que pena eu não entender de física e matemática para poder, nessa minha divagação gratuita, pensar melhor e ter o vocabulário adequado para a transmissão do que sinto.

Espanta-me a nossa fertilidade: o homem chegou com os séculos a dividir o tempo em estações do ano. Chegou mesmo a tentar dividir o infinito em dias, meses, anos, pois o infinito pode constranger muito e confranger o coração. E, diante da angústia, trazemos o infinito até o âmbito de nossa consciência e o organizamos em forma humana simplificada. Sem essa forma ou outra qualquer de organização, nosso consciente teria uma vertigem perigosa como a loucura. Ao mesmo tempo, para a mente humana, é uma fonte de prazer a eternidade do infinito: nós, sem entendê-lo, compreendemos. E, sem entender, vivemos. Nossa vida é apenas um modo do infinito.

Ou melhor: o infinito não tem modos. Qual a forma mais adequada para que o consciente açambarque o infinito? Pois quanto ao inconsciente, como já foi dito, este o admite pela simples razão de também sê-lo. Será que entenderíamos melhor o infinito se desenhássemos um círculo? Errei. O círculo é uma forma perfeita mas que pertence à nossa mente humana, restrita pela sua própria natureza. Pois na verdade até o círculo seria um adjetivo inútil para o infinito. Um dos equívocos naturais nossos é achar que, a partir de nós, é o infinito. Nós não conseguimos pensar no existo sem tomarmos como ponto de vista o a partir de nós.

Para falar a verdade, já me perdi e nem sei mais do que estou falando. Bem, tenho mais o que fazer do que escrever tolices sobre o infinito. É, por exemplo, hora do almoço e a empregada avisou que já está servido. Era mesmo tempo de parar.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

        CLARICE LISPECTOR (Chaya Pinkhasivna Lispector) foi uma das escritoras mais importantes, originais e influentes da história da literatura em língua portuguesa. Associada à Terceira Geração do Modernismo Brasileiro (Geração de 45), ela revolucionou a ficção nacional ao trocar as narrativas focadas em fatos externos por mergulhos profundos e psicológicos na alma humana. Nasceu em 1920, na aldeia de Chechelnyk, na Ucrânia. Sua família, de origem judaica, fugia dos horrores da Guerra Civil Russa e da perseguição antissemita. Ela chegou ao Brasil ainda bebê, com poucos meses de vida. Clarice sempre se declarou profundamente brasileira e pernambucana. Faleceu em 1977, no Rio de Janeiro, um dia antes de completar 57 anos, em decorrência de um câncer de ovário.
Embora tenha se formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1943, Clarice nunca exerceu a advocacia. Trabalhou como redatora e repórter em veículos como a Agência Nacional, Diário da Noite e Correio da Manhã. Sob os pseudônimos de Helen Palmer e Ilka Soares, escreveu crônicas e conselhos de beleza, moda e comportamento para o público feminino em jornais da época. Dominando vários idiomas, traduziu grandes autores internacionais para o português, incluindo Agatha Christie, Oscar Wilde e Edgar Allan Poe. Ao se casar com o diplomata Maury Gurgel Valente, viveu quase duas décadas no exterior (Estados Unidos, Itália, Suíça e Inglaterra), dedicando-se à escrita e aos deveres sociais da função do marido.
A estreia de Clarice na literatura foi um verdadeiro terremoto cultural. Ao longo de sua carreira, construiu uma obra vasta que abrangeu romances, contos, crônicas e literatura infantil. Em 1943, publicou seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem. A obra recebeu aclamação imediata da crítica pelo estilo inovador, que rompia com o regionalismo realista que dominava a época. Seus textos ficaram marcados pelo conceito de "epifania" — momentos em que ações banais do dia a dia (como olhar para um cego mascando chiclete ou quebrar um ovo) disparam crises existenciais profundas em seus personagens. Consagrou-se com livros fundamentais como Laços de Família (1960 - contos), A Paixão segundo G.H. (1964 - romance) e Água Viva (1973). Seu último livro publicado em vida foi A Hora da Estrela (1977). A obra narra a comovente e trágica história de Macabéa, uma datilógrafa nordestina invisível na metrópole do Rio de Janeiro.
A relevância de Clarice Lispector para a literatura mundial é monumental por redefinir a própria forma de contar histórias:
Foi pioneira no Brasil ao utilizar de forma radical o fluxo de consciência e o monólogo interior. A trama física importa pouco em seus livros; o verdadeiro cenário da ação é o pensamento caótico e subjetivo dos personagens; Muito antes dos debates contemporâneos, ela expôs o sufocamento da mulher burguesa presa aos papéis tradicionais de esposa e mãe (como visto nos contos de Laços de Família), revelando a angústia oculta atrás da normalidade doméstica; Clarice não usava as palavras apenas para descrever coisas, mas para criar sensações físicas e filosóficas. Sua escrita é poética, enigmática e quebra a lógica gramatical tradicional para tentar traduzir o que é "inexpressável".

Fontes:
Clarice Lispector. A descoberta do mundo. Publicado originalmente em 1984. Crônicas publicadas originalmente para o Jornal do Brasil, entre 1967 e 1973.
Biografia = Revista Pernambuco; Brasil Escola; Casa do Saber; Jornal de Letras; Mundo Vestibular, Itaú Cultural, UNICAMP, Correio Braziliense, FFLCH USP, Revista Rascunho, etc.

Interlúdio * 20 *



* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI é uma das mais respeitadas poetisas e trovadoras do estado do Paraná, amplamente reconhecida pelo seu domínio técnico e dedicação às formas poéticas clássicas. Nasceu em Bandeirantes (PR), em 1939. Diferente de muitos escritores que migram para os grandes centros urbanos, Lucília manteve suas raízes fincadas em sua terra natal, onde fixou residência e desenvolveu toda a sua trajetória de vida, familiar e artística. Na vida profissional, Lucília dedicou-se à educação. Atuou como professora por 34 anos antes de se aposentar. Sua carreira no magistério foi fundamental para moldar seu profundo vínculo com a Língua Portuguesa e com a formação cultural e literária de gerações de estudantes paranaenses. 
Sua vida literária é marcada pelo ativismo cultural na defesa da poesia clássica, com destaque especial para a trova e o soneto. Lucília é uma das principais lideranças do movimento trovadoresco do Sul do país.
Membra-fundadora da Academia de Letras, Ciências e Artes de Bandeirantes, membra da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos. Atuou historicamente como dirigente da UBT – Seção Bandeirantes, onde exerceu os cargos de Vice-Presidente de Cultura e Presidente, sendo responsável atualmente pela organização de concursos literários e Jogos Florais nacionais e internacionais na região.
Lucília acumulou dezenas de premiações de prestígio em concursos por todo o Brasil. Sua produção literária está eternizada em livros de antologias poéticas, coletâneas da Academia Bandeirantense (ALCAB) e e-books especializados de concursos literários por todo o país. Textos marcantes de sua autoria integram livros e coletâneas como os Jogos Florais de Bandeirantes e os livros oficiais da UBT. Sua identidade poética se traduz em versos profundos sobre o tempo, a saudade e a vida,
A relevância dela para a literatura nacional reside na preservação e descentralização da cultura literária. Em um país onde a literatura de destaque frequentemente se concentra nas capitais, Lucília transformou a cidade de Bandeirantes, no interior do Paraná, em um polo pulsante da trova nacional. Ao liderar a UBT e a ALCAB, ela garantiu que a tradição lírica herdada de nomes como Luiz Otávio continuasse viva, conectando poetas de todas as regiões do Brasil a concursos promovidos no interior do Paraná. Sua contribuição é a de uma guardiã da técnica poética e da sensibilidade, provando que a alta literatura brasileira também se faz com dedicação comunitária e paixão pelas palavras.

Horácio Quiroga (A guerra dos jacarés)


Em um rio muito grande, em um país deserto em que o homem nunca havia estado, viviam muitos jacarés. Eram mais de cem ou mais de mil. Comiam peixes, bichos que iam beber água no rio, mas, sobretudo, peixes. Dormiam a sesta na areia da margem, e às vezes, quando havia noites de lua, brincavam na água.

Viviam todos muito tranquilos e felizes. Mas uma tarde, enquanto dormiam a sesta, um jacaré acordou de repente e levantou a cabeça porque acreditou ter ouvido um ruído. Apurou os ouvidos e longe, muito longe, ouviu, efetivamente, um ruído surdo e profundo. Então chamou o jacaré que dormia a seu lado.

- Acorde! - disse. - Há perigo.

- O que é? - respondeu o outro, alarmado.

- Não sei - respondeu o jacaré que havia acordado primeiro. - Ouço um ruído desconhecido.

O segundo jacaré ouviu, por sua vez, o ruído, e em instantes os outros despertavam. Todos se assustaram, e corriam de um lado a outro com a cauda levantada.

Sua inquietação não era para menos, porque o ruído crescia, crescia. Logo avistaram uma nuvenzinha de fumaça a distância e ouviram um ruído de chas-chas no rio, como se estivessem golpeando a água muito longe.

Os jacarés olhavam uns aos outros: o que podia ser aquilo?

Mas um jacaré velho e sábio, o mais sábio e velho de todos, a quem só restavam dois dentes saudáveis nos costados da boca, e que havia feito uma vez uma viagem até o mar, disse de repente:

- Eu sei o que é! É uma baleia! São grandes e vertem água branca pelo nariz! A água cai para trás.

Ao ouvir isso, os jacarés pequeninos começaram a gritar feito loucos de medo, mergulhando a cabeça. E gritavam:

- É uma baleia! Vem aí uma baleia!

Mas o velho jacaré sacudiu do rabo o jacarezinho que estava mais próximo.

- Não tenham medo! - gritou-lhes. - Eu sei o que é a baleia! Ela tem medo da gente! Sempre tem medo!

Com isso os jacarés se tranquilizaram. Mas em seguida voltaram a se assustar, porque a fumaça cinza virou de repente fumaça negra, e todos sentiram agora bem forte o chas-chas na água. Os jacarés, espantados, afundaram no rio, deixando do lado de fora apenas os olhos e a ponta do nariz. E assim viram passar diante deles aquela coisa imensa, cheia de fumaça e golpeando a água que era um vapor de rodas que navegava pela primeira vez por aquele rio.

O vapor passou, afastou-se e desapareceu. Os jacarés foram, então, saindo da água, muito aborrecidos com o velho jacaré porque os havia enganado, dizendo-lhes que aquilo era uma baleia.

- Aquilo não era uma baleia! - lhe gritaram nas orelhas porque era um pouco 
surdo. - O que é aquilo que passou?

O velho jacaré lhes explicou, então, que era um vapor, cheio de fogo, e que todos os jacarés iriam morrer se o barco continuasse passando. Mas os jacarés começaram a rir, porque acharam que o velho havia ficado louco. Por que eles iriam morrer se o vapor continuasse passando? O pobre do velho jacaré estava muito louco!

E como tinham fome, se puseram a procurar peixes.

Mas não havia nenhum peixe. Não encontraram um único peixe. Todos haviam ido embora, assustados pelo ruído do vapor. Não havia mais peixes.

- Eu não falei pra vocês? - disse então o velho jacaré. - Não temos mais nada para comer. Todos os peixes foram embora. Esperemos até amanhã. Pode ser que o vapor não volte mais, e os peixes voltem quando não tiverem mais medo.

Mas no dia seguinte sentiram de novo o ruído na água, e viram o vapor passar de novo fazendo muito barulho e soltando tanta fumaça que o céu escurecia.

- Bem - disseram então os jacarés -, o barco passou ontem, passou hoje, passará amanhã. Não haverá mais peixes nem bichos que venham beber água, e nós  morreremos de fome. Façamos então um dique.

- Sim, um dique! Um dique! - gritaram todos, nadando a toda força para a margem. 

- Façamos um dique!

Em seguida começaram a fazer o dique. Foram todos ao bosque e derrubaram mais de dez mil árvores, sobretudo ipês e macieiras silvestres, porque têm madeira muito dura... Cortaram-nas com a espécie de serrinha que os jacarés têm sobre a cauda; empurraram-nas até a água e cravaram-nas em toda a largura do rio, a um metro uma da outra. Nenhum barco poderia passar por ali, nem grande nem pequeno. Estavam certos de que ninguém viria espantar os peixes. E como estavam muito cansados, se deitaram para dormir na praia.

No outro dia, ainda dormiam quando ouviram os chas-chas-chas do vapor. Todos ouviram, mas nenhum se levantou ou sequer abriu os olhos. O que lhes importava o barco?

Podia fazer todo o ruído que quisesse, mas ali não ia passar.

De fato: o vapor ainda estava muito longe quando se deteve. Os homens que estavam nele olharam com lunetas aquela coisa atravessada no rio e mandaram um  bote ver o que era aquilo que os impedia de passar. Então os jacarés se levantaram e foram ao dique, e olharam por entre as madeiras, rindo do revertério que o vapor havia levado.

O bote se aproximou, viu o dique formidável que os jacarés haviam levantado e voltou ao vapor. Mas depois voltou novamente ao dique, e os homens do bote gritaram:

- Ei, jacarés!

- O que há? - responderam os jacarés, enfiando a cabeça entre os troncos do 
dique.

- Isso está nos atrapalhando! - continuaram os homens.

- Estamos sabendo!

- Não podemos passar!

- É o que nós queremos!

- Tirem o dique!

- Não vamos tirar!

Os homens do bote conversaram um pouco em voz baixa entre eles e depois gritaram:

- Jacarés!

- O que há? - responderam eles.

- Não vão tirá-lo? 

– Não!

- Até amanhã, então!

- Até quando queiram!

E o bote voltou ao vapor, enquanto os jacarés, loucos de felicidade, davam tremendas rabadas na água. Nenhum vapor ia passar por ali, e sempre, sempre, haveria peixes.

Mas no dia seguinte o vapor voltou, e quando olharam para ele ficaram mudos de espanto: já não era o mesmo. Era outro, um de cor de rato, muito maior do que o outro. Que novo vapor era esse? Esse também queria passar? Não ia passar, não. Nem esse, nem nenhum outro!

- Não, não vão passar! - gritaram os jacarés, lançando-se ao dique, cada qual em seu posto entre os troncos.

O novo barco, como o outro, se deteve a distância, e também como o outro desceu um bote que se aproximou do dique.

Trazia um oficial e oito marinheiros. O oficial gritou:

- Ei, jacarés!

- O que há? - responderam eles.

- Não vão tirar o dique? 

- Não.

- Não? 

- Não.

- Está bem - disse o oficial. - Então vamos derrubá-lo a canhonaços.

- Derrubem! - responderam os jacarés. E o bote regressou ao barco.

Bem, esse vapor de cor de rato era um barco de guerra, um encouraçado com canhões terríveis. O velho jacaré sábio que havia ido uma vez ao mar se lembrou de repente, e só teve tempo de gritar aos outros jacarés:

- Escondam-se debaixo da água! Rápido! É um barco de guerra! Cuidado! Escondam-se!

Em um instante os jacarés desapareceram sob a água e nadaram até a margem, onde ficaram mergulhados, apenas com o nariz e os olhos fora da água. Nesse mesmo momento, saiu do barco uma grande nuvem branca de fumaça, soou um estampido terrível e uma enorme bala de canhão caiu em pleno dique, exatamente no meio. Dois ou três troncos voaram feitos em pedaços, e em seguida caiu outra bala, e outra e mais outra, e cada uma fazia saltar pelo ar em estilhaços um pedaço do dique, até que não restou nada dele. Nem um tronco, nem um estilhaço, nem uma casca. 

Tudo havia sido desfeito a canhonaços pelo encouraçado. E os jacarés, mergulhados na água, apenas com os olhos e o nariz de fora, viram passar o barco
de guerra, apitando à toda força.

Então os jacarés saíram da água e disseram:

- Façamos outro dique muito maior do que o outro.

E naquela mesma tarde e naquela noite fizeram outro dique, com troncos imensos. Depois se deitaram para dormir, cansadíssimos, e ainda estavam dormindo no dia seguinte quando o barco de guerra chegou outra vez, e o bote se aproximou do dique.

- Ei, jacarés! - gritou o oficial.

- O que há? - responderam os jacarés.

- Tirem esse outro dique.

- Não vamos tirar!

- Vamos desfazê-lo a canhonaços, como ao outro!...

- Desfaçam... Se forem capazes!

E falavam assim com orgulho porque estavam certos de que seu novo dique não poderia ser desfeito nem por todos os canhões do mundo.

Mas um tempo depois o barco voltou a encher-se de fumaça, e com um horrível estampido a bala explodiu no meio do dique, porque desta vez haviam atirado com granada. A granada explodiu contra os troncos, fez pular, despedaçou, reduziu as enormes vigas a estilhaços. A segunda explodiu ao lado da primeira e outro pedaço do dique voou pelo ar. E assim foram desfazendo o dique. E não restou nada do dique; nada, nada. O barco de guerra passou então diante dos jacarés, e os homens zombaram deles tapando a boca.

- Bem - disseram então os jacarés, saindo da água. - Vamos morrer todos, porque  o barco vai passar sempre e os peixes não voltarão.

E estavam tristes, porque os jacarés pequeninos se queixavam de fome. O velho jacaré disse então:

- Ainda temos uma esperança de nos salvar. Vamos ver o Surubi. Eu fiz a viagem com ele quando fui até o mar, e tem um torpedo. Ele viu um combate entre dois barco de guerra, e trouxe até aqui um torpedo que não explodiu. Vamos pedi-lo, e embora esteja muito aborrecido conosco, os jacarés, tem bom coração e não vai querer que morramos todos.

O fato é que antes, muitos anos antes, os jacarés haviam comido um sobrinhozinho do Surubi, e este não quis mais ter relações com os jacarés. Mas apesar de tudo foram correndo para ver o Surubi, que vivia em uma imensa gruta na margem do rio Paraná e dormia sempre ao lado de seu torpedo. Há Surubis que têm até dois metros de comprimento e o dono do torpedo era um desses.

- Ei, Surubi - gritaram todos os jacarés da entrada da gruta, sem se atrever a entrar por causa daquele assunto do sobrinhozinho.

- Quem me chama? - respondeu o Surubi.

– Somos nós, os jacarés!

- Não tenho nem quero ter relações com vocês - respondeu o Surubi, de mau humor.

Então o velho jacaré avançou um pouco na gruta e disse:

- Sou eu, Surubi! Sou teu amigo, o jacaré que fez contigo a viagem até o mar! 

Ao ouvir aquela voz conhecida, o Surubi saiu da gruta.

- Ah, eu não havia te reconhecido! - disse carinhosamente a seu velho amigo. – O que você quer?

- Viemos para te pedir o torpedo. Há um barco de guerra que passa pelo nosso rio e espanta os peixes. É um barco de guerra, um encouraçado. Fizemos um dique, e o levou a pique. Fizemos outro, e também o levou a pique. Os peixes foram embora, e nós morreremos de fome. Dê-nos o torpedo, e o levaremos a pique.

O Surubi, ao ouvir isso, pensou um longo tempo e depois disse:

- Está bem; eu lhes emprestarei o torpedo, embora sempre me lembre do que fizeram com o filho do meu irmão. Quem sabe fazer o torpedo explodir?

Nenhum sabia, e todos se calaram.

- Está bem - disse o Surubi, com orgulho -, eu o farei explodir. Eu sei fazer isso. 

Organizaram então a viagem. Todos os jacarés se amarram uns aos outros; da cauda de um ao pescoço do outro; da cauda deste ao pescoço daquele, formando, assim, uma longa corrente de jacarés que tinha mais de uma quadra. O imenso Surubi empurrou o torpedo até a corrente e se colocou debaixo dele, sustentando-o sobre o lombo para que flutuasse. E como as lianas com que os jacarés estavam atados um atrás do outro haviam sido concluídas, o Surubi se agarrou com os dentes na cauda do último jacaré e assim empreenderam a marcha. O Surubi sustentava o torpedo e os jacarés puxavam, correndo pela costa. Subiam, desciam, saltavam sobre as pedras, sempre correndo e arrastando o torpedo, que levantava ondas como um barco em razão da velocidade da corrida. 

Na manhã seguinte, bem cedo, chegaram ao lugar onde haviam construído seu último dique, e começaram em seguida a fazer outro, mas muito mais forte do que os anteriores, porque, aconselhados pelo Surubi,  colocaram os troncos bem juntos, um ao lado do outro. Era um dique realmente  formidável.

Fazia apenas uma hora que haviam acabado de colocar o último tronco do dique quando o barco de guerra apareceu outra vez, e o bote com o oficial e oito marinheiros se aproximou de novo do dique. Os jacarés treparam então pelos troncos e assomaram a cabeça do outro lado.

- Ei, jacarés! - gritou o oficial.

- O que há? - responderam os jacarés.

- Outra vez o dique?

- Sim, outra vez!

- Tirem esse dique!

- Nunca!

- Não vão tirá-lo? 

– Não.

- Bem, então ouçam - disse o oficial. - Vamos desfazer esse dique, e para que não queiram fazer outro vamos desfazer depois vocês, a canhonaços. Não vai restar um único vivo, nem grande, nem pequeno, nem fraco, nem jovem, nem velho, como esse  velhíssimo jacaré que vejo ali, e que não tem mais do que dois dentes nos costados da boca.

Ao ver que o oficial falava e zombava dele, o jacaré sábio e velho lhe disse:

- É verdade que não me restam mais do que poucos dentes, e alguns estão quebrados. Mas você sabe o que estes dentes vão comer amanhã? - acrescentou, abrindo sua boca imensa.

- O que vão comer? Diga - responderam os marinheiros.

- O oficialzinho - disse o jacaré, e desceu depressa de seu tronco. 

Enquanto isso, o Surubi havia colocado seu torpedo bem no meio do dique, ordenando a quatro jacarés que o segurassem com cuidado e o afundassem na água até que ele os avisasse. Assim fizeram. Em seguida, os demais jacarés afundaram por sua vez perto da margem, deixando apenas o nariz e os olhos fora da água. O Surubi afundou ao lado de seu torpedo.

De repente, o barco de guerra se encheu de fumaça e lançou o primeiro canhonaço contra o dique. A granada explodiu exatamente no centro do dique, fazendo voar em mil pedaços dez ou 12 troncos.

Mas o Surubi estava alerta, e assim que o buraco foi aberto no dique gritou para os jacarés que estavam sob a água sustentando o torpedo:

- Soltem o torpedo, rápido, soltem! Os jacarés soltaram, e o torpedo veio à flor da água.

Em menos tempo do que se necessita para contá-lo, o Surubi pôs o torpedo bem no centro da brecha que havia sido aberta, fazendo mira com um único olho e, colocando em movimento o mecanismo do torpedo, lançou-o contra o barco.

O torpedo já chegava ao barco, e os homens que estavam nele o avistaram: quer dizer, viram o redemoinho que um torpedo faz na água. Todos deram um grande grito de medo e quiseram mover o encouraçado para que o torpedo não o tocasse. Mas era tarde; o torpedo chegou, chocou-se com o imenso barco bem no centro e explodiu.

Não é possível dar-se conta do terrível ruído que o torpedo fez ao explodir. Explodiu e partiu o barco em 15 mil pedaços; lançou pelo ar, a quadras e quadras de distância, chaminés, máquinas, canhões, lanchas, tudo.

Os jacarés deram um grito de triunfo e correram como loucos para o dique. Dali viram passar pelo buraco aberto pela granada os homens mortos, feridos e alguns vivos que a corrente do rio arrastava.

Treparam amontoados nos troncos que restavam em ambos os lados da brecha e, quando os homens passaram ali, zombaram deles tapando a boca com as patas. 

Não quiseram comer nenhum homem, embora o merecessem. Só quando passou um que  tinha galões de ouro no uniforme e estava vivo, o velho jacaré se lançou de um salto na água e tac, comeu-o com dois golpes de boca.

- Quem é esse? - perguntou um jacarezinho ignorante.

- É o oficial - respondeu-lhe o Surubi. - Meu velho amigo havia lhe prometido que o comeria, e comeu.

Os jacarés tiraram o resto do dique, que não servia mais para nada, já que nenhum barco voltaria a passar por ali. O Surubi, que havia se enamorado do cinturão e dos cordões do oficial, pediu que lhe fossem dados de presente, e teve de arrancá-los de entre os dentes do velho jacaré, pois haviam ficado enredados ali. O Surubi vestiu o cinturão, fechando-o sob as nadadeiras, e prendeu os cordões da espada nas extremidades de seus grandes bigodes. Como a pele do Surubi é muito bonita, e as manchas escuras que tem se parecem com as de uma víbora, o Surubi nadou durante uma hora, passando e repassando diante dos jacarés, que o admiravam com a boca aberta.

Os jacarés o acompanharam depois até sua gruta e lhe agradeceram uma infinidade de vezes. Voltaram depois à sua paragem. Os peixes também voltaram, os jacarés viveram e ainda vivem muito felizes, porque ao fim acabaram se acostumando a ver passar vapores e barcos que levam laranjas.

Mas não querem saber nada de barcos de guerra.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

HORÁCIO SILVESTRE QUIROGA FORTEZA foi um brilhante escritor uruguaio, considerado o maior contista da América Latina. Sua vida dramática e profundamente trágica moldou uma obra focada na violência, no horror e na brutal luta humana contra a natureza selvagem. Nasceu em 1878, em Salto/Uruguai e faleceu em 1937 (aos 58 anos), em Buenos Aires/Argentina. Ingeriu cianeto no hospital após descobrir que sofria de um câncer gástrico avançado. Quiroga não viveu apenas da literatura e exerceu ocupações muito variadas, como Professor de línguas e literatura em colégios de Buenos Aires; Fotógrafo oficial em uma expedição científica à selva do Chaco; Juiz de Paz e oficial de registro civil na região de Misiones; Juiz e funcionário consular no Consulado do Uruguai na Argentina; Agricultor, marceneiro e inventor amador na selva (fabricava carvão e destilava licores).
Sua trajetória na escrita foi dividida em duas fases nítidas:
1. Modernismo: No começo, influenciado pela poesia francesa e hispano-americana, ajudou a fundar o Consistorio del Gay Saber (um laboratório literário em Montevidéu) e publicou poemas sob forte influência modernista.
2. Realismo Psicológico, Fantástico e Regional: Após matar acidentalmente seu melhor amigo (Federico Ferrando) ao limpar uma pistola em 1902, mudou-se de vez para a Argentina. Abandonou a poesia e focou no conto curto, unindo a precisão narrativa de Edgar Allan Poe e Guy de Maupassant ao cenário realista e implacável da floresta tropical sul-americana.
Quiroga não pertenceu a academias formais de letras (como a Academia Argentina de Letras ou agremiações similares). Ele era avesso ao ambiente acadêmico tradicional, preferindo fundar seus próprios círculos literários e boêmios, como a Sociedad de Anfictionis e o lendário Anakreon. Não recebeu grandes prêmios literários oficiais em vida, pois o sistema de premiações estruturadas da América Latina ainda estava engatinhando. Ele obteve o reconhecimento por meio da aclamação crítica na imprensa e do sucesso comercial de suas coletâneas.
Principais Livros Publicados: Los Arrecifes de Coral (1901) – Poesia; El Crimen del Otro (1904) – Contos de terror psicológico; Los Perseguidos (1905) – Novela curta sobre loucura humana; Cuentos de Amor de Locura y de Muerte (1917) – Sua obra-prima absoluta; Cuentos de la Selva (1918) – Fábulas infantis focadas no convívio humano com os animais da mata; El Salvaje (1920) – Coletânea de contos; El Desierto (1924) – Contos focados no isolamento geográfico; Los Desterrados (1926) – Histórias cruas sobre os tipos humanos que habitavam Misiones.
Horácio Quiroga é considerado o pai do conto moderno latino-americano. Precursor da era de ouro, abriu as portas e pavimentou o caminho técnico para gigantes que vieram depois, como Jorge Luis Borges e Júlio Cortázar. Escreveu o famoso "Decálogo do Perfeito Contista", onde fixou as regras de ouro para o gênero: concisão, economia de palavras e foco total no efeito final da história. Introduziu o elemento insólito no cotidiano da selva muito antes do Boom Latino-Americano. Retirou o romantismo da fatalidade. Para Quiroga, a morte não é um conceito metafísico; ela nasce de erros simples, acidentes de caça, picadas de cobras ou febres tropicais.

Fontes:
Horácio Quiroga. Cuentos de la Selva. Publicado em 1918. A Primeira publicação foi na revista literária argentina Fray Mocho, em Buenos Aires, 19/05/1916.
Biografia: Academia Brasileira de Letras; Wikipedia; Quindim; Enciclopedia Britannica; Revista Bula; Humanidades, etc.

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 10)


Aqui estão frases de grandes escritores sobre a arte e o ato de escrever:

Clarice Lispector: 
"Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível."

Machado de Assis: 
"A palavra foi feita para dizer o que o espírito sente; quando não diz tudo, diz o que pode."

Rubem Alves: 
"Escrever é um ato de amor. É a tentativa de deixar um pedaço de nós no coração do outro."

Carlos Drummond de Andrade: 
"Escrever é procurar entender, é dar a conhecer aos outros o que se descobriu.”

Toni Morrison: 
"Se há um livro que você quer ler, mas ele ainda não foi escrito, você precisa escrevê-lo.”

Ernest Hemingway: 
"Não há nada de especial em escrever. Basta sentar-se à máquina de escrever e sangrar."

Stephen King: 
"Escrever é telepatia humana."

Maya Angelou: 
"Não há agonia maior do que carregar uma história não contada dentro de você."

Margaret Atwood: 
"Uma palavra após a outra, após a outra, é poder."

Saul Bellow: 
"Você nunca escreve bem a menos que escreva pelo seu próprio bem."

Gabriel García Márquez (Colômbia): 
"O escritor escreve para que o queiram mais, e isso é no fundo uma grande necessidade de afeto."

Jorge Luis Borges (Argentina): 
"Escrever é apenas um modo lento de sonhar."

Isabel Allende (Chile): 
"A escrita é uma longa introspecção, é uma viagem para as cavernas mais escuras da consciência."

Virginia Woolf (Inglaterra): 
"Cada segredo da alma de um escritor, cada experiência de sua vida, cada qualidade de sua mente está escrita em larga escala em suas obras."

José Saramago (Portugal): 
"Escrever é um ato de interrogação permanente."

Franz Kafka (Tchéquia): 
"Escrever é uma forma de oração."

Essas frases refletem a reflexão e a visão sobre a escrita, encorajando novos escritores a explorar sua voz e suas experiências.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra, Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011. Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por mais de 10 anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. Professor de trovas e escrita criativa. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo “Euclides da Cunha”, na Academia de Letras, em Berna/Suiça; título Magnus Magister em Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc.
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona. Em Portugal e Angola, suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos, Florilégio de Trovas e Crestomatia de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.
======================================