sábado, 7 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 151 *


Poema de
WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ
Irapuato/ Guanajuato/ México

Letras de fogo

"A palavra não passa de um grão,
mas em chamas."
(OCTAVIO PAZ)

Fim das lágrimas
em uma mesa de café
um caderno de versos.

Poesia, refúgio.

A frase como uma estrela cadente
fantasmas interiores vivos
mergulham nas profundezas.

Cuidado com as palavras!

Elas não têm compostura,
as letras se desfazem
metamorfoseando-se
em uma adaga de fogo. 
(tradução de José Feldman)
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Poema de
RICARDO REIS
(Fernando Pessoa)
Lisboa/Portugal, 1888 – 1935

Para ser grande, sê inteiro: nada
teu exagera ou exclui. 
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és 
no mínimo que fazes. 
Assim em cada lago a lua toda 
brilha, porque alta vive.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Prisioneiro

Você me seduz à liberdade.
A liberdade
é o remédio da alma,
a felicidade
que acalma...
Cada momento
é um querer novo,
um sentir diferente,
um eterno
encantamento.
Estar com você
é rodopiar
no carrossel da vida,
fugindo do presente
em desabalada
corrida.

Você me seduz
à saudade.
A saudade
é o bálsamo
do coração,
o remédio
que cura
a solidão...
Por isso,
estar com você
é como despencar
de uma montanha russa,
em extremo gesto
de loucura
e incontrolável sensação.

Você me seduz
ao amor...
O amor é
o bem mais perfeito
que o Criador concebeu
e colocou
aqui no meu peito...
Assim,
estar com você
é como se jogar
de um prédio alto,
sem medo,
sem amarras,
num voo cego:
a verdadeira
viagem sem fim...
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Soneto de
MÁRIO ZAMATARO
Curitiba/PR

Depois de tudo

Depois do verso, o reverso.
Depois do amor, essa dor.
Depois do imerso, o disperso.
Mas tenho a flor de compor!

E do reverso, outro verso.
E dessa dor, meu amor.
Disperso o resto onde imerso
usei compor desta flor.

Reviravoltas em série
hão de cumprir o destino;
hão de espalhar desatino,
em pleno sol de intempérie.

E só depois disso tudo
hei de saber se me iludo.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira do Mato Dentro/MG (1902 – 1987) Rio de Janeiro/RJ

Aula de Português

A linguagem
na ponta da língua
tão fácil de falar
e de entender. A linguagem
na superfície estrelada de letras,
sabe lá o que ela quer dizer?
Professor Carlos Góis, ele é quem sabe,
e vai desmatando
o amazonas de minha ignorância.
Figuras de gramática, equipáticas,
atropelam-me, aturdem-me, sequestram-me.
Já esqueci a língua em que comia,
em que pedia para ir lá fora,
em que levava e dava pontapé,
a língua, breve língua entrecortada
do namoro com a prima.
O português são dois; o outro, mistério.
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Trova Popular

Triste durmo, triste acordo,
triste torno a amanhecer.
Pra mim tudo é tristeza,
serei triste até morrer.
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Soneto de
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Olhos infantis

Quando o olhar de uma criança denuncia 
O abandono, a solidão e o sofrimento, 
Torna-se inútil transformar esse momento
Num sentimento que alguém chame de poesia.

Quando o amor passa a ser só filosofia, 
À revelia do que sinta um coração,
Por ironia, há quem nem dê muita atenção
A esse olhar que tem a dor por moradia.

Mas no instante em que eu me torno esse menino
Há nos meus olhos, esse olhar tão pequenino,
Que apesar da dor, conserva a esperança

De que o mundo tenha olhos infantis
E que se alguém pensa em tornar alguém feliz,
Veja o que diz o coração de uma criança.
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Poema de
CLEVANE PESSOA
Belo Horizonte/MG

Fogo e serragem

Às vezes, sinto-me sem vontade
de tudo e de nada.
Amorfa,
moldo-me aos moldes
dos desejos alheios.
A dor, camuflada.
Os gemidos, sufocados.
Agonizo, molhada:
serragem
Às vezes,
embaixo de cinzas,
crepito, aqueço-me,
e em labaredas, refaço a luz
antiga,
subitamente.
Ardo,
em cadeia,
acendo tudo mais
que há por perto.
Incendeio, fogo em jogo
lúdico, atroz... 
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Soneto de
MANUEL BANDEIRA
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Voz de fora

    Como da copa verde uma folha caída
    Treme e deriva à flor do arroio fugidio,
    Deixa-te assim também derivar pela vida,
    Que é como um largo, ondeante e misterioso rio...

    Até que te surpreenda a carne dolorida
    Aquela sensação final de eterno frio,
    Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
    E enche-te de canções, ó coração vazio!

    A asa do vento esflora as camélias e as rosas.
    Toda a paisagem canta. E das moitas cheirosas
    O aroma dos mirtais sobe nos céus escampos.

    Vai beber o pleno ar... E enquanto lá repousas,
    Esquece as mágoas vãs na poesia dos campos
    E deixa transfundir-te, alma, na alma das cousas... 
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Poema de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

A Ampulheta 

O hoje é o agora presente no tempo... 
Que escorre fatal entre os dedos da vida.
É sutil como a alma, fugaz como o vento,
E veloz e lento como a triste partida...

O amanhã; esperança e futuro do tempo,
que demora ou apressa a sua chegada;
Transparente ou difuso no encadeamento,
Auspicioso ou negro, tal a luz apagada...

O sino que toca, afugenta o dia...
Levando-o do ontem à posteridade
Pela noite que invade na pura magia,
deixando pra gente a doída saudade...

Funde-se tudo na eternidade,
e não apenas na onírica poesia...
A fina areia silenciosa invade
Na cápsula inversa: eterna liturgia.
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Dobradinha Poética (trova e soneto) de
LUCÍLIA A. T. DECARLI
Bandeirantes/PR

Se nada ganhas...

Não deves desanimar
ante uma escura jornada,
pois poderás vislumbrar
uma luz no fim da estrada!…

Se a trajetória é feita só de espera,
se recusaste a dor da despedida,
se o despontar do inverno te exaspera,
se a primavera não é mais florida...

Se o vendaval, cortante, ainda impera,
se a tempestade insiste, intrometida,
se sob teus pés abriu-se uma cratera,
se a solidão marcou a tua vida...

Se o céu, acima, está sempre nublado,
se a terra, em volta, é o caos indesejado,
se o sofrimento veio a ti, desnudo...

Caminha firme, sem desesperança,
vai renovando em ti calma e confiança.
— Se o ganho é nada, teu querer é tudo!...
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Poema de
ÓGUI LOURENÇO MAURI
Catanduva/SP

A voz do vento

Nesta solidão, pude enfim perceber
Que a distância alimenta meu pensamento.
Sei também que é ela que dá voz ao vento
Quando ele vem forte em meu rosto bater.
Eu sei que é tua voz que o vento conduz,
Traz teu perfume e, de teus olhos, a luz;
Eólica injeção de amor pro meu ser.

Esta brisa sonora que tem teu cheiro,
Toque afrodisíaco, que revigora;
Teu calor chega e a meu tato se incorpora,
Eu sinto ao vento teu corpo por inteiro...
Quando o sopro soa forte em meus ouvidos,
Mais o amor por ti desperta em meus sentidos,
Num quadro de excitação já rotineiro.

Um amor aerívoro, de abstinência,
Em que procuro teus olhos mas não vejo,
Não posso te abraçar no auge do desejo,
Preciso de uma reversão de emergência...
Apesar do vento que me liga a ti,
Pede meu coração tua presença aqui...
E que seja para sempre, com urgência!
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Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

Tudo o que sou é como se nada fosse
(Maria da Glória Oliveira Cardoso in "O Meu Vestido Cor de Rosa", p. 68)

“Tudo o que sou é como se nada fosse”
Neste eterno correr de tantos anos
E com ritos banais, de tão profanos
Cremos fazer da vida um limão doce.

Uma vontade louca é que nos trouxe
Fome de sermos mais do que uns humanos
Mas por serem mortais e tão mundanos
A glória desses sonhos acabou-se.

Mergulho na insondável vacuidade
Que me esvai como atroz enfermidade
E eu sofro-a, venenosa como cobra.

É tão pequeno e pobre o meu viver
Que no dia final, quando eu morrer
Tudo de mim se acaba e nada sobra.
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Hino de 
Campina Grande/PB

Venturosa Campina querida,
Ó cidade que amo e venero!
O teu povo o progresso expande,
És na terra o bem que mais quero!
O teu céu sempre azul cor de anil,
Tuas serras de verde vestidas
Salpicadas com o ouro do sol,
Ou com a hóstia dos brancos luares!

Eterno poema
De amor à beleza,
Ó recanto abençoado do Brasil!
Onde o Cruzeiro do Sul resplandece.
Capital do trabalho e da paz!

Oficina de ilustres varões,
Canaã de leais forasteiros,
És memória de índios valentes.
E singelos e alegres tropeiros!
Tua glória revive, Campina,
Na imagem dos homens audazes,
Aguerridos heróis de legendas
Que marcaram as tuas fronteiras!

Eterno poema
De amor à beleza,
Ó recanto abençoado do Brasil!
Onde o Cruzeiro do Sul resplandece,
Capital do trabalho e da paz!
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Poema de
SONIA CARDOSO
Curitiba/PR

Retinografia 

A névoa é densa 
Bastões longos e finos 
- Fixe o xis 
Laranjas e citrinos sobem 
E descem vertiginosos 
Aumentando a náusea 
Repentinamente a sensação 
Cessa dando lugar ao 
Caleidoscópio multicor 
Alabares delgados entopem 
As narinas em prata e rubi 
E as estrelas vem ao meu encontro.
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O Sol e as rãs

Do rei dos astros proteção, socorros
Tinham do lodo as filhas.
Nem guerras, nem pobreza,
Nem mil outros desastres
Perto nem longe à tal nação chegavam;
Nação, que em mil lameiros,
Seus poderes blasona*.
As rainhas dos charcos... (Das rãs falo;
Que custa às coisas dar honroso nome?)
Contra o seu benfeitor conluios tramam,
Fazem-se insuportáveis.
A imprudência, com o orgulho, e o esquecimento
Dos benefícios — filhos da aura próspera —
Impeliram os brados
Desse bando importuno.
Ninguém dormia em paz. Se dessem crédito
Ao que elas murmuravam, já teriam
Aos grandes, aos pequenos rebelado,
Com os seus gritos, contra o olho do universo.
O Sol, ao que diziam,
Ia dar cabo de tudo;
«Importa armar-se, e presto
Levantar grosso exército.»
Mal dava um passo o Sol, já despediam
Grasnantes embaixadas.
A crê-las, todo o mundo
E a máquina redonda
Rodam sobre interesses
De quatro pífios charcos.
Dura ainda hoje essa queixa temerária.
Calar-se as rãs, não murmurarem tanto,
Contudo, lhes cumpria:
Que lhe fará sentir o Sol, se ele se agasta:
E mui bem poderia arrepender-se
A aquática república.
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* blasona = ostenta.
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Mensagem na Garrafa 150 = As Duas Vizinhas


Autor Anônimo
As Duas Vizinhas

Havia duas vizinhas que viviam em pé de guerra. Não podiam se encontrar na rua que era briga na certa. 

Depois de um tempo, Dona Maria descobriu o verdadeiro valor da amizade e resolveu que iria fazer as pazes com Dona Clotilde.

Ao se encontrarem na rua, muito humildemente, disse dona Maria:

- Minha querida Clotilde, já estávamos nessa desavença há anos e sem nenhum motivo aparente. Estou propondo para você que façamos as pazes e vivamos como duas boas e velhas amigas.

Dona Clotilde, na hora, estranhou a atitude da velha rival e disse que viria pensar no caso.

Pelo caminho foi matutando...

- Essa dona Maria não me engana, está querendo me aprontar alguma coisa e eu não vou deixar barato. Vou mandar-lhe um presente para ver sua reação. 

Chegando em casa preparou uma bela cesta de presentes, cobrindo-a com um lindo papel, mas encheu-a de esterco de vaca.

- Eu adoraria ver a cara da dona Maria ao receber esse "maravilhoso" presente. Vamos ver se ela vai gostar dessa.

Mandou a empregada levar o presente à casa da rival, com um bilhete:

- Aceito sua proposta de paz e para selarmos nosso compromisso, envio-te este lindo presente.

Dona Maria estranhou o presente, mas não se exaltou e pensou:

- Que ela está propondo com isso? Não estávamos fazendo as pazes? Bem deixa pra lá!

Alguns dias depois dona Clotilde atende a porta e recebe uma linda cesta de presentes, coberta com um belo papel.

- É a vingança daquela asquerosa da Maria. Que será que ela me aprontou?

Qual não foi sua surpresa ao abrir a cesta e ver um lindo arranjo das mais belas flores que podiam existir num jardim, e um cartão com a seguinte mensagem:

- Estas flores é o que te ofereço em prova da minha amizade. Foram cultivadas com o esterco que você me enviou e que proporcionou excelente adubo para meu jardim. 

Afinal, cada um dá o que tem em abundância em sua vida.

Fontes: 
Lendas para Reflexão
Imagem criada com Microsoft Bing

Irmãos Grimm (Os meninos de ouro)


Havia, certa vez, um homem e uma mulher muito pobres, que nada possuíam além de uma choupana e apenas se alimentavam com o que ele pescava. 

Um dia, ao tirar a rede da água, o pescador encontrou um peixe todo de ouro. Enquanto o olhava, o peixe, para maior surpresa sua, começou a falar:

- Escuta, pescador! Se me devolveres à água, transformarei tua choupana num palácio maravilhoso.

- Que  me adianta um palácio - respondeu-lhe o homem - se nada tenho para comer?

E o peixe tornou a falar:

- Tratarei disso, também. No palácio haverá um armário e, sempre que o abrires, estará cheio de pratos com manjares deliciosos, tantos quantos desejares.

- Se assim for - disse o  homem - poderei atender teu pedido.

- Bem - continuou o peixe - mas há uma condição. A ninguém neste mundo, seja quem for, poderás  contar de onde veio a fortuna. Se disseres uma só palavra, tudo  desaparecerá.

O homem atirou o peixe maravilhoso na água e voltou para casa. E eis que, onde antes se erguia sua choupana, havia agora, um grande  palácio. 

O pescador arregalou os olhos de espanto, e, ao entrar, viu sua mulher toda enfeitada, com vestido novo, sentada num salão magnífico! Ela indagou, radiante:

- Como aconteceu isso, marido? Confesso que tudo me agrada muitíssimo.

- Sim - respondeu-lhe o homem - e a mim também; mas estou com fome. Dá-me algo para comer.

- Nada tenho - afirmou ela - e nada consigo encontrar na nova casa.

- Que isso não seja empecilho! - exclamou o homem. - Vejo ali um armário grande . Abre-o.

Ela abriu o móvel e apareceram bolo, carne, frutas e vinho; tudo tão apetitoso que era um gosto ver.

- Coração, que mais podes desejar? - exclamou, alegremente, a mulher.

Sentaram-se e comeram e beberam à vontade. depois de satisfeitos, ela indagou:

- Mas de onde vem toda essa fartura, marido?

- Não me perguntes - respondeu ele. – Não posso dizer-te. Se eu te disser, nós perderemos tudo.

- Bem - concordou a mulher. - Se não devo saber, não insisto.

Mas só dizia isso da boca para fora; daí por diante tanto insistiu e incomodou o marido que este, perdendo a paciência, acabou revelando que tudo aquilo lhes vinha de um peixe de ouro, prodigioso, que ele tinha pescado e ao qual devolvera a liberdade.

Mal terminou de pronunciar as últimas palavras, o belo palácio, com seu armário e tudo o mais, desapareceu e os dois se viram, novamente, na velha choupana de pescadores.

O homem não teve outro remédio senão prosseguir na sua profissão, a pesca. mas a sorte não o abandonava e ele tornou a apanhar o peixe de ouro.

- Escuta! - disse este. - Se me jogares outra vez à água, eu te devolvo o palácio com o armário cheio de assados e cozidos; mas deves ficar firme e não revelar de que modo isso aconteceu; caso contrário, perderás tudo.

- Terei toda a cautela! - prometeu o pescador e jogou o peixe à água.

Quando chegou em casa, encontrou tudo, de novo, em grande esplendor, e sua  mulher encantada com a sorte. Mas a curiosidade não a deixava sossegada e, passados alguns dias, já estava ela indagando, outra vez, como acontecera aquilo e a quem deviam aquela felicidade. 

Por algum tempo o homem manteve firme, mas, por fim, exasperado com a insistência da mulher, não se conteve e revelou o segredo.

No mesmo instante o palácio, desapareceu e ambos se viram, novamente, dentro da velha choupana.

- Estás vendo?! - gritou o homem.- Agora tornaremos a passar fome!

- Ora exclamou a mulher. - Prefiro não ter riquezas se não posso saber de onde vem elas!

O homem voltou à pesca e, passado algum tempo, o destino assim havia disposto, apanhou o peixe de ouro pela terceira vez.

- Escuta aqui! - falou o peixe.- Vejo que hei de cair sempre em tuas mãos. Leva-me para tua casa e corta-me em seis pedaços. Dois deles darás à tua esposa para comer; outros dois a teu cavalo e os restantes dois, enterrarás no quintal. de todos eles hás de conseguir coisas que nem imaginas!

O homem levou o peixe para casa e fez como lhe havia ordenado. pouco depois aconteceu que, dos dois pedaços plantados no quintal, brotaram dois lírios de ouro; a égua teve dois potrinhos de ouro e a mulher deu à luz dois meninos, também de ouro.

As crianças cresceram, tornando-se uns belos rapazes e, como eles os lírios e potros também se desenvolveram. Certo dia os dois jovens disseram:

- Pai, vamos montar nossos cavalos de ouro e sair a correr mundo.

O pescador ficou muito triste e lhes respondeu:

- Que será de mim se forem embora e eu ficar sem notícias de vocês?

- Os dois lírios de ouro ficarão aqui- disseram os rapazes. - Por meio deles saberás como passamos; enquanto estiverem viçosos, estaremos gozando de boa saúde; se murcharem, é que estamos doentes e, se caírem do galho , é sinal de que morremos.

Puseram-se a caminho e chegaram a uma hospedaria cheia de gente. Quando viram os jovens de ouro, começaram a rir e divertir-se à custa deles. Um dos irmãos, ao ouvir  as pilhérias, envergonhou-se e, desistindo de correr mundo, voltou à casa paterna. O outro, porém, seguiu adiante e chegou a uma floresta imensa. 

Dispunha-se a passar por ela, quando as pessoas do lugar lhe avisaram:

- Não te aventures a atravessar essa floresta. Está cheia de bandidos que te atacarão e, se virem que és de ouro e teu cavalo também, na certa liquidarão contigo.

O rapaz, no entanto, não se deixou amedrontar e disse:

- Preciso passar pela floresta e passarei.

Adquiriu umas peles de urso, com as quais se cobriu e à sua montaria, de modo que nada se enxergasse. Assim disfarçado, entrou, confiante, na floresta. Tendo cavalgado por algum tempo, ouviu um rumor nos arbustos e murmúrio de vozes. Alguém disse:

- Aí vem um homem!

Outro respondeu:

- Deixa que passe. É um caçador de ursos, pobre e tão pelado como rato de igreja. Que poderíamos tirar dele,

E assim o moço de ouro atravessou o bosque são e salvo.

Certo dia chegou a uma aldeia, onde avistou uma jovem, tão bela que achou não ser possível haver outra mais linda no mundo inteiro. E como se sentisse grandemente atraído por ela, dirigiu-se a seu encontro e lhe falou:

- Amo-te de todo coração. Queres ser minha esposa?

A moça, que também gostou dele, respondeu aceitando seu pedido.

- Sim, quero  ser tua esposa e te serei fiel a vida toda.

Ao se casarem, quando estavam em plena festa, chegou o pai da noiva que, ao ver sua filha casando, indagou:

- Onde está o noivo?

Mostraram-lhe o jovem de ouro que continuava coberto de peles de urso. O homem ficou furioso e exclamou:

- Não permitireis que minha filha case com um caçador de ursos!

E, investindo contra o rapaz, quis matá-lo. Sua filha, porém, se desfez em súplicas:

- Ele é meu marido e eu o quero de todo coração.

Finalmente conseguiu apaziguar o pai. Mas este não pode esquecer sua preocupação e, na manhã seguinte, levantou-se de madrugada, disposto a saber se o genro era, de fato, um mendigo. 

Entrou no quarto e viu, então, um jovem belíssimo, todo de ouro, deitado na cama e as peles de urso espalhadas pelo chão. Enquanto se retirava pensou: " Que sorte ter reprimido minha cólera; teria cometido uma grande injustiça."

Enquanto isso, o jovem sonhou que andava caçando um cervo magnífico e, ao acordar, disse à sua esposa:

- Vou caçar na floresta.

Apreensiva, ela lhe implorou que ficasse a seu lado.

- Facilmente poderá acontecer-te uma desgraça! - disse.

Ele, porém, insistiu:

- Devo ir e irei.

Encaminhou-se para floresta e, pouco depois, descobriu, a certa distância, um cervo belíssimo, igual ao que vira em sonho. Fez pontaria para disparar a arma, mas o animal escapou. Lançou-se em sua perseguição, saltando valos e atravessando moitas, sem jamais cansar. Ao anoitecer, porém, o cervo desapareceu. Olhando em redor, o jovem avistou à sua frente uma casa pequenina onde vivia uma feiticeira. Bateu à porta e a velha apareceu, perguntando:

- Que procuras a esta hora da noite, em meio desta floresta imensa?

- Não viste um cervo? - indagou ele.

- Sim, - retrucou a velha - conheço bem o cervo.

Enquanto ela falava, um cãozinho, que também saíra da casa se pôs a ladrar, furiosamente, para o forasteiro.

- Cala-te, maldito cachorro - gritou o rapaz - se não queres que eu te dê um tiro.

Aí a velha gritou:

- Como? Pretendes matar meu cãozinho? - e, no mesmo instante, o transformou em pedra.

Em casa, sua esposa ficou esperando por ele em vão.

"Na certa - pensou ela - aconteceu o que eu receava e o que tanto vinha me pesando no coração!"

Quanto ao outro irmão, que ficara na casa do pai, e sempre observava os lírios de ouro, viu quando, de repente, um deles murchou.

- Meu Deus! - exclamou. - Aconteceu uma desgraça a meu irmão. Devo sair para ver se posso salvá-lo.

- Não vás- pediu-lhe o pai.- Que serás de mim se perco a ti também?

Mas o jovem lhe retrucou:

- É preciso que eu vá, e irei.

Montou seu cavalo de ouro, pôs-se a caminho e chegou ao bosque onde estava seu irmão, transformado em pedra. 

A feiticeira saiu da casa e o chamou, com a intenção de encantá-lo também. Mas  o rapaz gritou de longe:

- Se não devolves a vida a meu irmão, eu te mato a tiros, velha bruxa.

Embora a contragosto, a  velha tocou a pedra com os dedos e logo o rapaz recuperou a forma humana. Os dois jovens sentiram uma grande alegria ao se reverem e depois de se terem abraçado, saíram juntos do bosque. 

Um deles dirigiu-se à casa de sua esposa e o outro à de seu pai. Ao vê-lo chegar, o velho exclamou:

- Já sabia que havias salvo teu irmão, pois o lírio de ouro tornou a erguer-se e continuou com vida.

E, desse momento em diante, todos viveram contentes e felizes até ao fim de seus dias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, Jacob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fontes:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Grinalda Indígena * 4 *

  

JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

LENDA DO PINHEIRO E A PALMEIRA

Nas terras do sul, o destino,
traçou um encontro de luz,
um amor puro e divino,
que ao horizonte conduz.

Havia um jovem guerreiro,
valente e de forte presença,
andava no mato certeiro,
com alma de fé e de crença.

A moça de graça infinita,
era a índia mais faceira,
a joia da mata, a mais dita,
bela na vida inteira.

Amavam-se contra o vento,
em tribos de guerra e rancor,
guardavam o seu sentimento,
num mundo sem paz e sem cor.

O ódio de velhos caciques,
barrava o sagrado querer,
erguendo cruéis tabiques,
proibindo o amor de crescer.

Fugiram na noite calada,
buscando o refúgio do chão,
a alma por Tupã abraçada,
num só e fiel coração.

Mas antes que o dia surgisse,
o destino os veio buscar,
para que o tempo os unisse,
tiveram que se transformar.

Ele virou um gigante,
o Pinheiro de copa pro céu,
com espinhos no corpo, constante,
combatendo o vento e o véu.

A moça virou a Palmeira fagueira,
crescendo ao lado de seu grande amor.
Vivem abraçados na mata inteira,
vencendo o tempo, o medo e a dor.