segunda-feira, 11 de maio de 2026

José Feldman (A Ampulheta de Asfalto)


O asfalto de São Paulo, às seis da tarde, não é apenas chão; é um organismo vivo, febril e impaciente. No cruzamento da Avenida Paulista com a Consolação, o semáforo não é um equipamento de trânsito, mas um juiz implacável. Quando a luz muda do verde para o amarelo, o coração do motorista não pede cautela, ele exige um último esforço desesperado. E quando o vermelho finalmente se impõe, o que se vê não é o respeito à lei, mas o colapso de mil expectativas.

Dentro de um sedã prateado, com o ar-condicionado no máximo para abafar o mundo, estava Eufrazino. Para ele, aqueles noventa segundos de espera eram uma afronta pessoal do destino. Eufrazino era um homem de "objetivos". Ele não via ruas, via trajetos. Não via pessoas, via obstáculos. Suas mãos tamborilavam no volante em um ritmo de guerra, e seus olhos estavam fixos, hipnotizados, na lanterna traseira do carro à frente, esperando o milagre da luz verde.

Estava sofrendo da doença mais moderna de todas: a cegueira da chegada. Estava tão focado no "lá" que o "aqui" havia deixado de existir.

Enquanto bufava e conferia o relógio pela décima vez, a vida acontecia em alta definição ao seu redor, do lado de fora do vidro fumê.

A dois metros dele, no corredor entre as faixas, um entregador de aplicativo equilibrava a moto e a vida. O rapaz retirou o capacete por um instante para secar o suor e sorriu para uma foto de uma criança colada no painel da moto. Era um sorriso de cansaço, mas de uma doçura que faria qualquer trânsito parecer leve. Eufrazino não viu.

Na calçada, um senhor vendia paçocas. Fazia um truque de mágica simples com as moedas para entreter uma menina que esperava o ônibus com a mãe exausta. A menina gargalhava, um som que cortava o barulho dos escapamentos como um sino de cristal. Eufrazino, imerso em sua própria urgência, apenas praguejou mentalmente contra o "caos urbano".

Havia também o crepúsculo. O sol, entre os prédios de concreto, tingia o céu de um laranja impossível, transformando as vidraças em espelhos de fogo. Era um espetáculo gratuito, uma pausa poética no meio do caos. Mas para Eufrazino, o céu era apenas um pano de fundo irrelevante para o seu atraso inexistente.

A filosofia do sinal vermelho é cruel: quem tem pressa de chegar, já partiu antes mesmo de ir. Eufrazino estava fisicamente parado, mas sua mente já estava na reunião de amanhã, no jantar que ainda não fora servido, nas contas que ainda não haviam vencido. Ele perdia a única coisa que possuía de fato: o agora. Ao não olhar para o lado, não apenas ignorava o próximo; ignorava a si mesmo como parte do mundo. Ele era uma ilha de metal e nervos, isolada do fluxo da existência.

Finalmente, o vermelho cedeu. O verde brilhou como uma promessa de libertação. Ricardo acelerou com uma agressividade triunfante, deixando para trás o mágico da paçoca, o pai motociclista e o pôr do sol de fogo. Chegou em casa cinco minutos mais cedo. Mas, ao descer do carro, sentia um vazio estranho, um cansaço que não vinha do trabalho, mas da resistência constante à vida. Ele tinha corrido tanto para não perder tempo que acabou perdendo a experiência de estar vivo.

Moral:
A vida não acontece apenas nos destinos que traçamos, mas nas pausas que somos forçados a fazer. O sinal vermelho não é um atraso, é um convite: quem olha apenas para a luz que vai abrir, esquece que a beleza e a humanidade do mundo estão sempre estacionadas logo ali, ao lado da nossa janela. A pressa nos faz chegar mais rápido, mas a atenção nos faz chegar mais inteiros.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * * 
JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado, pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Marechal das Letras, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fontes:
José Feldman. Receitas de vida. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

David Mourão-Ferreira (Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa)


ALVORADA

E de súbito um corpo! Alvorada sombria,
alvorada nefasta envolta nuns cabelos…
Eram negros e vivos. Quem sofria,
dentro de mim, e assim tremia
só de vê-los?

Eram negros; e vivos como chamas.
Brilhavam, azulados, sob a chuva.
Brilhavam, azulados, como escamas
de sereia sombria, sob a chuva…

Veio cedo de mais a trovoada:
o vento me lembrou
de quem eu sou.
— Alvorada suspensa!, contemplada
por alguém que chegou a uma sacada
e à beira da varanda vacilou.
= = = = = = = = = 

CANTIGA

Todo o dia senti, bem funda, em mim,
a tortura do beijo que não demos:
lago sereno, preso num jardim,
saudoso dum nenhum sulcar de remos…
= = = = = = = = = 

EPIGRAMA PARA UMA DESPEDIDA

Pasmo de ainda murmurar «Bom dia!»,
depois de tudo quanto aconteceu.

Ó meu amor, a minha cobardia
foi afinal muito maior do que eu.
= = = = = = = = = 

EPIGRAMA PARA UMA SEGUNDA DESPEDIDA

Eis o que espanta: ainda nós sabemos
os gestos rituais de despedida!

E, tarde ou cedo, à noite adormecemos,
embora sem a alma adormecida.
= = = = = = = = = 

EPITÁFIO

Cada sorriso teu agora só desperta
este remorso vil que a minha vida tem:
— A tua alma estava à minha espera, aberta…
Repousei no teu corpo e não fui mais além.
= = = = = = = = = 

INSCRIÇÃO SOBRE AS ÁRVORES

A secreta viagem foi aquela
por entre estrelas verdes esboçada…

Chamei, a cada fruto, verde estrela.
Tombei, ébrio de estrelas, sobre a estrada…
= = = = = = = = = 

INSCRIÇÃO SOBRE AS ONDAS

Mal fora iniciada a secreta viagem,
um deus me segredou que eu não iria só.

Por isso a cada vulto os sentidos reagem,
supondo ser a luz que o deus me segredou.
= = = = = = = = = 

LÁPIDE

Sortílego castelo pardacento,
por onde as pombas ágeis se extasiam
em curvas que são delas, e do vento…

Castelo onde os teus gestos se mediam
pela graça que os deuses consentiam
às deusas que faziam seu tormento…
= = = = = = = = = 

MINUTO

O amor? Seria o fruto
trincado até mais não ser?
(Mas para lá do prazer
a Vida estava de luto…)

Fui plantar o coração
no infinito: uma flor…
(Mas para lá do fervor
a Vida gritou que não!)

O amor? Nem flor nem fruto.
(Tudo quanto em nós vibrara
parecia pronto a ceder…)

Foi apenas um minuto:
a fome intensa, tão rara!,
de ser criança, ou morrer…
= = = = = = = = = 

PAISAGEM

Desejei-te pinheiro à beira-mar
para fixar o teu perfil exato.

Desejei-te encerrada num retrato
para poder-te contemplar.

Desejei que tu fosses sombra e folhas
no limite sereno dessa praia.

E desejei: «Que nada me distraia
dos horizontes que tu olhas!»

Mas frágil e humano grão de areia
não me detive à tua sombra esguia.

(Insatisfeito, um corpo rodopia
na solidão que te rodeia.)
= = = = = = = = = 

PARAÍSO

Teu corpo, agora tão perto,
é brisa que me consente
na aridez do meu deserto
a graça duma nascente…

Logo a nascente permite
o florescer dum pomar…
(Eu amei-te — mas perdi-te
por começar a pensar…

Às simples evocações
dum possível paraíso,
logo em nossos corações
se delineia um sorriso…)

E teu corpo, inda mais perto,
é brisa que me desmente…
(Sob o sol do meu deserto,
alonga-se uma serpente.)
= = = = = = = = = 

TEORIA DAS MARÉS

Calidamente nua,
sob o vestido leve,
tua carne flutua
no desejo que teve.

Timidamente nua,
revelas, num olhar,
em minhas mãos, a lua
que te fez oscilar.
= = = = = = = = = 
Fontes:
David Mourão-Ferreira. Obra Poética [1948-1995]. Porto/Portugal: Porto Editora, 2019
Imagem criada por Jfeldman

Artur de Carvalho (Com Certeza)


Você já ouviu falar do Princípio da Incerteza?

Bem, vou tentar explicar aqui, em poucas linhas, uma coisa que cientistas ganhadores do prêmio Nobel de Física passaram a vida inteira para descobrir. A tarefa não é fácil, eu sei, nem digna deste pobre cronista, mas não custa nada tentar.

É o seguinte. O Princípio da Incerteza foi a conclusão a que chegaram alguns estudiosos da física quântica quando eles estavam lá, analisando o comportamento dos elétrons (lembra? elétrons, átomos, núcleos). Eles descobriram que não conseguiriam nunca saber onde é que uma determinada partícula estava num dado momento específico porque, para sabê-lo, era necessário tocar a partícula, tirando-a assim do seu lugar de origem.

Explicando melhor. Tente, por exemplo, medir a distância entre o focinho e a ponta do rabo de um gato. Bem, se você não matar o gato, provavelmente — além de não conseguir medir porcaria nenhuma — vai também precisar de muitos curativos. Porque o gato não vai ficar ali, quietinho, esperando você medir.

E é mais ou menos o que acontece com as partículas que formam nossos corpos. Ninguém sabe exatamente onde elas estão porque ninguém consegue chegar nem perto delas e elas escapam.

E, se ninguém consegue saber com precisão onde estão nossos elétrons, então também é impossível saber "exatamente" onde nós estamos. Entendeu?

Desde que essas observações vieram à luz, daquelas três perguntas que há milênios atormentam a vida dos filósofos — de onde viemos? onde estamos? para onde vamos? — a que parecia ter a resposta mais fácil tornou-se um verdadeiro pesadelo: nós sequer sabemos onde estamos!!!

Essa confusão toda foi chamada de Princípio da Incerteza posto que, se não sabemos sequer onde estamos, como poderemos então ter certeza de mais alguma coisa?

Bem, é claro que eu simplifiquei bastante a tal teoria. Se me aparecer algum físico quântico por aí, com algumas correções, eu até agradeço, mas acho que não adiantaria muito a gente entrar em detalhes aqui, já que até mesmo sendo bastante supérfluo como fui, a coisa já me parece bastante confusa.

Ainda mais que não era exatamente sobre isso que eu queria falar. Eu queria era falar sobre essa mania que as pessoas têm de iniciar todas suas respostas com um "com certeza". Especialmente as pessoas mais ou menos famosas. Pode reparar. 

O repórter chega para o fulano e pergunta:

— E o disco? Está vendendo muito?

— Com certeza. Em todo lugar que a gente vai é recebido com carinho e...— e por aí vai.

O repórter chega para outro:

— As acusações eram verdadeiras?

— Com certeza. Embora as investigações ainda estejam em fase inicial, pressuponho que...

Mas não é só com gente famosa não. Pergunte aí, para seu vizinho.

— E aí? Muita farra no fim de semana?

— Com certeza... Fomos pro rancho e... — não sei que mais.

Mas não é possível que esse pessoal tenha tanta certeza assim, de tantas coisas, ao mesmo tempo. Eu não tenho certeza nem de onde vou dormir amanhã, e você chega pra esses caras e pergunta como é que eles pretendem passar as férias e eles vêm com um " — Com certeza numa praia, ou numa montanha..."

Oras, se vai ser numa praia OU numa montanha, então por que é que começa falando "com certeza"? Se nem os mais famosos cientistas — que passam vinte quatro horas por dia em cima de microscópios eletrônicos estudando as partículas atômicas — têm absoluta certeza de nada nesse mundo, esse povinho aí vai querer ter certeza do quê, deus do céu?

Sei lá. As certezas, assim como as unanimidades, geralmente são muito burras.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Artur de Carvalho (1962 - 2012) foi um escritor, jornalista, publicitário, cartunista e ilustrador brasileiro. Desde 1980, trabalhou com comunicação, especialmente na área de criação de textos publicitários, jornalísticos ou de ficção. Sua experiência foi adquirida por meio de palestras realizadas ao longo de vários anos para escolas e Semanas Universitárias, assim como nas empresas Portal Publicidade e Beco Propaganda, ambas de Campinas, e ainda no jornal Diário de Votuporanga, Rádio Clube FM de Votuporanga, TV Universitária de Votuporanga e Studio Gráfico Propaganda. Realizou palestras no SESC (São José do Rio Preto, sob o tema “O Humor na Imprensa”), UNIFEV (Votuporanga), UNORP (São José do Rio Preto) e ainda palestras voluntárias para estudantes do ensino secundário de Votuporanga, realizadas ao longo dos anos de 2001 à 2005 a convite das escolas públicas da cidade. Vencedor do Prêmio “HQ MIX 2004” com “XEROCS”, considerado o “melhor fanzine do ano”. Idealizador e realizador do “Voturiso”, em 2001 e 2003, considerados dois dos maiores encontros de cartunistas e ilustradores já realizados no Brasil. Além de dois livros (“O Incrível Homem de Quatro Olhos” - 2001 e “E quando você menos espera... PAH!”), teve publicação também nos 14 números da série “FRONT” (livro bimestral, ganhador do “HQ MIX” ), participação no livro “Humor pela Paz” (um compêndio de charges e ilustrações de alguns dos maiores cartunistas brasileiros). Colaborou com o Diário de Votuporanga, de Votuporanga, de 1996 até sua morte em 2012.

Fontes:
Projeto releituras Acesso em 28.09.2019 (site desativado)
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing 

Chafariz de Trovas 1


É tão tranquila a velhinha
e tem motivo de sê-lo:
Passa a vida sentadinha
entre a novela e o novelo...
A. A. DE ASSIS

Do especialista alguém disse:
— É um doutor de gabarito!
Restringe a sua burrice
a um campo bem mais restrito!
ANTÔNIO TORTATO

Pressentindo o que me aguarda,
vendo a minha solidão,
até meu anjo da guarda
solicitou demissão...
APARÍCIO FERNANDES
 
Foi conquistador de fama
e atrevido mulherengo,
mas casou-se com uma dama
que é verdadeiro monstrengo!
ARIPIO FORTES

Casa em março a Ester Macedo
e em julho é mãe... Ora, o alarde!
O filho não veio cedo,
o esposo é que veio tarde...
BELMIRO BRAGA
 
Mulher que passa por mim,
saracoteando no andar,
tem escondido algum fim
que não convém revelar...
BERNARDO PEDROSO

Um escrivão fez um roubo;
diz-lhe o juiz: "Que razão
teve para fazer isto?!"
Respondeu: — "Ser escrivão".
BOCAGE

O urubu veio manhoso,
sempre a voar, rasteiro e forte,
e, não achando outro pouso,
pousou mesmo em minha sorte!
CALIXTO DE MAGALHÃES
 
Vive o Domingos feliz,
sem o trabalho enfrentar,
que os "Domingos" — ele diz -
são feitos pra descansar...
CARLOS GUIMARÃES
 
Corrigindo um velho erro,
aos brotos tecendo loas,
nem mesmo no meu enterro
quero saber de coroas.
COLBERT RANGEL COELHO

Certa moça, à confidente,
dizia isto, baixinho:
— Se beijo gastasse a gente,
eu era, nega, um tiquinho...
DEMÓSTENES CRISTINO
 
Com 70 anos de idade,
a velha se confessou.
Pecado? Não. Só vaidade
de dizer que já pecou...
DJALMA ANDRADE

Desfaz-se toda a harmonia
que havia no galinheiro,
quando o galo encontra, um dia,
outro galo no poleiro.
DURVAL MENDONÇA

De te esperar tanto, tanto,
me sinto cansado à beça!
Minha filha, eu não sou santo,
para viver de promessa...
EDIGAR DE ALENCAR

Que é isto no rosto, Aurora?
— Foi meu marido, meu bem.
— Pensei que estivesse fora,..
— Pois eu pensava, também!
ÉLTON CARVALHO
 
Um amigo de bebida
dizia, em tom de chalaça:
"As quatro ilusões da vida
são três: Mulher e cachaça."
IVO DOS SANTOS CASTRO

Se este mundo te sufoca,
com seus grandes desalinhos,
segue o exemplo da pipoca
e vai dando os teus pulinhos!
JORGE ROCHA

Se quiser proceder bem
quem briga alheia ajuíza,
dê razão a quem não tem,
pois quem já tem, não precisa!…
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA

Parece que morre à míngua,
é frágil como ninguém.
Mas, quando fala, que língua
e que pulmão que ela tem!...
LUIZ OTÁVIO

Minha amiga, tenho medo
de dizer isto a você...
— É como contar segredo
no jornal, rádio e tevê...
MAGDALENA LÉA

O segredo da conquista,
para a mulher, se resume
em pôr quase tudo à vista
— porque o ''quase" se presume…
MARIA AMÉLIA NOVAIS

Passou, no auge da moda,
— bonita, meiga e singela —
e o rapaz, cabeça em roda:
— Será "ele" ou será "ela"?
MARIA IDALINA JACOBINA

No Carnaval se encontraram
mascarados. Divertido.
Quando a máscara tiraram:
Minha mulher! Meu marido!
MICINÉRI

Parece que ficou louca
a filha do Nicolau:
— só me dá beijos na boca
com gosto de bacalhau...
NELSON J. DOS SANTOS

Como sofre o Malaquias
e como xinga as cegonhas,
no tanque todos os dias
lavando fraldas e fronhas.
NEREU HUMBERTO FRICKMANN

Amor à primeira vista?
Nosso bolso anda tão raso,
que até mesmo uma conquista
deve ser a longo prazo!
ORLANDO BRITO

Na hora incerta do revés,
pensa o marido nas ruas:
— Bebo duas... volto às dez,
ou bebo dez... volto às duas?!
OSWALDO MASCARENHAS

Depois que me viu "quebrado'',
— tais foram as nossas loucuras —
ela, o peito amargurado,
quebrou também suas juras...
PAULO EMÍLIO PINTO

Quem ama pensa que inventa
os beijos, a briga, o amor.
Quando o sonho se arrebenta,
ninguém quer ser inventor...
PEDRO MOSSRI
 
Escravos, por nascimento,
e livres depois com a idade,
voltamos, no casamento,
a perder a liberdade...
ZALKIND PIATIGORSKY

Fontes:
Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristóvão/RJ: Artenova, 1972.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing 

Geraldo Pereira (Vizinha Maravilhosa)


O nosso cronista maior, Luiz Fernando Veríssimo, uma das penas mais lúcidas e mais saborosas do Brasil – Não se usa mais pena. Que pena! -, escreveu um artigo que leio em página da Internet: Uma Vizinha Maravilhosa. Falava de certa moradora há pouco chegada no bairro e que passou a ocupar apartamento em frente ao seu. Uma mulher, como explica, que existe e não existe. Em outras palavras, para o escritor o cotidiano passa a ser uma mescla da realidade e da ficção, quando expresso no papel ou como se costuma fazer hoje, quando materializado no écran do computador.

A partir daí assumi a condição de observador do meu entorno, sem desejar encontrar gente maravilhosa, mas interessado nessas rotinas domésticas, sobretudo aquelas dos finais de semana, nos quais há surpresas e fugas do repetitivo de todos os dias. Talvez os sábados e os domingos tenham mais utilidade do que as manhãs, as tardes e as noites dos dias considerados úteis, à exceção do que se assiste nos canais de televisão do Brasil. Não importa imaginar, como Veríssimo, que a penitente faz tudo em função do vizinho mais antigo. Como na crônica do mestre, entretanto, ela existe e não existe, tudo ao mesmo tempo.

Em prédio do tipo caixão, no segundo andar, depois de dois lances de escada, chega pelas seis da noite em geral, uma criatura de seus quarenta anos. Mora só, como já notei, mas muito raramente traz uma companhia masculina, jovem, bem mais novo que ela, cujo papel nos feriados é o de transitar em casa vestido em trajes menores. Abre as janelas todas, como se precisasse de ar e vai ao banho. Sai do chuveiro às carreiras, com uma toalha enrolando a cabeça. Mulher bonita tem isso, envolve-se dessa maneira e deixa o resto a descoberto. Veste-se com uma camisola azul e vai assistir aos programas da telinha.

Vez ou outra desce e fica em frente ao edifício esperando alguém. Não se pode divisar bem se o acompanhante de ocasião é o menino ou se não é. Parece não ser! Passeia, vai aos bares mais badalados ou assiste aos filmes em cartaz, mas cuida em voltar logo, pelas dez no máximo, pois amanhã é dia de branco, imagino. Cumpre o ritual de sempre e cai nos braços de Morpheu. O estado civil não se consegue revelar nesses contatos quase virtuais, mas por certo é separada, sem filhos de um casamento efêmero, fortuito ou de um marido que não lhe soube apreciar os dotes físicos e intelectuais.

É do tipo pícnico*, segundo Lombroso, que teria uma paixão fulminante, se vivo fosse e por cá viesse. Baixinha e um tanto gorducha, cheinha melhor diria, com destaque para um busto bem sucedido e as cadeiras alargadas, como cumpre ser mesmo. Há pouco acrescentou umas gramas a mais e com certeza faz regime para reaver o tempo. Cuidadosa com a pele, passa cremes e mais cremes no corpo, na face e nos braços, mas dedica-se à manutenção de sua performance glandular, fazendo movimentos circulares no tórax, sempre. É fácil notar que usa condicionador do bom, importado, quiçá.

Nos feriados, nunca dispensa a música mais antiga, as de Nelson Gonçalves, especialmente. E Dolores Sierra ganha os ares da rua e todos já sabem, até as crianças, que nascida em Salamanca cumpriu a rudeza da vida na beira do cais, em Barcelona, como tantas que vi. Há até quem brinque e indague: “Onde nasceu Dolores Sierra?”. Toda gente conhece a resposta! Ao que parece, sente falta do pai, porque não deixa de ouvir uma letra a propósito dessas ausências sofridas, com certeza, na orfandade: “Naquela mesa/Está faltando ele/E a saudade dele/Está doendo em mim/...”. Dói mesmo! E como dói!

Toma uma cerveja em lata, cuja marca não se identifica à distância, depois dorme como uma justa diante do Criador e só acorda pelas cinco ou seis horas. Perde o sono da noite, porque com o passar dos anos o travesseiro fica ingrato, cansado, talvez, de acolher e acalentar. Por isso, arruma o guarda-roupa e nunca vi tanta peça de vestuário sendo posta e reposta ou exposta nos cabides e nas gavetas. Há lugar pra tudo, como penso, para aquelas de maior luxo e as de seu cotidiano. Quando termina a noite vai alta e não existe opção diferente do simplesmente deitar e dormir ou madornar, como dizia minha tia velha.

E assim vai. Existe e não existe!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
O termo pícnico refere-se a um tipo constitucional humano caracterizado por baixa estatura, formas arredondadas, abdômen proeminente e membros curtos.
======================================== 
Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. Fragmentos do meu tempo. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

Aparecido Raimundo de Souza (Metamorfose)


NUMA LINDA MANHÃ de setembro, eu me debrucei no peitoril da janela e fiquei a olhar para o tempo. Deveria ter meus dez anos de idade. Talvez um pouco mais. Todavia, não passava dos doze. Como gostava de me por à janela e espiar os pássaros voejando pelo infinito azul, numa espécie de sinfonia lindamente pastoril. Cedinho, antes das sete, depois do café, me punha a correr desembestado pelo quintal e estancar, na beira da linha, para esperar o trem de ferro passar. O comboio sempre passava naquele horário e nunca atrasava. 

Mamãe, nessas horas, ficava na cozinha, aos gritos, preocupada. A casa onde morávamos era quase às margens do leito ferroviário. Uns trezentos metros. O apito estrídulo da “Maria fumaça” me transportava para um mundo encantado, repleto de sonhos coloridos. E aquela nuvem andante de fumaça expelindo faíscas vermelhinhas produzidas pela queima da lenha incandescente agia dentro de mim como uma essência poderosa. Um sustentáculo poderoso que me fazia perder completamente do contagiante das coisas ao redor. Esquecia igualmente dos momentos eternos da vida terrena e dos bens materiais. Nessas horas, criava dentro da mente um mundo imaginário, um universo só meu. Ninguém entrava. Ali eu era o soberano incontestável. Senhor de todas as vontades. Deixava de ser o menino amado pelos familiares à base de carinhos e afagos construídos a quimeras metamorfoseadas. E me transformava num herói. 

O mártir sem causa, tipo Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, que lutava contra (não moinhos de ventos), monstros gigantes e salvaguardava as cidades, juntamente com seus habitantes das garras maléficas ou de qualquer outra espécie de feitiçaria que estivesse rondando perto. Era como uma viagem fantástica ao reino do “faz de conta”. Nesse balanço, mormente do “faz de conta”, eu era perfeito e pleno e melhor que isso, completamente feliz. Próspero e ditoso, venturoso, abençoado e opulento dentro da pequenez dos dias que circundavam ao meu redor. Naquele mundo de árvores frondosas, de castelos encantados, de príncipes e princesas, onde riachos com águas cristalinas refletiam um céu de nuvens brancas e sol maravilhoso. Naquele pedaço de chão de terra batida, não existia solidão. 

Nem no tocar do vento, nem no cantar dos pássaros, menos ainda no ranger das rodas das carroças, ou no bater forte das porteiras. Em nada se via, ou se sentia, a presença da tristeza. Tampouco, se cogitava (no rosto dos homens que trabalhavam na lavoura, para papai, ou nas mulheres que andavam com crianças recém-nascidas penduradas nos pescoços de suas mães), da tal da saudade. Não existia absolutamente nada que manchasse, ou que mesclasse aquele paraíso angelical. Talvez porque essa bem-aventurança só existisse dentro de mim. E, sendo assim, força nenhuma vinda de fora conseguia amalgamar a pureza virginal dos meus poucos anos de existência.

Hoje, pois é, hoje (tantos anos passados, homem feito, responsabilidade bastante grande com a vida), novamente me ponho à velha e querida janela do meu ontem e fico a olhar para o tempo.  Percebo que não é mais aquela linda manhã de setembro.  Nem a janela que nesta hora me recepciona, é a que se me acolhia com seu peitoril radiante. Olhando através dela, não vejo os pássaros de outrora, nem o céu azul, sem manchas, nem a sinfonia rural dos tempos de menino de calças seguras a suspensórios. Não consigo, por mais que estique os olhos, rever a velha “Maria fumaça” apitando lá adiante, na curva, nem escuto a mamãe furiosa e apavorada, ralhando, cheia de medos de que me acontecesse alguma desgraça junto aos trilhos. 

Não me pego mais correndo desembestado por entre os pés de cana, e de extensos cafezais, pisando aparvalhadamente as plantações rasteiras dos caminhos tortuosos que levavam a desembocar numa espécie de funil que, por sua vez, se abraçava para uma estrada empoeirada onde passava um ônibus pequeno e engraçado (duas vezes ao dia) transportando o pessoal até a vila. Não consigo atinar, na mesma emoção, com o meu mundinho do “faz de conta”, onde figueiras e mangueiras acobertavam castelos encantados, com príncipes e princesas povoando meu espaço de guri sapeca e mal desabrochado para a vida de um amanhã incerto. 

Percebo, surpreso e admirado, nessa visão deturpada ante os meus assombros e tremeliques, que lá fora, não muito longe, as decepções se multiplicaram. Um leque de dissabores infindáveis termina logo ali (um tiro de espingarda), num infausto contraste. Estupefato, questiono à minha alma esfrangalhada, numa espécie de terror súbito - onde estão todas aquelas coisas lindas do meu tempo de menino? Para onde foi a velha “Maria fumaça” com seus apitos estridentes e iracundas brumas negras de fumaças desenhando figuras engraçadas se misturando com a aridez dos campos verdejantes? Por que desapareceram desse meu infinito as coisas simples que vinham enfeitar de sonhos perfeitos as minhas irrupções antigas vistas da deteriorada janela? Se pelo menos fosse uma manhã de setembro e ela tivesse o encanto de reavivar decompostas quimeras adormecidas...

Se pelo menos eu não tivesse crescido. Se ao menos restasse daqueles anos de infância um quadro qualquer de recordação viva, uma moldura esmaecida que pudesse olhar longamente e esquecer esse presente esmagador, estroina, poluído pelo pretume ocultado dos anos que se sepultaram nas covas do além. Quem sabe conseguisse trocar os polos negativos das frustrações pelos positivos da Esperança e da Felicidade plenas. Quem sabe, ainda, realizasse outros tantos devaneios criados pela improbidade do coração, até agora, longe, bem distante da realidade, sabe-se lá por quê, continuam parados, estancados, como machucados que não saram nem sinalizam cicatrizar. 

Confinado como um doente terminal, sem forças para reagir, frente às muralhas inquebrantáveis e intransponíveis do destino, aqui me encontro. Sozinho, vazio por dentro e por fora. Acorrentado aos alvoroços impostos pela velhice, imperdoável. Nessa solidão vil, de mil tentáculos, tenho a impressão de que continuo criança. Não aquele menino raquítico, indefeso, pirralho, boquiaberto e poderoso, que se punha à janela e ficava a olhar para o tempo. Um infante amadurecido, sem vida, sem esperança, sem convicção no amanhã.  O mundo imaginário que me aflora à mente, não é o de águas passadas. Vislumbro, na verdade, um lugar esquisito, estranho, atípico, forasteiro, cheio de inquietações, onde todos procuram se esmagar uns aos outros. Nesse mundo que me contempla, não existem resquícios de felicidades, nem “Maria Fumaça”. Muito menos aquela linda manhã de setembro quando me punha à janela (Meu Deus!, nessa que me encontro agora), sem pressa e sem medo, feliz, despreocupado, e ficava a olhar, infatigável e caloroso, indefeso e buliçoso para o tempo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
Aparecido Raimundo de Souza, natural de Andirá/PR, 1953. Em Osasco, foi responsável, de 1973 a 1981, pela coluna Social no jornal “Municípios em Marcha” (hoje “Diário de Osasco”). Neste jornal, além de sua coluna social, escrevia também crônicas, embora seu foco fosse viver e trazer à público as efervescências apenas em prol da sociedade local. Aos vinte anos, ingressou na Faculdade de Direito de Itu, formando-se bacharel em direito. Após este curso, matriculou-se na Faculdade da Fundação Cásper Líbero, diplomando-se em jornalismo. Colaborou como cronista, para diversos jornais do Rio de Janeiro e Minas Gerais, como A Gazeta do Rio de Janeiro, A Tribuna de Vitória e Jornal A Gazeta, entre outras.  Hoje, é free lancer da Revista ”QUEM” (da Rede Globo de Televisão), onde se dedica a publicar diariamente fofocas.  Escreve crônicas sobre os mais diversos temas as quintas-feiras para o jornal “O Dia, no Rio de Janeiro.” Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Reside atualmente em Vila Velha/ES.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing  

domingo, 10 de maio de 2026

Trovas sobre Mãe


 1
Com que suave ternura
tece a canária o seu ninho!
– Mãe é assim, dengosa e pura,
a nossa e a do passarinho…
A. A. de Assis
2
Depois que, mãe tu partiste, 
como uma Santa em seu véu, 
o céu que eu via tão longe, 
ficou mais perto, e mais céu... 
Adelmar Tavares
3
Não sei de maior tristeza,
nos caminhos que palmilho,
que a da mãe que vela, à mesa,
o corpo morto do filho.
Agmar de Guedes Vaz
4
Na saudade me acarinha
este consolo de luz:
- para ser melhor que a minha,
somente a Mãe de Jesus.
Alberto Fernando Bastos
5
Mãe, por mais que eu me concentre 
na importância do que faço, 
não esqueço que o teu ventre 
foi o meu primeiro espaço. 
Almerinda Liporage
6
Quando se diz mãe, se beija
o ar que dela nos separa...
Mãe, seja e que língua seja,
é sempre a expressão mais cara!
Amadeu Fontana Lindo
7
Minha mãe sempre ao meu lado, 
é amiga na dor, no riso; 
não reclama do seu fado, 
finge sempre um paraíso... 
Amarillys Schloenbach
8
Mamãe! Que grande poder!
De você, de dentro eu vim...
Agora, mãe, é você
que vive dentro de mim!
Amaury Miranda
9
Mãe, retrato de ternura, 
de pura abnegação, 
é a mais doce criatura 
a quem Deus deu coração. 
Amilton Maciel Monteiro
10
Amor de mãe é semente 
que germina em qualquer chão, 
é feito só de ternura, 
é feito só de perdão. 
Anfrísio Lima
11
Quantos filhos, sem carinho
de pais e mães anormais.
Quantas mães sem um filhinho,
quantos filhinhos sem pais...
Anis Murad
12
Há rosas na primavera,
no estio, no outono, no inverno;
mas não há rosas mais lindas
que as rosas do amor materno!
Antonieta Borges Alves
13
Nas vidraças do orfanato
quantos olhinhos à espreita,
buscando ver o retrato
da mamãezinha perfeita.
Antônio Bispo dos Santos
14
Ao perdê-la, Mãe querida,
algo estranho sucedeu:
Eu não sinto mais a vida!
Sinto que o morto sou eu!
Antonio Werneck
15
O filho, se for dar paga
ao grande bem que a mãe traz,
pagando tudo, não paga
metade do que ela faz.
Antônio Zoppi
16
Ó mãe, que tudo perdoas,
corrige teus pequeninos!
Às vezes, de intenções boas,
nascem ladrões e assassinos...
Aparício Fernandes
17
Minha mãe, bondosa e bela,
este milagre operou:
vivi bem mais junto ela
depois que a morte a levou!
Aristheu Bulhões
18
Mãe não rima certamente... 
Mas vejo, lembrando a minha, 
que há muitas rimas, se a gente 
quiser chamá-la mãezinha! 
Archimimo Lapagesse
19
Eu vi minha mãe rezando
aos pés da Virgem Maria.
Era uma Santa escutando
o que outra santa dizia.
Barreto Coutinho
20
A mãe que a filho acalenta
- tal o seu amor profundo -
tem a impressão que sustenta
em seus braços todo um mundo.
Belmiro Braga
21
Mãe – presente do Senhor, 
que a humanidade conduz 
num barco cheio de amor, 
singrando mares de luz! 
Benedito Camargo Madeira
22
Vais ser mãe... Tua figura
perdeu a graça infinita...
Mas revelas tal ventura
que pareces mais bonita.
Carlos Guimarães
23
Mãe é ternura infinita
e ainda que a alma lhe doa,
ante um filho não hesita,
enxuga o pranto e…perdoa!
Carolina Ramos
24
Tão pequenino e, no entanto,
traduz o amor mais profundo;
que nome existe, mais santo,
do que o teu, mãe, neste mundo?
Cecília Cerqueira Cavalcanti
25
A ternura se descobre
em seus mais profundos traços,
através de uma mãe pobre
ninando o filho nos braços.
Cezário Brandi Filho
26
A Deus dirijo esta prece,
no ermo das noites sem fim:
- A dor que é para meus filhos,
quero-a toda para mim.
Circe Moreira Rosa
27
A Mãe, por ser indulgente, 
tudo em seu coração cabe. 
A mãe é aquilo que a gente 
quer definir mas não sabe. 
Clarindo B. Araújo
28
Mãe não é só quem procria. 
nos diz velho ditado. 
Ser mãe é também quem cria 
com amor um filho adotado. 
Claudyra Dias da Rocha
29
"Emes", de Mãe e Maria,
eu escondo em cada mão.
E, ao juntá-los, todo dia,
eu faço a minha oração.
Colbert Rangel Coelho
30
No mês de Nossa Senhora,
que é teu lindo mês também,
mamãe, dizer-te eu queria
o quanto te quero bem!
Colombina
31
Mãe viva, mãe que partiu... 
Todas merecem louvores; 
seu amor sempre floriu 
na rima dos trovadores. 
Conceição A. C. de Assis
32
Devoção de mãe parece
mesmo, um amor diferente.
Sempre que o filho adoece,
ela fica mais doente.
Dalva de Araújo
33
Mãe! criatura querida, 
santa heroína sois vós; 
quando nos destes a vida, 
destes o sangue por nós. 
Décio Valente
34
Era uma santa em verdade, 
mais santa que outra qualquer, 
a  mulher,  hoje,  saudade, 
que foi mais mãe que mulher! 
Delcy Canalles
35
Amor de mãe é tão grande,
tão profundo na expressão,
tão sincero, tão sublime,
que não tem definição!
Delmar Barrão
36
A beleza de um momento
jamais se esquece na vida,
é a lembrança de um alento:
o beijo da mãe querida!
Dercy Alonso de Freitas
37
Eu sou rica, meu amigo!
Vivo cercada de ouro,
pois tendo mamãe comigo,
possuo o maior tesouro.
Deyse C. Gotardello
38
Quando a mãe beija seu filho
– tesouro herdado de Deus –
quanto fulgor! Quanto brilho
espelha nos olhos seus!
Diamantino Ferreira
39
A expressão triste no rosto 
desfigurado, sem brilhos, 
é a maquiagem do desgosto 
que a mãe recebe dos filhos. 
Djalma Mota
40
Tricotando o sapatinho,
a mamãe para um momento
e acaricia o pezinho,
no seu ventre, em movimento…
Domitilla Borges Beltrame
41
Se “Mãe” não tem com que rime,
não desistas, trovador…
Troca a palavra sublime
pelo sinônimo “Amor”!
Dorothy J. Moretti
42
Sente a mãe, maravilhada,
da ventura o doce enleio,
vendo a boquinha adorada
sugando a vida em seu seio!
Durval Mendonça
43
Lampadário de bonança,
luzente, formoso e terno,
nada supera a esperança
que existe no olhar materno!
Elen De Novais Felix
44
A certeza que me encanta,
e a ti também, certamente,
é saber que a mãe mais santa
será sempre a mãe da gente.
Eliana Dagmar
45
Minha mãe, foram teus braços,
refúgio dos meus segredos,
onde deitei meus cansaços
e adormeceram meus medos!
Ercy M. Marques Faria 
46
De minha mãe, a ternura
sempre recordo chorando...
Não sei de imagem mais pura,
nem de sorriso mais brando.
Eugênio de Freitas 
47
Mãe merecia um presente
que Deus não dá a ninguém:
o viver eternamente
e, com ela, nós também!
Eulália Spinelli
48
Não caminha nos abrolhos
da incerteza e da traição,
quem tem mãe - no altar dos olhos!
quem tem Deus - no coração!
Francisco de Matos
49
Mamãe! que ternura doce, 
tem teu canto de ninar! 
Teu canto é como se fosse 
voz de uma santa a cantar! 
Francisco Garcia, Prof.
50
Se Deus atendesse, um dia,
minha prece ingênua e doce,
quem fosse mãe não morria,
por mais velhinha que fosse!
Francisco Luzia Netto
51
Deus, em toda sua glória,
com tanta grandeza e brilho,
pra completar sua história,
quis ter mãe e quis ser filho!
Gislaine Canales
52
Para a mãe que se desvela
junto a um berço e não se cansa,
não há música mais bela
que o choro de uma criança.
Guiomar Machado
53
Creio em Deus desde menino.
Creio no céu que me encanta,
e no desvelo divino
de minha mãe, que é uma santa.
Hélio Garcia de Mattos
54
Ser mãe é trabalho insano
que tal carinho irradia
e te faz, por todo o ano,
ser a mãe de cada dia!...
Hermoclydes S. Franco
55
A mãe é essência divina 
que todo amor nela encerra; 
é luz que a estrada ilumina 
para os filhos nessa terra. 
Horácio Ferreira Portella
56
A mãe que nós hoje temos
é como a luz, meu rapaz:
só quando falta é que vemos
a falta que ela nos faz!
Ildefonso de Paula
57
Amor de mãe não se embaça,
é flor que nunca fenece,
quanto mais o tempo passa,
com mais vigor ele cresce.
Isabel Moraes de Aguiar
58
Tenho minha mãe querida,
um amor todo especial.
Ela vale em toda a vida
como alguém em potencial.
Isaías Teves
59
Mãe, com respeito profundo
é que esta verdade escrevo:
Toda a riqueza do mundo
não paga o bem que eu te devo!
Ivo dos Santos Castro
60
Minha mãe partiu e agora
na saudade que me envolve,
eu sou criança que implora:
– Por favor, Senhor... devolve...
Izo Goldman
61
Por teu sonho já concreto,
minha mãe, por teu louvor,
guarda esta rosa de afeto
no vaso do teu amor.
Jandira Grillo
62
Surpreendente maravilha
a que agora me acontece:
- Minha mãe é minha filha
à medida que envelhece.
Jesy Barbosa
63
Ó minha mãe! em meus cantos,
num grato e eterno estribilho,
bendigo a Deus que, entre tantos,
me escolheu para teu filho!
J. G. de Araújo Jorge
64
Que o teu nome não tem rima
sempre alega o trovador.
Trovar com ele me anima,
pois sempre rima com amor.
J. L. Leôncio
65
Ora a mãe sorri feliz...
ora o olhar preocupado...
seu semblante sempre diz
o que há no peito guardado.
Jorge Fregadolli
66
Minha Mãe. Minha alegria.
Meu amor. Minha santinha.
Deu-me tudo o que eu queria
mas levou tudo o que eu tinha.
José Gilberto Gaspar
67
Minha mãe verteu mais pranto
que a Mãe de Nosso Senhor.
- A Virgem chorou um santo;
minha mãe - um pecador!
José Maria Machado de Araújo
68
Minha mãe era tão boa!
Deus a levou. Mesmo assim,
por qualquer mal que me doa,
sempre está junto de mim!
Junquilho Lourival
69
Eu não vi quadro mais lindo, 
nem em Londres ou Paris 
que uma criança sorrindo 
no colo da mãe feliz! 
Lacy José Raymundi
70
Mãe! Que é da rima sublime
para este nome invulgar?
- Nenhum vocábulo exprime
sua grandeza sem par!
Lauro de Azevedo Rolim
71
São três letras tão pequenas,
sem rima para meu verso:
mãe - uma sílaba apenas,
e nela, cabe o universo.
Leonardo Henke
72
- "Não há mãe melhor que a minha"
diz a filha à mamãezinha.
E a mãe, sorrindo: - "Filhinha,
melhor que a tua era a minha"...
Lia Pederneiras de Faria
73
Sua cruz que eu sei, pesada,
minha mãe leva sozinha.
Mesmo assim, velha e cansada,
me ajuda a levar a minha.
Lilinha Fernandes
74
Para mãe, não há uma rima, 
no idioma português, 
pois ser mãe é obra prima, 
- foi assim que Deus a fez. 
  Luiz Hélio Friedrich
75
Mãe é uma luz diferente!
Esplende com tanto brilho
que aclara, continuamente,
toda a estrada de seu filho!
Luiz Otávio
76
Maria, Mãe do Senhor!
Mãe dolorosa, é verdade.
Mãe sublime! Mãe de amor,
que salvou a humanidade!
Maria Helena Cantelli
77
As mães são divinas plantas 
que deram flores, sementes... 
Para Deus são todas santas, 
com milagres diferentes ... 
Maria Nascimento Santos Carvalho
78
Mais parece um estribilho,
o ranger de uma porteira,
para a mãe que espera o filho,
pela madrugada inteira...
Maria Nelsi Sales Dias
79
Mamãe: tuas mãos pequenas
que souberam trabalhar,
parecem aves serenas,
já cansadas de voar!
Maria Thereza Cavalheiro
80
Coração de mãe - canteiro
em perene floração,
onde um santo jardineiro
planta as rosas do perdão.
Marilita Pozzoli
81
Vou ser mãe… ela murmura…
e o seu ventre, com nobreza,
aos poucos, forma a figura
de um templo da natureza…
Marina Bruna
82
Quando beijo, mãe, a palma
sedosa de tua mão,
eu também sinto a minha alma
beijar o teu coração!
Mário Braga
83
A mãe é esta criatura 
que mil vezes dá perdão. 
E tem paciência e ternura 
sobrando no coração. 
Milton Souza
84
Louvo as mães, o sol caindo,
vão à igreja, levam velas,
à Virgem sempre pedindo
pelos filhos…não por elas.
Moacyr Figueiredo
85
Quanta mãe que, mal casada,
não vê mais da vida o brilho,
mas padece resignada,
pelo amor que tem no filho!
Nicomedes Arruda
86
Das dores que o tempo aguça,
a mais triste, eu desconfio,
ser a da mãe que soluça
junto de um berço vazio...
Nilo Aparecido Pinto
87
Minha mãe, flor entre abrolhos,
que se desfolha, num ai.
Cada lágrima em seus olhos
é uma pétala que cai...
Orlando Brito
88
Mãe, com divina bondade, 
inteligência e com brilho, 
faz tudo que ao filho agrade, 
sem nada exigir do filho. 
Orlando Woczikosky
89
Em paz o mundo estaria
se governassem a terra
somente mães que, algum dia,
perderam filhos na guerra...
Osmar Godinho
90
Mãe - é palavra sem rima,
buscá-la é inútil, não tente,
pois mãe está muito acima
de tudo, coisas e gente.
Otávio Babo Filho
91
Outra luz não há tão pura,
nem olhar com tanto brilho,
como o fitar com ternura
da mãe namorando o filho.
Paula Faria
92
A minha mãe, que descansa
lá no azul da eternidade,
deixou-me como lembrança
esta perene saudade...
P. de Petrus
93
Na sala nobre do peito,
minha mãe, a tua imagem
é o quadro que mais respeito
e ao qual mais rendo homenagem.
Pedro Guedes
94
Te amando, mãe, desde o berço,
eu nem te amei tanto assim,
pois não te dei nem um terço
do amor que tu deste a mim!
Regina Célia de Andrade
95
Fecunda o ventre rosado
do amor, a fértil semente
e, a mãe, abriga um legado
que é futuro em seu presente…
Relva do Egypto R. Silveira
96
Mamãe foi feliz morrendo, 
foi feliz porque morreu! 
pois se me visse sofrendo, 
sofria mais do que eu! 
Renato Caldas
97
Amor de mãe é tão puro,
tão sublime e tão fecundo,
que, comovido, asseguro
ser o primeiro do mundo.
Renato de Lacerda
98
Não chores, Mãe, se em teu peito
não posso mais me abrigar:
- o rio deixa o seu leito
e cai nos braços do mar.
Roberto de Medeiros
99
Quando piso, descuidado
as trilhas do coração,
sinto, a cada passo dado,
minha mãe me dando a mão!
Roberto Resende Vilela
100
À minha mãe que voou, 
nas asas de um querubim, 
pedindo hoje aqui estou 
que do céu vele por mim. 
Sara Furquim
101
Fiz-te rainha, entretanto,
errei, minha mãe, perdoa...
- Era o teu halo de santa
que eu julguei uma coroa!
Sérgio Fonseca
102
Mamãe, eras diferente 
das outras Mães, para mim. 
De ti sinto bem presente 
esta saudade sem fim. 
Sinésio Cabral
103
Penso ouvir teu acalanto,
minha mãe, lá de onde estás,
querendo enxugar meu pranto
e ninar-me, em horas más.
Thereza Costa Val
104
É noite!… E, num desvario,
na dor que a sufoca e invade,
chorando – o berço vazio –
a mãe embala a saudade!
Therezinha Dieguez Brisolla
105
Eu sei, mãe, que minha estrada
tem de seus olhos o brilho...
Toda mãe é uma alvorada
no amanhecer de seu filho!
Tiago Azevedo
106
Além de toda a alegria
de ser mãe, eu penso assim:
– Que bênção lembrar que, um dia,
anjos moraram em mim…
Vanda Fagundes Queiroz
107
Hoje órfã de seu afeto, 
carente de seu carinho, 
queria você por perto... 
a iluminar meu caminho! 
Vânia Ennes
108
Eu rememoro a saudade 
de minha mãe, as carícias: 
serena necessidade 
de seu carinho e delícias... 
Vidal Idony Stockler
109
Não chores, ó mãe querida,
acalma as dores, acalma!
Teu filho fugiu da vida,
porém ficou em tua alma!
Vital Bizarria
110
Almejo trilhas sem fim, 
ornamentadas de rosas!... 
Mãe, vais à frente de mim, 
cultivando as mais formosas! 
Wagner Marques Lopes
111
Em meu tempo de estudante,
se algum mal me acontecia,
não sei como, tão distante,
minha mãe logo sabia.
Waldemar Pequeno
112
Transcendo o sonho e refaço 
minhas rotas do passado, 
para ter de novo o abraço 
do ventre em que fui gerado. 
Wandira Fagundes Queiroz
113
Céu com três letras se escreve,
mãe também se escreve assim,
e neste nome tão breve
existe um céu para mim!
Wilson Dantas
114
Mãe é puro sentimento 
que se mistura à razão. 
Mãe é tudo num momento, 
e... muito mais: coração. 
Zeni de Barros Lana