APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN (1934 – 1996) Rio de Janeiro/RJ
Dia a dia vai se impondo
este conceito batata:
A terra é um mundo redondo
repleto de gente chata…
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Poema de
AMÁLIA PEITIGUARY
(João Francisco Coelho Cavalcanti – “João Barafunda”)
São Luiz do Quitunde/AL (1874 – 1938) Rio de Janeiro/RJ
Árvore antiga
Esta árvore que vês, já desfolhada,
Pobre, batida pelo tempo, outrora
Guardou muitos segredos e adorada
Foi, como aquela que acolá vigora.
E, sem receio, a ela a passarada
Que trina ao longe, que a despreza agora,
Seus ninhos confiou. Árvore, coitada,
És velha triste, ninguém mais te adora!
Meu coração também, outrora cheio
De sonhares gentis, alimentado
Por um constante e amoroso enleio,
Como tu vive triste desprezado,
E nele eu hoje tristemente leio
A mesma sina tua, o mesmo estado.
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Trova de
AMARYLLIS SCHLOENBACH
São Paulo/SP
Na busca eterna da paz,
a humanidade se enterra;
seus próprios sonhos desfaz
na luta inglória da guerra!
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Poema de
ROBERT FROST
São Francisco/EUA (1874 – 1963) Boston/EUA
Num cemitério em desuso
Os vivos vêm pisando a grama,
vêm ler no morro as inscrições;
o cemitério ainda os atrai;
os mortos é que não vêm mais.
Os versos nele se repetem:
“Aqueles que hoje vivos vêm
a ler as pedras e se vão
mortos é que amanhã virão.”
Certas da morte as lousas rimam,
mas não sem deixar de notar
que nenhum morto já não vem.
Do que é que os homens medo têm?
Seria fácil ser esperto
e lhes dizer: "Eles detestam
a morte, e já não entram nela."
Talvez caíssem na esparrela.
(Tradução: Renato Suttana)
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Trova de
MIFORI
(Maria Inês Fontes Rico)
São José dos Campos/SP
Meu passeio de bom dia
são estradas que ora faço,
combatendo a nostalgia
em cada lugar que passo.
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Poema de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS
Eu era feliz e não sabia
Nasceu o dia e o sol é tímido nesta hora...
Levantei tarde e vejo ali o velho mar
que se estende distante, universal, afora,
sem me deixar saber onde vai terminar...
Tem seus segredos que nem posso imaginar...
Talvez o pranto da Humanidade que chora
carrega triste e vai levando sem cessar,
como alguém que tem pressa, assim, de ir-se embora...
Mas é meu companheiro em horas de saudade,
quando as recordações preenchem minha existência
e me transportam à ditosa mocidade...
Tudo passou e agora enfrento com paciência,
o que restou, enfim, dessa felicidade
que havia em minhas mãos, de que eu não tinha ciência…
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA
Campinas/SP, 1890 - 1969, São Paulo/SP
Histórias de algumas vidas
Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar.
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Soneto de
SILVESTRE PÉRICLES DE GÓES MONTEIRO
São Luiz do Quitunde/AL (1896 — 1972) Rio de Janeiro/RJ
Nuvem de amor
Passaste como nuvem cor de rosa
no firmamento azul, em horas mansas.
Da graça, comovida e luminosa,
retrataste a doçura das lembranças.
E conduziste os sonhos meus, formosa,
e a centelha de afeto, em que descansas.
Talvez sejas feliz ou inditosa,
Tu, que levaste as minhas esperanças.
Fico-me só. Sozinho, e suave, e triste...
Mas, neste peito, há vibrações sadias
do que foi, e será, e agora existe...
Cardos e flores, com que o ser se junca,
resultam, pela vida, em harmonias,
se o amor, no coração, não morre nunca.
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Trova de
CAMPOS SALES
Lucélia/SP, 1940 – 2027, São Paulo/SP
“Boteco é a maior desgraça”,
grita o padre em tom agudo;
“Acabem com a cachaça”.
Grita o bebum: “Eu ajudo!”
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Poema de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR (1912 – 2004) Curitiba/PR
Infância
Aquelas tardes de Três Barras
Plenas de sol e de cigarras!
Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.
A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...
O cão travesso, de nome eslavo,
era um amigo, quase um escravo.
Merenda agreste:
Leite Ciroulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.
Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
"Mais bom dia, Vossa Senhoria"...
"Bom barqueiro! Bom barqueiro..."
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.
Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!
No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)
Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...
Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras!
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Trova de
DOMITILA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP
O nosso amor escondido,
sem promessa de aliança,
tem o sabor proibido
da fruta da vizinhança!…
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Poema de
DAILOR VARELA
São Paulo/SP
Novos poemas de um velho poeta
Persegue-me
Um vazio imóvel
Tenho medo de me dissolver
Em tédio
O sobrenome
Traduz memórias
Que o homem leva pela vida
Inutilmente
Só há no nome:
O próprio homem.
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Haicai de
OLIVALDO JUNIOR
Mogi-Guaçu/SP
Roseira crestada,
Sem botões, nem folhas verdes:
Floreira sem nada.
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Poema de
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ
O Coração do Poeta
Todo poeta tem mil corações,
cada um com sua chave e seu segredo
onde acomoda as também mil paixões
que lhe inspiram os versos desde cedo.
Mesmo quando está com a casa cheia
mais um dos seus castelos de areia
constrói num cantinho do seu peito.
Um poeta é insaciável, é seu jeito
porque é preciso, pra fazer poesia,
que arda nele um fogo de paixão,
e dessas chamas sairão poemas
que, mesmo abordando muitos temas,
poucas palavras de amor resumirão.
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Trova de
OLGA AGULHON
Maringá/PR
Faça chuva ou faça sol,
barro ou poeira na estrada,
se você for meu farol,
continuo a caminhada.
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