quarta-feira, 22 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 21 *


Há de, enfim, vir o momento
da correção dos papéis:
mais valor terá o talento
que os diplomas e os anéis!
A. A. de Assis
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O Deus que fez lago e monte,
que fez céu, mar, noite e dia,
fez do poeta uma fonte
por onde jorra poesia...
Ademar Macedo
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 Se uma lágrima falasse,
certamente nos diria:
— Prefiro correr na face
de quem chora de alegria.
Admerval Silva de Souza
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Num mundo de falsidade,
mergulhado em amargura,
eu fiz da minha saudade
um poema de ternura.
Aída Rodrigues Frango
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Deus sempre, para que o louvem,
dá certas compensações:
— É surdo? Mas é Beethoven!
— É cego? Mas é Camões!
Aires de Montalbo
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Ciúme é zelo... é cuidado...
é multo egoísmo, também:
confiar, desconfiado...
de quem a gente quer bem!
Alberto Goulart Wucherer
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Nem toda estrada é galante,
sem pó, sem pedra ou espinho.
— Também nem todo viajante
merece melhor caminho...
Alcy Souto Maior
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Meu amor, minha alegria,
perguntas o que é sofrer!
Sofrer é passar um dia
inteirinho sem te ver.
Antônio Ribeiro
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Nas noites claras de maio,
eu sinto, nitidamente,
que a saudade é como um raio
de luar, dentro da gente…
Aparício Fernandes
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Tu vais ao rio sozinha,
teu lindo corpo banhar!
Cuidado, minha louquinha,
o rio quer te levar!
Artur Ragazzi
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Ah! — exclama o velho juiz
de rosto severo e nobre —
como o médico é feliz!
Seus erros a terra cobre!
Augusta Dubsky Ponte
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Quando, no amor, o ciúme
vai-se embora, indiferente,
o que logo se presume
é que o amor já foi na frente.
Carlos Vandôni de Barros
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Achei minhas esperanças
em pedaços divididas.
Juntei-os e enchi meus sonhos
de mentiras coloridas.
Carolina Azevedo de Castro
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Sem arroubos de eloquência,
teu olhar, espelho mudo,
reflete com transparência
meu olhar que te diz tudo!
Carolina Ramos
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Andei na vida tão cego
por amores, que não sei
quantas saudades carrego,
quantas saudades deixei.
Célio Bastos
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A tua casa pendida
entre o rosal e a mangueira
é uma açucena caída
no vermelhão da ladeira.
Cicero Dias
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Esta saudade é o castigo
que aflige todo o meu ser:
— Não posso viver contigo,
sem ti não posso viver.
Coriolano Coelho
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A saudade que me invade
ninguém já sofreu, porquê
a saudade é mais saudade,
se é saudade de você...
Darcy Tecídio
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Nesta vida rotineira,
tua saudade em minha alma
é cantiga de goteira
em noite de chuva calma!
Domitilla Borges Beltrame
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Sobrevoa altos rochedos,
desafia torvelinhos;
mas é no chão, sem segredos,
que a gaivota faz seus ninhos.
Dorothy Jansson Moretti
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Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida
onde se abriga a esperança!
Edna de Castro
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Nesta casa que é só minha,
onde eu mesmo sou a lei,
obedeço a uma rainha,
muito embora eu seja o rei.
Ernâni Rushel
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A cobiça sendo um vício
e a renúncia salutar,
nosso menor sacrifício
é saber renunciar.
Francisco José Pessoa
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Pobreza é não ter um sonho,
não tentar fazer o bem...
Riqueza é tornar risonho
o triste dia de alguém!
Gislaine Canales
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Quando me punge a tristeza,
quando me fere o pesar,
busco a sagrada pureza
de um raio do teu olhar.
Gotardo Neto
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Amei alguém — que desdita!
Morri de tanto sofrer.
Ó Deus do amor, me permita
reviver, amar, morrer...
Guaracy Lourenço Costa
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Quem me dera estar também,
ao menos por um momento,
no pensamento de quem
não me sai do pensamento!
Guimarães Nato
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Se o mal do amor, algum dia,
não mais prendesse ninguém,
muita dor se apagaria...
mas quanto riso também!
Hélio N. Martins
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Meu amor, eu te asseguro
que estou tão bem a teu lado,
que lamento que o futuro
mude o presente em passado.
Hermé Luz
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Sem te ver fico saudoso,
sinto a saudade doer,
mas de um doer tão gostoso
que até dá gosto sofrer!
Hermenegildo Pereira
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Quando foi dada a partida,
com mil gametas brigando,
eu lutei por minha vida
... E continuo lutando!
Héron Patrício
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Parece incrível, parece,
mas é verdade patente:
a gente nunca se esquece
de quem se esquece da gente!
Jader de Andrade
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Grato por sua amizade,
pelo incentivo e carinho.
Ter amigo é, na verdade,
jamais caminhar sozinho.
Jessé Fernandes Nascimento 
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Este conceito traduz
um céu de muito esplendor:
– “amor é facho de luz”
– “perdão é bênção de amor!”
Joamir Medeiros 
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Não penses que estou pensando
que em mim pensas com fervor:
bem sei onde, como e quando
tens pensamentos de amor...
José Augusto da Silva
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A vida é maravilhosa,
porém triste como quê:
este amor que me devora
e eu tão longe de você!
José Flávio de Camargo Lima
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Quando não houver mais flores
nem cantos de passarinhos,
que será dos trovadores
na solidão dos caminhos?!
José Lucas de Barros
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No sobe-e-desce da vida,
o amor, na vida da gente,
é o bastão para a subida
e o freio para a vertente.
Lêda Dias de Carvalho
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Diz ter sorte “pra cachorro”,
mas nisso não boto fé;
subiu a noventa o morro,
com o “dito” no seu pé!...
Lucília A. T. Decarli 
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Se não me dás teu carinho,
se não me queres amar,
sou barco triste e sozinho,
que já não quer navegar.
Luiz Carlos Abritta
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Desconfio que a saudade
não gosta de ti, meu bem.
Quando tu vens, ela vai...
quando tu vais, ela vem...
Luiz Otávio
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Vendo o teu rosto adorado
sorrindo com tanto gosto,
fico mesmo enamorado
das covinhas do teu rosto.
Marcos de Castro Borges
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Quando um bem está perdido,
outro nos vem consolar.
Esta esperança, querido,
Deus não me pode negar.
Maria Carmen Sauer Batista
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Não me importam teus queixumes,
não me aflige o teu desdém,
se vejo, nos teus ciúmes,
o quanto me queres bem!
Maria Isabel Miranda
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Minha vida se resume
num dilema assustador:
Se eu sofro com teu ciúme,
sofro mais sem teu amor.
Maria José Barcellos Cerqueira
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Iluminando o meu ser,
o teu sorriso comprova
que com cada alvorecer
o meu amor se renova.
Maria Luíza Walendowsky
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A donzela, em confissão,
diz que é moça inconformada, 
porque fez muito arrastão,
mas nunca foi arrastada...
Maria Nascimento
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Saibam todos que o trabalho
ao homem bom enobrece;
mas quem não pega no malho,
seu espírito empobrece!
Maurício Friedrich
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Sou louco quando preciso
e o remorso não me assalta;
eu nunca tive juízo
e ele nunca me fez falta...
Milton Sebastião Souza 
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Viúva, mal comparando,
é lenha verde, em seu jogo:
de um lado, sempre chorando,
e, do outro, pegando fogo!
Nero de Almeida Sena
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Sei que não foge à verdade,
você também pode crer:
em amor, felicidade
é dar mais que receber.
Nice Nascimento
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Dizem que o amor traz tristeza...
A mim, só traz alegria.
— Quem ama, sente a beleza
que há em tudo que Deus cria.
Nieddy Bezerril Frederick
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Maria, o teu nome é riso
nos lábios de quem te quer.
Vale mais que um paraíso
o teu perfil de mulher...
Nilo Bruzzi
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Tão calmo e frio eu te vejo,
que tristemente recordo:
acordava com teu beijo
e hoje nem vês quando acordo...
Nydia Iaggi Martins
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Passarinho que me encantas,
não cantarias assim,
se tivesses penas tantas
como as de amor sobre mim!
Odette Toledo
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Ama! Que importa a tristeza
e o desespero que vem?
O amor é a grande riqueza
daquele que nada tem!
Pascoal Carlos Magno
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Carícia mais eloquente
que meu coração aprova
é te dar um beijo ardente 
nos versos da minha trova!
Renato Alves 
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De muitos doutores sei,
que fundamente acatamos,
aos quais, se dizem: — "Cheguei",
retruca a morte: — "Chegamos".
Roberto Correia
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Hoje eu defino a fofoca,
tão velha quanto a sequoia,
como uma simples minhoca
que se transforma em jiboia.
Roza de Oliveira
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Na primavera do amor
minha vida é uma paisagem
que, em vez da imagem da flor,
traz a flor da tua imagem.
Rubens Lopes
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Dentre os destinos diversos,
eu prefiro o do cantor
que, através de lindos versos,
conta o mal que causa o amor!
S. Suannes
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O salão, que se destaca,
lota assim que a noite desce,
por um engano na placa:
– “Faço tranças”... tá com S!!!
Therezinha Dieguez Brisolla
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Quando é surdo a peditório
de moça de gênio mau,
mesmo dentro do oratório,
Santo Antônio leva pau...
Virgílio Brandão
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Fontes: 
– Aparício Fernandes (org.). A Trova no Brasil: história e antologia. São Cristovão/RJ: Artenova, 1972.
– Aparício Fernandes (org.). Trovadores do Brasil. 2. Volume. RJ: Ed. Minerva, 1967.
A. A. de Assis. Revista Virtual Trovia. n. 150. junho de 2012

Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul) O Segredo das Raízes de Ferro


Nas profundezas dos vales dos Cárpatos, onde as florestas de abetos sussurram segredos antigos e a névoa dança como espíritos ao amanhecer, ficava a aldeia de Valea Verde. Lá vivia o velho Moșneagul. Ele era o homem mais antigo da região, com uma barba branca que tocava o peito e olhos brilhantes como duas brasas sob as sobrancelhas espessas. Para o povo da aldeia, Moșneagul era a própria personificação da sabedoria ancestral, um guardião das tradições que mantinham o equilíbrio entre o mundo dos homens e os mistérios da natureza.

Em uma noite de outono, quando o vento uivava forte anunciando a chegada precoce do inverno, um jovem camponês chamado Ion bateu à porta da cabana dele. Ion estava inquieto, com o coração cheio de ambição e a mente nublada pela pressa da juventude.

— Moșneagul, preciso de sua ajuda — disse Ion, cruzando os braços. — Quero cortar a velha macieira que fica no topo da colina sagrada. Ela ocupa um espaço valioso onde posso plantar trigo e enriquecer mais rápido. Mas os anciãos dizem que é um pecado, que a árvore é protegida. Isso é apenas superstição de velhos!

Moșneagul olhou para o rapaz com serenidade. Não o repreendeu. Em vez disso, convidou-o a sentar-se junto à lareira e ofereceu-lhe uma caneca de chá de ervas colhidas na lua cheia.

— Sente-se, Ion. Antes de empunhar o machado, ouça o que o tempo tem a lhe dizer — falou o velho, com uma voz profunda que parecia ecoar o som das montanhas.

O velho ajeitou sua căciulă (chapéu tradicional de lã) e começou a contar:

— Aquela macieira não foi plantada por mãos humanas comuns. Ela foi deixada ali pelos nossos antepassados há mais de três séculos, como um pacto de respeito com a terra. Suas raízes profundas seguram a encosta da colina. Quando as grandes chuvas de primavera chegam, é aquela árvore que impede que a lama deslize e soterre a nossa aldeia. Além disso, a tradição diz que o primeiro fruto daquela árvore deve sempre ser deixado para os pássaros e para os viajantes cansados, como um ato de gratidão e generosidade.

Ion bufou, impaciente.

— Mas ela está velha, Moșneagul! Quase não dá frutos. Por que devemos proteger algo que já passou do seu tempo de glória? O progresso não pode esperar por histórias antigas.

Moșneagulul sorriu com paciência e apontou para o fogo.

— Veja esta chama, Ion. Ela consome a lenha seca, mas aquece o nosso corpo e ilumina a escuridão. As tradições são como essa lenha. Elas podem parecer antigas e sem vida para quem olha de fora, mas são elas que mantêm o fogo da nossa identidade aceso. Se você cortar a árvore por ganância, quebrará o elo de proteção que nos une aos que vieram antes de nós e aos que virão depois. A pressa colhe o fruto verde; a paciência colhe a doçura.

Ion ficou em silêncio por um longo tempo, observando o reflexo das chamas nos olhos sábios do Moșneagul. Ele sentiu o peso das palavras e a força da proteção que aquele velho representava — não apenas para ele, mas para toda a linhagem da aldeia. A ganância em seu peito começou a derreter como o gelo ao sol. O rapaz percebeu que a riqueza que procurava na terra não valia o sacrifício da harmonia e do respeito sagrado pelas origens.

No dia seguinte, o machado de Ion permaneceu guardado. Em vez de derrubar a macieira, o jovem subiu a colina e limpou as ervas daninhas ao redor de suas raízes, garantindo que ela vivesse por muitas outras gerações.
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A sabedoria das tradições não é uma corrente que prende o homem ao passado, mas uma raiz profunda que o sustenta e protege no presente. Ignorar os ensinamentos dos mais velhos em nome do lucro imediato nos deixa vulneráveis às tempestades da vida, pois quem não respeita suas origens perde o mapa para o futuro.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia. Desde cedo, demonstrou uma paixão inata pela literatura e pela arte das palavras. Ele cresceu em um ambiente que refletia a rica herança cultural da sua cidade, onde a música e a poesia se entrelaçavam nas conversas cotidianas. Após concluir o ensino médio, ingressou na Universidade, onde se destacou em seus estudos de literatura. Sua dedicação e talento o levaram a continuar sua formação acadêmica, culminando em um pós-doutorado. Durante esse período, ele mergulhou na obra de grandes poetas romenos e internacionais, desenvolvendo um estilo próprio que misturava o lirismo clássico com uma abordagem contemporânea. Em 1992, tomou a decisão de se mudar para o Brasil, em busca de novas oportunidades e experiências. Ao chegar ao país, ele se estabeleceu em São Paulo, onde rapidamente se destacou como professor de literatura. Suas aulas eram conhecidas pela abordagem criativa e envolvente, inspirando os estudantes a apreciar a literatura de maneira profunda e significativa. Além de sua carreira acadêmica, cultivava uma paixão pelo xadrez. Ele se tornou um jogador forte e respeitado, participando de torneios e promovendo o jogo entre seus alunos. Dragomir acreditava que o xadrez, assim como a literatura, era uma forma de arte que desenvolvia o pensamento crítico e a estratégia, habilidades essenciais tanto na vida quanto na escrita. E em um clube de xadrez ele veio a conhecer o diretor dele, José Feldman, com quem estreitou laços de amizade não só pelo jogo, mas pela literatura, além do fato de que ambos possuíam uma paixão pela música e Feldman ser filho de pais romenos. Ao longo de sua vida, Cailin Dragomir se estabeleceu como uma figura influente na cena literária e educacional, deixando um legado duradouro tanto na Romênia quanto no Brasil. A influência da cultura romena em sua poesia se manifesta em diversos aspectos de sua obra. A rica tradição literária da Romênia, que inclui poetas como Mihai Eminescu e George Coșbuc, moldou a sensibilidade estética dele. Ele usa uma linguagem lírica e metafórica, incorporando elementos do folclore e da mitologia romena, que são essenciais na poesia romena clássica. A natureza é um tema recorrente na poesia romena, e Dragomir não é exceção. Suas descrições vívidas de paisagens romenas, como as montanhas dos Cárpatos e os campos de flores, refletem uma profunda conexão com o ambiente natural, transmitem uma sensação de integração e nostalgia.
       A riqueza do folclore romeno permeia sua poesia, com referências a mitos, lendas e tradições populares. Utiliza esses elementos para criar uma ponte entre a modernidade e as raízes culturais, trazendo à tona a sabedoria ancestral que ainda ressoa na vida contemporânea. A poesia romena é conhecida por sua profundidade emocional e introspecção. Seguindo essa tradição, explora sentimentos complexos como amor, perda e saudade, utilizando uma abordagem que reflete tanto a sensibilidade individual quanto a experiência compartilhada do povo romeno. Ele muitas vezes incorpora ritmos e cadências que evocam a sonoridade da música popular romena, criando uma harmonia entre palavra e som que enriquece a experiência do leitor.
       Após sua mudança para o Brasil, passou a incorporar a experiência da diáspora em sua poesia. Essa nova perspectiva enriqueceu sua obra, permitindo uma fusão de influências culturais que resultou em uma poesia mais ampla, reflexiva e acessível a diferentes públicos. 
       Em suas obras faz referências a figuras mitológicas romenas, como "Zmeu", um dragão que frequentemente aparece em contos populares. Ele utiliza essa figura para simbolizar desafios e superações, inserindo a luta contra o Zmeu como uma metáfora para as dificuldades da vida. Também é comum encontrar menções a "nossas montanhas", como os "Cárpatos", que não apenas servem como cenário, mas também como símbolo de resistência e força. Cailin pode descrever a beleza dessas montanhas em relação à história do povo romeno, evocando sentimentos de pertencimento. Ele inclui personagens folclóricos como "Moșneagul" (o velho sábio) e "Zână" (a fada), representando a sabedoria ancestral e a proteção, respectivamente. Esses personagens são frequentemente utilizados para transmitir lições de vida e a importância das tradições. Além disso, faz alusão a festivais tradicionais, como "Mărțișor", que celebra a chegada da primavera. Em seus versos, ele descreve a troca de fitas brancas e vermelhas como um símbolo de renovação e esperança, refletindo a alegria da vida. Histórias de amores impossíveis, como a lenda de "Făt-Frumos" e "Ilena Cosânzeana", podem ser exploradas em seus escritos. Ele usa essas narrativas para abordar temas de amor e sacrifício, conectando a experiência pessoal com a tradição. Há a presença de criaturas míticas, como o "Chimera" ou o "Roc", descrevendo esses seres como guardiões de segredos e mistérios, simbolizando os desafios que todos enfrentamos em busca de conhecimento. Esses elementos folclóricos não apenas enriquecem a poesia de Cailin Dragomir, mas também criam uma ponte entre o passado e o presente, permitindo que ele dialogue com suas raízes culturais enquanto se adapta a novas influências. Essa fusão é uma das marcas distintivas de sua obra.
          Como poeta, Dragomir publicou três livros : 1. "Ecos da Alma" - Uma coletânea de poemas introspectivos que exploram a complexidade das emoções humanas; 2. "Sussurros da Memória" - Uma obra que reflete sobre o passado, a nostalgia e a busca pela identidade; 3. "Caminhos de Luz" - Uma série de poemas que celebram a beleza da natureza e a conexão entre o ser humano e o mundo ao seu redor.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Biografia por José Feldman

Interlúdio * 10 *



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JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.

Murilo Rubião (Bruma, a estrela vermelha)


"E toda a ilha fugiu,
e os montes não foram encontrados."
(Apocalipse, XVI, 20)

Não era apreensão. Simples rancor. Bastava vê-los sair, encaminharem-se ao campo, para que o ódio me transtornasse:

- Você o põe louco, Bruma!

Ela nunca respondia. Passava os braços pela cintura do meu irmão e afastavam-se rápidos.

Na hora do almoço, Og chegava correndo, ansioso por contar-me detalhes de novos astros que vira durante o passeio. A qualquer demonstração de dúvida de minha parte, ele apelava para o testemunho de Bruma:

- Não era uma linda estrela? Tão vermelha que parecia o sol!

- Pois era mesmo o sol, seu imbecil! - retrucava eu, irritado com a morbidez da sua imaginação.

Ela discordava. Com o mais meigo dos gestos e exibindo uma compreensão que atingia diretamente os meus nervos, pedia-me que acreditasse nele.

Tínhamos que discutir asperamente todas as manhãs, após os enervantes giros dos dois pela várzea da fazenda. Og, jurando ter divisado astros azuis, verdes, amarelos, rubros, enquanto eu, cada vez mais convencido de que era Bruma que lhe enfiava aquelas tolices na cabeça, exaltava-me:

- Não existem. Ele insistia:

- Você ainda os verá, Godô.

- Godô, não, sua anta! Godofredo!

Jamais se magoava com a minha agressividade, se bem que demonstrasse alguma pena por não lhe ser possível convencer-me. Os olhos vagos, distantes, como se dirigisse as palavras aos campos ou aos animais pastando ao longe, prosseguia:

- Como são lindos pela manhã! A violência das cores, no primeiro momento, assusta-nos. Depois, as tonalidades se amaciam, as nossas pupilas absorvem os raios...

- Raios! Só o médico acabará com essa loucura! Geralmente acompanhava a frase com um murro no rosto dele. Bruma chamava-me covarde e o conduzia para o interior da casa.

Nem sempre me arrependia das minhas bruscas reações. Mas, constantemente, após os atritos, procurava mamãe e tentava convencê-la da necessidade de levar meu irmão a um psiquiatra.

Ela ladeava o assunto, vencida pelo estranho carinho que dedicava ao filho mais moço.

- Godofredo, você está amando Dora. (Bruma era o apelido de nossa irmã de criação.) Por que você não se aproxima dela, em vez de martirizar Og, que só cuida dos astros?

Mais irritado eu ficava, ouvindo-a falar daquele modo, sem que acreditasse estar agindo sob a inspiração do despeito.

Não amava Bruma. O que me perturbava era o seu corpo. Ao certificar-me, mais tarde, de que há muito uma paixão me rondava, já me encontrava tolhido por sentimentos contraditórios, e nenhum impulso generoso poderia levar-me a confessar um amor que se turvara ao contato do rancor. Em vez de atrair Bruma, conforme aconselhava minha mãe, agarrei-me à ideia de separá-los. E a oportunidade surgiu mais breve do que esperava. Foi na volta de um dos passeios matinais que os dois faziam. Eu estava lendo os jornais, na varanda, e quase não dei pela aproximação de Og, pois, contrariando suas normas de procedimento, entrara silencioso. Caminhava devagar, indo e vindo pela minha frente, até que, não mais se aguentando, entregou-se ao entusiasmo da última descoberta:

- Este tem todas as cores, Godô. É o mais belo que já vi. Olha, olha! - E arrastava-me para fora, apontando o firmamento. Abstive-me de qualquer comentário e apressei-me em chamar por nossa mãe. Levei-a ao terreiro, mal ela me atendeu. Pedi que olhasse o céu, limpo como nunca estivera.

Não foi sem relutância que ela autorizou a ida de Og ao médico. Impossibilitada de negar o progresso da demência do filho, ainda reagia:

- Só consulta, nada de hospício!

Bruma seguiu-nos. Caminhava em silêncio e só na entrada da cidade rompeu o seu mutismo:

- Você sabe que ele não está louco.

No fundo, talvez desejasse me dizer que eu não agia em razão de um impulso fraternal. Mas, por lhe faltar a coragem ou por saber-me ciente do verdadeiro sentido de suas palavras, tergiversava.

Evitei uma resposta direta, que poderia desnudar meus sentimentos, torcendo o rumo da conversa:

- E você, Bruma, consegue ver esse astro?

- Ainda não - respondeu, erguendo a cabeça em direção às grossas nuvens que cobriam o céu.

Alguns quarteirões antes de chegarmos ao edifício, onde iríamos procurar o médico, Og nos deteve:

-   Repare, Godô! É impossível que você não o veja. Quantas cores!

Pupilas dilatadas, o rosto transfigurado, Og parecia mesmo contemplar um espetáculo único, que a ninguém mais seria dado ver. Estive para propor o nosso regresso a casa. Controlei-me. Não a avassalante ternura que me tomara. Abracei-o, procurando esconder as lágrimas que desciam:

- Sim, é lindo. Não o perca de vista, que esta será a última vez que você o contemplará.

Barba ruiva, cortada rente, o olhar inamistoso, Dr. Sacavém tinha uma fisionomia grave.

Contei-lhe as manias de Og, suas visões, o motivo da consulta. Não o impressionei nem tampouco despertei o interesse dele para as minhas informações. Limitou-se a pedir a meu irmão que falasse dos seus astros prediletos. Og acedeu prontamente ao pedido, satisfeito com o tratamento que lhe dispensavam. Repetiu, com o ardor de costume, as histórias que nos contava diariamente.

Aborrecido com aquele gasto inútil de tempo, aparteei:

- Não acredito em estrelas durante o dia! Até então calada, Bruma riu:

- Acredita em porcos, não é?

Embora um pouco descontente, ao ver-se interrompido por nós, meu irmão continuou, a voz ligeiramente alteada pelo entusiasmo, a enumerar constelações, contando-lhes os hábitos, cores e formas. Quando chegou a vez do astro policrômico, o psiquiatra demonstrou sádica curiosidade pela narração, numa atitude que julguei indecorosa para um profissional. Parecia mais um astrônomo inexperiente do que um clínico.

Para desfazer certas dúvidas, experimentei a reação do Dr. Sacavém:

- Francamente, não entendo o seu método.

A minha intervenção lhe desagradou e respondeu-me rispidamente:

- Entenderá mais tarde quando tratarmos do seu caso.

- Do meu caso?! Então o senhor não percebe que somente um louco pode ver astros coloridos?!

- Não, nada vejo de anormal nisso.

Já mais calmo, limpou os óculos com a gravata e indagou de Bruma se eu reagia sempre daquela maneira - irritado e agressivo.

Por ser afirmativa a resposta, o psiquiatra caminhou para mim, prendendo-me os braços. Examinou-me atentamente e balançou, desalentado, a cabeça.

Libertei-me das suas mãos com um gesto brusco e, correndo, abandonei o consultório.

Minha mãe esperava-me no alpendre da fazenda.

- Ficaram lá e não quero vê-los mais - gritei, subindo a escada.

Abrigando somente duas pessoas, a nossa casa parecia ter ficado maior. Também a quietude crescia lá dentro, onde apenas o olhar de mamãe formulava perguntas. Perguntas que ficavam sem respostas e me obrigavam a escapar para o campo, a vagar pelas estradas. Não ia longe. A lembrança de Bruma feria-me. Tinha a impressão de que, a qualquer momento, surgiria na minha frente. Porque ela havia passado por todos aqueles caminhos e as sebes me falavam dos contornos do seu corpo.

A resolução veio lenta, conformada em saudade e remorso. E até chegar à cidade não sabia o que desejava fazer. De súbito, tudo se aclarou. Resoluto, tomei a direção do consultório do Dr. Sacavém.

Sentia-me, no entanto, bastante confuso, pois não encontrava o edifício procurado. No lugar em que ele deveria erguer-se havia um lote vago. Parei um instante, a fim de orientar-me. Em vão. Não atinava com outro percurso. A rua era mesmo aquela. Restava informar-me, mas as pessoas a quem recorri não sabiam da existência de prédios com dez andares mencionados por mim. O maior da cidade possuía dois pavimentos. Nem ao menos, entre os cinco médicos do lugar, conheciam um com o nome de Sacavém. Percorri novamente o lugarejo, fiz outras perguntas. Inútil e angustiante busca.

Voltei ao lote. Sentei-me na grama e me abandonei ao desespero, sabendo que jamais reencontraria Bruma. Sobre os braços, chorei longamente. Ao me levantar, prestes a findar a tarde, estendia-se na minha frente uma estrela vermelha. Pouco a pouco, ela se desdobrou em cores. Todas as cores.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
      MURILO EUGÊNIO RUBIÃO é amplamente reconhecido pela crítica como o pioneiro do realismo fantástico na literatura brasileira. O autor inaugurou uma vertente que insere elementos mágicos e absurdos em contextos cotidianos reais, desafiando a lógica tradicional com narrativas curtas e de forte teor existencial. Nasceu em 1916, em Carmo de Minas (antiga Silvestre Ferraz)/MG e faleceu em 1991, em Belo Horizonte/MG, aos 75 anos. Rubião conciliou a dedicação à escrita com uma sólida carreira no serviço público e na comunicação. Graduou-se em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) em 1942. Atuou como redator e cronista no jornal Folha de Minas por uma década. Foi chefe de gabinete de Juscelino Kubitschek e diretor da rádio Inconfidência. Trabalhou na Espanha como adido cultural do Brasil na cidade de Madri. Fundou o renomado Suplemento Literário do Minas Gerais, um importante polo de revelação de novos talentos artísticos.
O autor está inserido na Terceira Geração do Modernismo brasileiro (a Geração de 45). Sua trajetória literária se destaca pelo extremo rigor técnico e por uma produção intencionalmente concisa: Lançou seu primeiro livro de contos, O ex-mágico, em 1947. Embora tenha escrito cerca de 50 contos ao longo de meio século, ele reescrevia os textos exaustivamente. Em suas edições definitivas de livros, selecionou e publicou rigorosamente apenas 33 contos. Suas histórias trazem burocratas entediados, monstros integrados à rotina das cidades e maldições inexplicáveis. Ele utilizava epígrafes bíblicas para construir alegorias sobre a culpa, a opressão social e o isolamento humano.
Quando estreou na década de 1940, sua obra foi recebida com estranheza tanto pelo público quanto pelos críticos tradicionais, que priorizavam o regionalismo ou o realismo social da época. O verdadeiro estouro crítico e comercial de Rubião ocorreu nos anos 1970, impulsionado pelas reedições de seus livros (como O Pirotécnico Zacarias) pela Editora Ática. Estudos literários destacam que Rubião concebeu seus cenários fantásticos antes mesmo do grande "boom" latino-americano de autores como Gabriel García Márquez e Júlio Cortázar. O mundo literário o associa frequentemente a Franz Kafka, embora a crítica ressalte que o texto de Rubião possui um lirismo poético único, atenuando o peso do absurdo. Hoje, sua obra é leitura obrigatória em vestibulares e objeto de estudo acadêmico internacional.

Fontes:
Murilo Rubião. A estrela vermelha. Publicado originalmente em 1953.
Biografia = sites pesquisados: Brasil Escola, site Murilo Rubião, Mundo Educação, Cultura MG, FFLCH USP, FECILCAM, etc.

Mário de Andrade (Nelson)


— Você conhece?

— Eu não, mas contaram ao Basílio o caso dele.

O indivíduo chamava a atenção mesmo, embora não mostrasse nada de berrantemente extraordinário. Tinha um ar esquisito, ar antigo, que talvez lhe viesse da roupa mal talhada. Mas que por certo derivava da cara também, encardida, de uma palidez absurda, quase artificial, como a cara enfarinhada dos palhaços. Olhos pequenos, claros, à flor da pele, quase que apenas aquela mancha cinzenta, vaga, meio desaparecendo na brancura sem sombra do rosto.

Deu uma olhadela disfarçada, bem de tímido, assuntando o ambiente mal iluminado do bar. Ainda hesitou, numa leve ondulação de recuo, mas acabou indo sentar no outro lado da sala vazia. Percebeu se acalmar e depôs as duas mãos, uma agarrando a outra, sobre a toalha. Mas como se arrependeu de mostrá-las, retirou-as rápido pra debaixo da mesa. Se lembrou de repente que não tirara o chapéu, estremeceu, quis sorrir, disfarçando a encabulação. Mas corou muito, tirou num gesto brusco o chapéu, escondeu-o no banco em que sentara, ao mesmo tempo que lançava novo olhar furtivo, muito angustiado, meio implorante, aos rapazes. E estes fingiram que não o examinavam mais, envergonhados da curiosidade.

  — Não parece brasileiro...

  — Diz que é. Mora só, numa daquelas casinhas térreas da alameda do Triunfo, perto de mim. Ele mesmo faz a comida dele...

Parou, gozando o interesse que causava. Era desses vaidosos que não contam sem martirizar o ouvinte com pausas de efeito, perguntas de adivinhação, detalhes sem eira nem beira. Continuou: — “Vocês todos sabem onde que ele faz as compras dele!...” Nova pausa. Os rapazes se mexeram impacientes. Um arrancou:

— Você garante que ele é brasileiro, enfim você sabe ou não sabe alguma coisa sobre ele!

— Eu sei a história dele completinha!... — Olhou lento, imperial os três amigos. Sorriu. — Mas, puxa! que lerdeza de vocês!... Eu disse que ele mora no Triunfo, pertinho de mim ... Então vocês não são capazes de imaginar onde ele compra as coisas!...

— Ora, desembucha logo, Alfredo! que diabo de mania essa!...

Diva passava levando dois duplos escuros. Era visível que ambos pertenciam ao desconhecido, pois não havia mais ninguém no bar. Recebendo os duplos o homem ficou envergonhado, tornou a corar forte, mandando outro olho de relance aos rapazes. Falou qualquer coisa à garçonete que ficou esperando. Então ele emborcou o primeiro chope com sofreguidão, bebeu tudo duma vez só, entregando o copo à moça. E Diva se retirou, sorrindo ao “muito obrigado” quente que o homem lhe dizia.

Os rapazes voltavam pensativos aos seus chopes, o desconhecido era de fato um sujeito extravagante... Alfredo aproveitou a preocupação de todos, pra retomar importância. Mas agora “desembucha” mais rápido.

— Pois ele compra tudo no Basílio, e o Basílio é que sabe a história dele bem. Põe tamanha confiança no vendeiro que até pede pra ele fazer compra na cidade, camisa, roupa de baixo... Diz que foi até bastante rico. Ele é de Mato Grosso, possuía uma fazenda de criar no sul do Estado, não tinha parente nenhum depois que a mãe morreu. De vez em quando atravessava a fronteira que ficava ali mesmo, dava uma chegada em Assunção que é a capital do Paraguai...

— Não sabia! pensei que era Campinas!

— ... ia lá só pra farrear, vivendo naquele jejum da fazenda... — Achou graça em si mesmo e quis tirar mais efeito: — Em Assunção desjejuava a valer. Mas um dia acabou trazendo uma paraguaia pra fazenda, com ele. Era uma moça lindíssima e ele tinha paixão por ela, dava tudo pra ela. Trabalhava e era pra ela; ia na cidade por um dia, imaginem pra que!... voltava carregado de presentes muito caros. Mesmo na fazenda ela só arrastava seda. Mas que ela merecesse, merecia porque também gostava muito dele e os dois viviam naquele amor. Mas a maior besteira dele, isso dava um doce se vocês imaginassem.

Quis parar, mas um dos companheiros percebendo asperejou* irritado:

— Não dê o doce, e continue, Alfredo!

— Pois acabou passando a fazenda com gado e tudo e ainda umas casa que tinha em Cuiabá, passou tudo para o nome dela, porque ela já fizera operação, mocinha, e não podia ter filho que herdasse. Não sei se vocês sabem:... mesmo casada no juiz, se não tivesse filho e ele morresse, ela não herdava um isto. E agora é que estou vendo que o Basílio não me informou se eles eram casados, amanhã mesmo vou saber...

— Mas... me diga uma coisa, Alfredo: isso interessa pro caso!

— Quer dizer... interessar sempre interessa... Mas afinal aquela vida era chata pra moça tão bonita que não podia ser vista nem apreciada por ninguém, não durou muito ela principiou entristecendo. Ele vinha e perguntava, porém ela sempre respondia que não tinha nada e virava o rosto pra não dar demonstração que estava chorando. Ele fez tudo.

Comprou uma vitrola, comprou um rádio e a casa se encheu de polcas* paraguaias. Depois até principiou aprendendo o guarani com ela, o castelhano já falava muito bem. Era que ele imaginou ficar mais tempo junto da moça, em vez de passar o dia inteiro no campo, cuidando do gado.

— Mas também que sujeito mais besta — interrompeu um dos rapazes irritado. — Ele era rico, não era?

— Era...

— Pois então porque não ia fazer uma viagem!

— Pois fez, mas aí é que foi a causa de tudo. Eles resolveram ir passear em Assunção, se divertiram tanto que passaram dois meses lá. Quando voltaram ela até parecia outra, de tão alegre outra vez, e fizeram projeto de todos os anos ir passear assim, se divertindo com os outros, o amor é que não havia meios de afrouxar. Já antes da viagem, no tempo da tristeza, ele assinara uma porção de revistas, até norte-americanas, pra ver se ela se distraía, ela nem olhava pras figuras. Pois agora de volta na fazenda adivinhem pra o que ela deu!...

— Ora, deu pra ler as revistas! — Não!

— Deu pra ficar triste outra vez.

— Não!

— Se acostumou... 

— Não!

— Ora foi ver se você estava na esquina, ouviu!

Os rapazes estavam totalmente desinteressados da história do Alfredo. Um deles olhou o homem, de quem a garçonete se aproximava outra vez, levando mais um chope. O homem, percebendo a moça, retirou brusco as mãos que descansavam na mesa, uma sobre a outra. Novo olhar angustiado aos rapazes.

— Parece que ele tem qualquer coisa na mão esquerda, o rapaz avisou interessado. Não! não virem agora que ele está olhando pra cá, mas nem bem Diva ia chegando com o chope, ele escondeu a mão. Diva!

A moça veio se chegando, familiar.

— Mais chope. Diga uma coisa... chegue mais pra cá.

A moça chegou contrafeita, depois de uma leve hesitação. Ela sabia que iam lhe falar do desconhecido, e quando o rapaz perguntou o que o homem tinha na mão, ela quase gritou um “Nada!” agressivo. E como o rapaz procurasse agarrá-la pelo braço, ainda perguntando se o homem não tinha um defeito qualquer, ela se desvencilhou irritada, murmurando “Não!”, “Não sei!”, partiu confusa. O contador interrompido pretendeu readquirir importância, afirmando apressado:

— É uma cicatriz medonha, não queiram saber! Foi numa briga, parece que até ele perdeu um dedo, só que isso eu não sei como foi, o Basílio...

O quarto rapaz, que se conservara calado, olhando com uma espécie de riso o sabe- -tudo, murmurou vingativo:

— Eu sei.

— Você sabe!

— Quer dizer: sei... Sei o que me contaram. É o polegar que ele perdeu. Parece que nem é só o polegar que falta, mas quase toda a carne do braço, é tudo repuxado, sem pele... Foi piranha que comeu.

— Safa!

— Eu não sei bem... tudo no detalhe. Como o Alfredo, eu não sei... Foi na Coluna Prestes... nem tenho certeza se ele estava com o exército ou com os revolucionários. Devia ser com estes porque ele era rapaz, se vê que não tem trinta anos.

— Isso não! garanto que já passa dos quarenta. — Você está doido!

— Não... — arrancou o Alfredo, meio contra a vontade. — Isso eu também sei garantido que ele é novo ainda, o Basílio viu a caderneta dele... Tem vinte e sete, vinte e oito anos.

— Mas conta como foi a piranha.

—... diz que estava em Mato Grosso, um grupinho perseguido pelos contrários, desgarrado, pra uns nove homens quando muito. Tinham se arranchado na casinha dum caboclo que ficava perto dum rio, quando o inimigo deu lá, era de noite. Foi aquele tiroteio feroz, eles dentro da casa, os outros no cerco. Quando viram que não se aguentavam mais, a munição estava acabando, decidiram furar pra banda do rio, onde o bote do caboclo estava amarrado na maromba...

— O que é maromba?

— É assim um estrado grande, pra servir de chão dos bois, quando o rio enche.

— Qual! tudo isso é história! pois você não vê logo que os policiais já deviam estar tomando conta do bote!

— Você está com despeito de eu saber, quer me atrapalhar à toa: pois é isso mesmo! Deixe eu acabar, você vai ver. Já era de madrugadinha, mas estava escuro ainda. De repente eles deram uma descarga juntos, e saíram embolados, frechando pro rio. Ainda conseguiram passar, que os... contrários, eu não falei que era polícia que cercava! enfim, os… outros, só tinha dois amoitados no caminhinho que levava ao porto, se acovardaram. Eles passaram na volada, gritando, desceram o barranco aos pulos, mas quando chegaram lá tinha pra uns dez, de tocaia, na maromba. Se atracaram uns com os outros, e esse um aí se abraçou com um inimigo e os dois rolaram no rio, afundando. Bem, mas quando voltaram à tona, sempre grudados um no outro, lutando, o diabo é que tinham vindo parar bem debaixo ... não sei se vocês sabem... lá, por causa de enchente, eles usam construir um cais flutuante pra embarcar e desembarcar. O desse porto por sinal que era bem feito e mais grande, porque era por ali que a estrada do governo atravessava o rio: uma espécie de caixão grande bem chato, feito de pranchões. Pois justo debaixo disso que os dois vieram surgir e já estavam desesperados de vontade de respirar, não se aguentavam mais. Por cima era aquele barulhão de gente brigando, o caixão sacudia muito, mais outros caíam n’água... Os dois não queriam, decerto nem podiam se largar, mas não sei como foi, se uma das pranchas da parte inferior estava podre e cedeu, ou se havia o buraco mesmo... sei é que num balanço que o caixão fez com os homens que brigavam em cima deles, esse um ali sentiu que ia saindo fora d’água e pôde respirar. Mas estava com a cabeça enforcada dentro do caixão chato, até batendo no plano dos pranchões de cima, parece que estou vendo! quem me contou foi o Querino do gás.. Mas ele respirou fundo, foi ganhando consciência e percebeu que os músculos do adversário afrouxavam. Se ele largasse, o outro afundava, ia sair lá mais no largo e denunciava o esconderijo dele, apertou mais. Por cima o inferno já estava diminuindo, o caixão sacudia menos, paravam com a gritaria dos insultos. Afinal ele percebeu que os inimigos tinham dominado a situação, eram muito mais numerosos. Um que mandava nos outros, dava ordens, afirmava que faltavam dois do grupo inimigo, um era ele, está claro. A manhã principiava branqueando o rio. Procuravam no largo pra ver se tinha alguém nadando. Alguns foram mandados percorrer o matinho ralo da margem. Dois outros, no bote, se metiam pelas canaranas* pra ver se descobriam os fugitivos. Foi quando deram pela falta de um chamado Faustino, gritavam “Faustino! Faustiiiino!”, e ele percebeu que tinha matado um sujeito chamado Faustino. Mas quem disse largar o cadáver que agarrava pelo gasnete com a mão esquerda. O corpo era capaz que boiasse, saindo de baixo do caixão, haviam de desconfiar. Na margem e na maromba ao lado, o pessoal se acalmava, era um dia claro. Não tinham achado nem os fugitivos nem Faustino, vinham contando os que voltavam da procura. Então o chefe mandou que dois ficassem de vigia na maromba, e o resto dos perseguidores foram lá na casa do caipira ver se faziam um café. Ele estava quase vestido, calça cáqui, botas. Mas não tivera tempo de vestir o dólmã*, com a surpresa do ataque, e a camisa tinha se rasgado muito, justo no braço esquerdo que estava dentro d’água, agarrando o corpo do Faustino. Fazia já algum tempo que ele vinha percebendo uns estremeções esquisitos na cara do morto, pois súbito sentiu uma ferroada na mão. O rio não era de muita piranha, mas tinha alguma sim. Outra ferroada mais forte e logo ele conferiu que era piranha mesmo, não havia mais dúvida. E acudia cada vez mais piranha, o que ele não aguentou! As piranhas mordiam, arrancavam pedacinhos da mão dele e depois do braço também, mas ele ali, sem se mover. Lá em cima na maromba as duas sentinela conversavam na calma. Ele percebeu, ia desfalecer na certa, porque já quase nem se aguentava mais, vista turvando. Então, com muito cuidado, muita lentidão pra os vigias não repararem, cuidou de enfiar mais que a mão direita, o braço inteiro no buraco dos pranchões porque assim, se desmaiasse, pelo menos ficava enganchado ali. Foi quando perdeu os sentidos. Até fica difícil garantir que perdeu os sentidos ou não perdeu, nem ele sabe, nem sabe o tempo que passou. Só que as forças acabaram cedendo, teve um momento em que ele foi chamado à consciência porque estava engolindo água, sem ar, se afogando. Mesmo fraco como estava, bracejou, voltou à tona, se agarrou nas canaranas, conseguiu chegar num chão mais firme e então desmaiou de verdade. Quando voltou a si, o sol estava bem alto já, devia ser pelo meio do dia. Os inimigos já tinham ido embora. Então o pobre, ainda ajuntando um resto de força que possuía, conseguiu se arrastar até próximo da casa do caboclo. Quando este voltou, mais a mulher, lá dum vizinho longe onde tinham se refugiado, encontraram o homem estendido no terreiro, moribundo. Trataram dele. É o que sei... o Querino é que anda contando porque até eu vi, isso eu vi, ele conversando animado com esse homem, porque andou vários dias indo na casa dele pra fazer uma instalação de gás. Ele acabou sarando mas diz que ficou meio amalucado... Se não ficou, parece.

Olharam o homem. Ele já estava no quarto ou quinto duplo, já agora como inteiramente esquecido de mais ninguém. Tinha o queixo no peito, se derreara no banco, olhando fixamente o chope escuro. A mão direita inquieta tamborilava sobre a mesa, mas a esquerda se escondera preventivamente no bolso da calça. Um dos rapazes se lembrou do caso que o Alfredo estava contando.

— Safa! mas que caso mais diferente do do Alfredo! Mas este, ríspido: — Nnnnão... deve ser o mesmo...

— Mas o que foi que sucedeu com a mulher? — ... Nnnnão tem importância.

— Ora, deixa de besteira! Alfredo! que sujeito mais complicado, você!

— Não tenho nada de complicado não! Essa história de piranha comer braço de gente, eu nunca soube. O Basílio também me falou que o homem era de Mato Grosso, leu na caderneta de identidade... Mas ele ficou meio tantã não foi por causa de piranha não, foi a paraguaia. Quando ela voltou curada pra fazenda, como eu dizia, ela até às vezes acompanhava o marido a cavalo no campo, mas quando no geral ficava em casa, ficava ali, rádio aberto, lendo a quantidade de romances policiais e os outros livros que trouxera da cidade. E não tinha semana que um peão não trouxesse aquela quantidade de revistas que vinham do correio. Pois um dia, quando ele chegou em casa, a mulher estava fechada no quarto e não quis abrir a porta. Ele bateu, chamou de todo jeito, ela gritava que não amolasse, até que ele perdeu a paciência e ameaçou arrombar a porta. Daí ela abriu e se percebia que tinha chorado muito. Olhou pra ele com ódio e gritou:

— O que você me quer! me deixa!

E coisa assim. Ele estava assombrado, perguntava, ela não respondia, foi no terraço e se atirou na rede, chorando feito louca. Mas isso?... ele que nem tocasse de leve nela com a mão, ela fugia o corpo como se ele fosse uma cobra. Não valeu carinho, não valeu queixa: ela estava muda, longe dele, olhando ele com ódio, e de repente falou que queria ir embora pra terra dela. Ele não podia entender, foi discutir, mas ela agarrou dando uns gritos, que ia-se embora mesmo, que não ficava mais ali parecia uma doida, saltou da rede, desceu a escadinha do terraço e deitou correndo pelo pasto, como indo embora pro Paraguai. Foi um custo trazer ela pra casa, agarrada. Ele muito triste fazia tudo pra acalmar, jurava que no outro dia mesmo partiam pra Assunção, ela berrava que não! que havia de ir sozinha e não queria saber mais dele. Ninguém dormiu naquela casa. A moça acabou se fechando no quarto outra vez. Ele não quis insistir mais imaginando que o passar da noite havia de acalmar aquela crise. Puxou uma cadeira e sentou bem na frente da porta, esperando. Não dormiu nada. Mas também a moça não dormiu, não vê! Toda a noite ele escutou ela remexendo coisas, era gaveta que abria, que fechava, móvel arrastando, coisas jogadas no chão.

Diva acabara de levar mais um chope ao homem. Veio se abraçar a um dos rapazes, perguntando se não pagavam um aperitivo. Dois dos rapazes se ajeitaram no banco em que estavam, cedendo o lugarzinho no meio onde ela se espalhou, encostando muito logo nos dois, pra ver se ao menos um mordia a isca. O homem do bar mesmo sem chamarem, muito acostumado, veio servir o vermute.

— ... bem, mas como eu estava contando, no dia seguinte, ainda nem ficara bastante claro, que a paraguaia abriu a porta do quarto. Vinha simples, até estava ridícula e bem feia com aquele rosto transtornado, num vestidinho caseiro, o mais usado, e uma trouxinha de roupa debaixo do braço. E falou dura que ia-se embora. Foi tudo em vão e esse homem...

— Que homem? Diva perguntou meio inquieta. — Esse que está bebendo chope escuro.

— Santa Maria! mas será que vocês não podem deixar o pobre do homem em paz! — Fica quieta aí, Diva!

— Mas...

— Tome seu vermute.

Diva se acomodou de má vontade, irritada, enquanto o contador continuava:

— Pois ele gostava tanto da paraguaia que acabou cedendo, imaginando que aquilo havia de passar se ela partisse como estava exigindo. Mandou um próprio acompanhá-la. Depois ele ia atrás, Assunção é pequena, e o camarada ia industriado pra ficar por lá, seguindo a moça de longe. E ela foi embora, só, com a trouxinha, sem uma despedida, sem olhar pra trás. Quando ele foi pra entrar no quarto quase nem se podia andar lá dentro, tudo aos montes jogado no chão. Os vestidos estavam estraçalhados de propósito, picados devagar com a tesourinha de unha. As joias arrebentadas, pedras caras, até o brilhante grande do anel, fora do aro, relumeando na greta do assoalho. E os livros, os objetos, as meias de seda, até as roupas dele, ela não poupou nada. E não tinha levado absolutamente nada. Até a roupa de cama, também picada com a tesourinha, não sobrara nada sem estrago. Mas agora é que vocês vão se assombrar!... Só bem por cima dos dois travesseiros grandes, amontoados de propósito no meio da cama, um por cima do outro, tinha um livro. Esse não estava estragado como os outros. Imaginem que... bom, pra encurtar: era simplesmente uma “História do Paraguai” em espanhol, desses livros resumidos que a gente estudou no grupo. Folheando o livro, ele descobriu justamente na última página do capítulo que falava da guerra com o Brasil, está claro que tudo cheio de mentiras horríveis, ele descobriu naquela letrona dela que mal sabia assinar o nome: “Infames!”

— Quem que era infame?

— Safa, Diva, sua gente mesmo!

— Que “minha gente”? — Os brasileiros, Diva! — Eu não sou brasileira!

O rapaz sorrindo acarinhou os cabelos louros, frios dela. O contador ia comentando:

— Foi por causa da guerra do Paraguai... O homem ficou feito doido, não podia mais passar sem ela, se botou atrás da moça, porém ela não houve meios de ceder. E pra não ser mais incomodada, acabou desaparecendo de Assunção, ninguém sabe para onde. Foi uma trapalhada dos diabos vocês nem imaginam, porque a fazenda, as propriedades não eram mais dele, e ela nunca reclamou nada, desapareceu pra sempre. Até andaram falando que ela suicidou-se, porque continuava apaixonadíssima pelo brasileiro, apesar. Mas isto nunca se conseguiu tirar a limpo. Ele é que vendeu o gado e ficou viajando por todo o sul, sempre com pensão na amante. Quando foi da revolução de 30, se meteu na revolução, sem gosto, sem acreditar em nada, só porque era revolução contra o Brasil. Diz que ele ia ficando maníaco, odiava o Brasil e dava razão pra Solano Lopes que foi quem declarou a guerra do Paraguai contra nós. Afinal conseguiu vender a fazenda e as casas de Cuiabá, mas dizem que na casa onde ele mora não tem nada. Só que ele prega na parede tudo quanto é notícia ofendendo o Brasil.

— Ah, não! isso não deve ser verdade senão o Querino me contava! — Ele entrou vários dias na casa pra instalar o gás, já falei!

— Uhm...

Diva não se conteve mais, arrancou:

— Tudo isso é uma mentira muito besta! Por que vocês não conversam noutra coisa! — Você conhece ele, é?

— Diva hesitou.

— Nnnão. Mas ele sempre vem aqui.

— Você já foi com ele? Não, ele quis. Mas falou que eu desculpasse, é muito mais delicado que vocês todos juntos, sabem!

— Isso de delicadeza... Deve ser é algum viciado, vá ver que não é outra coisa.

A garçonete ficou indignada. Se ergueu com brutalidade.

— Arre que vocês também são uns... Ia insultar, enojada, mas se lembrou que era garçonete: Por favor, não olhem tanto pra ele assim! Ele vai sair...

De fato, o homem estava mexendo exageradamente em dinheiro. Diva foi pra junto dele, achando jeito, com o corpo, de o esconder da curiosidade dos rapazes. Fingia procurar troco. Olhou-o com esperança tristonha:

— Por que o senhor não toma mais um chope... Está quente hoje...

Ele estremeceu muito, devorou-a com os olhos angustiados:

— Por que a senhora quer que eu tome mais chope hoje! Seis não é a minha conta de sempre! Estavam falando de mim naquela mesa, não!

E foi saindo muito rápido, escorraçado, sem olhar ninguém, sem esperar resposta nem troco. Era incontestável que fugia.

Na rua andava com muita pressa, apenas hesitante nas esquinas que acabava dobrando sempre, procurando desnortear perseguidores invisíveis. Afinal, seis quarteirões longe, parou brusco. Estava ofegante, suava muito na noite abafada. Olhou em torno e não tinha ninguém. Certificou-se ainda se ninguém o perseguia, mas positivamente não havia pessoa alguma na rua morta, era já bem mais de uma hora da manhã. Enfim tirava a mão esquerda do bolso e enxugava com algum sossego o suor do rosto. A mão era mesmo repugnante de ver, a pele engelhada, muito vermelha e polida. E assim, justamente por ser o polegar que faltava, a mão parecia um garfo, era horrível.

Depois de se enxugar, olhou o relógio-pulseira e tornou a esconder a mão no bolso. Voltou a caminhar outra vez, e agora andava em passo normal, sem mais pressa nenhuma. Aos poucos foi se engolfando lá nos próprios pensamentos, o rosto readquiriu uma seriedade sombria enquanto o passo se mecanizava. Tomou aquele seu jeito de enfiar o queixo no pescoço, cabeça baixa, parecia numa concentração absoluta. Algum raro transeunte que passava, ele nem dava tento mais. Às vezes fazia gestos pequenos, gestos mínimos, argumentando, houve um instante em que sorriu. Mas se recobrou imediatamente, olhando em volta, apreensivo. Não estava ali ninguém pra lhe surpreender o riso — e era aquele sorriso quase esgar, apenas uma linha larga, vincando uma porção de rugas na face lívida.

Mas decerto perseverara o receio de que o pudessem descobrir sorrindo: principiou caminhando mais depressa outra vez. Lá na esquina em frente despontavam alguns rapazes que vinham da noite de sábado, conversando alto. O homem pretendeu parar, hesitou. Acabou atravessando apenas a rua, tomando o outro passeio pra não topar de frente com os rapazes. Enfim chegara na alameda do Triunfo. Três quarteirões mais longe devia ser a casa onde morava, pelo que afirmara o Alfredo. Na esquina era o botequim de seu Basílio, que estava fechando. O português chegou na última porta ainda entreaberta, pediu licença aos três operários, fechou a porta com um “boa noite” malcriado. Mas os operários estavam mais falantes com a cerveja do sábado, chegaram até à beira da calçada e se deixaram ficar ali mesmo, naquela conversa.

O homem vinha chegando e aos poucos diminuía o andar, observando a manobra do botequim. Diminuiu o passo mais, dando tempo a que os operários se afastassem. Afinal parou. Os três homens tinham ficado ali conversando, e ele estacou, olhou pra trás, pretendendo voltar caminho, talvez. Depois ficou imóvel, aproveitando o tronco da árvore, disposto a esperar. Dali espiava os operários sem ser visto. Lhe dava aquela inquietação subitânea, voltava- -se rápido. Parecia temer que alguém viesse pela calçada e o apanhasse escondido ali. Mas a rua estava deserta, não passava mais ninguém.

A situação durava assim pra mais de um quarto de hora e os operários não davam mostra de partir. O homem esperando sempre, só que a impaciência crescia nele. Olhava a todo instante o relógio, como se tivesse hora marcada, olhos pregados nos três vultos da esquina. Falavam alto, a conversa chegava até junto dele, uma conversa qualquer. Agora vinha lá do lado oposto da alameda, o rondante, na indiferença, bem pelo meio da rua, batendo o tacão* da botina, no despoliciamento proverbial desta cidade. O guarda, fosse pelo que fosse, ao menos pra mostrar força diante da gente na cerveja, resolveu enticar com os operários. E parou na esquina também, olhando franco os homens, rolando o bastão no pulso. Os operários nem se deram por achados.

De longe, meio esquecido do esconderijo, o homem agora imóvel, devorava a cena, olhos escancarados sem piscar. O guarda, vendo que os operários não se intimidavam com a presença dele, resolveu fazer uma demonstração de autoridade. Se dirigiu calmo aos homens, que pararam a conversa, esperando o que o polícia ia falar. O homem chegou a sair com o corpo todo de trás do tronco, na ânsia de escutar o que o guarda dizia. Mas este falava baixo, resolvido a principiar pelo conselho, paternal. Nasceu uma troca de palavras mas pequena, acabou logo, porque os operários não estavam pra discutir com um rondante ranzinza. Resolveram obedecer. Aliás era tarde mesmo. Foram-se embora, ainda conversando mais alto de propósito, forçando a voz, só porque o guarda falara que eles estavam acordando quem dormia nas casas. O polícia percebeu, ficou com raiva, mas também não estava muito disposto a se incomodar, que afinal os operários eram três, bem fortes. Ficou olhando, mãos na cinta, ameaçador, quando os três já estavam bem longe, sacudiu a cabeça agressiva e dobrou a esquina, continuando o seu fingimento de ronda, batendo tacão.

O homem se viu só. Houve um relaxamento de músculos pelo corpo dele, os ombros caíram, veio o suspiro de alívio. Reprincipiou a andar devagarinho, calmo outra vez. Na esquina ainda parou, espiando se o guarda ia longe. Nem sombra de guarda mais. Atravessou mais rápido a rua, passou pelo boteco do português, e agora andava com precaução, tirando o molho volumoso de chaves do bolso. Chegado em frente duma porta, foi disfarçadamente se dirigindo para a beira da calçada. Parou sobre a guia, aproveitando a sombra da árvore pra se esconder. Virou os olhos para um lado e outro, examinando a alameda. Num momento, se dirigiu quase num pulo para a porta, abriu-a, deslizou pela abertura, fechou a porta atrás de si, dando três voltas à chave.
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* Glossário
Asperejou: repreender com violência.
Polcas: dança de andamento rápido, em compasso de 2 por 4, de origem polonesa
Dólmã: Casaco cintado, abotoado de cima a baixo, mais comumente usado por militares.
Canaranas: cana brava, planta gramínea.
Tacão: Salto grosseiro de um calçado. (FIG) batida de pés no chão, com gesto de autoridade.
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MÁRIO DE ANDRADE, cujo nome completo era Mário Raul de Morais Andrade. foi o principal articulador e líder intelectual do Modernismo brasileiro. Ele revolucionou a cultura nacional ao propor a ruptura com o formalismo do passado, a valorização da língua falada no Brasil e a profunda pesquisa das manifestações folclóricas e musicais do país. Nasceu em 1893, na cidade de São Paulo (SP) e faleceu nesta mesma cidade em 1945 (aos 51 anos), vítima de um ataque cardíaco. Passou quase toda a sua vida em São Paulo, teve uma temporada curta no Rio de Janeiro (entre 1938 e 1941). Também passou períodos de refúgio em uma fazenda da família em Araraquara (SP) e viajou extensamente pelo Norte e Nordeste do Brasil registrando a cultura popular. 
Diplomou-se em piano pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo. Embora quisesse ser pianista profissional, tremores nas mãos motivados pelo choque da morte de seu irmão o afastaram dos palcos. Atuou como professor de História da Música e Estética, jornalista, crítico de arte e fotógrafo. Destacou-se imensamente como gestor público, sendo o fundador e diretor do primeiro Departamento Municipal de Cultura de São Paulo (1934–1937). Criou as primeiras bibliotecas públicas infantis, os parques infantis e a mítica Missão de Pesquisas Folclóricas. No Rio de Janeiro, trabalhou como professor catedrático na Universidade do Distrito Federal.
Sua estreia literária ocorreu em 1917 com Há uma Gota de Sangue em cada Poema (sob o pseudônimo de Mário Sobral), ainda com marcas parnasianas. Sua grande virada estilística se consolidou com a organização e o protagonismo na Semana de Arte Moderna de 1922. Ele chocou a sociedade conservadora da época ao ler os poemas revolucionários de Pauliceia Desvairada nas escadarias do Teatro Municipal. A partir dali, dedicou-se à formulação teórica do Modernismo, à escrita de ficção e à imensa troca epistolar (cartas) com intelectuais de todo o país. Mário de Andrade nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Sendo um vanguardista convicto, ele mantinha uma postura crítica e de distanciamento em relação ao conservadorismo acadêmico da época, que inicialmente combatia as inovações modernistas. Não recebeu prêmios literários expressivos em vida, o que era comum para a primeira geração do Modernismo, que enfrentava forte rejeição institucional. Sua consagração máxima foi o reconhecimento crítico posterior. Hoje, seu legado é tão imenso que seu nome batiza premiações importantes, como o renomado Prêmio Mario de Andrade de Ensaio Literário, concedido anualmente pela Biblioteca Nacional.
Principais Livros Publicados: 
Poesia: Há uma Gota de Sangue em cada Poema (1917);* Pauliceia Desvairada (1922) – Livro-marco do Modernismo; Losango Cáqui (1926); Clã do Jabuti (1927); Lira Paulistana (1946 - póstumo).
Romance / Prosa: Amar, Verbo Intransitivo (1927); Macunaíma, o Herói sem Nenhum Caráter (1928) – Sua obra-prima e síntese mítica da identidade brasileira.
Contos: Primeiro Andar (1926); Contos Novos (1947 - póstumo)
Mário de Andrade foi o grande "arquiteto" da identidade cultural brasileira no século XX. Propôs o abandono do português lusitano e formal, trazendo para a literatura a estilização da fala brasileira, aproximando a escrita da realidade do povo. Em vez de exaltar o Brasil de forma cega, investigou as contradições, os mitos e a miscigenação do país. Macunaíma é o reflexo disso: um herói multiétnico que representa o caráter (e a falta dele) de nossa formação. Como etnomusicólogo e folclorista, ele salvou da extinção centenas de cantos, rituais e tradições populares do Norte e Nordeste, ajudando a fundar o conceito moderno de patrimônio histórico e artístico nacional (IPHAN).

Fontes:
Mário de Andrade. Contos novos. Publicado originalmente em 1947. Publicação póstuma.
Biografia = sites pesquisados: Wikipedia, Ebiografia, Portugues, Abi, Michele Christine, Brasil Escola, USP (FFLCH), Toda Materia, O Globo, Academia Brasileira de Letras, etc.