terça-feira, 13 de outubro de 2026

Orlando Woczikosky (Colheita de Trovas)

 

1
A cantar, a minha vida,
eu canto em qualquer cidade,
  mas minha terra querida,
 eu não canto sem saudade!
2 
  Agora sou nau sem rumo,
que zarpou da mocidade,
para encalhar, eu presumo,
no banco duma saudade.
3 
A mãe da gente é uma luz
 que brilha, brilha e rebrilha:
dá-nos vida e nos conduz
pela mais sagrada trilha.
4
Amor que não tem saudade,
é planta que não dá flor;
 amor que é amor de verdade,
   na saudade é mais amor.
5 
A mulher é diferente
no terreno da emoção:
- O homem diz sim e consente,
ela consente e diz não!
6 
   Às vezes, na multidão,
estou só sem ver ninguém,
  porque a maior solidão
 é estar longe do meu bem.
7
A vagar pela cidade
hoje, bem longe de ti,
vejo, através da saudade,
o tesouro que perdi.
  8   
    Beba água mineral
   e viva despreocupado,
  porque água só faz mal
 para quem morre afogado.
9
Cônscio de que nada valho,
 quando te beijo, formosa,
eu sou uma gota de orvalho
 que tremeluz numa rosa.
10 
  Convidei a minha sogra
  pra passear no Butantã:
  a velha mordeu a cobra,
   e a cobra ficou tantã!
11   
Curitiba, paraíso
que mil encantos encerra,
    linda Cidade-Sorriso:
  – Sorriso da minha terra!
12
  Dentro de certas pessoas
   há duas forças latentes:
 uma que as torna tão boas,
 outra que as vira serpentes.
13
    Desde que cedo me acordo,
até que à noite me deito,
com saudade te recordo,
meu único amor perfeito!
14   
   Em noites de lua cheia,
no tênue alvor que se espraia,
 minha alma foge e vagueia,
   perambulando na praia.
15
     É nobre quem não exalta
     vitória já conquistada,
    pois a nobreza mais alta
é vencer sem dizer nada.
16  
   É nos olhos que a pimenta
    quando toca nos magoa:
quem tem sogra não a aguenta,
quem não tem diz que ela é boa.
17
    Esta saudade é uma luz,
    na noite da minha vida,
    o guia que me conduz
    à tua imagem, querida.
18  
      Eu fui a tua metade
e foste a minha, porque,
agora, só na saudade
inteiro a gente se vê!
19 
    Eu não gosto de sorteio
porque a sorte é contra mim:
talvez porque eu seja feio,
de uma feiura sem fim.
20
Eu não troco uma jazida
de ouro puro e refinado,
por uma hora vivida
na saudade do passado.
21
     Eu nasci pobre na vida,
   no entanto sei quanto valho,
    pois conheço a dor sentida
  dos que tombam no trabalho.
22
     Felicidade é a esperança
que está sempre em nós presente,
    mas a gente não a alcança
    e ela não alcança a gente!
23
  Flavo sol que as flores pintas
com doce tonalidade,
empresta-me as tuas tintas,
quero pintar a saudade.
24
  Minha avó, que já está morta,
queria tudo perfeito:
até fazendo uma torta,
fazia torta direito.
25
    Não fosse a necessidade
   de tanto, tanto te amar,
sufocaria a saudade
nas profundezas do mar.
 26 
  Não me comove a riqueza,
e nem lhe adoro a conquista,
pois, em saudade e pobreza
também sou capitalista.
27
  Não te incomodes, querida
se o meu peito a dor invade,
 sois, são temperos da vida
 a dor, o amor e a saudade.
28
Não vim pra te dar um beijo,
  vim pra te dar muito mais,
   vim dizer que te desejo
  O melhor dos teus Natais!
29 
Nesta vida de percalços
   todo mundo tem defeitos,
  mas entre honestos e falsos
   todos se julgam perfeitos.
30
    No dia dos namorados
   fico triste, simplesmente,
por ver que há muitos coitados
 sem ter a quem dar presente.
31
  O amor é a coisa mais bela
   deste mundo encantador!
   E é você quem me revela
    toda a beleza do amor!
32
   O amor é igual à comida:
   demais, não se dá valor;
 quando falta em nossa vida,
    dá-se a vida pelo amor!
33  
 Oh! doce mundo da infância,
   todo em saudade tecido,
   a recordar-te a distância,
  eu choro por ter crescido.
34
   Para trovar, certamente,
  não bastam apenas rimas;
     trovador inteligente
 faz das trovas obras-primas.
35
  Pela guerra não há glória:
  - Perder, vencer, tanto faz!
    - A verdadeira vitória,
    só se alcança pela paz!
 36  
Por mais que hoje louve a vida
  dos que fazem bem por lei,
  trago n'alma a dor sentida,
   dos males que pratiquei.
37 
Pra me esquecer de você,
tenho rezado à vontade!
Mas não te esqueço, porque
a minha reza é saudade.
38
     Quando a trova justifica
       sobejamente a valia,
    - Rima pobre ou rima rica -
     sempre é grande poesia.
39
Quando em meus braços te aperto,
       todo o infinito sorri,
  porque a vida é um céu aberto
     quando estou perto de ti.
40
     Quando tu fores velhinha
e eu também, da mesma idade,
sentirás saudade minha,
sentirei de ti saudade.
41
  Quem diz que não tem saudade
     e se é verdade o que diz,
       não teve a felicidade
        de já ter sido feliz.
42
 Quem se afunda na bebida,
   para afogar sua mágoa,
  descobre, no fim da vida,
que a melhor bebida é água.
43
Que não valha a minha trova
 por nada do que ela exiba,
 senão por tudo o que prova
    do valor de Curitiba.
44  
   Revivendo, na saudade,
   a minha casa paterna,
choro! Mas tenho vontade
 que a saudade seja eterna.
45
 Saudade é a lembrança viva
 daquilo que já morreu;
é fogo que inda se ativa
das cinzas do escombro seu.
46
Saudade é coisa que nasce
à tona do pensamento,
e, por mais que o tempo passe,
paramos nesse momento.
47
    Saudade é lua que vaga
nas sombras do sol do amor;
  quanto mais o sol se apaga,
 mais a lua traz langor.
48
    Saudade é luz matutina
    no crepúsculo da gente.
  Sol que o passado ilumina
 quando escurece o presente.
49
  Se, à noite, chega o negror
e todo o meu ser invade,
clareia-se o meu amor,
dentro da luz da saudade.
50
   Se eu de você fico ausente
  e alguém os meus olhos vê,
lendo os meus olhos pressente,
     no fundo deles, você!
51
     Se partes, fica o desgosto
   da minha alma sem a tua,
   e eu pareço um rei deposto
     perambulando, na rua.
52
Sou feliz por te dizer,
   em palavra comovida,
que minha vida é um prazer
  se há prazer na tua vida.
  53
 Tudo que é bom, nesta vida,
    foge-nos celeremente,
 somente a dor mais sentida
    fica na vida da gente.
   54  
  Vermelho igual ao tomate,
   meu coração é um bife:
quanto mais alguém lhe bate,
    mais amolece o patife.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Orlando Woczikosky (1927 – 2019)
ORLANDO KRUMANN WOCZIKOSKY, conhecido carinhosamente como o "Trovador da Saudade", foi um dos maiores expoentes da poesia rimada do Sul do país. Conquistou o título honorífico de "Príncipe dos Trovadores do Paraná" devido à sua imensa dedicação e maestria na arte da trova. Nasceu em 1927, em Curitiba/PR, e faleceu nesta mesma cidade aos 91 anos em 2019. Viveu e residiu durante toda a sua vida em Curitiba, mantendo uma ligação profunda com o bairro Xaxim e com as paisagens do estado. Cursou o Ginásio e o Técnico Industrial na Escola Técnica de Curitiba e graduou-se pela Faculdade de Educação da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Lecionou Desenho no Senai de Curitiba por mais de 30 anos; Ensinou Desenho e Caligrafia na Escola Técnica de Comércio de Plácido e Silva; Foi professor de Desenho e Educação Artística no Colégio Parthenon; Atuou no Ministério do Trabalho ministrando Leitura e Interpretação de Desenho no Curso de Segurança do Trabalho.
A paixão pela poesia começou na infância por influência da avó materna, que lhe declamava quadras populares. Sua primeira poesia formal nasceu em 1948, inspirada pela vista do Pico do Marumbi na Serra do Mar. Foi um dos sete fundadores históricos da UBT - Seção Curitiba em 1966 e o último remanescente vivo desse grupo. Presidiu a seção nos biênios 1973–1974 e 1981–1982, tornando-se mais tarde Presidente de Honra da UBT Estadual do Paraná. Membro da Academia Paranaense da Poesia; Centro de Letras do Paraná; Academia de Letras José de Alencar; Associação Profissional de Escritores do Paraná (APEP).
Recebeu uma vasta gama de condecorações ao longo de décadas de atuação, incluindo diplomas de honra, louvor e mérito cultural em concursos de trovas pelo Brasil. Teve uma produção sólida e focada na concisão da trova: Publicou 10 livros de trovas. 1 livro de poemas. Participou ativamente de dezenas de antologias literárias nacionais e regionais, além de jornais e revistas especializadas.
Orlando Woczikosky foi uma figura fundamental para a preservação e a difusão da trova no Brasil. Orlando dominava a estrutura da trova com uma sonoridade e fluidez ímpares, sendo frequentemente elogiado pela musicalidade de seus escritos. Sua relevância reside em ter consolidado a identidade da literatura paranaense por meio do lirismo e do bucolismo regional, traduzindo as paisagens do estado em poesia. Como guardião e um dos pilares da trova, ele ajudou a manter viva a tradição trovadoresca e serviu de ponte e inspiração para novas gerações de poetas do Sul do país.

Sites consultados = Gazeta do Povo, Bem Paraná, Oceano de Letras.

Monsenhor Orivaldo Robles (Eucaliptos e abobreiras)

Mesmo sem licença e contando com sua compreensão, tomo emprestada uma reflexão que Padre Marino van de Ven, de Miradouro (MG), fez em texto que mandou imprimir num calendário de 2004. Fiquei encantado com ensinamento tão simples e, ao mesmo tempo, tão rico de sabedoria. Diz ele que existem em nossas comunidades pessoas que são eucaliptos e pessoas que são abobreiras.

O eucalipto fica comprido, cresce bem alto, aparece demais. Mas não dá fruto nenhum. Gasta toda a seiva para sustentar a própria vaidade, para manter a pose. Seca todo o terreno ao seu redor. Para ele só existe ele mesmo. Ninguém pode crescer ao seu lado.

A abobreira, ao contrário, não tem o menor interesse de aparecer. Não se preocupa com defender a aparência de importante. Por isso toda a sua seiva vira fruto. A terra coberta por ela conserva a fecundidade. Ela a protege, conservando-lhe o frescor e garantindo sua capacidade de gerar vida. Devolve ao solo mais do que retira.

Impressionou-me a justeza da comparação. É difícil alguém pôr em tão poucas palavras tanta verdade e exatidão. Basta olhar em volta para confirmar.

Não é certo que há por aí muitos eucaliptos, gente que não dá sombra de jeito nenhum? Fruto, então, nem pensar. Vivem unicamente para si. Parecem crer que Deus criou o universo em função deles. Alguns até se mostram zelosos, trabalham, participam dos eventos da comunidade. Mas apenas quando podem fazer de si mesmos o centro de tudo. Não servem à comunidade, servem-se dela. Estão presentes enquanto são considerados como o polo para o qual convergem todas as atenções. Para brilhar como estrela única, sem concorrência, não precisa ninguém melhor. Tratou, porém, de se colocar a serviço, de se abrir à partilha com os irmãos, de ser um entre muitos, de trabalhar em equipe, aí..., pode esquecer.

Pessoas-eucalipto constituem um problema. Não admitem que ninguém se desenvolva ao seu lado. Nada produzem para a comunidade. Brilham, chamam a atenção, mas são completamente estéreis.

Bem outro é o comportamento das pessoas-abobreira. Não estão nem aí para o que pensam ou dizem a seu respeito. Têm o olhar e o coração voltados para o bem de todos. Só visam o crescimento da vida comum. Raramente se lembram de que existe a palavrinha “eu”. Quase nunca a empregam. Vivem em função de outra: a chamada “nós”. Entendem que o bem comum está acima do individual. São donas de um coração largo, onde não cabem mesquinhez nem egoísmo. Não guardam mágoas. Não cultivam ressentimentos. Passam por cima de decepções, de ofensas ou de ciúmes, sem perder o entusiasmo nem cair no desânimo. Não ameaçam, como crianças mimadas, abandonar tudo quando ouvem um “não” às suas pretensões e caprichos. Revelam a maturidade e a grandeza interior das grandes almas. De quem sabe que a vida vale pelo bem que conseguimos criar à nossa volta. Não pelos confetes que, desesperadamente, os tolos vivem buscando a todo custo.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Monsenhor Orivaldo Robles (1941 – 2019)
Monsenhor ORIVALDO ROBLES foi um sacerdote católico, professor, cronista e historiador regional brasileiro. Ele nasceu em Poloni (SP) em 1941 e faleceu em Maringá (PR) em 2019, aos 77 anos de idade, vítima de enfisema pulmonar. Sua trajetória intelectual e religiosa confunde-se com a própria consolidação cultural do norte paranaense.
Iniciou sua formação seminarística no interior paulista. Mudou-se para Curitiba em 1957, onde graduou-se em Filosofia e Teologia. Foi ordenado padre em Maringá em dezembro de 1966. Atuou como professor no Colégio Estadual Dr. Gastão Vidigal, no Instituto de Educação de Maringá e em escolas de Paranacity. Foi pároco de destaque na Igreja Santa Maria Goretti por duas décadas (1989-2009) e encerrou sua missão eclesiástica como vigário da Catedral Basílica Menor Nossa Senhora da Glória. Trabalhou intensamente como articulista de jornais de Maringá por mais de 15 anos, mantendo colunas semanais de grande audiência local.
Orivaldo Robles possuía uma escrita marcada pelo rigor factual, sensibilidade humana e aguçado dom de oratória. Sua produção literária concentrou-se em dois gêneros principais:
– Crônicas Literárias e Artigos de Opinião: Textos curtos voltados ao público geral e cidadãos comuns da região de Maringá. Discutiam dilemas morais, fé, cotidiano, desigualdade e a vida comunitária. Sua principal coletânea foi publicada no livro "Celeiro Desprovido: Artigos e Crônicas".
Historiografia Regional: Textos longos voltados a historiadores, fiéis e pesquisadores. Robles dedicou anos de pesquisa documental para narrar a colonização do Norte do Paraná sob a ótica religiosa. O ápice desse trabalho foi a monumental obra com mais de 400 páginas "A História da Igreja Católica em Maringá - A Igreja que Brotou da Mata" (2017). O livro chegou a ser entregue diretamente ao Papa Bento XVI.
Embora seu nome não pertença ao cânone ficcional nacional, a contribuição de Monsenhor Orivaldo Robles possui um imenso valor para a literatura historiográfica e a crônica regional do Brasil. Sua relevância está fundamentada no resgate da memória social: ele conseguiu registrar, com alta qualidade estética e textual, a transição do Paraná agrário e pioneiro ("que brotou da mata") para a consolidação urbana contemporânea. Seus textos funcionam como fontes primárias essenciais para entender a identidade do interior sulista brasileiro, provando que a literatura de crônica regional permanece viva e crucial para a preservação do patrimônio imaterial do país.

Fontes:
Recanto das Letras do Autor. 10.01.2012
Biografia: Arquidiocese de Maringá, Catedral de Maringá, UEM (repositório), Prefeitura do Município de Maringá, etc.

Estante de Livros (“Campo Geral”, de Guimarães Rosa)

Campo Geral, publicado originalmente em 1956 como parte do livro Corpo de Baile, é uma das obras-primas de João Guimarães Rosa. A novela acompanha a infância de Miguilim, um menino extremamente sensível que vive no Mutum, um lugar isolado e geograficamente árido no sertão de Minas Gerais. Através da perspectiva inocente e, ao mesmo tempo, profunda de Miguilim, Rosa constrói um romance de formação (Bildungsroman) que discute a transição da infância para a adulta, a dor da perda e a descoberta do mundo.

1. ESTRUTURA E ENREDO: O MUTUM DE MIGUILIM

O enredo gira em torno do cotidiano de Miguilim e sua família numerosa no Mutum. O espaço geográfico funciona como uma metáfora do próprio estado psicológico e da jornada do protagonista:

– O Isolamento: O Mutum é cercado por montanhas, um lugar difícil de sair e de ver o que está "além". Para Miguilim, é um lugar bonito, mas também um cenário de opressão e sofrimento familiar.

– Dinâmica Familiar: O pai, Nhô Augusto, é um homem violento, amargurado e autoritário. A mãe, Nhanina, é uma mulher infeliz, que se ressente da vida isolada e mantém uma relação ambígua com o cunhado, Lourenço.

– O Amparo: Miguilim encontra afeto em seu irmão Dito (sua maior referência de sabedoria e companheirismo), na avó Izidra (religiosa e severa), no Tio Teréz (que o protege) e em Rosa, uma agregada da casa.

2. PRINCIPAIS PERSONAGENS

Miguilim = Protagonista. Representa a pureza, a sensibilidade poética e a busca pelo sentido das coisas. 
Dito = Irmão de Miguilim. É o "menino-velho". Possui uma sabedoria prática e madura que guia Miguilim. Sua morte é o ponto de virada trágico da obra. 
Nhô Augusto = Pai. Encarna a brutalidade do sertão patriarcal, a autoridade cega e a violência doméstica. 
Nhanina = Mãe. Representa a beleza sufocada pela realidade árida e o desejo de evasão. 
Seo Tio Terez = Tio/Amigo. O contraponto ao pai; representa o afeto masculino legítimo e a proteção. 
Dr. Rodrigo = Médico (final do livro). O agente da revelação; aquele que traz a cura literal e metafórica para Miguilim. 

3. TEMÁTICAS CENTRAIS

A Miopia e a Epifania Final
A miopia física de Miguilim é a metáfora central do livro. Durante toda a narrativa, o garoto enxerga as coisas de forma embaçada, o que o força a desenvolver uma sensibilidade aguçada para os sons, os sentimentos e as intuições.

No desfecho, o Dr. Rodrigo percebe que o menino não é "burro" ou "esquisito", mas apenas míope, e lhe empresta seus óculos. Ao colocar os óculos, Miguilim vê o Mutum nitidamente pela primeira vez. Essa resolução médica opera como uma epifania: Miguilim finalmente "enxerga" o mundo em sua totalidade, com suas belezas e dores, estando pronto para deixá-lo e crescer.

O Rito de Passagem e a Dor (A Morte de Dito)
O clímax emocional da novela é a morte de Dito, decorrente de uma infecção após cortar o pé. Dito era a âncora racional e emocional de Miguilim. A perda do irmão destrói a infância protegida de Miguilim, introduzindo-o de forma brutal à finitude, ao luto e à complexidade da existência humana. É o momento em que ele deixa de ser apenas uma criança que reage ao meio e passa a internalizar a dor existencial.

Linguagem e Estilo Rosiano
Guimarães Rosa recria a fala sertaneja não como um registro puramente documental (regionalista tradicional), mas de forma poética e universal. Através de neologismos, inversões sintáticas e uma prosa altamente rítmica, o autor simula o fluxo de consciência infantil. A linguagem de "Campo Geral" capta como a criança nomeia o mundo à medida que o descobre.

O Significado de "Campo Geral"
O título "Campo Geral" refere-se à região do sertão onde a história se passa, mas carrega um duplo sentido: a experiência de Miguilim, embora situada no interior profundo do Brasil, é um "campo geral" da alma humana. Trata-se de uma narrativa universal sobre as dores do crescimento, a busca por pertencimento e a transição da escuridão do desconhecimento para a luz da lucidez.

4. RESUMO: A JORNADA DE MIGUILIM

O Cotidiano no Mutum e o Universo de Miguilim

A história começa apresentando o pequeno Miguilim, um menino de extrema sensibilidade que vive com sua família no Mutum, um vale isolado nos confins do sertão mineiro. Miguilim tem uma relação complexa com o lugar: ao mesmo tempo em que é fascinado pela natureza, pelos animais (como seu cachorro de estimação) e pelas histórias locais, ele se sente sufocado pelo ambiente. O garoto é constantemente tachado de "esquisito", "bobo" ou " invocationado" pelos adultos, porque tem reações intensas ao mundo ao seu redor e uma profunda dificuldade de enxergar o que está longe — embora ninguém ali compreenda que se trata de uma limitação física (miopia).

Os Conflitos Familiares

A vida no Mutum é marcada pela opressão. O pai de Miguilim, Nhô Augusto, é um homem brutal, rancoroso e de temperamento violento, que descarrega suas frustrações na esposa e nos filhos. A mãe, Nhanina, é uma mulher bonita e infeliz, que se sente prisioneira daquela vida isolada. Ela mantém uma ligação afetiva ambígua com o cunhado, Seo Tio Teréz, irmão de Nhô Augusto. Tio Teréz é o oposto do pai: é carinhoso, compreensivo e protege Miguilim. Quando Nhô Augusto descobre a proximidade entre a esposa e o irmão, expulsa Tio Teréz do Mutum, gerando um clima de extrema tensão e tristeza na casa.

A Cumplicidade com Dito e a Sabedoria Infantil

No meio do ambiente hostil, o grande refúgio de Miguilim é seu irmão mais novo, Dito. Apesar de ser menor, Dito possui uma maturidade precoce, uma sabedoria prática e uma clareza que Miguilim não tem. Dito funciona como o protetor, o conselheiro e o "tradutor" do mundo para Miguilim. Os dois compartilham segredos, brincadeiras e o amor pelos animais, construindo um laço afetivo que se torna a viga sustentadora da sanidade e da alegria do protagonista.

O Ponto de Virada: A Tragédia e a Morte de Dito

O clímax e o momento mais doloroso da narrativa acontecem quando Dito corta o pé em um caco de cerâmica enquanto brincava. O ferimento infecciona gravemente, evoluindo para o tétano. A agonia de Dito se estende por dias, enchendo a casa de desespero. No leito de morte, demonstrando sua sabedoria mística até o fim, Dito se despede de Miguilim e pede para que o irmão "não mude de canal", ou seja, que não perca a sua essência e bondade, apesar das dores da vida.

A morte de Dito destrói a infância de Miguilim. O menino entra em um estado de luto profundo, adoece gravemente de febre e tristeza, e passa a ser assombrado pelo medo do inferno e da perda. Logo em seguida, a violência atinge outro ápice: Nhô Augusto, consumido pelo ciúme e pelo remorso, mata um homem e, tempos depois, acaba cometendo suicídio (ou morrendo em um confronto), deixando a família desamparada e desestruturada.

A Redenção e a Descoberta do Mundo (O Desfecho)

Miguilim sobrevive à doença, mas carrega o peso de um mundo cinzento e sem nitidez. Certo dia, um homem de fora chega ao Mutum: é o Dr. Rodrigo, um médico viajante. Ao conversar com Miguilim, o doutor percebe o que ninguém havia notado em anos: o menino não é "esquisito", ele apenas não consegue enxergar.

Dr. Rodrigo retira os próprios óculos e os coloca no rosto de Miguilim. Esse ato transforma radicalmente a existência do menino. Pela primeira vez, Miguilim vê o formato das folhas, as estrelas, o contorno das montanhas e o rosto das pessoas com clareza absoluta. O mundo se expande e deixa de ser ameaçador. Reconhecendo o potencial e a sensibilidade do garoto, o Dr. Rodrigo pede permissão à mãe de Miguilim para levá-lo consigo para a cidade, onde ele poderá estudar e se tratar. O livro termina com Miguilim chorando, mas olhando para o Mutum de frente, despedindo-se de sua infância e partindo em direção ao seu futuro.

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Fernando Vasconcelos (Colheita de Trovas)

 

1
“Água mole em pedra dura”
meu amor, como se vê,
repetindo a mesma jura,
tomou conta de você.
2
Amor é renunciar
pedacinhos de ventura,
espaço, tempo e doar
a luz a outra criatura.
3
A sina da fazendeira
foi triste, eu não invejo,
descuidou-se da porteira,
sua vaca foi pro brejo!
4
As trovas são coisas boas,
por um dom vão inspiradas,
deviam unir pessoas,
não fazê-las separadas.
5
A trova é coisa sucinta,
toda glória ao inventor…
só com pouquinho de tinta,
eu posso falar de amor.
6
Cada vez que tenho um sonho,
formas, luzes, cores, som,
é você que lá eu ponho,
para o sonho ficar bom!
7
Casar-se é sina dorida,
tolo modo de viver…
é bronca por toda vida
e se paga pra sofrer!
8
Cigarro, branco tubinho
de resultado tão vil…
numa ponta tem foguinho
e na outra um imbecil.
9
Ciúme encerra perigo,
guarda tendência mortal,
tem mira no inimigo,
mas aos dois ele faz mal.
10
Corre o homem a toda brida,
buscando mil emoções…
é cavalo de corrida,
no prado das ilusões.
11
Deixa a tristeza, vizinho,
que chorar, não lhe compensa,
só se sentirá sozinho
quem do amor perdeu a crença.
12
De minha alma, nas dobrinhas,
a sua alma se aninhou…
As duas parecem minhas,
no ambíguo que eu hoje sou!
13
De um sentimento profundo,
no silente ou no escarcéu,
prosa é linguagem do mundo,
o verso a prosa do céu.
14
Do bico de minha pena
o meu doce arauto eu fiz,
pra numa trova pequena
proclamar que sou feliz.
15
É cada estrela cadente,
tendo o seu curto escarcéu,
um traço fosforescente
com que Deus rabisca o céu!
16
É como água morro abaixo,
como fogo morro acima,
ninguém segura o “facho”,
quando o desejo domina.
17
Encha aos olhos a grandeza,
ao poder todo valor…
mas não há outra riqueza
mais durável do que o amor.
18
Entre os desejos da vida
mais gostosos, não mais sábios,
– quero dar uma mordida
na frutinha de teus lábios.
19
Entre ossos, mui animada,
sua caveira sorria…
maldade da descarnada,
vendo a carne entrar em fria!
20
Este pobre jornalista
é poeta e escritor…
na existência um artista,
e na trova um pichador!
21
Faça este bom sonho arder,
no fundo do coração…
quando o querer é poder,
desejo se faz ação.
22
Fio dental, trajezinho
que a rapaziada adora…
esconde só um pouquinho,
deixando o resto de fora.
23
Há sempre, no imaginável,
dois termos fundamentais:
teu amor inigualável,
os outros todos iguais.
24
Inocência é pranto e riso,
que puro nossa alma alcança,
vindo lindo e sem aviso
do sentir de uma criança.
25
Lindas estrelas acesas,
quadro que prende e seduz…
É Deus dizendo belezas
num alfabeto de luz!
26
Menina namoradeira,
que brincava escondidinha,
quis tanto da brincadeira,
que acabou barrigudinha!
27
Não há quem se esforce à toa,
é rotina o desafio,
sendo a vida uma canoa
que atravessa o grande rio.
28
Na roça não se complica
a higiene rotineira:
começa na velha bica
e um gamelão é banheira!
29
No ocaso, sem alarde,
liberto de todo afoite,
sou tarde, dentro da tarde,
o dia, na boca da noite.
30
Nosso grande encantamento,
quando a julgar eu me ponho,
é o encanto do momento
do nosso primeiro sonho.
31
O cara conquistador
entrou muito mal naquela…
pegou sufoco de amor,
no sufoco da donzela.
32
O Gildo se fez de louco,
pra bular aquele “tira”,
depois passou um sufoco,
pra sustentar a mentira.
33
O meu peito, um campanário
consagrado em seu louvor,
onde se reza em rosário
feito de contas de amor.
34
Ó meus irmãos trovadores,
quanta vida podem dar,
rimando sonhos e amores,
plantando cantigas no ar.
35
O pobre homem só se fere,
ao meter-se com a bebida…
não é a pinga que ele ingere,
ele bebe a própria vida.
36
Os anos passam ligeiros,
mas o tempo não me ilude…
já tenho mitos janeiros,
nesta mesma juventude.
37
Os pombos, sem ter zoeira,
foram a primeira prova
que, no arrulho, na figueira,
fez a natureza a trova.
38
Palavras são universos,
aqui mesmo está a prova,
ao prender em quatro versos
o infinito de uma trova.
39
Passadas pinga e arruaça,
disse ao ser interrogado:
foi depressão, não cachaça,
que me deixou transtornado!
40
Plano de deixar a pinga
sempre na flauta levou…
estava enchendo a moringa,
quando a cirrose o matou.
41
Poetando nossa Princesa
tem cantado seus amores,
na voz de tanta beleza
que só têm os trovadores.
42
Pra pegar elevador,
quando todo mundo avança,
mais se destaca o humor,
quanto maior for a pança.
43
Quem do verso tem a lida,
a trova trazendo a lume,
porta a lâmina da vida
e usa bem certo o seu gume.
44
Quem já viu só tem certeza
e guarda no coração…
não há uma maior beleza
que um olhar de gratidão.
45
Registrando alguma ausência,
contabilidade ingrata,
nosso amor pediu falência,
desistiu da concordata;
46
Se na aflição se padece,
busque em Deus a solução…
A calma do céu nos desce,
no intercâmbio da oração
47
Sou bode velho, tranqueira,
muito doido com cabrita,
não conheço uma porteira,
pra fechar moça bonita!
48
Tão louco prazer sentindo,
o fumante é uma raça
que não vê vida fugindo,
no disfarce da fumaça.
49
Todo cara bem papudo,
que dá de valente, acorde,
só na aparência é peitudo…
é cão que ladra e não morde.
50
Trabalhador brasileiro
tem que viver tiririca,
com uns nadando em dinheiro
e o salário uma titica.
51
Tua ausência faz aflita,
triste e desesperançada,
a caminhada infinita,
em teus lábios começada.
52
Vamos, sonhar e sorrir”
esse é o remédio ideal,
não nos preocupe o porvir,
pois só o presente é real.
53
Vento, meu pombo-correio,
da UBT a doce prova,
mais uma vez você veio
trazer-me o mimo da trova.
54
Vento que ondula copadas,
nesta sina de viajor.
Leve, nas tantas jornadas,
as nossas trovas de amor.
55
Zé estava tiririca,
por não poder o seu zelo,
curar, com um chá de arnica,
uma dor de cotovelo!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Fernando Vasconcelos (1937 – 2010)
Um dos nomes mais expressivos do movimento trovadoresco no Sul do Brasil Fernando Sílvio Roque de Vasconcelos nasceu na histórica cidade de Diamantina/MG, em 1937 e faleceu em 2010, aos 72 anos, em Ponta Grossa/PR. Apesar de suas raízes mineiras e de ter viajado por diversas regiões do Brasil e da América do Sul ao longo da juventude, fixou residência definitiva na cidade de Ponta Grossa, onde se radicou. Sua ligação profunda com a comunidade local fez com que recebesse oficialmente o título de "Cidadão Ponta-Grossense" no ano de 1979. Vasconcelos orgulhava-se de ser um talentoso autodidata. Teve uma atuação bastante diversificada na área de comunicação, trabalhando como jornalista, publicitário e radialista. Atuou em emissoras de rádio de São Paulo e do Paraná, criou e editou a Revista VUP e escreveu colunas para dezenas de periódicos paranaenses. Além disso, dedicou parte de sua carreira ao serviço público, atuando como servidor público municipal em Ponta Grossa.
Sua trajetória na literatura foi prolífica tanto na prosa (contos e crônicas) quanto na poesia, com foco especialíssimo na Trova. Ele integrou ativamente dezenas de agremiações culturais e literárias no Brasil e no exterior (incluindo Portugal). Na Academia de Letras dos Campos Gerais (ALCG): Onde foi membro fundador da cadeira nº 10 e chegou a exercer o cargo de Vice-Presidente. Ao longo de sua caminhada literária, Fernando Vasconcelos acumulou cerca de 170 premiações nacionais e internacionais. Entre os principais destaques e honrarias concedidas a ele, constam: Título Cultural e Placa do Mérito Regional; Prêmio Rotary de Artes (1998) e a medalha de Honra ao Mérito do Rotary Club (2009); Placa Homenagem por "Incansável Jornada Literária" concedida pelo SESC; Inúmeras premiações e menções honrosas nos tradicionais Jogos Florais e concursos de trovas por todo o país (como em Pirapetinga). Publicou mais de uma dezena de livros ao longo de sua vida, passeando pela poesia de forma lírica, humorística e até por manuais gramaticais de forma descontraída. Algumas de suas principais obras publicadas incluem: Pequena Consciência (1974); As Narrativas de Nhô Fela (1983); Nos Espaços D'Alma (1985); Êta Vida Besta, Sô! (1990); Estou Nascendo para a Trova (1994); Pô, Meu! (1995); A Danadinha da Crase (1997); Da Cacimba do Coração (1998); Fiapico (1998); Abaretama – a sedução do guerreiro (1999); Branduras (2007), etc.
A relevância de Fernando Vasconcelos reside na sua capacidade de descentralizar a cultura e oxigenar o movimento trovadoresco no Sul do país. Como um dos principais pilares da Academia de Letras dos Campos Gerais e do movimento trovadoresco paranaense, ele foi um obstinado defensor da trova — uma forma de poesia sintética e popular que exige extrema técnica e sensibilidade. O escritor conseguiu unir o sotaque e o cotidiano do homem simples do interior (traço de sua origem mineira e de sua vivência no interior paranaense) com um rigor estético refinado, influenciando gerações de novos poetas locais a exercerem a arte da escrita e mantendo viva a tradição da poesia cantada e rimada no cotidiano jornalístico e literário do Paraná.

Biografia (sites consultados) = Academia de Letras de Campos Gerais, Oceano de Letras, etc.

Cantinho do Frata (Oitenta anos)

Oitenta anos.

Quando lembro que os tenho, não sei se choro ou rio.

Às vezes faço os dois. Um risinho, um chorico, meio acanhado, meio assanhado, a misturar baba de alegria com lágrima de tristeza.

Mas faço apenas quando me sinto só, segurando a mão da solidão como proteção. Seria ela a corda de segurança da velhice?

Difícil dizer. Estou a experimentá-la só agora... Oitenta.

Marca indelével do que vivi. É aí que o pensamento encolhe as asas como pássaro friorento. Para se assentar por inteiro em mim. Aninhando-se como aves sob a chuva fria: sendo mais e menos, eu.

Mais pelo riso em lábios esticados; menos, com os olhos vermelhos a verter medo.

Momento em que os músculos se contraem para, em contraposição, distender a emoção e repetir em voz rouca e curta: oitenta, oitenta, oitenta, como anúncio em cornetas de circo.

Pois, sabe o que acontece? Eles ficam sem a preocupação do fazer.

E, no sentido de lazer, viram-se instintivamente aos céus.

As palmas, espontâneas, se unem sem fechar as mãos. Compõem uma torre. Como ponta de seta virada para cima.

Hora em que os olhos a acompanham e, também, se elevam. Como se procurassem algo nas nuvens, no topo do céu, perto do infinito.

E fico nessa ansiedade, tentando invadir fendas esgarçadas para que mais longe possa enxergar. Lá deve estar Deus.

Quem tem oitenta anos, eu acho, tende a ficar assim nessa espera.

Mas pode, se quiser, ir a qualquer lugar. E é o que faço ainda com passos largos. Ou nem tanto. Pois já os sinto meio encolhidos pelo encarangar das pernas.

Pressinto que, às vezes, não. Mas, sim. O sim da realidade é mais forte e me põe a andar com o semblante sóbrio, enfeitado apenas por uma nesga de sorriso.

Dizem que faz bem sorrir. É mais simpático a olhos outros. Mesmo que esses nem me conheçam. Mas verão que meu sorriso tem razão de ali estar. E de ficar.

Quem fez oitenta pode se dar esse luxo. Se quiser.

Sabe por quê? Aos oitenta, os pés se fincam em um torrão que produz flores.

Assim, faço as pazes com os oitenta na espera dos noventa. Eles me encontrarão com os pés fincados num jardim.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
RENATO BENVINDO FRATA, nascido em 1946, é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

(Texto enviado pelo autor.)
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Álvaro Posselt (Céu pela janela) * 3 *

Faz muito calor. Estou longe de casa. A rua calma leva a uma igreja e a uma praça. O banco me convida a sentar e apreciar tudo em volta. Árvores, pássaros que ciscam, um senhor de bengala, o mato que cresce. Quanta tranquilidade! Surge um som pelos ares. Tento achar de onde vem.

Tarde de dezembro —
No alto-falante da igreja
os sinos tocam
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

Álvaro Posselt (1971)
O poeta ÁLVARO MARIEL POSSELT é um dos principais nomes da poesia contemporânea paranaense, reconhecido especialmente por sua maestria na arte do haicai. Nasceu em Curitiba/PR, em 1971. Curitibano "de raiz", nasceu, cresceu e sempre morou em Curitiba. Graduado em Letras, atuou durante anos como professor de Língua Portuguesa, trabalhando com revisões de texto, aulas particulares e ensino de português para estrangeiros. Posteriormente, deixou as salas de aula tradicionais para se dedicar integralmente à carreira literária e cultural. Atualmente, administra a Casa Posselt, seu próprio lar transformado em centro cultural independente em Curitiba. No espaço, ele acolhe o público em geral e turmas escolares para a realização de oficinas, rodas de leitura e debates. 
Embora tenha começado a escrever aos 16 anos, seu primeiro livro foi publicado quando le tinha 40 anos. Seu grande despertar para o haicai aconteceu em 2003, durante uma visita à [Biblioteca Pública do Paraná. O estilo breve e preciso da poesia japonesa tornou-se sua principal marca registrada. Na dinâmica do mercado independente onde atua, Álvaro foca sua carreira na circulação autônoma, feiras e projetos de revitalização urbana, não acumulando grandes prêmios literários institucionais de cunho competitivo, mas colecionando homenagens públicas na capital paranaense. Possui mais de uma dezena de livros publicados (vários deles focados no haicai e na literatura infantil). Entre seus principais títulos destacam-se: Tão breve quanto o agora (2012); Um lugar chamado instante (2013); Entre arranhões e lambidas — haicais & gatos (2014); Kaki (2015); Na sopa do sapo (2016); etc.
A relevância de Álvaro Posselt reside em retirar a poesia dos livros e integrá-la ao cotidiano urbano e social. Ele é considerado o herdeiro direto da tradição do haicai paranaense, consagrada outrora por nomes como Helena Kolody e Paulo Leminski. Seus versos estampam muros da cidade pelo projeto "Giz e Aprendiz" e aparecem em vitrais públicos da capital através da Associação de Ciclomobilidade (ACGB). Além disso, seu incansável trabalho voluntário de levar oficinas de haicai a escolas públicas há mais de uma década desempenha um papel fundamental na formação de novos leitores e jovens poetas no Brasil.

Fontes:
Álvaro Posselt (Verônica Fukuda, ilustradora). Céu pela janela. Curitiba/PR: Insight, 2023. Livro enviado pelo autor.
Biografia de Álvaro = Editora Insight, Biblioteca Pública do Paraná, Sesc PR, Recanto das Letras, Mural do Paraná, etc.