Na rua, nas arquibancadas, em bares e bilhares, Justino, quando solteiro, foi-não-foi, quebrava o pau. Até entradas na polícia! Quatro, e todas elas por arruaça ou resistência à prisão. Mesmo por desacato à autoridade.
Até que casou.
Foi o reverso da medalha.
A mulher, Dona Jandira, cantava de galo, enquanto Justino punha os ovos.
Justino não era um cabra frouxo, mas ficou. Pelo menos, em casa. Na rua, ainda dava para quebrar o galho. Quando os amigos do escritório faziam uma brincadeira (trabalhava num negócio de importação — ilegal — e exportação — inexistente), Justino tinha sempre pronto um revide em palavras ou atos. Não se demorava para chegar ao desforço físico. Isso, na rua. Em casa, era um Ferdinando manso e pacato. Ainda mais do que o touro que cheirava flores.
— Justino, venha cá — comandava Dona Jandira.
— Espere. Eu estou . . .
— Eu disse venha cá!
E lá vinha ele, humílimo marido de uma insuportável mulher — uma gorda senhora de 57 anos que lhe colocara uma coleira para melhor levá-lo, à corda curta, pelos dias da vida. Dias de 72 horas, porque desse tamanho pareciam ser os dias de Justino, sob o jugo dá ditadura.
Morava em São Cristóvão e torcia pelo Vasco. Aquele torcedor de rádio, porque a mulher jamais lhe dera o direito de ir ao campo. Ao campo, ele ia antes de casar. Do casamento pra cá, adeus Vasco. Ficava ouvindo o Waldir Amaral e lambia os beiços. Estava certo. Numa dessas, Dona Jandira podia irritar-se e gritar um "desliga a droga desse rádio", e aí, nem mel, nem cabaça. Por isso, o rádio era ouvido no menor volume, com o Justino de orelha encostada ao falante, quase precisando adivinhar a descrição do locutor.
Ah, vida sem gosto a do Justino! Via os amigos saindo de casa para o bilhar, e ele na janela sem poder participar daquela santa sinuquinha depois do jantar, prazer que tanto cultivara nos tempos de solteiro quando, fazendo merecida fé no seu taco, ganhara muito dinheirinho no Lamas e no Salão Palácio. E nem o papo na esquina sobre as virtudes e os defeitos do seu time podia contar com a sua participação. Tudo era proibido, mesmo tomar uma cervejinha no bar do Maurício, no domingo de manhã, de paletó de pijama, nas previsões do que aconteceria no jogo de logo mais, jogo que ele iria apenas escutar. Com o menor volume.
Era como se sua vida não fosse sua, mas de Dona Jandira. O que não deixava de ser verdade.
Quando pela vizinhança um marido chegava tarde para jantar ou dormir, a esposa do faltoso usava Justino como exemplo, numa explosão de ira:
— Eu devia te tratar como a Jandira trata o marido. Você merecia que eu fosse igual a ela.
Justino Oliveira dos Prazeres. Oliveira, está certo, mas quais os prazeres que pode sentir na vida um Justino tão frouxo?
De vez em quando, lembrava das brigas. Não as de agora, no escritório, que deviam ser mais colocadas na conta de pequenas revoltas, mas as brigas pra valer do tempo de solteiro, quando não havia cabresto curto nem gorda Jandira.
Ah, meus tempos. Um dia, na Galeria Cruzeiro, saiu na mão com Madame Satã e quase quebraram o Bar Nacional. Tiveram que chamar três carros da RP para segurar os dois. E os tapas que trocou com o crioulo que ofendeu o Vasco, no campo do Bangu? E o chofer de ônibus da Tijuca, com quem rolou pelo asfalto da Conde de Bonfim, deixando-o sem dois dentes e com o braço quebrado? Ah, tempo que não volta mais, sem Jandira e sem coleira!
Uma coisa, nem ele entendia: por que não brigava com a mulher? Ocasião não faltava. No dia do aniversário do "do meio", quando, na frente dos parentes e convidados, ela o fez se pôr de quatro para limpar o guaraná inocentemente derramado, era um ótimo exemplo. Podia haver momento melhor para o revide? Ela falara com ele como se fala a um cão leproso:
— Fez porcaria? Pois fique de quatro e lamba.
Lamber, ele não lambeu, mas à vista de todos, que fizeram silêncio para testemunhar sua obediência, ficou de quatro e limpou. Queria morrer, enquanto limpava. Pedia que o mundo se acabasse, na mesma rapidez com que procurava enxugar a poça com uma página do Jornal dos Sports. Tinha pensado em berrar: "Limpe você, sua vaca gorda!" — mas, e a coragem para falar essa verdade? De vez em quando, num momento de desabafo, enquanto sofria a viagem de volta a casa, com o Pimentel, seu amigo da Praça Argentina, Justino botava suas manguinhas de fora.
— Pimentel, minha mulher é um bicho.
— Por que você não se manda? — sugeria Pimentel, que já não aguentava mais esse papo chato, na volta ao lar.
— Me mandar como? Se eu me mandar, ela me acha.
— Acha nada — dizia Pimentel, já querendo cortar o assunto para ler as estórias em quadrinhos do jornal.
— Acha! Eu posso ir para o inferno, que ela me acha. Aquilo tem gênio de onça e faro de cachorro.
— Sabe de uma coisa, Justino? Você tem que dar duro nela. Minha mulher, vai lá em casa que tu vê. Minha mulher eu trato ali, debaixo de vara.
— Porque não é como a Jandira — esfriava Justino. — A Jandira é uma vaca ditatorial. Taí! — alegrava-se. — Eu agora consegui explicar: vaca, como as vacas, e ditatorial, como os ditadores.
— Dá um cacete nela. Desce-lhe o braço.
— De que jeito? — e ainda segredava. — Ela é que me bate.
— Mentira! — comentava Pimentel bem que acreditando.
— Ela se serve! Você já apanhou de mulher, Pimentel? É humilhante. Eu com as mãos cobrindo a cara, e ela mandando bala. Eu gritando e ela dando. E a vizinhança escuta tudo, Pimentel, porque quando ela bate é de repente, nem dá tempo de fechar a janela.
— Mas por que você não revida?
— Quanto mais tento, mais ela me cobre. Posso te falar com franqueza? Quando ela não me bate, eu já sinto falta.
"O hábito é uma segunda natureza", já dizia quem inventou essa frase. E sob essa segunda natureza, Justino deixava a vida seguir. Durante as surras torturantes, não era raro um moleque dar calço a outro que subia na janela, pelo lado de fora, especialmente para o gozar.
— Vocês nunca se deram, como é que agora estão brigando?
Só que não era briga: era surra mesmo. Justino apanhando e pedindo, com as mãos a cobrir o rosto:
— Na cara, não, que fica marca. Na cara, não.
Dona Jandira livrava a cara e esquentava o resto. Justino Oliveira dos Prazeres era um personagem do Nelson Rodrigues, como Jandira também o era.
Um dia, Justino chegou em casa às três da tarde. Dona Jandira estava no tanque, lavando uma combinação, com o rádio ligado. Ela cantava o bolero junto com Ângela Maria. Quando se voltou para pendurar a combinação no varal, deu de cara com Justino na porta da cozinha. Primeiro, o susto e depois, a briga:
— Por que em casa a essas horas? Tá doente? — perguntou num tom que não admitia outra hipótese para aquela volta do trabalho antes da hora (ele só chegava às sete e meia).
Despedido, não podia ser. Ele não era homem para se atrever a ser despedido. Insistiu na pergunta:
— Tá doente, cachorro?
O que Justino falou foi uma declaração de guerra:
— Entrei para o partido. Agora eu sou comunista.
Não caiu por falta de espaço. Balbuciou:
— Comunista?
— Fichado. Fiz ficha, com retrato e tudo. Sou comunista praticante. Tou no partido.
E para zombar mais do pavor que já notava na mulher, ainda gritou: "Viva Prestes!"
Aquele Justino que se encontrava meio sarcástico no portal da cozinha não era o mesmo que saíra de manhã. Claro que não era. De manhã, saíra um pacífico e humilhado Justino, um pobre homem submisso e achincalhado, e o que estava dominando a cena era um comunista. Comunistaço. Fichado e praticante — como ele próprio confessara.
Foi água na fervura. Dona Jandira, acostumada desde menina a temer os comunistas, era agora mulher de um. Comunista é fogo, ela sabia. E, sendo casada com um, teria que o suportar. Quis chamar o marido de cachorro novamente, mas o marido não era o mesmo, era um comunista. Ainda trocaram algumas palavras:
— Justino, Justininho.. . Você, comunista?
— Ativo — acrescentou Justino, cuspindo no chão da cozinha, coisa que sonhava fazer há um monte de anos.
— Fichado mesmo?
— Já não disse? Fichado, com retrato. Sabe aquele retrato com data? Tirei um de cinco minutos, e tá lá na ficha. De frente e de perfil.
— Mas Justino, comunista é... é...
— É o quê? — perguntou ele, crescendo na direção da mulher: — Comunista é o quê? Diz, se tu é homem! Sou comuna, e com muito orgulho! Comuna, e acabou a conversa.
Era o que faltava. Ter que dar satisfação à mulher. Mulher de comunista não tem vez. E se tiver, o cara não é comunista.
Foi como se a vida fosse virada pelo avesso.
— Boa noite, Justino.
— Cala a boca. Comunista não cumprimenta ninguém.
— Oh, Justino...
— Justino o escambau. No partido, meu nome é Brijinsky. Eu sou o camarada Brijinsky! — e ainda acrescentava, com voz inflamante pelo prazer: — Secretário de célula. Decora o nome: Brijinsky.
Daí pra frente, cadê autoridade sobre o marido? As amigas davam força para uma reação.
— Não se humilhe, Jandira.
— Pra quê? Pra ele me espancar?
— Não me diga, que ele lhe bate.
— E o meu corpo está todo roxo de quê? Olha, olha...
E exibia marcas arroxeadas nas costas, braços, seios e coxas. Mal aquelas marcas saíam, Brijinsky inventava outro motivo banal para dele fazer qualquer coisa de transcendental:
— Jandira, cadê o Jornal dos Sports?
— Não sei, Justino (tapa) Brijinsky.
— Ah, não sabe, né?
Pronto. Aí estava o motivo para uma surra sem compaixão. Até de cinturão Dona Jandira apanhou. Enquanto batia, Brijinsky falava as coisas todas que pensara falar nos tempos idos de Justino.
— Toma, vaca gorda. Isso é pra aprender a não discutir com Brijinsky. Toma mais esta e mais esta, vaca prenha. Toma, sargento de milícias. Tá pensando que eu sou o quê? Eu sou o Brijinsky, sua baleia encardida. Como é meu nome?
— Brijinsky — murmurava Dona Jandira, agarrada nas pernas do comunista.
— Decorou, bucho? Então, toma mais esta, de parabéns! — e o cinturão descia no lombo da mulher do Brijinsky, que apenas chorava. Uma virtude Dona Jandira tinha: não gritava nunca.
A Rua Bela, em São Cristóvão, teve, durante muito tempo, uma repetição de comentários. Não se falava de outra coisa que as surras de Brijinsky, o comunista. Bateu de cinto, de escova, de sapato, de panela, de frigideira. Bateu como quis e quando entendeu. Comunista é comunista. Houve um tempo em que chegou a dar pena ver aquela senhora gorda e suada lavando os pratos do jantar, com um pé repousado sobre a outra perna — de longe parecia uma siriema criada a vitamina — e Brijinsky, de banho tomado e roupa trocada — parar na porta rescendendo a "Cambridge", acender um "Petit Londrinos" e dizer, nem se gabe se desafiante, provocador ou irônico:
— Vou para a reunião do Partido.
— Vai demorar, Brijinsky? — ousava perguntar a humilhada mulher.
— Sei a que horas vou e não sei a que horas volto! — respondia e ainda gritava: — Aliás, nem sei se volto. Se eu for preso, não me procure — que o partido me ajuda a fugir.
Ela consentia sem palavras — e nem precisava o seu consentimento, porque ele ia mesmo.
E lá se ia Brijinsky, batendo a porta com estrondo, tentando demolir a casa.
Seus passos ressoavam como batidas de Estacas Franki pelos paralelepípedos da Rua Bela. Andava pelo meio da rua, que comunista não anda pela calçada. Na Praça Argentina pegava o bonde e ia até Benfica, onde o Pimentel o esperava no "Café Bar e Bilhares Nossa Senhora da Aparecida". Ali, ele colocava um avental, escolhia um taco (que era sempre o mesmo), e disputavam partidas de sinuca até duas, três da manhã. Entre uma partida e outra, enquanto devorava em três goles o copo de cerveja espumante, Justino costumava comentar:
— Pimentel, não há dinheiro que te pague essa ideia de me fingir de comunista.
E jogavam mais uma, sempre com a conta paga pelo Brijinsky. Era um dinheirinho que podia fazer certa falta, mas quanto vale a independência, camarada?
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *
CHICO ANYSIO foi um dos maiores artistas do Brasil, imortalizado por seu gênio humorístico e por uma vasta e refinada produção literária. FRANCISCO ANYSIO DE OLIVEIRA PAULA FILHO nasceu em Maranguape/CE, em 1931 e faleceu no Rio de Janeiro/RJ, em 2012. Passou a infância no Ceará e mudou-se aos 7/8 anos para o Rio de Janeiro, cidade onde fixou residência e viveu a maior parte de sua vida. Iniciou no rádio no fim dos anos 1940 como locutor, ator e redator. Estreou na televisão em 1957 e consolidou-se como o maior criador de personagens do país. Deu vida a 209 personagens icônicos, como o Professor Raimundo, Painho, Nazareno e Justo Veríssimo. Atuou como roteirista, diretor, compositor musical, dublador e pintor de telas.
Teve uma prolífica carreira como contista, romancista e cronista. Escrevia diariamente e publicou mais de 20 livros ao longo da vida. Embora consagrado, Chico Anysio não pertenceu à Academia Brasileira de Letras. Apesar de ter recebido forte campanha e apoio de imortais da época (como o escritor Arnaldo Niskier, ele não chegou a ocupar uma cadeira formal. No entanto, participou ativamente de círculos intelectuais e de academias de artes honorárias e regionais. Não acumulou grandes prêmios voltados estritamente à literatura tradicional, pois sua escrita frequentemente se misturava à dramaturgia e ao humor. Recebeu a Ordem do Mérito Cultural (OMC) do governo brasileiro por sua contribuição à cultura nacional. Conquistou prêmios máximos da crítica como o Troféu APCA por sua atuação e escrita.
Alguns Livros Publicados: Carapau (1978) – Seu primeiro romance, elogiado publicamente por Jorge Amado; O Telefone Amarelo (1979); Negro Léo (1980); Sou Francisco (1992) – Obra autobiográfica sobre sua trajetória pública; Jesuíno, O Profeta (1993) – Crônicas e causos sob a ótica de seu personagem; Como Segurar seu Casamento (2000).
Chico levou a oralidade brasileira e os tipos marginalizados do interior e das periferias urbanas para as páginas impressas. Ele deu continuidade à linhagem de grandes humoristas da literatura nacional, operando no mesmo nível de observação social de Lima Barreto e Stanislaw Ponte Preta. Conseguiu transformar a fala tipicamente nordestina e os sotaques regionais em alta literatura, unindo erudição técnica com apelo popular direto.
Fontes:
Chico Anysio. O enterro do anão. Publicado originalmente em 1973.
Biografia: Wikipedia, Memória Globo, Ebiografia, Educação.uol, Infoescola, Academia Brasileira de Letras, Folha de São Paulo, etc.