quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Jessé F. do Nascimento (Plantando Trovas)

 

1
A formiga, na labuta,
nos dá profunda lição;
não se curva ao peso e à luta,
vive em perfeita união.
2
Ah, relógio, meu amigo,
teus ponteiros, como correm!
O tempo voa contigo
e com ele os sonhos morrem...
3
Após tantos desenganos
e conselhos não ouvidos,
chego ao final dos meus anos
sem ter meus dias vividos.
4
“Aproveite a promoção”,
na loja, a faixa dizia;
aproveitou-a o ladrão,
num cochilo do vigia.
5
À sombra dos arvoredos,
dos meus sonhos de criança,
na rua dos meus folguedos
havia a placa: Esperança.
6
Caminhos, jardins e praças,
flores, cores - que beleza!
Deus derrama suas graças
dando graça à natureza!
7
Chora o coração sentindo
tristeza, nunca revolta;
os amigos vão partindo
numa viagem sem volta.
8
Com meus sonhos mais singelos,
embalados na esperança,
venho erguendo meus castelos
desde os tempos de criança.
9
Com respeito e amor, de fato,
um mundo melhor se faz;
e simbolizando o ato:
– a pomba branca da paz.
10
Corres tanto, mocidade,
és pela vida levada:
– amanhã, serás saudade,
serás velhice, mais nada.
11
Curtindo muita amargura,
trancado na solidão,
anônimo, sou figura
no meio da multidão.
12
Da infância alegre e sadia
guardo uma eterna lembrança.
“Meu Deus, oh, quanto queria
ser novamente criança."
13
Dos meus sonhos de criança
e dos folguedos, saudade!
E na rua da lembrança,
a placa: – Felicidade!
14
Em seu pensamento insano,
vindo a tudo destruir,
como pode o ser humano
a arara azul extinguir?
15
Extraí toda a beleza
de uma vida bem vivida;
e a velhice, com certeza,
vai adiando a partida...
16
Galgo nuvens montanhosas,
sou na vida um alpinista;
mesmo em trilhas perigosas,
busco os sonhos da conquista.
17
Leu “Campanha do Agasalho”,
quando por ali passou;
o espertalhão ou paspalho
em vez de deixar, pegou.
18
Não adormeças teus sonhos,
não os esqueças, jamais;
os dias são mais risonhos
pra aqueles que sonham mais.
19
Não censuro o teu pecado,
não me censures também;
de vidro é o nosso telhado,
pecados... quem não os têm?
20
Não há glória, com certeza,
nem desafio maior,
que a conquista da riqueza
com trabalho e com suor.
21
Não viva em sonhos somente,
mas com todo o seu ardor,
viva mais intensamente
os seus momentos de amor.
22
Navegando nas poesias,
nas ondas da inspiração,
iço as velas de alegrias
deixo o rumo ao coração.
23
Navego em ondas serenas
ou mar às vezes cruel;
consciente, sou apenas
um barquinho de papel.
24
Nesta vida, de passagem
sem morada permanente,
numa tão breve viagem,
sou um turista somente.
25
Noite bela e enluarada,
vejo-me em sonho bonito,
numa tênue caminhada
rumando para o infinito.
26
No meu sonho mais profundo,
em pensamentos imerso,
eu fui além do meu mundo,
viajei pelo universo.
27
No silêncio dos meus dias,
alheio a tudo e à razão,
eu vivo as noites vazias
abraçado à solidão...
28
Num cenário colorido,
cheio de encanto e alegria,
a vida tem mais sentido:
– a primavera extasia!
29
O céu de nuvens ornado,
as ondas vêm e se vão;
na areia, um carro isolado:
– o mar...dois jovens...paixão...
30
O genro sempre é quem dança,
a minha sogra é um porre;
o nome dela é "Esperança"
que é a última que morre.
31
Pôr do sol... em frente ao mar,
na rede os jovens, sentados,
num cenário singular,
trocam segredos e agrados.
32
Pra acreditar foi um custo;
na primeira gravidez,
levou um tremendo susto;
foram cinco de uma vez!
33
Pressuroso em meu afã
de projetar minha ação,
sempre esqueço: é o amanhã
ponto de interrogação.
34
Semelhante a um quartel
tem sido assim minha casa;
minha mulher, coronel
e eu sempre patente rasa.
35
Sempre fui um sonhador,
sonhos...por que não os ter?
Vivo meus sonhos de amor
porque sonhar é viver.
36
Ser solteiro é livre estar,
jamais me vejo casado;
para subir ao altar,
só vou mesmo acorrentado...
37
Tenho ciúme e desgosto,
quando, à noite, leve brisa
afaga o teu meigo rosto
e os teus cabelos alisa.
38
Teu olhar, quanta ternura! 
Tuas mãos, quanto carinho! 
Teu amor, oh, que ventura
pôs a vida em meu caminho.
39
Velhice, andar vacilante;
noite... a sombra descortina
o seu passado distante:
– os tempos de bailarina.
40
Viçosas, plantas e flores,
a natureza se esmera.
É o despertar dos amores,
tudo é belo. É primavera!
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
Jessé F. Nascimento (1944)
JESSÉ FERNANDES DO NASCIMENTO nasceu em 1944, em Ibiraçu/ ES. Filho de José Antonio do Nascimento e Júlia Fernandes Nascimento. Mudou-se para o estado do Rio de Janeiro, onde residiu por mais de 50 anos na capital fluminense. Posteriormente, transferiu sua residência fixa para a cidade histórica de Angra dos Reis (RJ). Atuou e aposentou-se como jornalista. Descobriu o encanto pela trova ainda na adolescência, quando ganhou de presente de uma prima o livro "Meus irmãos, os Trovadores". Aos 16 anos, participou e foi premiado em seu primeiro concurso de trovas (promovido pela Rádio Mayrink Veiga). Escreve de forma prolífica e possui mais de uma centena de crônicas, contos e poesias publicados em plataformas de leitura literária digital, como o Recanto das Letras. É um trovador premiado e veterano em concursos nacionais de grande relevância na cultura da trova. Entre suas distinções, destacam-se posições laureadas em certames como o Concurso de Trovas de Maranguape/CE, o Prêmio Capistrano de Abreu, os Jogos Florais e concursos de São Gonçalo/RJ, Caicó/RN e Itaocara/RJ. Na Coleção Terra e Céu, antologia poética que reúne suas principais e mais celebradas trovas. Ele também possui participação em dezenas de coletâneas e coletivos de Jogos Florais impressos por todo o Brasil.
A importância de Jessé Fernandes do Nascimento concentra-se na preservação e difusão da Trova no Brasil. Como jornalista e delegado, Jessé atua como um verdadeiro guardião dessa herança cultural, ajudando a descentralizar a poesia e levando oficinas, concursos e visibilidade literária para a região de Angra dos Reis. Sua escrita é reconhecida entre seus pares pela extrema precisão métrica e capacidade de emocionar através da concisão lírica e filosófica. 

Júlia Lopes de Almeida (A Caolha)

A caolha era uma mulher magra, alta, macilenta, peito fundo, busto arqueado, braços compridos, delgados, largos nos cotovelos, grossos nos pulsos; mãos grandes, ossudas, estragadas pelo reumatismo e pelo trabalho; unhas grossas, chatas e cinzentas, cabelo crespo, de uma cor indecisa entre o branco sujo e o louro grisalho, desse cabelo cujo contato parece dever ser áspero e espinhento; boca descaída, numa expressão de desprezo, pescoço longo, engelhado, como o pescoço dos urubus; dentes falhos e cariados.

O seu aspecto infundia terror às crianças e repulsão aos adultos; não tanto pela sua altura e extraordinária magreza, mas porque a desgraçada tinha um defeito horrível: haviam lhe extraído o olho esquerdo; a pálpebra descera mirrada, deixando, contudo, junto ao lacrimal, uma fístula continuamente porejante.

Era essa pinta amarela sobre o fundo denegrido da olheira, era essa destilação incessante de pus que a tornava repulsiva aos olhos de toda gente.

Morava numa casa pequena, paga pelo filho único, operário numa fábrica de alfaiate; ela lavava a roupa para os hospitais e dava conta de todo o serviço da casa inclusive cozinha. O filho, enquanto era pequeno, comia os pobres jantares feitos por ela, às vezes até no mesmo prato; à proporção que ia crescendo, ia-se a pouco e pouco manifestando na fisionomia a repugnância por essa comida; até que um dia, tendo já um ordenadozinho, declarou à mãe que, por conveniência do negócio, passava a comer fora…

Ela fingiu não perceber a verdade, e resignou-se.

Daquele filho vinha-lhe todo o bem e todo o mal.

Que lhe importava o desprezo dos outros, se o seu filho adorado lhe pagasse com um beijo todas as amarguras da existência?

Um beijo dele era melhor que um dia de sol, era a suprema carícia para o triste coração de mãe! Mas… os beijos foram escasseando também, com o crescimento do Antonico! Em criança ele apertava-a nos braços e enchia-lhe a cara de beijos; depois, passou a beijá-la só na face direita, aquela onde não havia vestígios de doença; agora, limitava-se a beijar-lhe a mão!

Ela compreendia tudo e calava-se.

O filho não sofria menos.

Quando em criança entrou para a escola pública da freguesia, começaram logo os colegas, que o viam ir e vir com a mãe, a chamá-lo – o filho da caolha.

Aquilo exasperava-o; respondia sempre:

– Eu tenho nome!

Os outros riam e chacoteavam-no; ele se queixava aos mestres, os mestres ralhavam com os discípulos, chegavam mesmo a castigá-los – mas a alcunha pegou. Já não era só na escola que o chamavam assim.

Na rua, muitas vezes, ele ouvia de uma ou outra janela dizerem: o filho da caolha! Lá vai o filho da caolha! Lá vem o filho da caolha!

Eram as irmãs dos colegas, meninas novas, inocentes e que, industriadas pelos irmãos, feriam o coração do pobre Antonico cada vez que o viam passar!

As quitandeiras, onde iam comprar as goiabas ou as bananas para o lanche, aprenderam depressa a denominá-lo como os outros, e, muitas vezes, afastando os pequenos que se aglomeravam ao redor delas, diziam, estendendo uma mancheia de araçás, com piedade e simpatia:

– Taí, isso é para o filho da caolha!

O Antonico preferia não receber o presente a ouvi-lo acompanhar de tais palavras; tanto mais que os outros, com inveja, rompiam a gritar, cantando em coro, num estribilho já combinado:

– Filho da caolha, filho da caolha!

O Antonico pediu à mãe que não o fosse buscar à escola; e muito vermelho, contou-lhe a causa; sempre que o viam aparecer à porta do colégio os companheiros murmuravam injúrias, piscavam os olhos para o Antonico e faziam caretas de náuseas.

A caolha suspirou e nunca mais foi buscar o filho.

Aos onze anos o Antonico pediu para sair da escola: levava a brigar com os condiscípulos, que o intrigavam e malqueriam. Pediu para entrar para uma oficina de marceneiro. Mas na oficina de marceneiro aprenderam depressa a chamá-lo – o filho da caolha, a humilhá-lo, como no colégio.

Além de tudo, o serviço era pesado e ele começou a ter vertigens e desmaios. Arranjou então um lugar de caixeiro de venda: os seus colegas agruparam-se à porta, insultando-o, e o vendeiro achou prudente mandar o caixeiro embora, tanto que a rapaziada ia lhe dando cabo do feijão e do arroz expostos à porta nos sacos abertos! Era uma contínua saraivada de cereais sobre o pobre Antonico!

Depois disso passou um tempo em casa, ocioso, magro, amarelo, deitado pelos cantos, dormindo às moscas, sempre zangado e sempre bocejante! Evitava sair de dia e nunca, mas nunca, acompanhava a mãe; esta poupava-o: tinha medo que o rapaz, num dos desmaios, lhe morresse nos braços, e por isso nem sequer o repreendia! Aos dezesseis anos, vendo-o mais forte, pediu e obteve-lhe, a caolha, um lugar numa oficina de alfaiate. A infeliz mulher contou ao mestre toda a história do filho e suplicou-lhe que não deixasse os aprendizes humilhá-lo; que os fizesse terem caridade!

Antonico encontrou na oficina uma certa reserva e silêncio da parte dos companheiros; quando o mestre dizia: sr. Antonico, ele percebia um sorriso mal oculto nos lábios dos oficiais; mas a pouco e pouco essa suspeita, ou esse sorriso, se foi desvanecendo, até que principiou a sentir-se bem ali.

Decorreram alguns anos e chegou a vez de Antonico se apaixonar. Até aí, numa ou outra pretensão de namoro que ele tivera, encontrara sempre uma resistência que o desanimava, e que o fazia retroceder sem grandes mágoas. Agora, porém, a coisa era diversa: ele amava! Amava como um louco a linda moreninha da esquina fronteira, uma rapariguinha adorável, de olhos negros como veludos e boca fresca como um botão de rosa. O Antonico voltou a ser assíduo em casa e expandia-se mais carinhosamente com a mãe; um dia, em que viu os olhos da morena fixarem os seus, entrou como um louco no quarto da caolha e beijou-a mesmo na face esquerda, num transbordamento de esquecida ternura!

Aquele beijo foi para a infeliz uma inundação de júbilo! Tornara a encontrar o seu querido filho! Pôs-se a cantar toda a tarde, e nessa noite, ao adormecer, dizia consigo:

– Sou muito feliz… o meu filho é um anjo!

Entretanto, o Antonico escrevia, num papel fino, a sua declaração de amor à vizinha. No dia seguinte mandou-lhe cedo a carta. A resposta fez-se esperar. Durante muitos dias Antonico perdia-se em amarguradas conjecturas.

Ao princípio pensava: – É o pudor.

Depois começou a desconfiar de outra causa; por fim recebeu uma carta em que a bela moreninha confessava consentir em ser sua mulher, se ele se separasse completamente da mãe! Vinham explicações confusas, mal alinhavadas: lembrava a mudança de bairro; ele ali era muito conhecido por filho da caolha, e bem compreendia que ela não se poderia sujeitar a ser alcunhada em breve de – nora da caolha, ou coisa semelhante!

O Antonico chorou! Não podia crer que a sua casta e gentil moreninha tivesse pensamentos tão práticos!

Depois o seu rancor se voltou para a mãe.

Ela era a causadora de toda a sua desgraça! Aquela mulher perturbara a sua infância, quebrara-lhe todas as carreiras, e agora o seu mais brilhante sonho de futuro sumia-se diante dela! Lamentava-se por ter nascido de mulher tão feia, e resolveu procurar meio de separar-se dela; iria considerar-se humilhado continuando sob o mesmo teto; havia de protegê-la de longe, vindo de vez em quando vê-la à noite, furtivamente…

Salvava assim a responsabilidade do protetor e, ao mesmo tempo, consagraria à sua amada a felicidade que lhe devia em troca do seu consentimento e amor…

Passou um dia terrível; à noite, voltando para casa levava o seu projeto e a decisão de o expor à mãe.

A velha, agachada à porta do quintal, lavava umas panelas com um trapo engordurado. O Antonico pensou: “Ao dizer a verdade eu havia de sujeitar minha mulher a viver em companhia de… uma tal criatura?” Estas últimas palavras foram arrastadas pelo seu espírito com verdadeira dor. A caolha levantou para ele o rosto, e o Antonico, vendo-lhe o pus na face, disse:
– Limpe a cara, mãe…

Ela sumiu a cabeça no avental; ele continuou:

– Afinal, nunca me explicou bem a que é devido esse defeito!

– Foi uma doença, – respondeu sufocadamente a mãe – é melhor não lembrar isso!

– E é sempre a sua resposta: é melhor não lembrar isso! Por quê?

– Porque não vale a pena; nada se remedeia…

– Bem! Agora escute: trago-lhe uma novidade. O patrão exige que eu vá dormir na vizinhança da loja… já aluguei um quarto; a senhora fica aqui e eu virei todos os dias saber da sua saúde ou se tem necessidade de alguma coisa… É por força maior; não temos remédio senão sujeitar-nos!…

Ele, magrinho, curvado pelo hábito de costurar sobre os joelhos, delgado e amarelo como todos os rapazes criados à sombra das oficinas, onde o trabalho começa cedo e o serão acaba tarde, tinha lançado naquelas palavras toda a sua energia, e espreitava agora a mãe com um olhar desconfiado e medroso.

A caolha se levantou e, fixando o filho com uma expressão terrível, respondeu com doloroso desdém:

– Embusteiro! O que você tem é vergonha de ser meu filho! Saia! Que eu também já sinto vergonha de ser mãe de semelhante ingrato!

O rapaz saiu cabisbaixo, humilde, surpreso da atitude que assumira a mãe, até então sempre paciente e cordata; ia com medo, maquinalmente, obedecendo à ordem que tão feroz e imperativamente lhe dera a caolha.

Ela o acompanhou, fechou com estrondo a porta, e vendo-se só, encostou-se cambaleante à parede do corredor e desabafou em soluços.

O Antonico passou uma tarde e uma noite de angústia.

Na manhã seguinte o seu primeiro desejo foi voltar à casa; mas não teve coragem; via o rosto colérico da mãe, faces contraídas, lábios adelgaçados pelo ódio, narinas dilatadas, o olho direito saliente, a penetrar-lhe até o fundo do coração, o olho esquerdo arrepanhado, murcho – murcho e sujo de pus; via a sua atitude altiva, o seu dedo ossudo, de falanges salientes, apontando-lhe com energia a porta da rua; sentia-lhe ainda o som cavernoso da voz, e o grande fôlego que ela tomara para dizer as verdadeiras e amargas palavras que lhe atirara no rosto; via toda a cena da véspera e não se animava a arrostar com o perigo de outra semelhante.

Providencialmente, lembrou-se da madrinha, única amiga da caolha, mas que, entretanto, raramente a procurava.

Foi pedir-lhe que interviesse, e contou-lhe sinceramente tudo o que houvera.

A madrinha escutou-o comovida; depois disse:

– Eu previa isso mesmo, quando aconselhava tua mãe a que te dissesse a verdade inteira; ela não quis, aí está!

– Que verdade, madrinha?

Encontraram a caolha a tirar umas nódoas do fraque do filho – queria mandar-lhe a roupa limpinha. A infeliz se arrependera das palavras que dissera e tinha passado a noite à janela, esperando que o Antonico voltasse ou passasse apenas… Via o porvir negro e vazio e já se queixava de si! Quando a amiga e o filho entraram, ela ficou imóvel: a surpresa e a alegria amarraram-lhe toda a ação.

A madrinha do Antonico começou logo:

– O teu rapaz foi suplicar-me que te viesse pedir perdão pelo que houve aqui ontem e eu aproveito a ocasião para, à tua vista, contar-lhe o que já deverias ter-lhe dito!

– Cala-te! – murmurou com voz apagada a caolha.

– Não me calo! Essa pieguice é que te tem prejudicado! Olha, rapaz! Quem cegou a tua mãe foste tu!

O afilhado tornou-se lívido; e ela concluiu:

– Ah, não tiveste culpa! Eras muito pequeno quando, um dia, ao almoço, levantaste na mãozinha um garfo; ela estava distraída, e antes que eu pudesse evitar a catástrofe, tu o enterraste pelo olho esquerdo! Ainda tenho no ouvido o grito de dor que ela deu!

O Antonico caiu pesadamente de bruços, com um desmaio; a mãe acercou-se rapidamente dele, murmurando trêmula:

– Pobre filho! Vês? Era por isto que eu não queria dizer nada!
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Júlia Lopes de Almeida (1862 - 1934)
A escritora, cronista e teatróloga JÚLIA VALENTINA DA SILVEIRA LOPES DE ALMEIDA é uma das figuras mais importantes da literatura brasileira da virada do século XIX para o XX, sendo considerada a primeira mulher a viver profissionalmente de seus direitos autorais e de sua escrita no Brasil. Nasceu em 1862, no Rio de Janeiro/RJ, onde faleceu em 1934 (aos 71 anos), vítima de malária. Embora tenha nascido na capital fluminense, mudou-se na infância com a família para Campinas/SP, onde cresceu e iniciou sua carreira. Morou temporariamente em Lisboa e Porto/Portugal, onde se casou em 1887, e viajou extensamente por países da Europa, África e América do Sul. Posteriormente, fixou residência definitiva no Rio de Janeiro. Ao contrário da maioria das mulheres de sua época, Júlia teve uma intensa atuação no jornalismo de grande circulação, escrevendo crônicas e artigos de opinião para periódicos de peso, como o O Paiz, Gazeta de Notícias e o Jornal do Commercio. Foi uma atuante ativista social, trabalhando ativamente em prol do abolicionismo, da causa republicana e do direito das mulheres à educação formal e ao voto. Em 1919, uniu-se a Berta Lutz para fundar a Legião da Mulher Brasileira, exercendo o cargo de presidente honorária.
Sua estreia ocorreu em 1886 com o livro de crônicas Traços e Iluminuras, publicado em Lisboa. Ela alcançou enorme prestígio crítico e comercial na chamada Belle Époque brasileira, sendo aclamada como a "Rainha das escritoras". Júlia foi uma das idealizadoras e fundadoras da Academia Brasileira de Letras (ABL) em 1897. Seu nome constava na lista original de fundadores ao lado de nomes como Machado de Assis e Olavo Bilac. No entanto, na reunião de instalação, os acadêmicos decidiram seguir o modelo estrito da Academia Francesa, permitindo apenas homens. Impedida de ocupar sua própria cadeira (a de número 3) por ser mulher, os membros elegeram em seu lugar o seu marido, o poeta Filinto de Almeida — que anos mais tarde admitiria o absurdo da exclusão. Na virada do século XIX para o XX, as premiações literárias institucionais no Brasil eram quase inexistentes. O verdadeiro prêmio da autora foi o sucesso comercial sem precedentes para uma mulher. Ela era uma das autoras mais publicadas da Primeira República, disputando tiragens e vendagens diretamente com os maiores romancistas masculinos da época.
Escreveu mais de 40 títulos, incluindo romances de fôlego, peças de teatro, contos e livros didáticos: Contos Infantis (1887) – Escrito em parceria com sua irmã Adelina Lopes Vieira, foi adotado por décadas nas escolas primárias brasileiras; A Família Medeiros (1892) – Romance que aborda a transição da sociedade escravocrata para o trabalho livre no interior paulista; A Falência (1901) – Sua obra-prima. Um romance realista de crítica social demolidora que narra a derrocada financeira e moral de uma família burguesa envolvida no comércio de café no Rio de Janeiro; Eles e Elas (1910) – Livro focado nas complexidades das dinâmicas psicológicas e matrimoniais; A Silveirinha (1913) – Obra que discute as limitações impostas às mulheres na sociedade urbana.
A importância de Júlia Lopes de Almeida vai muito além de sua excelente prosa realista-naturalista. Ela foi uma pioneira na profissionalização da escritora mulher no Brasil, provando que a literatura produzida por mãos femininas poderia ter apelo comercial de massa e alta densidade psicológica e intelectual. Em seus romances, ela ousou retirar a idealização romântica das relações familiares e expôs as hipocrisias da burguesia carioca. Foi uma das primeiras vozes literárias a defender abertamente o divórcio, a emancipação financeira feminina e a urgência de educar as mulheres não para o casamento, mas para a autonomia. O resgate moderno de sua produção corrige uma das maiores injustiças históricas da história cultural do Brasil.

Fonte:
Júlia Lopes de Almeida. Ânsia eterna. Publicado originalmente em 1903.

A. A. de Assis (O Sofrido Natal de Mário)

Eram os anos 1950, Maringá uma cidade nascendo. Mário, solteiro, português recém-chegado da pátria, morava em hotel, comia em restaurantes, nenhum parente no Brasil.

Naquela véspera de Natal, saiu às ruas pensando em como passar o tempo. A missa do galo seria às 20h. Mário acompanhou os passantes, foi rezar também. Terminada a celebração, a cidade esvaziou-se, as famílias recolhidas para o aconchego em torno da ceia.

Rodou à procura de um lugar onde pudesse afogar a tristeza numa taça de vinho, num jarro de chope. Nenhum restaurante aberto, sequer um botequim. Em ocasiões assim a dor do imigrante solitário é terrível. Mário recordava as festas de Natal em sua aldeia. A árvore enfeitada. A troca de presentes. O presépio. A grande mesa reunindo pais, avós, irmãos, vizinhos. Menestréis gorjeando nas esquinas. Sinos alegres saudando a vinda de Jesus.

Caminhando pelas ruas poeirentas, ele ouvia a felicidade que brotava de dentro das casas. O hotel só dava dormida, não servia refeições, e estava sem hóspedes naquele Natal. Mário não tinha nem mesmo uma namorada aqui, só pensava na noivinha que deixara à sua espera na Europa. Tinha alguns conhecidos na cidade, porém não queria incomodá-los: estariam reunidos em família, alguns teriam viajado. Retornando ao hotel, trancou-se no quarto, chorou. Tão fortes os soluços, que a proprietária ouviu, bateu à porta: “O que houve, meu jovem? Está sentindo alguma coisa? Quer que lhe chame um médico?”

Ora, médico! Não existe injeção para saudade. A dona do hotel logo compreendeu, trouxe um copo d’água, emprestou o ouvido ao moço para que ele desabafasse. Ao percebê-lo mais calmo, convidou: “Você vai cear conosco. Estamos em casa somente eu, meu marido e um filho; gostaríamos muito de ter a sua companhia”.

Vieram-lhe à lembrança histórias que seus pais contavam. A angústia de Maria e José hospedados numa estrebaria para o Menino nascer. Aquelas palavras do Mestre: “Fui estrangeiro e você me acolheu”. Ele ali sentindo fundo o drama do imigrante solitário, e ao mesmo tempo conhecendo a graça de encontrar amigos numa terra tão distante da sua. A mesa farta, a família feliz, as orações. Ele jamais agradecera a Deus com tamanha emoção.

Tudo isso borbulhava forte no coração de Mário. Trabalhou muito, fez seu pé-de-meia, mandou vir da pátria os irmãos, foi lá, voltou casado, nunca mais passou um Natal sozinho. Ficou, porém, a marca. Pensou nas crianças abandonadas. Como seria o Natal dos órfãos? Como se sentiriam os meninos sem lar?

Aquela simpática dona de hotel talvez jamais viesse a saber que Mário, ao longo da vida, retribuiria a generosidade dela diminuindo as aflições de centenas de crianças pobres. Fez do amparo a elas uma razão de existir. Tanto quanto estivesse a seu alcance, não deixaria ninguém chorar de solidão como chorou ele naquele sofrido Natal em Maringá.
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 17-12-2020)
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A. A. de Assis (1933)
        ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Carlos Lúcio Gontijo (Poesias Escolhidas)

 

PRIVACIDADE

Aonde vou levo minha casa
Minha intimidade está no outro
Perco privacidade se me escondo
Ela existe enquanto me revelo
Por autoestima velo o próximo
Como se cuidasse de mim mesmo
A amizade é joia de anjo
Arranjo divino para nossa sobrevivência
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ORAÇÃO DOS CASAIS

Meu bem, sei que Deus protege os casais
Semeia trigais de ternura na pele
Para que o amor sele as marcas da procura
Então, na hora em que a gente for dormir
Façamos jus aos cuidados do Senhor
Por favor, acenda-me quando apagar a luz!
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PSICANÁLISE

Na bandeja fria, a mente de Sartre
O olho do Freud que me espia
Eu salgo no vinagre
Degustando o milagre de me descobrir
Perdido numa rua escura de Paris
Bastilha nua que me liberta
Em ilha virtual demarcada a giz!
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SOL ETERNO

Há mais alegria na procura que no encontro
A poesia da vida está na surpresa das esquinas
Em liberdade as diferenças se fazem divinas
Não se toma água limpa em fonte suja
Quem não garimpa dentro de si mesmo
Enferruja com seu toque tudo que amanhece
Não se conhece nem se doa ao próximo
É como canoa que temesse a festa da correnteza
A Natureza acontece na candura da simbiose
Ao horizonte do amor basta a luz da ternura
O sabor da fruta não depende da semente
Vem do calor da mão calejada do plantador
Pôr-do-sol que não se põe no peito da gente!
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EVAPORAÇÃO

Arreio o cavalo baio da saudade
E saio por aí feito raio
Carregando balaio de lembranças
Tropeço em desejos
Em beijos caio
Apesar da procura de outros afagos
Tateio e trago a fumaça de sua presença
Que evapora do corpo em que vagueio…
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ANO NOVO

Não me importa a frase feita
Se a mulher amada não me vem
Não me importa nenhuma seita
Se a fé diz-me amém
Não me importa o termo
Se todos os ermos me acham
Não me importam os fenestrados
Se as portas não me encaixam
Não me importam os enlatados
Se a toda fome me abro
Não me importa o velho quadro
Se já pendurei-me um novo olhar.
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CASA DE HERANÇA

Os olhos são o cio das luzes
Sem eles a claridade não teria razão
Nossa emoção espiritual é fio condutor
Calor que faz a prosopopeia dos objetos
Por isso, mãe, ao vender nossa casa
Foi como negociar meu berço
Cortar as asas de pássaro
Perder o terço de orações
Mãe, confesso que chorei
Molhei meu rosto feito nuvem de chuva
Abandonei paredes que erguemos com a mão
E o limoeiro, mãe, lá no meio do terreiro
Quando for de seca a estação
Quem vai adivinhar-lhe a sede?
Mãe, em outra rede a paisagem da janela
Nova sentinela para nossas coisas
Recordo uma vida de menos solidão
Quando antes desta minha viuvez de mãe
Até havia mais doce na acidez do limão!
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LÓGICA DAS BORBOLETAS

Cada borboleta é uma alavanca
Que arranca tumores do chão
Tudo então ganha asas e voa
Em coisa à toa se transforma toda mágoa
Não há por que se afogar em água rasa
Quando até larva se ergue alada
E faz do rastejar vida passada!
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ALDEIA CAPITAL

Meço infinitos entre concreto
Num secreto desejo de abolição
Como rio que  sonha cachoeira
Meus olhos voam na poeira das ruas
Senzalas nuas da injustiça social
Crucificando braços, erguendo escuridão
Paisagens e laços da construção capital
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Carlos Lúcio Gontijo (1952)
CARLOS LÚCIO GONTIJO nasceu em Santo Antônio do Monte, município localizado na região do Centro-Oeste do estado de Minas Gerais, em 1952. Passou a infância e juventude em sua terra natal. Morou na cidade de Contagem/MG (de 1985 a 2010), onde foi agraciado com o título de cidadão honorário. Mudou-se para a capital mineira, Belo Horizonte, para dar andamento aos seus estudos e consolidar sua carreira profissional. Posteriormente, manteve residência e forte vínculo comunitário em sua cidade natal, onde chegou a exercer cargo público de gestão cultural. Formou-se em Jornalismo em 1976 pela antiga FAFI-BH (atualmente UniBH). Construiu uma sólida carreira na imprensa mineira, trabalhando por 31 anos no jornal Diário da Tarde (dos Diários Associados), além de passagens pelos jornais Diário de Minas, Jornal de Minas, Tribuna de Mariana e Hoje em Dia. Devido ao seu prestígio na profissão, foi eleito Presidente da Associação Mineira de Imprensa (AMI). No setor público, atuou como Secretário Municipal de Cultura em Santo Antônio do Monte.
Iniciou oficialmente a sua caminhada literária em 1977 com a publicação do seu primeiro livro. Transita com facilidade pela poesia, pelo romance, por crônicas e também pela literatura infantil. Sua escrita recebeu elogios de grandes nomes da literatura nacional, como Carlos Drummond de Andrade, que o incentivou por meio de correspondências. Possui uma presença marcante em diversas instituições literárias. É membro da Academia Mineira de Belas Artes (AMBA), da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil (ALACIB), da Academia Santantoniense de Letras (ACADSAL), e correspondente em academias como a de Teófilo Otoni (ALTO) e a de São Pedro da Aldeia (ALSPA/RJ). Integra também o movimento internacional Poetas del Mundo. Recebeu o prestigioso Troféu Carlos Drummond de Andrade, em Itabira. Agraciado com o Prêmio Mérito Literário Poeta Antônio Fonseca (da Academia Betinense de Letras) e o Troféu Magnum de Cultura; Em sua terra natal, foi eternizado dando nome à Biblioteca Poeta Carlos Lúcio Gontijo (no Instituto Maria Angélica de Castro) e à Biblioteca Comunitária do Bairro Flávio de Oliveira.
Com uma produção literária vasta de mais de duas dezenas de títulos, destacam-se em sua bibliografia: Leite e Lua (1977 — livro de estreia); Ventre do Mundo; O Contador de Formigas; O Ser Poetizado; Cabine 33; Quando a Vez é do Mar; Beijoaria (Infantil); Agenda (Infantil), etc.
A relevância de Carlos Lúcio Gontijo reside na construção de uma voz poética autêntica, independente e livre de amarras de escolas literárias rígidas. O autor consegue costurar com rara habilidade a sensibilidade lírica com o rigor e a observação crítica herdados de sua bagagem jornalística. Sua obra valoriza a identidade mineira, o cotidiano e as relações fraternas, promovendo o incentivo à leitura tanto para o público adulto quanto por meio de sua expressiva dedicação à literatura infanto-juvenil. Através do seu dinamismo em academias e associações de imprensa, tornou-se um importante articulador cultural no estado de Minas Gerais, defendendo ativamente o espaço do escritor contemporâneo na sociedade.

Fonte:
Poesias enviadas pelo autor
Biografia = Jornal Aldrava, Site de Gontijo, 

Graciliano Ramos (A Última Noite de Natal)

Os grandes olhos claros e aguados boiavam na sombra nevoenta, cheios de espanto. Esfregou-os, arrastou-se pesado e entanguido, mal seguro à bengala, sentou-se num banco do jardim, fatigado, suspirando, examinou a custo os arredores. Gastou uns minutos passeando as mãos desajeitadas na gola do casaco. 0 exercício penoso enfureceu-o. Resmungou palavras enérgicas e incompreensíveis, esforçou-se por dominar a tremura.

Com certeza era por causa do frio que os dedos caprichosos divagavam no pano esgarçado e os queixos banguelos se moviam continuamente. Era por causa do frio, sem dúvida. Se conseguisse abotoar o casaco e levantar a gola, os movimentos incômodos cessariam.

Em que estava pensando ao chegar ali? Ia jurar que pensava em coisas agradáveis. Ou seriam desagradáveis? Pedaços de recordações incoerentes dançavam-lhe no espírito, acendiam-se, apagavam-se, como vaga-lumes, confundiam-se com os letreiros verdes, vermelhos, que se acendiam e apagavam também quase invisíveis na poeira nebulosa. Tentou reunir as letras, fixar a atenção nas mais próximas, brilhantes, enormes.

A igreja toda aberta resplandecia. O incenso formava uma neblina perturbadora. E, através dela, os altares refugiam como sóis, a luz das velas numerosas chispava nas auréolas dos santos.

Que doidice ! Não é que estava imaginando ver ali, nas transitórias claridades, a igreja vista sessenta anos antes? Tresvariava. Sacudiu a cabeça, afastou a lembrança importuna. De que servia desenterrar casos antigos, alegrias e sofrimentos incompletos?

O que devia fazer... Pôs-se a mexer os beiços, procurando nas trevas úmidas e leitosas que o envolviam o resto da frase. O que devia fazer... Repetiu isto muitas vezes, numa cantilena, distraiu-se olhando a chuva amarela, verde, vermelha, dos repuxos. Impossível distinguir as cores. Ultimamente a cidade ia escurecendo. As pessoas que transitavam junto aos canteiros sem flores eram vultos indecisos; .os prédios se diluíam nas ramagens das árvores, manchas negras; os letreiros vacilantes não tinham sentido.

O que devia fazer... De repente a ideia rebelde surgiu. Bem. Devia meter os botões nas casas e agasalhar o pescoço. Depois cruzaria os braços, aqueceria as mãos debaixo dos sovacos, ficaria imóvel e tranquilo. Mas os dedos finos e engelhados avançavam, recuavam, não havia meio de governá-los. Se pudesse riscar um fósforo, chegá-lo a um cigarro, esqueceria os inconvenientes que o aperreavam: o frio, a dureza das juntas, o tremor, a zoeira constante, sussurro de maribondos assanhados. Dores errantes andavam-lhe no corpo, entravam nos ossos e vinham à pele, arrepiavam os cabelos, fixavam-se nas pernas, esmoreciam.

Agora não estava no banco do jardim, perto das estátuas, das árvores, do coreto, dos esguichos coloridos. Estava longe, a sessenta anos de distância, ajoelhado na grama, diante da igreja da vila. Os rostos embotados, que se dissociavam, juntaram-se no largo onde um padre velho dizia a missa da meia-noite. Fervilhavam matutos em redor das barracas, num barulho de feira, e uma sineta badalava impondo em vão respeito e silêncio. Os cavalinhos rodavam. Esgueiravam-se casais pelos cantos. O padre velho dirigia olhares fulminantes àquela cambada de hereges. Uma figura pequenina cantava os hinos ingênuos, de versos curtos, fáceis. Tudo parecera de chofre muito sério, eterno. Os hinos capengas elevavam-se, estiravam-se. A mulher tinha um rosto de santa e exigia adoração. Sessenta anos. As fachadas enfeitavam-se com lanternas de papel, janelas escancaradas exibiam presépios, listas de foguetes cortavam o céu negro. A sineta badalava, zangada. E o burburinho da multidão não diminuía.

Sessenta anos. Da cinza que ocultava os olhos frios saltou uma faísca; os alfinetes pregados na carne trêmula embotaram-se; o espinhaço curvo endireitou-se; um débil sorriso franziu os beiços murchos; os braços ergueram-se lentos, buscando a imagem de sonho.

Imagem de sonho, que doidice! Era apenas uma bonita criatura de bom coração. Ligara-se a ela. E dezenas de vezes tinham-se os dois  ajoelhado ali na grama, olhando as lanternas, os presépios, os foguetes, o padre que dizia a missa da meia-noite. Algumas esperanças, muitos desgostos. Os meninos cresciam, engordavam. E no jardim da casa miúda um jasmineiro recendia.

Depois tudo fora decaindo, minguando, morrendo. Achara-se novamente só. Os filhos e os netos se haviam espalhado pelo mundo. Agora... Que extensa caminhada, que enormes ladeiras, pai do céu ! Já nem se lembrava dos lugares percorridos.

Conseguiu abotoar o casaco e levantar a gola.

Andar tanto e afinal chegar ali, arriar num banco, não perceber as letras que se acendiam . e apagavam. Certamente àquela hora, diante duma igreja aberta, outro homem novo admirava outra pessoinha ajoelhada, sentia desejos imensos, formava planos absurdos. Os desejos e os planos iam desfazer-se como a fumaça  luminosa dos repuxos.

(20 de dezembro de 1941).
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Graciliano Ramos (1892 - 1953)
        GRACILIANO RAMOS DE OLIVEIRA nasceu em Quebrangulo, no interior de Alagoas, em 1892. Faleceu no Rio de Janeiro em 1953, aos 60 anos, em decorrência de um câncer de pulmão. Passou a infância migrando pelo Nordeste devido às secas, morando em fazendas e cidades como Buíque (PE), Viçosa (AL) e Palmeira dos Índios (AL). Teve duas estadias marcantes no Rio de Janeiro: a primeira na juventude (1914-1915) e a segunda de forma definitiva a partir de 1937, após ser libertado da prisão política. Sua trajetória profissional foi bastante diversificada. Na juventude, trabalhou no comércio do pai, foi jornalista e revisor de imprensa. Ingressou na política e foi eleito Prefeito de Palmeira dos Índios (1928-1930) — cargo do qual ficou famoso pelos relatórios administrativos impecáveis e literários que enviava ao governador. Posteriormente, foi Diretor da Imprensa Oficial e Diretor de Instrução Pública de Alagoas. Em 1936, durante a ditadura do Estado Novo de Getúlio Vargas, foi preso sem acusação formal sob a falsa suspeita de ligação com a Intentona Comunista de 1935, permanecendo quase um ano encarcerado. Mais tarde na vida, filiou-se formalmente ao Partido Comunista Brasileiro (PCB). 
Principal expoente do Romance de 30 (a vertente regionalista da Segunda Geração do Modernismo brasileiro). Sua carreira literária começou cedo com contos e sonetos publicados sob pseudônimos na imprensa escolar e em revistas. Estreou no romance em 1933. Teve o reconhecimento de críticos fundamentais como Antonio Candido. ao seu espírito crítico, antirretórico e avesso às vaidades intelectuais, Graciliano Ramos nunca quis pertencer à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele ironizava formalismos institucionais. Décadas após sua morte, a própria ABL criou o ciclo de palestras "Cadeira 41" justamente para homenagear os gigantes da literatura que nunca foram imortais da casa, abrindo o projeto com o nome de Graciliano. Recebeu importantes distinções em vida, incluindo: Prêmio Lima Barreto (da Revista Acadêmica), em 1936, pelo romance Angústia; Prêmio de Literatura Infantojuvenil (do Ministério da Educação), em 1939, por A Terra dos Meninos Pelados; Prêmio Felipe de Oliveira, em 1942, concedido pelo conjunto de sua obra.
Livros Publicados: Caetés (1933 — romance de estreia); São Bernardo (1934); Angústia (1936 — escrito pouco antes e finalizado na prisão); Vidas Secas (1938 — sua obra-prima máxima); A Terra dos Meninos Pelados (1939 — literatura infantojuvenil); Brandão Entre o Mar e o Amor (1942 — romance escrito em conjunto com Jorge Amado, Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Aníbal Machado); Infância (1945 — livro de memórias); Insônia (1947 — contos); Memórias do Cárcere (1953 — publicado postumamente, relata os horrores dos porões da ditadura Vargas); Viagem (1954 — crônicas de suas impressões sobre a URSS e Europa Ocidental, póstumo).
Graciliano Ramos é fundamental para a literatura de língua portuguesa porque promoveu uma verdadeira revolução estética e ética na prosa de ficção. Conhecido como o "mestre da palavra exata", ele eliminou da escrita os adjetivos desnecessários, os floreios românticos e o sentimentalismo fácil, inaugurando um estilo seco, direto, conciso e cortante, espelho da própria rigidez do sertão. Mais do que retratar a miséria socioeconômica do Nordeste e a tragédia dos retirantes (como fez magistralmente na saga da família de Fabiano em Vidas Secas), Graciliano investigou as profundezas da psique humana mutilada pela opressão. Seus livros denunciam como as estruturas sociais violentas desumanizam o indivíduo, tirando-lhe a fala e a dignidade. Sua honestidade intelectual intransigente fixou o patamar mais alto do realismo crítico na literatura brasileira.

Fontes:
Linhas Tortas. Publicado originalmente em 1962 (livro póstumo).
Biografia = E-Biografia, Wikipedia, Guia do Estudante Abril, USP (Jornal do Câmpus), Itaú Cultural, Brasil Escola, Toda Materia, Academia Brasileira de Letras, etc.

Antonio Brás Constante (Um Toque Sobre a Essência das mãos)

As mãos estão conosco desde que nascemos. São cuidadosas mãos as primeiras coisas que encontramos ao chegarmos neste mundo pós-uterino, nos segurando e protegendo. Mãos de pulso firme batem com bondade em nossa corpórea fragilidade nos fazendo chorar, respirar, viver, e em outras vezes, mãos covardes espancam com maldade o nosso corpo, nos fazendo gritar, engasgar, morrer.

As mãos falam através de sinais mudos. É a mão que encontrando outras mãos, expressa sua amizade e confiança através da força e firmeza que imprime neste encontro. Os amantes pedem a mão desejada em casamento. As mãos benevolentes estão sempre abertas para auxiliar a quem precisa, mas existem mãos rancorosas que se fecham pelo ódio e cólera que a tantos intimidam.

A mão que acolhe com bondade é a mesma que empurra com brutalidade. A mão que puxa para aproximar é a mesma que solta sem demonstrar se importar. São as mãos que nos socorrem nos momentos em que a escuridão nos envolve e, sem qualquer aviso, cega o nosso olhar. Mãos que nos fazem ver, muitas vezes, aquilo que não queremos enxergar.

A mesma mão que aponta acusando é aquela que se une com outras em prece pedindo perdão. Uma mão caridosa lava a outra, lhe ajuda, protege e ampara, fazendo o que estiver ao seu alcance na hora de prestar auxilio. Mas a mão impregnada de egoísmo também lava a própria culpa de si mesma, quando quer se omitir de ajudar quem precisa.

A mão suja representa o trabalho, mas a sujeira nas mãos também é o símbolo da corrupção. As mãos vazias de riquezas, sem nada, representam a pobreza, bem como as frágeis mãos ainda tão pequenas, desamparadas e pedintes. Cruel realidade das crianças mendicantes nas sinaleiras.

São as mãos que batem continência em sinal de respeito e disciplina militar em nome de uma pátria nem sempre amada. Mas também foram elas que ficaram erguidas, o braço direito estendido para frente, simbolizando a loucura nazista que marcou uma era malograda.

São mãos amigas que amparam quando as palavras falham, nos envolvendo na comunhão de um abraço. É uma mão cheia de ternura que dá adeus quando alguém parte, e enxuga a vertente de lágrimas que escorre pela face de nosso semblante sofrido.

São as mãos que batem na porta para anunciar a chegada. Mãos cheias de energia aplaudem aqueles que admiram, e se juntam ampliando o som das vozes quando querem vaiar. As mãos unidas podem até derrubar governos...

São as mãos que acariciam vários instrumentos de corda fazendo-os tocar, espalhando os sons dos anjos pelo ar. A mão que nos alimenta é também aquela que nos auxilia a aprender a contar, brincar, trabalhar, amar.

São as mãos que abrem a carta com as notícias tão desesperadamente esperadas. E através de um simples toque de seus dedos, um clique é dado sobre o mouse, abrindo o e-mail desejado.

É a mão que aperta o gatilho da arma. É a mão que tapa a boca da vítima impedindo-a de gritar. São mãos frias que puxam a alavanca do cadafalso cumprindo a ordem de matar.

A mesma mão que escreve as verdades também rasga os direitos em sinal de intolerância, jogando pedras em corpos vivos e livros ao fogo, que ardem em nome do preconceito.

São elas que fecham nossas têmporas quando enfim rumamos para imensidão.

Foi por causa dessas mãos, dessas tantas mãos: fortes e frágeis, grandes e pequenas, jovens e velhas, negras, brancas, orientais, universais, que me pus pacientemente a dedilhar o teclado, dando vida a este pretenso texto com ares de poesia. Enfim, as mãos unidas pelo amor são a essência de nossa humanidade. Agora peço que você releia todo texto novamente, trocando as expressões que representam as “mãos” por “pessoas”... Feliz 2012.
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Antônio Brás Constante
    ANTÔNIO BRÁS CONSTANTE é um escritor, cronista e contista brasileiro contemporâneo, amplamente reconhecido no ambiente digital por suas produções literárias marcadas pelo humor satírico e pela ironia cotidiana. Embora não haja um registro público detalhado de sua data de nascimento ou de uma biografia institucional tradicionalizada pelas grandes academias nacionais, suas publicações fornecem informações precisas sobre sua trajetória literária. É um autor gaúcho, residindo e desenvolvendo grande parte de suas atividades e inspirações na cidade de Canoas/RS. Ele costuma se definir publicamente de forma bem-humorada como um "eterno aprendiz de escritor, amigo e amante da musa inspiração". Teve forte atuação na chamada "literatura de internet" durante as décadas de 2000 e 2010. Ganhou notoriedade ao publicar textos, crônicas e contos em plataformas e blogs como o Recanto das Letras, Overmundo e WebArtigos. Sua marca registrada é o uso do humor azedo, da sátira social e de reflexões irônicas sobre a modernidade (como o vício em redes sociais e e-mails) e as reviravoltas da vida cotidiana. Seu foco de atuação sempre esteve voltado à produção independente e à democratização da leitura via internet. Embora não possua grandes prêmios institucionais listados, o autor já integrou seleções de destaque popular. Sua obra alcançou o ranking dos 100 Livros de Crônicas Mais Lidos e dos 50 Melhor Avaliados na plataforma literária Skoob, uma das maiores comunidades de leitores do Brasil. Livros e Textos Publicados: Hoje é seu aniversário – PREPARE-SE: Livro físico de crônicas e contos de humor. É autor de crônicas e contos populares na internet. 
A importância de Antônio Brás Constante reside na sua capacidade de desmistificar a literatura e aproximá-la do público geral através do humor cotidiano. Ao utilizar a internet como seu principal vetor de distribuição, ele se tornou um exemplo de escritor que rompeu as barreiras editoriais tradicionais. Seus textos conseguem atingir diferentes camadas sociais, servindo tanto para o entretenimento leve de leitores assíduos quanto como ferramenta de mediação de leitura e debates socioeducativos para jovens em salas de aula e projetos de reinserção social.

Fonte:
Texto enviado pelo autor

Livro D’Ouro da Poesia Portuguesa * 3 *

 

Cesário Verde
(Lisboa, 1855 – 1886)

LÚBRICA

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançaste no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um papel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!
= = = = = = = = = = = = = =  

Alice Gomes
(Tabuaço, 1910 – 1983, Lisboa)

NA IDADE DOS PORQUÊS

Professor diz-me porquê?
Por que voa o papagaio
que solto no ar
que vejo voar
tão alto no vento
que o meu pensamento
não pode alcançar?

Professor diz-me porquê?
Por que roda o meu pião?
Ele não tem nenhuma roda
E roda    gira    rodopia
e cai morto no chão...

Tenho nove anos professor
e há tanto  mistério à minha roda
que eu queria desvendar!
Por que é que o céu é azul?
Por que é que marulha o mar?
Porquê?
Tanto porquê que eu queria saber!
E tu que não me queres responder!

Tu falas falas, professor
daquilo que te interessa
e que a mim não interessa.
Tu obrigas-me a ouvir
quando eu quero falar.
Obrigas-me a dizer
quando eu quero escutar.
Se eu vou a descobrir
Fazes-me decorar.

É a luta, professor
a luta em vez de amor.

Eu sou uma criança.
Tu és mais alto
mais forte
mais poderoso.
E a minha lança
quebra-se de encontro à tua muralha.

Mas
enquanto a tua voz zangada ralha
tu sabes, professor
eu fecho-me por dentro
faço uma cara resignada
e finjo
finjo que não penso em nada.

Mas penso.
Penso em como era engraçada
aquela rã
que esta manhã ouvi coaxar.
Que graça que tinha
aquela andorinha
que ontem à tarde vi passar!...

E quando tu depois vens definir
o que são conjunções
e preposições...
quando me fazes repetir
que os corações
têm duas aurículas e dois ventrículos
e tantas
tanta mais definições...
o meu coração
o meu coração que não sei como é feito
nem quero saber
cresce
cresce dentro do peito
a querer saltar cá para fora
professor
a ver se tu assim compreenderias
e me farias
mais belos os dias.
= = = = = = = = = = = = = =  

David Mourão-Ferreira
(Lisboa, 1927 – 1996)

NATAL, E NÃO DEZEMBRO

Entremos, apressados, friorentos,
numa gruta, no bojo de um navio,
num presépio, num prédio, num presídio
no prédio que amanhã for demolido...
Entremos, inseguros, mas entremos.
Entremos e depressa, em qualquer sítio,
porque esta noite chama-se Dezembro,
porque sofremos, porque temos frio.

Entremos, dois a dois: somos duzentos,
duzentos mil, doze milhões de nada.
Procuremos o rastro de uma casa,
a cave, a gruta, o sulco de uma nave...
Entremos, despojados, mas entremos.
De mãos dadas talvez o fogo nasça,
talvez seja Natal e não Dezembro,
talvez universal a consoada.
= = = = = = = = = = = = = =  

Bocage
(Setúbal, 1765 – 1805, Lisboa)

O CORVO E A RAPOSA

É fama que estava um corvo
Sobre uma árvore pousado
E que no sôfrego bico
Tinha um queijo atravessado.

Pelo faro àquele sítio
Veio a raposa matreira
A qual, pouco mais ou menos
Lhe falou desta maneira:

- Bons dias, meu lindo corvo;
És glória desta espessura;
És outra fénix, se acaso,
Tens a voz como a figura.

A tais palavras o corvo
Com louca, estranha afoiteza
Mor mostrar que é bom solfista
Abre o bico e solta a presa.

Lança-lhe a mestra o gadanho
E diz: - Meu amigo, aprende
Como vive o lisonjeiro
à custa de quem o atende.

Esta lição vale um queijo,
Tem destas para teu uso.
Rosna então consigo o corvo
Envergonhado e confuso:

- Velhaca, deixou-me em branco
Fui tolo em fiar-me dela
Mas este logro me livra
De cair noutra esparrela.
= = = = = = = = = = = = = =  

António Gedeão
(Lisboa, 1906 – 1997)

POEMA DA AUTO-ESTRADA

Voando vai para a praia
Leonor na estrada preta
Vai na brasa de lambreta.

Leva calções de pirata,
Vermelho de alizarina,
modelando a coxa fina
de impaciente nervura.
Como guache lustroso,
amarelo de indantreno
blusinha de terileno
desfraldada na cintura.

Fuge, fuge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
Agarrada ao companheiro
na volúpia da escapada
pincha no banco traseiro
em cada volta da estrada.
Grita de medo fingido,
que o receio não é com ela,
mas por amor e cautela
abraça-o pela cintura.
Vai ditosa, e bem segura.

Como um rasgão na paisagem
corta a lambreta afiada,
engole as bermas da estrada
e a rumorosa folhagem.
Urrando, estremece a terra,
bramir de rinoceronte,
enfia pelo horizonte
como um punhal que se enterra.
Tudo foge à sua volta,
o céu, as nuvens, as casas,
e com os bramidos que solta
lembra um demónio com asas.

Na confusão dos sentidos
já nem percebe, Leonor,
se o que lhe chega aos ouvidos
são ecos de amor perdidos
se os rugidos do motor.

Foge, foge, Leonoreta.
Vai na brasa, de lambreta.
= = = = = = = = = = = = = =  

Al-Berto
(Coimbra, 1948 – 1997, Lisboa)

RECADO

ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer - vai por esse campo
de crateras extintas - vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração - ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna - o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira - não esqueças o ouro
o marfim - os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço