quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Cornélio Pires (Trovas da Vida)

 

PREFÁCIO
Desejava ter comigo
uma joia de alto preço.
Não tendo, porém, o ouro
esse propósito, esqueço...

Mas tendo fé em mim mesmo
lembro-me, com razão
de ofertar-lhes este livro,
que me expressa a gratidão

AMBIÇÃO
Conserva a simplicidade,
observa onde te pões,
a ambição domina os homens,
em todas as direções.

AMOR
Amor puro é qual diamante
de beleza singular,
mas se é vendido ou tem preço,
qualquer um pode comprar.

AMOR NO ALÉM
De alma para outra alma
o amor é um laço tão forte,
que vejo muitos casais
unidos depois da morte.

BARULHO
Para quem pensa e trabalha
em benefícios reais,
qualquer barulho atrapalha,
silêncio nunca é demais.

BENDITA SEJA
Já que o mal nasce de nós
como vem e quando vem,
bendita seja a pessoa
que apoia a força do bem.

CLONAGEM
Clonagem é um feito antigo;
fala a Bíblia com razão.
Nosso pai criou Mãe Eva
numa costela de Adão.

DESENGANO
Ele ajuntou prata e ouro,
porém, não achou transporte,
quando buscou pensativo,
a grande agência da morte.

DESEQUILÍBRIO
Há mulheres arruinadas
na luta em que se consomem.
Não por fraqueza ou maldade,
mas por desprezo do homem.

DINHEIRO
Registro esta nota sábia
do Doutor Joaquim de Malta:
“Riqueza não traz ventura,
mas o dinheiro faz falta.”

DOENÇA
Muitas vezes, a doença,
por mais que aborreça e doa,
é socorro necessário
para guardar a pessoa.

DURAÇÃO DO AMOR
O amor é uma luz do céu,
dizia o mestre Joaquim.
Sem a praga do ciúme,
tem duração do “sem-fim”.

ECONOMIA
O dono de muitas capas
da mais rica às mais singelas,
nas horas de frio ou chuva
veste somente uma delas.

EXTRA-TERRESTRES
Extra-terrestre? Existem.
Não são notícia sem fundo;
Elias saiu da Terra
numa nave de outro mundo.

FELICIDADE
Casais ricos e felizes
vivem de festa e rumor…
No entanto, a felicidade
conhece apenas o amor.

FORÇA
Avistando a força bruta
ferindo ou pisando alguém,
age em silêncio e auxilia
à nobre força do Bem.

GUERRA
A guerra surge por vezes
de nação para nação,
mas é constante
nos casos de opinião.

LIBERDADE
Virtude alta e sublime
ninguém quer viver sem ela:
É a liberdade, no entanto,
que exige muita cautela.

LIÇÃO SIMPLES
Uma lição clara e simples
a que a verdade nos chama:
- Por força de obediência,
realmente ninguém ama.

MÃOS NOBRES
Branca, amarela ou morena,
nos sofrimentos da estrada,
se é mão que dá socorro,
será sempre abençoada.

MORTO VIVO
Ao morrer, disse Romário:
“Volto já...”, falando a custo.
Após seis meses, voltou...
a esposa caiu de susto.

NÃO PODE
Deixou milhões para os órfãos
o avarento João Lasmar,
deixou para a caridade
porque não pode levar.

NO ALÉM
Em nosso estado no Além,
seja em luz, penumbra ou treva,
o que importa é a consciência
da vida que a gente leva.

PROGRAMA
Quem quiser ter vida longa
pelos caminhos terrenos,
no curso do dia a dia
coma pouco e fale menos.

PRUDÊNCIA
Falta pouco. Não critiques.
Deixa os outros tais quais são.
Há quem passe a noite em festa
e amanheça em provação.

RACISMO
Em qualquer grupo racista
de sábios crentes e ateus,
perguntemos seriamente,
de que forma é a cor de Deus.

REALIDADE
“O homem deixou milhões”,
falei ao sábio Jomar.
Disse-me o sábio: “Deixou
porque não pode levar”.

RECADO FRATERNO
Se caíste em provação
por falha de outra pessoa,
em favor da própria paz,
trabalha, ora e perdoa.

REFLEXÃO
O homem é sempre poder,
faz tudo quanto ele quer.
No entanto, não nos esqueçamos:
somos filhos de mulher.

REMÉDIO
Joel gritava xingando,
na Fazenda Terra Oca;
O tio deu-lhe um remédio:
O xarope “calaboca”!

SALÁRIO
Salário pobre e pequeno?
Não consigo ser ingrato.
Se tenho montes de arroz,
ao comer, só tenho um prato.

SE QUERES
Se queres cooperação
para qualquer obra do Bem,
não afastes a esperança
do coração de ninguém.

TUDO PASSA
O tempo corre apressado
no campo, na rua, em casa.
Tudo passa velozmente
se a pessoa não se atrasa.
= = = = = = = = = = = = = =  
Cornélio Pires (1884 - 1958)
CORNÉLIO PIRES nasceu na cidade de Tietê (SP), em 1884 e faleceu na cidade de São Paulo (SP), em 1958, aos 73 anos, em decorrência de um câncer de laringe. Embora tenha nascido no interior e mantido uma ligação umbilical com a cultura caipira, viveu grande parte de sua vida na capital paulista, São Paulo, viajando constantemente pelo interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais e Goiás para realizar suas pesquisas e espetáculos. Foi um profissional multifacetado e um verdadeiro pioneiro da indústria cultural brasileira. Atuou como jornalista, cronista, humorista, etnógrafo, palestrante e empresário. Em 1929, fez história ao se tornar o responsável pela primeira gravação de música caipira (sertaneja raiz) em disco no Brasil, financiando do próprio bolso o lançamento de uma série de discos de 78 RPM pela gravadora Columbia, após a gravadora se recusar a investir por achar que a música caipira não teria público. A iniciativa foi um sucesso comercial absoluto. Nos seus últimos anos de vida, converteu-se ao Espiritismo, dedicando-se à filantropia e escrevendo obras mediúnicas.
Foi o maior divulgador da alma e do dialeto caipira na literatura e na cultura brasileira. Estreou na literatura na década de 1910, coligindo piadas, causos, trovas e poemas que retratavam o caipira paulista com dignidade, distanciando-se do estereótipo caricato e preguiçoso do "Jeca Tatu" de Monteiro Lobato. Cornélio via o caipira como um homem honesto, astuto e dono de uma rica cultura oral. Por sua dedicação à cultura popular, folclore e dialetologia, foi membro da Academia Paulista de Letras (APL). Devido ao caráter popular e pioneiro de sua obra, que circulava à margem do circuito literário erudito e acadêmico tradicional da época, Cornélio Pires não recebeu os grandes prêmios oficiais da alta literatura. Seu maior "prêmio" foi o reconhecimento massivo do público e o respeito de intelectuais modernistas da Semana de 22 (como Amadeu Amaral e Mário de Andrade), que reconheciam nele um legítimo pesquisador do folclore nacional. 
Publicou mais de duas dezenas de livros, entre poesia, causos, estudos linguísticos e obras religiosas: Musa Caipira (1910 — livro de estreia que o consagrou como trovador e poeta); As Estrambóticas Aventuras de Joaquim Bento (1912); Quem Conta um Conto... (1916); Conversas ao Pé do Fogo (1921); Scenas da Roça (1924); Tarrafadas (1926); Mixórdia (1927); Patacoadas (1928); Sambas e Cururus (1932); Coisas de Minha Terra (1949), O Sol da Imortalidade (1951 — obra espírita), etc.
A importância de Cornélio Pires para a literatura e para a cultura brasileira é imensurável, pois ele foi o principal responsável por salvar o folclore e o dialeto caipira do esquecimento. Antes dele, a literatura brasileira muitas vezes enxergava o homem do interior com desdém ou sob uma ótica estritamente regionalista e romântica. Cornélio levou a sério a linguagem oral da roça, registrando com precisão fonética a fala e as trovas paulistas da época, servindo de base para estudos de dialetologia e linguística no Brasil. Ao registrar em livros os causos, provérbios, modas de viola e desafios em verso (cururus), ele deu dignidade literária à cultura caipira. Sua obra pavimentou o caminho para que, anos mais tarde, o universo sertanejo fosse assimilado definitivamente pela literatura brasileira e pela bilionária indústria fonográfica do país.

Fonte:
Francisco Cândido Xavier (psicografia). Livro Trovas da Vida. Digitalizado por Aparecida Tognato.

Monteiro Lobato (Toque outra)

 — ORA TOQUE, Sinhazinha, toque!

— Mas eu não sei...

— Não faz mal, toque assim mesmo, não se faça de rogada. Aquela valsinha...

A pálida menina geme novos luxinhos faceiros, torce os pingentes da almofada e por fim levanta-se, toda dengues, a desculpar-se.

— Vou errar tudo, não tenho estudado há muitos dias, estou esquecida...

— Não faz mal, toque!...

Sinhazinha senta-se ao piano, folheia a maçaroca de músicas e preguiçosamente abre diante de si uma valsa de Aurélio Cavalcanti. E toca: blem, blem, belelém...

A sala então, que só por aquilo esperava, afunda na conversa. O barulho do piano, abafando o tom geral da palestra, dá azo à delícia dos duos, em que cada um pega de cochicho com quem mais o atende. As matronas, donas de casa, caem no assunto dileto — os criados!

— Ai, os criados! Que gente, prima! Que pestes! Não fazem “isto” sem uma pessoa estar em cima; se vão a compras, roubam no troco... E não se lhes diga uma palavrinha! Pedem a conta e dizem desaforos, os demônios...

As meninas rodeiam o moço, que impa como um galo e desdobra o farnel da banalidade tão cara às mulheres; todas ouvem-no atentas, bebem-lhe os ditos, riem das suas pilhérias, acham-no “levado”.

Titinha diz, sorvendo-o com os olhos:

— Este seu Raul é mesmo da pele!

Num desvão da janela cochicha-se um namoro; a das Dores conta à do Carmo que não gosta mais do Luisinho por umas certas coisas que viu no último baile. Do Carmo comenta, sentenciosa:

— Os homens! Os homens!...

Duas em outro canto riem perdidamente, em casquinadas argentinas. Nisto Sinhazinha acaba a valsa. A sala dá pela coisa, interrompe a tagarelice e pede mais:

— Muito bem, Sinhazinha, muito bem! Toque outra!...

Sinhazinha ataca uma scottish.

A sala retoma os temas interrompidos.

— Mas... como eu ia contando...

Impossível negar as vantagens sociais da música.
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Monteiro Lobato (1882 – 1948)
JOSÉ BENTO RENATO MONTEIRO LOBATO (ao longo da infância, alterou seu nome para José Bento Monteiro Lobato para poder usar uma bengala de seu falecido pai que continha as iniciais "JBML" gravadas). foi um dos mais influentes, polêmicos e visionários intelectuais do Brasil. Ele revolucionou o mercado editorial do país e consagrou-se universalmente como o pai da literatura infantil brasileira. Nasceu em Taubaté/SP em 1882. e faleceu aos 66 anos, na cidade de São Paulo/SP, em 1948, vítima de um derrame. Cresceu em Taubaté. Estudou e morou na capital de São Paulo durante a faculdade. Viveu no interior paulista em Areias (como promotor) e depois na fazenda Buquira (em Tremembé). Na maturidade, fixou residência na cidade de São Paulo. Também morou no exterior como adido comercial em Nova Iorque/EUA entre 1927 e 1931, e passou um curto período de exílio voluntário em Buenos Aires/Argentina nos anos 1940.
Lobato foi um homem hiperativo, multifacetado e de perfil empreendedor. Formou-se em Direito e atuou como promotor público. Foi também fazendeiro, jornalista, crítico de arte e empresário. Teve papel histórico e pioneiro na campanha nacionalista pelo petróleo brasileiro ("O petróleo é nosso") e fundou indústrias de perfuração de poços. Na área gráfica, revolucionou o mercado nacional ao criar as primeiras grandes editoras do país (como a Monteiro Lobato & Cia. e a Companhia Editora Nacional), permitindo que livros passassem a ser fabricados e amplamente distribuídos no Brasil, e não mais importados da Europa. Nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele tentou candidatar-se nas décadas de 1920 (desistindo em uma ocasião e perdendo em outra). Em 1944, a instituição tentou indicá-lo, mas Lobato recusou formalmente devido a divergências políticas e ao seu desprezo por formalidades acadêmicas, preferindo manter-se independente das instituições tradicionais.
Sua literatura divide-se nitidamente em duas frentes: a produção adulta (filiada ao Pré-Modernismo, com forte denúncia social e nacionalismo) e a produção voltada para as crianças, que inaugurou uma nova era no país. Em vida, não recebeu grandes premiações institucionais oficiais, pois sua postura combativa e suas críticas ácidas à cultura acadêmica o afastavam de tais círculos. No entanto, sua maior recompensa foi o sucesso comercial absoluto (seus livros foram os primeiros best-sellers do Brasil). Hoje, seu nome batiza a maior honraria da literatura infantojuvenil brasileira outorgada pela Biblioteca Nacional: o Prêmio Monteiro Lobato. O dia do seu nascimento (18 de abril) foi instituído por lei como o Dia Nacional do Livro Infantil.
Principais livros publicados: 
Para Adultos: Urupês (1918 — livro de contos onde criou o famoso personagem Jeca Tatu, o caipira abandonado pelo Estado); Cidades Mortas (1919); O Presidente Negro (1926 — seu único romance de ficção científica); e ensaios como O Escândalo do Petróleo (1936).
Para Crianças (Série Sítio do Picapau Amarelo): Reinações de Narizinho (1931); Caçadas de Pedrinho (1933); Emília no País da Gramática (1934); O Picapau Amarelo (1939); e A Chave do Tamanho (1942).
A relevância de Monteiro Lobato é gigantesca e, ao mesmo tempo, alvo de intensos debates contemporâneos. Por um lado, ele fundou a literatura infantil no Brasil. Antes dele, os livros para crianças eram meras traduções de fábulas europeias com tom excessivamente moralista e punitivo. Lobato trouxe o folclore nacional (como o Saci), misturou a mitologia grega, a ciência e a geografia em narrativas profundamente lúdicas, dando voz e autonomia às crianças através de personagens irreverentes como a boneca Emília. Ele alfabetizou e moldou o hábito de leitura de gerações de brasileiros. Por outro lado, estudos literários contemporâneos apontam e criticam de forma severa a presença de conteúdos de cunho racista e preconceitos de época em suas obras adultas e em trechos de seus livros infantis (notadamente na forma como a personagem Tia Nastácia é descrita ou tratada em certas passagens). Mesmo diante de suas contradições históricas, Lobato permanece como um pilar fundamental da cultura brasileira: um homem que tirou o livro da exclusividade das elites, criou a indústria editorial do país e ensinou o Brasil a ler a partir de sua própria realidade.

Fontes:
Monteiro Lobato. Cidades mortas. publicado em 1919.
Biografia = Wikipedia, Catálogo das Artes, Educa Mais Brasil, Clube do Português, Enciclopedia Britannica, Ebiografia, Editora Unesp, Brasil Escola, Almanaque O Voo da Gralha Azul, Enciclopedia Itau Cultural, Academia Brasileira de Letras, etc,

Lygia Fagundes Telles (O Moço do Saxofone)

Eu era chofer de caminhão e ganhava uma nota alta com um cara que fazia contrabando. Até hoje não entendo direito por que fui parar na pensão da tal madame, uma polaca que quando moça fazia a vida e depois que ficou velha inventou de abrir aquele frege-mosca. Foi o que me contou o James, um tipo que engolia giletes e que foi o meu companheiro de mesa nos dias em que trancei por lá. Tinha os pensionistas e tinha os volantes, uma corja que entrava e saía palitando os dentes, coisa que nunca suportei na minha frente. Teve até uma vez uma dona que mandei andar só porque no nosso primeiro encontro, depois de comer um sanduíche, enfiou um palitão entre os dentes e ficou de boca arreganhada de tal jeito que eu podia ver até o que o palito ia cavocando. Bom, mas eu dizia que no tal frege-mosca eu era volante. A comida, uma bela porcaria e como se não bastasse ter que engolir aquelas lavagens, tinha ainda os malditos anões se enroscando nas pernas da gente. E tinha a música do saxofone.

Não que não gostasse de música, sempre gostei de ouvir tudo quanto é charanga no meu rádio de pilha de noite na estrada, enquanto vou dando conta do recado. Mas aquele saxofone era mesmo de entortar qualquer um. Tocava bem, não discuto. O que me punha doente era o jeito, um jeito assim triste como o diabo, acho que nunca mais vou ouvir ninguém tocar saxofone como aquele cara tocava.

— O que é isso? — eu perguntei ao tipo das giletes. Era o meu primeiro dia de pensão e ainda não sabia de nada. Apontei para o teto que parecia de papelão, tão forte chegava a música até nossa mesa. Quem é que está tocando?

— É o moço do saxofone.

Mastiguei mais devagar. Já tinha ouvido antes saxofone, mas aquele da pensão eu não podia mesmo reconhecer nem aqui nem na China.

— E o quarto dele fica aqui em cima?

James meteu uma batata inteira na boca. Sacudiu a cabeça e abriu mais a boca que fumegava como um vulcão com a batata quente lá no fundo. Soprou um bocado de tempo a fumaça antes de responder.

— Aqui em cima.

Bom camarada esse James. Trabalhava numa feira de diversões, mas como já estivesse ficando velho, queria ver se firmava num negócio de bilhetes. Esperei que ele desse cabo da batata, enquanto ia enchendo meu garfo.

— É uma música desgraçada de triste — fui dizendo.

— A mulher engana ele até com o periquito — respondeu James, passando o miolo de pão no fundo do prato para aproveitar o molho. — O pobre fica o dia inteiro trancado, ensaiando. Não desce nem para comer. Enquanto isso, a cabra se deita com tudo quanto é cristão que aparece.

— Deitou com você?

— É meio magricela para o meu gosto, mas é bonita. E novinha. Então entrei com meu jogo, compreende? Mas já vi que não dou sorte com mulher, torcem logo o nariz quando ficam sabendo que engulo gilete, acho que ficam com medo de se cortar…

Tive vontade de rir também, mas justo nesse instante o saxofone começou a tocar de um jeito abafado, sem fôlego como uma boca querendo gritar, mas com uma mão tapando, os sons espremidos saindo por entre os dedos. Então me lembrei da moça que recolhi uma noite no meu caminhão. Saiu para ter o filho na vila, mas não aguentou e caiu ali mesmo na estrada, rolando feito bicho. Arrumei ela na carroceria e corri como um louco para chegar o quanto antes, apavorado com a ideia do filho nascer no caminho e desandar a uivar que nem a mãe. No fim, para não me aporrinhar mais, ela abafava os gritos na lona, mas juro que seria melhor que abrisse a boca no mundo, aquela coisa de sufocar os gritos já estava me endoidando. Pomba, não desejo ao inimigo aquele quarto de hora.

— Parece gente pedindo socorro — eu disse, enchendo meu copo de cerveja. — Será que ele não tem uma música mais alegre?

James encolheu o ombro.

— Chifre dói.

Nesse primeiro dia fiquei sabendo ainda que o moço do saxofone tocava num bar, voltava só de madrugada. Dormia em quarto separado da mulher.

—- Mas por quê? — perguntei, bebendo mais depressa para acabar logo e me mandar dali. A verdade é que não tinha nada com isso, nunca fui de me meter na vida de ninguém, mas era melhor ouvir o tro-ló-ló do James do que o saxofone.

— Uma mulher como ela tem que ter seu quarto — explicou James, tirando um palito do paliteiro. — E depois, vai ver que ela reclama do saxofone.

— E os outros não reclamam?

— A gente já se acostumou.

Perguntei onde era o reservado e levantei-me antes que James começasse a escarafunchar os dentões que lhe restavam. Quando subi a escada de caracol, dei com um anão que vinha descendo. Um anão, pensei. Assim que saí do reservado dei com ele no corredor, mas agora estava com uma roupa diferente. Mudou de roupa, pensei meio espantado, porque tinha sido rápido demais. E já descia a escada quando ele passou de novo na minha frente, mas já com outra roupa. Fiquei meio tonto. Mas que raio de anão é esse que muda de roupa de dois em dois minutos? Entendi depois, não era um só, mas uma trempe deles, milhares de anões louros e de cabelo repartidinho do lado.

— Pode me dizer de onde vem tanto anão? — perguntei à madame, e ela riu.

— Todos artistas, minha pensão é quase só de artistas…

Fiquei vendo com que cuidado o copeiro começou a empilhar almofadas nas cadeiras para que eles se sentassem. Comida ruim, anão e saxofone. Anão me enche e já tinha resolvido pagar e sumir quando ela apareceu. Veio por detrás, palavra que havia espaço para passar um batalhão, mas ela deu um jeito de esbarrar em mim.

— Licença?

Não precisei perguntar para saber que aquela era a mulher do moço do saxofone. Nessa altura o saxofone já tinha parado. Fiquei olhando. Era magra, sim, mas tinha as ancas redondas e um andar muito bem bolado. O vestido vermelho não podia ser mais curto. Abancou-se sozinha numa mesa e de olhos baixos começou a descascar o pão com a ponta da unha vermelha. De repente riu e apareceu uma covinha no queixo. Pomba, que tive vontade de ir lá, agarrar ela pelo queixo e saber por que estava rindo. Fiquei rindo junto.

— A que horas é a janta? — perguntei para a madame, enquanto pagava.

— Vai das sete às nove. Meus pensionistas fixos costumam comer às oito — avisou ela, dobrando o dinheiro e olhando com um olhar acostumado para a dona de vermelho. — O senhor gostou da comida?

Voltei às oito em ponto. O tal James já mastigava seu bife. Na sala havia ainda um velhote de barbicha, que era professor parece que de mágica e o anão de roupa xadrez. Mas ela não tinha chegado. Animei-me um pouco quando veio um prato de pastéis, tenho loucura por pastéis. James começou a falar então de uma briga no parque de diversões, mas eu estava de olho na porta. Vi quando ela entrou conversando baixinho com um cara de bigode ruivo. Subiram a escada como dois gatos pisando macio. Não demorou nada e o raio do saxofone desandou a tocar.

— Sim senhor — eu disse e James pensou que eu estivesse falando na tal briga.

— O pior é que eu estava de porre, mal pude me defender!

Mordi um pastel que tinha dentro mais fumaça do que outra coisa. Examinei os outros pastéis para descobrir se havia algum com mais recheio.

— Toca bem esse condenado. Quer dizer que ele não vem comer nunca?

James demorou para entender do que eu estava falando. Fez uma careta. Decerto preferia o assunto do parque.

— Come no quarto, vai ver que tem vergonha da gente — resmungou ele, tirando um palito. — Fico com pena, mas às vezes me dá raiva, corno besta. Um outro já tinha acabado com a vida dela!

Agora a música alcançava um agudo tão agudo que me doeu o ouvido. De novo pensei na moça ganindo de dor na carroceria, pedindo ajuda não sei mais para quem.

— Não topo isso, pomba.

— Isso o quê?

Cruzei o talher. A música no máximo, os dois no máximo trancados no quarto e eu ali vendo o calhorda do James palitar os dentes. Tive ganas de atirar no teto o prato de goiabada com queijo e me mandar para longe de toda aquela chateação.

— O café é fresco? — perguntei ao mulatinho que já limpava o oleado da mesa com um pano encardido como a cara dele.

— Feito agora.

Pela cara vi que era mentira.

— Não é preciso, tomo na esquina.

A música parou. Paguei, guardei o troco e olhei reto para aporta, porque tive o pressentimento que ela ia aparecer. E apareceu mesmo com o aninho de gata de telhado, o cabelo solto nas costas e o vestidinho amarelo mais curto ainda do que o vermelho. O tipo de bigode passou em seguida, abotoando o paletó. Cumprimentou a madame, fez ar de quem tinha muito o que fazer e foi para a rua.

— Sim senhor!

— Sim senhor o quê? — perguntou James.

— Quando ela entra no quarto com um tipo, ele começa a tocar, mas assim que ela aparece, ele para. Já reparou? Basta ela se enfurnar e ele já começa.

James pediu outra cerveja. Olhou para o teto.

— Mulher é o diabo…

Levantei-me e quando passei junto da mesa dela, atrasei o passo. Então ela deixou cair o guardanapo. Quando me abaixei, agradeceu, de olhos baixos.

— Ora, não precisava se incomodar…

Risquei o fósforo para acender-lhe o cigarro. Senti forte seu perfume.

— Amanhã? — perguntei, oferecendo-lhe os fósforos. — Às sete, está bem?

— É a porta que fica do lado da escada, à direita de quem sobe.

Saí em seguida, fingindo não ver a carinha safada de um dos anões que estava ali por perto e zarpei no meu caminhão antes que a madame viesse me perguntar se eu estava gostando da comida. No dia seguinte cheguei às sete em ponto, chovia potes e eu tinha que viajar a noite inteira. O mulatinho já amontoava nas cadeiras as almofadas para os anões. Subi a escada sem fazer barulho, me preparando para explicar que ia ao reservado, se por acaso aparecesse alguém. Mas ninguém apareceu. Na primeira porta, aquela à direita da escada, bati de leve e fui entrando. Não sei quanto tempo fiquei parado no meio do quarto: ali estava um moço segurando um saxofone. Estava sentado numa cadeira, em mangas de camisa, me olhando sem dizer uma palavra. Não parecia nem espantado nem nada, só me olhava.

— Desculpe, me enganei de quarto — eu disse, com uma voz que até hoje não sei onde fui buscar.

O moço apertou o saxofone contra o peito cavado.

— É na porta adiante — disse ele baixinho, indicando com a cabeça.

Procurei os cigarros só para fazer alguma coisa. Que situação, pomba. Se pudesse, agarrava aquela dona pelo cabelo, a estúpida. Ofereci-lhe cigarro.

— Está servido?

— Obrigado, não posso fumar.

Fui recuando de costas. E de repente não aguentei. Se ele tivesse feito qualquer gesto, dito qualquer coisa, eu ainda me segurava, mas aquela bruta calma me fez perder as tramontanas.

— E você aceita tudo isso assim quieto? Não reage? Por que não lhe dá uma boa sova, não lhe chuta com mala e tudo no meio da rua? Se fosse comigo, pomba, eu já tinha rachado ela pelo meio! Me desculpe estar me metendo, mas quer dizer que você não faz nada?

— Eu toco saxofone.

Fiquei olhando primeiro para a cara dele, que parecia feita de gesso de tão branca. Depois olhei para o saxofone. Ele corria os dedos compridos pelos botões, de baixo para cima, de cima para baixo, bem devagar, esperando que eu saísse para começar a tocar. Limpou com um lenço o bocal do instrumento, antes de começar com os malditos uivos.

Bati a porta. Então a porta do lado se abriu bem de mansinho, cheguei a ver a mão dela segurando a maçaneta para que o vento não abrisse demais. Fiquei ainda um instante parado, sem saber mesmo o que fazer, juro que não tomei logo a decisão, ela esperando e eu parado feito besta, então, Cristo-Rei!? E então? Foi quando começou bem devagarinho a música do saxofone. Fiquei broxa na hora, pomba. Desci a escada aos pulos. Na rua, tropecei num dos anões metido num impermeável, desviei de outro, que já vinha vindo atrás e me enfurnei no caminhão. Escuridão e chuva. Quando dei a partida, o saxofone já subia num agudo que não chegava nunca ao fim. Minha vontade de fugir era tamanha que o caminhão saiu meio desembestado, num arranco.
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Lygia Fagundes Telles (1918 – 2022)
LYGIA DE AZEVEDO FAGUNDES (passou a assinar Lygia Fagundes Telles após o casamento com o jurista Goffredo Telles Júnior) foi uma das maiores escritoras da literatura brasileira, amplamente reconhecida por sua maestria na ficção, estilo refinado e profundidade psicológica. Nasceu em 1918, na cidade de São Paulo (SP) e faleceu em 2022, nesta mesma cidade, aos 103 anos. Embora tenha nascido na capital paulista, passou a infância mudando-se para várias cidades do interior de São Paulo (como Sertãozinho, Areias e Apiaí) devido às funções do pai, que era promotor público. Mais tarde, retornou para a capital. Graduou-se na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (Largo de São Francisco) e em Educação Física. Conciliou a escrita com a atuação no serviço público. Trabalhou como procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo (IPESP) e chegou a chefiar o setor cultural do órgão. 
Eleita em 1985 para a cadeira nº 16 da Academia Brasileira de Letras, tornando-se a terceira mulher a ingressar na instituição. Membro da Academia Paulista de Letras (APL); Academia de Ciências de Lisboa como membro correspondente. Estreou muito jovem com o livro de contos Porões e Sobrados (1938), financiado por seu pai. Contudo, ela considerava seu marco inicial de maturidade literária o romance Ciranda de Pedra (1954). Escreveu quatro romances fundamentais e dezenas de coletâneas de contos marcadas pelo mistério, pela introspecção psicológica e pelo realismo urbano. 
Romances: Ciranda de Pedra (1954), Verão no Aquário (1964), As Meninas (1973) e As Horas Nuas (1989). 
Livros de Contos: Antes do Baile Verde (1970), Seminário dos Ratos (1977), A Noite Escura e Mais Eu (1995) e Invenção e Memória (2000).
Ao longo de sua carreira, recebeu as mais altas honrarias da língua portuguesa, incluindo: Prêmio Camões (2005): O mais importante prêmio literário dos países de língua portuguesa; Prêmio Jabuti: Venceu em múltiplas ocasiões (com As Meninas, Seminário dos Ratos e Invenção e Memória); Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras; Prêmio Juca Pato (Intelectual do Ano) em 1980.
Lygia Fagundes Telles foi uma figura revolucionária na literatura brasileira. Conhecida como "a Dama da Literatura Brasileira", sua importância reside na capacidade de traduzir a complexidade da alma humana, especialmente o universo feminino, sem clichês ou idealizações. Em clássicos como As Meninas, ela ousou retratar a opressão e o clima político da Ditadura Militar através do olhar de três jovens mulheres, mesclando engajamento social com inovação técnica e fluxo de consciência. Lygia rompeu barreiras de gênero em um mercado predominantemente masculino e consolidou o conto brasileiro moderno, deixando um legado eterno de sofisticação, coragem e sensibilidade.

FONTE:
Lygia Fagundes Telles. “Antes do Baile Verde”. Publicado originalmente em 1970.

Lima Barreto (Quase ela deu o "sim", mas…)

 João Cazu era um moço suburbano, forte e saudável, mas pouco ativo e amigo do trabalho.

Vivia em casa dos tios, numa estação de subúrbios, onde tinha moradia, comida, roupa, calçado e algum dinheiro que a sua bondosa tia e madrinha lhe dava para os cigarros.

Ele, porém, não os comprava; “filava-os” dos outros. “Refundia” os níqueis que lhe dava a tia, para flores a dar às namoradas e comprar bilhetes de tômbolas, nos vários “mafuás”, mais ou menos eclesiásticos, que há por aquelas redondezas.

O conhecimento do seu hábito de “filar” cigarros aos camaradas e amigos, estava tão espalhado que, mal um deles o via, logo tirava da algibeira um cigarro; e, antes de saudá-lo, dizia:

—Toma lá o cigarro, Cazu.

Vivia assim muito bem, sem ambições nem tenções. A maior parte do dia, especialmente a tarde, empregava ele, com outros companheiros, em dar loucos pontapés, numa bola, tendo por arena um terreno baldio das vizinhanças da residência dele ou melhor: dos seus tios e padrinhos.

Contudo, ainda não estava satisfeito. Restava-lhe a grave preocupação de encontrar quem lhe lavasse e engomasse a roupa, remendasse as calças e outras peças do vestuário, cerzisse as meias, etc., etc.

Em resumo: ele queria uma mulher, uma esposa, adaptável ao seu jeito descansado.

Tinha visto falar em sujeitos que se casam com moças ricas e não precisam trabalhar; em outros que esposam professoras e adquirem a meritória profissão de “maridos da professora”; ele, porém, não aspirava a tanto.
Apesar disso, não desanimou de descobrir uma mulher que lhe servis convenientemente.

Continuou a jogar displicentemente, o seu futebol vagabundo e a viver cheio de segurança e abundância com os seus tios e padrinhos.

Certo dia, passando pela porteira da casa de uma sua vizinha mais ou menos conhecida, ela lhe pediu:

— “Seu” Cazu, o senhor vai até à estação?

— Vou, Dona Ermelinda.

— Podia me fazer um favor?

— Pois não.

— É ver se o “Seu” Gustavo da padaria “Rosa de Ouro”, me pode ceder duas estampilhas de seiscentos réis. Tenho que fazer um requerimento ao Tesouro, sobre coisas do meu montepio, com urgência, precisava muito.

— Não há dúvida, minha senhora.

Cazu, dizendo isto, pensava de si para si: ,’É um bom partido. Tem montepio, é viúva; o diabo são os filhos!” Dona Ermelinda, à vista da resposta dele, disse:

— Está aqui o dinheiro.

Conquanto dissesse várias vezes que não precisava daquilo — o dinheiro — o impenitente jogador de futebol e feliz hóspede dos tios, foi embolsando os nicolaus, por causa das dúvidas.

Fez o que tinha a fazer na estação, adquiriu as estampilhas e voltou para entregá-las à viúva.

De fato, Dona Ermelinda era viúva de um contínuo ou cousa parecida de uma repartição pública. Viúva e com pouco mais de trinta anos, nada se falava da sua reputação.

Tinha uma filha e um filho que educava com grande desvelo e muito sacrifício.

Era proprietária do pequeno chalé onde morava, em cujo quintal havia laranjeiras e algumas outras árvores frutíferas.

Fora o seu falecido marido que o adquirira com o produto de uma “sorte” na loteria; e, se ela, com a morte do esposo, o salvara das garras de escrivães, escreventes, meirinhos, solicitadores e advogados “mambembes”, devia-o à precaução do marido que comprara a casa, em nome dela.

Assim mesmo, tinha sido preciso a intervenção do seu compadre, o Capitão Hermenegildo, a fim de remover os obstáculos que certos ” águias” começavam a pôr, para impedir que ela entrasse em plena posse do imóvel e abocanhar-lhe afinal o seu chalezinho humilde.

De volta, Cazu bateu à porta da viúva que trabalhava no interior, com cujo rendimento ela conseguia aumentar de muito o módico, senão irrisório montepio, de modo a conseguir fazer face às despesas mensais com ela e os filhos.

Percebendo a pobre viúva que era o Cazu, sem se levantar da máquina, gritou:

— Entre, “Seu” Cazu.

Estava só, os filhos ainda não tinham vindo do colégio. Cazu entrou.

Após entregar as estampilhas, quis o rapaz retirar-se; mas foi obstado por Ermelinda nestes termos:

— Espere um pouco, “Seu” Cazu. Vamos tomar café.

Ele aceitou e, embora, ambos se serviram da infusão da “preciosa rubiácea” , como se diz no estilo “valorização”.

A viúva, tomando café, acompanhado com pão e manteiga, pôs-se a olhar o companheiro com certo interesse. Ele notou e fez-se amável e galante, demorando em esvaziar a xícara. A viuvinha sorria interiormente de contentamento. Cazu pensou com os seus botões: “Está aí um bom partido: casa própria, montepio, renda das costuras; e além de tudo, há de lavar-me e consertar a roupa. Se calhou, fico livre das censuras da tia…”

Essa vaga tenção ganhou mais corpo, quando a viúva, olhando-lhe a camisa, perguntou:

— “Seu ” Cazu, se eu lhe disser uma cousa, o senhor fica zangado?

— Ora, qual, Dona Ermelinda?

— Bem. A sua camisa está rasgada no peito. O senhor traz ” ela” amanhã, que eu conserto “ela”.

Cazu respondeu que era preciso lavá-la primeiro; mas a viúva prontificou-se em fazer isso também. O player dos pontapés, fingindo relutância no começo, aceitou afinal; e doido por isso estava ele, pois era uma ” entrada” , para obter uma lavadeira em condições favoráveis.

Dito e feito: daí em diante, com jeito e manha, ele conseguiu que a viúva se fizesse a sua lavadeira bem em conta.

Cazu, após tal conquista, redobrou de atividade no futebol, abandonou os biscates e não dava um passo, para obter emprego. Que é que ele queria mais? Tinha tudo…

Na redondeza, passavam como noivos; mas não eram, nem mesmo namorados declarados.

Havia entre ambos, unicamente um “namoro de caboclo”, com o que Cazu ganhou uma lavadeira, sem nenhuma exigência monetária e cultivava-o carinhosamente.

Um belo dia, após ano e pouco de tal namoro, houve um casamento na casa dos tios do diligente jogador de futebol. Ele, à vista da cerimônia e da festa, pensou: “Porque também eu não me caso? Porque eu não peço Ermelinda em casamento? Ela aceita, por certo; e eu…”

Matutou domingo, pois o casamento tinha sido no sábado; refletiu segunda e, na terça, cheio de coragem, chegou-se à Ermelinda e pediu-a em casamento.

— É grave isto, Cazu. Olhe que sou viúva e com dois filhos!

— Tratava “eles” bem; eu juro!

— Está bem. Sexta-feira, você vem cedo, para almoçar comigo e eu dou a resposta.

Assim foi feito. Cazu chegou cedo e os dois estiveram a conversar. Ela, com toda a naturalidade, e ele, cheio de ansiedade e, apreensivo.

Num dado momento, Ermelinda foi até à gaveta de um móvel e tirou de lá um papel.

— Cazu — disse ela, tendo o papel na mão — você vai à venda e à quitanda e compra o que está aqui nesta “nota”. É para o almoço.

Cazu agarrou trêmulo o papelucho e pôs-se a ler o seguinte:

1 quilo de feijão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .600 rs.
1/2 de farinha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
1/2 de bacalhau. . . . . . . . . . . .. . . . . . . .1.200 rs.
1/2 de batatas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 360 rs.
Cebolas. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Alhos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100 rs.
Azeite. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 300 rs.
Sal. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 100 rs.
Vinagre. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3.260 rs.

Quitanda:
Carvão. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 280 rs.
Couve. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 200 rs.
Salsa. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .  .100 rs.
Cebolinha. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .100 rs.

Tudo: . . . . . . . . . . .. . . . . . . . . . .. . . . . . .3.860 rs.

Acabada a leitura, Cazu não se levantou logo da cadeira; e, com a lista na mão, a olhar de um lado a outro, parecia atordoado, estuporado.

— Anda Cazu, fez a viúva. Assim, demorando, o almoço fica tarde…

— É que…

— Que há?

— Não tenho dinheiro.

— Mas você não quer casar comigo? É mostrar atividade meu filho! Dê os seus passos… Vá! Um chefe de família não se atrapalha… É agir !

João Cazu, tendo a lista de gêneros na mão, ergueu-se da cadeira, saiu e não mais voltou…
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Lima Barreto (1881 – 1922)
AFONSO HENRIQUES DE LIMA BARRETO foi um dos maiores escritores da literatura brasileira, conhecido por sua crítica social contundente e sua narrativa realista e inovadora. Nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 1881, e faleceu precocemente em sua cidade natal, em 1922, aos 41 anos, vítima de um colapso cardíaco ligado a problemas crônicos de saúde e ao alcoolismo. Viveu a maior parte de sua vida no subúrbio carioca, especialmente no bairro de Todos os Santos, local que serviu de grande inspiração para suas obras. Ingressou no curso de Engenharia na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, mas precisou abandonar os estudos para sustentar a família após o adoecimento mental de seu pai. Trabalhou como amanuense (copista e escriturário) na Secretaria da Diretoria Geral do Comércio do Ministério da Guerra. Atuou intensamente na imprensa, escrevendo crônicas, reportagens e sátiras políticas para diversos periódicos da época, como A Lanterna e Correio da Manhã.
Utilizava uma linguagem simples e direta, o que gerava resistência nos círculos acadêmicos da época, que preferiam o academicismo rebuscado. Sua escrita focava nos marginalizados, no preconceito racial e nas hipocrisias da República Velha. O escritor nunca pertenceu à Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele se candidatou três vezes à instituição, mas foi rejeitado em todas devido ao teor agressivo de suas críticas ao sistema literário e pelo racismo institucional da época. Não recebeu prêmios literários expressivos em vida, tendo grande parte de seu reconhecimento consolidada apenas postumamente.
Entre romances, sátiras e memórias, destacam-se: Recordações do Escrivão Isaías Caminha (1909); Triste Fim de Policarpo Quaresma (1911) – sua obra-prima; Numa e a Ninfa (1915); Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá (1919); Clara dos Anjos (publicado postumamente em 1948); Diário Íntimo e Cemitério dos Vivos (publicações póstumas de caráter autobiográfico).
Lima Barreto é uma figura fundamental do Pré-Modernismo brasileiro. Sua importância reside na coragem de romper com o formalismo da Belle Époque para dar voz e dignidade aos subúrbios, aos negros e aos pobres. Ele foi um dos primeiros a denunciar abertamente o preconceito racial e as desigualdades sociais do Brasil pós-abolição. Sua linguagem jornalística e coloquial antecipou as inovações que os modernistas consolidariam em 1922. Hoje, ele é celebrado como um autor indispensável para entender as raízes da formação social e cultural brasileira.

Fonte:
Lima Barreto. O homem que sabia javanês e outros contos. Publicado originalmente em Revista “Careta” – Rio de Janeiro, edição de 29/01/1921. 

Asas da Poesia * 218 *

Imagem = IA Microsoft Bing

A. A. de Assis 
Maringá/PR

TROVAS SOLTAS

Mesmo soltas e espalhadas,
as pétalas são formosas;
porém somente abraçadas
é que elas se tornam rosas!

Curvada ao peso da idade,
a vovó, serena e bela,
distrai o tempo e a saudade
entre o novelo e a novela...

Xô inverno... vá-se o frio...
volte depressa o calor...
que as rosas já estão no cio,
à espera do beija-flor!
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Amilton Maciel Monteiro
São José dos Campos/SP
PARTE DE NÓS

Criar poema é qual plasmar um filho;
lhe damos todo o amor que houver na gente,
mas, depois que soltamos seu anilho,
quem toma conta dele... é o Onipotente.

Também, quando criamos sonetilho,
queremos que ele seja convincente,
correto, puro e tenha certo brilho;
... nem sempre ocorre isso, infelizmente.

Mas não importa. O que conta é só amá-lo!
Quer fique lindo, ou mesmo um pouco feio,
de porte soberano, ou de vassalo;

Pois é parte de nós, porção de amor,
que quisemos doar ao nosso meio,
por vocação do próprio Criador!
= = = = = = = = = = = = = =  

Dária Farion
Pinhais/PR
CARISMA DIVINO

Ter na alma o afeto,
Na palma da mão a vida.
Encerrar no coração a imagem
Na mente a coragem.

Ter certeza,
Gritar com firmeza:
Meu filho , és meu rei
meu herói.
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Ademar Macedo 
Santana do Matos/RN, 1951 – 2013, Natal/RN
TROVAS AVULSAS

Na vida o que me conforta,
está nesta frase bela:
“Deus jamais fecha uma porta,
sem que abra uma janela”!

Entregue ao próprio abandono,
eu vi na rua um menino,
igualmente um cão sem dono
sem lar, sem pão, sem destino...

Eu beijei tantas “donzelas”
nesta minha vida, a esmo,
que quando me lembro delas
sinto nojo de mim mesmo!…
= = = = = = = = = = = = = =  

Fernando Pessoa 
Lisboa/ Portugal(1888 - 1935)
SÚBITA MÃO DE UM FANTASMA OCULTO

Súbita mão de algum fantasma oculto
Entre as dobras da noite e do meu sono
Sacode-me e eu acordo, e no abandono
Da noite não enxergo gesto ou vulto.

Mas um terror antigo, que insepulto
Trago no coração, como de um trono
Desce e se afirma meu senhor e dono
Sem ordem, sem meneio e sem insulto.

E eu sinto a minha vida de repente
Presa por uma corda de Inconsciente
A qualquer mão noturna que me guia.

Sinto que sou ninguém salvo uma sombra
De um vulto que não vejo e que me assombra,
E em nada existo como a treva fria.
= = = = = = = = = = = = = =  

Lígia Antunes Leivas
Pelotas/RS
ENTRELINHAS

Na insensatez dos conceitos
emergem desejos...
Quebra-se o elo:
desequilibra-se o universo.

A expectativa antessonha auroras
neste querer maior
de peles de veludo unidas
no desenho de nós mesmos.

Na hora cálida da tarde
atiçam-se todas as luzes...
Um pouco de mim, de ti, de nós
e a explosão de todos os sentidos.

Cada espaço traz a medida certa
...um oceano cresce entre nossas vidas
e nesta separação entre desenganos
descubro-me atônita!

Olhos ao longe (tão longínqua distância!...)
Sou voz perdida, sou desterro
sou muito menos agora
que as entrelinhas deste poema...
= = = = = = = = = = = = = =  

Luiz Poeta
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

AMANTE É QUEM AMA

Somos amantes sem sê-lo,
Mesmo epidermicamente,
Somos mesmo sem sabê-lo,
Somos amantes na mente.

Se um corpo alheio, ao vê-lo,
Sentimos um calor fremente
E, num átimo, por tê-lo,
Ansiamos de repente...

Mesmo estando tão presente
A pessoa que nos ama,
Mesmo estando até na cama
Em carícias envolventes...

Traímos o que nos sente,
Sem todavia traí-lo,
Sentimos o amante ausente,
Sem entretanto senti-lo.

E não depende da gente
Lembrar alguém no momento
Do amor mais forte e envolvente,
Repleto de sentimento.

Traímos no pensamento,
Sem toques e sem contatos,
Portanto, se não há ato,
Não traímos, tão-somente.

Se em pensamentos traímos...
Traímos! ...mas quem reclama?
Porque, quando nos unimos,
Amante é aquele que ama.
= = = = = = = = = = = = = =  

Margot de Freitas Santos
Juiz de Fora/MG
SILÊNCIO

O silêncio de hoje é preciso.
Me nego a falar, nada tenho a escutar
Que seja mais forte e intenso
Do que repousa dentro de meu peito.

O silêncio de hoje é preciso.
Tenho lágrimas guardadas que não posso ocultar
De uma ausência doída, que por mais que eu chame,
Por estar em sono profundo, não consigo acordá-la.

O silêncio de hoje é preciso.
Busco o amparo forte
De abraços adormecidos
Que não mais podem me amparar.

O silêncio de hoje é preciso
Para aceitar esta ausência sentida
Por todo o meu corpo
Que sinto
Não mais existir!

O silêncio de hoje só não mais seria preciso,
Se aqui você estivesse e, então,
A vida teria sentido: o renascer do amor a cada dia
Onde o adormecer jamais existiria!
= = = = = = = = = = = = = =  

Antônio Roberto Fernandes 
São Fidélis/RJ, 1945 – 2008, Campos dos Goytacazes/RJ
LADAINHA

Olhai pra mim, mulher da minha vida!
Senhora dos meus sonhos, me escutai!
Minh' alma já não sabe aonde vai,
neste vale de lágrimas perdida.

Com a luz de vossos olhos me mostrai
um caminho, uma chance, uma saída,
Senhora finalmente aparecida,
meus negros horizontes clareai.

Não tenho vocação para o martírio,
perdão se é heresia o meu delírio
mas nestes lábios que têm fogo e mel.

Arrebatai-me agora, ao gozo eterno
para que eu - que já conheço o inferno -
possa, convosco, conhecer o céu!.…
= = = = = = = = = = = = = =  

Guilherme de Almeida 
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP 
NÓS

Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
---" Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos…
= = = = = = = = = = = = = =