sexta-feira, 10 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 16 *

 

Acaso fizeste a Lua?
Acaso fizeste a rosa?
Então que ciência é a tua,
tão solene e presunçosa?…
A. A. DE ASSIS
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A saudade é uma andorinha,
que ao morrer do sol a chama,
as asas tristes aninha
no coração de quem ama…
ADELMAR TAVARES 
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Quem ama tem de sofrer.
É de todos já sabido.
Pois de gozo e padecer
fez-se o reino de Cupido.
ANTÔNIO JOSÉ DE VELLASCO JR.
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O tempo é bom funcionário!
Fiel, não cede a pressões,..
Velho agente alfandegário,
confiscador de ilusões!
ANTONIO DE OLIVEIRA
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Se estás sempre me esperando,
sempre te espero também;
e, sempre, encontros marcando,
um não vai e outro não vem...
ANTONIO ORLANDO 
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Vou carregando meu fardo
sem praguejar nos caminhos,
pois sou feito a flor do cardo
que desabrocha entre espinhos.
ANTONIO JURACI SIQUEIRA
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Na guitarra chora o fado
que imortalizas na voz...
No teu xale bem bordado
tem saudade presa aos nós,..
ANTONIO MORGADO PINTO
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No grande circo da vida,
eu me finjo prazenteiro,
oculto a alma ferida,
e vibro no picadeiro.
ARLINDO CASTOR DE LIMA 
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Quisera que minhas rugas
que os anos em mim marcaram,
fossem só marcas, que em fugas,
lindos sorrisos deixaram!
ARTURITA TEIXEIRA PINTO
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Tantos disseram: cuidado
com as setas de cupido.
Bolas!... só fui avisado
quando já fora atingido.
ARY DE OLIVEIRA 
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Velha foto esmaecida
deixou lágrima de herança!
Hoje a vejo colorida
pelo cristal da lembrança.
ÁTILA SILVEIRA BRASIL 
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Colhi, entre amigos meus,
este conceito profundo:
– Mãe é um sorriso de Deus
nos sofrimentos do mundo.
AUTA DE SOUZA
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O trovador que se preza,
só faz a trova contrito,
na postura de quem reza,
de olhos postos no infinito...
BATISTA SOARES
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Teus olhos são negros, negros
como as noites sem luar...
São ardentes, são profundos
como o negrume do mar.
CASTRO ALVES
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Quando no outono da vida
eu me perco em devaneio,
vejo uma luz colorida
e em sonhos, eu veraneio.
CECY BARBOSA CAMPOS
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Ai de quem foge, no mundo,
dos caminhos da verdade
que a fuga dura um segundo
e o remorso... a eternidade.
CÉLIO GRUNEWALD 
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Certo bispo ouve uma “história”
de um padre chamado Hilário
e grava, assim, na memória
um bom “Conto do Vigário”.
CLÁUDIO DE CÁPUA 
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Senhor, neste amanhecer,
louvo a tua criação;
da aurora ao entardecer,
eu te encontro em meu irmão!
CÔNEGO BENEDITO VIEIRA TELLES 
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Espaço que dá saber,
que abole manipulados,
estimula o bem-querer:
Escola, abre cadeados...
CRISTINA CACOSSI
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A silhueta da santa
pintada em nobre capela
também vinga que nem planta
em barracão de favela.
CRISTINA LEITE
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Da vida aceito o convite:
tomo nas mãos um compasso ,
e o mundo não tem limite
quando meus sonhos eu traço..,
DJALDA WINTER SANTOS
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Sentimos tanta alegria
quando estamos abraçados,
que, para nós, qualquer dia
é Dia dos Namorados!
DIVENEI BOSELI 
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A favela à luz da lua
é um presépio em miniatura.
Mas, ante o sol, triste e nua
tem de um calvário a estatura.
DOMITILA BORGES BELTRAME
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Ao deparar com a cena
de uma boa escorregada,
confesso que tenho pena,
mas não seguro a risada.
EDY SOARES
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Na linha da nossa vida,
nós temos a curva e a reta;
encontramos a guarida
quando a dor a inveja injeta.
ELISA ALDERANI
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Fui por vós, senhora minha,
o que não fui por ninguém;
é que a conta vós não tinha
de pagar com o mal o bem.
EMILIANO PERNETA  
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Eu te quero às escondidas
e, se esta espera durar,
te esperarei quantas vidas
for necessário esperar!
EUGÊNIA MARIA RODRIGUES 
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Há um renovar de energia
e um futuro de esperança,
ao sentir, na mão macia,
o carinho da criança!
EULINDA BARRETO FERNANDES
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Eu sinto nos braços teus,
um carinho, um aconchego,
e me torno um semideus
vivendo em paz, no sossego.
FILEMON FRANCISCO MARTINS
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Os meus amigos são tantos
de uma bondade sem fim,
que não preciso ter prantos,
pois eles choram por mim!
FRANCISCO JOSÉ PESSOA 
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Diante do altar, rezando,
minha mãe chorava e ria...
Era a ternura aflorando
no cálice da poesia!
GISELDA MEDEIROS
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Sozinhas nas madrugadas,
donas do mundo e da lua,
nossas mãos entrelaçadas
seguem juntas pela rua!
GISLAINE CANALES 
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Esta chuvinha danada,
que bate aqui na "moringa"!
Clama o bêbado na estrada:
por que é que não pinga "pinga"?...
GIVA DA ROCHA
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"Adeus, meu sonho perdido,
belo, imponente, palpável!",
disse a mulher ao marido
e ao seu "lixo reciclável"!
HÉRON PATRÍCIO 
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A sorte, esquiva e malvada,
não dá “chance”, só trabalho...
Eu a sigo pela estrada,
e ela foge pelo atalho!…
IZO GOLDMAN 
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Candelabro, iluminaste
meus dias! Que glória viste!
Agora és um velho traste
nas noites de um velho triste!
JACY PACHECO
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Você me chamou de "pão"...
uma carinha tão meiga
que fez do meu coração
um potinho de manteiga...
JAIME PINA DA SILVEIRA
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A fuga não leva a nada,
meu caminho eu sigo em frente,
Em toda e qualquer estrada,
há um anjo guardando a gente.
JAQUELINE MACHADO
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Mesmo após tua partida,
te busco na multidão…
Sem você, não tenho vida,
levaste o meu coração!
JOSÉ FELDMAN
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Sinto inveja dos ponteiros
de hora em hora se encontrando,
pois gasto meses inteiros,
sem sucesso, te buscando…
LACY JOSÉ RAYMUNDI 
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A paz é conquista interna,
pura ausência de ansiedade,
tranquilidade que externa
prazer e felicidade.
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
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Nas tristes tardes de outono,
entre as folhas, sem meu bem,
vago a esmo, no abandono...
sou folha seca também!
LUCÉLIA SANTOS
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Na pouca pressa que tens
de aliviar minha saudade,
enquanto espero e não vens,
transcorre uma eternidade!
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DECARLI
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Quisera ter um amor
tão lindo como cristal;
e repleto de esplendor,
livre de bruma fatal.
LUIZA NELMA FILLUS
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A liberdade do poeta,
está num verso... Num grito...
No equilíbrio se completa,
vencendo o próprio infinito!
PROFESSOR GARCIA
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Foi galantear, o Pérsio,
e o otário se deu mal:
"Tu és de fechar o comércio!”
E a morena era fiscal!
SELMA PATTI SPINELLI
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Das lágrimas de um poeta
renasce uma inspiração,
um poema se completa…
Leva alento ao coração.
SOLANGE COLOMBARA
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Sem ódio... sem armamento...
sem heróis, que a guerra faz,
será, o mundo, um monumento
erguido em nome da PAZ! 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
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Saudade do amor perdido,
pois sei que não volta mais.
É meu destino bandido
onde suporto meus ais.
WADAD NAIEF KATTAR
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Queres saber, doce amada,
o que é saudade na vida?
Uma metade afastada
da outra metade, querida.
WALDEMIRO PORTUGAL
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José Feldman (Chuva e Outras Desculpas)

Em Maringá, como em qualquer lugar do mundo, o tempo não é apenas clima — é o principal fornecedor de desculpas da humanidade. E a chuva, ah, a chuva… ela é a rainha de todas as justificativas, a musa da preguiça, o álibi perfeito para quem não quer sair de casa, não quer trabalhar, não quer cumprir promessa ou simplesmente prefere ficar deitado ouvindo o barulho das gotas no telhado.

Observe bem: basta o céu ficar cinza, uma nuvem escura pairar sobre a Avenida Brasil, e imediatamente todo mundo tem um motivo para adiar o que quer que seja. 

O funcionário que chega atrasado: “A chuva atrapalhou o trânsito, as ruas ficaram todas alagadas”. 

Nem que tenha caído apenas três gotas, suficientes para molhar o chão e nada mais — a versão oficial é sempre a de que houve uma enchente digna de filme de desastre. 

O amigo que não apareceu no encontro combinado: “Meu Deus, com essa chuva eu não ia conseguir chegar, ia escorregar, ia pegar um resfriado, ia até ser assaltado se saísse de casa”. 

A realidade? Ele estava era assistindo série na cama e achou que a chuva era um argumento muito mais nobre do que “não tive vontade”.

E o mais engraçado é como a cidade toda muda de comportamento quando o tempo vira. Quem costuma caminhar cinco quarteirões sem reclamar, com o sol escaldante, passa a achar que atravessar a rua com chuva é uma aventura mortal. As calçadas, que normalmente são cheias de gente, ficam vazias como se tivessem anunciado um apocalipse. E lá pelas janelas, dá para ver as pessoas espiando, meio satisfeitas, meio culpadas, pensando: “Que bom que está chovendo, assim ninguém pode me cobrar nada hoje”.

Também repare na inventividade que brota nessas horas. Já ouvi de tudo: 

“Não dá para lavar o carro, porque a chuva vai sujar tudo de novo” — lógica brilhante, que serve para adiar a tarefa por uma semana inteira. 

“Não posso ir ao mercado, porque com o piso molhado dentro da loja, eu posso cair e me machucar” — como se o mercado fosse uma pista de patinação no gelo. 

Até o estudo ou o trabalho em casa fica impossível: “O som da chuva me deixa sonolento, não consigo me concentrar”. 

Ora, antes fosse o som da chuva… o problema mesmo é que a preguiça encontrou uma trilha sonora perfeita para se instalar.

O pico da criatividade, porém, acontece quando a chuva passa e o sol volta a brilhar forte, como se nada tivesse acontecido. Aí, sim, surgem as desculpas de transição: “Ah, agora que parou, o chão está úmido, melhor esperar secar para não sujar os sapatos”. Depois: “Está muito quente agora, melhor esperar esfriar um pouco”. 

E assim o dia vai passando, o sol se pondo, e a pessoa não fez nada, mas tem uma explicação para cada minuto perdido.

Pensando bem, não é só a chuva. O ser humano é um gênio em transformar qualquer detalhe do mundo ao seu redor em motivo para descansar. 

Se faz frio: “Está muito gelado, o corpo pede repouso”. Se faz calor: “Está muito quente, não tem condições de fazer esforço”. Se está nublado: “O dia está escuro, parece que já é noite, melhor deixar para amanhã”. Se faz sol forte: “O calor cansa, não dá para se mexer”.

O tempo, na verdade, é só um coadjuvante. O protagonista mesmo é a nossa capacidade de transformar qualquer situação em uma desculpa esfarrapada, mas dita com tanta convicção que até nós mesmos acabamos acreditando. 

E a chuva? Coitada. Ela só cai, faz o seu trabalho de molhar a terra e refrescar o ar, e acaba levando a culpa por toda a nossa falta de vontade.

No fundo, é até engraçado. Porque se um dia o tempo ficar perfeito — nem frio, nem quente, nem seco, nem úmido, céu azul sem nuvens, brisa leve — tenho certeza absoluta que alguém vai inventar: “Está um dia tão bonito, que é pena gastá-lo trabalhando… melhor ficar olhando pela janela”. E pronto: mais uma desculpa, mais um dia perdido, mais uma vitória da preguiça sobre a ação.
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta, no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Condecorado pela Ordo Equitum Calamis et Calicis (Romênia) com o título de Comandante Supremo do Saber; Mérito Cultural, pela Confraria Luso-Brasileira de Letras (Portugal), Comenda da Academia de Letras e Artes Pan-Americana, Mérito Cultural Euclides da Cunha da Academia de Letras Brasil-Suíça (Berna), Mérito Liderança pela Paz, do Rotary Club.  Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 8 livros publicados. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

Interlúdio * 5 *

 

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ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.

A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).

A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Adélia Prado (Sem Enfeite Nenhum)

A mãe era desse jeito: só ia em missa das cinco, por causa de os gatos no escuro serem pardos. Cinema, só uma vez, quando passou os Milagres do padre Antônio em Urucânia. Desde aí, falava sempre, excitada nos olhos, apressada no cacoete dela de enrolar um cacho de cabelo: se eu fosse lá, quem sabe?

Sofria palpitação e tonteira, lembro dela caindo na beira do tanque, o vulto dobrado em arco, gente afobada em volta, cheiro de alcanfor.

Quando comecei a empinar as blusas com o estufadinho dos peitos, o pai chegou pra almoçar, estudando terreno, e anunciou com a voz que fazia nessas ocasiões, meio saliente: companheiro meu tá vendendo um relogim que é uma gracinha, pulseirinha de crom’, danado de bom pra do Carmo. Ela foi logo emendando: tristeza, relógio de pulso e vestido de bolér. Nem bolero ela falou direito de tanta antipatia. Foi água na fervura minha e do pai.

Vivia repetindo que era graça de Deus se a gente fosse tudo pra um convento e várias vezes por dia era isto: meu Jesus, misericórdia… A senhora tá triste, mãe? eu falava. Não, tô só pedindo a Deus pra ter dó de nós.

Tinha muito medo da morte repentina e pra se livrar dela, fazia as nove primeiras sextas-feiras, emendadas. De defunto não tinha medo, só de gente viva, conforme dizia. Agora, da perdição eterna, tinha horror, pra ela e pros outros.

Quando a Ricardina começou a morrer, no Beco atrás da nossa casa, ela me chamou com a voz alterada: vai lá, a Ricardina tá morrendo, coitada, que Deus perdoe ela, corre lá, quem sabe ainda dá tempo de chamar o padre, falava de arranco, querendo chorar, apavorada: que Deus perdoe ela, ficou falando sem coragem de aluir do lugar.

Mas a Ricardina era de impressionar mesmo, imagina que falou pra mãe, uma vez, que não podia ver nem cueca de homem que ela ficava doida. Foi mais por isso que ela ficou daquele jeito, rezando pra salvação da alma da Ricardina.

Era a mulher mais difícil a mãe. Difícil, assim, de ser agradada. Gostava que eu tirasse só dez e primeiro lugar. Pra essas coisas não poupava, era pasta de primeira, caixa com doze lápis e uniforme mandado plissar. Acho mesmo que meia razão ela teve no caso do relógio, luxo bobo, pra quem só tinha um vestido de sair.

Rodeava a gente estudar e um dia falou abrupto, por causa do esforço de vencer a vergonha: me dá seus lápis de cor. Foi falando e colorindo alaranjado, uma rosa geométrica: cê põe muita força no lápis, se eu tivesse seu tempo, ninguém na escola me passava, inteligência não é estudar, por exemplo falar você em vez de cê, é tão mais bonito, é só acostumar. Quando o coração da gente dispara e a gente fala cortado, era desse jeito que tava a voz da mãe.

Achava estudo a coisa mais fina e inteligente era mesmo, demais até, pensava com a maior rapidez. Gostava de ler de noite, em voz alta, com tia Santa, os livros da Pia Biblioteca, e de um não esqueci, pois ela insistia com gosto no titulo dele, em latim: Máguina pecatrís. Falava era antusiasmo e nunca tive coragem de corrigir, porque toda vez que tava muito alegre, feito naquela hora, desenhando, feito no dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou: coitado, até essa hora no serviço pesado.

Não estava gostando nem um pouquinho do desenho, mas nem que eu falava. Com tanta satisfação ela passava o lápis, que eu fiquei foi aflita, como sempre que uma coisa boa acontecia.

Bom também era ver ela passando creme Marsílea no rosto e Antissardina n° 3, se sacudindo de rir depois, com a cara toda empolada. Sua mãe é bonita, me falaram na escola. E era mesmo, o olho meio verde.

Tinha um vestido de seda branco e preto e um mantô acinzentado que ela gostava demais.

Dia ruim foi quando o pai entestou de dar um par de sapato pra ela. Foi três vezes na loja e ela botando defeito, achando o modelo jeca, a cor regalada, achando aquilo uma desgraça e que o pai tinha era umas bobagens. Foi até ele enfezar e arrebentar com o trem, de tanta raiva e mágoa.

Mas sapato é sapato, pior foi com o crucifixo. O pai, voltando de cumprir promessa em Congonhas do Campo, trouxe de presente pra ela um crucifixo torneadinho, o cordão de pendurar, com bambolim nas pontas, a maior gracinha. Ela desembrulhou e falou assim: bonito, mas eu preferia mais se fosse uma cruz simples, sem enfeite nenhum.

Morreu sem fazer trinta e cinco anos, da morte mais agoniada, encomendando com a maior coragem: a oração dos agonizantes, reza aí pra mim, gente.

Fiquei hipnotizada, olhando a mãe. Já no caixão, tinha a cara severa de quem sente dor forte, igualzinho no dia que o João Antônio nasceu. Entrei no quarto querendo festejar e falei sem graça: a cara da senhora, parece que tá com raiva, mãe.

O Senhor te abençoe e te guarde,
Volva a ti o Seu Rosto e se compadeça de ti,
O Senhor te dê a Paz.

Esta é a bênção de São Francisco, que foi abrandando o rosto dela, descansando, descansando, até como ficou, quase entusiasmado.

Era raiva não. Era marca de dor.
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ADÉLIA PRADO (nome artístico de Adélia Luzia De Prado Freitas), escritora amplamente reconhecida como uma das maiores vozes da literatura em língua portuguesa, completou 90 anos de idade. Nasceu em Divinópolis (MG) em 1935. Passou toda a sua vida e mora até hoje em Divinópolis. A pacata rotina do interior mineiro sempre funcionou como a principal matéria-prima para a sua literatura. Formou-se professora e lecionou durante 24 anos em escolas de Divinópolis. Ministrou disciplinas como Filosofia da Educação, Relações Humanas e Educação Religiosa. Abandonou as salas de aula em 1979 para se dedicar exclusivamente à literatura. Graduou-se em Filosofia pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Divinópolis em 1973. Atuou como Chefe da Divisão Cultural da Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Divinópolis. Também dirigiu o grupo de teatro amador Cara e Coragem, encenando peças de Ariano Suassuna e Dias Gomes.
Começou a escrever versos aos 15 anos, motivada pelo luto após a morte de sua mãe. Contudo, sua estreia editorial ocorreu tardiamente, aos 40 anos. Em 1973, ela enviou seus manuscritos ao crítico literário Affonso Romano de Sant'Anna. Impressionado, ele repassou os textos para Carlos Drummond de Andrade, que ficou fascinado com a originalidade de Adélia e usou sua coluna no Jornal do Brasil para anunciar o surgimento de uma grande poeta, apadrinhando o lançamento de seu livro de estreia, Bagagem, em 1976.
Diferente de muitos de seus contemporâneos, Adélia Prado não faz parte da Academia Brasileira de Letras (ABL) como membra efetiva (imortal), tendo optado por manter sua rotina reclusa no interior de Minas Gerais. Apesar disso, mantém uma relação de enorme prestígio e reconhecimento mútuo com as instituições literárias do país. Ao longo de sua consagrada trajetória, Adélia recebeu as distinções mais importantes da língua portuguesa: Prêmio Jabuti (1978): Vencido na categoria poesia com o livro O Coração Disparado. Foi também homenageada como Personalidade Literária do Ano no Jabuti de 2020 ; Prêmio ABL de Literatura Infantojuvenil (2007): Pela obra Quando eu era pequena ; Prêmio literário da Fundação Biblioteca Nacional e Prêmio APCA (2010) ; Prêmio Machado de Assis (2024): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra ; Prêmio Camões (2024): O prêmio máximo da literatura de língua portuguesa. Adélia fez história ao se tornar a primeira mulher mineira a receber esta honraria.
Sua produção literária transita com maestria entre a poesia e a prosa lírica:
Poesia: Bagagem (1976); O Coração Disparado (1978); Terra de Santa Cruz (1981); O Pelicano (1987); A Faca no Peito (1988); Oráculos de Maio (1999); A Duração do Dia (2010); Miserere (2013).
Prosa (Contos e Romances): Solte os Cachorros (1979) ; Cacos para um Vitral (1980) ; Os Componentes da Banda (1984) ; O Homem da Mão Seca (1994) ; Filandras (2001).
A relevância de Adélia Prado reside na capacidade única de universalizar o cotidiano banal e a vida doméstica sob uma ótica profundamente lírica, metafísica e feminina. Antes dela, a literatura frequentemente separava a experiência intelectual e artística dos afazeres de mãe, esposa e dona de casa. Adélia rompeu essa barreira ao colocar a cozinha, a fé cristã, o erotismo sutil, o corpo feminino, o tanque de lavar roupas e a província no centro da grande poesia. Sua linguagem é despojada, direta e musical, fundindo uma espiritualidade quase mística (isenta de moralismos) com o humor e as dores da carne, o que a consolida como uma das maiores referências do Modernismo tardio no Brasil.

Fontes:
Fernando Paixão. Contos mineiros. Publicado originalmente em 1984.
Biografia – Ebiografia, Wikipedia, Recanto das Letras, Guia do Estudante, CNN Brasil, Gazeta, Biblioteca Pública do Paraná, etc.

Nelson Rodrigues (Delicado)

Primeiro, o casal teve sete filhas! O pai, que se chamava Macário, coçava a cabeça, numa exclamação única e consternada:

— Papagaio!

Era um santo e obstinado homem. Sua utopia de namorado fora um simples e exíguo casal de filhos, um de cada sexo. Veio a primeira menina, mais outra, uma terceira, uma quarta e outro qualquer teria desistido, considerado que a vida encareceu muito. Mas seu Macário incluía entre seus defeitos o de ser teimoso. Na quinta filha, pessoas sensatas aconselharam: “Entrega os pontos, que é mais negócio!”. Seu Macário respirou fundo:

— Não, nunca! Nunca! Eu não sossego enquanto não tiver um filho homem!

Por sorte, casara-se com uma mulher; d. Flávia, que era, acima de tudo, mãe. Sua gravidez transcorria docemente, sem enjoos, desejos, tranquila, quase eufórica. Quanto ao parto propriamente, era outro fenômeno estranhíssimo. Punha os filhos no mundo sem um gemido, sem uma careta. O marido sofria mais. Digo “sofria mais” porque o acometia, nessas ocasiões, uma dor de dente apocalíptica, de origem emocional. O caso dava o que pensar, pois Macário tinha na boca uma chapa dupla. Quando nasceu a sétima filha, o marido arrancou de si um suspiro em profundidade; e anunciou:

— Minha mulher, agora nós vamos fazer a última tentativa!

NOVO PARTO

No dia que d. Flávia ia ter o oitavo filho, os nervos de seu Macário estavam em pandarecos. Veio, chamada às pressas, a parteira, que era uma senhora de cento e trinta quilos, baixinha e patusca. A parteira espiou-a com uma experiência de mil e setecentos partos e concluiu: “Não é pra já!”. Ao que, mais do que depressa, replicou seu Macário:

— Meus dentes estão doendo!

E, de fato, o grande termômetro, em qualquer parto da esposa, era a sua dentadura. A parteira duvidou, mas, daí a cinco minutos, foi chamada outra vez. Houve um incidente de última hora. É que a digna profissional já não sabia onde estava a luva. Procura daqui, dali, e não acha. Com uma tremenda dor de dentes postiços, seu Macário teve de passar-lhe um sabão:

— Pra que luvas, carambolas? Mania de luvas!

EUSEBIOZINHO

Assim nasceu o Eusebiozinho, no parto mais indolor que se possa imaginar. Uma prima solteirona veio perguntar, sôfrega: “Levou algum ponto?”. 

Ralharam: — Sossega o facho!

O fato é que seu Macário atingira, em cheio, o seu ideal de pai. Nascido o filho e passada a dor da chapa dupla, o homem gemeu: “Tenho um filho homem. Agora posso morrer!”. E, de fato, quarenta e oito horas depois, estava almoçando, quando desaba com a cabeça no prato. Um derrame fulminante antes da sobremesa. Para d. Flávia foi um desgosto pavoroso. Chorou, bateu com a cabeça nas paredes, teve que ser subjugada. E, na realidade, só sossegava na hora de dar o peito. Então, assoava-se e dizia à pessoa mais próximo:

— Traz o Eusebiozinho que é hora de mamar!

FLOR DE RAPAZ

Eusebiozinho criou-se agarrado às saias da mãe, das irmãs, das tias, das vizinhas. Desde criança, só gostava de companhias femininas. Qualquer homem infundia-lhe terror. De resto, a mãe e as irmãs o segregavam dos outros meninos. Recomendavam: “Brinca só com meninas, ouviu? Menino diz nomes feios!”. O fato é que, num lar que era uma bastilha de mulheres, ele atingiu os dezesseis anos sem ter jamais proferido um nome feio, ou tentado um cigarro. Não se podia desejar maior doçura de modos, ideias, sentimentos. Era adorado em casa, inclusive pelas criadas. As irmãs não se casavam, porque deveres matrimoniais viriam afastá-las do rapaz. E tudo continuaria assim, no melhor dos mundos se, de repente, não acontecesse um imprevisto. Um tio do rapaz vem visitar a família e pergunta:

— Você tem namorada?

— Não.

— Nem teve?

— Nem tive.

Foi o bastante. O velho quase pôs a casa abaixo. Assombrou aquelas mulheres transidas com os vaticínios mais funestos: “Vocês estão querendo ver a caveira do rapaz?”. Virou-se para d. Flávia:

— Isso é um crime, ouviu? É um crime o que vocês estão fazendo com esse rapaz! Vem cá, Eusébio, vem cá! - implacável, submeteu o sobrinho a uma exibição. Apontava:

— Isso é jeito de homem, é? Esse rapaz tem que casar, rápido!

PROBLEMA MATRIMONIAL

Quando o tio despediu-se, o pânico estava espalhado na família. Mãe e filhas se entreolharam: “É mesmo, é mesmo! Nós temos sido muito egoístas! Nós não pensamos no Eusebiozinho!”. 

Quanto ao rapaz, tremia num canto. Ressentido ainda com a franqueza bestial do tio, bufou:

— Está muito bem assim!

A verdade é que já o apavorava a perspectiva de qualquer mudança numa vida tão doce. Mas a mãe chorou, replicou: “Não, meu filho. Seu tio tem razão. Você precisa casar, sim”. 

Atônito, Eusebiozinho olha em torno. Mas não encontrou apoio. Então, espavorido, ele pergunta:

— Casar pra quê? Por quê? E vocês? — Interpela as irmãs: — Por que vocês não se casaram?

A resposta foi vaga, insatisfatória:

— Mulher é outra coisa. Diferente.

A NAMORADA

Houve, então, uma conspiração quase internacional de mulheres. Mãe, irmãs, tias, vizinhas desandaram a procurar uma namorada para o Eusebiozinho. Entre várias pequenas possíveis, acabaram descobrindo uma. E o patético é que o principal interessado não foi ouvido, nem cheirado. Um belo dia, é apresentado a Iracema. Uma menina de dezessete anos, mas que tinha umas cadeiras de mulher casada. Cheia de corpo, um olhar rutilante, lábios grossos, ela produziu, inicialmente, uma sensação de terror no rapaz. Tinha uns modos desenvoltos que o esmagavam.

E começou o idílio mais estranho de que há memória. Numa sala ampla da Tijuca, os dois namoravam. Mas jamais os dois ficaram sozinhos. De dez a quinze mulheres formavam a seleta e ávida assistência do romance. Eusebiozinho, estatelado numa inibição mortal e materialmente incapaz de segurar na mão de Iracema. Esta, por sua vez, era outra constrangida. Quem deu remédio à situação, ainda uma vez, foi o inconveniente e destemperado tio. Viu o pessoal feminino controlando o namoro. Explodiu: “Vocês acham que alguém pode namorar com uma assistência de Fla-Flu? Vamos deixar os dois sozinhos, ora bolas!”. 

Ocorreu, então, o seguinte: sozinha com o namorado, Iracema atirou-lhe um beijo no pescoço. O desgraçado crispou-se, eletrizado:

— Não faz assim que eu sinto cócegas!

O VESTIDO DE NOIVA

Começaram os preparativos para o casamento. Um dia, Iracema apareceu, frenética, desfraldando uma revista. Descobrira uma coisa espetacular e quase esfregou aquilo na cara do Eusebiozinho: “Não é bacana esse modelo?”. A reação do rapaz foi surpreendente.

Se Iracema gostara do figurino, ele muito mais. Tomou-se de fanatismo pela gravura:

— Que beleza, meu Deus! Que maravilha!

Houve, aliás, unanimidade feroz. Todos aprovaram o modelo que fascinava Iracema. Então, a mãe e as irmãs do rapaz resolveram dar aquele vestido à pequena. E mais, resolveram elas mesmas confeccionar. Compraram metros e metros de fazenda. Com um encanto, um élan tremendo, começaram a fazer o vestido. Cada qual se dedicava à sua tarefa como se cosesse para si mesma. Ninguém ali, no entanto, parecia tão interessado quanto Eusebiozinho. Sentava-se, ao lado da mãe e das irmãs, num deslumbramento: “Mas como é bonito! Como é lindo!”. E seu enlevo era tanto que uma vizinha, muito sem cerimônia, brincou:

— Parece até que é Eusebiozinho que vai vestir esse negócio!

0 LADRÃO

Uns quatro dias antes do casamento, o vestido estava pronto. Meditativo, Eusebiozinho suspirava: “A coisa mais bonita do mundo é uma noiva!”. 

Muito bem. Passa-se mais um dia. E, súbito, há naquela casa o alarme: “Desapareceu o vestido da noiva!”. Foi um tumulto de mulheres. Puseram a casa de pernas para o ar, e nada. Era óbvia a conclusão: alguém roubou! E como faltavam poucos dias para o casamento sugeriram à desesperada Iracema: “O golpe é casar sem vestido de noiva!”. Para quê? Ela se insultou:

— Casar sem vestido de noiva, uma pinóia! Pois sim!

Chamaram até a polícia. O mistério era a verdade, alucinante: Quem poderia ter interesse num vestido de noiva? Todas as investigações resultaram inúteis. E só descobriram o ladrão quando dois dias depois, pela manhã, d. Flávia acorda e dá com aquele vulto branco, suspenso no corredor. Vestido de noiva, com véu e grinalda — enforcara-se Eusebiozinho, deixando o seguinte e doloroso bilhete: “Quero ser enterrado assim”.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
NELSON FALCÃO RODRIGUES foi um dos maiores dramaturgos, jornalistas e escritores do Brasil, revolucionando o teatro nacional com seu estilo provocativo e realista. Nasceu em 1912, no Recife (PE) e faleceu em 1980, no Rio de Janeiro (RJ), aos 68 anos. Mudou-se com a família para o Rio de Janeiro em 1916, quando tinha quatro anos. Viveu na zona norte carioca, em bairros como Aldeia Campista e Tijuca, locais que serviram de cenário e inspiração para suas futuras obras de "crônicas de costumes". Começou a trabalhar aos 13 anos como repórter policial no jornal de seu pai, A Manhã. Inovou o jornalismo de futebol, trazendo drama e paixão para as crônicas esportivas. Escreveu para grandes jornais como O Globo, Última Hora e Manchete Esportiva.
É considerado o pai do teatro moderno brasileiro. Sua importância reside na ruptura com o teatro clássico e na introdução do subconsciente humano nos palcos, misturando tragédia, obsessões e o cotidiano da classe média. Ele dividiu sua própria obra teatral em três categorias: Peças Psicológicas, Peças Míticas e Tragédias Cariocas.
Não pertenceu à Academias, costumava ironizar as formalidades acadêmicas. Recebeu o Prêmio de Teatro do PEN Clube do Brasil e o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA).
Sua produção literária abrangeu o teatro, romances e crônicas:
Mulher sem Pecado (1941) – Estreia no teatro; Vestido de Noiva (1943) – O grande marco do teatro moderno; Álbum de Família (1946) – Teatro; A Falecida (1953) – Teatro; Beijo no Asfalto (1960) – Teatro; Toda Nudez Será Castigada (1965) – Teatro.  
Romances e Crônicas: Meu Destino é Pecar (1944) – Escrito sob o pseudônimo de Suzana Flag; Asfalto Selvagem / Engraçadinha (1959); A Vida Como Ela É... (1961) (Coletânea de crônicas publicadas originalmente no jornal).

Fontes:
Nelson Rodrigues. A vida como ela é… Publicado originalmente em 1961
Biografia – Wikipedia, Teatro Limeira, Ebiografia, Renato Essenfelder, Jornal da USP, Museu do Futebol, Folha de São Paulo, Itaú Cultural, etc.

segunda-feira, 6 de julho de 2026

Asas da Poesia * 199 *


Trova Humorística de
SELMA PATTI SPINELLI
São Paulo/SP

Com a bagunça rolando,
sem ter mais o que falar,
chilique, de vez em quando,
bota tudo no lugar!!!
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Soneto de
RAYMUNDO CORREA
(Raymundo da Motta de Azevedo Corrêa)
Mogúncia/MA (1859 – 1911) Paris/França

As Pombas

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
Das pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguinea e fresca a madrugada.

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais, de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam
Os sonhos, um a um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais.
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Aldravia de
FABRÍCIO AVELINO
Barbacena/MG

lua
crescente
em
quarto
minguante
adolescente
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

Inscrição para um Portão de Cemitério

Na mesma pedra se encontram,
Conforme o povo traduz,
Quando se nasce – uma estrela,
Quando se morre – uma cruz.
Mas quantos que aqui repousam
Hão de emendar-nos assim:
“Ponham-me a cruz no princípio…
E a luz da estrela no fim!”.
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Trova Premiada de
ADAMO PASQUARELLI 
São José dos Campos/SP

Num mundo congestionado,
em qualquer parte da terra,
o lema está consagrado:
"Se queres paz, vai à guerra". 
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Poema de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Belos Tempos

Belos tempos, na infância, eu pude vivenciar.
Muitas brincadeiras nas ruas calmas:
de pega-pega, de roda, de cordas, de casinhas,
e muitas outras, de tirar o chapéu e bater palmas,
com as crianças vizinhas.

Belo tempo teve a minha adolescência...
De descobertas, de incertezas, de contestação!
De olhares lânguidos e de efervescência.
Do culto ao modismo e da secreta paixão...

Belos tempos... Os da minha juventude!
A faculdade, o estudo e o trabalho escolhido.
Os bailes, o grupo de amigos, a plenitude!...
O namoro não mais escondido.

Belos tempos... Vivi na maturidade,
aprendendo e transmitindo conhecimentos.
Ensinando tive a oportunidade
de o sonho concretizar e viver belos momentos.

Belos tempos... Usufruo hoje, muito bem,
com novos tipos de aprendizagens;
muitas surpresas e descobertas também!
Feliz, divirto-me em minhas viagens!
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Quadra Popular

Morena, minha morena,
minha flor de melancia,
um beijo da tua boca
me sustenta todo o dia.
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Soneto de
PAULO BONFIM
(Paulo Lébeis Bonfim)
São Paulo/SP, 1926 – 2019

Soneto dos muitos eus

Um eu ficou no mar aprisionado
E deixou-me por pés as nadadeiras;
Outro ficou nas nuvens caminheiras,
Por isso bato os braços no ar parado.

Um eu partiu menino ensimesmado
E ofertou-me palavras verdadeiras,
Outro amou suas sombras companheiras,
Outro foi só, e um outro de cansado

Caminhou pelos becos. Há também
Aqueles que ficaram na poesia,
Nos bares, na rotina, o eu do bem,

Do mal, o herói, o trágico, o esquecido.
Eu gerado por mim na liturgia
De um todo para tantos dividido! 
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Trova de
SONIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR, 1943 – 2016

Entre todos os recantos
é aqui que me sinto bem:
- o meu lar tem tais encantos
que outros lugares não têm!
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Poema de
ANDREIA DONADON LEAL
Mariana/MG

Sonho V

Imagens são sonhos afetos
colam nas telas
nas fotografias
e lembram alguma coisa
de esculturação natural
imagens são sonhos afetos
a beijar uma superfície
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Haicai de
JOÃO TOLOI
São Paulo/SP

Em meio ao pomar
Mulheres entoam canções
Colhendo goiabas.
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Sextilhas de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Sousa Bandeira Filho)
Recife/PE, 1886 – 1968, Rio de Janeiro/RJ

Sou romântico? Concedo.
Exibo, sem evasiva,
A alma ruim que Deus me deu.
Decorei "Amor e medo",
"No lar", "Meus oito anos"... Viva
José Casimiro Abreu!

Sou assim por vício inato.
Ainda hoje gosto de Diva,
Nem não posso renegar
Peri, tão pouco índio, é fato,
Mas tão brasileiro... Viva,
Viva José de Alencar!

Paisagens da minha terra,
Onde o rouxinol não canta
- Pinhões para o rouxinol!
Frio, nevoeiros da serra
Quando a manhã se levanta
Toda banhada de sol!

Ai tantas lembranças boas!
Massangana de Nabuco!
Muribara de meus pais!
Lagoas das Alagoas,
Rios do meu Pernambuco,
Campos de Minas Gerais!
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Trova Humorística de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

Se deu bem mal minha amiga,
e agora não tem mais jeito:
Escorregou pra barriga
o silicone do peito.
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Glosa de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

MOTE:
Cai no trilho e a triste sina
maldiz tanto o beberrão:
essa escada não termina
e é tão baixo o corrimão!
Therezinha Dieguez Brisolla 
(São Paulo/SP)

GLOSA:
Cai no trilho e a triste sina
daquela alma embriagada,
foi confundir, na neblina, 
que trilho não é escada!

Patinando no chapuço*
maldiz tanto o beberrão,
fazendo rir do "pinguço"
os que estavam na estação!

O "bebaço, ante a mofina*,
dizia, só por chalaça*:
- Essa escada não termina...
Era o efeito da cachaça!

Para completar a troça
o "pinguço" beberrão
ainda fazia mangoça*:
... e é tão baixo o corrimão!
…………….
* Vocabulário:
Mofina: infortúnio, má sorte
Chalaça: gozação
Chapuço: Poça de lama
Mangoça: zombaria, deboche
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Aldravia de
CESCOHOTADOYBOR
(Carmen Escohotado Ibor)
Madri/Espanha

verão
o
calor
roda
seu
chão
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Soneto de
MIGUEL RUSSOWSKY
(Miguel Kopstein Russowsky)
Santa Maria/RS (1923 – 2009) Joaçaba/SC

Tarde nevoenta... em julho

Domingo sem ninguém...A casa está vazia.
O silêncio no horror persistente blasfema.
Quer se fazer ouvir. Ó tolo estratagema!...
Eu posso ouvi-lo bem, mas qual a serventia?

A solidão nem quer me servir como tema...
...e a tarde se espezinha imensamente fria...
Ó Tristeza, vem cá! Se queres companhia
ajuda-me a cerzir pedaços de um poema

Talvez assombrações que possuam prestígio
se queiram embutir em tercetos, com zelo,
para dar-lhe feições de soneto-prodígio.

Alguém se desmanchou em brumas do passado
e quer ressuscitar de cor, num atropelo.
Se lembrar é viver, eu devo estar errado.
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Trova Premiada de
ADÉLIA VICTÓRIA FERREIRA
Sete Barras/SP, 1929 – 2018, São Paulo/SP

Torna um sonho em realidade
e verás, com ironia,
que, por mais que ele te agrade,
foi mais bela a fantasia.
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Poema de
CAMILO PESSANHA
Coimbra/Portugal, 1867 – 1926, Macau/China

Viola Chinesa

 Ao longo da viola morosa
Vai adormecendo a parlenda
Sem que amadornado eu atenda
A lenga-lenga fastidiosa.

 Sem que o meu coração se prenda,
Enquanto nasal, minuciosa,
Ao longo da viola morosa,
Vai adormecendo a parlenda.

 Mas que cicatriz melindrosa
Há nele que essa viola ofenda
E faz que as asinhas distenda
Numa agitação dolorosa?

 Ao longo da viola, morosa…
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Triverso de
PAULO MARCELO BRAGA
Belém/PA

A poesia do teu sorriso,
pode ter a certeza disso,
é a terapia que preciso.
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Setilha de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Fico muito contente quando soa
o baião da viola nordestina
num alpendre singelo e acolhedor,
quando a noite inspirada descortina
sobre o cume das serras do sertão,
e era mais carregado de emoção
na brandura da luz da lamparina.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Eu vou indo... vou levando...
assim como a vida deixa...
vou sonhando... vou rimando...
seguindo a vida... sem queixa!...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
JOAÇABA/SC

Letra: Miguel Russowsky

De montanhas diadema
No vale do Rio do Peixe
Minh´alma canta poemas
Risonhas safras em feixe

Que eu espalho de bom grado
Nos suaves sulcos do arado
Se as videiras são serenas
Nos verões fazendo abrigo
Nas primaveras amenas
Enfeito os morros de trigo
Nos outonos, nos invernos
Os meus lares são mais ternos

O meu nome é Joaçaba
Sou alegre e hospitaleira
Tenho amor que não se acaba
Desta terra brasileira?

A quem vir morar comigo
Dou carinho e dou abrigo
A quem vir morar comigo
Dou carinho e dou abrigo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de
FÁBIO ROCHA
Rio de Janeiro/RJ

separação

o leão na gaveta
junto com o retrato:
sem ver, vejo de fato
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Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Aparência e realidade

O som de minha voz inutilmente
acontece, sem cor e sem motivo.
Tão diverso é o real mundo que vivo
da hora em que pareço estar presente.

É presença enganosa, que desmente
outra força suprema — a do furtivo
viver por dentro, onde, devota, arquivo
ignotos pulsares da alma ardente.

A voz que fala, o riso, a cor que é vista
é invólucro somente, e bem despista
do meu ego a essência, a vida inteira...

E, assim, esta duidade faz-me artista
na arte de viver de forma mista:
a que parece ser.,. e a verdadeira.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Bom vento que vens das serras
ou dos campos ou do mar,
varre os ódios, varre as guerras,
deixa o amor enfim reinar!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos da França
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry, 1621 – 1695, Paris

O Conselho dos Ratos

Havia um gato maltês,
Honra e flor dos outros gatos;
Rodilardo era o seu nome.
Sua alcunha — Esgana-ratos.

As ratazanas mais feras
Apenas o percebiam,
Mesmo lá dentro das tocas
Com susto dele tremiam;

Que amortalhava nas unhas
Inda o rato mais muchucho,
Tendo para o sepultar
Um cemitério no bucho.

Passava entre aqueles pobres,
De quem ia dando cabo,
Não por um gato maltês.
Sim por um vivo diabo.

Mas janeiro ao nosso herói
Já dor de dentes causava,
E ele de telhas acima
O remédio lhe buscava.

Dona Gata Tartaruga,
De amor versada nas lides,
Era só por quem na roca
Fiava este novo Alcides.

Em tanto o deão dos ratos,
Achando léu ajuntou
Num canto do estrago o resto,
E ansioso assim lhe falou:

"Enquanto o permite a noite.
Cumpre, irmãos meus, que vejamos
Se à nossa comum desgraça
Algum remédio encontramos.

Rodilardo é um verdugo
Em urdir nossa desgraça;
Se não se lhe obstar, veremos
Finda em breve a nossa raça.

Creio que evitar-se pode
Este fatal prejuízo:
Mas cumpre que do agressor
Se prenda ao pescoço um guizo.

Bem que ande com pés de lã.
Quando o cascavel tinir,
Lá onde quer que estivermos
Teremos léu de fugir'".

Foi geralmente aprovado
Voto de tanta prudência;
Mas era a dúvida achar
Quem Fizesse a diligência.

"Vamos saber qual de vós,
Disse outra vez o deão.
Se atreve a dar ao proposto
A devida execução.''

— Eu não vou lá, disse aquele;
— Menos eu, outro dizia;
— Nem que me cobrissem de ouro,
Respondeu outro, eu lá ia!

— Pois então quem há de ser?
Disse o severo deão;
Mas todos à boca cheia
Disseram: "Eu não, eu não!"

Tornou-se em nada o congresso;
Que o aperto às vezes é tal,
Que o remédio que se encontra
Inda é pior do que o mal.

Assim mil coisas que assentam
Numa assembleia, ou conselho;
Mas vê-se na execução
Que tem dente de coelho.
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