quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 210 *

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Haicai de
HELENA KOLODY
(Cruz Machado/PR, 1912 – 2004, Curitiba/PR)

Flecha de sol

A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Consolo na praia

Vamos, não chores… 
A infância está perdida. 
A mocidade está perdida. 
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou. 
O segundo amor passou. 
O terceiro amor passou. 
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo. 
Não tentaste qualquer viagem. 
Não possuis casa, navio, terra. 
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras, 
em voz mansa, te golpearam. 
Nunca, nunca cicatrizam. 
Mas, e o humor?

A injustiça não se resolve. 
À sombra do mundo errado 
murmuraste um protesto tímido. 
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas. 
Estás nu na areia, no vento… 
Dorme, meu filho.
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Trova de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN

Se há defeito em quem amas, 
não te lamentes, nem grites, 
que amor à frente da sombra 
é sempre luz sem limites.
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Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Gema de amor

"O seu fruto é doce à minha boca." (Ct. 2.3)

Cálida gema, feita de amor,
Quero sentir todo o seu sabor;
Vou dar-lhe beijos apaixonados,
E você, seus lábios abrasados.

Você é doce - feita de mel,
Real geleia - pedaço do céu;
Quanta delícia no saborear,
Que bom se o tempo não mais passar!

Você está trêmula de emoção,
Sinto o pulsar do seu coração...
Perdi o controle, perdi meu senso
Por este amor de prazer imenso.

O que acontece? - Você suspira!
O que é isso? - Você delira!
Eu estou suando - quanto calor!
Estou feliz... Obrigado, amor!
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Trova Popular de
AUTOR ANÔNIMO

Se suspiro fosse bala
como estaria meu peito!
Estava todo varado,
morena, por teu respeito.
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Soneto de
BENEDITA DE MELLO
Vicência/PE, 1906 – 1991, Rio de Janeiro/RJ

Despojos

Vai-se partindo aos poucos, laço a laço,
Aquele nosso grande amor de outrora.
Ontem foi um desgosto, hoje embaraço.
Amanhã vai-se uma ilusão embora.

Mais uma falsidade revigora
Em minha alma essa dor, esse cansaço.
O próprio ciúme, com um sopro escasso,
Está fadado a perecer agora.

Nada mais acharás, quando voltares,
Que o fundo sono desse amor acorde:
Nem desejos, nem sonhos, nem pesares...

E embora em ti de novo o amor transborde,
Sentirei nos meus lábios, se os beijares,
O sabor da perfídia que me morde.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Já escalei morros medonhos,
caminhando passo a passo.
Mas nunca pude em meus sonhos
escalar nuvens no espaço!
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Poema de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Olhos perdidos
na neblina do tempo
buscando entender
contornos indecifráveis
que se perdem à distância.
Tentativas vãs
para a ultrapassagem
de fronteiras invisíveis
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Trova de
DOROTHY JANSSON MORETTI 
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Quando me entrego ao passado,
sinto-o tão perto e envolvente,
que – esquecido e enevoado –
longe de fato... é o presente.
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Soneto de
LINO VITTI
Piracicaba/SP, 1920 – 2016

A uma página poética

(à poetisa Maria Cecília Bonachella)

Nesta página, sonham os poetas,
sonha também a lira das poetisas.
É um céuzinho diria, onde os estetas
jogam estrelas a suar camisas.

Aqui valem tão só líricas metas,
temos brilhos de sol, frescor de brisas...
Coisas transcendentais, vozes secretas,
o encantado, o feliz, santas divisas.

É cascata jorrando belas rimas,
frondosa e florescida árvore linda,
mais linda quando dela te aproximas.

Este caminho é grande, nunca finda...
Guarda o olor capitoso das vindimas
país de amor com que o "Jornal" nos brinda.
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Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ


Hoje tratam de "Excelência"
quem deixa o povo com fome.
Ou no mundo há só demência,
ou ladrão mudou de nome!...
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Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/Portugal

A noite não tem de ser escura, triste e fria,
A noite pode ter calor,
Um abraço, uma flor

Ofereço-te o meu coração
numa noite de outono
que se transforma em verão

A noite pode ser amena
quente ou serena
depende de como me sentes.
Como me vives!
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Trova de
ARI SANTOS CAMPOS
Balneário Camboriú/SC

Não sei mais o que fazer:
meu salário é um engano...
- Tenho medo de viver
numa tenda de cigano.
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Soneto de
J.G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

A dor maior

Não quis julgar-te fútil nem banal
e chamei-te de criança tão-somente,
- reconheço, no entanto, infelizmente,
que, porque te quis bem, julguei-te mal.

Pensei até, (e o fiz ingenuamente...)
ter encontrado a companheira ideal...
Quis julgar-te das outras diferente,
e és como as outras todas afinal...

Hoje, uma dor estranha me consome
e um sentimento a que não sei dar nome
faz-me sofrer, se lembro o amor perdido...

A dor maior... A maior dor, no entanto,
vem de pensar de Ter-te amado tanto
sem que ao menos tivesses merecido!...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ

Da velha fonte no lago,
à luz do mesmo luar,
retorno...e nos olhos trago
as águas que fui buscar!
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Soneto de
VINICIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980

Soneto a Katherine Mansfield

O teu perfume, amada – em tuas cartas
Renasce, azul... – são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto! ... e a primavera
Vem já tão próxima! ... (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Dizem que eu sonho em excesso...
Mas insisto em voos altos!
E as pedras nas quais tropeço
impulsionam novos saltos!!!
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Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989

Amigo
Inimigo
Nada tive com o mar 
Nem ele comigo 
Fui homem de seco 
Hoje posto a secar 
Neste beco
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
NILTON MANOEL
Ribeirão Preto/SP, 1945 – 2024

O bico do beija-flor
tem o condão do mistério;
é a natureza do amor,
ampliando da flora o império
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

O límpido cristal

Que límpido o cristal de abril!... Um grito 
não vai como os da noite — para os extramundos... 
Todas as vozes, todas as palavras ditas — cigarras presas 
dentro do globo azul — vão em redor do mundo
e a ninguém é preciso entender o que elas dizem;
basta aquele bordoneio profundo
que vibra com o peito de cada um...
palavras felizes de se encontrarem uma com a outra 
nas solidões do mundo!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
JOÃO OSVALDO SOARES (VAVAL)
Fortaleza/CE

Caro amigo, meu irmão,
é bem longe o nosso céu,
cuidado com sua mão
senão vai pro "beleléu".
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Língua

Língua de anjo
língua de homem
língua de bicho
língua que já não é língua
língua que me língua
espalhando prazer.
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Mensagem na Garrafa 205 = O Burro de Carga

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FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
Pedro Leopoldo/MG, 1910 – 2002, Uberaba/MG

No tempo em que não havia automóveis, na cocheira de famoso palácio real um burro de carga curtia imensa amargura, em vista das pilhérias e remoques dos companheiros de apartamento. Reparando-lhe o pelo maltratado, as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça tristonha e humilde, aproximou-se formoso cavalo árabe, que se fizera detentor de muitos prêmios, e disse, orgulhoso:

- Triste sina a que recebeste! Não invejas minha posição nas corridas? Sou acariciado por mãos de princesas e elogiado pela palavra dos reis!

- Pudera! - exclamou um potro de fina origem inglesa - como conseguirá um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça?

O infortunado animal recebia os sarcasmos, resignadamente.

Outro soberbo cavalo, de procedência húngara, entrou no assunto e comentou:

- Há dez anos, quando me ausentei de pastagem vizinha, vi este miserável sofrendo rudemente nas mãos de bruto amansador. É tão covarde que não chegava a reagir, nem mesmo com um coice. Não nasceu senão para carga e pancadas. É vergonhoso suportar-lhe a companhia.

Nisto, admirável jumento espanhol acercou-se do grupo, e acentuou sem piedade:

- Lastimo reconhecer neste burro um parente próximo. É animal desonrado, fraco, inútil... Não sabe viver senão sob pesadas disciplinas. Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o amor-próprio. Aceito os deveres que me competem até o justo limite; mas, se me constrangem a ultrapassar as obrigações, recuso-me à obediência, pinoteio e sou capaz de matar.

As observações insultuosas não haviam terminado, quando o rei penetrou o recinto, em companhia do chefe das cavalariças.

- Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade - informou o monarca -, animal dócil e educado, que mereça absoluta confiança.

O empregado perguntou:

– Não prefere o árabe, Majestade?

- Não, não - falou o soberano -, é muito altivo e só serve para corridas em festejos oficiais sem maior importância.

- Não quer o potro inglês?

- De modo algum. É muito irrequieto e não vai além das extravagâncias da caça.

- Não deseja o húngaro?

- Não, não. É bravio, sem qualquer educação. É apenas um pastor de rebanho.

- O jumento serviria? - insistiu o servidor atencioso.

- De maneira nenhuma. É manhoso e não merece confiança.

Decorridos alguns instantes de silêncio, o soberano indagou:

- Onde está o meu burro de carga?

O chefe das cocheiras indicou-o, entre os demais.

O próprio rei puxou-o carinhosamente para fora, mandou ajaezá-lo com as armas resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho, ainda criança, para longa viagem.
* * * *

Assim também acontece na vida. Em todas as ocasiões, temos sempre grande número de amigos, de conhecidos e companheiros, mas somente nos prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a suportar, servir e sofrer, sem cogitar de si mesmos.

Laé de Souza (Contratempos)


Há dias em que não se deve sair de casa. Na verdade, nem se levantar. Saí da cama não só com o pé esquerdo, mas com tudo, mão, olho, pulmão, rim, coração, tudo “às esquerdas” (como diria o saudoso Mussum). Naquela fase em que faz sol de rachar, durante três meses, com rodízio de água e tudo, mas, no dia daquele passeio que você pagou em parcelas, especial mesmo, cai aquele toró. Você só vai para não perder a grana e junta-se àquela meia dúzia de pessoas, todas, aliás, no maior tédio. Se bem que tenho notado, ultimamente, as coisas não andam lá muito boas para o meu lado. O que me conforta é observar que tem muita gente sentindo o mesmo problema.

Para começar a encrenca, contratei alguns profissionais: primeiro, um pedreiro que atrasou em sua previsão de término da obra, em apenas seis meses, e errou na estimativa de preço de materiais em 250%. Depois, vieram o pintor, o eletricista, o encanador, o serralheiro, todos uns anjinhos na hora da contratação. Depois, só Deus sabe o que passei. Bem, mas isso é destino e cada um tem de sofrer um pouco.

E aquele tormento, quando comprei a prestações um lindo aparelho de som, no sábado, para a festa de aniversário dos meus gêmeos no domingo. E olha que a compra foi antecedida de conflito de consciência. Tira verba daqui, dali, junta tudo que vai dar, desde que consiga aquele pequeno empréstimo com um amigo.

Tudo certo. Cheguei em casa, liguei e, mesmo com aquela tradicional batidinha em cima, não funcionou. Na loja, nada de troca. “O aparelho deve ser levado na autorizada para verificar o defeito.” Corri até lá, cheguei a tempo, mas tive de deixar o equipamento e voltar na próxima semana. Não fosse minha educação de berço, juro que quebrava tudo ali na frente do técnico. Bem, vamos tocando. A festa vai ficar com o som antigo mesmo e na base do gogó. Lembrei-me de que a quarta corda do meu violão estava arrebentada. Na loja, não vendem uma só. Sem discutir, comprei o jogo completo e, já quase na hora da festança, quando abri o pacote, percebi que, em lugar da "ré" enveloparam uma "lá". Revisei todas, na esperança de encontrar, mas não veio a "ré" mesmo. Fazer o quê? É a indústria nacional concorrendo em igualdade com os importados.

Mas, também, nem sempre é assim. Hoje, o que mais me aconteceu foi aquela insistência dos garotos, no farol, para que eu comprasse rapadura (justo eu que não tenho dentes), ou flores (que não tenho a quem dar). O computador não quis funcionar. Nem quero pensar que um vírus tenha liquidado tudo e eu perdido tantas noites de divertimento desenvolvendo um programa em vão.

E aquele barulho no carro que ninguém consegue descobrir de onde provém? Meu mecânico de confiança já experimentou apertar tudo quanto é parafuso e nada de sumir. Antes, eu levava para verificar e, quando chegava na oficina, o barulho desaparecia e eu ficava com aquela cara de boboca. "Não é possível, fez ainda agora. Vamos dar outra volta, quem sabe...” e nada. “Vou acabar enlouquecendo. Ele faz assim: tlec, tlec..." O mecânico avisa que, sem ouvir, não dá para diagnosticar. Mas, ultimamente, o barulhinho está atrevido e até na frente do mecânico se manifesta. Mexe daqui, dali e nada. “Nunca vi nada igual”, resmunga o mecânico. Olho na placa da oficina já envelhecida e imagino que o cara deve ter tempo no ramo, logo o meu carro tinha de ser premiado. Tem nada não. Vendo por qualquer preço para me ver livre. Dito e feito. Andar com abelha zoando no ouvido não dá.

E, quando indiquei um funileiro para fazer um serviço no carro de um amigo? Depois de pronto, meu ex-amigo reclamava sempre para mim como se eu tivesse culpa. Decerto, pensava até que eu tinha levado uma comissão pela apresentação. Para resolver de vez, propus que mandasse em outro para refazer o serviço que eu pagaria. E o pior é que ele concordou. Está certo que a culpa foi minha. Quem mandou me meter em problema dos outros? O duro foi aguentar, durante grande tempo, a frase “Aquele teu amigo funileiro, hem?”

Evidentemente, tem uma fase que a gente atravessa, na qual deixa de acreditar por completo na sorte. Mas, o curioso é que não para de conferir os resultados, pelo menos para falar “Eu não disse?”

A matrícula das crianças na escola, por exemplo. Fiz a inscrição das quatro na mesma escola. E claro que teve excesso de interessados. Feito o sorteio... Preciso dizer o resultado? Não tem nada, não, quem mandou?

E aquela briga com a Sabesp? Um vai-e-vem sem solução de uma conta que poucos condomínios de apartamentos conseguiam atingir. E aquele “Deve ter vazamento” me enfurecia. Onde ia tanta água sem que eu percebesse?

A Eletropaulo, quando era ainda Light, também já aprontou comigo. E a Telefônica, difícil resolver aquelas ligações fantasmas. Por mais que explicasse que moro sozinho, não converso com vizinhos, não empresto meu aparelho. Como explicar aqueles interurbanos até para o exterior, disque Xuxa, disque amizade, disque horóscopo? E até apareceu um disque sexo. Que sufoco, meu Deus, para esconder aquela conta! Já pensou se cai na mão do pastor ou, então, no conhecimento de um daqueles meus “irmãos” da igreja? Sou expulso, sem direito a defesa ou, no mínimo, tenho de ser exorcizado. Está certo que a educação das atendentes é de primeira linha, mas dão cada resposta de indignar, tipo “Alguém usou. Se alguém estiver usando a linha, clandestinamente, quem deve verificar é o assinante” etc. Tudo bem. Passou.
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O escritor LAÉ DE SOUZA (64) é um dos nomes mais ativos e importantes do cenário contemporâneo de incentivo à leitura no Brasil. Ao contrário de autores tradicionais, ele destaca-se por uma trajetória inteiramente voltada à democratização do livro em espaços públicos e escolas da periferia. Nasceu em 1962, na cidade de Jequié (BA) continua ativo e gerenciando seus projetos literários por todo o país. Embora tenha raízes profundas na Bahia, ele reside há décadas e estabeleceu sua base profissional no estado de São Paulo. Antes de viver integralmente da cultura, Laé trabalhou como cronista em jornais e graduou-se em Direito e em Administração de Empresas. Atuou no mundo corporativo e conciliou o ambiente de negócios com o teatro e a escrita até se aposentar em 2012, quando passou a se dedicar exclusivamente à literatura.
Sua escrita é marcada por crônicas cotidianas, contos ágeis, poemas e textos teatrais curtos (esquetes). Inconformado com o clichê de que "o brasileiro não gosta de ler", ele fundou em 1998 a ONG/Grupo Projetos de Leitura. A partir daí, sua vida literária fundiu-se com o ativismo cultural, distribuindo milhares de livros gratuitamente ou a preços simbólicos em locais incomuns, como metrôs, ônibus, hospitais, praças e parques. Ocupa oficialmente uma Cadeira na Academia de Letras, Ciências e Artes da AFPESP. O maior reconhecimento de sua carreira não vem de premiações estéticas tradicionais, mas de chancelas governamentais e sociais. Seus projetos socioculturais operam sob o amparo da [Lei Rouanet (Lei de Incentivo à Cultura) devido ao forte impacto educacional gerado no país.
Sua vasta produção divide-se entre antologias de crônicas adultas e literatura infanto-juvenil:
Literatura Adulta (Crônicas e Contos): Acontece; Acredite se Quiser!; Coisas de Homem & Coisas de Mulher; Nos Bastidores do Cotidiano; Espiando o Mundo pela Fechadura.
Literatura Infantil: Quinho e o seu cãozinho – Um cãozinho especial; Bia e a sua gatinha Pammy; Nick e o passarinho.
Coletâneas: As Melhores Histórias dos Projetos de Leitura (Série anual que publica textos criados por alunos da rede pública de ensino).
A relevância de Laé de Souza não está na erudição acadêmica, mas na escala social do seu trabalho de formação de leitores. Ele criou projetos nacionais vitoriosos como o "Ler é Bom, Experimente!", o "Dose de Leitura" (focado em hospitais) e a "Caravana da Leitura". Através dessas dinâmicas, escolas públicas recebem seus livros de forma gratuita; os alunos leem, debatem e escrevem suas próprias histórias. As melhores redações são publicadas em uma coletânea oficial ao lado das crônicas do próprio Laé. Ao transformar o estudante da periferia em protagonista e autor publicado, Laé de Souza quebra barreiras invisíveis de acesso à cultura e renova a base de leitores do Brasil.

Fonte:
Laé de Souza. Acontece…. SP: Ecoarte, 2018.

Tertúlia da Saudade – Milton Sebastião Souza (1945 - 2018)


Homenagem ao trovador gaúcho, falecido em 2018

Trovas, versos diversos, crônicas.

Faça o download do ebook no link a seguir

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 5: Criança

Eu vejo sempre a esperança
e a beleza singular,
no riso de uma criança...
no brilho do seu olhar!
José Feldman – PR
Cada vez que nasce uma criança há uma possibilidade de adiamento. Cada criança é um novo ser, um profeta em potencial, um novo príncipe espiritual, uma nova centelha de luz que se precipita na escuridão (Ronald Laíng).

O tema criança é abordado aqui porque ela representa a esperança de vermos um mundo melhor, um mundo onde a ambição, a desigualdade e a miséria sejam abolidas das nossas vidas. Mas também porque a criança, assim como a mulher, até o século XIX não era vista como um cidadão, não era levada em conta nas decisões estatais e civis, E é pela boa formação da criança que deve começar o exercício da cidadania.

Quando nasce uma criança,
brota no mundo uma flor...
Flor de uma nova esperança,
nova esperança de amor!
Professor Garcia - RN
 
Como se fosse riqueza,
inda guardo essa lembrança:
- Um dia eu vi a pureza
nos olhos de uma criança.
Ivaniso Galhardo - RN
 
Em meus sonhos de criança
desejei pescar a lua
e pus anzóis de esperança
nas poças d'água da rua.
Delcy Canalles - RS
 
Um sorriso de criança
mostra um momento profundo,
onde vigora a esperança
de ressurgir novo mundo!
Taciana Canales da Trindade - RS

Infelizmente milhões de crianças vivem abandonadas, sem esperança. É triste vermos todos os dias o que fazemos com as nossas crianças, Elas são as vítimas mais frágeis do nosso desespero e da nossa violência. Sem rumos, perdidos num mundo de violência, não sabemos o que fazer para livrar as nossas crianças do horror e do abandono.

Num mundo sem esperança,
perdido na violência,
como acolher a criança,
tão frágil em sua inocência?
Gonzaga da Silva - RN

Chego a perder a esperança,
vendo ao relento, a dormir,
uma sofrida criança
sem lar, sem paz, sem porvir!
José Valdez de Castro Moura - SP

Vi o pranto derramado
na face de uma criança.
O mundo desnaturado
lhe roubava uma esperança.
Maria Silva Carriço - RN

Passam sempre em meu portão,
trazendo um fardo de dor,
crianças que não têm pão,
pedindo "um pão por favor"!...
Ademar Macedo - RN

Bem caprichosa é a sorte
da infância desprotegida
que vive à espera da morte,
por nada esperar da vida.
Almerinda Fernandes Líporage – RJ

Quanta miséria contida
no olhar tímido e tristonho
de uma criança perdida
entre farrapos de sonho...
Elen de Novais Félix - RJ

Anoitece… aumenta o frio...
E para os guris sem nome,
surge um novo desafio:
dormirão ao lado da fome!
Elen de Novais Félix - RJ

Algumas dessas crianças abandonadas vivem um pouco mais confortáveis quando recolhidas a instituições, uma solução provisória. A adoção poderia ser uma solução mais adequada. Muitos casais anseiam por um filho e gastam enormes somas de dinheiro em clínicas de fertilização. Por que não adotar uma dessas crianças?
 
Por que crianças com frio
não tem o sol de um abraço,
se em tanto braço vazio
há desperdício de espaço?
Almerinda Fernandes Liporage - RJ
 
Quem adota uma criança,
e, além do amor, dá guarida,
abre a porta da esperança
como pai que gera a vida.
Hélio Pedro Souza - RN
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019.
Livro enviado pelo autor.

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 2)

curso por José Feldman
2. ENREDO: ESTRUTURA E IMPORTÂNCIA

O enredo é a espinha dorsal de um conto, composto por uma sequência de eventos que guiam a narrativa. Ele é fundamental para manter o interesse do leitor e pode ser dividido em várias partes:

2.1. Estrutura do Enredo

A estrutura clássica do enredo pode ser mapeada em cinco elementos principais:

2.1.1. Exposição: 
Introduz os personagens principais, o cenário e o contexto. É onde o leitor começa a entender a situação inicial.

2.1.2. Incitação: 
Um evento que desencadeia o conflito principal. Esse momento é crucial para prender a atenção do leitor.

2.1.3. Desenvolvimento: 
A série de eventos que envolvem o conflito, onde o protagonista enfrenta obstáculos e desafios. Este é o momento de maior tensão.

2.1.4. Clímax: 
O ponto culminante da história, onde a tensão atinge seu ápice e as escolhas dos personagens têm consequências significativas.

2.1.5. Desfecho: 
A conclusão, onde as consequências do clímax são resolvidas, e a história chega a um fechamento.

2.2. Pontos Importantes do Enredo

2.2.1. Coerência: 
Cada evento deve se relacionar com o conflito central e contribuir para o desenvolvimento da trama.

2.2.2. Ritmo: 
O ritmo deve ser cuidadosamente ajustado para manter o interesse do leitor. A alternância entre momentos de tensão e calma pode ser eficaz.

2.2.3. Conflito: 
Este é o coração do enredo. Um bom conflito, seja interno (dentro do personagem) ou externo (entre personagens ou forças), é essencial.

2.2.4. Reviravoltas: 
Surpresas podem manter o leitor cativado, desde que sejam coerentes com a lógica interna da narrativa.

2.3. Erros Comuns de Escritores Iniciantes

2.3.1. Falta de Planejamento: 
Muitos escritores começam sem um esboço claro, resultando em um enredo confuso e sem foco. Um planejamento básico ajuda a delinear os principais eventos.

2.3.2. Introduzir Múltiplos Conflitos: 
Há uma tendência de tentar adicionar muitos conflitos, o que pode desviar a atenção do conflito principal e tornar a história dispersa.

2.3.3. Desenvolvimento Irregular: 
O enredo pode ter partes arrastadas ou muito apressadas. Uma boa alteração entre momentos de ação e reflexão é crucial.

2.3.4. Final Previsível: 
Finais previsíveis podem decepcionar o leitor. É importante criar um desfecho que surpreenda, mas que ainda faça sentido dentro da narrativa.

2.3.5. Personagens Unidimensionais: 
Personagens sem profundidade podem fazer o enredo parecer raso. É essencial que os personagens tenham desejos, medos e complexidades.

2.4. Como Cativar o Leitor

2.4.1. Início Forte: 
Comece com uma cena impactante ou uma pergunta intrigante que faça o leitor querer saber mais.

2.4.2. Construção de Tensão: 
Aumente gradualmente a tensão ao longo da narrativa. Cada evento deve levar a uma maior expectativa para o clímax.

2.4.3. Caracterização Profunda: 
Desenvolva personagens com os quais os leitores possam se identificar ou se envolver emocionalmente.

2.4.4. Diálogos Verossímeis: 
Diálogos bem escritos podem revelar personalidade e avançar o enredo simultaneamente.

2.4.5. Elementos Sensoriais: 
Use descrições ricas que permitem ao leitor visualizar, ouvir, sentir e experimentar a história.

2.4.6. Conclusão Reflexiva: 
Um desfecho que provoca reflexão deixa um impacto duradouro e faz o leitor pensar sobre o que leu.

2.5. Considerações
Um enredo bem construído é essencial para a eficácia de um conto. Ao evitar erros comuns e focar em cativar o leitor, escritores iniciantes podem criar histórias mais envolventes e memoráveis. A prática, o feedback e a leitura crítica são fundamentais para aprimorar as habilidades de narrativa e desenvolvimento de enredos.
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continua…
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JOSÉ FELDMAN (71), paulistano, radicado em Floresta/PR, poeta, trovador, escritor, copidesque, professor, escreve desde 1965.

Fonte:
José Feldman. Dissecando a Magia dos Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.

Aparecido Raimundo de Souza (O amor quando é eterno, cabe nos dias pequenos)


COMO AQUELA MÚSICA da dupla Vicky & Denis, que tocou baixinho no rádio do meu carro, quando eu já estava quase chegando em casa, lá fora, a noite escura cobria a avenida vazia, como um cobertor velho que ganhei de minha falecida mãe, foi o bastante para me trazer à memória, mais uma vez, aquele café com leite que você faz do meu jeito, todas as manhãs, antes de eu sair para o trabalho, como também o sorriso inebriante e indescritível, que ainda agora, meu Deus, tantos anos depois, ele  continua sendo aquele sorriso bonito e insubstituível que todas as noites, quando regresso para nossa casa, parece ser (parece, não é), a coisa mais aconchegante e indescritível, apesar de tantos janeiros vividos de minha existência ao seu lado. 

A música que toca agora e me faz lembrar de nós, tem nas vozes suaves da Vicky & Denis, o tom tonitruante de um amor imperecível, de um gostar que não se acaba, de uma paixão que resiste ao vento, que se adapta ao tempo, que se amolda as dores, que se agarra às tristezas, que se entristece aos dissabores e, sobretudo, sobrevive pujantemente restabelecida às cicatrizes que a vida vai nos deixando lentamente no corpo e na alma. Eu parei, de repente, no sinal vermelho. Estanquei com as mãos ainda no volante, e imagine, que coisa louca. Não deixei em nenhum momento, de pensar em você.

Pensei que a gente sempre imagina o amor eterno como algo grandioso, como as histórias de filmes românticos que duram séculos, que atravessam oceanos e guerras, ventanias e tufões, que tem seus nomes escritos em prédios e casas, pedras e montanhas, porém, que ninguém, nem coisa alguma consegue mover. 

Mas o nosso não é assim. Como não? Pense, meu amor: o nosso amor é eterno, não há dúvidas. Cabe em dias pequenos, nas horas mortas, nos minutos que se foram. Se amoldam nos detalhes que ninguém mais percebe, a não ser nós dois. Ele incrivelmente cabe no jeito que você ainda me deixa o café com leite com exatamente as duas colheres de açúcar, que eu já tenha dito mil vezes que quero diminuir, mesmo que os anos passem e a nossa rotina mude. Ele também se identifica na forma que você dorme com a mão encaixada na minha, a outra em cima do meu coração, notadamente nas noites em que a gente brigou por uma coisa boba, tipo a novela que eu acho chata, ou pelos filmes dos “tempos do ronca”, que eu gosto de ver, sempre as surradas bobeiras repetidas, mesmo que um de nós esteja com raiva o suficiente para não falarmos por horas, as nossas mãos sempre encontram uma a outra, no escuro, e nesse grude, se abraçam sem pedir licença. 

Elas se comungam nas cicatrizes que temos juntos: a do dia em que você perdeu a “Kika,” a sua cadelinha de estimação, o nosso emprego quase ao mesmo tempo, o dia em que a nossa filha adoeceu e passamos três noites em claro indo e voltando ao UPA e depois, em outra noite, das brigas bobas pela posse do controle remoto, e também por causa do feijão que você deixou queimar, por causa de nada que valha a pena ser lembrado hoje. Todas essas marcas não acabaram com o amor. Elas é que fizeram ele ficar forte o suficiente para ser cicatrizado em nosso “eu” interior de forma eterna.

Eu já pensei muito no que significa a palavra “eterno”. Deixa eu tentar explicar. Eterno, não é a gente viver para sempre, ou ficar de mãos dadas, sem nunca envelhecer, sem nunca sentir dor. Isso não existe. Eterno é saber que, mesmo quando os cabelos a cada dia vão ficando mais brancos e as pernas não aguentam mais andar muito longe, eu ainda vou querer sentar ao seu lado no sofá surrado da sala, espiar a noite chegar, na manhã seguinte admirar embasbacado o sol se pôr e ouvir você contar a mesma história da “Kika” que atravessou a rua da nossa casa e foi atropelada por um vizinho desmiolado, a história que eu já sei de cor e salteado há “trocentos” anos, mas que ainda ouço como se fosse a primeira vez. 

Eterno, minha amada da vida inteira, é saber que a nossa filha cresceu, casou, partiu em busca da sua própria vida. E nós ficamos aqui. Ficamos no mesmo lugar, na mesma cidade, no mesmo canto. Se um dia a vida nos separar por qualquer motivo que não pudermos controlar, saiba que o seu cheiro do sabonete de coco ainda vai estar presente nos lençóis. O seu jeito de dormir de conchinha, idem, bem ainda, a maneira de como você tira a roupa e, logicamente, o jeito de mexer o açúcar dando três voltas exatas no meu café dentro da xícara de asa quebrada. Enfim, todos esses pequenos mimos ainda vão estar imperecíveis na minha memória. 

De contrapeso, o som engraçadinho da sua risada, sem tirar nem pôr, entrará retumbando nos meus ouvidos como essa minha música que elegi como a minha favorita e gravei em uma sequência interminável, que ao chegar na última nota, o celular repete sem interrupção assanhando as paredes do meu coração e restabelecendo a minha alma fazendo-a ferver numa ebulição de felicidade imorredoura. O amor não acaba quando a vida finda. Ele só muda de lugar. Passa do dia a dia dentro do peito, e lá no que conhecemos como âmago, ele fica, quieto, calado, olhando, espiando, sorrindo, e o melhor de tudo: nos venerando, num eterno “ad aeternum“ 

Nós somos um do outro
E assim sempre será
Nosso amor eterno, 
Como o céu e o mar
Sol do amanhecer
Eu e você
Noite e luar...
Sol do amanhecer
Eu e você
Noite e Luar...
Como o brilho do sol
No azul sem fim
Como um farol
Na escuridão surgir
Assim eu vejo você
Meu grande amor
Brilhando em mim
Assim eu vejo você
Meu grande amor
Brilhando em mim...
Voarei no céu
Como um beija flor
Escrevei no ar
Poemas de amor
Seu amor é tudo
Somente tudo
Tudo eu te dou
Sou amor é tudo
Somente tudo
Tudo eu te dou... (*)

Não fizemos promessas grandiosas no dia que viemos morar juntos. Não juramos mover montanhas, não prometemos um amor que atravessasse mundos. Nós só juramos que nos dias difíceis, a gente iria segurar a mão um do outro mais forte. Que quando um estivesse cansado, o outro carregaria o peso por um pouco. Que nunca iríamos dormir sem antes trocar um “amor, eu te amo”, por mais que estivéssemos com raiva, com ódio, ainda que a voz saísse baixa e emburrada. E essas promessas pequenas são as que realmente duram. São elas que fazem o amor ser eterno, não as frases bonitas que a gente diz para os outros ouvirem.

Hoje, quando cheguei em casa, você estava na cozinha, mexendo uma panela. A luz do teto caindo no seu cabelo que já tem alguns fios brancos que você insiste em não pintar. Você virou, me viu parado na porta, e sorriu, se abriu naquela ternura antiga, suave, terna, se solidificou naquele sorriso bucólico que ainda faz o meu coração dar um salto, imagine, depois de todos esses anos, levando em conta o fato de que eu a veja incansavelmente todos os dias. E nesse momento eu entendi o que a música estava falando. Nosso “Amor eterno” não é algo que a gente encontra por acaso, como uma pedra preciosa de valor inestimável no meio do caminho. 

O eterno é algo que a gente constrói, todos os dias, um tijolo de cada vez: com paciência de Jó, com perdão, com carinho nos detalhes que ninguém mais percebe. Só nós. É saber, igualmente, que, não fará a menor diferença o que venha pela frente. Não importa quantos anos passem. Não fará falta quantas marcas a vida, ao sabor do acaso incomensurável queira deixar em nós. Você é a pessoa com quem eu quero viver todos os meus dias, até o último. Até a terra nos estreitar os olhos, nos cobrir os corpos, nos desunir por sepulturas construídas uma ao lado da outra. Um dia, quando nossos arroubos cessarem, creia, amor meu, o nosso amor, indefinidamente estará aqui. Firme e forte. E será inesquecível para quem nos pilhar em jazigos separados. Estaremos de mãos dadas, num entrelaçar de dedos ocultos aos olhos dos que passarem, todavia, irmanados numa emotividade que nunca se desvencilhará de nós.
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* Nota:
A letra da música que me inspirou a escrever esse texto, é de autoria de Amarildo Vicente (Ray) e pode ser encontrada no “Amor eterno” da dupla de irmãos Vicky & Denis, presente no YouTube. 
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Aparecido Raimundo de Souza (72), paranaense radicado em Vila Velha/ES é jornalista e repórter freelance para importantes veículos e periódicos da imprensa nacional, como a revista IstoÉ Gente e Rede Globo.

Fonte: Texto enviado pelo autor.