MARTINS FONTES
Santos/SP 1884 – 1937
O que se escuta numa velha caixa de música
Nunca roubei um beijo. O beijo dá-se,
ou permuta-se, mas naturalmente.
Em seu sabor seria diferente
se, em vez de ser trocado, se furtasse.
Todo beijo de amor, longo ou fugace,
deve ser u prazer que a ambos contente.
Quando, encantado, o coração consente,
beija-se a boca, não se beija a face.
Não toquemos na flor maravilhosa,
seja qual for a sedução do ensejo,
vendo-a ofertar-se, fácil e formosa.
Como os árabes, loucos de desejo,
amemos a roseira, olhando a rosa,
roubemos a mulher e não o beijo.
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Aldravia de
DORÉE CAMARGO CORRÊA
Rio de Janeiro/RJ
mãe
natureza
espalha
ruídos
palavras
amor
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Soneto de
CID SILVEIRA
São Vicente/SP, 1910 – ????
A Rua da Vida
À Affonso Schmidt
Esta é rua da vida. E a vida se revela,
a rua sem pudor, completamente nua.
Mas, mostrando-se nua, a vida não é bela
e não é boa a vida através desta rua.
O convite que sai da entreaberta janela
tem a fascinação indizível da sua
promessa de pecado! E, atraída por ela,
a sombra do homem pelas portas se insinua ...
Marítimos gingando o corpo forte e suado,
malandros de chinelo, asiáticos franzinos,
toda esta malta vil que o homem detesta
vem deixar, nesta rua, um pouco do passado;
vem cumprir, nesta rua, os seus torvos destinos
para que possa haver a nossa rua honesta!
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Poema de
ONÉSIMO DA SILVEIRA
Ilha de São Vicente/Cabo Verde
As águas
A chuva regressou pela boca da noite
Da sua grande caminhada
Qual virgem prostituída
Lançou-se desesperada
Nos braços famintos
Das árvores ressequidas!
(Nos braços famintos das árvores
Que eram os braços famintos dos homens...)
Derramou-se sobre as chagas da terra
E pingou das frestas
Do chapéu roto dos desalmados casebres das ilhas
E escorreu do dorso descarnado dos montes!
Desceu pela noite a serenar
A louca, a vagabunda, a pérfida estrela do céu
Até que ao olhar brando e calmo da manhã
Num aceno farto de promessas
Ressurgiu a terra sarada
Ressumando a fartura e a vida!
Nos braços das árvores...
Nos braços dos homens...
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Quadra Popular
Eu amante e tu amante,
qual de nós será mais firme?
Eu como o sol a buscar-te,
tu como a sombra a fugir-me?
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Soneto de
REGINALDO ALBUQUERQUE
Campo Grande/MS
Soneto ao soneto
Na tua imortal forma, exata e nobre,
onde a musa imprevista se aventura
fino pelo de címbalos te encobre,
desafiando o estro e a razão mais pura.
Afirmam os incautos que és de cobre,
arcaico para quem a tessitura
de cantar o atual jamais se dobre
ao rigor triunfal que em ti perdura.
Varinha de condão da antiguidade
soneto, tua síntese inquieta
contém sonho, esperanças e saudade…
Para sempre será o teu reinado,
enquanto houver no mundo algum poeta
ou o pulsar de um peito enamorado!
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Soneto de
JOSÉ FELDMAN
Floresta/PR
Dilema
Tenho vivido um dilema
que tem me tirado o sono,
na cama vejo o problema...
já não sei mais quem é o dono.
Deitado, quando eu me viro
vocês podem até rir,
sinto na nuca um respiro...
minha cadela a dormir.
Fico pensando, portanto,
afinal, eu mando ou não?
A safada estica tanto,
que acabo caindo no chão.
A vida é tão engraçada...
"Êta" cadela folgada!!!
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Sextilha de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE
Teia de Trovas
Se teia tem as aranhas
para pegar seu sustento
não vejo nada de mal
este seu mais novo intento
de criar "Teias de Trovas"
para tecermos as novas
trovas em encadeamento!
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Escada de trovas de
FILEMON FRANCISCO MARTINS
São Paulo/SP
“A lua divina e bela,
num capricho assim desfeito,
invade a minha janela
e vem sonhar no meu leito.”
Hedda Carvalho
Nova Friburgo/RJ
“E Vem Sonhar No Meu Leito”
nesta noite enluarada,
quero ver-te junto ao peito
esperando a madrugada.
“Invade A Minha Janela”
fique aqui, feliz e calma,
que o perigo da procela
não resiste a paz da alma.
“Num Capricho Assim Desfeito”
ainda há luz e beleza
que o clima fica perfeito
- o amor é paz e certeza.
“ A Lua Divina E Bela”
reina perene no céu,
lua que a todos, revela
quem ama, não vive ao léu.
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Soneto de
ARTUR EDUARDO BENEVIDES
Pacatuba/CE, 1923 – 2014, Fortaleza/CE
Do Amor
O amor, este vasto querer bem,
Esse entregar-se quando se é tomado,
Essa estrada de luz, esse ar sagrado,
Esse sentir-se em vésperas, também.
Essa fonte que júbilos contém,
Esse rio em que nado, deslumbrado,
Esse momento retransfigurado,
Esse fogoso e louco palafrém
– É a força infinita da esperança,
Tão poderoso, que se nos alcança,
Alvorada repõe em nossa vida.
E sendo a longa estrela dos caminhos,
É rosa a nos ferir com seus espinhos,
Do eterno, porém, sendo a medida.
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete, 1906 – 1994, Porto Alegre
Ao longo das janelas mortas
Ao longo das janelas mortas
Meu passo bate as calçadas.
Que estranho bate!...Será
Que a minha perna é de pau?
Ah, que esta vida é automática!
Estou exausto da gravitação dos astros!
Vou dar um tiro neste poema horrível!
Vou apitar chamando os guardas, os anjos, Nosso
Senhor, as prostitutas, os mortos!
Venham ver a minha degradação,
A minha sede insaciável de não sei o quê,
As minhas rugas.
Tombai, estrelas de conta,
Lua falsa de papelão,
Manto bordado do céu!
Tombai, cobri com a santa inutilidade vossa
Esta carcaça miserável de sonho…
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Spina de
CARLA BUENO OLIVEIRA
São Paulo/SP
Esqueço de tudo
Esqueço de tudo
Desde que conheci
Você, meu universo.
Você tornou-se a minha vida
A razão de tudo, enfim,
De existir cada novo verso
Foi tão bom isso acontecer
Não poderia ser o inverso!
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Glosa de
NEI GARCEZ
Curitiba/PR
Curitiba, Mocidade!
MOTE:
Curitiba, tanta graça,
só você não fica idosa ;
sempre que no tempo passa,
cada vez é mais formosa!
GLOSA:
Curitiba, tanta graça
que recebe de seu povo,
aqui mesmo desta praça,
ou turista, sempre novo.
De esmerado tratamento
só você não fica idosa,
pelo próprio sentimento
desta clã tão generosa.
Exubera tanta graça
ao turista mais viajado:
sempre que no tempo passa
seu visual é elogiado.
Curitiba, mocidade,
de beleza majestosa,
quanto mais aumenta idade
cada vez é mais formosa!
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Soneto de
CHARLES BAUDELAIRE
Paris/França, 1821 – 1867
A Beleza
Eu sou bela, ó mortais! como um sonho de pedra,
E meu seio, onde todos vem buscar a dor,
É feito para ao poeta inspirar esse amor
Mudo e eterno que no ermo da matéria medra.
No azul, qual uma esfinge, eu reino indecifrada;
Conjugo o alvor do cisne a um coração de neve;
Odeio o movimento e a linha que o descreve,
E nunca choro nem jamais sorrio a nada.
Os poetas, diante do meu gesto de eloquência,
Aos das estátuas mais altivas semelhantes,
Terminarão seus dias sob o pó da ciência;
Pois que disponho, para tais dóceis amantes,
De um puro espelho que idealiza a realidade.
O olhar, meu largo olhar de eterna claridade!
(Tradução de Ivan Junqueira)
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