Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Roberto Bolaño (Chamadas Telefônicas)


artigo por Julio Daio Borges, para o Digestivo Cultural

Roberto Bolaño tem sido ovacionado, em prosa e verso, como o novo herói trágico da literatura latino-americana. O fato de não ter sido devidamente reconhecido, o fato de não ter alcançado sucesso e o fato de desfrutar de uma glória póstuma, complementada por uma morte precoce, fazem de Bolaño o eleito para uma literatura que vê a geração do "realismo fantástico" à beira da aposentadoria. 

A verdade é que Roberto Bolaño é, mesmo, um grande escritor, apesar de toda a ovação que hoje o precede, e que, transformando-o num sucesso póstumo, gera desconfiança em leitores de agora. Uma boa introdução para Bolaño é, justamente, Chamadas Telefônicas, aparentemente mais uma coletânea de contos (para ele, que escreveu tanto...). Acontece que o livro fisga o leitor desde o primeiro conto, "Sensini". Desde as primeiras frases se percebe a observação fina e as colocações sábias de quem entende do que fala. 

Uma das obsessões de Bolaño era o mundo literário. Falou de sua geração como ninguém. Mas falou de escritores, em geral, como poucos também. Sensini, o personagem, aliás, conclui: "O mundo da literatura é terrível, além de ridículo". Bolaño não esquece os detalhes comezinhos, da literatura como trabalho (ou quase isso): "De vez em quando recebia um cheque por algum de seus numerosos livros publicados, mas a maioria das editoras se fazia de esquecida ou havia quebrado". Ou das tentativas de sobrevivência dos escritores (latino-americanos ou não): "Quis voltar para a universidade mas, entre trâmites burocráticos e invejas e rancores dos de sempre, o acesso lhe foi negado e ele teve que se conformar em fazer traduções para algumas editoras". 

A ironia de Bolaño lembra Villa-Matas, o espanhol, um dos grandes do nosso tempo: "Os maus poetas costumam sofrer como animais de laboratório, sobretudo ao longo de sua dilatada juventude". Esse trecho, inclusive, é do conto "Enrique Martín", dedicado a ninguém menos que... Enrique Villa-Matas (!): "Naquela época eu tinha vinte e cinco anos e pensava que já tinha feito de tudo. Enrique, pelo contrário, queria fazer de tudo e se preparava à sua maneira para engolir o mundo". O que pensavam da obra um do outro? Bolãno teria influenciado Villa-Matas? Ou teria sido o contrário? Uma pergunta que as vindas de Villa-Matas ao Brasil provavelmente nos deixaram sem resposta. "A princípio, seu livro passa despercebido. Depois, num dos principais jornais do país, publica[-se] um resenha absolutamente elogiosa, entusiasta, que arrasta os demais críticos e transforma o livro num discreto sucesso de vendas". 

Mas nem só de escritores vive Chamadas Telefônicas. Um dos contos mais líricos, e um dos mais tristes também, é "Joana Silvestri": sobre uma atriz pornô italiana que vai reencontrar o amor em Los Angeles. "(...)ele tinha me chamado de Joannie, por uns segundos flutuei no ar como que drogada ou como se estivesse tecendo uma crisálida ao meu redor, mas depois me dei conta e ri e Jack soube do que eu ria sem precisar perguntar e sem precisar que eu dissesse nada". 

Outro dos melhores contos do volume é "Vida de Anne Moore": praticamente a crônica de desamores da personagem, que, em grande parte, transcorre nos Estados Unidos, sendo de uma verossimilhança quase absurda, para um autor "latino". Nessa história, Bolaño não fala de escritores, mas fala de arte (ou de, ao menos, um artista): "Às vezes era insuportável, mas também sabia quando era insuportável e tinha então a virtude de se trancar no ateliê e pintar o tempo todo em que estivesse insuportável(...)". 

No Brasil, a consagração de Roberto Bolaño tem se dado, logicamente, por Os Detetives Selvagens, sua obra-prima. Mas canhestramente, também, por 2666, uma obra póstuma, incompleta, que, na sua ambição, tem sido comparada até ao Dom Quixote. Nem tanto à terra, nem tanto ao mar: antes de encarar o gênio de Roberto Bolaño e se engasgar com sua inventividade, numa obra magna ou inacabada, a sugestão é se embrenhar pelos contos. Afinal, todo grande escritor se manifesta em qualquer formato, ou não se manifesta jamais.

Fonte:

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to