quinta-feira, 17 de outubro de 2019

David Martins (O Alcaide do Castelo de Faria)


Convido-o, caro leitor, a empreender uma viagem no tempo. Assim, imagine-se transportado ao ano de 1373 da era cristã. A paisagem que o rodeia é aquela que ainda hoje é típica do Norte de Portugal, serranias atrás de serranias, ora áridas e pedregosas, ora vastidões de prados e florestas a perder de vista na lonjura do horizonte.

No cimo de um ermo monte, ergue-se uma fortaleza de grossas e altas muralhas de escuro granito encimadas de torres e ameias. Não lhe faltam alçapões, postigos, a ponte levadiça e o fosso circundante.

Você encontra-se diante do Castelo de Faria, uma construção fortificada muito antiga.  Às pedras dos seus robustos muros não faltam recordações de glórias passadas.

O Reino de Portugal é governado pelo rei Dom Fernando, um homem cujo caráter não prima nem pelo cumprimento das promessas feitas nem pelos compromissos assumidos. Foi, assim, que em vez de se casar com a filha do rei de Castela conforme tinha sido acordado entre os dois soberanos, Dom Fernando decidiu casar com Leonor Teles, uma mulher muito bela, mas casada, que se tornara sua amante.

Com o pretexto de vingar tão grave e ofensiva afronta pela quebra do contrato, o exército do rei de Castela invade o território de Portugal, atravessando a fronteira em locais distintos. Um desses batalhões castelhanos composto por muitos soldados, uns a pé, outros a cavalo, entra pela fronteira Norte. À sua passagem, os soldados vão incendiando, saqueando, violando e matando tudo e todos os que se deparam no seu caminho, deixando atrás de si um rasto de destruição e sofrimento nos aldeões e camponeses que não têm culpa das desavenças contratuais entre os dois reis vizinhos.

Os exércitos particulares comandados pelos senhores feudais daquelas terras, súditos do rei de Portugal, não são suficientes para fazerem frente aos espanhóis, a quem nada nem ninguém consegue deter o avanço por terras de Portugal. Num destes confrontos participou o alcaide-mor do castelo de Faria, Nuno Gonçalves, que caiu prisioneiro das tropas castelhanas.

Na ausência do alcaide, o castelo é governado pelo seu filho. O pai teme que, sabendo da sua desgraça, o filho ofereça o castelo ao inimigo para resgatar a liberdade do seu progenitor. Este receio fez com que o velho alcaide se lembrasse de montar um ardil para impedir que uma tal situação viesse a acontecer: Nuno Gonçalves pede ao comandante das tropas castelhanas que o conduza até às muralhas do seu castelo para que ele fale ao filho e, assim, possa convencê-lo a entregar a fortificação sem derramamento de sangue para nenhum dos lados.

Diante dos seus olhos, caro leitor, desfila agora um numeroso grupo de homens que acompanha o velho alcaide. Chegam às cercanias do castelo e formam como que um cordão humano que rodeia completamente a construção. O exército vitorioso prepara-se para tomar posse do castelo, conforme lhe prometeu o prisioneiro.

Agora você usa as roupas de lã, iguais às de todos os habitantes da aldeia de Faria. São vestimentas grosseiras de gente que apenas vive daquilo que a terra lhes dá. De facto, neste momento, você é um deles. Vê brilhar ao longe, tal como os seus vizinhos, o metal das armaduras dos soldados inimigos, refulgentes sob a luz intensa do Sol, e as suas coloridas bandeiras que esvoaçam ao vento. Você, juntamente com todos os seus companheiros, homens, mulheres e crianças, está assustado e juntamente com eles, todos abandonam os campos e as vossas casas e correm a refugiar-se dentro das muralhas, num terreiro onde toscas choupanas de teto de colmo se apoiam umas nas outras.  Todos pensam que aí vão encontram proteção contra a violência e a brutalidade que sempre acomete os homens quando lhes põem uma arma nas mãos e lhes dão impunidade para cometerem toda a espécie de atrocidades.

Sobre as muralhas, os sitiados desenvolvem intensa atividade. Os homens que estão de atalaia nas torres vigiam atentamente os movimentos do inimigo, enquanto outros correm ao longo das ameias, colocando-se em posições estratégicas de defesa.

Um grupo de castelhanos armados aproxima-se das muralhas levando consigo o velho alcaide. Os besteiros do castelo, escondidos por detrás das ameias, retesam as bestas e apontam-nas na direção da comitiva. Os homens que acionam as armas de arremesso e outros engenhos bélicos preparam-se para cumprir a sua tarefa. 

Do grupo de combatentes castelhanos, destacou-se um arauto que se aproximou das muralhas exteriores.  Nas ameias as bestas inclinaram-se para o chão e ouviu-se o ranger das máquinas de lançar projéteis. Fora isto, o silêncio é profundo.  Por fim, ouve-se, ao longe, a voz grossa e altissonante do arauto que chama o filho de Nuno Gonçalves, bradando-lhe que saia do castelo e vá até junto de seu pai que quer falar-lhe.

O filho do velho alcaide, de nome Gonçalo Nunes, aparece no alto da muralha exterior e responde-lhe:

- Diz a meu pai que eu o espero aqui e que Nossa Senhora o proteja.

O arauto regressa para junto dos seus superiores e, após alguma agitação entre eles, o grupo aproxima-se da muralha ladeando o alcaide-mor que fala ao filho:

- Sabes tu, meu filho, de quem é este castelo?

- Sei que é de El Rei de Portugal, que o confiou à vossa guarda.

- Então se sabes, com Judas o traidor sejas tu sepultado no inferno se os castelhanos entrarem nele sem passar primeiro por cima do teu cadáver.

Compreendendo o sentido do diálogo entre os dois, logo ali o comandante castelhano ordena que matem o velho alcaide, que caiu trespassado por muitas espadas.

- Defende-te, alcaide! - tem ainda forças para gritar ao filho o pai moribundo.

O novo alcaide corre como um louco ao longo das muralhas, gritando por vingança.

Do alto das muralhas chovem flechas sobre os soldados castelhanos, que atingem mortalmente muitos deles.

O batalhão castelhano reúne todas as suas forças e ataca o castelo. As casas de colmo onde os mais desprotegidos, você e os seus vizinhos da aldeia se abrigaram, começaram a arder, resultado das flechas incendiadas desferidas do exterior do castelo. A confusão é enorme. Por todo o lado se ouvem os gritos das mulheres, o choro das crianças, as imprecações dos velhos. Um homem em chamas sai a correr, desvairado, dos abrigos de colmo e rebola-se no chão a gritar por socorro. Despejam-lhe baldes de água em cima, mas tudo o que fica é um corpo enegrecido, a estrebuchar, agonizante. Os gritos de terror dos feridos elevam-se no ar juntamente com os rolos de fumo do incêndio e o forte e repugnante cheiro a carne carbonizada.

O jovem alcaide não consegue esquecer a terrível visão do seu pai, morto a golpes de sabre, nem as últimas palavras que ele lhe gritou antes de entregar a alma ao Criador: - “Defende-te, alcaide!”

O cerco dura vários dias. A carnificina de ambos os lados das muralhas foi atroz, o sofrimento é indizível. Tanta dor e destruição que razão alguma justifica. Você e todos dentro das muralhas deambulam exaustos, esfomeados e com sede, revoltados por terem sido os peões no tabuleiro de xadrez onde se jogaram questões que não vos dizem respeito. O orgulhoso comandante das tropas invasoras acaba por ver a sua soberba abater-se contra os muros do castelo de Faria, quando o desalento atinge os poucos homens que lhe restam. 

Você e os seus companheiros de infortúnio regressam à aldeia de Faria onde encontram as vossas casas assaltadas, o gado tresmalhado pelos campos ou roubado para alimentar os sitiantes. O desânimo é grande, mas a vida tem que continuar e está tudo para refazer quase a partir do nada.

Passados dias, o jovem alcaide recebe um mensageiro do rei que muito o louva pela sua tenacidade e feitos guerreiros na defesa do castelo. Sensível e impressionável, ele não consegue esquecer as imagens horrorosas, dignas do Inferno, que durante dias presenciou. Troca as vestes de cavaleiro pelas de monge, troca o mundo conturbado regido pelas leis dos homens pela paz do convento e da oração.

Terminou, caro leitor, a sua viagem no tempo. Você está de regresso ao presente. Do sofrimento e da glória deste acontecimento não ficou para a posteridade uma pedra que os testemunhe, apenas sobrevivem ainda na memória dos historiadores.

Fonte:
David Martins. Estórias e Lendas de Encantar

quarta-feira, 16 de outubro de 2019

David Martins (O Sacristão e o Diabo)


Era uma vez um sacristão que, todas as noites, se dirigia ao altar da sua igreja e acendia velas diante das imagens dos santos para que as trevas não invadissem o local e as santas criaturas não deixassem de proteger o povo daquela vila.

Um dia, lembrando-se de ter ouvido dizer que o Diabo está sempre atrás da porta, pensou: “Se for verdade que o Diabo está atrás das portas e que ele, quando quer, não é tão mau rapaz como dizem, então deixa-me cá pôr-lhe também uma vela, que às vezes... ainda pode ser que algum dia me ajude”.

Alumiou uma vela e foi colocá-la atrás da porta da igreja.

Findo o seu trabalho, dirigiu-se à estalagem onde jantou ovos cozidos. Quando ia pagar, pediram-lhe seis mil réis. Voltou-se, então, para o estalajadeiro e disse-lhe:

- Olhe lá, seis moedas por três ovos cozidos não é muito dinheiro?

- Não é, não! - respondeu o outro.

- Não é? Então, como é isso? - perguntou o sacristão.

- É que você não está a pagar só o preço dos ovos que comeu. Você tem também que pagar os pintos que de lá haviam de sair, haviam de crescer e tornar-se galinhas que valeriam bom dinheiro. E agora, vossemecê já está a perceber quanto valiam os ovos que comeu?

- Esta agora, não querem lá ver! Mas se eu só comi os ovos, não comi nem pintos, quanto mais galinhas... E logo seis moedas... eu tenho lá seis moedas!

- Ah, não tem? Vocemessê não quer pagar? Então amanhã vamos ao juiz, que ele logo lhe diz quem é que tem razão.

O sacristão estava estupefato, tanto mais que o estalajadeiro era considerado um homem rico, que na igreja oferecia esmolas para os pobres com gestos largos para que todo o povo o visse. E agora, estava a exigir-lhe, a ele, um pobre sacristão, que pagasse por três ovos o preço de um lauto banquete. Como é que aquilo podia estar a acontecer-lhe?

O sacristão não tinha aquele dinheiro todo, foi-se embora muito aflito. Dirigindo-se para casa, saiu-lhe ao caminho um homem muito alto, envolto numa capa preta. O sacristão recuou, assustado, mas o outro disse-lhe:

- Nada receies, não estou aqui para te fazer mal. Sei o que se passou na estalagem e quero dizer-te que não precisas de te preocupar. Confia em mim. Eu posso muito, acredita que posso. Amanhã vou ao tribunal defender-te. Espera lá por mim, que à hora marcada eu apareço.

O pobre homem ficou todo contente por ter aparecido alguém que iria intervir a seu favor. 

No dia seguinte, quando chegou ao tribunal já lá se encontravam o juiz e o estalajadeiro. Só faltava o homem que lhe tinha prometido que iria defendê-lo. Esperaram, esperaram, mas o outro continuava sem aparecer. O juiz estava a ficar muito aborrecido com aquela demora. Era quase hora da janta, e ele não conseguia pensar noutra coisa que não fosse a paparoca que o esperava lá em casa, até já lhe estava a crescer água na boca, e que aborrecimento, a defesa tardava em chegar... se é que viria! O juiz começava a ficar de muito mau-humor, que isto de uma pessoa sentir o estômago vazio era o diabo.

Eis que entra na sala o embuçado da véspera, dando grandes passadas.  À luz do dia, o homem ainda parecia maior. As tábuas do chão do tribunal vibravam e rangiam sob as sua botas pesadas.

Dirigindo-lhe a palavra, o juiz perguntou:

- Olhe lá, então isto é que são horas de você aparecer? O que é que você esteve a fazer até agora para chegar tão tarde?

- Estive a cozer favas para os meus criados semearem - respondeu o homenzarrão, com a sua voz de timbre profundo.

- Ah, sim? E onde é que já se viu favas cozidas a germinarem? - perguntou o juiz.

- Então, e onde é que já se viu ovos cozidos darem pintos? - perguntou o outro à laia de resposta.

O juiz não sabia o que responder. Olhou para o estalajadeiro que estava boquiaberto.

O homem da capa preta deu meia volta sobre os tacões das pesadas botas e saiu majestosamente.

Na rua, riu-se para o sacristão, deu-lhe uma palmadinha no ombro e disse-lhe:

- Estás a ver? Eu quando quero também sou um rapaz simpático. E também ficaste a saber por mim que há gente que, embora pareça praticar o bem e querer ajudar os seus semelhantes, não perde uma oportunidade para os enganar e roubar. Neste mundo é preciso ter sempre os olhos bem abertos!

Fonte:
David Martins. Estórias e Lendas de Encantar

Lúcia Constantino (Poemas Avulsos) 2


ASILO OU EXÍLIO?

Os chinelos não produzem som.
Nem o rádio tocando baixinho.
Mas a respiração se ouve do lado de fora.
E o sonho de ainda poder tocar as estrelas
talvez chegue até Deus.

DIMENSÃO DA NOITE

Teu olhar mudo.
Uma sombra toma-me pelo pulso.
Réstias de luz são meus vultos,
meu país é o crepúsculo.

Derrubo os muros,
mendiga de sol e ventos
que tragam lá do futuro
fontes pro pensamento...

Cai a noite, noite inquieta...
suspeita de mil anjos adormecidos
Nenhum portal, nenhuma seta.
Só um silêncio vivo.

E a última estrela no céu
é acendedor dos esquecidos.

ESSA PAZ DOLOROSA

Essa paz dolorosa,
perfume que no vento
traz espinhos
e não a rosa.

Essa paz cansada
de escolher um novo caminho
e sempre e de novo
errar a estrada.

Essa paz que nos vãos da noite
procura estrelas nos abismos
onde elas brilham tão fortes.
Sentinelas do deus destino.

Paz dolorosa e imensurável
e por demais amiga:
minha mesa, meu vinho,
meu pão.

Deixarei que nela
minha alma  refaça caminhos,
vertendo saudade nos linhos
aonde um dia pousei
o teu coração.

ROSAS BRANCAS

Rosas brancas do santuário,
são como cristais em manhã de inverno.
Refletem o encanto dos campanários,
e têm um rosto de sonho eterno.

Dou-te um buquê de brancas rosas
para que te adornem por toda a vida.
No teu puro linho, em verso e prosa,
borde-as sempre, pela alma florescidas.

Que pelos mares da vida, em sábio norte
naveguem teus poemas a mágicos horizontes
encantando ondinas, estrelas...imensidão.

São rosas brancas que o universo doa
esses teus versos em cujas asas voam
os mais belos sonhos do coração.

SOBRE OS LÍRIOS

Esta Tua mão se abaixa
e toca o lírio do campo.
Me dás o fruto dos Teus gestos
ao tecer meu sorriso
ao determinar meu pranto.

Teus pés caminham firmes.
Cidadela em torno d'alma,
de minha alma que vestistes
sob o contorno de Tua palma.

Tu te abaixas e persistes
a acolher lírios dos campos.
Neste meu tão breve céu
sou lírio asilado sob Teu manto.

TEMPO DE EXISTIR

Ainda recordo meu tempo de fé:
O movimento das horas
cinzelando meus sonhos.
As palavras sem travas,
as ossadas das lembranças
mergulhadas nas sombras.
Um canteiro de cânfora
perfumando as mãos.

Meu tempo de esperança
não era essa caricatura de estrelas
que borram o céu dos sentidos.
Era um rosto organizando a vida.
Era um culto velando o sono,
um oráculo em vestes amarelas,
fomentando o divino,
nas pequeninas coisas.
Uma semente, um sorriso,
uma palavra dispersa que nutria.

Medito sobre estes restos de caminhos
que me chegam,
sobre esse tempo que se estende
diante da colina:
um tempo inanimado em seu degredo,
mas que, vez ou outra, acende uma luz
a serviço dessa minha noite
de vigília eterna.

UM DIA…

Um dia o mundo abriu-se em uma página,
despontando o sol do sonho no papel.
E num impulso ao mar azul soltei a lágrima
pra que fosse navegando até teu céu.

Deste, à noite escura o que importava:
mil estrelas que foram portas concebidas
pra passagem de minh’alma que andava
perdida em si mesma, procurando a vida.

Mas o destino traçou seu rumo ao léu
e quis que o tempo falasse como um deus
pra levar o coração a canto algum...

Meus olhos, de cansados, ferem lágrimas
pra um destino ignorado e em brancas páginas
escrevem para ti ou talvez pra céu nenhum!

Fonte:
http://asasonoras.blogspot.com

Antonio Carlos de Barros (Chimarrão) Parte 2, final

( Nota: as palavras em itálico negritado possuem o seu significado no vocabulário no final a postagem)
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Engana-se quem pensa que o Chimarrão é popular apenas no Sul do Brasil. A bebida é muito consumida também em outros países, como Uruguai e Argentina. Originária das culturas indígenas caingangue, guarani, aimará e quíchua, o mate foi logo incorporado no dia-a-dia dos imigrantes europeus que vieram para o Sul do Brasil e de outros países da região dos Pampas, e se tornou um símbolo local.

Benefícios do consumo do Chimarrão para a saúde

Não, o chimarrão não é só uma água verde e quente que a gurizada do sul gosta de beber em grupo. A bebida é ótima para a saúde e rica em vitaminas. Quem bebe um mate amargo está consumindo importantes vitaminas, como o complexo B, vitamina C e vitamina D, além de sais minerais, como cálcio, manganês e potássio.

Dentre os benefícios para a saúde quando se consome o chimarrão, está o combate aos radicais livres, melhora na digestão e combate ao reumatismo. O Chimarrão deixa a  pele mais bonita, pois favorece a regeneração celular, e regula funções cardíacas e respiratórias. Também fortalece os ossos, ajudando a prevenir doenças como osteoporose.

O Chimarrão também é um excelente diurético e laxante, além de estimular a libido (Opa!), pois contém saponina, que é um dos componentes da testosterona.

Chimarrão é ótimo aliado na dieta, já que, por ser um estimulante natural, acelera o metabolismo.

E se você percebeu que, ao beber um chimarrão enquanto estava com fome, teve sensação de saciedade depois, você não está pirando não. O chimarrão realmente tem este poder, isso porque a erva-mate tem um valor nutricional absurdo. Segundo estudos científicos, o chimarrão oferece praticamente todas as vitaminas necessárias para sustentar a vida.

Acessórios para tomar chimarrão 

Para fazer um chimarrão, são necessários uma cuia (recipiente aonde vai o chimarrão), a bomba (Tacuapy) “canudo” em que se bebe o chimarrão, uma chaleira ou uma garrafa térmica para manter a água quente, erva-mate e água quente. Quanto à temperatura da água depende muito de cada pessoa. Aqui no Sul, no inverno costuma-se deixar a água com 70º centígrados, no verão um pouco menos. Não se deve jamais deixar a água ferver. 

Regras do Chimarrão - Estilo de beber o mate

O mate pode ser tomado de três maneiras, em relação à companhia: o mate solito (isoladamente); o mate de parceria (uma companheira ou companheiro) e, finalmente, em roda de mate (em grupo).

A MÃO DIREITA

Para se receber o mate ou entregar a cuia de mate, deverá ser feito com a mão direita. No caso da mão direita estar ocupada, a pessoa deverá dizer:

- Desculpe a mão!

Ao que o outro responde:

- É a do coração.

Fora dessa exceção, sempre com a mão direita.

SÓ O CEVADOR PODE MEXER NO MATE

A menos que se obtenha licença, só o cevador deve arrumar o mate, considerando-se falta de respeito alguém mexer sem permissão. O bom cevador, cada vez que recebe a cuia, antes de enchê-la, dá uma ajeitada na bomba, de modo que renove o fluxo de seiva, demonstrando, assim, seu conhecimento na intimidade com o mate.

O PRIMEIRO MATE

Como já falamos, todo aquele que fecha um mate (faz o mate) deve tomar o primeiro em presença do parceiro ou na roda de mate.

Este fato tornou-se tradicional devido a épocas remotas em que o mate serviu de veículo para envenenamentos. Por isso, o ato do mateador  tomar o primeiro indica que o mate está em condições de ser tomado.

Ainda no caso do primeiro mate, outro motivo que nos chega foi devido aos jesuítas, que atribuindo valores afrodisíacos ao mate, e para evitar que os índios passassem a maior parte do dia mateando, tentando afastá-los do hábito, criaram o mito entre os silvícolas cristianizados que Anhangá Pitã (diabo) estava dentro do mate.

Mas não foram bem sucedidos os jesuítas e o hábito salutar sobrepujou o temor que lhes fora impresso. Por isso, toda vez que o indígena ia tomar um mate em presença dos outros, tomava o primeiro mate como demonstração que Anhangá Pitã não se encontrava no mate.

RONCAR CUIA

Uma vez servido o mate, deve ser tomado todo, até esgotá-lo, fazendo roncar a cuia.

O grande poeta, músico e cantor Paulinho Pires ensina o legado em sua canção: CEVADOR DE MATE.

Eu já nasci prá cevador de mate,
Da madrugada ao anoitecer,
Cresci amando a natureza bugra
Sina bonita do meu bem querer.

E na música CEVADOR com Letra de João Tadeu Soares da Silva e Salvador Lamberty e Melodia de Leonardo Sarturi.

A Cuia, em forma de taça, Cevador e Chimarrão 
Lembram o gesto de Cristo, dividindo vinho e pão. 
Trazem, no ritual do mate, a fraterna comunhão, 
Querendo mostrar ao mundo que somos todos irmãos. 
A Cuia foi a parceira dos Guaranis combatentes, 
Que elevaram corpo e alma, ao sorver da água quente. 
Em forma de coração - parece um seio moreno – 
Um mapa do meu Rio Grande, mesmo com porte pequeno. 
Cuia, cevador e mate na seiva da convivência, 
São relíquias que afagam e adoçam minha existência! 
Nas Rodas de Chimarrão os assuntos vêm à tona: 
Embates, Tropas, Aprontes, um cortejo pra Siá Dona. 
Sorvem-se reminiscências - tempos deixados pra trás: 
Quantos Heróis Comandantes, quantos Tratados de Paz! 
Cuia, cevador e mate - vertentes de telurismo, 
Que jujam, ao pé do fogo, sementes de um atavismo 
Quando eu parar deste mundo quero levar, no costado, 
Meus Avios de Chimarrão pra matear d'outro lado!

Outra regra importante é não agradecer após beber o chimarrão. Não é falta de educação, pelo contrário. É sinal que você ainda não terminou de beber chimarrão com estas pessoas, e quer continuar participando da roda.

Somente um ícone da cultura gauchesca, poeta, escritor, cantor e músico, o consagrado Telmo de Lima Freitas para nos brindar com a sua "Alma de Galpão"

Como faz bem um chimarrão feito a capricho
Quando cevado com o calor da própria mão
A madrugada negaceando mostra a cara
Cheiro de garras e pelegos pelo chão.

Como faz bem ouvir o relincho do potro
Lá na mangueira a espera do buçal,
Baio sebruno, cabos negros de respeito,
Que pelo jeito, não nasceu pra ser bagual.

Como faz bem tomar um banho na restinga
Vestir as pilchas domingueiras pra passear
Ouvir a gaita de oito baixos resmungando
Adivinhando o pensamento do seu par.

Como faz bem sentir o gosto da querência
Ouvir um grito explodindo no rincão
O venha, venha, do tropeiro nas estradas
Rezando a prece, de retorno ao velho chão.

Como faz bem lavar a fuça na gamela
Tirar o freio pra depois chimarronear
E o gado manso ruminando junto às casas,
E a terneirada num berreiro pra mamar.

Como faz bem sentir o cheiro do borralho
Respirar fundo o braseiro do tição
Rio Grande velho, que retrata diariamente,
Como se forja uma alma de galpão.

Bueno, após sorver o mate dos ervais de nossa convivência. Posso chama-lo de: “Mate da Esperança”. O sabor é o da comunhão, da partilha, do sonho coletivo e da fraternidade. Não deixe morrer a esperança que existe em seu coração. Haverá sempre uma luz para iluminar nosso caminho. E quando esse dia chegar, tomares um mate de Patrão. Um mate pra ti.
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VOCABULÁRIO
Atavismo – herança dos ancestrais.

Avios – objetos necessários para tomar mate.

Bagual – animal ainda não domado, selvagem.

Borralho – brasas cobertas de cinzas.

Cabos Negros – diz-se do cavalo de qualquer pelo que tem negras as quatro patas.

Chimarronear – tomar chimarrão, matear.

Fuça – rosto, face, cara.

Jujam / Jujo – erva medicinal, chá.

Mate de Patrão - o significado é comparativo à uma Estância ou Fazenda, onde existem o Patrão (dono da fazenda) Capataz, peões, etc. Então o Mate de ou do Patrão é sempre o melhor, mais bonito, mais vistoso, etc. O CTG - Centro de Tradições Gaúchas, foram pensados como se fossem uma grande Estância ou Fazenda, onde existem: Patrão, Capataz, Peões, Invernadas, Piquetes, etc. Na sociedade Urbana o Patrão representa o Presidente da entidade, o Capataz seria o Vice Presidente, a Invernada seria os Departamentos, os Piquetes seriam as seções, os Peões os demais funcionários.

Pilchas – adorno, joias, roupas, vestimenta típica do Gaúcho.

Querência – lugar onde nasceu, se criou ou viveu.

Restinga – mato constituído de árvores de pequeno porte, nas baixadas , à margem de rios.

Rincão – ponta de campo cercada de rios, matas.

Sebruno – animal cavalar de pelo escuro. 

Telurismo – influência do solo sobre os usos e costumes habitantes.

Fonte:
Artigo e vocabulário enviados pelo autor.

terça-feira, 15 de outubro de 2019

Carolina Ramos (Hino do Idoso)

Casal de Idosos, pintura de Brown

Quando o inverno bate à porta 
e o vigor não é mais nosso,
a Mão de Deus nos conforta
e ajuda a dizer: - Eu posso!

Posso sentir e provar
o quanto esta vida é linda,
conjugando o verbo amar,
nos sonhos que eu sonho ainda!

O idoso não quer piedade,
quer ser amado e feliz, 
vivendo, em paz, a verdade
da vida que sempre quis!

Quer amar, sorrir contente
e afirmar: - “Missão cumprida!”,
com direito a, simplesmente,
desfrutar da “melhor vida”!

Bem pouco o idoso deseja:
- Só amor, respeito e carinhos!
Se colhe as rosas que almeja,
o idoso esquece os espinhos!

Fonte:
Poema enviado pela poetisa

Jaqueline Machado (Lançamento do Livro “Pétalas” – 50 anos da UBT)


Jaqueline está lançando a partir do dia 20 deste mês um livro de trovas em homenagem aos 50 anos da UBT. 

PÉTALAS é o titulo do seu mais recente trabalho. São mais de 100 trovas e mais um bônus com 12 poemas de sua autoria. 

PÉTALAS é um livro cheio de amor e tem como objetivo acarinhar docemente os poetas e trovadores da UBT. 

A edição é limitada. Não deixe de adquirir o seu exemplar. 

O lançamento oficial será no decorrer dos Jogos Florais de Porto Alegre que ocorrerão nos dias 25, 26 e 27 de outubro. 

Quem estiver presente poderá comprar diretamente com ela. 

Mas quem não puder se fazer presente pode encomendar através do e-mail: tudoepossivelw7@gmail.com 

Fonte:
Jaqueline Machado 
Presidente da UBT Cachoeira do Sul - RS 

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

João de Toledo Tito (Em Qualquer Esquina, Um Texto)


Parado, indeciso, em frente à gôndola na adega, já com uma cartela generosa de presunto de Parma debaixo do braço e com uma garrafa de vinho tinto seco em cada uma das mãos, tento optar por uma delas. Procuro ávido por socorro, e lá está ele. Grande, quase de meu tamanho, afixada em uma coluna metálica estruturada, uma seta vermelha - onde se lê: Leitor de Código de Barras - aponta para baixo na direção da maquininha. Aproximo-me da intensa luzinha verde que ela emite, exponho as barrinhas que até agora não me significam nada e meu problema se resolve. O leitor transmite os dados a um computador central, o qual, entre informações catalogadas para cada produto, seleciona aquela mais interessante aos clientes que a procuram, e voilá, leio o preço dos vinhos. Escolho o mais caro, pois não é tão mais caro assim, dirijo-me ao caixa, pago e saio dali.

Mais relaxado e caminhando em busca de quem amo, só me falta uma boa música para que a festa fique completa, e ela começa a martelar a minha cabeça: "Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, levando um violão debaixo do braço... Em qualquer esquina eu paro, em qualquer botequim,.,"

Consigo também pensar neste meu texto. Não seria ele como aquele código de barrinhas, que nada significa sem os olhos brilhantes de um leitor a transmitir ao mais poderoso dos computadores as informações capazes de emocionar com as informações certeiras - só um amontoado de símbolos previamente organizados, mas ainda sem finalidade?

Apresso os passos, ansioso e feliz, para o encontro. Trocar afagos, saborear os petiscos, presentear com meus escritos, na esperança da conquista final, a leitora desavisada que me espera distraída na janela. Mal sabe ela que levo também outras rimas na cabeça, que só farão sentido depois da sua leitura. E a música continua em minha cabeça: "Se alguém perguntar por mim, diz que fui por aí, levando um texto debaixo do braço... Em qualquer esquina..."

(Crônica Premiada no VII Concurso Literário “Cidade de Maringá”)

Antonio Carlos de Souza (Chimarrão) Parte 1


( Nota: as palavras em itálico negritado possuem o seu significado no vocabulário gauchesco no final a postagem)
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Pintura em tecido, por Rosvita

A Erva Mate foi descoberta pelos Índios Guaranis, antes do Descobrimento do Brasil. CAÁ – significa Erva Mate na linguagem Guarani, CAÁ-Y – significa a água da erva. Hoje mate amargo ou Chimarrão.

O Chimarrão, um grande patrimônio da Tradição Gaúcha, foi descoberto no atual Estado do Paraná, lá pelos idos do ano de 1554. Com as notícias da Prata, logo após a descoberta da América do Sul, muitos Europeus desembarcaram em nosso Continente, rumando para Assunção – Paraguai. Tentavam atingir a terra das valiosas minas, subindo pelo Rio da Prata. Foi numa dessas investidas que o governador de Assunção, IRALA, em 1554, descobriu o Mate Amargo. Partindo de Assunção o governador seguiu a leste, para conquistar terras para a Espanha e a busca de riquezas. Alcançando Guaíra, hoje Estado do Paraná, foi recepcionado, junto com a sua comitiva, por um povo indígena, que compunha uma Nação de 300.000 índios Guaranis. Ficaram impressionados com a hospitalidade jamais vista em suas andanças. Foram convidados a tomar uma bebida estimulante, que dava inspiração e proteção, ensinada por Tupã, Deus Indígena, aos pajés. Essa Erva era chamada pelos índios de “Erva Tupã”, porque era abençoada por Deus, seu mate produzia efeitos estimulantes e fortalecedores, ao corpo e ao espírito, para os guerreiros. Consistia em torrar as folhas de uma certa árvore silvestre, fragmentá-las e coloca-las num pequeno porongo, com água morna, quase quente, chupar com um canudinho de taquara. Um trançado de fibras de cascas e membranas de árvores, em sua base, impedia a ingestão de partículas das folhas, via canudinho. Era o CAÁ-Y, que também era consumido como chá, fervido e até mascado, sob a forma natural, em folhas verdes ou secas.

E disse o Hélio Moro Mariante em sua Fronteira do Vaivém:


Há uma árvore importante
Que nasce sem se plantar.
Sua folha é estimulante
Depois de se a sapecar.
É planta, mas chamam erva.
Dizem que as forças conserva,
Dos que a tomam no frequente
É chupada de um porongo
Com canudo e água quente.

A boa nova foi levada pelos expedicionários à Assunção e foi se espalhando por toda a América do Sul. A erva mate chegou a ser moeda corrente no Paraguai.

No início da era da erva mate a Igreja Católica foi sua fervorosa combatente. Os padres Franciscanos, em nome dos mais santos princípios da Igreja, instituíram a “excomunhão” dos que mateavam. Era o tempo da Inquisição. Eles chamavam a “erva do diabo”, por ter surgido no meio indígena, com a benção do deus Tupã.

Por isso Dimas Costa nos conta em sua Carta à Mãe Natureza:

– E assim é que o mate amargo
Tem muito de pago e china.
E a tradição é que ensina
Que o chimarrão, no passado,
Foi erva amaldiçoada
E por isso foi queimada
Por um conselho sagrado.

Então daí criou-se o hábito de quem prepara o mate toma o primeiro gole, para provar que ali não havia diabo algum. Foram muitas décadas de lutas da Igreja Católica, contra o uso da erva mate, porém o hábito invadiu o Continente. Até que a Igreja resolveu suspender o combate infrutífero. Formaram-se, então, dois grandes polos de produção, GUAÍRA, no Paraná, e Sete Povos das Missões, às margens do Rio Uruguai, no atual estado do Rio Grande do Sul.

Glaucus Saraiva realça em poesia o divino da erva mate:

Trazes à minha lembrança,
Neste teu sabor selvagem,
A mística beberagem,
Do feiticeiro charrua,
E o perfil da lança nua,
Encravada na coxilha,
Apontando firme a trilha,
Por onde rolou a história,
Empoeirada de glórias,
De tradição farroupilha.

No Rio Grande do Sul, quando se deixou brotar a tradicional hospitalidade Gaúcha, sempre esteve uma mão amiga estendida, alcançando o símbolo desse gesto, um chimarrão. Nas estâncias Gaúchas nunca faltaram às rodas de chimarrão. Nas charlas galponeiras, ao redor dos fogos de chão, entre um mate e outro, sempre foram tomadas as mais importantes decisões do curso de nossa história.

O momento do chimarrão é propício para se ordenar e planejar os negócios do dia. Ninguém mateia com pressa. A exploração da Erva Mate, como descoberta nativa, constituiu-se em grande fonte de divisas para o Rio Grande do Sul, principalmente pelos missioneiros, especialmente após a chegada ao pó da erva.

E o grande payador Jayme Caetano Braun em seu Potreiro de Guaxos explica:

É por isso meu patrício
Que não mateio solito
Embora o verde bendito
Pra mim seja mais que vício.
É o meu último munício
Que não dispenso nem largo
E peço a Deus, sem embargo,
Na xucreza do meu canto,
Que no céu me guarde um Santo
Parceiro para o Mate Amargo. 

Cedo provei o Chimarrão. Via todo mundo sorvendo nas bombas de prata, via o topete da erva de um verde diferente dos outros porque a vida nela adormecera e esperava, e era como uma alusão misteriosa ao sabor que deveria subir lá de dentro da cuia. Via o mate correr entre homens e mulheres, entre os homens da casa da fazenda e no galpão, e pelos alpendres das manhãs acesas ou das tardes tristes, o mate obscuro das mulheres negras da cozinha nas tardes escuras de chuva, quando elas andavam silenciosas, descalças sobre os ladrilhos gastos, com a cuia na mão. (Reynaldo Moura – Romance no Rio Grande).

- Já o grande poeta Guilherme Shultz Filho, pinta o quadro poético que se emoldura:

Mate amargo! Que doçura!
Velha cuia de porongo!
Nesse teu feitio oblongo
Que parece um coração,
És toda uma tradição,
Todo um passado resumes!
Desde os singelos costumes
Do meu pago e minha gente
Velha cuia confidente!
Mate Amargo! CHIMARRÃO!

- O Amargo se expande na síntese de Aureliano de Figueiredo Pinto:

Com o porongo Africano
A bomba peninsular,
Erva do índio Americano
Três Continentes a dar
A sua contribuição
A democrata reunião
Fraterna que anima e puxa
E acende a veia Gaúcha
Nas charlas de um CHIMARRÃO.

- Eis que Valdomiro Sousa relembra um naco da nossa história:

Eis que a cuia me ensina:
Quando chegou Silva Paes,
Sepé entre os ervais
Tomava o seu chimarrão,
Feliz, na paisagem guasca.
Sepé que soberbo e ousado
Sucumbiu, despedaçado,
Por amor deste Rincão.

- E Hermelindo Cavalheiro ao mate amargo se aferra:

Chimarrão, vinho da terra
Onde na paz ou na guerra,
Seu apanágio é o valor,
Sempre foste para o gaúcho
Bebida simples sem luxo
Mas sem igual no sabor.

- O Grande cantor e compositor Lupicínio Rodrigues compôs:

Amigo boleie a perna,
Puxe o banco e vá sentando.
Descanse a palha na orelha,
E o crioulo, vá picando. 
Enquanto a chaleira chia, 
O Amargo vai cevando.

- E a poesia que imortalizou o Mate Amargo de Glaucus Saraiva:

CHIMARRÃO

Amargo doce que eu sorvo
Num beijo em lábios de prata.
Tens o perfume da mata
Molhada pelo sereno.
E a cuia, seio moreno,
Que passa de mão em mão
Traduz, no meu chimarrão,
Em sua simplicidade,
A velha hospitalidade
Da gente do meu rincão.

Glaucus Saraiva também ensina como encilhar um mate:

UM POEMA AO CHIMARRÃO 

Palmeio o velho porongo
derramo a erva com jeito
encosto a cuia no peito
batendo a erva pra um lado;
com os quatro dedos curvados
formo um topete bem feito.

Com um poquito de água morna
bem devagar despejado,
tenho o amargo ajeitado
que ponho a um canto pra inchar;
e espero a água esquentar
pitando o baio sovado.

A pava chiou no fogo.
Encho a cuia que promete;
a espuma se arremete
bem pra cima, borbulhando,
e acariciante, beijando,
branqueia todo o topete.

Agarro a bomba de prata,
tapo o bocal com o dedão,
calço o bojo bem no chão
da cuia e vou destapando
a bomba que vai chupando
um pouco de chimarrão.

Derramo outro pouco d'água
para aumentar o calor...
e o mate confortador
vou sorvendo em trago largo,
pois me saiu um amargo
despachado e roncador.

E do grande poeta Aureliano de Figueiredo Pinto nos brinda com esses maravilhosos versos:

CHIMARRÃO DA MADRUGADA

Não sei por que nesta noite
o sono velho sebruno
ergueu a clina e se foi!
E eu que arrelie ou me zangue.
Tenho olhos de ave da noite,
ouvidos de quero-quero
cordas de viola nos nervos
e uma secura no sangue.

Então, da marquesa salto
e vou direto ao galpão:
bato tição com tição
e a labareda clareia
os caibros do galpão alto.
Já a cuia bem enxaguada,
corto um cigarro daqueles
de reacender vinte vezes
num trote de quatro léguas
de uma chasqueira troteada.

E, quando a chaleira chia,
principio um chimarrão,
mais verde e mais topetudo
do que um mate de barão.
Me estabeleço num banco
pra gozar gole e fumaça,
pitando um naco de branco.
E entre tragada e golito
saludo mui despacito
cada recuerdo que passa.

É um gosto olhar os brasidos
E os luxos das labaredas
dançando rendas e sedas
para a ilusão dos sentidos.
E entre o amargo e a tragada
tranqueiam na madrugada
tantos recuerdos perdidos.

E o chimarrão macanudo
vai entrando pelo sangue!
Vai melhorando as macetas,
curando as juntas doridas
como água arisca de sanga
sobre loncas ressequidas.

O peito avoluma e arqueia
como cogote de potro.
E as ventas se abrem gulosas
por cheiro de madrugada.
- Potrilhos em disparada
num Setembro de alvoroto.

Ah! Sangue velho... Descubro
porque hoje estás de vigília:
- Dois séculos de Fronteiras.
de madrugadas campeiras,
de velhas guardas guerreiras
bombeando pampa e coxilha!

Por isso é que hoje não dormes!
Ouviste a voz de ancestrais:
-"O chimarrão principia”!
Alerta! O campo vigia!
Da meia-noite pra o dia
Um taura não dorme mais...

- O ato de tomar um mate é muito maior do que simplesmente ingerir uma bebida: É um ritual símbolo da cultura Gaúcha, uma tradição que une as pessoas.

Foste bebida selvagem
E hoje és tradição,
E só tu, meu chimarrão,
Que o gaúcho não despreza
Porque és o livro de reza
Que rezo junto ao fogão.
(Vitor Ramill)

continua… parte 2 (final)
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Vocabulário Gauchesco:

Alvoroto – Burburinho. Motim, revolta. O mesmo que alvoroço.
Bombeando – espionando, explorando, vigiando.
Brasidos – braseiros.
Charlas – conversas.
Charrua – Palavra que caracteriza os atuais habitantes do território outrora ocupado pela tribo Charrua, o que hoje equivale ao sul do Rio Grande do Sul e toda a República Oriental do Uruguai. Indivíduo que habita as regiões fronteiriças entre Brasil e Uruguai.
Chasqueira – diz-se do animal de trote duro.
China – Mulher guapa, valente. Tal gíria é muito utilizada em regiões da fronteira do estado do Rio Grande do Sul com o Uruguai.
Clina – O mesmo que "crina", pelagem comprida que fica no pescoço e/ou no rabo de animais como o cavalo.
Cogote – pescoço grosso.
Crioulo – cigarro de palha.
Despacito – devagar, vagarosamente.
Encilhar – colocar erva na cuia de chimarrão.
Guasca – correia, corda de couro cru. Tem sentido pejorativo também.
Lonca – couro fino do animal para costurar.
Macanudo – bom, poderoso.
Maceta – tornozelos inchados, dificuldade para andar.
Marquesa – espécie de cama muito larga.
Munício – gado de corte para alimentação dos soldados.
Pago – lugar em que nasceu.
Pava – chaleira.
Payador – quem escreve payada, que é uma forma de poesia improvisada vigente na Argentina, no Uruguai, no sul do Brasil e no Chile. É uma forma de repente em estrofes de 10 versos, de redondilha maior e rima ABBAACCDDC, com o acompanhamento de violão.
Porongo – 1. cuia de chimarrão. 2. Fruto não comestível, caracterizado por seu tamanho grande, formado por uma casca grossa e com sementes por dentro, sem polpa. Utilizado para confecção de cuias de chimarrão, berimbau (concha acústica), ou mesmo para fazer casas de passarinhos.
Recuerdos – lembranças, recordações.
Rincão – ponta de campo cercada de rios, matas.
Sanga – Pequeno riacho, córrego, com nascente própria e que geralmente deságua em rios ou lagos.
Sebruno – animal cavalar de pelo escuro.
Sepé – Sepé Tiaraju (1723 – 1756) foi um guerreiro indígena brasileiro, considerado santo popular e declarado "herói guarani missioneiro rio-grandense" por lei. Chefe indígena dos Sete Povos das Missões, liderou uma rebelião contra o Tratado de Madri.
Taquara – tipo de bambu.
Taura – individuo valente, destemido.


Fonte:
Texto enviado pelo autor.

domingo, 13 de outubro de 2019

Sebas Sundfeld (Visita Importante)


Caboclo de compleição franzina, gênio brando, barba rala no rosto cor de cobre, cabelo rente e grisalho, pitando cigarro de palha, seu Pedrinho passou a vida no trabalho rude do campo. Com a mulher, morava agora, de favor, numas terrinhas de onde tirava o seu sustento.

Rocinhas ralas de milho e de mandioca e um chiqueirinho ocupavam as proximidades do seu rancho de pau-a-pique, de três cômodos ligados por passagens sem porta. Apenas a do quarto exibia uma cortina amarrotada, na preocupação com olhares curiosos de algum
visitante inesperado. Sim, por que às vezes aparecia por lá alguém da fazenda.

Naquela manhã clara e quente, chegaram dois cavaleiros, moços da cidade em férias e a procura de aventuras por aquelas simplezas rurais. "Visita importante" matutou seu Pedrinho.

Recepcionou os desconhecidos com agrados na fala. Sabendo a que vinham, levou-os para dentro. Enxotou os frangos empoleirados nas cadeiras, para que os recém-chegados sentassem. Então serviu-lhes a bilha com água fresquinha da mina que brotava à sombra dos taquaruçus. Desajeitados, emborcaram a bilha. Saciaram a sede. E molharam a camisa. Mal humorados já iam se despedindo. Um cheiro adocicado que vinha da cozinha deteve a saída altiva dos jovens não habituados aos aromas da roça.

– É a Filoca ali no fogão, explicou o dono do rancho.

Disse e foi buscar uma panela de milho cozido, quentinho, fumegando. Colocou sobre a mesa e convidou respeitoso:

– Experimente, moço, pra vê cumo é bão. Com um pôco de sar fica mió ainda.

Os visitantes, de saída, voltaram olhares vertendo ironia. O comentário de um deles desprezou a generosidade do anfitrião roceiro.

– Nós não comemos milho cozido.

Desapontado, seu Pedrinho quis se desculpar. Sua resposta veio singela e apropriada:

- Intão me descurpe, moço, pruquê o mio cru os porco comero.

(Crônica vencedora no IV Concurso Literário "Cidade de Maringá")

Fonte:
Maria Eliana Palma (org.). Livreto dos vencedores: VII Concurso Literário “Cidade de Maringá”; II Concurso Literário “Maria Mariá”. Maringá/PR: Nova Criação, 2016.