segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Asas da Poesia * 145 *


Poema de
ANTONIO JURACI SIQUEIRA
Belém/PA

Meu canto

Meu canto aprendi com a água
bulindo na ribanceira
ao som do vento brincando
na copa da seringueira.

Aprendi a rimar com a chuva
no telhado a batucar,
com o urutau que ensaiava
canções à luz do luar.

Meu cantar é como a voz
do mar na areia quebrando
e o canto do rouxinol
quando a aurora vem raiando.

Meu canto escala montanhas,
vence dunas, soa no ar,
transpõe rios e florestas,
dança nas ondas do mar!
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Soneto de
OLIVALDO JÚNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Um rapaz, um homem só…

Nas esquinas do meu quarto,
um rapaz, um homem só,
guarda os versos que reparto
com alguém que vira pó.

Das porções com que me farto,
um rapaz, um homem só,
já não pensa mais no infarto
que faria alguém ter dó.

Sem ninguém que a vida inflame,
dobra esquinas da cidade
como peças de origami.

Já não quer ninguém que o chame
pela alcunha de "saudade",
mas que, ao vê-lo só, o ame.
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES

Desejos

Queria ser 
o seu “tudo” na vida...
o caminho a percorrer,
os perigos a enfrentar,
o amanhã por nascer,
o sorriso 
do seu olhar.

Queria 
ser o seu 
agora;
o seu melhor 
momento 
de felicidade
e encantamento...

Queria, 
ser também,
a sua, 
esperança.
A sua alegria,
a sua ilusão, 
e fantasia.

Queria, 
finalmente,
estar em seu coração...
ser seu momento
de reflexão
na calma tarde 
refletida lá fora.
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TROVA POPULAR

Passarinhos, meus amigos,
eu também sou vosso irmão:
vós tendes penas nas asas,
eu tenho-as no coração.
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Soneto de
CARMEN CINIRA
Rio de Janeiro/RJ (1902 – 1933)

Ser mulher

Ser mulher não é ter nas formas de escultura,
no traço do perfil, no corpo fascinante,
a beleza que, um dia, o tempo transfigura
e um olhar deslumbrado atrai a cada instante.

Ser mulher não é só ter a graça empolgante,
o feitiço absorvente, a lascívia e a ternura;
ser mulher não é ter na carne provocante
a volúpia infernal que arrasta e desfigura...

Ser mulher é ter na alma essa imortal beleza
de quem sabe pensar com toda a sutileza
e no próprio ideal rara virtude alcança...

É ter, simples e pura, os sentimentos francos,
E, ainda no fulgor dos seus cabelos brancos,
sonhar como mulher, sentir como criança!
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Poema de
JAQUELINE MACHADO
Cachoeira do Sul/RS

Quero abraçar o mundo

 Sou amiga da paz.
Mas paradoxalmente, sou barulhenta!
Penso demais...
E vou confessar um defeito:
sou um pouco controladora.
Quero abraçar o mundo e seus espaços,
impedir erros e sofrimentos.
Preciso aceitar que, na verdade,
não controlo nem meus sentimentos...
Ficar de bem comigo do jeito que sou, incontrolável...
Igual ao sopro do um vento...
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Soneto de
CÍCERO ACAIABA
Cambuquira/MG, 1925 – 2009, Varginha/MG

Minha sombra

Depois de te esperar inutilmente
na esquina desta rua abandonada,
eu volto mais sozinho e, lentamente,
marcam meus passos versos na calçada.

O coração, de súbito, se sente
liberto dessa angústia exasperada,
ao ver que minha sombra, obediente,
arrasta-se a meus pés, escravizada.

Ao menos, a que sempre me acompanha,
sombra fiel de tantas confidências,
mártir da mesma dor, do mesmo espinho,

ouve em silêncio minha voz estranha,
e vai beijando as longas reticências
das lágrimas que deixo no caminho.
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Poema de
ROBERTO PINHEIRO ACRUCHE
São Francisco de Itabapoana/RJ

Quando morre um poeta

“Quando morre um Poeta
Uma luz se apaga
Uma rima deixa de ser feita
Um trovador se cala.
-  O belo é menos escrito
Do jeito mais bonito
de externar a inspiração.”
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Soneto de
LINO VITTI
Piracicaba/SP (1920 – 2016)

Veleiro do amor

Coração - débil barco aventureiro -
pelo oceano do amor, toma cautela.
Pode surgir um vendaval traiçoeiro
que te arrebate e te estraçalhe a vela.

Perscruta o rumo. Sobre o mar inteiro
se prepare talvez árdua procela.
Busca horizontes claros, meu veleiro,
onde o sol brilha e o mar não se encapela.

Não te faças ao largo em demasia
que vem a noite horrenda e a treva zás
queira roubar-te a luz que te alumia.

E então sem rumo, sem farol, sem paz
quiçá não possas mais voltar um dia
à imensa praia que deixaste atrás.
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Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Santo Antonio do Monte/MG

Amora Doce

Ainda cora no céu de minha boca
Aquele gosto de nuvem do teu beijo
Mora em mim toda janela do teu rosto
Amora doce em calda de raios de lua
Ofuscando as ruas de neon da madrugada
Foi bom sentir-me horizonte ensolarado
Mas se quebrado o bandoneón do amor
Sob as sanhas do batom a dor é branda
A lágrima que corre é apenas vida que anda
Num eterno "quiereme, besame mucho"
Sussurrado em terno de linho branco
Manchado pelo vinho santo da paixão!
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Escada de Trovas de
FILEMON MARTINS
São Paulo/SP

Deus

NO TOPO:
"Quando chegam dissabores,
Vejo o céu todo estrelado,
Nos campos eu vejo flores,
E a Deus eu digo; obrigado"!
Carlos Ribeiro Rocha
(Ipupiara/BA, 1923 – 2011, Salvador/BA)

SUBINDO:
"E a Deus eu digo: obrigado"
ao ver a vida na serra,
o mundo fica encantado
com as belezas da Terra.

"Nos campos eu vejo flores"
iguais no mundo não há,
perfumadas são amores
que a Natureza me dá.

"Vejo o céu todo estrelado"
a nutrir os sonhos meus,
e eu fico mais deslumbrado
ante a beleza de Deus.

"Quando chegam dissabores"
que a própria vida me traz,
esqueço das minhas dores
e escrevo versos de paz.
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Hino de 
Rio Negro/PR

Na pequena capela da mata,
Nos caminhos dos Campos Gerais,
Tu nasceste, querida Rio Negro,
Da bravura dos seus ancestrais.
És da Mafra fiel companheira
E seguindo caminhos iguais
És imagem de felicidade
Desde os tempos dos Campos Gerais.

(Refrão)
Oh! Rio Negro, singela e formosa.
És a ternura de um botão de rosa.

Em teu seio, querida Rio Negro,
Vive um povo ordeiro e feliz
Que tem fé e amor ao trabalho
E a Deus agradece e bendiz
Pela glória dos teus fundadores,
Pela honra dos seus ancestrais,
Por teus feitos brilhantes na história
Nos caminhos dos campos gerais.

Na beleza da tua paisagem,
És um hino a fraternidade,
És ternura de um botão de rosa
A florir na fronteira da amizade.
Na pujança do bravo Rio Negro,
Na candura de um riso infantil,
És prelúdio de fé e esperança
No amanhã de um grandioso Brasil.
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Poema de
APOLÔNIA GASTALDI
Ibirama/SC

Palhaço

Já te desejei
Desesperadamente
Sem imaginar
Que num repente
Irias te afastar

Havia em tuas palavras
Um ar de eternidade
Que me fez
Acreditar.
Depois assim indiferente
Tudo se afogou
Morreu na correnteza
Daquele rio
Que era só beleza

E meus sonhos feneceram
Um por um
No regaço da tristeza
Na aurora que eu vi
Apenas nascer

E tu sumiste
Nem palavras tinhas
Eu fiquei
Na penumbra
No desespero de não ter

Sorrindo segues outro destino
Como um palhaço
Escondido pelas tintas
Que não deixam ver emoções

Escondido na mentira. 
Palhaço !
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

A leoa e a ursa

Caiu-lhe o filho na cilada
Que o mendaz caçador lhe veio ao bosque armar;
E pelo bosque andava, irada,
A mãe leoa a urrar — a urrar, a urrar, a urrar...

E a noite toda e todo o dia
Soltou berros cruéis, urros descomunais;
E não só ela não dormia,
Mas nem dormir deixava os outros animais.

Tamanho e tal berreiro a fera
Fazia, que fazia os bichos mais tremer;
Até que veio a ursa (que era
Comadre dela) em prol dos mais interceder.

«Comadre, disse, os inocentes
Que, famulenta e crua, estrangulando vai
A aguda serra de teus dentes,
Não têm eles também, acaso, mãe nem pai?

Têm. Entretanto, estes, pungidos,
Loucos por um desastre ao teu desastre igual,
Não vêm quebrar nossos ouvidos;
Não nos quebres tu, pois, com algazarra tal!

—  Eu, sem meu filho! Ai! que velhice
Sem ele arrastarei, com este fado atroz!»
Disse a leoa. E a ursa disse:
«Do teu fado, porém, que culpa temos nós?!

— É o destino que me odeia!...»
E quem no mesmo caso o mesmo não dirá,
Se dessa frase a boca cheia
De todo o mundo (diz o La Fontaine) está?…
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domingo, 18 de janeiro de 2026

Renato Benvindo Frata (Aos cães da minha rua)


O bom da minha rua é que nela não há cachorros vadios. Não!

Todos, mais de cem talvez, têm o que fazer à noite. E o fazem bem.

Latem!

Bem alto e claro com seus latidos estridentes, contínuos e repetitivos. Embora permaneçam no escuro, mal deitemos nossos corpos para dormir. Ou tentar fazê-lo.

Ladram para a lua, esteja na crescente, na nova, na cheia e na pequena minguante. Ela os fascina, incita a que cantem em coro como bêbados apaixonados à frente da janela escolhida. Ladram também para as estrelas que apontam aqui, ali, acolá, na infinidade ponteada no céu.

Entre a lua e as estrelas, ladram também para as sombras. Às sombras que o vento move – folhas, roupas estendidas – e às imóveis das paredes e postes, porque a noite para eles foi feita para latirem.

Com isso não se importam com os ouvidos alheios, nem com as necessidades de descanso tão comuns a quem trabalha. Para eles, os latidos são iguais, repetidos e constantes, até que o sol dê as caras. Depois dormem a sono solto!

Por que a maioria que é posta para fora por seus donos ladra à noite?

A ciência diz que por diversas razões: o medo, a ansiedade criada pela separação (passou o dia entre as pernas dos donos, circulando pela casa; ao escurecer, porém, é posto para fora – como cachorro.) Não é mesmo contraditório? Se o cão andou pela casa, buliu em objetos, adentrou quartos, salas, banheiro, não pode ter também na casa o seu canto?

Eles latem por tédio ou para alertar sobre barulhos e outros estímulos, como o escuro, o silêncio, as ventanias, as tempestades, a passagem de nuvens, de pessoas na rua que podem assustá-los. A ansiedade criada pela ausência dos donos, pelo incentivo de outros cachorros na mesma condição, pela busca por atenção, pelas dores por estresse e pela sensação de desprezo agravada pela condição imposta a eles é um fator importante.

Na verdade, os cães que permanecem abandonados pelos quintais à noite, ladram para se dizerem vivos! E chamam à atenção de quem têm por amigos, mas que dormem em placidez a despeito dos barulhos que fazem, e do incômodo que produzem.

Tente passar a noite no quintal e ao relento sob o vento gelado ou chuva, depois fale se não sentiu desejo de gritar. Eles o fazem latindo.

Simples, assim.
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Renato Benvindo Frata nasceu em Bauru/SP, radicou-se em Paranavaí/PR. Formado em Ciências Contábeis e Direito. Professor da rede pública, aposentado do magistério. Atua ainda, na área de Direito. Fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí, em 2007, tendo sido seu primeiro presidente. Acadêmico da Confraria Brasileira de Letras. Seus trabalhos literários são editados pelo Diário do Noroeste, de Paranavaí e pelos blogs:  Taturana e Cafécomkibe, além de compartilhá-los pela rede social. Possui diversos livros publicados, a maioria direcionada ao público infantil.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

sábado, 17 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 6, FINAL

texto por José Feldman

O QUE SÃO SÍLABAS POÉTICAS

Sílabas poéticas (ou métricas) são as unidades usadas para contar o ritmo de um verso na poesia. Nem sempre coincidem com as sílabas gramaticais da fala cotidiana — há regras específicas (como a elisão, a sinérese, a diérese e a contagem da última vogal) que alteram a contagem para que o verso caiba na métrica desejada.

A contagem mais comum em língua portuguesa é a contagem "ao ritmo", chamada de “contagem poética” ou “sílabas métricas”, que costuma seguir a regra do "mais-som" (conta-se do primeiro som até a última sílaba tônica do verso).

Em português, costuma-se usar a contagem por sílabas poéticas onde o verso termina em palavra oxítona, paroxítona ou proparoxítona e a regra de ajuste da última sílaba é:

- verso terminado em oxítona: conta-se +1 (algumas tradições consideram o verso com uma sílaba a menos; explico abaixo como ajustar);

- verso terminado em paroxítona: conta-se normalmente;

- verso terminado em proparoxítona: conta-se -1 (na prática raramente se usa).

Observação: há variações históricas e entre tradições; apresento a forma mais prática usada na análise de poesia em português.

Regras práticas essenciais (modo prático de contar)

1. Contagem básica (gramatical): 
conte as sílabas, como em fala natural, até a sílaba final do verso.

Ex.: “Minha alma canta” → mi-nha (1-2) al-ma (3-4) can-ta (5-6) →  6 sílabas gramaticais.

2. Enlace vocálico / elisão: 
quando uma palavra termina em vogal (ou ditongo) e a seguinte começa por vogal, costuma-se unir essas vogais em uma única sílaba poética.

A divisão das sílabas poéticas (escansão) do verso "Minha alma canta" resulta em 4 sílabas métricas, classificando-o como um verso tetrassílabo. 

A separação correta é:
Mi / nha al / ma / can//ta (antes do // é a última sílaba poética)

Sinalefa (Elisão): A sílaba "nha" de "Minha" se funde com a primeira sílaba de "alma" (al), pois a vogal final "a" de "Minha" é átona e encontra outra vogal no início da palavra seguinte, formando um único som poético (nha-al).

Última sílaba tônica: Na escansão, a contagem para obrigatoriamente na última sílaba tônica do verso. Na palavra "can-ta", a sílaba mais forte é "can" (a 4ª sílaba), portanto a sílaba final "ta" é descartada da contagem métrica.

3. Síncopa / sinérese: 
quando duas vogais de um hiato dentro de uma palavra se pronunciam como uma só sílaba poética.

Ex.: “saída” pode contar como 3 sílabas (sa-í-da) ou, por sinérese, sa-ída → dependendo do contexto métrico.

4. Diérese: 
inverso da sinérese — separa ditongos para aumentar sílabas poéticas (menos comum, mas usado por poetas para ajustar a métrica).

5. Acento final: 
na prática portuguesa e brasileira, a contagem termina na sílaba tônica do verso. A forma de ajuste final:

- versos oxítonos (terminam com palavra oxítona) muitas vezes resultam numa contagem de +1 em relação ao número de sílabas gramaticais;

- versos paroxítonos contam como o número de sílabas gramaticais; 

- versos proparoxítonos costumam reduzir 1 (na prática se evita, ou adapta-se).

Agora, exemplos aplicados aos tipos de soneto

Vou usar versos curtos e marcar a contagem poética ao lado. Para não complicar demais, simplifico a contagem por regra prática: conto as sílabas até a tônica final e aplico as elisões entre palavras.

1) Soneto Petrarquiano (italiano) — oitava (ABBA ABBA) + sextilha (ex.: CDE CDE)
- O soneto petrarquiano costuma empregar decassílabo (10 sílabas poéticas) ou endecasílabo (11) na tradição italiana adaptada ao português costuma-se usar decassílabo ou redondilhas maiores. 

Exemplo de verso de Camões:
"Amor é chama que arde sem cessar"  

Resulta em 10 sílabas métricas, classificando-o como um decassílabo. 

A separação correta é:

A / mor / é / cha / ma / que ar / de / sem / ces / sar

Sinalefa (Elisão): Ocorre a fusão de vogais entre palavras. No trecho "que ar-de", a sílaba "que" se une à sílaba inicial "ar" de "arde", formando um único som poético.

Última sílaba tônica: A contagem das sílabas poéticas termina obrigatoriamente na última sílaba tônica do verso. Como a palavra final é "ces-sar" (uma oxítona), a última sílaba tônica é "sar", que é contada como a 10ª sílaba.

Junção de sons: Diferente da gramática, a métrica poética baseia-se na sonoridade e no ritmo da leitura.

Exemplo simplificado (somente um verso para mostrar métrica):
"Oito versos no ar, cada qual a rimar" 

Resulta em 12 sílabas métricas, classificando-o como um dodecassílabo (ou verso alexandrino). 

A separação correta é:

Oi / to / ver / sos / no / ar / ca / da / qual / a / ri / mar

Hiato mantido: Entre as palavras "no" e "ar", a pronúncia natural geralmente mantém a separação dos sons vocálicos devido à tona de "ar", não ocorrendo a elisão (sinalefa).

Sinalefa (opcional conforme a dicção): Entre "qual" e "a", o som final de "qual" (com som de 'u') pode se fundir levemente ao "a", mas na métrica clássica para manter o ritmo dodecassílabo, conta-se cada unidade sonora distinta.

Última sílaba tônica: A contagem termina na sílaba tônica da última palavra. Como "ri-mar" é uma oxítona, a sílaba tônica é "mar", que encerra a contagem na 12ª posição. 

Este verso possui uma estrutura rítmica comum na poesia lusófona, com acentuações marcadas que conferem musicalidade, terminando em uma palavra oxítona que reforça a cadência do verso.

2) Soneto Shakespeariano (inglês) — na tradição em português costuma-se também usar decassílabos ou versos livres adaptados

- Nos sonetos em inglês originais as linhas eram geralmente iâmbicas pentâmetros (10 sílabas), mas em português adaptado usamos versos decassílabos ou endecasílabos para soar natural.

Exemplo adaptado em decassílabo:
"Nasce o riso e com ele morre a dor"  

A divisão das sílabas poéticas (escansão) do verso resulta em 10 sílabas métricas, classificando-o como um decassílabo. 

A separação correta é:
Nas / ce o / ri / so e / com / e / le / mor / re a / dor. 

Sinalefa (Elisão): Ocorre a junção de vogais entre palavras adjacentes quando a pronúncia flui em um único som.

ce-o (de "Nasce o") se funde em uma só sílaba poética.

so-e (de "riso e") se funde em uma só sílaba.

re-a (de "morre a") se funde em uma só sílaba.

Contagem até a última tônica: A contagem encerra na última sílaba tônica do verso, que neste caso é a própria palavra monossilábica "dor".

O ponto é que poetas portugueses adaptam a métrica para criar o ritmo equivalente ao iâmbico pentâmetro.

3) Soneto Clássico/Branco (ABAB CDCD EFEF GG — versão de 14 versos similares ao shakespeariano)

- Em português brasileiro, muitos sonetos clássicos usam decassílabos ou redondilhas maiores. Um decassílabo bem construído:

Verso exemplo endecassílabo (11 versos):
"Vou contar a lua como testemunha"  

 A separação correta é:
Vou / con / tar / a / lu / a / co / mo / tes / te / mu

Hiato mantido: No trecho "lu-a", as vogais não se fundem porque pertencem a sílabas tônicas ou distintas que mantêm a clareza da pronúncia na métrica deste verso.

Sinalefa (ausência): Não há junções por elisão (fusão de vogais) que alterem a contagem neste verso específico, pois as vogais terminais e iniciais adjacentes são pronunciadas distintamente no ritmo da frase.

Última sílaba tônica: A regra fundamental da escansão é contar apenas até a última sílaba tônica do verso. Na palavra "tes-te-mu-nha", a sílaba tônica é "mu" (a 10ª sílaba). A sílaba final "nha" (átona) é descartada da contagem poética.

4) Soneto Moderno (métrica variada)

- Aqui o poeta pode escolher versos de 8, 10, 11 sílabas, versos brancos ou versos livres. A sílaba poética serve para medir ritmo, mas o poeta pode deliberadamente variar para efeito.

Ex.: versos alternando 10/7/11 e assim por diante. O importante é que o leitor ou ouvinte perceba o ritmo desejado.

5) Exemplo com elisão (caso comum em português)

- Verso: "A vida e a morte caminham"  

Resulta em 8 sílabas métricas, classificando-o como um octossílabo. 

A separação correta é:
A / vi / da e a / mor / te / ca / mi / nham

Sinalefa (Elisão): Ocorre a fusão de três sons vocálicos em uma única sílaba poética: "da e a". A vogal final átona de "vida" se une às conjunções e artigos seguintes ("e a"), formando um único núcleo sonoro na leitura ritmada do verso.

Última sílaba tônica: A contagem das sílabas poéticas termina sempre na última sílaba tônica da última palavra. Na palavra "ca-mi-nham", a sílaba tônica é "mi", que é a 8ª sílaba. A sílaba final "nham" (átona) não entra na contagem métrica.

Resumo prático (em passos para contar sílabas poéticas)

1. Leia o verso em voz alta, natural, até a sílaba tônica final.  

2. Conte sílabas fonéticas até a sílaba tônica.  

3. Una vogais entre palavras (elisão) quando apropriado; aplique sinérese/diérese para ajustar interiormente.  

4. Considere o tipo de verso desejado (decassílabo, endecasílabo, redondilha) e aplique pequenos ajustes mantendo a naturalidade.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 5

texto por José Feldman

Sonetos Modernos (ou Contemporâneos)

A partir do final do século XIX e, principalmente, no século XX, com as vanguardas e o Modernismo, o soneto passou por um processo de flexibilização. A forma fixa foi mantida como referência, mas as "regras" tornaram-se sugestões.

Regras e Características

Métrica Livre: 
O verso livre (sem número fixo de sílabas) e o verso branco (sem rima) são comuns. A musicalidade e o ritmo vêm mais da cadência interna do poema do que da contagem silábica formal.

Estrutura Flexível: 
Embora a maioria mantenha as quatro estrofes (2 quartetos e 2 tercetos), a disposição visual pode variar, e a quebra da estrutura é um recurso estilístico.

Esquema de Rimas: 
As rimas podem ser abolidas (versos brancos), ou se tornarem imperfeitas, toantes e raras. A rima deixa de ser uma obrigação e passa a ser uma escolha.

Temática: 
Abre-se para o cotidiano, o coloquial, o político, o social, o humor e o intimismo. Tudo pode ser tema de um soneto moderno.

Linguagem Despojada: 
Uso de vocabulário comum, coloquialismos, neologismos e referências à cultura pop.

Exemplo de Soneto Moderno (Manuel Bandeira - Modernismo)
Manuel Bandeira frequentemente usava a forma do soneto, mas com uma leveza e uma métrica menos rígida, introduzindo um tom mais prosaico e melancólico.

Alta noite. Silêncio. Tudo dorme. (A)
Não há na casa luz, nem um ruído. (B)
Dorme a cidade, o campo, o céu dormido. (B)
E o meu amor, por que é que não dorme? (A)

Ah, se tu dormes, que o teu sono seja (C)
Feliz, sem sonhos, qual a água que corre (D)
Sob as estrelas, sem que a dor a torre. (D)
Mas se tu velas, que a saudade te veja (C)

Que a saudade te envolva em seu abraço forte, (E)
Que te leve a pensar em mim um instante, (F)
Que te fale do amor que vive em toda parte. (G)

E que me faças vir a ti, num feitiço, (H)
Para que a vida seja um só caniço (H)
De amor, de sonho, de ventura e arte. (G)

Neste exemplo, Bandeira utiliza versos livres ou de métrica irregular, e as rimas são mais frouxas e menos previsíveis do que no período clássico, focando mais na expressão do sentimento do que na perfeição formal.
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continua...

quinta-feira, 15 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 4

texto por José Feldman

Soneto Inglês ou Shakespeariano 

Desenvolvido na Inglaterra e amplamente utilizado por William Shakespeare, essa variação adapta a forma à prosódia da língua inglesa. 

Regras e Estrutura

Divisão: 
É composto por três quadras (quatro versos cada) e um dístico (dois versos finais rimados), totalizando 14 versos.

Métrica: 
Tradicionalmente usa o pentâmetro iâmbico (métrica comum na poesia inglesa, padrão rítmico na poesia com dez sílabas por verso, em cinco pares [iambos], onde cada par tem uma sílaba átona [fraca] seguida por uma sílaba tônica [forte]).

Esquema de Rimas: 
O esquema é rígido e segue o padrão ABAB CDCD EFEF GG. O dístico final é sempre rimado (rimas emparelhadas).

Volta (Virada): 
A "volta" dramática ou a resolução final ocorre, quase invariavelmente, no dístico final, que oferece uma conclusão, um comentário ou uma reviravolta aos 12 versos anteriores. 

Exemplo (William Shakespeare, Soneto 18, em tradução livre)
Esquema de rimas: ABAB CDCD EFEF GG.

Comparar-te a um dia de verão, ousarei? (A)
Mais amável e amena te conservas. (B)
Ventos fortes as flores de maio agitam; (A)
A duração do estio é sempre breve. (B)

Às vezes o sol brilha com excesso, (C)
E a dourada tez sua ofuscação padece; (D)
Toda beleza um dia decai do seu progresso, (C)
Por obra do acaso ou da natureza que a impede. (D)

Mas teu verão eterno não findará, (E)
Nem perderá a beleza que te é cara; (F)
Nem a Morte se gabará que a ti se chega, (E)
Pois em versos eternos, teu ser não para. (F)

Enquanto houver ar e olhos possam ver, (G)
Viverá este verso, e te fará viver. (G)

O soneto, com sua estrutura fixa de 14 versos, é uma forma poética que atravessou séculos, adaptando-se a diferentes épocas e sensibilidades. A distinção entre sonetos clássicos e modernos reside na rigidez das regras métricas e na liberdade temática e formal.
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continua…

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

José Feldman (Os calos das mãos)


Texto construído tendo por base a trova de Mara Melinni (Caicó/RN)
Meu senhor, por caridade,
não me julgue em atos vãos...
Trago a minha identidade
nos calos das minhas mãos.

Foi num dia quente, desses em que o sol parece querer derreter até as sombras, que o velho homem entrou na padaria. Trajava roupas simples, gastas pelo tempo e pelo trabalho. Seus sapatos, já sem brilho, guardavam histórias de longas caminhadas, e suas mãos... Ah, suas mãos eram um livro à parte. Grossas, calejadas, desenhadas por linhas que pareciam mapas de uma vida inteira de esforço.

Ele pediu um pão e um café, com voz baixa, quase um sussurro. O atendente, um jovem de rosto liso e mãos macias, o olhou como quem avalia uma mercadoria. Desconfiado, hesitou antes de atender o pedido, observando o homem com olhos que julgavam sem compreender. "Será que vai pagar?", parecia pensar. E ali, naquele instante, o velho sentiu o peso de um mundo que insiste em medir o valor das pessoas pelo que aparentam.

Quando o café chegou à mesa, o homem segurou a xícara com cuidado, como se segurasse algo precioso. O calor do líquido encontrou as marcas de décadas de trabalho, e por um momento ele se perdeu em pensamentos. Lembrou-se das enxadas que havia empunhado, dos sacos de cimento que carregara, dos dias começados antes do sol nascer. Cada calo era uma prova de sua história, uma assinatura invisível que o mundo parecia ignorar.

"Meu senhor, por caridade, não me julgue em atos vãos..." – ele murmurou baixinho, como se falasse para si mesmo. O jovem atrás do balcão lançou outro olhar, talvez arrependido de sua desconfiança inicial, talvez apenas curioso. O velho completou o pensamento em silêncio: "Trago a minha identidade nos calos das minhas mãos."

E não era verdade? Cada linha naquelas mãos era um testemunho de dignidade, um grito mudo contra o preconceito. Na sociedade dos rostos lisos e das aparências impecáveis, os calos eram vistos como sinais de fraqueza, quando, na verdade, eram medalhas de força.

O velho terminou seu café, deixou o dinheiro sobre a mesa e saiu. O jovem atendente o observou pela janela, agora com outro olhar. Talvez, naquele instante, tenha entendido que o valor de um homem não está na maciez de suas mãos, mas na história que elas carregam.

E assim o velho seguiu, com seus sapatos gastos e sua identidade bem marcada. Porque, no fim, são os calos que contam quem somos — não como fardos, mas como troféus que a vida nos dá por termos enfrentado a luta de existir.
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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Ordo Equitum Calami et Calicis (Dux Magnus), Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas".

Fontes:
José Feldman. Caleidoscópio da vida.
Imagem criada por Feldman com Microsoft Bing

Os Sonetos - Parte 3

                                   texto por José Feldman

Soneto Italiano ou Petrarquiano (Camoniano em Portugal) 

Originado na Itália, popularizado por Francesco Petrarca e adotado na língua portuguesa por Luís Vaz de Camões, este é o formato clássico mais conhecido. 


Regras e Estrutura

Divisão: 
É composto por duas quadras (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), totalizando 14 versos.

Métrica: 
Tradicionalmente usa versos decassílabos (dez sílabas poéticas).

Esquema de Rimas: 
Nas quadras, o esquema mais comum é o interpolado (ABBA ABBA), onde o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro. Nos tercetos, o esquema de rimas é mais flexível, sendo comuns as combinações CDE CDE ou CDC DCD.

Volta (Virada): 
A mudança de uma ideia ou perspectiva (a "volta" dramática) ocorre tipicamente na transição dos quartetos para os tercetos, ou no início do primeiro terceto. 

Exemplo (Luís Vaz de Camões)

Esquema de rimas: ABBA ABBA CDE DCE.

Amor é fogo que arde sem se ver; (A)
É ferida que dói, e não se sente; (B)
É um contentamento descontente; (B)
É dor que desatina sem doer; (A)

É um não querer mais que bem querer; (A)
É um andar solitário entre a gente; (B)
É nunca contentar-se de contente; (B)
É um cuidar que ganha em se perder; (A)

É querer estar preso por vontade; (C)
É servir a quem vence, o vencedor; (D)
É ter com quem nos mata lealdade. (E)

Mas como causar pode seu favor (D)
Nos corações humanos tanto dor, (D)
Se de si mesmo o contentamento pode? (E)
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continua...

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 2

texto por José Feldman

Os sonetos clássicos são a base da tradição, aderindo a normas estritas de estrutura, métrica e rima, estabelecidas por mestres como Petrarca, Camões e Shakespeare. Eles floresceram do Renascimento ao Simbolismo.

Métrica Rígida: 
O uso predominante do decassílabo (dez sílabas poéticas, especialmente o heroico) ou, em menor grau, do dodecassílabo (doze sílabas ou alexandrino) é obrigatório. A contagem silábica segue regras precisas de escansão.

Estrutura Fixa: 
A divisão em 14 versos é mantida, geralmente no formato italiano (ABBA ABBA CDE CDE) ou inglês (ABAB CDCD EFEF GG).

Esquema de Rimas: 
As rimas são ricas, precisas e seguem os padrões definidos para cada tipo (interpoladas, emparelhadas, alternadas).

Temática: 
Foca em temas universais e elevados: amor idealizado, a passagem do tempo (carpe diem), a natureza, a moralidade e a reflexão filosófica.

Linguagem Elevada: 
Utiliza um vocabulário formal, erudito e poético, evitando coloquialismos.

Exemplo de Soneto Clássico (Olavo Bilac - Parnasianismo)
Este exemplo de Olavo Bilac, um dos maiores sonetistas brasileiros do Parnasianismo, demonstra o rigor formal:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo (A)
Perdeste o senso e eu não te entendo. (B)
Mas, para que do entendo assim desperto, (A)
Pois que da vida a mágoa me sustento? (B)

Trocando em sonhos a miséria e o pranto, (C)
Alinho em ouro a estrofe, e em seda o canto, (C)
E o amor, que a dor suaviza e que a alma acalma, (D)
O céu com astros, o deserto com palmas. (D)

Se a gente foge, a dor a gente alcança... (E)
Não foge, não, que o mal a gente cansa. (E)
E a vida, enfim, é a sombra de um anseio... (F)

Que, ao ouvir estrelas, a alma do poeta (G)
Guarda a impassibilidade, e a dor secreta (G)
Transforma em rima a lágrima do seio. (F)

Nota: O esquema de rimas acima é uma variação (ABAB CCDD EEF GGF), mas a rigidez métrica (decassílabos) e a estrutura fixa em quartetos e tercetos são mantidas.
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continua...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guirlanda de Versos * 52 *

 

Os Sonetos

texto por José Feldman
ORIGENS DO SONETO

O soneto nasceu na Itália, mais precisamente na mente criativa de um poeta chamado Giacomo da Lentini, no século XIII. Nasceu o soneto, com suas 14 linhas que fazem qualquer um sentir a pressão de um exame de matemática!

Tipos de Sonetos

1. Soneto Clássico

Rima ABAB CDCD EFEF GG. 

É como um jogo de tabuleiro; você precisa seguir as regras. O clássico é excelente para os românticos e os que amam um bom drama. Pense em Shakespeare, que claramente sabia que as melhores tragédias vêm com rimas!

2. Soneto Italiano (ou Petrarquiano)

Aqui, temos a famosa divisão entre a oitava (ABBA ABBA) e a sextilha (CDECDE). 

É como uma conversa entre amigos que começa bem, mas acaba em desentendimento!

3. Soneto Inglês (ou Shakespeariano)

A estrutura é algo como ABAB CDCD EFEF GG, mas com um toque inglês, cheio de ironia e joguinhos de palavras. 

4. Soneto Moderno

Aqui, as coisas ficam mais soltas. Os poetas modernos podem quebrar as regras e até fazer um soneto de 11 linhas, se quiserem! É como se eles entrassem em um bar, olhassem para as longa e rígidas regras do soneto, e dissesse: "Hoje, vamos só divertir!"

Em resumo, o soneto é como aquele amigo que aparece em todas as festas: ele pode ser formal e polido, ou pode tirar a gravata e fazer piadas enquanto todos se perguntam: "Ele realmente está fazendo isso?" Seja qual for o tipo, o soneto sempre consegue encantar ou confundir (ou os dois) com seu charme e complexidade.
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continua:... 

Imagem criada por JFeldman com Microsoft Bing

A. A. de Assis (Irmão mundo)


Fico às vezes pensando que São Francisco de Assis poderia ter recebido, há 800 anos, o Nobel de Biologia. Ele foi provavelmente o primeiro a reconhecer que todos os seres somos parentes: Irmão Sol, Irmã Abelha, irmã Árvore, Irmão Passarinho... 

Tudo o que existe tem alguma coisa em comum. Esse é o mais fascinante de todos os mistérios. Até nas bactérias a ciência já encontrou vestígios de similitude com o ser humano. De certo modo, temos alguma afinidadezinha até mesmo com os minerais.

A natureza é obra do Amor; por isso, tudo nela é correto e bom. É ela que, em nome do Criador, estabelece e monitora as regras da vida. Uma dessas regras diz que nós, seres humanos, somos ao mesmo tempo beneficiários de tudo o que existe e prestadores de serviços a toda a Obra da Criação. Somos todos interdependentes.

Pelos serviços que nós,  seres humanos, recebemos uns dos outros,  pagamos uma remuneração monetária (salários, honorários, proventos etc.) ou retribuímos mediante a troca de favores. Pelos serviços que recebemos dos seres não humanos, pagamos na forma de cuidados. Por sermos portadores de um grau maior de inteligência, nossa responsabilidade é também maior, competindo-nos, portanto, o dever de zelar da melhor maneira possível pela natureza inteira.

Mas até que ponto podemos pôr os outros seres a nosso serviço? Até onde a consciência e o bom senso permitirem. Uti non abuti (use, não abuse). Podemos usar, sim, de tudo o que for necessário, todavia com moderação, respeito e amor.

Felizmente temos progredido bastante nesse campo, não só pelas novas leis de proteção ambiental, como principalmente pela maior conscientização das pessoas. Hoje pouca gente aceita ver animais servindo apenas como puxadores de carga, objetos de diversão, mercadoria de comércio. Menos ainda vê-los sofrendo chicotadas e outros maus-tratos. O tratamento digno e amoroso aos outros seres passou a ser um dos indicadores mais importantes quando se avalia o grau de civilização de um povo.    

No dia 4 de outubro, temos o dia de São Francisco de Assis. 

Se ele estivesse hoje entre nós, seria um incansável protetor dos animais. Seria um vigoroso apóstolo da natureza, pedindo aos povos que continuem prosperando, mas sujando menos o ar e as águas; que continuem produzindo alimentos, mas usando com mais prudência os agentes químicos; que continuem construindo o que for necessário, mas sacrificando menos os bosques e as florestas. 

Beijo-lhe as mãos, santinho querido. Mande uma bênção especial para o Irmão Mundo.     
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 02.10.2025)

Fonte:
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