domingo, 15 de fevereiro de 2026

Asas da Poesia * 154 *


Poema em Dupla de
SANDRA PERES 
LUIZ TATIT
São Paulo/SP

Gramática

O substantivo
É o substituto do conteúdo

O adjetivo
É a nossa impressão sobre quase tudo

O diminutivo
É o que aperta o mundo
E deixa miúdo

O imperativo
É o que aperta os outros e deixa mudo

Um homem de letras
Dizendo ideias
Sempre se inflama

Um homem de ideias
Nem usa letras
Faz ideograma

Se altera as letras
E esconde o nome
Faz anagrama

Mas se mostro o nome
Com poucas letras
É um telegrama

Nosso verbo ser
É uma identidade
Mas sem projeto

E se temos verbo
Com objeto
É bem mais direto

No entanto falta
Ter um sujeito
Pra ter afeto

Mas se é um sujeito
Que se sujeita
Ainda é objeto

Todo barbarismo
É o português
Que se repeliu

O neologismo
É uma palavra
Que não se ouviu.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
VILMAR DE ABREU LASSANCE
Niterói/RJ (1915 – 2009)

Descansa, coração

Ausentei-me do amor - vou descansar.
Tudo cansa, afina, até o amor...
Dei demais, de mim mesmo, sem pensar,
e, agora, vou parar, para recompor

meu pobre coração que, sem cessar,
levou anos e anos num furor
de paixões, num querer sem fim, sem par,
num paroxismo que atingia à dor.

Hoje, vou descansar - fechei a porta
à última ilusão,  já quase morta,
que pretendia penetrar-me o peito:

disse "não", ao amor que retornou.
Ao amor que se foi e, hoje, voltou,
eu disse, num soluço: - "Não te aceito!"
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
MANUEL ALEGRE
(Manuel Alegre de Melo Duarte)
Águeda/Portugal

Trovas do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova Popular

Olhos pretos matadores,
cara cheia de alegria,
um beijo na tua boca
me sustenta todo dia.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN

Lágrimas

Eu não sei o que tenho... Essa tristeza
Que um sorriso de amor nem mesmo aclara,
Parece vir de alguma fonte amara
Ou de um rio de dor na correnteza.

Minh' alma triste na agonia presa,
Não compreende esta ventura clara,
Essa harmonia maviosa e rara
Que ouve cantar além, pela devesa.

Eu não sei o que tenho... Esse martírio,
Essa saudade roxa como um lírio,
Pranto sem fim que dos meus olhos corre,

Ai, deve ser o trágico tormento,
O estertor prolongado, lento, lento,
Do último adeus de um coração que morre...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
REGINA MÉRCIA
(Regina Mércia Sene Soares)
Novo Horizonte/SP

Essa Felicidade?

Existe essa tal felicidade?
Essa pergunta faço com tristeza
Era só meu aquele amor
Não era a dois...
De repente a dor me surpreende
Por que um amor não correspondido?
Duvidas surgiram de que eu era...
Iludida, só o meu amor vivia
Sinto muita falta e sinto-me
Entregue aos medos e receios
Feliz fiquei ao perceber
Que estava amando...
Meu coração levava consigo
O aconchego de alguém...
Que havia chegado
Precipitando talvez o encontro
Com esse alguém que quisesse
Realmente me amar...
Só esperando o momento certo
Bem lá escondido no cantinho
Do coração cheio de desejo
Para nascer um grande amor…
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
JACINTO DE CAMPOS
Canavieiras/BA (1900 – ????) Rio de Janeiro/RJ

As duas palmeiras

Quando passo buscando a humana lida,
A alma tecida de ilusões tão várias,
Junto à velha choupana carcomida
Vejo duas palmeiras solitárias.

Uma já morta, outra reverdecida,
Num desmancho de palmas funerárias,
E ao som da harpa do vento a que tem vida,
Saudosa plange salmodias e árias.

— Ó tu, que me olvidaste no caminho,
Meu coração deixando como um ninho,
Sozinho e triste, ao vento balouçando...

A saudade me diz, como em segredo:
Que és a palmeira que morreu bem cedo,
E eu sou aquela que ficou chorando.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Quadrão à Beira Mar de
NEZITE ALENCAR
Distrito de Quixariú/Campos Sales/CE

Pelo mar, entre os abrolhos,
Lembro o verde dos seus olhos,
As lágrimas me descem aos molhos,
Pois é grande o meu penar:
Um dia um barco ligeiro
Levou meu amor primeiro
Vestido de marinheiro
No quadrão à beira mar.
“Beira mar, beira mar,
O quadrão só é bonito
Quando é feito à beira mar”.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
OLEGÁRIO MARIANO
(Olegário Mariano Carneiro da Cunha)
Recife/PE (1889 – 1858) Rio de Janeiro/RJ

O meu retrato

Sou magro, sou comprido, sou bizarro,
Tendo muito de orgulho e de altivez.
Trago a pender dos lábios um cigarro,
Misto de fumo turco e fumo inglês.

Tenho a cara raspada e cor de barro.
Sou talvez meio excêntrico, talvez.
De quando em quando da memória varro
A saudade de alguém que assim me fez.

Amo os cães, amo os pássaros e as flores.
Cultivo a tradição da minha raça
Golpeada de aventuras e de amores.

E assim vivo, desatinado e a esmo.
As poucas sensações da vida escassa
São sensações que nascem de mim mesmo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
SIMONE BORBA PINHEIRO
Dom Pedrito/RS

Brincando de ser mulher

Brincando de ser mulher,
aquela mulher-menina
sem saber bem o que quer,
segue a sua triste sina...

Á quem pagar o seu preço,
ela cede os seus favores.
Pobre mulher-menina,
desgraçados os senhores.

De shortinho bem curtinho
na esquina a caminhar,
acena a pobre menina
para quem de carro parar.

Mal sabe a pobre menina
que o tempo vai passar,
e um dia, sem que perceba,
se a doença não lhe pegar,
nas mãos de algum cretino,
a morte vai encontrar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Pantun de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Pantun de elevada prece

TEMA:
Na aurora de cada dia,
a Deus elevo uma prece;
- Pai, enchei de poesia
nosso povo que padece!
Joamir Medeiros 
Natal/RN

PANTUN:
A Deus elevo uma prece;
ó Pai, salvai por favor,
nosso povo que padece
por falta de pão, de amor,

Ó Pai, salvai por favor,
os excluídos do afeto,
por falta de pão, de amor,
vivem sem lar e sem teto.

Os excluídos do afeto,
não têm voz, nem têm razão,
vivem sem lar e sem teto
ante a cruel exclusão.

Não têm voz, nem têm razão,
por berço, a melancolia,
ante a cruel exclusão
na aurora de cada dia.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
Dourados/MS

Sob um céu de alvorada fagueira,
Surge a terra de amor e afeto;
Eis Dourados, vibrante, altaneira,
Nosso berço, rincão predileto.

Sob um céu de alvorada fagueira,
Surge a terra de amor e afeto;
Eis Dourados, altaneira,
Nosso berço, predileto.
Eis Dourados, altaneira,
Nosso berço, predileto.

Estribilho: (2 vezes)
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
No futuro confiante
Lindo Oásis do Brasil.
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
Joia brilhante - do Brasil

Seu passado vai longe com glória
Da esperança foi sempre uma flor,
O seu nome desponta na história
Com beleza, com paz e amor!

Seu passado vai longe com glória
Da esperança foi sempre uma flor,
O seu nome, na história
Com beleza - Paz e amor!
O seu nome, na história
Com beleza - Paz e amor!

Estribilho: (2 vezes)
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
No futuro confiante
Lindo Oásis do Brasil.
Eis Dourados cintilante
De labor e anseios mil
Joia brilhante - do Brasil
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
JOSÉ CARLOS DE VASCONCELOS
(José Carlos Torres Matos de Vasconcelos)
Paços de Ferreira/Portugal

Os Versos Guardados

Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

como lençóis de seda fina
ou anel de noivado

como guarda o pobre
as migalhas que não come

como guarda a menina
a boneca antiga

Tímido previdente avaro
guardei os versos
ano após ano

pelo tempo fora
o tempo todo

caminhando descalço
sobre um rio
de lume

ou lodo
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O Sol e o Vento

Entraram em contenda o Sol e o Vento
Sobre qual tem mais força, mais alento.
Passava nesse tempo um caminhante,
Assentaram que havia ser triunfante
O que tivesse forças, que lhe bote
Dos ombros para fora o seu capote.

Fez o Vento tal força, que mostrava
Que já por esses ares lhe levava,
Mas o dono às mãos ambas o sustenta;
Porém foi tal a força da tormenta,
Que ele já de sustê-lo desanima,
E, enrolando-se bem, deitou-se em cima.
O Vento andou de roda, deu-lhe um jeito,
Deu-lhe outro; porém tudo sem efeito.

Entrou na empresa o Sol, mas sem violência,
Antes com mansidão e com clemência:
No meio de uma tal serenidade
Os raios tinham tanta atividade
Que já os não sofria o passageiro.
Chegou-se a um sombrio castanheiro,
O capote depôs, que o martiriza,
A veste, e fica em mangas de camisa:
Com assombro do Vento furioso,
Ficou por manso o Sol vitorioso.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 

Hans Christian Andersen (A mala encantada)


Era uma vez um mercador tão rico que poderia calçar a rua inteira com ouro, e ainda lhe sobraria para uma travessa. Mas ele não fez nada disso não! Ele sabia como havia de empregar o dinheiro com melhores resultados: quando gastava dez øre
(equivale aos centavos), ganhava no negócio uma coroa (moeda dinamarquesa), de tão atilado negociante que era. Mas um dia morreu.

Ficou todo o dinheiro para o filho, que resolveu viver à larga, indo às festas todas as noites, e desperdiçando a fortuna de mil modos: fazia pandorgas de notas de banco, e brincava n praia, atirando pedaços de notas do banco, e brincando na praia, atirando pedaços de ouro aos patos e gansos, em vez de atirar pedrinhas. Com tal sistema, o dinheiro não podia durar muito, e não durou mesmo. Chegou o dia em que nada mais tinha de seu, a não ser quatro coroas; de roupas, só lhe ficou um roupão velho e um par de chinelos. Ora, os amigos não se importavam mais com ele. Visto que, com aqueles trajes, não podiam mais andar em sua companhia; mas um deles, que tinha bom coração, mandou-lhe uma mala velha, com este bilhete: " Para guardares as tuas coisas"

Foi muito bonito esse gesto; mas o rapaz não tinha nada para guardar, e resolveu meter-se dentro da mala. 

Ora, a mala era uma mala extraordinária: quando a gente apertava a fechadura, ela saía voando. E ele apertou a fechadura, e - zzzz! ...lá se foi a mala voando, com ele dentro, acima das chaminés, acima das nuvens, e mais longe, e mais longe! De vez em quando o fundo da mala estalava, e ele estava com muito medo de que ela se despedaçasse, porque então - oh! que tombo levaria! Por fim chegou à terra dos turcos. Escondeu a mala no mato, cobriu-a com folhas secas, e foi para a cidade. Não era nada de admirar que andasse naqueles trajes: todos os turcos andam vestidos assim, de roupão e chinelos.

Encontrou uma ama com um nenê, e perguntou-lhe:

- Escuta, ama! Que castelo tão grande é aquele, perto da cidade, com as janelas tão altas?

- Naquele castelo mora a filha do sultão. Profetizaram que ela há de ser muito infeliz por causa de um namorado, por isso ninguém pode visitá-la, a não ser em companhia do sultão e da sultana.

O filho do mercador, depois de lhe agradecer a informação, voltou à mata, meteu-se na mala e voou para o teto . Depois foi carregando, e entrou no quarto da princesa pela janela.

Estava a moça dormindo no sofá, era tão bela que ele não pode resistir ao desejo de beijá-la. Acordou a princesa, e ficou muito assustada, mas ele lhe disse que era um profeta dos turcos que descera do céu para vê-la - o que muito a lisonjeou.

O filho do mercador sentou-se ao lado dela, e contou-lhe histórias; falou-lhe dos seus olhos: disse-lhe que eram lagos escuros e profundos - e os mais lindos que já vira, e que os pensamentos dela ali flutuavam, como sereias. E falou-lhe de sua fronte, que era uma montanha de neve, adornada das mais belas pinturas. Contou-lhe também que as cegonhas trazem das profundezas dos rios as criancinhas mais lindas. Contou-lhe, enfim, tantas e tantas histórias! E cada qual mais linda… Sim: eram lindas, aquelas histórias! No fim perguntou-lhe se ela queria se casar com ele; e a princesa respondeu imediatamente:

- Sim. Mas tens de vir aqui no sábado. O sultão e a sultana virão tomar chá comigo, e ficarão muito orgulhosos, quando souberem que vou casar com um profeta. Mas terás de contar uma história muito bonita, porque meus pais gostam muito de contos. Minha mãe gosta mais das histórias sérias, e cheias de moral, mas meu pai aprecia as que o fazem rir.

- Pois bem: meu presente de noivado será então uma história!

Antes de se separarem, deu-lhe a princesa um sabre, cuja bainha era toda cravejada de moedas de ouro, presente de grande utilidade para o filho do mercador.

Foi-se o noivo, voando; comprou um roupão novo e sentou-se na mata, para preparar uma história. Tinha de contá-la no sábado, e não era lá tarefa muito fácil!

Quando chegou ao remate dela era já sábado. O sultão, sua mulher e toda a corte estavam no palácio, para tomar chá com a princesa. E ele foi recebido com muita gentileza.

- Quer o senhor ter a bondade de nos contar uma história? - perguntou a sultana. - Uma história edificante e de conceitos profundos.

- Sim - aprovou o filho do mercador - e com muito prazer.

E começou.

" Era uma vez um maço de fósforos, cheios de orgulho de sua alta linhagem. Sua árvore genealógica - quero dizer, o grande pinheiro, de que eram lascas pequeninas - fora de fato um gigante da floresta. Os fósforos ali estavam agora, em uma prateleira da cozinha, entre um isqueiro e um velho caldeirão de ferro. E conversavam, falando da mocidade.

“- Sim - diziam eles - quando nós éramos uma árvore viva - porque já fomos um galho verde! - tomávamos todos os dias, de manhã e à noitinha, chá de diamantes, isto é, de gotas de orvalho. Todo o dia o sol brilhava para nós, e todos os passarinhos da mata nos contavam histórias. Via-se logo que éramos muito ricos, porque as outras árvores só se vestiam no verão, ao passo que a nossa família tinha recursos suficientes para usar também no inverno trajes verdes. Um dia apareceram os cortadores; houve uma revolução, e a nossa família foi toda dispersada. O chefe da tribo obteve um lugar de mastro grande em um esplêndido navio, que podia fazer a volta do mundo, se quisesse; os outros ramos foram para lugares diferentes, e tocou-nos a incumbência de produzir luz para pessoas vulgares. E aí está explicado como foi que, apesar de toda a nossa aristocracia, viemos parar na cozinha!

“- Meu destino foi diferente - disse o caldeirão de ferro, que estava perto dos fósforos. - Desde o princípio, desde que vim ao mundo, meu tempo se passa sempre do mesmo modo: ou estou sendo esfregado, ou estou fervendo. É que procuro sempre a parte prática, e sou de fato a pessoa mais importante da casa. Meu maior prazer é, depois do jantar, ver-me sentado na prateleira, bem areado, bem lustroso; dou então dois dedos de conversa com meu vizinhos: mas, a não ser o balde d'água, que de vez em quando desce ao pátio, todos nós aqui vivemos sempre de portas a dentro. O único noveleiro é o cesto do mercado; mas esse fala muito mal do governo, e de todo o mundo. Sim! Um dia destes uma panela velha caiu, de puro susto, e ficou em cacos. Ela era liberal, com toda a certeza! Nisto o isqueiro o interrompeu:

“- Já estás falando demais!

“E o aço tiniu  na pederneira, e voaram faíscas. Mas o isqueiro continuou a falar:

“- Não poderíamos ter uma reunião mais alegre? 

“- Sim, sim! - disseram logo os fósforos. - Vamos ver quem é aqui que pertence à família mais aristocrática!

“- Não; eu não gosto de falar de mim - disse uma panelinha de barro. Vamos antes organizar um serão divertido! Eu começo: contarei uma história da vida real; falarei de coisas que todos nós já experimentamos, e serão por isso mesmo mais fáceis de compreender. Isso sim, é coisa de que todos gostam. Vou começar: No Mar Báltico, perto da costa dinamarquesa...

“- Que lindo começo! - exclamaram os pratos. - Todos nós vamos gostar dessa história!

“- Sim, isso aconteceu na minha mocidade, quando eu morava com uma família muito sossegada; os móveis eram encerados, o soalho esfregado e as cortinas mudadas de quinze em quinze dias.

“- Que boa contadora de histórias! - disse a vassoura. - Logo se vê que é uma mulher quem está contando: destila limpeza!

“- Sim, sente-se isso -  disse o balde.

“E, de pura alegria, deu um salto, que retiniu no soalho. A panelinha continuou a sua história, cujo fim era quase igual ao começo. Todos os pratos batiam palmas de alegria, e a vassoura coroou a panelinha: foi procurar um ramo de salsa murcha e veio depositá-lo, como se fosse uma coroa, na panelinha - porque sabia que com isso enraivecia os outros. E pensava lá consigo: –    Assim ela também me coroará amanhã!

“- Agora vou dançar! - disse a tenaz.

“Valha-me Deus! Como erguia a perna! A almofada velha chegou a cair da cadeira, quando viu aquilo. E a tenaz pensava, enquanto ia dançando:
 
“- Serei também coroada?

 “E, de fato, concederam-lhe uma coroa.

“Mas os fósforos pensavam:

“- Afinal todos eles são gente da plebe!
 
“Agora o bule de chá devia cantar, mas declarou que estava resfriado. Pura desculpa! É que ele não queria cantar, senão quando se via na mesa da sala de visitas.

“No peitoril da janela havia uma velha pena de pato, com que a criada costumava escrever. Não tinha nada de notável, a não ser o fato de ter sido mergulhada muito fundo no tinteiro, mas a pena até se sentia orgulhosa disso. E ela então falou:

“- Se o bule de chá se faz de rogado, não importa. Ali fora está pendurada uma gaiola com um rouxinol, e ele pode cantar. Não aprendeu nada de especial, é claro, mas nós hoje não vamos ser muito exigentes, não é?

“- Pois eu acho isso muito mal feito - acudiu a  chaleira, que era  a cantadeira da cozinha, e meia irmã do bule de chá. - Cantar aqui, aquele passarinho rico e de mais a mais estrangeiro! Então isso é patriótico? Vamos ouvir a opinião de cesto de mercado.

“- Estou muito aborrecido - disse ele. - Ninguém pode imaginar como estou aborrecido! Pois então isso é maneira de se passar um serão? Não seria muito mais acertado por a casa em ordem? Vamos ! Que cada um vá para o seu lugar, e eu dirigirei o jogo. E vão ver como vai se diferente!

“- Sim, Sim! - gritaram todos. - Vamos fazer uma fila! 

“Naquele instante abriu-se a porta e entrou a criada, ficaram todos quietos, ninguém piou! Naquele silêncio, não havia uma só panela que não estivesse certa de sua capacidade, e não se reconhecesse com a pessoa de mais espírito entre todas as do grupo. E cada um pensava lá consigo: – Se fosse por mim, teríamos tido uma reunião muito divertida!

“A criada riscou um fósforo: Misericórdia! Como estalava! Como ardeu a chama! E o fósforo pensava: - Ah! Agora todos estão vendo  que somos nós os primeiros! Como eu brilho! Que luz espalho!"...

“E apagou-se!"

 - Que história esplêndida! - disse a sultana.- Eu me senti transportada para a cozinha, para junto dos fósforos! Agora tu casarás com a nossa filha!

- Certamente! - disse o sultão. - Tu casarás com ela na segunda -feira!

Já lhe diziam tu, porque ele ia pertencer à família.

Ficou assim resolvido ali o casamento, e na véspera a cidade foi toda iluminada: atiravam à rua, para que o povo os apanhasse, biscoitos e bolos, os moleques punham-se nas pontas dos pés, e gritavam: " Viva! Viva!" e assobiavam nos dedos. Foi um esplendor fora do comum.

- Acho que também devo fazer alguma coisa - pensou o filho do mercador.

Comprou uma boa porção de foguetes, busca-pés, e toda a espécie de fogos de artifício, meteu tudo na mala e saiu voando pelos ares.

" Crrraaac!" Como voava tudo aquilo! E como se acabava depressa!

Os turcos davam saltos, àquela visão, e suas chinelas voavam a grande altura. Nunca tinham visto uma nuvem de meteoros assim! Viam agora, sem sombra de dúvida, que era mesmo um profeta o que ia casar com a princesa!

Assim que o filho do mercador se achou de novo no mato com a sua mala, pensou:

- Vou até a cidade, para ouvir o que lá dizem do espetáculo.

Era um desejo muito razoável, aquele. Mas que histórias o povo contava! Cada uma das pessoas com quem falou tinha ideia diferente, mas todos eram, em um ponto, de um só parecer: o espetáculo fora esplêndido!

- Eu vi o próprio profeta - dizia um. - Seus olhos brilhavam como estrelas, e a barba parecia um nevoeiro!

- Ele estava envolto em um manto de chamas - dizia outro. - Entre as dobras do seu manto espiavam cabecinhas de anjos, o que há de mais lindo no mundo!

Assim foi que o filho do mercador só ouviu louvores e coisas agradáveis, e no dia seguinte ia casar. Voltou para a mata, com a ideia de descansar dentro da mala; mas - que fora feito dela? Uma faísca dos fogos de artifício a incendiara, e mala ficou reduzida a cinzas. e agora ele não podia mais voar, nem mesmo para ir buscar a noiva!

E lá ficou a princesa o dia inteiro, sentada no teto, esperando. E ainda lá está, à espera do noivo, que anda a esta hora correndo mundo, a contar histórias de fadas.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Hans Christian Andersen foi um escritor dinamarquês, autor de famosos contos infantis. Nasceu em Odense/Dinamarca, em 1805. Era filho de um humilde sapateiro gravemente doente morrendo quando tinha 11 anos. Quando sua mãe se casou novamente, Hans se sentiu abandonado. Sabia ler e escrever e começou a criar histórias curtas e pequenas peças teatrais. Com uma carta de recomendação e algumas moedas, seguiu para Copenhague disposto a fazer carreira no teatro. Durante seis anos, Hans Christian Andersen frequentou a Escola de Slagelse com uma bolsa de estudos. Com 22 anos terminou os estudos. Para sair de uma crise financeira escreveu algumas histórias infantis baseadas no folclore dinamarquês. Pela primeira vez os contos fizeram sucesso. Conseguiu publicar dois livros. Em 1833, estando na Itália, escreveu “O Improvisador”, seu primeiro romance de sucesso. Entre os anos de 1835 e 1842, o escritor publicou seis volumes de contos infantis. Suas primeiras quatro histórias foram publicadas em "Contos de Fadas e Histórias (1835). Em suas histórias buscava sempre passar os padrões de comportamento que deveriam ser seguidos pela sociedade. O comportamento autobiográfico apresenta-se em muitas de suas histórias, como em “O Patinho Feio” e “O Soldadinho de Chumbo”, embora todas sejam sobre problemas humanos universais. Até 1872, Andersen havia escrito um total de 168 contos infantis e conquistou imensa fama. Hans Christian Andersen mostrava muitas vezes o confronto entre o forte e o fraco, o bonito e o feio etc. A história da infância triste do "Patinho Feio" foi o seu tema mais famoso - e talvez o mais bonito - dos contos criados pelo escritor. Um dos livros de grande sucesso de Hans Christian Andersen foi a "Pequena Sereia", uma estátua da pequena sereia de Andersen, esculpida em 1913 e colocada junto ao porto de Copenhague/ Dinamarca, é hoje o símbolo da cidade. Quando regressou ao seu país, com 70 anos de idade, Andersen estava carregado de glórias e sua chegada foi festejada por toda a Dinamarca. Após uma vida de luta contra a solidão, Andersen logo se viu cercado de amigos. Faleceu em Copenhague, Dinamarca, em 1865. Devido a importância de Andersen para a literatura infantil, o dia 2 de abril - data de seu nascimento - é comemorado o Dia Internacional do Livro Infanto-juvenil. Muitas das obras de Andersen foram adaptadas para a TV e para o cinema.

Fontes:
Hans Christian Andersen. Contos. Publicados originalmente em 1859. Disponível em Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Dicas de Escrita (Como Escrever Sobre uma Cidade Fictícia) Parte 1

Coescrito por Stephanie Wong Ken, MFA*

Escrever sobre uma cidade fictícia é um desafio bastante divertido. As cidades reais são povoadas por pessoas reais e, para criar uma cidade fictícia e usá-la em uma história, é preciso despertar sua imaginação e se concentrar em todos os detalhes para dar vida à ela e à população dela.

Parte 1 – Analisando exemplos de cidades fictícias

1 – Leia diversos exemplos de cidades fictícias para ter uma ideia melhor de como começar. 

As cidades das histórias normalmente são essenciais para o mundo onde um livro se passa, complementando ou reforçando as características dos personagens e dos eventos ocorridos. Alguns exemplos incluem:

- A cidade de Basin City, ou Sin City, em Sin City, de Frank Miller.
- A cidade de Porto Real em A Guerra dos Tronos de George R. Martin.
- A cidade de Oz (A Cidade Esmeralda) em O Mágico de Oz de Frank Baum.
- A cidade do Condado em O Hobbit de J.R.R. Tolkien.

2 – Analise os exemplos. 

Após ler um pouco sobre as cidades fictícias acima — e outras —, pare e pense um pouco sobre o que as torna tão bem escritas. Assim, você terá uma ideia melhor de como escrever sobre sua própria cidade.

- A maioria das cidades fictícias é descrita com o desenho de um mapa pelo autor do livro ou por um ilustrador contratado por ele. Analise os mapas das cidades fictícias e observe os níveis de detalhes deles. Por exemplo, o mapa do livro O Hobbit inclui os nomes dos lugares na linguagem do livro e também apresenta os nomes de marcos e estruturas na região fictícia.

– Observe os nomes das áreas ou ruas. Os nomes escolhidos pelo autor podem ter uma enorme importância, pois simbolizam alguns aspectos do mundo do livro. Por exemplo, o nome "Sin City" nas graphic novels de Frank Miller indica que a área é conhecida pelos habitantes pecadores — o subtítulo "Cidade do Pecado" foi utilizado em algumas das publicações para tornar isso mais claro para os leitores brasileiros sem conhecimento de inglês. O nome informa o leitor sobre a região e o que esperar os personagens.

–  Veja como o autor descreve a cidade. 

Ele a caracteriza através de determinadas descrições? Em A Guerra dos Tronos, por exemplo, George R. Martin descreve o Porto Real como sujo e fedorento, mas diz que também é a cidade que abriga o trono. A descrição cria um contraste interessante para o leitor.

3, Conheça os prós e os contras de se criar uma cidade fictícia em vez de usar uma real. 

– Por mais que pareça mais fácil localizar a história em um local real, ao construir sua cidade, você pode usar a imaginação e entrar de cabeça no mundo fictício. Os personagens precisam de lugares para trabalhar e interagir, certo? Ao criar a cidade, você pode juntar elementos de diversas áreas do mundo real.

– Você ainda pode utilizar os elementos que desejar de cidades reais que conhece bem, como sua cidade natal, sob um novo ponto de vista. Se tem familiaridade com uma área específica do mundo real, use o que conhece e mude levemente a situação para criar um mundo fictício.

– Criar uma cidade fictícia também melhorará a qualidade da escrita: quanto mais crível for a cidade no livro, mais crível será o mundo do livro para o leitores. Criar um ambiente convincente fortalecerá também os personagens da história, pois ela ajuda a explicar as ações dos personagens e a colocá-los sob uma nova perspectiva.

– Experimente basear a cidade fictícia em um exemplo real. Outra opção é usar uma cidade que conhece bem e adicionar elementos fictícios a ela. Uma das vantagens disto é utilizar os conhecimentos que tem como modelo para os elementos fictícios que deseja explorar no livro. Você também pode pegar marcos físicos ou áreas da cidade e mudá-los de acordo com a imaginação. Assim, a cidade fictícia parecerá mais real.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
continua… 
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
* Stephanie Wong Ken é uma escritora que mora no Canadá. Seus textos já foram publicados por Joyland, Catapult, Pithead Chapel, Cosmonaut's Avenue e outras publicações. Possui um Mestrado em Ficção e Escrita Criativa pela Portland State University.

Fontes:
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing   

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Cristina Peri Rossi (Poemas Avulsos)


DEDICATÓRIA

A literatura nos separou: 
tudo o que eu sabia sobre você
aprendi nos livros
e o que faltava,
coloquei em palavras. 
= = = = = = = = = = = = 

A PAIXÃO

Emergimos do amor
como de um acidente de avião
Tínhamos perdido nossas roupas
nossos documentos
a mim faltava um dente
e a você, sua noção de tempo
Foi um ano tão longo quanto um século
ou um século tão curto quanto um dia?

Através dos móveis
pela casa
destroços quebrados:
copos, fotos, livros com páginas rasgadas
Éramos os sobreviventes
de um deslizamento de terra
de um vulcão
das águas furiosas
e nos despedimos com a vaga sensação
de termos sobrevivido
embora não soubéssemos por quê.
= = = = = = = = = = = = 

AS PALAVRAS SÃO ESPECTROS...

As palavras são espectros,
pedras abracadabra
que rompem os selos
da memória ancestral

E os poetas celebram a festa
da linguagem
sob o peso da invocação

Poetas acendem as fogueiras
que iluminam os rostos eternos
de antigos ídolos

Quando os selos se rompem,
o homem descobre
o rastro de seus ancestrais

O futuro é a sombra do passado
nas brasas vermelhas de um fogo
que veio de longe,
de sabe-se lá onde.
= = = = = = = = = = = = 

EU NÃO QUERIA QUE CHOVESSE

Eu não queria que chovesse,
eu juro,
que chovesse nesta cidade
sem você,
e ouvir o som da água
caindo,
e pensar que onde você está morando
sem mim,
está chovendo na mesma cidade.

Talvez seu cabelo esteja molhado,
seu telefone à mão
que você não usa
para me ligar,
para me dizer
esta noite que te amo.

Lembranças suas me inundam.

Me perdoe,
a literatura me matou,
mas você se parecia tanto com ela.
= = = = = = = = = = = = 

ORAÇÃO

Livra-nos, Senhor,
de reencontrar
anos depois,
nossos grandes amores.
= = = = = = = = = = = = 

REMINISCÊNCIA

Eu não conseguia parar de amá-la porque o esquecimento não existe
e a memória é modificação, de modo que sem querer
eu amava as diferentes formas em que ela aparecia
em transformações sucessivas e eu ansiava por todos os lugares
onde nunca estivemos, e eu a desejava nos parques
onde nunca a desejei e eu morria de lembranças das coisas
que nunca saberíamos e elas eram tão violentas e inesquecíveis
quanto as poucas coisas que havíamos conhecido.
= = = = = = = = = = = = 

Cristina Peri Rossi nasceu em Montevidéu/Uruguai em 1941, romancista, poetisa, tradutora e autora de contos. Em 1972, quando o golpe de Estado iminente a forçou a deixar sua terra natal por causa de seu ativismo político, exilou-se na cidade de Barcelona, onde reside até hoje. Durante sua carreira, ela atuou como professora, além de se destacar como romancista, poetisa, contista e ensaísta. Também colabora frequentemente em revistas e publicações periódicas internacionais.

A autora aborda questões que exploram as complexidades das relações humanas, gênero e sexualidade. Seus poemas são bem marcantes, com uma estrutura que mistura narrativa, confissão e metafísica. Por meio de suas obras, Peri Rossi também critica o autoritarismo, a opressão e luta por liberdade e justiça.

Como exilada uruguaia, sua experiência pessoal de deslocamento e busca por pertencimento ecoa em sua escrita, na qual temas de exílio são frequentemente explorados. A escritora é a única mulher incluída dentro do chamado boom latino americano, movimento que incorpora nomes influentes da literatura nas décadas de 1960 e 1970 como Gabriel García Márquez, Mario Vargas Llosa e Carlos Fuentes.

Ela ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes em 2021.

Algumas obras são:
La insumisa; Los Amores Equivocados; Julio Cortázar y Cris; Habitaciones privadas; Playstation; Habitación del hotel; Mi casa es la escritura; La nave de los locos; Desastres íntimos, etc.

Fontes:
Poemas = tradução do espanhol por José Feldman

Eduardo Martínez (Beócio, o espertalhão)


Beócio nasceu de um casal normal, mas estava longe de receber a atenção dos olhares femininos. Não que fosse disforme de aparência, apesar de nunca ter sido considerado bonito, mas não era tido como feio, aliás, muito feio. Entretanto, além da aparência não tão agradável, o que mais chamava a atenção das pessoas era a sua capacidade de falar bobagens ou, como sua mãe gostava de falar: "Beócio, deixa de bobice!"

Já adolescente, ouviu pela primeira vez do melhor amigo, o Restolho: "Quem gosta de homem é boiola! Mulher gosta é de dinheiro!" E, assim, Beócio foi formando o seu caráter, digno da extraordinária sociedade brasileira, sempre aliada aos bons costumes. Obviamente que sim! Tanto é que, certa vez, Beócio, ainda sem um pelinho sequer despontando em sua face, saía bem cedo para comprar pão na padaria da esquina, quando avistou uma lindíssima garota de uns vinte e poucos anos, em trajes minúsculos, se despedindo sorridentemente de um homem muito mais velho e, pasmem, até mais feio que ele. O tal homem estava em um carrão conversível! "O Restolho sabe mesmo das coisas!", pensou quase em voz alta.

Já adulto, Beócio não conseguia se firmar em emprego algum. Não que fossem trabalhos difíceis de serem executados, mas os salários oferecidos nunca iam além de, no máximo, um salário mínimo. Sem muito estudo, Beócio resolveu montar uma empresa de segurança com o velho amigo, o Restolho, que também nunca havia se dado muito bem com os livros. O nome da empresa: Falcões Detonadores.

E, graças aos contatos que o pai do Restolho possuía, conseguiram alguns contratos meia-boca com empresas de renome: Birosca do seu Zé, Salão de Beleza da Dirce e Churrasquinho de Gato do Balacobaco. Na primeira, os dois sócios, cada um plantado de um lado da porta do banheiro, observavam se um cliente mais alcoolizado faria xixi nas paredes. Na Dirce, eles ficavam de olho se alguma cliente levava sem querer um frasco ou outro de esmalte. Já no terceiro estabelecimento, Beócio e Restolho tinham a função de fazer cara feia para os clientes que quisessem colocar mais farofa nos espetinhos. 

No final do mês, a Falcões Detonadores não conseguia angariar muita coisa. No entanto, os dois adoravam a sensação de poder, como se tivessem algum. Encolhiam as barrigas enormes, estufavam os peitos peludos, mexiam repetidamente nos cavanhaques, faziam beicinho, como se estivessem bravos. Tudo, obviamente, os dois haviam aprendido nos excelentes filmes do Steven Seagal, que, injustamente, jamais venceu um Oscar.

Beócio acabou se casando com Rose, manicure do Salão da Dirce. Restolho juntou os trapos com Meire, moça dali mesmo do bairro. Cada casal teve dois filhos, todos praticamente sustentados pelas esposas, já que os Falcões Detonadores, de fato, jamais alçaram voo. Os sócios, teimosos, continuaram acreditando e, talvez por isso, a amizade continuou firme. Tanto é que os dois, apesar dos protestos das respectivas esposas, votaram em um candidato que prometia armas para todos. 

Pois é, o tal candidato venceu as eleições, a crise veio que veio e levou a Birosca do seu Zé, o Salão de Beleza da Dirce e o Churrasquinho de Gato do Balacobaco. A Dirce acabou se engraçando por um rapaz bonito mais novo, que criava galinhas caipiras na parte rural em volta da cidade. A Meire pegou os filhos e foi trabalhar na cidade ao lado, onde dizem ter tido sucesso na venda de salgadinhos e docinhos. Já o Beócio e o Restolho continuam juntos, a amizade ainda mais firme. Não conseguiram comprar a tal arma prometida, mas estão cada vez mais convictos de que mulher gosta mesmo é de dinheiro.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Eduardo Martínez possui formação em Jornalismo, Medicina Veterinária e Engenharia Agronômica. Editor de Cultura e colunista do Notibras, autor dos livros "57 Contos e crônicas por um autor muito velho", "Despido de ilusões", "Meu melhor amigo e eu" e "Raquel", além de dezenas de participações em coletânea. Reside em Porto Alegre/RS.

Fontes:
Blog do Menino Dudu. 18.05.2022
https://blogdomeninodudu.blogspot.com/2022/05/beocio-o-espertalhao.html
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

José Feldman (Ecos do Deserto) 1. Entre o ódio e o perdão


“Salaam' Aleikum" (Que a paz esteja convosco), meus jovens amigos de alma nova e antiga. Aproximem-se, não tenham pressa, pois o tempo é um rio que corre, mas aqui, sob o dossel de estrelas de Bagdá, nós aprendemos a nadar contra a corrente.

Eu sou Mustafá, o peregrino. Olhem para estas mãos: elas estão sulcadas como o leito seco de um "wadi" (rio), cada linha uma estrada que percorri. Por mais de cinquenta anos, minhas sandálias beijaram a areia ardente do Saara, as pedras frias das montanhas do Cáucaso e o barro fértil das margens do Nilo. Fui um "musafir" (viajante) por destino e um colecionador por vocação.

Enquanto outros mercadores enchiam seus alforjes com ouro, seda ou mirra, eu buscava algo que os ladrões não podiam roubar: as histórias. Ouvi lendas sussurradas por beduínos ao redor de brasas moribundas e decifrei parábolas escondidas nos mercados de Damasco e nas bibliotecas de Alexandria. Vivi aventuras que fariam o coração do mais bravo guerreiro palpitar como o de um passarinho, e cometi erros que me ensinaram mais do que mil livros.

Agora, "alhamdulillah" (Louvado seja Deus), meus pés pedem repouso, mas minha voz ainda anseia por voar. Aqui, nestas almofadas gastas no coração de Bagdá, entre o cheiro do sândalo e o aroma do café com cardamomo, eu abro o baú da minha memória.

Deixem que o barulho do mercado se apague e que as minhas palavras pintem o ar. Pois uma história não é apenas entretenimento; é um espelho onde a alma se vê por inteiro.

Acomodem-se sobre as almofadas, pois a noite é longa e a lua de prata hoje testemunha uma história que guardo no fundo do meu alforje. Trago comigo a poeira de mil estradas e o eco de mil vozes.

"Bismillah" (Em nome de Deus), iniciamos este relato sobre o peso que carregamos nos ombros e a leveza que só o perdão pode trazer.

Nas terras de Omã, vivia um homem chamado Omar, cuja riqueza era superada apenas por seu orgulho. Ele tinha um filho, o jovem Karim, o pupilo de seus olhos. 

Em uma tarde de mercado, uma discussão fútil por causa de uma dívida de poucos dinares escalou para uma tragédia. Um jovem estrangeiro, num momento de desespero e cego de raiva, empurrou Karim, que caiu e bateu a cabeça contra uma pedra. 

O filho de Omar não despertou mais.

O estrangeiro, apavorado, fugiu para o deserto. Omar, consumido por um fogo negro, jurou: "Wallahi" (Eu juro por Deus), não descansarei até que o sangue desse homem lave a terra que meu filho pisou.

Anos se passaram. Omar tornou-se um homem amargo, caçando sombras. 

Certa noite, uma tempestade de areia terrível açoitou sua tenda. Alguém bateu à porta implorando por hospitalidade. Seguindo a lei sagrada do deserto, Omar abriu a porta e acolheu o viajante exausto, dando-lhe tâmaras e água fresca.

Enquanto o estranho dormia, a luz da lamparina revelou uma cicatriz no braço do hóspede. Omar reconheceu o homem que tirara a vida de seu filho. A mão de Omar voou para o punhal. "Ya Allah" (Ó Deus), sussurrou ele, "a vingança está em minhas mãos."

Mas, ao olhar para o rosto cansado do homem, ele viu não um monstro, mas um ser humano que também fora devorado pela culpa durante anos. Omar lembrou-se das palavras de seu próprio pai: "O perdão é a fragrância que a violeta deixa no calcanhar que a esmagou."

Na manhã seguinte, antes que o sol queimasse o horizonte, Omar acordou o homem. "Sabah al-Khair" (Bom dia), disse ele com uma voz que parecia vir de uma montanha. O estrangeiro, ao reconhecer Omar, caiu de joelhos, esperando o golpe fatal.

Em vez disso, Omar entregou-lhe as rédeas de seu melhor camelo e uma bolsa de ouro. 

"Tome", disse Omar. "Ontem eu era um prisioneiro do seu erro. Hoje, ao te perdoar, eu quebro minhas próprias correntes. Vá em paz, pois a justiça pertence ao Altíssimo."

O homem chorou e partiu, mas o peso que saiu do coração de Omar foi maior do que todo o ouro do deserto.

"Alhamdulillah" (Louvado seja Deus), pois a paz que o perdão traz é o único oásis que nunca seca. 

"Shukran" (Obrigado) pela vossa atenção. Que vossos corações sejam sempre mais leves que vossas sandálias. “As-salaam 'aleikum” (Que a paz de Deus esteja com vocês).
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertence a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. 7 livros publicados e 7 livros em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos (de sua autoria) e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).


Fontes;
José Feldman. Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing  

Nilto Maciel (Chão pintado de sangue)


Havia anos George Pinho escrevia umas prosas sem pé nem cabeça. E se regozijava com a cara de burrego dos leitores. Diziam não ter entendido nada. Ele ria muito e completava: o problema é seu. Mas se cansou de tanto rir dos outros e decidiu escrever contos urbanos realistas. Arranjava pretextos para passear pela cidade. Queria conhecer de perto os tipos populares, presenciar cenas do cotidiano. Anotava num caderno sinopses de histórias. Uma delas teria apenas dois personagens: um mendigo ou menino de rua, drogado, e um poeta popular ou panfletário. A ação se daria numa praça. Que ação seria essa? Que conflito ocorreria? Para encontrar as respostas, quase todo dia passava pela Praça do Ferreira, metia-se em lojas, lanchonetes, bancos, e, principalmente, andava de lá para cá, olhos e ouvidos atentos.

 Um dia caminhava pela calçada da praça na direção da Guilherme Rocha. Diante do Cine São Luiz, um mendigo comeu uma banana e lançou a casca ao chão. Sentou-se junto à parede e se pôs a olhar para as pessoas que batiam palmas ou vaiavam o rapaz barbudo e de roupas exóticas, em pé num banco, a vociferar: O poema é um punhal que brilhará na carne dos condescendentes. Seus reflexos parirão estrelas que habitarão o céu. Marinas cintilarão como ametistas nas bocas dos desvalidos. Imensas pérolas de enfeite da grande festa anunciada. Nas ruas novamente habitadas por benjamins, sorrisos, brisas nos dentes de marfim, onde se inscreverão os versos dos decapitados. 

Nesse momento George voltou a vista para o espetáculo, pisou na casca de banana e caiu espalhafatosamente. Livros e cadernos se espalharam na calçada do cinema. Uns deram vaias, outros riram. O mendigo se levantou e se esgueirou junto à parede, até desaparecer na galeria que separa o prédio do cine das lojas. 

Conduziram George ao banco da praça. Gemia de dor e pedia insistentemente para lhe trazerem os livros e cadernos. 

O rapaz anunciou outro poema e voltou a gritar: Como será nosso amanhã, criança? O meu, o teu, o da vizinhança? Talvez verde-esperança como sempre razão de viver. Talvez branco-matança, talvez negro black-power soco na cara do branco. Talvez amarelinho-da-silva. Ou será vermelho-festança? Criança? Ou pura lembrança de Ontem e de Hoje? Como será nosso amanhã, criança? Amanhança? 

Bateram palmas, vaiaram, bradaram. George permanecia deitado no banco, pálido e triste. Por que o senhor caiu? Pisei numa casca de banana. Sempre é assim. E esse maluco a dizer besteiras. Pensa que é poeta. 

George se sentou no banco. Está melhor? Preciso ir embora. O rapaz barbudo se entusiasmou de novo e passou a bramar: Neste nove de setembro há mais nove do que tudo e eu me sinto novamente o mais novo dos mortais. É como se o Zé Sarney já não fosse nosso rei e existisse no Brasil o vermelho de novembro. 

Quem é esse maluco? É o poeta Mário Menezes. Policiais passaram, em correria, pela frente do cinema. Deve ter havido algum roubo na Guilherme Rocha. 

Mário deixou o banco e se dirigiu a George. Faria um poema para lamentar a queda do outro. Não precisa disso. Escute só: Ai, meu joelho preferido, como eu queria ser você, pra descansar durante um mês e me sentir o bem-querido. O mais querido das mulheres ou das muletas, das mulatas. Como eu queria ver talheres em vez do fórum e suas batas. Ai, meu joelho maltratado pelas andanças e as peladas, como eu queria diplomado já me sentir e diplomata. Eu preferia, joelhinho, viver na Bósnia, se eu fosse embaixador – com queijo e vinho – em vez de aqui viver na doce vidinha nesta Fortaleza – carimbos, autos, petições, parafernália, tudo para me dar suores e aflições. 

O mendigo reapareceu na esquina da galeria. Alguém alertou: foi ele que jogou a casca no chão. A polícia também reapareceu. Em pouco tempo o mendigo se viu cercado de cassetetes e bordoadas. Houve quem tentasse impedir o sacrifício. 

George Pinho e Mário Menezes imploravam: não façam isso com o coitado. O povo vaiava e aplaudia ao mesmo tempo. Gotas de sangue pintavam o chão da Praça do Ferreira. E mais os soldados batiam no negrinho. George se afastou, a capengar.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Nilto Maciel nasceu em Baturité/CE em 1945. Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará. Em parceria com outros escritores, no ano de 1976 criou a revista Saco. Transferiu-se no ano seguinte para Brasília, trabalhando na Câmara dos Deputados, Supremo Tribunal Federal e Tribunal de Justiça do DF. Em 2002 foi para Fortaleza/CE onde residiu até a sua morte em 2014. Venceu inúmeros concursos literários, e escreveu diversos livros, tendo contos e poemas publicados em esperanto, espanhol, italiano e francês. Além de contos e romances publicados, também Panorama do Conto Cearense, Contistas do Ceará, Literatura Fantástica no Brasil. Alguns livros publicados: Contos Reunidos vol. I, são os 66 contos escritos por Nilto em seus livros Itinerário (1974 a 1990), Tempos de Mula Preta (1981 a 2000) e Punhalzinho cravado de ódio (1986). O volume II conta com 122 contos dos livros As Insolentes patas do cão (1991), Babel (1997) e Pescoço de Girafa na Poeira (1999). 
“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fontes
Nilto Maciel. A Leste da Morte. Porto Alegre, RS: Editora Bestiário, 2006. Enviado pelo autor.