domingo, 25 de outubro de 2015

António Aleixo (1899 - 1949)




António Fernandes Aleixo nasceu em Vila Real de Santo António, uma pequena cidade do Algarve, sul de Portugal, na fronteira com a Espanha, 18 de fevereiro de 1899 e faleceu em Loulé/Portugal, a 16 de novembro de 1949.
            Filho de um operário tecelão, teve uma infância de dificuldades e foi obrigado a abandonar os estudos antes de completar o segundo ano de escolaridade. Sua experiência com poesia surgiu ainda aos dez anos de idade: há, no sul de Portugal, um antigo costume de grupos de crianças que vão de porta em porta, à época das festas natalinas, cantar as “janeiras”, quadras que se vão repetindo, alterando-se apenas o nome do dono da casa, que é então homenageado em troca de algum dinheiro ou prenda natalina. Como o repertório de seu grupo se esgotara, Aleixo começou a inventar, por si próprio, as quadras para o pequeno grupo de cantores populares. A vida de António Aleixo, contudo, foi de sobrevivência difícil em meio à pobreza daqueles primeiros anos do século XX: foi tecelão, como o pai; serviu o exército, onde aprenderia de fato a ler e escrever, ainda que de forma rudimentar; depois, policial; imigrou para a França, onde exerceu o ofício de pedreiro; foi depois vendedor de cautelas de loteria – ocupações que mantinha em paralelo aos improvisos em praça pública, que, em pouco tempo, se tornaram uma nova fonte de renda, pois passou a se apresentar em festas populares e romarias, ocasiões em que começou também a vender seus versos impressos. Sobre suas várias profissões, escreveu Aleixo:
Fui polícia, fui soldado,
Estive fora da Nação,
Vendo jogo, guardei gado,
Só me falta ser ladrão.
(ALEIXO, 1978, p. 16)
            Em 1942, por iniciativa de um amigo de António Aleixo, um relojoeiro da cidade de residência do poeta, Loulé, fez-se imprimir em uma gráfica local uma folha datilografada com cerca de duas dúzias de quadras do poeta que ele, o comerciante, colecionara. Joaquim de  Magalhães, à época professor do Liceu de Loulé, recebeu um exemplar da pequena coletânea e, entusiasmado pela qualidade poética que observou na despretensiosa obra, propôs-se a fazer uma compilação das quadras de António Aleixo, servindo-lhe de “secretário” para coletar material suficiente para a publicação de um volume de poesias. Sobre esse fato, escreveu Aleixo:
Não há nenhum milionário
que seja feliz como eu
tenho como secretário
um professor do liceu.
(ALEIXO, 1983, p.102)
            António Aleixo, contudo, no mesmo ano de lançamento de seu primeiro livro, descobre-se também tuberculoso como a filha e, por conta da intervenção de diversos artistas de renome a seu favor, consegue internação em um sanatório na cidade de Coimbra. Naquela cidade, conheceu outros escritores, como Miguel Torga, e produziu um segundo volume de quadras, chamado Intencionais, e duas peças teatrais de inspiração vicentina, o Auto do CURAndeiro (sic) e o Auto da Vida e da Morte. A doença, contudo, não cedeu com sua estada no sanatório de Coimbra e, em 1949, António Aleixo viria a falecer na cidade de Loulé, de tuberculose. Por conta do temor do contágio e por desconhecimento, os vizinhos que atenderam ao poeta em seus últimos dias de vida atearam fogo a alguns dos muitos cadernos nos quais Aleixo registrou, incentivado por Joaquim de Magalhães, suas quadras e poemas.
            Uma das razões formais para o sucesso das quadras de António Aleixo é o uso quase que exclusivo de versos em redondilha maior. Norma Goldstein, em seu compêndio intitulado Versos, sons, ritmos, recorda que o “verso de sete sílabas [...] é o mais simples, do ponto de vista das leis métricas” e também o “verso tradicional em língua portuguesa”, que já era “freqüente em cantigas medievais” (GOLDSTEIN, 2001, p. 27) e perenizou-se nas cantigas de roda, quadras e canções populares. Outro recurso usado intuitivamente por Aleixo é a composição de rimas alternadas – ABAB – externas e consoantes, a qual auxilia no ritmo natural da fala em língua portuguesa e oferece fácil identificação por parte do leitor. Tais elementos formais são, ainda, característicos da literatura oral e das formas cantadas de poesia popular, gêneros dentro dos quais Aleixo desenvolveu seu talento poético.
            Embora praticasse formas tradicionais de poesia, em si mesmas limitadoras – o quarteto de sentido completo e a sextilha –, Aleixo impunha a esse gênero um traço bastante peculiar de narrativa e de crônica do cotidiano. Seus temas principais oscilavam entre a crítica social, os infortúnios de uma vida miserável e os acontecimentos pontuais do cotidiano português. Curiosamente, quase nada de sua produção ecoa os temas amorosos ou o saudosismo tão presentes na poesia lusitana que o antecedeu:
Nas tuas horas mais tristes
de mágoas e desenganos,
pensa que já não existes,
que morreste há muitos anos.
(ALEIXO, 1983, p. 85)
            Considerado um dos poetas populares portugueses de maior relevo, afirmando-se pela sua ironia e pela crítica social sempre presente nos seus versos, António Aleixo também é recordado como homem simples, humilde e semi-analfabeto, e ainda assim ter deixado como legado uma obra poética singular no panorama literário português da primeira metade do século XX.
            No emaranhado de uma vida cheia de pobreza, mudanças de emprego, emigração, tragédias familiares e doenças, na sua figura de homem humilde e simples houve o perfil de uma personalidade rica, vincada e conhecedora das diversas realidades da cultura e sociedade do seu tempo. Do seu percurso de vida fazem parte profissões como tecelão, polícia e servente de pedreiro, trabalho este que, como emigrante, exerceu em França.
            De regresso ao seu Algarve natal, estabeleceu-se novamente em Loulé, onde passou a vender cautelas e a cantar as suas produções pelas feiras portuguesas, atividades que se juntaram às suas muitas profissões e que lhe renderia a alcunha de «poeta-cauteleiro».
            Faleceu vítima de uma tuberculose, a 16 de novembro de 1949, doença que tempos antes havia também vitimado uma de suas filhas.
            Poeta possuidor de uma rara espontaneidade, de um apurado sentido filosófico e notável pela «capacidade de expressão sintética de conceitos com conteúdo de pensamento moral», Aleixo tinha por motivos de inspiração desde as brincadeiras dirigidas aos amigos até à crítica sofrida das injustiças da vida. É notável em sua poesia a expressão concisa e original de uma "amarga filosofia, aprendida na escola impiedosa da vida".
            A sua conhecida obra poética é uma parte mínima de um vasto repertório literário. O poeta, que escrevia sempre usando a métrica mais comum na língua portuguesa (heptassílabos, em pequenas composições de quatro versos, conhecidas como "quadras" ou "trovas"), nunca teve a preocupação de registrar suas composições. Foi o trabalho de Joaquim de Magalhães, que se dedicou a compilar os versos que eram ditados pelo poeta no intuito de compor o primeiro volume de suas poesias (Quando Começo a Cantar), com o posterior registro do próprio poeta tendo o incentivo daquele mesmo professor, a obra de António Aleixo adquiriu algum trabalho documentado. Antes de Magalhães, contudo, alguns amigos do poeta lançaram folhetos avulsos com quadras por ele compostas, mais no intuito, à época, de angariar algum dinheiro que ajudasse o poeta na sua situação de miséria que com a intenção maior de permanência da obra na forma escrita.
            Estudiosos de António Aleixo ainda conjugam esforços no sentido de reunir o seu espólio, que ainda se encontra fragmentado por vários pontos do Algarve, algum dele já localizado. Sabe-se também que vários cadernos seus de poesia, foram cremados como meio de defesa contra o vírus infeccioso da doença que o vitimou, sem dúvida, um «sacrifício» impensado, levado a cabo pelo desconhecimento de seus vizinhos. Foi esta uma perda irreparável de um patrimônio insubstituível no vasto mundo da literatura portuguesa.
            A opinião pública aceitou a primeira obra de António Aleixo com bom agrado, tendo sido bem acolhida pela crítica. Com uma tiragem de cerca de 1.100 exemplares, o livro esgotou-se em poucos dias, o que proporcionou ao Poeta Aleixo uma pequena melhoria de vida, contudo ensombrada pela morte de uma filha sua, com tuberculose. Desta mesma doença viria o poeta a sofrer pelos tratamentos que a vida lhe foi impondo, tendo de ser internado no Hospital – Sanatório dos Covões, em Coimbra, a 28 de junho de 1943.
            Em Coimbra começa uma nova era para o poeta que descobre novas amizades e deleita-se com novos admiradores, que reconhecem o seu talento, de destacar o Dr. Armando Gonçalves, o escritor Miguel Torga, e António Santos (Tóssan), artista plástico e autor da mais conhecida imagem do poeta algarvio, amigo do poeta que nunca o desamparou nas horas difíceis. Os seus últimos anos de vida foram passados, ora no sanatório em Coimbra, ora no Algarve, em Loulé.
            A 27 de maio de 1944 recebeu o grau de Oficial da Ordem de Benemerência.
Fontes:
– Robertson Frizero Barros . “Perdão, porque mal sei ler” – apresentando António Aleixo, poeta popular português. In Revista Nau Literária. PPG-LET-UFRGS – Porto Alegre – Vol. 03 N. 02 – jul/dez 2007
https://pt.wikipedia.org/wiki/António_Aleixo

sábado, 24 de outubro de 2015

Rosimeire Leal de Mota (1969)




.          Rosimeire Leal da Motta nasceu no município de Vila Velha/ES, em 1969. Professora, Técnica em Contabilidade e Secretária. Casada. Portadora de deficiência auditiva, faz leitura labial. Começou a escrever aos 15 anos, seguindo o exemplo da mãe, que usava a escrita como uma maneira de expressar seus problemas pessoais. A outra influência foi a leitura, pois por ser tímida, passou a maior parte da minha adolescência lendo. Seu primeiro trabalho literário foi "MEU IDEAL DE POESIA" (prosa), escrito aos 15 anos.

            Desenvolve o estilo Simbolismo, onde a vida interior é revelada por meio de símbolos. Existe a postura romântica, centralizada no "eu", explorando as camadas mais profundas do subconsciente e inconsciente... interioridade... poesias endereçadas à emoção... romantismo... ideias envoltas em sombra, em névoa..

   Nas palavras da poetisa:
            “O mais gratificante na arte de escrever é poder espalhar nossos pensamentos ao mundo, transmitindo uma parte de nós aos demais; sim, porque aquilo que uma pessoa escreve revela muito sobre si mesmo. É gratificante quando escrevo um texto e observo que ali está muito de mim, foi uma parte da minha individualidade que doei aos demais.
Eu sinto a poesia como se fosse um pedaço da alma, um ser vivo que transmite um sentimento. Ler uma poesia é como abrir um frasco de perfume e aspirar seu aroma... A fragrância é totalmente absorvida por nosso íntimo. Penso que a realização do poeta se faz na alma, pois ele já nasce com este dom, ou seja, não há como participar de um curso para se tornar um profissional da poesia... Ele poderá se inscrever num curso para aperfeiçoar a escrita com base na gramática e somente isto. Ser poeta é um dom que a pessoa tem, que a torna capaz de transformar letras em sentimento.”
            Participou de dezoito Antologias de Poesias, quatro de Contos e cinco de Crônicas.
 LIVROS PUBLICADOS:
- "Voz da Alma", 2005 (Poesia e Prosa);"Eu Poético" , 2007 (Poesia e Prosa.); "O Cair da Tarde", 2012 (Poesia e Prosa)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Sérgio Corrêa Miranda Filho (Caderno de Trovas)

A glória não mais me acena...
Mas, por amor à ribalta,
eu sou artista que encena,
mesmo se o público falta!…
Ao ver, com creme vermelho,
da esposa o rosto emplastado,
teve impressão o Botelho
de que entrou no inferno errado!
A vida nada me entrega...
mas quando durmo, a teu lado,
sonho ter o que ela nega
sempre que sonho acordado!!!
Carteiro, que se desculpa
por frustrar o meu anseio,
esquece... Tu não tens culpa
se a carta dela não veio!…
Celular eu não tolero
desde um pré-pago que eu tinha,
que tocou "Mamãe eu quero..."
no velório da vizinha!
Comprovo, num pranto mudo,
após a espera frustrada,
que o depois promete tudo
mas não cumpre quase nada!
Depois de um sonho frustrado
que a própria vida desfez,
insiste... volta ao passado
e sonha tudo outra vez!…
"Depois", disseste... E apreensivo,
lembrando o amor de nós dois,
hoje eu sinto que só vivo
porque espero esse depois!
Depois... muralha inclemente
que insiste em nos separar
do sonho de amor que a gente
não pode ainda alcançar!…
Desde o namoro ao casório,
a sogra foi sentinela.
E hoje, enfim, no seu velório,
sou eu quem "segura a vela"!…
Envelhecemos... Nós dois...
E hoje é que voltas, por fim...
Não pensei que o teu "depois"
fosse tão depois assim…
Falta-me a fé...e, na estrada
onde sigo, não me iludo,
pois não me faltando nada
eu sei que me falta tudo!…
Feitos de instantes tristonhos,
se os meus dias são banais,
não é porque faltam sonhos,
mas porque há mágoas demais!…
Fico ante a vida calado,
sem pergunta... sem proposta...
- Meu sonho já está cansado
de ouvir 'não" como resposta!
Meu sonho, num louco intento,
quis o céu e, em gesto aflito,
prendeu-se à pipa que o vento
despedaçou no infinito!…
Na campa do tal rapaz
que no batuque era um bamba,
em vez de pôr: – "Aqui jaz"...
alguém gravou: – "Aqui samba"…
Na espera a angústia me invade...
E depois, num devaneio,
vejo chegar a saudade,
trazendo alguém que não veio!…
Na festa de caridade,
Zé, com cara de tragédia,
tirando a média de idade,
foi parar na Idade Média!
Nas cavalgadas que eu faço
quando a insônia não aceito,
apanho os sonhos a laço
e arrasto o sono a meu leito!…
Nas horas de desencanto,
não me falta um bom amigo
que, se não seca o meu pranto,
ao menos, chora comigo!…
Num sonho envolto em ternura,
de tua ausência hoje farto,
viajo à tua procura,
sem deixar o nosso quarto!…
O candidato: - Em quem votas?
- Em você!, diz, sem engodos...
E explica: - Dos idiotas,
prefiro o maior de todos…
O Pacote é bom, Batista?
- Pra mim é, pois dá dinheiro...
- Ah, o amigo é economista?
q Não, senhor... sou pipoqueiro!
O Zé segue o enterro... E ao ver
seu rosto, um verme diz, sério:
– Quando esse "troço" morrer,
eu fujo do cemitério!…
Piada foi quando o Augusto
entrou no armário, apressado,
e quase morreu de susto
quando alguém disse: - Ocupado!
"Procuro amor"... deixo escrito
no meu sonho... mas, quem vê,
se eu ponho este anúncio aflito
num jornal que ninguém lê?!
Quando um cão grã-fino olhou
sua cadela, de esguelha,
meu cão pulguento ficou
"com a pulga atrás da orelha"!
Se estás num sonho indagando
se te adoro, e eu digo sim,
crê, amor, mesmo sonhando,
no que o sonho diz por mim!
Sempre que a vida me assalta,
eu luto com tanto empenho,
que é quando a força me falta
que eu meço a força que tenho!
Se o meu sonho vem errado,
acordo... e, insone, bendigo
poder sonhar acordado
um sonho inteiro contigo!…
Silêncio!  Dorme a saudade
e acordá-la não convém...
Já é demais a ansiedade
para esperar quem não vem!
Tudo alcancei, com ardor...
E, hoje, a mágoa que me assalta
é sentir falta de amor
quando mais nada me falta!…
Velório estranho, comadre,
o da sogra do Miranda...
em vez de chamar um padre
ele chamou uma banda!

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

José Feldman (Algumas Dicas de Trovas para Concursos ou Não)



Seguem algumas trovas de trovadores que usaram palavras incorretamente, o que poderá prejudicar uma boa trova e desclassificá-las em concursos:
Vendo este mundo de dor,
com violência, sem Norte
peço sempre ao Salvador:
– Paz, amor e boa sorte.
         Se não for vendedor/a, não utilizar vendo como no primeiro verso, a não ser que queira vender o mundo, e atualmente até de graça tem que pensar muito.
______________________
A neve desce, flutua,
cai sobre tudo e se espalha
sobre a estrada imensa e nua
como uma branca toalha.
    Esta é para os comilões. No quarto verso, como, se a intenção não era comer a toalha branca, preste muita atenção ao utilizar esta palavra.
________________
Alguns anos atrás, quando ainda estava engatinhando na trova, fiz a trova abaixo (depois corrigi, claro)
Como a Gralha Azul que voa
cultivando o Paraná,
a trova, a Terra povoa,
espalhando o seu maná.
         Agradeço ao povo paranaense, ao IBAMA, etc. por ter entendido que não estava mal intencionado, foi ignorância minha em algumas questões da trova, se não já teria sido linchado por comer a Gralha Azul, símbolo do Paraná.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Aparício Fernandes (Trovas Mistas e Trovas Bipartidas)

(foi mantida a grafia original)
  
       Embora não constituindo categorias distintas, há trovas que apresentam particularidades curiosas quanto à sua mensagem e, mais raramente, quanto à origem. Estão neste caso as trovas mistas e as trovas bipartidas. Trovas mistas são aquelas que, pela sua mensagem, são, ao mesmo tempo, líricas e filosóficas, filosóficas e humorísticas, humorísticas e líricas e até mesmo lírico-filosófico-humorísticas. Não há mistério algum, pois a idéia contida numa trova pode exprimir simultâneamente essas três nuances do sentimento. Vejamos um exemplo de trova mista lírico-filosófica. É de autoria do consagrado trovador Orlando Brito:

Até num êrro há nobreza,
se com teu pranto o reparas,
— Mesmo a lama tem beleza
no fundo das águas claras...

         Com efeito, se os dois primeiros versos pregam um conceito filosófico, os dois versos finais nos oferecem uma comparação de grande delicadeza poética, revestida de encantador lirismo.
         Belmiro Braga nos proporciona um exemplo perfeito de trova mista filosófico-humorística:

Quanta vez, junto ao jazigo,
alguém murmura de leve:
– "Adeus para sempre, amigo"
E o morto diz: – "Até breve!..."

         Antônio Sales, um dos grandes trovadores brasileiros do começo do século, é o autor desta trova mista lírico-humorística:

Se as santas no paraíso
possuem os teus encantos,
eu fico muito indeciso
sôbre a virtude dos santos...

         As trovas mistas de mensagem tríplice, lírico – filosófico – humorísticas são, naturalmente, mais raras. Como exemplo, citaremos duas trovas. A primeira é de autoria de Lindouro Gomes; a segunda, de
Petrarca Maranhão:

A tua jura não passa
de falsidade patente:
– engana como a cachaça,
que alegra tombando a gente.
______
Eu pergunto muito a mêdo,
quase a sentir-me covarde:
– nasceste por demais cedo,
ou fui eu que nasci tarde?

         As trovas bipartidas (pela mensagem) são aquelas que nos dois primeiros versos exprimem uma idéia, e nos dois versos finais outra coisa muito diferente. Entre os dois pensamentos não há qualquer relação. São desconexos e, muitas vêzes, disparatados. Essas trovas, que comumente são populares anônimas, têm a sua graça, sua brejeirice. Eis um exemplo:

Debaixo daquela ponte
passa boi, passa boiada.
Quero que você me diga
se vai ser a minha amada.
continua… Trovas Mistas
Fonte: Aparício Fernandes. A Trova no Brasil: história & antologia. Rio de Janeiro/GB: Artenova, 1972

domingo, 4 de outubro de 2015

A. A. de Assis e Elisabeth Souza Cruz (Vaivém do Riso), final




44. (ESC)
Do teu queijo eu tiro um naco
pois a minha ideia logra...
mudo de pau pra cavaco,
que tal falarmos de... sogra?
________________
45. (AAA)
Na hora do desespero,
vale tudo, oh Deus, que horror...
Vale até, sem exagero,
chamar a sogra de “amor”!
________________
46. (ESC)
Sei também de um desespero,
pois o genro, de mutreta,
pôs pimenta no tempero
e a sogra ficou zureta!
________________
47. (AAA)
Faltam-lhe os “tchans” da “zelite”,
talvez escola e que-tais...
Mas no “tempero”, acredite,
a danadinha é demais!
________________
48. (ESC)
Tempero lembra cozinha
e a tua trova... "a penosa",
aquela da tal galinha
que no garfo era bem prosa!
________________
49. (AAA)
Diz ao garfo, humilde, a faca:
– Rema, rema, remarré...
Eu sou fraca, fraca, fraca,
mas corto mais que a cuié...
________________
50. (ESC)
Quando tem panela cheia
no fogão da  cozinheira
sempre acaba em briga feia
que o patrão quer dar "rasteira" !!
________________
51. (AAA)
Felizardo é o cara esperto
que vai no mato morar.
Lá não tem patrão por perto
nem sogra no calcanhar...
________________
52. (ESC)
É verdade! Uma mamata
morar longe de patrão...
só não se pode é na mata
ficar na moita.... sem cão.
________________
53. (AAA)
Bem pior é um menestrel,
quando lhe apura a barriga,
na moitinha, sem papel,
ter que usar folha de urtiga...
________________
54. (ESC)
Querido.. eu não faço intriga,
mas veja a situação:
– na moita, anda dando briga,
por dinheiro em cuecão!!
________________
55. (AAA)
Tudo o mais é mera intriga,
fabulazinha bizarra...
– O chato é ser a formiga
“cantada” pela cigarra!
________________
56. (ESC)
E por falar em cantada
quem canta seu mal  espanta?
Eu sou tão desafinada
que nem galo se levanta!!!
________________
57. (AAA)
Quando o galo nega raça
e precoce o caldo entorna,
a frangona, por pirraça,
dá-lhe um ovo... de codorna!
________________
58. (ESC)
Eu falo e tenho respaldo,
pois em canja de galinha,
para aumentar mais o caldo,
pegue a sopa da vizinha!.
________________
59. (AAA)
Alarme no galinheiro.
– Será que há gambá na granja?...
– Bem mais grave: é o cozinheiro
que avisa: “Hoje vai ter canja!”...
________________
60. (ESC)
E foi tamanho o brigueiro,
pois dona "Gala"  se zanga,
já que o galo, que é frangueiro,
logo quis  salvar a "franga"!
________________
61. (AAA)
Fui à feira a fim de frango;
frango fresco ali faltava.
Fiquei fulo e ao fim meu rango
foi farofa, alfafa e fava.
________________
62. (ESC)
A minha ideia não míngua,
e eu lhe mando "plantar fava",
pois compondo um trava língua,
minha própria língua trava!
________________
63. (AAA)
Calma aí, não fique brava
com a minha brincadeira...
Se quiser, eu planto fava,
batatas, a horta inteira...
________________
64. (ESC)
Assis... eu não me detenho
e agora pego carreira:
– quero ver teu desempenho
se "plantares bananeira"!!!
________________
65. (AAA)
Nada há que mais atraia
a molecadinha arteira
que moça de minissaia
quando planta bananeira...
________________
66. (ESC)
Tu és um sujeito esperto,
(mas só  peço que não caias)
quando estiveres bem perto
das moças perdendo as saias!!!
________________
67. (AAA)
Disse o esperto garotinho
na forçada confissão:
– Olhei pelo buraquinho...
mas não vi “o” da moça não!
________________
68. (ESC)
Por falar em confissão,
confessa a moça (e reclama):
- Tão pesado é o meu patrão
que quebrou a minha cama!
________________
69. (AAA)
O funcionário e a patroa
a um baile foram... “ficaram”.
O patrão soube: largou-a,
e os pôs na rua: “dançaram”!
________________
70. (ESC)
Com duplo sentido, a "dança"
é  palavra que  marcou:
– nem sempre quem dança, cansa...
mas quem se cansa... dançou!
________________
71. (AAA)
Até pra fazer pecados
é necessário ser jovem.
Adões e Evas cansados,
nem mesmo as maçãs os movem...
________________
72. (ESC)
As maçãs, "na velha idade",
lembram uvas,  e o idoso,
olhando as "boas" (maldade!),
– Alcançá-las?! É penoso!!!
________________
73. (AAA)
Conhaque no aperitivo,
conhaque na sobremesa...
– E’ assim que o velhinho, ativo,
mantém a velinha acesa!
________________
74. (ESC)
"Sopre a velinha , sem dó!"
e, na festinha animada,
sopraram tanto a vovó
que ela ficou resfriada!
________________
75. (AAA)
– Sopre o trombone sem DÓ,
diz a velhinha ao regente...
– Se mande pra LÁ, vovó,
e cuide de SI... SOL-mente!
________________
76. (ESC)
Assis, neste DÓ RÉ MI,
a trova pede uma pala:
– como é que eu estando aqui,
ouço tanto a sua  fala?
________________
77. (AAA)
Se no dorré não faz sol,
nem também  no La mi si,
no remi lá do fá-rol
faz redó relá solmi...
________________
78. (ESC)
No dó ré que a gente inventa,
Antonio Augusto, tem dó!!!
Já vamos para as oitenta
numa brincadeira só!
________________
79. (AAA)
Enquanto você topar,
sigamos, então, sem medo.
Vamos brincar de brincar,
até cansar do brinquedo...
________________
80. (ESC)
O desafio me empolga,
eu topo qualquer parada....
E não preciso de folga 
porque eu ando eletrizada!