quarta-feira, 17 de junho de 2026

Chafariz de Trovas * 9 *


 Na vida tudo se alcança,
quando a Esperança se tem!...
Porém se morre a Esperança,
a vida morre também.
A..B. LOPES RIBEIRO

Esperança - voam aves...
Galhos, cascas flutuando...
Colombo comanda as naves
cheias de nautas cantando.
ADALBERTO DUTRA DE RESENDE

Descobri no envelhecer,
em meus momentos tristonhos,
que eu não tive, em meu viver,
nada mais além de sonhos!...
ADEMAR MACEDO

Quanta vez em tristes rotas
tombei sem me ter queixado
porque nas minhas derrotas
tive a Esperança ao meu lado.
AGMAR MURGEL DUTRA

No verdor da mocidade,
 quanta esperança entretive!
 Agora tenho saudade
 das esperanças que tive!
 ALFREDO DE CASTRO

Nossa vida é mesmo assim,
qual um rolo de papel...
quanto mais perto do fim,
mais dispara o carretel!
AMILTON MACIEL MONTEIRO

A esperança é voz do Além
  que nesta vida nos guia.
Sem este amparo ninguém
às mágoas sobrevivia.
ANA ROLÃO PRETO M. ABANO

Mãe que traz uma criança
nas entranhas do seu ser,
carrega a própria esperança
no filho que vai nascer.
ANIS MURAD

Há muita gente na vida
que a felicidade alcança,
não por ter sorte florida,
mas por viver de Esperança!
ANTONIETA BORGES ALVES

Pensando, na tarde calma,
 logo me ocorre à lembrança
 que a própria vida tem alma,
 e a alma da vida é a esperança!
 APARÍCIO FERNANDES

A Esperança se revela
 em cousa bem natural:
 um sapato na janela
 numa noite de Natal!
 ARCHIMINO LAPAGESSE

Desde o tempo de criança
- de ingênua colegial -
fiz de ti minha esperança
e só tenho esse fanal.
ARIETE REGINA DE PAULA FERNANDES

Carnaval retrata a vida
de fugazes tentações...
E lá no fim da avenida
restam cinzas de ilusões!
ARTHUR THOMAZ

Que não seja a tua esmola,
vazia de coração;
a esperança mais consola
do que um pedaço de pão.
CÉLIA CAVALCANTE

Há muito mais esperança,
 segundo o meu evangelho,
 numa lágrima de criança
 que num sorriso de velho.
 COLBERT RANGEL COELHO

Entre o meu pai - já velhinho,
 e o meu filho - uma criança,
 vejo estender-se o caminho
 por onde passa a esperança.
 DENANCY MELLO ANOMAL

Esperança - chama acesa
no coração a brilhar.
quando ela morrer, a tristeza
vem tomar o seu lugar.
DINARTE BARBOSA ARMOND

A esperança é como um sopro
 de vida, dado por Deus.
 É o dia, depois da noite,
 é a volta, depois do adeus.
 EDGAR BARCELOS CERQUEIRA

Todos nós temos na vida,
quer seja agitada ou mansa,
a doce, a terna guarida,
onde se abriga a esperança!
EDNA DE CASTRO

A família alicerçada,
na fé, na  paz e no estudo,
transforma o seu quase nada,
com amor, no quase tudo!
FRANCISCO NEVES DE MACEDO

A dor de tua partida,
que não sai da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA

Esperança - bem que enleva
nossa vida, no presente;
- um raio de luz na treva
  do incerto amanhã da gente.
GERALDO PIMENTA DE MORAES

Ante a inclemência dos fados
da vida em cada revés...
Consolo dos desgraçados!
- Esperança é o que tu és!...
HONÓRIO SANTANA

Se o homem conquista o espaço,
por que é que, lutando a esmo,
é incapaz de dar um passo
para dentro de si mesmo?!...
IZO GOLDMAN

Com mágoa de toda a sorte,
se a velhice nos alcança,
crendo que há vida na morte,
temos na morte, Esperança.
JOÃO BATISTA DE AZEVEDO

Esperança - céu nublado
 no Nordeste, os bois ao léu;
 o sertanejo ajoelhado,
 de mãos postas para o céu...
 JORGE MURAD 

Dói demais, é muito triste
a cruel separação...
A revolta sempre existe,
onde existe a ingratidão.
JOÃO BATISTA SERRA

Neste mundo que nos cansa
 tanta maldade se vê,
 que a gente tem esperança
 mas já nem sabe de quê...
 JOSÉ MARIA MACHADO DE ARAÚJO

Antes de sair de cena,
peço tempo aos céus risonhos,
pois acho a vida pequena
para a vida de meus sonhos.
JOSÉ LUCAS DE BARROS

Esperança e, simplesmente
um sentimento perjuro:
são mentiras no presente...       
desenganos no futuro...
LECTÍCIA PIRES RANGEL COELHO

Quando a ventura está morta,
deixando a dor como herança,
nossa alma se reconforta,
buscando a luz da esperança!
LEONARDO HENKE

Mesmo sendo uma quimera
 a Esperança anima e acalma,
 pois ela, enquanto se espera,
 enche de rosas nossa alma!...
 LINCOLN DE SOUZA

Esperança é aquela estrela
de verde luz envolvida,
a cintilar, pura e bela,
no céu escuro da vida.
LÚCIA LOBO FADIGAS

Numa era de baixeza,
num mundo de podridão,        
a esperança  é a tocha acesa
que trago no coração.
 LUIZ EVANDRO INOCÊNCIO

A Esperança corre, voa,
mas deixa por onde passa,
uma impressão suave e boa:
de paz, de amor e de graça.
MANOELITA AMORIM MEYER

Quando um bem está perdido
outro nos vem consolar -
Esta esperança, querido,
Deus não me pode negar.
MARIA CARMEM SAUER BATISTA

Culpada de minha dor,
 foi a esperança, Maria.
 Leu nos teus olhos - amor
 em vez de ler simpatia.
 MARIA JOSÉ BARCELLOS CERQUEIRA

De flores tão enfeitada,
loiros cabelos em trança
Neste esquife azul , deitada,
vai toda a minha Esperança.
MARIA JOSÉ FORTES BRAGA

Esperança, isto se chama
e a todo instante acontece:
uma carta... um telegrama...
um meigo olhar... uma prece...
MAURO BARBOSA ARMOND

Com o verde da natureza
e o sorriso da criança
Deus coloriu a tristeza
pondo no mundo a esperança.
NATAL MACHADO

Podes perder mocidade,
amor, ventura, abastança,
nada perdes, em verdade,
se te ficar a esperança.
OCTACÍLIO AZEVEDO

Esperança - nordestino                
numa cerca debruçado,
contemplando, sol a pino,
o verdejante roçado.
OLDEMAR ANDRADE

No porto dos meus anseios
 esperanças são navios,
 que de manhã partem cheios
 e à tarde voltam vazios...
 ORLANDO BRITO

Por que é verdade a esperança?...   
Se todo o mundo soubesse...
- É que, por mais que se espere,
ela nunca amadurece...       
PADRE BELCHIOR D'ATHAYDE

Quando minha alma sentida
nesta vida nada alcança,
inda me resta na vida
- graças a Deus ! - a esperança!
RODOLFO COELHO CAVALCANTI

Quem quiser ver a Esperança
olha uma noiva no altar,
fite um rosto de criança,
repare uma mãe rezar!
SEVERINO UCHOA

Se a família é rica ou pobre
e se o lar é acolhedor,
a gente sempre descobre
pela grandeza do amor! 
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA

No tédio de minha vida
de emoções vazia e nua,
só me torna comovida
a Esperança de ser tua...
VERA MILWARD DE CARVALHO

Ai, do pobre, sem carinhos,
cuja dor se vê na face,           
se no meio dos espinhos,    
a esperança não brilhasse...
VIRGILIO GUERREIRO

A fonte da minha vida
- o meu  sonhar de criança -
não ficou toda perdida…
- Vive um pouco na Esperança...
 ZALKIND PIATIGORSKY

Manuel Bandeira (O Enterro do Sinhô)


J. B. SILVA, o popular Sinhô dos mais deliciosos sambas cariocas, era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente. Zeca Patrocínio, que o adorava e com quem ele tinha grandes afinidades de temperamento, era assim também: descarnado, lívido, frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um moribundo galvanizado provisoriamente para uma farra. Que doença era a sua? Parecia um tísico nas últimas. Diziam que tinha muita sífilis. Certamente o rim estava em pantanas. Fígado escangalhado. Ouvia-se de vez em quando que o Zeca estava morrendo. Ora em Paris, ora em Todos os Santos, subúrbio da Central. E de repente, na Avenida, a gente encontrava o Zeca às três da madrugada, de smoking, no auge da excitação e da verve. Assim me aconteceu uma vez, e o que o punha tão excitado naquela ocasião era precisamente a última marcha carnavalesca de Sinhô, o famoso Claudionor…

que pra sustentar família
foi bancar o estivador…

Me apresentaram a Sinhô na câmara-ardente do Zeca. Foi na pobre nave da igreja dos pretos do Rosário. Sinhô tinha passado o dia ali, era mais de meia-noite, ia passar a noite ali e não parava de evocar a figura do amigo extinto, contava aventuras comuns, espinafrava tudo quanto era músico e poeta, estava danado naquela época com o Vila e o Catulo, poeta era ele, músico era ele. Que língua desgraçada! Que vaidade! mas a gente não podia deixar de gostar dele desde logo, pelo menos os que são sensíveis ao sabor da qualidade carioca. O que há de mais povo e de mais carioca tinha em Sinhô a sua personificação mais típica, mais genuína e mais profunda. De quando em quando, no meio de uma porção de toadas que todas eram camaradas e frescas como as manhãs dos nossos suburbiozinhos humildes, vinha de Sinhô um samba definitivo, um Claudionor, um Jura, com um “beijo puro na catedral do amor”, enfim uma dessas coisas incríveis que pareciam descer dos morros lendários da cidade, Favela, Salgueiro, Mangueira, São Carlos, fina-flor extrema da malandragem carioca mais inteligente e mais heroica… Sinhô!

Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas profundas da ralé urbana. Daí a fascinação que despertava em toda a gente quando levado a um salão.

Vi-o pela última vez em casa de Álvaro Moreyra. Sinhô cantou, se acompanhando, o “Não posso mais, meu bem, não posso mais”, que havia composto na madrugada daquele dia, de volta de uma farra. Estava quase inteiramente afônico. Tossia muito e corrigia a tosse bebendo boas lambadas de Madeira R. Repetiu-se a toada um sem número de vezes. Todos nós secundávamos em coro. Terán, que estava presente, ficou encantado.

Não faz uma semana eu estava em casa de um amigo onde se esperava a chegada de Sinhô para cantar ao violão. Sinhô não veio. Devia estar na rua ou no fundo de alguma casa de música, cantando ou contando vantagem, ou então em algum botequim. Em casa é que não estaria; em casa, de cama, é que não estaria. Sinhô tinha que morrer como morreu, para que a sua morte fosse o que foi: um episódio de rua, como um desastre de automóvel. Vinha numa barca da Ilha do Governador para a cidade, teve uma hemoptise fulminante e acabou.

Seu corpo foi levado para o necrotério do Hospital Hahnemanniano, ali no coração do Estácio, perto do Mangue, à vista dos morros lendários… A capelinha branca era muito exígua para conter todos quantos queriam bem ao Sinhô, tudo gente simples, malandros, soldados, marinheiros, donas de rendez-vous baratos, meretrizes, choferes, macumbeiros (lá estava o velho Oxunã da Praça Onze, um preto de dois metros de altura com uma belida* num olho), todos os sambistas de fama, os pretinhos dos choros dos botequins das ruas Júlio do Carmo e Benedito Hipólito, mulheres dos morros, baianas de tabuleiro, vendedores de modinhas… Essa gente não se veste toda de preto. O gosto pela cor persiste deliciosamente mesmo na hora do enterro. Há prostitutazinhas em tecido opala vermelho. 

Aquele preto, famanaz (célebre) do pinho, traja uma fatiota clara absolutamente incrível. As flores estão num botequim em frente, prolongamento da câmara-ardente. Bebe-se desbragadamente. Um vaivém incessante da capela para o botequim. Os amigos repetem piadas do morto, assobiam ou cantarolam os sambas (Tu te lembra daquele choro?). 

No cinema d’a Rua Frei Caneca um bruto cartaz anunciava “A Última Canção” de Al Johnson. Um dos presentes comenta a coincidência. O Chico da Baiana vai trocar de automóvel e volta com um Landau que parece de casamento e onde toma assento a família de Sinhô. Pérola Negra, bailarina da companhia preta, assume atitudes de estrela. Não tem ali ninguém para quebrar aquele quadro de costumes cariocas, seguramente o mais genuíno que já se viu na vida da cidade: a dor simples, natural, ingênua de um povo cantador e macumbeiro em torno do corpo do companheiro que durante tantos anos foi por excelência intérprete de sua alma estoica, sensual, carnavalesca.
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Belida no olho = trata-se de uma pele que cresce sobre a parte branca do olho em direção à córnea.

(O autor narra sua convivência em vida com o famoso compositor da música popular brasileira, Sinhô, que muitos dizem ser o autor do primeiro samba, e a cena de seu velório.)
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     MANUEL CARNEIRO DE SOUSA BANDEIRA FILHO (Recife/PE, 1886 – 1968, Rio de Janeiro/RJ) foi um dos maiores poetas, críticos literários e tradutores do Brasil, consolidando-se como figura central da Primeira Geração do Modernismo Brasileiro. Marcada por uma profunda sensibilidade, sua poesia transformou a fragilidade da saúde em força criativa, libertando a literatura nacional das amarras formais do passado e consagrando sua cadeira na Academia Brasileira de Letras. Embora tenha iniciado os estudos em Engenharia-Arquiteto na Escola Politécnica de São Paulo, Bandeira abandonou o curso em 1904 devido à tuberculose. A partir daí, sua subsistência e rotina profissional se dividiram entre as letras e o ensino. Escreveu intensamente para jornais e revistas, atuando como crítico de literatura, artes plásticas, cinema e música em veículos como O Jornal e Diário de Notícias. Foi nomeado professor de Literatura no tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, em 1938. Mais tarde, tornou-se professor catedrático de Literatura Hispano-Americana na Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil. Trabalhou no serviço público como inspetor do Ministério da Educação e Saúde Pública. Traduziu para o português grandes obras do teatro e da poesia mundial, incluindo autores como William Shakespeare, Friedrich Schiller, Sor Juana Inés de la Cruz e Federico García Lorca.
A vida literária de Manuel Bandeira é intrinsecamente ligada à sua biografia e à história do movimento renovador de 1922. Aos 18 anos, recebeu o diagnóstico de que teria pouca expectativa de vida devido à tuberculose. Essa iminência constante da morte moldou sua sensibilidade poética, gerando uma urgência em viver e uma melancolia profunda, mas frequentemente tratada com fina ironia. Seus primeiros livros, A Cinza das Horas (1917) e Carnaval (1919), ainda guardavam resquícios das formas poéticas tradicionais, mas já revelavam uma atmosfera íntima e inovadora. Embora não tenha comparecido presencialmente à Semana de Arte Moderna de 1922 por motivos de saúde, seu poema Os Sapos foi lido no evento por Ronald de Carvalho. O texto, uma sátira feroz ao formalismo parnasiano, tornou-se o grande hino iconoclasta da revolução modernista. Com livros como Libertinagem (1930) — que contém o famoso poema Vou-me embora pra Pasárgada — e Estrela da Manhã (1936), estabeleceu uma linguagem poética revolucionária e madura.
A relevância de Manuel Bandeira reside na democratização e na redefinição do fazer poético no Brasil. Foi pioneiro em validar o uso do verso livre, do verso branco e da linguagem coloquial (o "português errado" do povo). Ele provou que a poesia não dependia de palavras difíceis ou rimas ricas, mas sim da sensibilidade em extrair o sublime do cotidiano e do banal. Ao contrário de outros modernistas mais radicais, Bandeira manteve um diálogo afetuoso com a tradição literária. Ele dominava as formas clássicas (como o soneto), o que lhe deu autoridade para desconstruí-las com elegância e técnica irretocável. Criou o conceito de "alumbramento" (o êxtase diante das pequenas epifanias da vida). Sua obra conseguiu equilibrar temas pesados, como a solidão, a doença e a morte, com uma leveza lírica, humor cortante e uma profunda celebração da infância e das memórias do Recife.

Fontes:
Manuel Bandeira. “Os Reis Vagabundos e mais 50 crônicas”. RJ: Ed. do Autor, 1966.
Biografia: Academia Brasileira de Letras, Brasil Escola, Ebiografia, Wikipedia, Amazon, etc.

Renato Benvindo Frata (A cobrinha sobre o A)


Um dos maiores pecados que minha família cometeu (eu, como caçula, me incluo) foi o de não ter dado à minha mãe, quando jovem, o direito de aprender a ler e a escrever. Ela só teve a oportunidade pelo Mobral, já com um dos pés na velhice.

Na sua época, o direito à aprendizagem escolar era do homem. A elas, os deveres domésticos e maternais, as “prendas domésticas” convertidas no lavar, arrumar, cozinhar, bordar, parir, cuidar. As tarefas de lidar com o dinheiro: comprar, vender, receber, pagar, fazer contas ou se comunicar por escrito, cabiam somente a eles.

Quando minhas irmãs penavam ao me ensinarem as tarefas escolares, ela se sentava ao lado, e calada, admirava a magia da junção das letras para formar palavras. Mas nunca, nem eu, nem elas, fomos capazes de lhe colocar um lápis entre os dedos e ensiná-la.

Pudesse voltar no tempo... Mas não. Não fomos capazes de conceder esse direito. Nem quando ela, ao ouvir pelo rádio, a oferta do curso de aprendizagem pelo Mobral. Decidida, ela se dispôs a andar quarteirões pelas ruas escuras e buscar, nas carteiras escolares daquele projeto, a bênção do aprendizado. Meus cadernos deixados incompletos por relaxo foram, um a um, aproveitados nos seus escritos tremidos, de a a z a formar palavras, que até ali ela somente sabia dizer, não ler, nem escrever.

Levando meus olhos para o ontem, vejo, na escuridão do tempo, ela debruçada à mesa ao lado do fogão que, ressentido com as últimas brasas, a acompanhava nos estudos. E ela escreveu: “a menina abriu o portao”. Sem o til. Ainda não havia aprendido o uso dele nos sons anasalados das letras. E a ensinei, diante de seu olhar crescido, quase fosforescente, de agradecimento, a colocar a ‘cobrinha’ sobre o a.

Por que me lembro agora? Não sei. Talvez a saudade, essa marota que sai a cutucar lembranças belas e más, satisfatórias e doloridas, me sirva para avaliar o tempo que não aproveitei como devia.

Diante da edição do Diário da última terça, dia 9, lembro que o DN acabou de lançar mais uma etapa do seu belíssimo projeto: “Semeando Leitores”. Ele visa incentivar os jovens à leitura e à escrita na formação da cidadania.

Motiva o hábito da leitura para que nossas crianças desenvolvam imaginação, vocabulário, criatividade, empatia, concentração e senso crítico, habilidades que as acompanharão por toda a vida.

Se você, amigo leitor, tiver uma criança à sua volta, não perca a oportunidade que minha família perdeu. Ensine-a na boa prática da leitura, e deixará de cometer os pecados pelos quais pagamos o preço.
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    RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Antônio Callado (Bar Don Juan)


Quando estacionou diante do edifício, na Lagoa, Karin já estava na calçada à sua espera, sapatos de corda, um impermeável por cima da roupa de banho, e, no bolso, um frasco de prata com vodca.

Escandalizou-se ao ver que Mansinho não vinha de calção de banho por baixo da capa.

— Você não vai cair n’água?

— E você? Está querendo me ver, depois desse tempo todo, ou só quer tomar banho de mar?

No apartamento de Karin tinha uísque, vodca, sardinha e pão. Que besteira tomar banho de mar. Foram subindo a Rua Montenegro e, ao chegarem à praia, dobraram à direita. Resignado que estava de andar até o Arpoador, Mansinho se animou, achando que iam parar talvez diante do Country, mas Karin prosseguiu pela calçada. Pelas alturas do Cinema Miramar, Mansinho teve uma dúvida atroz. Será que a Karin queria andar pela Avenida Niemeyer até o Vidigal, a Gávea, a própria Barra? Karin parou no fim do Leblon e obrigou Mansinho a tirar os sapatos para andarem na beira do mar. Entre as pedras achou flores da véspera, três copos-de-leite de talos amarrados com fita branca. Karin declamou para o mar, restituindo as flores às ondas;

Todo coberto de lírios 
de velas, fogos e círios
o ano estava estendido
das areias de Ipanema
aos rochedos do Leblon.
Diante do ano morto
lemanjá dá reveillon.

— O que é isso? — disse Mansinho.

— Ora! O poema do Murta. 

— Você sabe tudo de cor, hem!

— Claro! Pois o poema foi feito para mim.

Mansinho ficou meio amuado. Karin tomou um trago de vodca. Apesar da ressaca, Mansinho, resignado, bebeu também. Estava se sentindo mofado, úmido.

— Por que é que Murta depois começou a fugir de mim? Eu sempre tive tanta vontade de ser amada por uma poeta.

— Murta é cineasta. Pelo menos é o que ele diz.

— Quem faz versos é poeta. Onde é que ele anda?

— Em caso de dúvida, procure no Don Juan’s. Se formos até lá é quase certo encontrar o Murta.

— Ele me adorou aquela noite na areia, se lembra, de joelhos, e depois deixou a festa e veio me procurar, andou comigo pela praia inteira, recitando os versos que tinha feito. Mas não me propôs nada.

Mansinho deu de ombros. Puseram-se a andar pela beira da praia, Karin apanhando conchas, cantarolando, inventando uma música para cantar com o poema:

Dançando no gume fino
da meia-noite lunar!

Mansinho foi ficando mais emburrado e Karin cada vez mais alegre e cantadeira. Ao passarem pela frente da Rua General Urquiza ele propôs que fossem para o Bar Don Juan mas Karin, sem responder, enfiou o braço no braço dele andando e cantando. Quando chegaram à desembocadura do canal do Jardim de Alá, sentou-se no paredão que avançava pelas ondas cinzentas. Mansinho já tinha molhado as calças até os joelhos e a garoa lhe pingava dos cabelos. Dois desocupados, no paredão oposto, olhavam em frente, ou vagamente estudavam a grande escavadeira empregada no alargamento do canal. Enquanto os trabalhadores, na areia, enchiam a boca com a comida tirada da marmita, a bocarra de ferro da escavadeira descansava, os dentes imensos imobilizados em torno de uma rocha. Karin passou a mão nos cabelos encharcados de Mansinho e tomou mais vodca.

— Fala alguma coisa

— Você gosta de versos e eu só tenho prosa. De mais a mais você é que deve ter alguma coisa a contar. O que é que fez durante uma semana inteira?

Karin o olhou séria.

— Aproveitei o pretexto de estudar a festa do Círio de Nazaré e fui conhecer a tua terra.

Mansinho arregalou os olhos.

— Você foi a Belém do Pará?

Karin fez que sim com a cabeça e tomou as mãos de Mansinho nas suas. Mansinho teve grande desejo dela e vontade de deitá-la ali mesmo, na areia ou até no dorso do paredão, mas ao mesmo tempo sentiu com certa melancolia aquele principio de enjoo que sempre lhe davam as mulheres quando passavam do porre da posse e da boa cegueira física inicial para uma fixação de sentimentos.

Domesticadas e ciscando o chão até as garças viram galinhas.

Da janela do escritório do Bar Don Juan, Aniceto viu Mansinho e Karin que chegavam da praia e ficou pensando na Da Glória. Que estaria fazendo em Pão de Açúcar da beira do São Francisco, ela da voz rouca e que sabia falar longa e misteriosamente — como se tivesse aprendido a falar com o rio — mas que era tão breve de carta e de escrita tão vazia? Tinha medo dos escritos.

“Palavra escrita é feito passarinho na gaiola”, dizia. “Se um dia eu receber um telegrama me mato mas não abro.”
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    ANTÔNIO CARLOS CALLADO (Niterói/RJ, 1917 – 1997, Rio de Janeiro/RJ) foi um dos maiores intelectuais, jornalistas e ficcionistas brasileiros do século XX. Conhecido por seu profundo engajamento político, ele usou a literatura e o jornalismo para decifrar a identidade do Brasil e denunciar as injustiças sociais. Em 1994, sua trajetória foi consagrada com sua eleição para a Academia Brasileira de Letras. Embora tenha se formado em Direito em 1939, Callado nunca exerceu a advocacia. Sua verdadeira subsistência e grande escola do mundo foi o jornalismo, profissão que exerceu por quase 40 anos: Começou em 1937 no jornal O Globo e no Correio da Manhã (onde chegou a ser redator-chefe). Também teve passagem marcante pelo Jornal do Brasil. Correspondente Internacional durante a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para Londres e trabalhou na BBC (de 1941 a 1947), cobrindo o conflito histórico. Logo após, atuou no Serviço Brasileiro de Radiodifusão em Paris. De volta ao Brasil, realizou coberturas históricas sobre as Ligas Camponesas e a causa indígena. Além disso, coordenou a edição da famosa Enciclopédia Barsa na década de 1960. Callado via o jornalismo como ganha-pão e a literatura como sua primeira e maior vocação. Ele estreou na ficção nos anos 1950, mas atingiu o ápice literário ao se tornar o principal cronista ficcional da resistência à ditadura militar. Escreveu peças de grande relevância nacional, como Pedro Mico (1957) e A Revolta da Cachaça. Seus livros formam um painel vivo sobre o autoritarismo e a luta armada: Quarup (1967): Seu livro mais célebre, narra a transformação do Padre Nando, que deixa o misticismo religioso para se conscientizar politicamente no interior do país; Bar Don Juan (1971): Focado nas desilusões e impasses da esquerda intelectual. Seu engajamento não ficou só no papel. 
    Callado foi preso duas vezes pelo regime militar por causa de suas opiniões e de sua ligação com redes de apoio à militância. A relevância de Antônio Callado para as letras nacionais baseia-se em: 1. Criação do "Romance-Reportagem" moderno: Callado uniu a precisão da apuração jornalística à sensibilidade da prosa literária. Ele não esperou a história esfriar para escrever; transformou o calor dos acontecimentos políticos urgentes do Brasil em alta literatura contemporânea.  2. Discussão da Identidade Nacional: Suas obras colocaram em pauta temas negligenciados pelas elites urbanas, como as fronteiras geopolíticas brasileiras, a exploração dos povos indígenas e a miséria do homem do campo. O Xingu e o Nordeste aparecem em seus livros como o coração geográfico e social do país. 3. Memória Viva da Resistência: Enquanto a censura tentava apagar os crimes do Estado, os romances de Callado funcionaram como um arquivo vivo de denúncia. Ele deu voz às contradições, fraquezas e coragens da geração que combateu o totalitarismo.

Fontes:
Antonio Callado. Bar Don Juan. Publicado originalmente em 1971.
Biografia:: Revista Cult, Revista da USP, Itau Cultural, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, etc.

domingo, 14 de junho de 2026

Asas da Poesia * 192 *


Trova Humorística de
MARINA BRUNA
Franca/SP, 1935 – 2013, São Paulo/SP

"Dez filhos do mesmo leito?!"
pergunta o padre e ela fala:
"Acho que não, pois suspeito
que um é da rede da sala..."
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Poema de
CARLOS EDMUNDO DE ORY 
Cádiz/ Espanha, 1923 - 2010, Thézy-Glimont/ França

Poema

Amo aquilo que arde
o que voa e se abre
o que enlouquece e cresce
o que salta e se move
aquilo que bebe os ventos
e é música e contato
o que é vasto e é casto
o que é milagre e perigo
e se espreguiça e respira
e viaja por capricho.
Amo viajar descalço.
(Tradução: Herberto Helder)
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Aldravia de
ANGELA TOGEIRO
Belo Horizonte/MG

mente
jovem,
corpo
envelhecendo:
ninguém
merece!
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Soneto de
JOÃO COSTA
Saquarema/RJ

Viajante do Tempo

Venho de longe, nos ombros trazendo
peso de vidas outrora vividas.
Venho de longe, venho de outras vidas,
tempo afora vivendo e revivendo.

De tempos idos, priscas eras idas
venho volvendo tempo-espaço, sendo
em cada ciclo (vivendo e aprendendo)
preparado para futuras vidas.

E sigo nesta contínua viagem
pelo que chamam tempo. Na bagagem
vou transportando infinitas memórias.

Venho de longe e vou rumo ao futuro
– destino infinito. Sigo seguro
de que ainda viverei muitas histórias.
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Trova de
ABÍLIO KAC 
Rio de Janeiro/RJ

Num dos rodeios da vida
conquistei o meu espaço...
Não pela prova vencida,
mas por vencer meu fracasso!
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Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

A Torre Azul

É preciso construir uma torre
- uma torre azul para os suicidas.
Têm qualquer coisa de anjo esses suicidas voadores,
qualquer coisa de anjo que perdeu as asas.
É preciso construir-lhes um túnel
- um túnel sem fim e sem saída
e onde um trem viajasse eternamente
como uma nave em alto-mar perdida.

É preciso construir uma torre…
É preciso construir um túnel…
É preciso morrer de puro,
puro amor!…
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QUADRA POPULAR

Que cigarro tão cheiroso!
Me dê uma fumacinha.
Com a desculpa do cigarro,
sua mão pega na minha.
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Soneto de
FERNANDO FORTES
Carlos Fernando Fortes de Almeida
Rio de Janeiro/RJ, 1936 – 2016

X

Tu finges que és feliz e em ti persiste
A miséria de todos os humanos
Se os anos da existência foram tristes
Não há por que ocultar teus próprios danos.

Fizeste pela vida tantos planos
E nenhum de teus planos construíste
Tudo aquilo que um dia possuíste
Foi poeira na estrada de teus anos.

A velha eternidade te carrega
No seu colo triunfal de fantasia
Mas foge o tempo e a morte ainda não chega.

Buscas a Deus e o mesmo Deus te nega
O coração do céu que se anuncia:
Pois Deus existe mas jamais se entrega.
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Trova de
VANDA ALVES DA SILVA
Curitiba/PR

Na vida vivo tentando
tornar meu mundo risonho,
pois a tristeza vem quando
existe ausência de um sonho.
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Poema de
ROGÉRIO SALGADO
Belo Horizonte/MG

Conceito
para Otávio de Campos

Sou o que representa
a febre, a dor
a expressão exata
a corda que desata
todos os nós acorrentados
aos conceitos do que
querem que a poesia seja.

Canto a canção ferida
daquilo que é doído

tenho olhos de vidros partidos
e a imensidão de compor.

Não me estabeleço
amanheço, entardeço, anoiteço
na forma mais concreta.
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Haicai de
GIL NUNESMAIA
Ilhéus/BA

Vi a lua cheia
entre fios telegráficos:
uma semibreve!
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Setilha de
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Mesmo com tanta maldade
eu alimento a esperança,
de ver um mundo feliz
sabendo que não se alcança;
mas esta fé que me guia,
vem da força da poesia
que trago desde criança.
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Trova de
OLYMPIO COUTINHO
Belo Horizonte/MG

Nada recebe quem nega
 dar amor ou coisa assim...
 Só colhe flores quem rega
 dia e noite o seu jardim.
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Glosa de
GISLAINE CANALES
Herval/RS, 1938 – 2018, Porto Alegre/RS

Entrar no céu sonhando

MOTE:
Sei que, deste mundo lindo,
vou sair, só não sei quando,
mas quero morrer dormindo
para entrar no céu sonhando.
JOSÉ LUCAS DE BARROS 
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

GLOSA:
Sei que, deste mundo lindo,
o meu tempo está escasso,
mas continuo sorrindo...
Sou feliz, por onde passo.

Tenho sim, plena certeza,
vou sair, só não sei quando,
vou deixar esta beleza:
o mundo, que estou amando!

Dias e noites, vão indo,
e a morte ronda por perto...
Mas quero morrer dormindo,
morrerei feliz, por certo!

Vou dormir, tal qual criança,
mil sonhos acalentando,
não perderei a esperança...
Para entrar no céu sonhando.
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Aldravia de
MIRIAM STELLA BLONSKI
São Gonçalo do Rio Abaixo/MG

olhos
vazios
de
sonhos:
face
perdida
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Soneto de
MARIA JOSÉ GIGLIO
São Paulo/SP

[4]

Não se deve gritar ao surdo vento
a canção destinada a ser ouvida
na glória silenciosa de um momento
no efêmero momento de uma vida.

Não se deve pedir ao isolamento
a comunhão ao gênio oferecida,
na face opaca do deslumbramento
espelha-se a maldade enlanguecida.

Não bastam para a vida os temas puros,
não dês à morte falsos esconjuros
que vida e morte se rirão de ti.

Ama, inda que esse amor semelhe um crime
pois só o amor de teu amor redime
a dispersão das almas que perdi.
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Trova Premiada  de
MILTON SOUZA 
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

Madrugada… No infinito,
estrelas a cintilar…
Mas meu céu é mais bonito:
ele brilha em teu olhar!
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Poema de
OSWALD DE ANDRADE
São Paulo/SP, 1890 – 1954

Escapulário

No Pão de Açúcar 
de cada dia 
Dai-nos Senhor 
a Poesia 
de cada dia. 
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Triverso de
GRACIANE DOS SANTOS SILVA
São Paulo/SP

Vento forte na janela
a menina se assusta -
Trovoada.
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Ramalhete de Trovas de
NEMÉSIO PRATA 
Fortaleza/CE

Olhando com bem clareza
pras marcas do seu herdeiro,
já não tem tanta certeza
de ser o pai verdadeiro!

Olho azul, branco e lourinho
o filho do "Zé Negão"
lembrava mais o vizinho;
coitado, tinha razão!

Mas o popular ditado
diz que Pai é o que cria,
sem olhar se foi botado,
ou se feito à revelia!
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Trova de
FRANCISCO JOSÉ PESSOA
Fortaleza/CE, 1949 - 2020

Quando o sol se faz mais forte
e a chuva responde...não!
a silhueta da morte
se espraia pelo sertão. 
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Poema de
APARECIDO RAIMUNDO DE SOUZA
Vila Velha/ES 

Memórias de um verão

O sol brilhava forte no céu.
e o mar cintilava como diamantes.
Nós corríamos pela praia,
rindo, brincando, sem preocupações;
apenas dois jovens amantes

As noites eram quentes e longas
e as estrelas brilhavam como fogos de artifício.
Nós dançávamos ao som do vento
e o mundo parecia um lugar mágico
sem mágoas ou sofrimento

Mas o verão passou...
e as memórias ficaram
guardadas no coração;
como um tesouro precioso
Repleto da mais pura emoção

Agora, quando penso naquele tempo,
Sinto uma saudade doce...
E embora o verão tenha ido embora;
as memórias permanecem, vivas e quentes
pairando, contudo, num silêncio estranho lá fora 
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Hino de 
JUIZ DE FORA/MG

Viva a Princesa de Minas,
Viva a bela Juiz de Fora,
Que caminha na vanguarda
Do progresso estrada a fora! 

Os seu filho operosos
Asseguram-lhe o porvir,
Para vê-la grandiosa 
Nunca têm mãos a medir...

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.

Demos palmas, demos flores
Aos encantos da Princesa!
Ela é rica de primores
Da poesia e da beleza.

É a cidade aclamada,
Do trabalho e da instrução,
É do Cristo abençoada
Sob o sol da religião.

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.

Das cidades brasileiras
Sendo a mais industrial,
Na cultura e no trabalho
Não receia outra rival.
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Poetrix de
CARLOS ALBERTO FIORE
Limeira/SP

Pico

Sons, buzinas, neuroses.
Pressa predadora, desumana.
A rua enfrenta o dia.
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Poema de
HERBERTO HELDER
Funchal/Ilha da Madeira/Portugal, 1930 – 2015, Cascais/Portugal

Sobre um Poema

Um poema cresce inseguramente
na confusão da carne,
sobe ainda sem palavras, só ferocidade e gosto,
talvez como sangue
ou sombra de sangue pelos canais do ser.

Fora existe o mundo. Fora, a esplêndida violência
ou os bagos de uva de onde nascem
as raízes minúsculas do sol.
Fora, os corpos genuínos e inalteráveis
do nosso amor,
os rios, a grande paz exterior das coisas,
as folhas dormindo o silêncio,
as sementes à beira do vento,
- a hora teatral da posse.
E o poema cresce tomando tudo em seu regaço.

E já nenhum poder destrói o poema.
Insustentável, único,
invade as órbitas, a face amorfa das paredes,
a miséria dos minutos,
a força sustida das coisas,
a redonda e livre harmonia do mundo.

- Em baixo o instrumento perplexo ignora
a espinha do mistério.
- E o poema faz-se contra o tempo e a carne.
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Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Se vejo o mundo às escuras,
embarco em meu sonho...e assim,
subo a escada e, nas alturas,
acendo um sol para mim!
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Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

Ossos do ofício

Uma vez uma besta do tesouro
Uma besta fiscal,
Ia de volta para a capital
Carregada de cobre, prata e ouro,
E no caminho
Encontra-se com outra carregada
De cevada
Que ia para o moinho.

Passa-lhe logo adiante
Largo espaço,
Coleando arrogante
E a cada passo
Repicando a choquilha,
Que se ouvia distante.

Mas salta uma quadrilha
De ladrões,
Como leões,
E qual mais presto
Se lhe agarra ao cabresto.
Ela reguinga e dá uma sacada,
Já cuidando
Que dispersava o bando;

Mas, coitada!
Foi tanta a bordoada,
Que exclamava enfim
A besta oficial:
«Nunca imaginei tal!
Tratada assim...
Uma besta real!
Mas aquela, que vinha atrás de mim,
Porque a não tratais mal?!

— Minha amiga! cá vou no meu sossego:
Tu tens um belo emprego;
Tu sustentas-te a fava, e eu a troços;
Tu lá serves El-Rei, e eu um moleiro;
Eu acarreto grão, e tu dinheiro:
Ossos do ofício... que não há sem ossos!»
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Colaborações: gralha1954@gmail.com