domingo, 12 de abril de 2026

José Feldman (Sonhando ou Não?)


Local: Uma Universidade, Sala 203.

Hora: 21h30 da noite.

Clima: Ar-condicionado no talo, cheiro de café velho e tensão literária no ar.
 
A sala 203 do departamento de Letras Inglesas estava mais agitada que o normal. O ar condicionado parecia ter entrado em greve, e o calor tornava a discussão sobre as fadas e duendes de Shakespeare um desafio extra.

A turma estava reunida para discutir Sonho de uma Noite de Verão. A professora Léia, uma mulher que vestia tweed mesmo no calor de 30 graus, ajustou os óculos e olhou para a classe.
 
— Muito bem, turma. Hoje vamos desconstruir a obra-prima de Shakespeare. Quem pode começar dizendo o que entendeu da relação entre o mundo real e o mundo mágico na floresta?
 
Silêncio absoluto. O tipo de silêncio que faz parecer que todo mundo está estudando anatomia do próprio umbigo.
 
Até que o Juninho, que sentava sempre na última carteira e chegava sempre atrasado, levantou a mão devagar.
 
— Professora, posso falar?

— Claro, Juninho. Surpreenda-me.

— Bom, eu acho que o livro é basicamente uma farra que deu errado. Tipo, imagine a situação: quatro amigos vão para uma mata, todo mundo apaixonado pela pessoa errada, tem um duende que fica jogando suco de flor no olho das pessoas e... pronto, vira bagunça generalizada. É tipo o carnaval, mas com mais elfos e menos bloco da Banda Mole.
 
A turma riu. A professora suspirou, mas sorriu.
 
— Uma analogia interessante, Juninho.

— Eu simplesmente não entendo por que o Oberon não poderia ter simplesmente conversado com a Titânia - disse Brenda, uma aluna com um coque apertado que parecia prestes a explodir de tanto conhecimento reprimido. – Todo aquele drama com a flor mágica... francamente, um pouco de comunicação resolveria tudo.

— Ah, Brenda, mas onde estaria a graça? - retrucou Carlos, um rapaz com óculos de aro grosso que parecia mais interessado nos padrões do carpete. – Shakespeare não escreveu uma peça sobre 'Diálogo de Casal em Uma Tarde Quente de Verão'. Ele escreveu sobre magia, caos e... bem, um monte de gente correndo pela floresta atrás da pessoa errada.

A Professora Léia, uma mulher britânica com um olhar que já tinha visto mais sonetos do que a maioria das pessoas viu novelas, pigarreou. – Carlos tem um ponto, Brenda. A peça explora os impulsos irracionais, a natureza do amor e do desejo, que muitas vezes desafiam a lógica e a comunicação clara. A magia é um catalisador para isso.

— Mas vamos aprofundar. E sobre o amor? Shakespeare retrata o amor como algo racional ou... caótico?
 
A Márcia, a aluna destaque que sempre tinha o livro grifado em 5 cores diferentes, levantou a mão antes mesmo do professor terminar a frase.
 
— Com licença, professora. Na minha visão, a peça ironiza o amor cortês. Veja bem: Lisandro diz "O amor é um cego e um audacioso", ou seja, ele admite que a paixão anula o raciocínio lógico. É uma crítica social à forma como nos deixamos levar pela emoção ao invés da razão.
 
— Isso tudo muito bonito, Márcia — interrompeu o Pedro, que estava coçando a cabeça — mas vamos ser sinceros? O problema ali não é amor não, é má comunicação! Se o pai da Hérmia tivesse sentado e conversado como gente grande, ao invés de falar "ou casa com quem eu quero ou vai para o convento", nada disso teria acontecido. É o tipo de pai que acha que autoridade é tudo e diálogo é conversa fiada.
 
— Exato! — gritou a Bia do fundo — E a Helena então? Meu Deus, que menina carente! Ela fica correndo atrás do Demétrio tipo "me ama, me ama", e ele tratando ela mal. Eu queria entrar no livro e dar um sacode nela: "Amiga, se toca! Ele não te quer! Vamos tomar um açaí e esquecer esse boy lixo!"
 
— Mas é justamente aí que está a genialidade, Bia! — defendeu Márcia, já esquentando — Ela representa a perseverança do amor verdadeiro!

— Perseverança nada! É falta de amor-próprio! Hoje em dia ela tinha um grupo de amigas no WhatsApp dizendo "ele não te merece, amiga"!
 
A discussão estava esquentando quando o Zé, um cara mais quieto que só falava quando tinha algo realmente engraçado para dizer, resolveu dar sua opinião sobre os personagens operários.
 
— Eu quero falar daquela trupe de teatro, o Bottom e a turma. Aquilo sim é a cara da nossa universidade.
 
— Como assim, Zé? — perguntou a professora.
 
— Tipo, eles são uns amadores, sem noção nenhuma, mas acham que são os maiores atores do mundo. O Bottom então? Quer fazer todos os papéis! Quer ser o herói, quer ser a donzela, quer ser o leão! É igual aquele aluno que se inscreve em todos os projetos de extensão, quer falar em todas as bancas, mas na hora do vamos ver...
 
— ...não sabe nem recitar uma fala direito! — completou Juninho, caindo na gargalhada.
 
— Pera lá! — protestou Zé — E o melhor momento da peça inteira? Quando o duende coloca a cabeça de burro no cara! Poxa, que vingança mais shakespeariana! Imagina você tá lá, todo convencido, do nada acorda com cabeça de jumento. Que trauma, professora!
 
— É a metamorfose da vaidade, Zé. Ele se achava superior, então foi transformado naquilo que seu comportamento representava: teimosia e arrogância.

— Sei, mas que vergonha ele deve ter sentido né? Principalmente quando a rainha das fadas acordou e se apaixonou por ele com a cabeça de burro. Coitada, deve ter bebido muito suco de flor mesmo.

— Mas o Puck! - exclamou Brenda, batendo levemente na mesa. – Aquele duende é o maior causador de problemas! Ele transforma o Bottom em um burro! Um burro! E por quê? Porque ele estava seguindo ordens mal dadas. Se ele tivesse um bom senso de humor, teria transformado o Oberon em um sapo.

Um risinho escapou de Miguel, que estava esparramado em sua cadeira, fingindo tirar um cochilo. Ele se endireitou. — Ou talvez o Puck só estivesse entediado. Imagina ser um duende imortal. Você precisa de algum entretenimento, certo? E transformar um tecelão em um burro para o deleite da rainha das fadas parece um bom passatempo.

— Um bom passatempo que causa um transtorno amoroso monumental! - insistiu Brenda. – E o que dizer da Helena? Ela é praticamente uma stalker. Ela não tem um pingo de dignidade.

— Dignidade? - riu Carlos. – Amor não tem a ver com dignidade, Brenda. Tem a ver com perseguição, com loucura, com fazer coisas completamente estúpidas. Helena é a personificação do amor não correspondido levado ao extremo.

Brenda arqueou uma sobrancelha. — Você quer dizer que você perseguiria alguém pela floresta, implorando por atenção, depois que a pessoa te chamou de tudo, menos gente?"

Carlos deu de ombros. — Talvez não pela floresta. Talvez mais por mensagens de texto com muitos emojis de coração partido. A essência é a mesma.

A professora Léia sorriu. — A beleza de Shakespeare, meus caros alunos, é que ele nos permite explorar essas facetas da natureza humana – o amor, o ciúme, a confusão, o desejo – através de um lente fantástica. A floresta mágica é um reflexo do nosso próprio mundo interior, onde a lógica muitas vezes se perde e os impulsos tomam o controle.

— Então, o que você está dizendo, professora - disse Miguel, com um sorriso maroto – é que todos nós temos um pouco de Puck dentro de nós, querendo transformar alguém em um burro?"

Um coro de risadas preencheu a sala,

A discussão mudou de rumo novamente. A Carol, que estava quieta até agora, perguntou:
 
— Professora, mas uma coisa que eu não entendo é: tudo isso acontece em uma noite? Tudo isso? Casamentos, confusão, teatro, transformação... Em uma noite só?
 
— Sim, Carol. A ação se passa em menos de 24 horas.

— Nossa, que agilidade! Eu demoro três dias para decidir que roupa usar e eles resolvem toda a vida amorosa em um sábado à noite. Inspirador.
 
— É que na época não tinha Instagram, Carol. Se tivesse, o Lisandro teria postado story com a Helena, depois apagado, bloqueado, desbloqueado... ia demorar um mês para resolver — brincou Pedro.
 
A professora olhou para o relógio e viu que já eram 22h35. A aula tinha passado voando.
 
— Muito bem, turma. Vocês conseguiram transformar uma tragédia romântica... ou melhor, uma comédia romântica, em uma sessão de conselhos amorosos e críticas sociais. Mas quero deixar uma última pergunta para vocês pensarem: afinal, tudo o que aconteceu foi real ou foi apenas um sonho, como o título sugere?
 
Juninho bateu na carteira, com a resposta na ponta da língua:
 
— Professor, com toda a certeza do mundo... foi sonho!

— Por que, Juninho?

— Porque ninguém consegue ser tão louco, se apaixonar tão rápido e viver tantas aventuras assim e acordar vivo no dia seguinte sem ter sido uma alucinação coletiva! Ou então... eles tinham fumado alguma coisa naquela floresta. Shakespeare era moderno demais, professor.
 
— Cala a boca, Juninho! — gritou a turma toda rindo.
 
— Enfim — concluiu a professora, fechando o livro — A beleza da obra é que cada um vê o que quer. Para uns é poesia, para outros é confusão, para o Juninho aqui é uma festa underground. De qualquer forma, para a próxima aula quero um ensaio de duas páginas sobre "O uso da magia como elemento narrativo". E Juninho...

— Sim, senhora?

— Nada de mencionar "festa" nem "cabeça de burro" no seu texto. Pelo menos não com essas palavras.
 
— Fechado, professora. Vou escrever sobre "metamorfose zoológica e suas implicações sociais".

— Aula encerrada!
 
A turma começou a arrumar as mochilas, ainda rindo e discutindo se o Bottom merecia aquilo ou não. Lá fora, a lua brilhava, e na Sala 203, Shakespeare finalmente pôde descansar em paz... ou talvez estivesse rindo junto com eles do outro lado do espelho.
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RESUMO DA OBRA
A obra mistura o mundo real com o sobrenatural em uma trama repleta de desencontros amorosos e magia. A história se passa em Atenas e em um bosque místico nos arredores da cidade. Hérmia ama Lisandro, mas seu pai, Egeu, quer que ela se case com Demétrio. Sob a ameaça da lei ateniense, o casal foge para a floresta, sendo perseguido por Demétrio e por Helena (que é apaixonada por Demétrio). No bosque, o Rei Oberon e a Rainha Titânia estão em conflito. Oberon ordena que seu servo, o duende Puck, use o suco de uma flor mágica para fazer Titânia se apaixonar pela primeira criatura que vir ao acordar. Puck também tenta intervir nos problemas dos amantes humanos, mas acaba confundindo os casais, causando um caos generalizado onde ambos os rapazes passam a perseguir Helena. Um grupo de trabalhadores amadores ensaia a peça "Píramo e Tisbe" para o casamento do Duque Teseu. Puck transforma a cabeça de um deles, Bottom, na de um burro. Devido ao feitiço de Oberon, Titânia acorda e se apaixona perdidamente pelo homem com cabeça de burro. 
Após uma noite de confusões extremas, Oberon decide desfazer os feitiços. Puck corrige os erros com os amantes: Lisandro volta a amar Hérmia, e Demétrio permanece sob o efeito da magia, apaixonado por Helena. Todos acreditam que os eventos da noite foram apenas um sonho. A peça termina com um casamento triplo e uma apresentação cômica e desastrosa feita pelos artesãos no palácio. 
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JOSÉ FELDMAN (71), poeta, escritor, professor, copidesque e gestor cultural de Floresta no estado do Paraná. Pertenço a diversas academias de letras do Brasil, Portugal, Suíça e Romênia. Fui Delegado da UBT em Ubiratã, ajudei na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Organizei diversos torneios de trovas, assim como elaborei centenas de boletins e e-books de trovas. Aposentado. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior. Possuo 8 livros publicados e 4 em andamento. Editor dos blogs Singrando Horizontes, Pérgola de Textos, Chafariz de Versos e Voo da Gralha Azul (dedicado à trova).

Fontes:
José Feldman. Pérgola de textos. Floresta/PR: Plat. Poe. Biblioteca Voo da Gralha Azul.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing