Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

Luis Rebelo (A camisa do noivado)

(vocabulário de algumas palavras colocadas ao final do texto)

I

Quando Telo, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do castelo de Algouço, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens de armas escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Soeiro Lopes; alma negra do senhor, onde alcançara com o braço, deixara sempre vestígios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia, o vilico (era o seu título naquele tempo) não pôde conter o sorriso, rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas à porta despediram-no asperamente, respondendo que Sua Mercê repousava, e que ninguém o despertaria para dar audiência a um vilão. A princípio, Telo pôde sopear a ira; mas a pouco e pouco, a alienação irritou-o e levantou a voz. Soeiro Lopes assomou de repente à porta. Inteirado do motivo da disputa, virou-se para o besteiro e perguntou:

— A que vens aqui?

— Trazer o que mandaste e pedir o cumprimento da promessa! — redargüiu ele, friamente.

O senhor empalideceu. Um estremecimento, que não soube vencer, sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvíssima e transparente, que vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez na sua vida. Depressa se recobrou e, medindo o mancebo com indizível escárnio, replicou:

— Pedi-te duas camisas fiadas e tecidos com os fios das urtigas da sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha mortalha. Palavra de cavaleiro não quebra! Se cumpriste, não hei de faltar. As camisas?!

— Ei-las! — acudiu o besteiro. — Urtigas deram o fio e fadas teceram o pano.

Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admirável bem mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha, D. Soeiro tremia. Sobre o peito, em letras cor de sangue, viu as iniciais do seu nome e pondo o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das três esposas que tinham passado ao túmulo do seu leito.

— Bem! — exclamou. — Silvana é tua se a achares. Quanto à mortalha.. Veremos esta noite quem a veste!

Não esperou por mais o besteiro, e partiu apressando o passo, caminho da choupana de Aldonça. Um pressentimento vago advertia-o de perigo incerto. A tristeza oprimia-lhe o peito; todavia, a boa nova, que levava, devia alegrá-lo. A noite fechou-se escura. O tempo mudado. Rugindo no pinhal, o vento arrancava por entre as ramas das árvores gemidos lúgubres. No céu apagavam-se as estrelas uma após outras debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima do último outeiro. Sem saber por que, sentiu-se Telo desalentado. Ele, o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos, deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando chegou à choupana, achou a casa erma e a porta arrombada, e acabou de crer que os presságios não mentem. Bastava olhar para dentro para adivinhar uma cena violenta. A lâmpada ardia ainda junto do lar, e luz mortiça deixava ver os escaninhos partidos, os vasos de barro pisados, as arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em um feixe. O mancebo parou e debalde quis ligar as idéias. O golpe inopinado tinha-lhe quebrado as forças. Nem o ânimo, nem a razão se prestavam a ajudá-lo.

Fora rapto? Fora vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia! Saltaram-lhe então as lágrimas, e a dor foi tão penetrante, que, a não se encostar, cairia desfalecido. Ocorreram-lhe as palavras de Soeiro Lopes, e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do castelo, e àquela hora entrava talvez as portas do A1cácer, que para ela eram as portas do sepulcro. “É tua, se a achares!” — dissera o larápio. A quem iria Telo pedir justiça? Lutando com a agonia, sentiu que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava à donzela senão a morte depois da infâmia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou, atribulado:

— Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não embainhei a espada da justiça!

No meio destas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no ombro. Olhou. Viu Aldonça. Um sinal imperioso atalhou em seus lábios o grito que iam soltar. Guiando-o calada, a protetora de seus amores chegou a um lugar deserto, e apontando para um cavalo ajaezado, preso ao tronco de uma árvore, disse-lhe rapidamente :

— Monta!

O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha ajuntou:

— O mordomo de Soeiro Lopes entrou aqui e levou roubada a tua noiva. Corre, que por tua felicidade corres e não pares senão na vila de Miranda. Busca os paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és, dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro desta manhã. Dá-lhe a trompa, conta-lhe o sucedido e faze o que te mandar. Antes de sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão cumprido o seu fado.

O mancebo, atônito, viu-a desaparecer, e, largando as rédeas, partiu direto à vila.

II

Como o Douro vai fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os penedos do seu leito! Que trovões rebramam as águas despenhadas em cascatas contra as penhas que lhe oprimem a fúria corrente! Como a noite se cobre de luto quase de repente, de minuto para minuto! Aos bramidos do vento responde o estampido longínquo da tempestade. Os relâmpagos fuzilam sobre as eminências.

Lá em cima, nos penhascos fragosos, que vila é aquela cujas torres negras estrelam vivas luzes pelas frestas pontiagudas? Seguindo a margem do rio, Telo Vasques não sente fadiga; o brioso corcel devora a distância. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo atravessa pontes e estradas, enfia ruas e vilas, e pára no terreiro, defronte dos paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas intentam detê-lo; mas, sem voltar a cabeça, e continuando responde:

— Busco o senhor.

Ninguém o suspende. De corredor em corredor, de aposento em aposento, chega à sala de armas. Entre os cavaleiros, que passeiam, divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-cós ainda.

Grossas tochas em anéis de ferro iluminavam a vasta quadra. Corpos de armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em caprichosos ornatos enfeitam as colunas, cujos capitéis lavrados sustentam os fechos da abóbada. O monteiro, apercebendo Telo, encaminhou-se para ele. O mancebo vinha tão sufocado, que pôde apenas dobrar o joelho e oferecer-se a trompa. Foi preciso que ele sorrisse para o besteiro narrar o sucesso que o trazia àquela hora. Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com vista inflamada bradou:

— Levai-me aos pés de El-Rei D. Pedro. Dizem que ele não conhece grandes, nem pequenos. A donzela que roubaram é pura e santa como a mais pura e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo o rico-homem por ela ter nascido no berço de um vilão!

À medida que o besteiro falava, a fisionomia do desconhecido mudava de aspecto. Os olhos pretos dilatados chamejavam, e o semblante, rosado e jovial, empalidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O gesto infundia medo até nos que se acham distantes. Quando Telo pôs termo as suas queixas e levantou a vista, recuou assustado. A expressão dos olhos do seu protetor era terrível. Ensangüentados e delirantes, mais se assemelhavam às pupilas encadeadas do tigre, do que ao olhar humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, falava tão convulsa que pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes brados:

— Lourenço Gonçalves! Acudi! Um rico-homem furtou a mais linda de minhas filhas!

O brado e a imensa cólera revelaram tudo ao mancebo. Lourenço Gonçalves era o corregedor da corte. Ninguém ousaria chamá-lo assim senão El-Rei. Telo prostrou-se cheio de esperança.

— Segue-me! Afonso Madeira! o meu cavalo enfreado à porta! A minha capelinha de aço. Gonçalo Vasques de Góis, escrivão da Puridade! Chamai os desembargadores, relatai-lhes o feito e lavrai a sentença. Por alma de Inês de Castro!... Pelo seu amor! — murmurou mais baixo. — Antes de nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino e mais uma justiça de minhas mãos no livro das suas crônicas!

Falando assim, enlaçava a capelinha, calçava as luvas de gamo, e, com o açoite cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.

O besteiro seguiu sem proferir palavra. Os cavaleiros montavam, e uns após outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atrás o cavalo do próprio Telo Vasques, e cego de ira metia-se pelas terras de Algouço. Por cima desta vertiginosa carreira a chuva caía em torrentes. A procela abria os céus em clarões lívidos, desarraigando as árvores anosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castelo, um vulto surgiu, que lhe tomou as rédeas, convidando-o a apear-se. De um salto estava em terra e levantando a cabeça viu as frestas da torre iluminada. O vulto travou-lhe do braço, e disse:

— É ali!

— Vamos! — redargüiu o príncipe. E seguiu-o sem desconfiança.

Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu à chave e ao impulso.

— Ide agora e Deus seja convosco! — disse a mesma voz.

Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Inês de Castro subiu. No topo da escada de caracol, a cena que se lhe representou excitou-lhe ainda mais a cólera. Perderia o salutar do nome de “Justiceiro”, se perdoasse aquele crime.

Era espaçoso o aposento. Um lampadário alumiava parte dele; o resto mergulhava-se em profunda escuridão. No centro da sala, num leito, com as mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a boca até os ais lhe sufocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados em lágrimas, pediam a Deus a morte, remédio extremo da infâmia. Soeiro Lopes, defronte, sorria medindo com a vista a queda lenta da areia duma ampulheta. A seu lado o vilico silencioso corria os dados sobre a mesa. A teia da mortalha, fiada e tecida com as urtigas do túmulo, estava nas mãos do cavaleiro, e suas palavras, irônicas como punhais, atravessam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos senhores de Biscaia cevava na formosura cativa o furor dos zelos.

— Por que choras, Silvana? Dera ontem o melhor arnês e o melhor cavalo por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor, respondeste não. A tua prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e os anjos por que chamavas! Brada pelo besteiro vilão, que preferiste ao rico-homem! Grita! Grita por El-Rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço, as portas chapeadas deste castelo ainda são mais fortes. Em esta areia, que está por instantes caindo toda...

Faltou-lhe a voz. A mão erguida do vilico deixou também rodar o último dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos dele brilhava um clarão terrível. A pesada acha reluzia em suas mãos.

— Traidor! — bradou o príncipe. — Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe todas portas. Vais ver!... Vilão! — ajuntou, falando ao vilico. — Solta as mãos e a boca a essa donzela. Ninguém se mova! Soeiro Lopes, conta bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais comparecer na presença de Deus!

O orgulho indômito do cavaleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto que pálido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redargüiu:

— Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pedro Coelho e de Álvaro Gonçalves? O rei carrasco; falso à sua alma e à alma do seu pai? Imaginas que farei como os outros cavaleiros? Estou no meu solar, e a quem entra de noite e à má fé chamo-lhe inimigo. Vilico! Aperta os laços da cativa. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o castelo senão a Deus. A mim, homens de armas!

— Deus é justo! — clamou El-Rei, cuja fúria não conhecia limites. — O matador de três mulheres levanta-se contra o seu rei. O perseguidor cruel de donzelas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como vilão às mãos dos teus vilãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha acha. Vilãos! — bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido. — Sou D. Pedro! Sou rei! Esse que aí está, rebelde e traidor, prendei-mo enquanto os meus não chegam!

A presença e a voz do filho de Afonso IV infundiam terror. Os homens de armas temiam, mas não amavam Soeiro Lopes. A ordem foi cumprida. Depois de curta e desesperada resistência, o cavaleiro ficou à mercê de El-Rei.

— Passai um laço na cadeia do lampadário, pondes um escano para ele subir e cingi-lhe o nó na garganta! prosseguiu o soberano, indignado.

— Sou rico-homem por foro de Espanha. A afronta da morte vil cairá sobre vós e sobre todos os filhos de algo. Pedir-te-ão contas dela, verdugo! — gritou o cavaleiro, estorcendo-se.

— A Deus as darei e a mais ninguém! O desleal que violenta donzelas não é cavaleiro. Quebro-te a espada e o foro com meu cetro.

Momentos depois, Soeiro estava em cima do escano e o vilico enrolava-lhe o laço. Comovida e trêmula, Silvana lançou-se suplicante aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:

— Pedes perdão a Deus e ao teu rei?

— Não!

O pé do príncipe tombou o escano e a morte cortou as últimas palavras do cavaleiro.

III

A tropeada de muitos cavalos, soando a par do alarido e vozes do castelo, anunciou à aldeia, alvoroçada, a vinda do monarca. Telo Vasques aparecia à porta quando Soeiro Lopes expirava.

— Besteiro! Por teus olhos vês que me não chamam em vão o Justiceiro. Corrias como noivo e como esposo... apesar disso cheguei primeiro! A justiça do rei ainda andou mais veloz do que o amor!

Horas depois, a camisa do enterro servia de mortalha a Soeiro, na capela, e os noivos recebiam a bênção, tendo El-Rei D. Pedro por seu padrinho.

Falou-se muito no besteiro de Miranda, mas o que não se esqueceu nunca foi a Justiça que fizera em Algouço a severidade do monarca.

O castelo devolveu-se à coroa e parece que fora doado depois ao primogênito de Telo e de Silvana. Pelo menos assim se disse, e se foi verdade ou fábula, não sei. El-Rei D. Pedro era tão capaz de fazer cavaleiro um vilão, como de justiçar como vilão um cavaleiro.
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Vocabulário:
- Besteiro = fabricante de bestas.
- Besta = Arma antiga de arremesso, usada para disparar setas e pelouros, consistente de um arco de aço ou de madeira, cuja corda se retesa por meio de uma mola que pode ser solta ao se premir um gatilho.
- Escano = espécie de assento destinado em atos públicos às pessoas de mais elevada hierarquia.
- Menagem - Prisão fora do cárcere, concedida sob promessa do preso de não sair do lugar onde se acha ou que lhe foi designado.
- Rebramam = repetir o bramido.
- Sopear = Subjugar, dominar, reprimir, sofrear, vencer, domar.
- Vilico = regedor de lugar onde se arrecadavam os impostos e onde se administrava justiça: O vilico do século XII... correspondia não só ao moderno administrador ou mordomo de rico fidalgo, mas também representava a autoridade administrativa, e ainda, em certos casos, a judicial, dentro dos limites da honra... ou senhorio respectivo.
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Fonte:
Contos e Novelas de Língua Portuguesa. Seleção e organização de Yolanda Lhullier dos Santos e Nádia Santos. 8 ed. São Paulo: Logos, 1962. http://planeta.terra.com.br/arte/ecandido/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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