Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Nadezhda Teffi (O faquir)

Geralmente os grandes acontecimentos começam bem simples, tão simples quanto os pequenos. Assim, o tiro de pistola de Camile Desmoulins deu origem à revolução francesa, mas, quantas vezes um tiro de pistola termina apenas num simples inquérito.

Os acontecimentos que vou relatar começaram de maneira muito vulgar; mas terão sido importantes? Terão sido comuns? Deixo ao leitor decidir.

Certa manhã, às cinco horas, na rua deserta de uma cidadezinha (que contudo era a localidade principal de um cantão), passava um menino levando sob o braço um embrulho de anúncios amarelos. O rapaz aproximou-se do Teatro Municipal, passou grude na parede e colou nela um anúncio amarelo. Repetiu a mesma operação na parede contígua.

Em matéria de colar difícil é apenas começar. Depois, tudo caminhou às maravilhas. Ele parava em cada esquina, cuspia na parede e pregava um anúncio.

A partir das oito horas, os garotos interessaram-se pelo seu trabalho.

Por isso ele continuou a colar papel, acompanhado de vaias, de risos, de conselhos e de aclamações de um batalhão de meninos.

À tarde a tarefa ficou concluída e, embora os bêbedos tivessem arrancado as pontas do papel para fazer cigarros, e os garotos tivessem modificado o texto com comentários que eles evidentemente julgavam indispensáveis, a população da cidade soube o que diziam os anúncios amarelos.

“Hoje, quinta-feira 20 de junho, no Teatro Municipal, grande representação de gala de célebre Faquir. Valendo-se processos tão misteriosos quanto admiráveis, ele atravessará a língua de Miss Gilda, sua esposa. Ferirá o corpo com alfinetes até sair sangue. Abrirá o ventre e fará saltar o olho esquerdo, na presença da Ciência, representada pelos médicos e pelos espectadores que desejarem fiscalizar as experiências fantásticas.

N. B. - A Polícia autorizou o espetáculo sem que o paciente se submetesse a qualquer inspeção.

Preço das entradas: Tabela Comum”.

A curiosidade do público aumentava em moto crescente. Estas palavras, principalmente, deixavam-no intrigado: “Abrirá o ventre”. De quem abrirá ele o ventre? Dele próprio?

E que significava: “A Polícia autorizou o espetáculo sem que o paciente se submetesse a qualquer inspeção”?

A Polícia autorizava o faquir a fazer consigo o que entendesse? Ou, então, tinha simplesmente deixado de inspecionar seu estado de resistência ao sofrimento, enchendo-o de pancadas na delegacia?

As entradas eram disputadas.

Miassoribov, um jovem negociante, um rapaz sóbrio, educado, que se gabava mesmo de uma certa cultura, acolheu a notícia do espetáculo como um assíduo freqüentador do teatro. Comprou um camarote, e decidiu nele permanecer sozinho. Depois comprou uma caixa de bombons e adornou seu índex com uma turquesa nova. Miassoribov raramente usava esta turquesa porque desconfiava de sua autenticidade. Fosse como fosse, era preferível tê-la guardada numa gaveta verdadeira, sentia muita pena em usá-la; se fosse falsa, haveria de envergonhá-lo. É certo que um armênio lhe propusera um meio para verificar se o era: “mergulhe-a em azeite, meu velho; se for uma turquesa verdadeira, ficará estragada num abrir e fechar d'olhos e não terá mais valor. Mas se for falsa, não sofrerá coisa alguma!” Miassoribov reservava esse conselho para só utilizá-lo em último caso.

As oito horas da noite, o teatro estava repleto. Muitas pessoas tinham chegado às seis horas e esperavam impacientemente pelo levantar do pano.

— Por que não começam? Todos vêem que o público está presente. Vamos! O pano! O pano!...

Miassoribov, como um cavalheiro distinto, chegou apenas meia hora antes de começar; instalou-se no camarote, colocou-se de perfil e começou a comer os bombons. Todas as vezes que levava a mão à boca, o público podia contemplar muito à vontade a misteriosa turquesa.

Mas o pano acabava de subir. No meio do palco havia, numa pequena mesa uma caixinha oblonga. Ao redor da mesa, uma dúzia de cadeiras. No canto, mistificando grandemente o público, o pianista do teatro, o polonês Vruchkevitch esfregava as mãos, na intenção evidente de se sentar daí a pouco ao piano.

Finalmente apareceu o faquir.

Era magro e amarelo; trajava um roupão verde e segurava pela mão uma mulher com um vestido verde, do mesmo tecido do roupão.

Ele caminhou até o proscênio, inclinou-se e disse:

— Peço aos senhores médicos, bem como a alguns espectadores que tenham a bondade de se aproximar.

Nos balcões houve pessoas que manifestaram em voz alta sua surpresa por ele falar russo e não árabe. Dois médicos, hesitantes, subiram ao palco: o médico dos serviços públicos, cabeludo, e um médico particular, calvo. Os espectadores pareciam perturbados. Mandaram sair todos os ocupantes dos lugares da orquestra. O faquir escolheu oito cavalheiros de aspecto respeitável e instalou-os em torno da mesa. Depois tirou o roupão, e apresentou-se de pernas nuas, de calção esportivo. Foi assim que se aproximou do proscênio e saudou novamente, como se receasse que, nesse novo traje, o tomassem por outro.

O público aplaudiu.

O faquir voltou-se para o pianista.

— Vamos, musica!

Vruchkevitch atacou a valsa lenta: “Amo-a e por isso choro”, que afagou deliciosamente o ouvido do auditório.

O faquir abriu a caixinha, dela tirou um alfinete, igual àqueles com que as mulheres enfeitam os chapéus. Aproximou-se da mulher.

— Miss Gilda, queria pôr a língua para fora.

Miss Gilda dócil, voltou-se para ele e esticou a língua.

— Uma, duas, três! — exclamou o faquir, voltando-se para os médicos.

Estes se aproximaram, examinaram a paciente, e o médico dos serviços públicos, como o mais consciencioso dos dois, inspecionou mesmo por baixo a língua de Gilda. Depois, ambos, desconcertados, tornaram a sentar-se.

O faquir tomou a mulher pela mão e fê-la descer. Ela atravessou as filas de espectadores.

À sua aproximação eles se afastavam. A maioria, evidentemente sentia-se mal.

Miassoribov pôs a mão sobre os olhos.

— Basta! Basta! — gemeu.

— Basta! — gritaram.

Mas o faquir, consciencioso, arrastou a mulher para o balcão. Uma senhora teve uma crise de nervos e foi preciso retirá-la. Depois de ter dado volta à sala, o faquir voltou para o palco e retirou o alfinete.

Houve um suspiro de alívio.

O faquir tirou da caixinha outro alfinete mais grosso e mais comprido.

Ao ver isso, o pianista mudou de música e começou a tocar “A Polca dos pardais”.

O faquir atravessou as bochechas, de sorte que uma ponta do alfinete emergia por debaixo da maçã direita de seu rosto, enquanto a outra surgia debaixo da esquerda. Fez os médicos estupefatos verificarem o fato e tornou a descer até o público.

— Basta! é suficiente! — protestou Miassoribov. Uma náusea repentina fê-lo cuspir o bombom.

— Senhor! — gemia o publico. — Basta! Basta!...

— Como Deus consente isso?

Mas o bravo faquir atravessava as filas, como um homem consciente de seu dever, exibindo as bochechas, ora à direita, ora à esquerda.

— Basta! — uivava o publico... — Acreditamos sob palavra! Nao se chegue! Acreditamos!... Chega!...

Um funcionário agarrou a mulher pelo braço e correu para a saída.

Duas jovens os acompanharam. Atrás delas correu uma velha cambaleando, arrastando dois pobres garotos que choramingavam de medo. A velha esbarrou no faquir que dava sua volta, recuou, pisou nos pés de uma dama meio morta de pavor... Ambas precipitaram-se para a saída empurrando-se mutuamente.

Mas quem mais se apavorava era Miassoribov. Sentado em seu camarote, de costas voltadas para a sala, tapando os ouvidos, ele se voltava de vez em quando, com cuidado, lançava uma olhadela furtiva sobre o faquir, estremecia e encolhia-se no seu canto.

— Basta! Basta! — arquejava. — E demais!

Enquanto isso, Vruchkevitch martelava em seu piano a “Quadrilha dos Lanceiros”.

Mas o faquir retornou ao palco. O público acalma-se. Aguarda. Espera. No limiar do corredor vêem-se os rostos pálidos daqueles que não tiveram coragem de ficar até o fim. O faquir tira três outros alfinetes. Enterra um na língua (sem tirar o que está atravessado nas bochechas) e os dois outros acima dos cotovelos.

O sangue espirrou do braço direito.

— Não é uma mistificação! É sangue! sangue verdadeiro! — observou com alegria o médico dos serviços públicos.

O pianista polonês Vruchkevitch, animado pela jovialidade do médico, começou imediatamente a tocar “Valência”. Enquanto isso, duas porteiras do teatro tiveram de carregar para a saída uma jovem lívida que elas arrastavam pelo braço. O agente de serviço na fiscalização cambaleou por sua vez, e saiu com passo rápido. A sala estava ficando deserta.

Miassoribov nem mesmo mais se voltava. Dominado por estremecimentos nervosos, com as pálpebras apertadas, não respirava mais...

Debandar! — suspirava ele; mas paralisava-o um terror vago. Os cabelos arrepiavam-se.

Depois de o faquir completar a ronda pelos espectadores atormentados, que lhe suplicavam que voltasse para o palco, Miassoribov, voltando-se instintivamente, viu-o retirar os alfinetes e ouviu-o exclamar com triunfo:

— E agora, Senhoras e Senhores, vou fazer saltar meu olho por meio de um saca-rolhas, colocando-o entre o olho e a órbita.

Apanhou a caixinha, mas ninguém esperou pela aparição do saca-rolhas. Foi uma debandada geral. Soltando gritos estridentes, a multidão precipitava-se para a saída. Uns, desvairados, como loucos, fugiam para a rua; outros, dominando-se, paravam:

— Que estará ele fazendo agora? Será que já fez saltar o olho? Nesse caso poderíamos voltar. Que acham?

Um colegial desajeitado entreabriu a porta de um camarote e espiou pela fresta. Uma onda de melodia chegou até seus ouvidos. Eram as primeiras notas de “Madame Butterfly”, tocadas pelo impassível Vruchkevitch.

Sussurraram atrás do colegial:

— E então? Já fez saltar?

— Não me esmaguem! — exclamou ele, dando-se importância. — Creio que vai ser agora.

— Em nome de Deus, fecha a porta! — gemeram os curiosos. Mas logo em seguida, perguntaram novamente ao colegial:

— E agora? que está fazendo? De que tens medo, idiota? Olha, e grita-lhe que basta, que já vimos o bastante!...

Enquanto isso, no fundo de seu camarote, Miassoribov monologava, lívido:

— Saiamos devagarinho, meu velho... O teatro não é uma distração que te sirva. Ele exige uma natureza por demais cultivada, não serve para ti. Se quiseres te distrair, existe o vodka...

E foi por isso que Miassoribov deu para beber.
************************
Sobre a Autora:
Nadezhda Teffi é uma escritora russa, nascida em 1876 e falecida em 1952. Deixou a Russia após a revolução de 1917. Obteve destaque por seus contos. O Faquir é considerado o seu melhor trabalho.

Fontes:
Yolanda Lhullier dos Santos e Cláudia Santos (orgs. e trad.). Contos e novelas de língua estrangeira. v. II. 11. ed. São Paulo: Logos, 1963.
Imagem = http://dallablog.zip.net

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to