Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 15 de abril de 2012

Vicência Jaguaribe (Onde Está a Margarida?)


Tarde do domingo. Uma tarde agradável, ventilada e clara. A ida à missa dominical. A chegada antecipada, para que a Margaridinha, filha única, tivesse oportunidade de encontrar-se com outras crianças e brincar um pouco. Ela tinha feito amizade com algumas garotas de sua idade cujos pais frequentavam a mesma igreja. E todas as semanas o casal fazia questão de dar à filha aquele momento de prazer. Eles sentavam-se nos bancos de cimento que ficavam no espaço cercado pelas grades que circundavam a igreja. Os pais das outras meninas iam chegando e sentavam-se com eles para vigiar os folguedos das filhas. Naquela tarde, brincavam de roda, cantando “A Margarida”. A pequena Margarida, a única que tinha esse nome — homenagem à avó paterna —, estava no centro da roda. As outras pegavam na barra de seu vestido largo — que parecia ter sido feito para aquela brincadeira — e formavam uma roda, fora da qual outra menina cantava e dançava. E seu canto se alternava com o das garotas da roda.

As garotas tiveram tempo de cantar “A Margarida” duas vezes somente. O sino da igreja anunciou o início da missa e elas se aproximaram dos pais.

A igreja era uma construção grande e larga. Os bancos, confortáveis, espalhavam-se estrategicamente por todos os cantos, formando ângulos com o altar principal, de modo que, de onde estavam sentados, todos os fiéis tinham a visão completa da celebração.

O padre iniciou o ritual católico da Missa, e todos se recolheram em oração. As crianças tentavam imitar os adultos, mas distraíam-se. Olhavam para as pessoas ao redor, conversavam com o irmão ou o amiguinho sentado ao lado, coçavam-se, bocejavam... De vez em quando, o pai ou a mãe lançavam-lhes um olhar ameaçador, e elas voltavam a comportar-se. A Margaridinha encostou-se na mãe e ameaçou dormir, quando o padre deu início à leitura do Evangelho.

— Margarida, escuta. O Padre vai falar das crianças. Vai ler uma história muito bonita.

A menina abriu os olhos, empertigou-se e ouviu direitinho o Evangelho de Marcos. Quando o Padre anunciou a saudação dos fiéis, ela, vendo algumas amiguinhas na porta da igreja, disse à mãe que ia ficar com elas. O pai acompanhou-a com os olhos e viu quando ela desceu os degraus.

As três, enfadadas com a missa comprida demais, não tornaram a entrar na igreja. Sentaram-se em um dos bancos de cimento e ficaram conversando.

Com a bênção final, os fiéis foram se retirando devagar. Os pais da Margarida olharam-se e interrogaram-se mudamente. O olhar que um devolveu ao outro parecia dizer, com preocupação, Eu pensei que você sabia onde ela estava! Apressaram o passo e encontraram as duas meninas que o pai vira a filha abraçando.

— Vocês viram a Margarida?

— Ela não estava com vocês!?

— Um homem veio e levou ela — respondeu uma das meninas, meio amedrontada com o semblante de preocupação do pai da amiguinha.

— Que homem, meu Deus? Como era esse homem?

A dona da banca de bombom aproximou-se.

— Eu vi quando ele levou a menina. Pensei que era alguém da família. Ela foi com ele sem problema.

Já uma aglomeração cercava os pais da menina. Um senhor descreveu alguns traços do desconhecido: moreno, estatura mediana, camisa vermelha. Infelizmente, não lhe vira as feições. Alguém sugeriu aos pais irem imediatamente à delegacia. Nesses casos, quanto mais cedo se começava a busca, mais chances se tinha de evitar uma tragédia.

A mãe chorava e tremia. Uma conhecida que fora de carro à igreja ofereceu-se para levá-los à delegacia. O pai não conseguia raciocinar. Em sua cabeça ecoava, todo o tempo, sem intervalo, os primeiros versos da cantiga de roda que a filha cantara antes da missa: Onde está a Margarida, / Ô lê, ô lê, ô lá / Onde está a Margarida / Ô lê, seus cavalheiros. Meu Deus, onde estaria a sua Margarida naquele momento? Onde estaria a sua menininha?

Diante do delegado, não teve condições de falar. Nem ele, nem a mulher. Foi a dona do carro que registrou a queixa. Imediatamente, o delegado acionou soldados e investigadores, e a busca começou. O bairro todo já tomara conhecimento do que acontecera. Os jornais foram informados, e os carros de reportagem já se encaminhavam à igreja e à casa dos pais da menina.

Na cabeça do pai, ainda ecoavam os versos da cantiga de roda, impedindo-o de raciocinar para tentar ajudar na busca: Ela está em seu castelo / Ô lê, ô lê, ô lá / Ela está em seu castelo / Ô lê, seus cavalheiros. O único castelo que ele pudera erguer para protegê-la fora o castelo do seu amor e dos seus cuidados. Mas não havia sido suficiente, e ele sentia-se culpado. Não tinha coragem de olhar para a esposa, em estado de choque. O médico do posto de saúde fora chamado. Sabia que ele iria querer dopar os dois. Mas ele não tomaria nenhuma droga. Queria enfrentar tudo bem acordado. Não dissera a ninguém, mas não tinha esperança de que encontrassem a filha com vida. Como ele queria que essa sua impressão não se confirmasse! Que ela estivesse errada, meu Deus! Mas sabia — eram tantos os casos de violência contra crianças! — que não adiantava enganar-se. Como ele gostaria de ver a filha mais uma vez, de abraçá-la, de dizer que a amava mais do que a qualquer outra pessoa no mundo!

O médico chegou e fez os dois tomaram um calmante. A mãe continuou sob o efeito do remédio até o dia seguinte, mas ele, o pai, estava de pé logo depois da meia noite. Quando as buscas recomeçaram, ele achou que tinha condições de ajudar, e seguiu um dos grupos. À tarde, o corpo da criança, com evidências de estupro, foi encontrado em um bairro vizinho. O pai tomou conhecimento da tragédia e dirigiu-se a casa. Queria estar com a mulher quando ela recebesse a notícia. Os versos finais da cantiga de roda, que ecoaram por todo o seu corpo, pareciam ironizar a sua dor: Apareceu a Margarida / Ô lê, ô lê, ô lá / Apareceu a Margarida / Ô lê, seus cavalheiros. Sim, ela aparecera, mas não como deveria ter aparecido. Menos ainda como ele queria que ela aparecesse.

Fonte:
Câmara Brasileira de Jovens Escritores. "Contos de Outono" - Edição Especial 2012 - Abril de 2012.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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