sábado, 21 de abril de 2012

Fernando Sabino (Negócio de Ocasião)


Quando mandou colocar mármore no chão de seu apartamento, o vizinho de baixo veio reclamar: às oito horas da manhã os operários começavam a quebrar mármore mesmo em cima de sua cabeça. Durma-se com um barulho desses!

- Está bem, está bem- concordou ele, acalmando o vizinho:- Vou mandar começar mais tarde.

Mandou que os operários só começassem a trabalhar a partir das nove horas. Dois dias depois tornava o vizinho:

- Assim não é possível. Já reclamei, o senhor prometeu, e o barulho continua!

- Mas é só por uns dias- argumentou ele:- O senhor vai ter paciência...

E mandou que os trabalhos só se iniciassem a partir de dez horas. Com isso pensava haver contentado o vizinho. Para surpresa sua, todavia, o homem voltou ainda para protestar e desta vez furibundo, armado de revólver:

- Ou o senhor pára com esse barulho ou eu faço um estrago louco.

Olhou espantado para a arma e, cordato, convidou-o a entrar:

- Não precisa se exaltar, que diabo. Vamos resolver a coisa como gente civilizada. Eu disse que era só por uns dias... Se o senhor quiser que eu pare, eu paro. Cuidado com esse negócio, costuma disparar. Qual é o calibre?

- Trinta e dois.

- Prefiro trinta e oito. Mas esse parece ser muito bom... Que marca?

- Smith-Wesson.

- Ah! Então deve ser muito bom. Cabo de madrepérola.. . Quanto o senhor pagou por ele?

- Cinqüenta.

- Não foi caro. Sempre tive vontade de ter um revólver desses. Quem sabe o senhor me venderia?

- Não vim aqui para vender revólver- explodiu o outro - mas para lhe avisar que esse barulho...

- Não haverá mais barulho, esteja tranqüilo. Agora, quanto ao revólver... Quer vender?

- O senhor está brincando...

- Não estou não: pela vida de minha mãezinha. Quer saber de uma coisa? Dou cem por ele. Sempre tive vontade. . . Vamos, aceite! Cem, ali na bucha, pago na hora.

O homem começou a titubear. Olhou o revólver, pensativo: cem era um bom preço. Já pensara mesmo em vendê-lo... Olhou o dono da casa, tornou a olhar o revólver:

- Toma: é seu- decidiu-se.

Antes de entrar na posse da arma, o comprador foi lá dentro buscar o dinheiro e estendeu-o ao vizinho. Depois empunhou o revólver e chegou-lhe aos peitos:

- Bem, agora ponha-se daqui para fora. E fique sabendo que eu faço o barulho que quiser e quando quiser, entendeu? Venha aqui outra vez reclamar e vai ver quem é que acaba fazendo um estrago louco.

Fonte:
Para gostar de ler. Vol. 3. SP: Ed. Ática, 1978.

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