sábado, 11 de abril de 2026

Mensagem na Garrafa 170 = Pessoas Especiais

Imagem criada com IA Microsoft Bing

AUTOR ANÔNIMO 

Um dia uma professora pediu para seus alunos listarem os nomes dos amigos de classe em um papel, deixando um espaço na frente para escrever alguma coisa.

Então ela mandou eles pensarem na coisa mais bonita que eles podiam dizer sobre cada um dos colegas da classe e escrever ali neste espaço.

Isso tomou todo o tempo restante da aula até que todos acabassem a tarefa, e quando eles saíram da sala, cada um entregou seu papel à professora.

Depois a professora escreveu o nome de cada aluno em um pedaço de papel separado e listou o que todos os outros tinham dito sobre aquele aluno em especial.

Na aula seguinte ela entregou para cada um a sua lista, e em pouco tempo, a classe inteira estava sorrindo.

"Verdade" ela ouvia. "Eu nunca soube que significava alguma coisa para alguém!" outro dizia..."Eu não sabia que os outros gostavam tanto de mim"...

Foram muitos os comentários. Mas, ninguém mencionou esses papéis na aula novamente. A professora nunca soube se eles discutiram sobre isso entre eles ou com os pais, mas isso não importava. O exercício atingiu seu objetivo. Os alunos ficaram felizes com eles mesmos e com os outros.

O tempo passou, aqueles alunos cresceram e cada um iniciou uma nova vida ali mesmo ou em outra cidade. 

Quis o destino que um dos alunos perdesse sua vida em uma guerra. Todos os amigos e a professora foram no funeral daquele aluno especial. Ela nunca tinha visto um homem num caixão militar antes. Ele parecia tão bonito e tão maduro. 

Seus amigos encheram a igreja e um por um, daqueles que o amavam deram seu Adeus... A professora foi a última a abençoá-lo. 

Mas enquanto ela estava lá, um dos soldados que atuou como acompanhante do funeral veio para ela e disse: "Você era a professora de matemática do Mark?" ele perguntou. Ela mexeu com a cabeça em gesto afirmativo, "Era.”

"O Mark falava muito sobre você." Logo após o funeral enquanto todos ainda estavam tristes por aquele amigo que não poderiam ver de novo, a professora foi chamada pelos pais de Mark 

"Nós queremos lhe mostrar uma coisa", o pai disse, tirando a carteira do bolso e disse: "Encontraram isso no bolso das roupas do Mark, nós achamos que você deveria reconhecer."

Abrindo a carteira, ele cuidadosamente retirou dois pedaços de papel, que obviamente tinham sido lidos e relidos muitas vezes. A professora soube imediatamente que aquele papel era a lista feita há muitos anos atrás em uma de suas aulas, com todas as coisas boas que os colegas de Mark tinham escrito sobre ele.

"Muito obrigado por fazer isso" disse a mãe do Mark. "Como você pode ver, Mark o guardou como um tesouro.”

Todos os colegas do Mark começaram a reunir-se em volta e Charlie sorrindo timidamente falou: "Eu também guardo minha lista. Ela está na parede do meu quarto".

A esposa do Chuck falou que a lista deles estava no álbum de casamento.

"Eu tenho o meu também", falou Marilyn. "Está no meu diário".

Então Vicki, outra colega, pegou sua agenda na bolsa e mostrou, gasta e velha, sua lista para o grupo. " Eu a carrego comigo o tempo todo", disse ela e continuou, "Acho que todos nós guardamos nossas listas.”

Foi quando a professora finalmente sentou e chorou. Chorou por Mark e por todos os seus amigos que não o veriam nunca mais e por ver que um pequeno gesto há muitos anos atrás fez uma diferença enorme na vida daqueles alunos. 

A quantidade de pessoas na sociedade é tão grande que nós esquecemos que a vida acaba um dia. E nós nunca sabemos que dia será. Então por favor, conte para as pessoas como você as amam e o quanto você se importa com elas, e principalmente como elas são especiais. Antes que seja tarde demais.

Aparecido Raimundo de Souza (Pensamentos fúteis como coca cola sem gás)


DO NADA
As chamas se erguem, 
os corpos dançam no relâmpago, 
a noite em combustão.

NATUREZA
Trovão na montanha, 
o choque de duas pedras, 
eco sem descanso.

AVASSALADOR
Um olhar que devora, 
o vento rasga o silêncio, 
a pele em tempestade.

CONTURBADO
Noite sem sossego, 
os ventos rasgam pensamentos, 
o silêncio quebrado.

NO FINAL, O BOBO SOU EU
Risos que escapam, 
na roda todos dançam. 
O bobo sou eu!

LENTIDÃO
O mar em fúria ruge, 
as espumas devoram a praia 
e o céu perde o sossego.

QUE LOUCURA!
Final das contas… 
o meu adeus ficou no bilhete.

VAZIO 
Vida oca soa como tambor sem batida, 
eco sem ninguém.

MIRAGEM ÀS AVESSAS
Olhos sem luz, 
o oásis vira deserto, 
a verdade se esconde.

FIM DA ESTRADA
Morri sem saber, 
o segredo ficou na bruma… 
silêncio eterno.

SERÁ VERDADE?
Um amor prometido, 
uma flor guardada no tempo, 
o vento anuncia um romance.

SOLIDÃO SEM CAUSA
Sinto o vento frio em casa abandonada, 
eco sem razão.

ATÔNITO 
Mudo eu fiquei, 
na boca o vento calou… 
Meu olhar disse demais.

COCA COLA SEM GÁS
Copo sem gelo, 
bolhas sobem apressadas, 
como verão sem frescor.

POR FAVOR, ALGUÉM ME TIRE DAQUI...
Socorro! Me salvem! 
Ondas engolem meu fôlego, 
o céu não responde.

INEXPLICÁVEL                                            
Um sopro invisível, 
um silêncio que move o mundo… 
Luz sem fronteiras.

CREDO!
A voz se ergue, 
um relâmpago corta o céu, 
a alma se assusta.

DO LADO CONTRÁRIO 
Te esperei na esquina, 
sem destino… 
O tempo me esqueceu.

FINALMENTE...
Então o sol abriu caminhos, 
te achei no acaso...

SEM SENTIDO 
Um grito abafado, 
paredes guardam segredos… 
Eco que se cala.

MEU PEDIDO
Mamãe, cadê você? 
A brisa leva minha voz, 
só o silêncio responde.

REFLEXO ESQUISITO
Eu não me achei, 
um espelho vazio me olha, 
virei sombra sem dono.

ESPAÇO VAZIO
Porão de ausências, 
teias guardam o nada… 
Tempo empoeirado.

TEMPORARIEDADE
Fugaz, como estrelas, 
algo risca o céu por um instante… 
Memória de luz.

BREU
Um escuro sereno, 
o colo da noite me envolve… 
Descanso profundo.

ELA PARTIU DE VEZ
Meu amor se foi, 
o vento levou o que restou…
Silêncio em mim.

COMO CACHORRO SEM VOZ
Tiraram a minha coleira. 
Fiquei sem dono, 
os olhos choram em silêncio, 
fiel me quedo sem latidos.

EU E ELA
Nós dois juntos, 
um vento suave nos envolve… 
Tempo suspenso.

COM UMA MÃO NA FRENTE, A OUTRA TAMBÉM
Parti sem alarde, 
a porta fechada no vento… 
Eco de ausência.

GRITO DE SOCORRO
Meus filhos, onde vocês estão? 
O vento leva minha pergunta, 
as dores não.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada com IA Microsoft Bing usando a foto do autor 

sexta-feira, 10 de abril de 2026

José Feldman (A Identidade Perdida)


Local: Uma Universidade, Sala 203.

Aula: Literatura Inglesa.

Hora: 19h00.

A sala 203 fervilhava com uma energia caótica que, de certa forma, espelhava a peça em discussão: "A Comédia dos Erros", de Shakespeare. O ar estava pesado, não apenas pelo calor que teimava em entrar pelas janelas fechadas, mas pela confusão gerada por dois pares de gêmeos idênticos separados ao nascer.

A professora Léia abriu o livro com um sorriso malicioso. Hoje o clima era de puro caos.
 
— Muito bem, turma. Hoje vamos analisar A Comédia dos Erros, considerada a peça mais curta e... caótica de Shakespeare. Quem aqui já leu e pode resumir a trama sem ficar tonto?
 
A turma se entreolhou. O Juninho, que já tinha chegado com uma latinha de refrigerante escondida na mochila, levantou a mão na hora.
 
— Professora, eu posso! Resumindo: é uma bagunça generalizada baseada em DNA!

— Como assim, DNA, Juninho? — perguntou a professora, ajustando os óculos.

— Tipo assim: tem dois irmãos gêmeos idênticos, chamados Antífolo de Éfeso e Antífolo de Siracusa. E para piorar, cada um tem um servo que também são gêmeos idênticos, chamados Dromio. Ou seja, temos dois Antífolos e dois Dromios. Todo mundo igual, todo mundo com a mesma roupa, mesma cara. É o pesadelo de quem tem problema de rosto!

— Eu acho que o Dromio de Siracusa deveria ter batido mais forte no Dromio de Éfeso - declarou Clara, uma estudante com uma energia que parecia prestes a incendiar a sala. – Se alguém me confundisse com um ladrão e me batesse, eu não ia ficar só reclamando, ia revidar!

— Mas, Clara, o ponto é justamente a confusão! - argumentou Léo, o eterno cético do grupo, que parecia ter nascido com uma sobrancelha arqueada. – Se eles começassem a se bater de volta, a peça acabaria em cinco minutos. O humor vem da exasperação, da total falta de lógica que a situação impõe.

A professora, com seu habitual ar de quem viu tudo (e provavelmente já escreveu um artigo sobre isso), ajustou os óculos. – Léo está certo. A genialidade de Shakespeare aqui reside na exploração do absurdo. A identidade, a percepção, a realidade... tudo se desintegra quando você tem duas pessoas idênticas em locais diferentes, vivendo vidas paralelas, mas interligadas pelo acaso. E excelente síntese, Juninho. É exatamente isso. Uma comédia de equívocos baseada na semelhança física.

A Márcia, já com as canetas coloridas na mão, interveio:
 
— Na minha análise, professora, a peça questiona a própria identidade. Veja bem: quando todos confundem o Antífolo A com o Antífolo B, ele começa a questionar sua própria sanidade. Ele pensa que enlouqueceu! É uma crítica filosófica: "Eu sou quem eu penso que sou, ou sou o que os outros veem?"
 
— Que viagem, Márcia! — disse o Pedro — Mas vamos para a realidade. Imagina o stress: o cara chega na cidade, a mulher do irmão dele vem e abraça ele chamando de marido, leva ele para jantar, dá presentes... e ele pensando "meu Deus, eu namoro sério ou eu sou farra mesmo?"

— E o melhor — gritou a Bia do fundo — É que o Antífolo de Éfeso estava casado, né? Aí ele chega em casa, a porta está trancada, a família está dentro jantando com o outro ele! Ele bate na porta, grita, e o pessoal de dentro fala "mas como assim? Você já está aqui dentro!" Ele ficou louco da vida, né? Imagine a frustração! "Eu sou eu! Abra a porta!" E eles: "Não, você não é você, o você está aqui!"
 
— Isso é coisa de filme de terror psicológico! — riu o Zé — Eu ia chamar o exorcista na hora. Ou ia achar que estava drogado.
 
A professora aproveitou o gancho:
 
— E sobre os servos, os Dromios? O que acham da relação deles com os patrões?
 
O Zé se animou:
 
— Ah, esses dois são sofredores! Os patrões vivem mandando eles fazer coisa, brigando com eles, e os coitados só tentam sobreviver. Tem uma hora que o Dromio fala sobre uma cozinheira gorda que quer casar com ele, e ele diz que ela é tão grande que ele poderia se perder dentro dela tipo um mapa! Shakespeare tinha humor negro, hein?
 
— E as confusões amorosas? — perguntou a Carol — Tem uma cortesã lá, certo? Ela dá um anel de presente para um Antífolo, e depois vai cobrar do outro. O cara fica "que anel minha filha? Eu nunca te vi na vida!" E ela achando que ele está querendo queimar o filme. É o tipo de situação que termina na delegacia hoje em dia.
 
— Ou no Tinder! — completou Juninho — "Nossa, você é idêntico ao cara que eu saí ontem!" "Mas eu não saí com ninguém!" "Para de mentir, perfil falso!"
 
— A situação chega a um ponto crítico — explicou a professora — onde todos acham que há magia negra, que a cidade está cheia de bruxas e fantasmas. Até que no final, os dois pares de gêmeos se encontram frente a frente.
 
— Aí sim o bicho pegou! — disse Pedro — Imagina a cena: dois caras idênticos olhando um para o outro. "Você é quem?" "Não, você é quem?" E os servos do lado também iguais. Deve ter sido o primeiro encontro de clones da história da literatura!
 
— E a solução? — perguntou Márcia — Eles separam as vidas?

— Basicamente, cada um segue com a sua realidade. O Antífolo que foi confundido fica com a grana e os presentes que ganhou, o outro volta para a sua esposa, e os Dromios... ah, os Dromios decidem que são como duas gotas d'água e vão sair por aí explorando a semelhança.
 
— E a Adriana!- suspirou Sofia, a romântica incurável da turma, que passava mais tempo suspirando pelos personagens do que anotando. – Ela é tão desesperada! Confundir o Antipholus de Siracusa com o marido dela? E ainda por cima, ficar furiosa porque ele não a reconhece? Se meu marido agisse assim, eu chamaria a polícia, ou um exorcista!

— Exatamente! - concordou Clara. – E o Antipholus de Éfeso, o 'marido', coitado. Ele só queria um casaco e acabou sendo expulso de casa, acusado de loucura e traição. Imagina a cena: você chega em casa, sua esposa te acusa de ter um caso com você mesmo, e seu 'servo' te chama de louco. Eu estaria mais perdida que um peixe fora d'água num deserto."

Juninho bateu na mesa, indignado:
 
— Professora, mas uma coisa me incomodou muito nessa história.

— O quê, Juninho?

— Ninguém usava roupa diferente? Não tinha camisa de time? Não tinha corte de cabelo diferente? Tudo igual! Até o nome igual! Que mãe é essa que coloca o nome dos dois filhos de Antífolo? Para quê? Para dar problema na vida adulta?
 
— É justamente o erro cômico, Juninho. A convenção teatral.

— Se fosse hoje, teria solução fácil. Era só pedir o CPF! "Tá, você diz que é Antífolo? Mostra o documento! Vamos ver a data de nascimento!" Acabava a peça em cinco minutos.
 
A turma riu muito. A professora olhou para o quadro e escreveu: Identidade X Aparência.
 
— Muito bem, turma. Enquanto em Sonho de uma Noite de Verão a confusão era causada por magia, aqui é pura genética e má gestão de identidade. A lição que fica é: nunca confie apenas na cara de alguém, e sempre verifique se a pessoa que está te respondendo é realmente a mesma que você mandou fazer o serviço… A peça nos força a questionar o que é real e o que é percebido. Os personagens estão presos em suas próprias realidades, incapazes de ver a verdade óbvia que está bem na frente deles – ou, neste caso, bem ao lado deles.

— Ou pelo menos, o quão facilmente os personagens de Shakespeare podem ser enganados - corrigiu Clara, com um sorriso. – Ainda acho que o Dromio de Siracusa merecia um prêmio por aguentar tudo aquilo.

— E principalmente, professora — concluiu Bia — se você chegar em casa e tiver um outro você jantando a sua janta... corre! Ou pede um pedaço também, porque já que deu tudo errado...
 
— Exato! — disse a professora — Para a próxima aula, quero que vocês pensem: e se vocês tivessem um sósia perfeito aqui na universidade? O que poderia dar errado?
 
— Para mim daria certo, professora! — gritou Juninho — Eu mandava ele vir aqui na aula de Literatura e eu ficava em casa jogando videogame!
 
— Ideia anotada, Juninho. Mas na prova quem vai ter que ir é você mesmo. Aula encerrada!
 
E assim, a turma saiu da Sala 203, cada um olhando para o próprio reflexo na vitrine do corredor, meio desconfiados se eram realmente eles mesmos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
RESUMO DA OBRA

A Comédia dos Erros, escrita por volta de 1594, é baseada em farsas da Antiguidade Clássica. A história gira em torno de dois pares de gêmeos idênticos que foram separados em um naufrágio quando bebês: Antífolo de Siracusa e seu servo Dromio de Siracusa; Antífolo de Éfeso e seu servo Dromio de Éfeso. 
Anos depois, os gêmeos de Siracusa chegam a Éfeso, sem saber que seus irmãos vivem lá. A partir daí, instala-se uma confusão generalizada: A esposa de Antífolo de Éfeso confunde o estrangeiro com seu marido e o leva para jantar. Dívidas são cobradas dos irmãos errados. Joias são entregues a quem não as pediu. Os servos são espancados por seus respectivos senhores por "não cumprirem ordens" que, na verdade, foram dadas ao outro gêmeo. A situação aumenta até que os personagens acreditam estar sob feitiços ou sofrendo de loucura. O nó só é desatado quando todos se encontram simultaneamente diante de uma abadia. A verdade aparece, os irmãos se reconhecem e o pai deles, Egeu (que estava condenado à morte por entrar ilegalmente em Éfeso), é perdoado, reunindo toda a família. 
= = = = = = = = = = = = = = = = = = 
JOSÉ FELDMAN (71), poeta, trovador, escritor, professor, copidesque e gestor cultural. Formado patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, residindo em Curitiba, Ubiratã, Maringá. Foi Delegado da UBT em Ubiratã, ajudou na coordenação das Delegacias de Arapongas e Campo Mourão. Assina seus escritos por Floresta/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence a Confraria Luso-Brasileira de Trovadores, Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP), Ordo Equitum Calami et Calicis (Timisoara/Romênia). Foi Vice-Presidente da Associação dos Literatos de Ubiratã (ALIUBI). Presidente da Confraria Brasileira de Letras (CBL) e vice-presidente da Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (CLBT). Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Organizou diversos torneios de trovas, assim como elaborou centenas de boletins e e-books de trovas. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
“Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”; Caleidoscópio da Vida (textos sobre trovas); Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (org.); Pérgola de Textos; Ecos do Deserto: histórias do Oriente antigo; Minhas irmãs de quatro patas (crônicas sobre gatas e cadelas).
Em andamento: "Chafariz de Trovas", “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas”

Fontes:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.
Imagem criada por Jfeldman com IA Microsoft Bing

Arthur Thomaz (O caminhãozinho de madeira)


Ele acordou, e em frente ao espelho, notou um velho a mirá-lo fixamente. Passado o susto, percebeu que era ele mesmo a olhá-lo.

Sentiu necessidade de desabafar sozinho, e o fez em voz alta.

– Que contraste! Ainda ontem recebi uma fotografia em que eu, criança, brincava com um caminhãozinho de madeira. Estava risonho, inocente e totalmente embevecido pelo brinquedo.

Continuou olhando a imagem no espelho, e ela envelhecida, fitando-o, sem sorrir, e impassível. Ligeiramente irritado, falou:

– Aliás, respondendo a todos os que hoje perguntam-me por que eu não sorrio nas fotos como antes, basta devolver-me o caminhãozinho de madeira, que voltarei a sorrir novamente.

Prosseguiu:

– Também é interessante o fato de poder, nessa idade, falar sozinho, sem que pensem que estou maluco. Senil, podem pensar, mas doido, não.

Emendou outro pensamento:

– Mais um fato marcante é notar que tornei-me um alguém solitário, que fala sozinho, porque nenhum dos amores em minha vida soube sequer igualar o intenso êxtase que eu tive em brincar com meu caminhãozinho de madeira.

A imagem no espelho tentou falar.

– Amigo…

Interrompeu-o bruscamente:

– Espere um pouco. Não creio que você possa chamar-me de amigo, pois acabei de conhecê-lo.

E prosseguiu:

– Na última vez que o vi no espelho, você era mais jovem, com bigode negro e muito sorridente.

A imagem tentou novamente falar:

– Sim, mas…

Aparteou-o outra vez:

– E tem mais, você era otimista, uma outra pessoa, totalmente diferente.

Seguiu falando sozinho:

– E pensar que a simples perspectiva de um dia seguinte, e tudo o que com ele viria, já era motivo, naquela época, de expectativa e otimismo. Hoje, os dias transcorrem exasperantemente idênticos e monótonos.

Lamentando, continuou:

– Ah! Tão efêmera é essa vida, que nem notei a distância entre a brincadeira com o caminhãozinho de madeira e hoje, aqui, olhando você nesse espelho. Tudo foi reduzido a lembranças e fatos esquecidos, sabe-se lá onde.

Permaneceu pensando:

– Tenho muito a agradecer pelo fato de ter envelhecido, isso não posso negar, e poder olhar aquele velho refletido no espelho. Mas muitos amigos foram ficando pelo caminho, impedidos de brincar com os próprios caminhõezinhos, o que causou em mim uma sensação de abandono. Onde estão vocês, meus amigos?

Terminou, solitário, em frente ao espelho, olhando para o alto, quase em uma súplica:

– Devolvam-me o querido caminhãozinho de madeira, eu quero voltar a brincar.
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Arthur Thomaz é natural de Campinas/SP. Segundo Tenente da Reserva do Exército Brasileiro e médico anestesista, aposentado. Trovador e escritor, úblicou os livros: “Rimando Ilusões”, “Leves Contos ao Léu – Volume I, “Leves Contos ao Léu Mirabolantes – Volume II”, “Leves Contos ao Léu – Imponderáveis”, “Leves Contos ao Léu – Inimagináveis,“Leves Aventuras ao Léu: O Mistério da Princesa dos Rios”, “Leves Contos ao Léu – Insondáveis”, “Rimando Sonhos” e “Leves Romances ao Léu: Pedro Centauro”.

Fontes:
Texto e imagem do livro: Arthur Thomaz. Leves contos ao léu: Inimagináveis. 
Santos/SP: Buena Ed., 2025. Enviado pelo autor.

Antônio Maria (Romance dos pequenos anúncios)


Dinheiro — Preciso 35 mil cruzeiros – empréstimo - boas referências.
Pago no vencimento 50 mil - 30 dias.

— Mas, a gente vai separar por quê? — perguntou o marido. A conversa começou cerca da meia-noite, e eram oito da manhã. Marilda só dizia que ia separar e que não ficava mais nem um dia. Na hora de explicar o motivo, se trancava. A pergunta "você tem um novo alguém", Jaribe lhe fizera umas mil vezes. Marilda se arrepiava da cabeça aos pés, com a forma "um novo alguém". Foi quando Jaribe levantou, foi no armário e, de urna malinha da Varig, trouxe um Smith & Wesson 38, carga dupla.

— Fala, Marilda. Se não falar eu me mato aqui mesmo.

Marilda não sabia daquele revólver. Nunca vira, antes, alguém com um revólver na mão. Sentiu uma náusea. A violência, qualquer espécie de violência, lhe nauseava. Pediu:

— Guarde o revólver que eu falo.

Jaribe atirou o revólver, de qualquer maneira, no armário.

— Vai, fala.

Marilda ergueu metade do corpo e recostou no espaldar da cama. Tinha que falar. Um homem nunca se conforma em separar-se sem ouvir, bem direitinho, no mínimo 500 vezes, que a mulher não gosta mais dele, por que e por causa de quem. Já mulher, não (pensava). Basta que o homem lhe diga uma vez que quer ir embora, nasce-lhe um brio, um ódio poderoso, uma espécie de soberba, tão grande, que ela se veste toda, pega um telefone, pede um táxi e sai. Mulher (pensara Marilda, a noite inteira) pode não ter muita vergonha nos outros lugares. Mas, na cara, tem. Mulher não se importa de vestir o menor dos biquínis e deixar que a vejam, horas. Mas não consente que o homem que a despreza lhe olhe a cara, um só minuto.

Mas tinha que falar, porque homem, enquanto não sabe do pior, não sossega. E começou, Marilda, sem um segundo de sono (seis "dexas"), recostada no espaldar.

— Escuta, bem. Você sabe que eu tenho minhas coisas, não sabe? Fala. Sabe ou não sabe?

— Mas conta.

— Você vai dizer que eu sou louca, se eu disser que, no terceiro mês de casada, não aguentava ouvir ou dizer seu nome. Nós estamos casados há dois anos e três meses, não é? Pois bem, qual foi a última vez que você me ouviu chamar você pelo nome?

Jaribe fez uma rápida busca no tempo e só lembrou de Marilda a chamá-lo de "meu bem". Ou, então, quando não havia ninguém perto, falar assim: "hei"!... e dizer o que queria.

Marilda continuava:

— Tentei o seu sobrenome. Você se lembra que, de junho a agosto do ano passado, eu passei chamando você de Carvalho? Mas não podia continuar. Mulher chamar marido pelo sobrenome é humilhante demais.

— Mas meu nome é tirado da Bíblia — ... apelou Jaribe.

Marilda continuou:

— Mas não é só isto. Você fala umas coisas que não há mulher que aguente.

Houve uma pausa, que Jaribe se apressou em quebrar:

— Por exemplo?

Marilda preferia não dizer. Ajeitou-se no espaldar da cama, puxando o lençol acima dos seios, pois naquela posição a camisola não estava dando conta. Mulher não diz nada sério, não assume mesmo a mínima dignidade, se houver qualquer de suas pudícias à mostra. Marilda puxou o lençol até o pescoço.

— Eu estou esperando — insistiu Jaribe.

E Marilda falou o resto:

— Outra coisa: você fala "menas".

— Como assim?

— Você diz muito: "menas gente".

Jaribe a amava como um louco. Sentia, por dentro, uma dor enorme. Aquela dor da falta de ginásio. Mas queria saber tudo:

— E você tem um novo alguém?

Marilda botou o rosto dentro das mãos e começou a chorar. Chorava e falava, ao mesmo tempo:

— Me manda embora! Me manda um mês para fora pra ver se a gente conserta! Deixa eu ficar dois meses no Paraná com a família da minha madrasta! Vai, arranja um dinheiro e me manda! Depois a gente acerta.

Jaribe o que queria era esperança. Como todo homem que sente perder a mulher, queria a esperança de ainda retê-la. Tivesse ou não "um novo alguém", ele queria Marilda. Honra? O que é honra? Em que parte do corpo está localizada?

Com a lucidez dos enganados, Jaribe descobria todas as verdades da vida.

Pobre Jaribe! Iria arranjar o dinheiro, custasse o que custasse. Com uns 35 mil cruzeiros, solucionaria o problema. Qualquer agiota lhe emprestaria 35 por cinquenta, em trinta dias. Qualquer um. O próprio contador da Importadora. Se falhasse, era só botar um anúncio no Jornal do Brasil. Naquela efusão de suas esperanças, pensou: "Por que será que a Condessa comprou a Tribuna?". Pôs-se de pé.

— Olha, Marilda. Você vai para o Paraná, sim. Depois de amanhã. Fica lá, descansa, passa o tempo que quiser e depois volta.

— Faz uma coisa — pediu Marilda —. Você me escreve, tá?

— Claro. Você vai para descansar.

E Jaribe foi para o banheiro, alentado por todos os maus alentos. Vigiar-se-ia dali por diante quando falasse.

Precisava de Marilda. Retê-la-ia, custasse o que custasse. E, coitado, em tudo o que pensava, não estava mais que estruturando sobre o absurdo.
= = = = = = = = = * = * = * = * = * = * = * = * 
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Antônio Maria Araújo de Morais, cronista, locutor esportivo, produtor de rádio, compositor de jingles, nasceu no Recife, em 17 de março de 1921. Aos 17 anos, foi o de apresentador de programas musicais na Rádio Clube Pernambuco. No ano de 1940, vai para o Rio, para ser locutor esportivo na Rádio Ipanema. Foi morar na Cinelândia, onde morou ao lado de Fernando Lobo e Abelardo Barbosa, o futuro rei dos auditórios Chacrinha, também pernambucanos. Passou fome, foi humilhado e preso. Retornou ao Recife e se casou, em maio de 1944, com Maria Gonçalves Ferreira. Muda-se para Fortaleza, trabalhar na Rádio Clube do Ceará. Depois de um ano vai para a Bahia como diretor das Emissoras Associadas, tendo ali conhecido e feito amizade com Di Cavalcanti, Dorival Caymmi e Jorge Amado. Chegou a ser candidato a vereador naquela cidade. Volta ao Rio de Janeiro, em 1947, com dois filhos, como diretor artístico da Rádio Tupi. Convocado por Assis Chateaubriand foi o primeiro diretor de produção da TV Tupi, inaugurada em 20 de janeiro de 1951, tendo trabalhado também como cronista de O Jornal. Durante mais de 15 anos escrevendo crônicas diárias. No jornal O Globo manteve, por pouco tempo (início de 1959), a coluna "Mesa de Pista", tendo então se transferido para a Última Hora. Ali voltou a assinar "O Jornal de Antônio Maria" e "Romance Policial de Copacabana", esta última com crônicas e reportagens.

Na televisão era famoso o programa "Preto no Branco", de Sargentelli, onde sempre aparecia uma "pergunta de Antônio Maria, da produção do programa", geralmente muito embaraçosa. Fez, com Ary Barroso, durante todo o ano de 1957, um programa de sucesso: "Rio, Eu Gosto de Você”, na TV Rio. Com Paulo Soledade, assinou alguns shows na boate Casablanca e, em 1953, chegou a subir toda noite ao palco do Night and Day, no Edifício Serrador, localizado no centro do Rio, para apresentar "A Mulher é o Diabo", revista de Ary Barroso.

Antonio Maria, cardiopata desde a infância, faleceu fulminado por um enfarte do miocárdio na madrugada de 15 de outubro de 1964, em Copacabana, quando se dirigia para o Le Rond Point; mesmo tendo sido socorrido por amigos que o viram cair e que se encontravam na boate O Cangaceiro, em frente daquele restaurante. Bom de copo e de garfo, Maria se auto-intitulava "cardisplicente", uma mistura de cardíaco com displicente. Profissão: Esperança.

Livros:
- O Jornal de Antônio Maria, 1968.
- Com vocês, Antônio Maria, 1994.
- Benditas sejam as moças: As crônicas de Antônio Maria, 2002.
- O diário de Antônio Maria, 2002.

Fontes:
"Com vocês, Antônio Maria". SP: Editora Paz e Terra, 1994.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing 

quinta-feira, 9 de abril de 2026

Asas da Poesia * 173 *


Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Teu beijo, pela Internet,
vem sempre com tal calor,
que qualquer dia derrete
meu pobre computador!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
FERNANDO PESSOA
(Fernando António Nogueira Pessoa)
Lisboa/Portugal (1888 – 1935)

Se alguém bater um dia à tua porta,
Dizendo que é um emissário meu,
Não acredites, nem que seja eu;
Que o meu vaidoso orgulho não comporta
Bater sequer à porta irreal do céu.

Mas se, naturalmente, e sem ouvir
Alguém bater, fores a porta abrir
E encontrares alguém como que à espera
De ousar bater, medita um pouco. Esse era
Meu emissário e eu e o que comporta
O meu orgulho do que desespera.
Abre a quem não bater à tua porta
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
FRANCISCO NUNES
São Caetano do Sul/SP

não
enviei
condolências;
preferem
minha
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
GUILHERME DE ALMEIDA
Campinas/SP, 1890-1969, São Paulo/SP

Nós, III

Estas e muitas outras cousas, certo,
eu julgava sentir, quando sentia
que, descuidado e plácido, dormia
num inferno, sonhando um céu aberto.

Mas eis que, no meu sonho, luzidia
passas e me olhas muda. E tão de perto
me olhas, tão junto passas, que desperto,
como se em teu olhar raiasse o dia.

Data de então a página primeira
da nossa história, sem a mais ligeira
sombra de mágoas nem de desenganos.

Bastou-nos, para haver felicidade,
a pujança da minha mocidade
e a flor de carne dos teus verdes anos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
Ponta Grossa/PR, 1943 – 2016

Das cordas de minha lira
ouço uma bela canção
que na saudade suspira
qual prece de uma oração!...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
ELISA ALDERANI
Ribeirão Preto/SP

Vida de poeta

Faz alguns dias que perdi a poesia.
Não tenho fantasia,
não tenho argumentos.
Será que meu coração está ficando lento?
Vamos tomar providências.
A primeira coisa é colocar alegria...
Aonde vou achar não sei dizer.
Olhando pela janela?
Ou dentro da minha panela?
Na geladeira, na cozinha, no quarto...
Na rua? Vai saber!
Paro, respiro fundo,
sinto a vida pulsar...
Estou viva devo me alegrar
e a poesia de novo encontrar!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Quadra de
ANTÓNIO ALEIXO
(António Fernandes Aleixo)
Vila Real de Santo António/Portugal, 1899 — 1949, Loulé/Portugal

Quem trabalha e mata a fome,
não come o pão de ninguém,
mas quem não trabalha e come,
come sempre o pão de alguém.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
FRANCISCA CLOTILDE
Tauá/CE (1862 – 1935) Aracati/CE

Ceará

Ave, Terra da Luz, Ó pátria estremecida,
Como exulta minha alma a proclamar-te a glória,
Teu nome refugastes inscreve-se na história,
És bela, sem rival, no mundo, engrandecida!

A dor te acrisolou a força enaltecida,
Conquistaste a lutar as palmas da vitória
Hoje és livre e de heróis a fúlgida memória
Jamais se apagará e a fama enobrecida.

O sol abrasa e doura os teus mares que anseiam
Em vagas que se irisam, que também se alteiam
A beijar com ardor teus alvos areais.

Eia! Terra querida, sempre avante!
Deus te guie no futuro em ramagem brilhante
Nas delícias do bem, nos júbilos da paz!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Quem confunde hiato e ditongo,
não sabe o que é diapasão;
mistura a língua do congo
com dialeto alemão.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
ANTÔNIO OLIVEIRA PENA
Volta Redonda/RJ

Poeta é aquele que vê
(A Márcio Marinho Nogueira)

Poeta é aquele que vê
o belo e o feio do mundo;
que capta, com suas antenas,
toda a essência das coisas
e em seus versos a traduz.
Poeta é aquele que sabe
colher com seus dedos longos,
pelas margens dos caminhos,
flores, e ninhos, e salmos.
Poeta é aquele a quem cabe
distribuir os seus dons
e, estando à sombra ou ao sol
de suas aspirações,
faz aos poucos uma história.
Poeta é aquele que crê
e proclama esta verdade:
só o amor tem fundamento;
o ódio, a cobiça, o ciúme
não têm, não, razão de ser.
Poeta é quem dá, afinal,
través daquilo que escreve,
das palavras de sua boca,
água a quem reclama sede,
pão a quem lhe diz ter fome,
o que cobrir ao que está nu,
e flores — a este, àquele —
flores a toda a gente,
indiscriminadamente,
mesmo a quem, ah! sobretudo
àquele que lhe atira pedras.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Foi o par pro beleléu...
e o fantasma, em tom moderno:
- Venho, à noite, aqui no céu,
ou você vai lá no inferno?
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
JOSÉ FELDMAN
(Floresta/PR)

A Noite e a Tristeza

A noite cai e com ela, a tristeza,
coração sofredor por um amor perdido,
a escuridão envolve a alma com presteza
e a solidão se torna um peso sentido.

A falta de um amor traz desânimo,
e a noite parece não ter fim,
a tristeza se espalha como um veneno,
e o coração sofre sem alívio em esplim*.

A noite é silenciosa e a dor que sente
o coração chora, e a alma mergulha em fel,
a falta de um amor é um peso constante,
e a tristeza se torna um companheiro fiel.

A noite é escura e a alma se cansa
num coração que sofre, sem esperança .
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  =
* Esplim = enfado, tédio, melancolia
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  =

Soneto de
JOSÉ CARLOS MOUTINHO
Maia / Porto / Portugal

Sonetos atrevidos

Saí para a rua, com outro espírito,
O mundo é meu, ninguém me tira,
Sou único no mundo, sem atrito
Tenho a alegria, que nunca sentira!

As ruas são minhas e toda a sua luz,
Com o perfume das flores que as ladeiam,
Toda esta beleza, com alegria me conduz
À paz que todos neste mundo anseiam!

Como estou feliz e sou teimoso,
Nem com a métrica me importo,
Porque não quero ser famoso

Deixo a análise para os entendidos,
Levo a estrutura com desporto,
Insisto em fazer sonetos atrevidos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
LUCÍLIA ALZIRA TRINDADE DE CARLI
Bandeirantes/PR

Enxugando em meu poente
muita lágrima sofrida,
você se fez, de repente,
alvorada em minha vida!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Spina de
ARTUR JOSÉ CARREIRA
São Paulo/SP

Tortos 

Poema em vazio,
seu conteúdo só
sem seus versos.

Estrofes em desordem na rima 
tropeçam por entre letras, sons,
sentidos tortos em pele imersos.
Esses sons, meio loucos varridos,
descem pela alma, meio inversos!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
ARTHUR THOMAZ
Campinas/SP

Num eclipse inesperado,
ficando só a espiar,
o sol se esconde ofuscado
pelo brilho em teu olhar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
VICENTE DE CARVALHO
Santos/SP (1866 – 1924)

Esperança

Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.

O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.

Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,

Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

Atrás do tempo...

A hora que passa, o tempo que voa, 
igual ao pardal, que belisca à toa
a manga do meu quintal, e com o bico ainda sujo, põe-se a voar...

Eu espero assim...
Andando no tempo, tomando friagem na garoa gelada 
atrás de quimeras da doce primavera do botão da rosa... a desabrochar.
É o tempo correndo e a vida trazendo um novo amanhã...
no meu despertar...

Arranco um botão de minha camisa, pois chega o verão...
E eu ainda vestido de manga comprida num dia de sol, 
Que mede o tempo, arranhando o céu...

Com o corpo desnudo e a pele morena à beira do mar...
É tempo de amar...
...o ser que me envolve na ternura do cheiro, no perfume do ar.  

E a folha caída da velha mangueira no outono da vida
no caderno que leio a poesia que fiz...
Releio a folha marcada, já tão desbotada...
Pensei ser feliz...

E no sopro do vento que leva a folha e o tempo...
 e eu a esperar...
o encontro da espuma na gulosa areia o beijo do mar.

Mas o frio ardido do vento sulino começa a soprar...
E no fundo da alma, o inverno me acalma...
A noite me cobre, aquece meu corpo...
 me ponho a sonhar...

Acordo...
E ao ver no relógio o ponteiro girando, girando... 
Eu fico a pensar... 
...Na dura partida do amor e do tempo,
Que a vida nos faz... 
(Poesia classificada em 4º lugar no Concurso Internacional de Poesias Primavera 2003/2004 - S.Paulo/SP)
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Triverso de
FRANCISCO ASSIS DOS SANTOS
Santos/SP

Caminhos da infância…
As patas do cavalo
Na geada do campo.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Pantum de
MIFORI
(Maria Inez Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Navegando contra o vento 

Navegando contra o vento
sem levar mercadoria,
o seu barco sonolento
bordejava em agonia.

Sem levar mercadoria
num mar bravio e revolto
bordejava em agonia
um dos barcos, leve e solto.

Num mar bravio e revolto
num balanço tempestuoso
um dos barcos, leve e solto,
seguiu trajeto tortuoso.

Num balanço tempestuoso
naquele dia cinzento
seguiu trajeto tortuoso
navegando contra o vento.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
CAROLINA RAMOS
Santos/SP

Cada um para o seu lado...
ninguém entende ninguém...
Quando o respeito é quebrado,
o amor se quebra também!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de
SÃO JOÃO DEL REI/ MG

Salve, Terra gentil que fulguras,
No regaço da Terra de Minas,
Como um cofre das glórias mais puras,
Como um alvo das bênçãos mais divinas.

És estância de grato repouso
Aos que chegam cansados da luta!...
O teu seio é oásis formoso,
Onde uma alma o descanso desfruta!...

Há nas rochas de tuas montanhas
Um poema de glórias escrito:
Teu denodo em grandes campanhas
Teu amor no trabalho bendito.

Tua história de sempre, aparece
Circundada de um halo de luz
Pois se a glória o teu nome enobrece,
De bondade o teu nome reluz.

As muralhas das tuas igrejas
São proclamas da Fé que tu tens,
Fé que anima o fervor das pelejas,
Fé que abranda da vida os vaivéns.

Salve Terra!… Entre terras mineiras
Tens um posto de grande fulgor
Foram tuas as vozes primeiras
Contra o mal de um governo opressor.

Salve, terra querida e formosa!...
Salve terra de São João Del-Rei!...
Sê tu sempre feliz e gloriosa,
Sentinela da Crença e da Lei!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de
ÁLVARO POSSELT
Curitiba/PR

peregrinação

Como o poeta sofre
Faz o caminho in-verso
para chegar na estrofe
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Pra quem quer fazer Soneto!

Soneto, peça rara da poesia,
tem rima, ritmo, métrica e estrutura,
motivo muitas vezes de agonia
pra quem, fazer soneto, se aventura.

A rima dá o tom da “melodia”,
a métrica mostra sua “escultura”,
no ritmo está sua “sonoplastia”,
e na estrutura a sua “assinatura”!

Composto de tercetos e quartetos,
depois dos dois quartetos, atenção,
os dois tercetos fecham o soneto.

Aviso: pode o Poeta, nos tercetos,
ser livre pra rimar. Pronta a “lição”, 
agora é só botar no branco o preto!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O burro e os donos

O burro de um hortelão
À Sorte se lamentava,
Dizendo que madrugava,
Fosse qual fosse a estação,
Primeiro que os resplendores
Do sol trouxessem o dia.
«Os galos madrugadores,
— O néscio burro dizia —
Mais cedo não abrem olho.
E porquê? Por ir à praça
Com uma carga de repolho,
Um feixe de aipo, ou labaça,
Alguns nabos e berinjelas;
E por estas bagatelas
Me fazem perder o sono.»
A Sorte ouviu seu clamor,
E deu-lhe em breve outro dono,
Que era um rico surrador.
Eis de couros carregado,
Sofrendo um cruel fedor,
Já carpia ter deixado
O seu antigo senhor:
«Naquele tempo dourado, —
Dizia — andava eu contente;
Cada vez que ia ao mercado,
Botava à cangalha o dente,
Lá vinha a couve, a nabiça,
A chicarola, o folhado,
E outras castas de hortaliça;
Mas se hoje, fraco do peito,
O meu dente à carga deito,
Em vez da viçosa rama
Da acelga, do grelo, ou nabo,
Só acho dura courama
Que fede mais que o diabo!»

Prestando às queixas do burro
A Sorte alguma atenção,
Lhe deu por novo patrão
Um carvoeiro casmurro.
Entrou em nova aflição
O desgostoso jumento.
Vendo faltar-lhe o sustento,
E em negro pó de carvão
Andando sempre afogado,
Tornou a carpir seu fado.
«Que tal! — diz a Sorte em fúria —
Este maldito sendeiro,
Com sua eterna lamúria,
Mais me cansa, mais me aflige
Que um avaro aventureiro
Quando fortunas me exige!

Pensa acaso este imprudente
Que só ele é desgraçado?
Por esse mundo espalhado
Não vê tanto descontente?
Já me cansa este marmanjo!
Quer que eu me ocupe somente
Em cuidar no seu arranjo?»

Foi justo da Sorte o enfado,
Que é propensão do vivente
Lamentar-se do presente,
E chorar pelo passado:
Que ninguém vive contente,
Seja qual for seu estado.
= = = = = = = = =