domingo, 12 de abril de 2026

Geraldo Pereira (O Gordo e o Magro)


Tem gente no mundo mais do que interessante, pois que não descuida dos outros, mas não cuida de si mesma! Quando o semelhante, penitente deste mundo de Deus, engorda um pouco - o meu caso agora - é impossível livrar-se dos comentários nascidos de todos os lados. 

Vai pra lá e vem pra cá, ouve, sempre, uma observação nunca cautelosa! A mais simples de todas: “Você engordou!”. Alguns, entretanto, deixam de passar as mãos nas costas do amigo e adotam o alisar da protuberância abdominal - da emergente barriga -, como se o lugar dos afagos e dos carinhos tivesse mudado. 

Poucos são aqueles que fazem como o gazeteiro - Mané do jornal -, há muito desaparecido dessas paragens pombalinas e que voltando a gritar os jornais pelo nome, disse: “Quase não lhe conheço, de tão gordo e bonito!”. Aí, também, já é exagero!

A verdade é que às custas dos acepipes e de outras guloseimas, degustados nas recepções e nas festas que ando frequentando, por conta dos meus deveres do aqui e do agora, os do ofício, o mostrador da balança mudou de número. E, inevitavelmente, mudaram os comentários! 

Ora, sou de outros tempos, pois que nascido e criado nos meados do século, cresci ouvindo a máxima: “Saúde e Gordura!”. Menino novo, naqueles anos, tinha dobras e mais dobras e até participava de concurso nas emissoras de rádio, vencendo o mais rechonchudo. As mulheres, também, eram massudas! Na minha rua, nos idos de sessenta, andavam três irmãs de dotes assim, protundentes e a meninada, de logo, criou o apelido apropriado à época e à mesa: “As Albacoras!”. Não que se desdenhasse das moças, mas pela indiferença à rapaziada do lugar! Vingança, pois!

As madonas de avantajadas formas tinham admiradores certos e uma delas até, posta diante do prédio dos correios, esperando o marido, que fora ali postar uma carta, quase protagoniza uma briga. É que estando o cônjuge do outro lado da rua e encontrando amigo há muito distante, ouviu do velho companheiro a observação definitiva: “Olha pra ali! Vê que mulher!”. É minha esposa, respondeu, sem graça, o interlocutor de ocasião! E quase vão às turras! 

Hoje em dia, pode-se deixar, à vontade, na av. Guararapes ou noutro lugar qualquer, uma gordinha, que seja, sem risco algum de gracejos ou de sedutoras formas de verbais elogios. Ninguém presta mais atenção aos culotes, tão decantados nos meus outroras ou ninguém liga mais para as pernas volumosas, de cujas batatas nasceram tantas das fantasias pueris, naqueles pretéritos!

Contabilizo, na memória dessas sensualidades perdidas, diversas figuras femininas que marcaram época, com essas obesas características! Gente do porte de uma Marinete, que mesmo tendo um busto contido, dentro das proporções das adequações nacionais, avolumava-se daí pra baixo! Aquela mulher não tinha cadeiras, mas poltronas - Isso sim! - e guardava, nos longos e protetores vestidos, pernas tão grossas, que despertavam as tentações todas do mundo. Por essa razão, não podia ir pra casa sozinha, tal o cuidado do amante, que na garupa da lambreta transportava a Vênus do tempo, desfilando desejos nas ruas do Pombal. 

Ainda hoje, nas brumas perdidas, pairam os devaneios e os sonhos, enquanto ela, a musa encantada, cumpre o bailado sagrado da feminilidade. Vez ou outra, nas nuvens dos céus, senta-se no divã de algodão dos deuses e acomoda no colo todos os anjos. Ouve-se, então, o som das trombetas, em louvor à deusa dessas tupiniquins origens. Um ode à beleza das celulites!

Vive-se, entretanto, neste presente da globalização, um tempo diferente, o reinado dos magricelas. Se uma modelo qualquer, esquálida, que seja, desfila na telinha de casa, mostrando os ossos e as saliências, é incluída, de pronto, dentre as belas. Louva-se a caquexia e sobretudo a anorexia, desprezando-se, então, grandeza do paladar! 

Tem gente por ai que não conhece o sabor de uma “Mão de Vaca” ou de uma “Dobradinha com Feijão Branco”, que ignora o “Sarapatel” e a “Galinha de Cabidela”, que dá de ombros se chega à mesa um “Cozido a Brasileira”! Ninguém se arrisca ao caldinho da feijoada, pior o pé de porco, o paio e a charque. 

Em toda farmácia que se preza, de outra parte, há, sempre, uma balança digital, com os números em vermelho bem vivo, determinando sentenças. Se o resultado supera as expectativas, instala-se a depressão e se restringe o prato. Quando há dinheiro sobrando, o socorro está nas clínicas sofisticadas de emagrecimento. É a escravidão das verduras!

Mas, os verdureiros de outrora, que usavam balaios ou empurravam carroças, repletos de cenouras, de xuxu e de alface ou cheios de jerimum, de vagem e de tomate, que na verdade é fruta, se reaparecessem agora, fariam a festa, a feira e a féria, tal a procura nos dias que correm, céleres, como se fossem contados em minutos, apenas! E o homem do miúdo, com o tabuleiro carregado por seu auxiliar, negociando o fígado e a passarinha e entregando o miolo de boi, que garantia a inteligência e o talento de meu pai, na crença da época? Morreria de fome! Bom seria para o vendedor de laranjas, com dois sacos enormes, carregados da cítrica fruta.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
Geraldo José Marques Pereira nasceu em Recife/PE, em 1945 e faleceu na mesma cidade em 2015, formou-se em Medicina na UFPE em 1986. Fez o mestrado no Departamento de Medicina Tropical da instituição, do qual se tornou coordenador posteriormente. Foi diretor do Centro de Ciências da Saúde e fundou o Núcleo de Saúde Pública e Desenvolvimento Social (Nusp) da universidade. Vice-reitor da instituição de 1996 a 2004 e, quando o reitor precisou se afastar entre março e novembro de 2003, foi reitor em exercício. Fora da universidade, integrou a Comissão Estadual de Saúde, a Comissão Científica de Combate à Dengue do Governo do Estado e a Comissão de Cólera da UFPE e da Cidade do Recife, além de participar do Conselho Científico do Espaço Ciência da Secretaria de Ciência, Tecnologia e Meio Ambiente de Pernambuco. Por conta dos inúmeros artigos científicos publicados, ainda foi membro da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores e do Conselho Estadual de Cultura e presidente da Academia Pernambucana de Medicina. Escrevia crônicas e, em março de 2011, assumiu a cadeira de número 16 da Academia Pernambucana de Letras, que já havia sido ocupada pelo seu pai, o escritor Nilo Pereira.

Fontes:
Geraldo Pereira. A medida das saudades. Recife/PE. Disponível no Portal de Domínio Público
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

Humberto de Campos (Represália)


Informado da maldade com que a baronesa de São Bonifácio punira, na véspera, na chácara dos Peixoto Leroux, a tríplice viuvez da sua sobrinha, Mme. Lilita Wilson, o almirante Ribas, tão famoso pela sua malícia irreverente, resolveu tomar uma desforra da linda titular, punindo-a pela perfídia com que se referira à sua encantadora amiguinha de outrora. E o lugar escolhido para a vindita foi a segunda mesa à direita, na Lalet, onde se acharam, frente a frente, ontem, à tarde, entre o desembargador Ataulfo e Me. Carvalho Gondra, a maravilhosa Anfitrite do norte e o velho tritão dos grossos mares do sul.

A palestra decorria brilhante e amável, quando o almirante, encontrando uma oportunidade feliz, observou, rindo, à baronesa:

- É verdade; achei admirável aquela comparação da Lilita com os rios que mudam frequentemente de leito!

- Quem lhe contou isso? - estranhou a baronesa, espantada, recuando o busto soberbo.

- O desembargador Abelardo, que a ouviu dos seus lábios.

- Indiscreto... - sussurrou a fidalga, num muxoxo, retomando a xícara.

O almirante precisava, porém, de uma vingança mais positiva, mais clara, mais ferina, e, sem deixar que a presa fugisse, mudando de assunto, volveu, impiedoso:

- A baronesa sabe, porém, quando é que os rios mudam de leito?

A fidalga encarou-o, franzindo a testa magnifica, e ele, aproveitando o diálogo em que se distraíam os dois companheiros de mesa, fulminou-a, terrível, descendo os olhos pelo vestido significativamente frouxo:

- É quando engrossam... Compreendeu?

E, vendo-a empalidecer, alto, e risonho:

- V. Ex. está se sentindo mal?
= = = = = = = = =  = = = = = = = = =  = = = = 
Humberto de Campos Veras nasceu em Miritiba/MA (hoje Humberto de Campos) em 1886 e faleceu no Rio de Janeiro, em 1934. Jornalista, político e escritor brasileiro. Aos dezessete anos muda-se para o Pará, onde começa a exercer atividade jornalística na Folha do Norte e n'A Província do Pará. Em 1910, publica seu primeiro livro de versos, intitulado "Poeira" (1.ª série), que lhe dá razoável reconhecimento. Dois anos depois, muda-se para o Rio de Janeiro, onde prossegue sua carreira jornalística e passa a ganhar destaque no meio literário da Capital Federal, angariando a amizade de escritores como Coelho Neto, Emílio de Menezes e Olavo Bilac. Trabalhou no jornal "O Imparcial", ao lado de Rui Barbosa, José Veríssimo, Vicente de Carvalho e João Ribeiro. Torna-se cada vez mais conhecido em âmbito nacional por suas crônicas, publicadas em diversos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e outras capitais brasileiras, inclusive sob o pseudônimo "Conselheiro XX". Em 1919 ingressa na Academia Brasileira de Letras. Em 1933, com a saúde já debilitada, Humberto de Campos publicou suas Memórias (1886-1900), na qual descreve suas lembranças dos tempos da infância e juventude. Após vários anos de enfermidade, que lhe provocou a perda quase total da visão e graves problemas no sistema urinário, Humberto de Campos faleceu no Rio de Janeiro, em 1934, aos 48 anos, por uma síncope ocorrida durante uma cirurgia. Além do Conselheiro XX, Campos usou os pseudônimos de Almirante Justino Ribas, Luís Phoca, João Caetano, Giovani Morelli, Batu-Allah, Micromegas e Hélios. Algumas publicações são Da seara de Booz, crônicas (1918); Tonel de Diógenes, contos (1920); A serpente de bronze, contos (1921); A bacia de Pilatos, contos (1924); Pombos de Maomé, contos (1925); Antologia dos humoristas galantes (1926); O Brasil anedótico, anedotas (1927); O monstro e outros contos (1932); Poesias completas (1933); À sombra das tamareiras, contos (1934) etc.

Fontes:
Humberto de Campos. Grãos de Mostarda. Publicado originalmente em 1926. Disponível em Domínio Público. 
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

A. A. de Assis (Noventa e três anos)


Fico até espantado só de pensar que 7 de abril, completei 93 anos, quase um século de permanência neste planetinha. Em janeiro completei também 71 anos de residência em Maringá e 68 de casamento com Lucilla.

Nasci num lugar chamado Bela Joana, na região montanhosa do município de São Fidélis-RJ, onde meu pai cultivava café, feijão, milho, mandioca e frutas. Com 8 anos, fui mudado para a cidade, a fim de continuar os estudos iniciados numa escolinha rural, mas continuei a passar as férias na roça.

Lá eu tinha uns poucos amigos: dois sobrinhos da minha idade – Paulinho Fernando e José Augusto, e os filhos dos sitiantes vizinhos – os gêmeos Renan e Renato, o Antônio do Arquimedes, o Jacy de Dona Davina.

A gente inventava um monte de brinquedos, porém era proibido caçar passarinhos. Meu pai não nos permitia usar estilingues, nem arapucas. Para compensar, formou um pomar atrás de nossa casa e entre as árvores colocou umas caixas onde punha alpiste, canjiquinha e outros alimentos. Com isso atraía pássaros de toda espécie: azulões, sabiás, coleirinhos, melros, pica-paus, periquitos, juritis, saíras. Era o dia inteiro aquela cantoria.

Costumo pensar que os passarinhos foram meus primeiros professores de poesia. Eu ficava horas no pomar observando a movimentação deles e ouvindo os seus gorjeios. Alguns eram mais achegados, me conheciam e vinham até pousar nas minhas mãos.    

A infância e adolescência envolvidas nesse ambiente silvestre me deixaram marcas fortes. Quando vim para Maringá, nos primeiros tempos gostava de ir nos domingos ao Horto Florestal matar saudade. Era o jardinzão onde a população pioneira tomava banho de sol, fazia piquenique e as crianças se divertiam.

Mas os anos passaram, a vida rapidamente urbanizou-se, o contato com a natureza foi rareando. De vez em quando a gente escuta ainda o canto de um sabiá. Porém o cheiro e os sons primitivos da roça e do mato nunca mais serão os mesmos.

(Crônica publicada no Jornal do Povo)
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  
A. A. de Assis (Antonio Augusto de Assis), (93), poeta, trovador, haicaísta, cronista, premiadíssimo em centenas de concursos nasceu em São Fidélis/RJ, em 1933. Radicou-se em Maringá/PR desde 1955. Lecionou no Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, aposentado. Foi jornalista, diretor dos jornais Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná e das revistas Novo Paraná (NP) e Aqui. Algumas publicações: Robson (poemas); Itinerário (poemas); Coleção Cadernos de A. A. de Assis - 10 vol. (crônicas, ensaios e poemas); Poêmica (poemas); Caderno de trovas; Tábua de trovas; A. A. de Assis - vida, verso e prosa (autobiografia e textos diversos). Em e-books: Triversos travessos (poesia); Novos triversos (poesia); Microcrônicas (textos curtos); A província do Guaíra (história), etc.

Fontes:
Texto enviado pelo autor.
Imagem criada por Jfeldman com Microsoft Bing

sábado, 11 de abril de 2026

Asas da Poesia * 174 *


Trova de
DARLY O. BARROS
São Francisco do Sul/SC, 1941 - 2021, São Paulo/SP

– Minha filha, tens certeza?
– Tenho, mãe, é gravidez!
– Se vais dizer: “foi fraqueza”,
já não cola, é a quarta vez!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
LUIZ POETA
Luiz Gilberto de Barros
Rio de Janeiro/RJ

Tradução

Cada verso teu traduz a tua história;
Solta em cada linha livre que tu traças
Quando tu te expressas, da tua memória
Nascem tantas formas onde tu te enlaças.
 
Cada vez que leio cada fragmento
Dos teus sentimentos, no meu coração,
Um amor sublime faz desse momento
Mais que um sentimento de admiração...
 
Parece que há muito eu já te conhecia
E deixo  meu ser voar qual passarinho
No rumo sutil da tua poesia
Onde a fantasia cria o seu caminho.
 
Ando-te sem pressa, sem preocupar-me
Com a vida,  o tempo... e a ti me dedico,
Quero encontrar-te e busco encontrar-me
Na tua emoção com a qual me identifico.
 
Tu és minha irmã... eu sou o teu irmão
Quando tua doce alma me convida
A eternizar-te no meu coração
E a compreender um pouco a tua vida.
 
E assim que te vais após cada leitura,
Deixas no meu peito a doce sensação
Que tua palavra cheia de ternura
Cura as amarguras do meu coração.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Aldravia de
SUZANA PEIXOTO
(Suzana Maria Cruz Peixoto)
Belo Horizonte/MG

mãos
carinhos
danças
bailes
saudosas
lembranças
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
DOMINGOS FREIRE CARDOSO
Ilhavo/Portugal

As palavras perfumadas da confidência
(Maria Goreti Andrade Carneiro Dias in “Textos de Amor", p. 40)

“Palavras perfumadas de confidência”
Dizias tu baixinho ao meu ouvido
E eu, delas tão sedento e atrevido
Ia perdendo, aos poucos, a inocência.

O amor ardia em nós com tal urgência
E como quase nada era proibido
Sem saber o caminho percorrido
Quase demos às portas da demência.

Dormem os nossos corpos saciados
Perdidos nos lençóis amarrotados
Envoltos numa paz que nos aquece.

Em redor tudo é calmo e é perfeito.
E eu sinto em mim que o mundo é o nosso leito
Como se nele nada mais houvesse.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
MAURÍCIO NORBERTO FRIEDRICH
Porto União/SC, 1945 – 2020, Curitiba/PR

Até hoje, na velhice,
lembro as canções de ninar
que mamãe, pura meiguice,
cantava pra me embalar!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Dobradinha Poética de
THEREZINHA DIEGUEZ BRISOLLA
São Paulo/SP

Cidade Natal

Ao procurar as raízes,
tem o meu sonho tal ânsia,
que ao buscar dias felizes
volto à fazenda da infância.

Seu pai era jardineiro
e ele era um menino arteiro,
que só queria brincar.
Mas, quando a mãe o chamava,
as flores, logo abraçava
e o pai ele ia ajudar.

Cresceu… deixou a cidade.
Longe de tudo, a saudade,
quase que o fez regressar.
Mas, sabendo o que queria,
formou-se em agronomia
depois de muito estudar.

Já casado e com família,
passou anos em vigília
e por trabalhar assim,
formou dois filhos doutores
mas, nunca mais plantou flores
e nem cuidou de um jardim!

Ao perder a companheira,
sua ilusão derradeira,
já tendo bastante idade,
procurou suas raízes
lembrando os tempos felizes
lá, na pequena cidade.

Voltou à morada antiga,
ouviu a velha cantiga,
foi à igreja e ao botequim.
E, na praça da cidade,
onde dói mais a saudade,
plantou flores no jardim!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

TROVA POPULAR

Infeliz me considero 
em todos os meus intentos:
Quando penso achar venturas,
não acho senão tormentos.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Delírios da aurora

Quando a aurora bem cedo, abre a cortina,
ante os raios do Sol, o orvalho chora,
pestaneja no céu, a luz divina
e resplende, na terra, a luz da aurora!

Basta o olhar dessa aurora peregrina,
passageira que, ao longe, o céu decora,
e, aos pouquinhos, dos braços da campina,
o silêncio da noite vai embora!

Sobre as copas de antigos arvoredos,
lindas aves revelam seus segredos,
dando vivas, à luz do Sol nascente...

E entre coros, canções, ressurge a vida,
despertando essa paz adormecida,
que adormece de novo, ao sol poente!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
ANTONIO BISPO DOS SANTOS
São Cristóvão/SE, 1917 – 2010, Niterói/RJ

Não quero louro ou riqueza.
Nada além do amor perdura.
Em minha feliz pobreza
Deus me cobre de ternura.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
CARLOS LÚCIO GONTIJO
Belo Horizonte/MG

Sol eterno

Há mais alegria na procura que no encontro
A poesia da vida está na surpresa das esquinas
Em liberdade as diferenças se fazem divinas
Não se toma água limpa em fonte suja
Quem não garimpa dentro de si mesmo
Enferruja com seu toque tudo que amanhece
Não se conhece nem se doa ao próximo
É como canoa que temesse a festa da correnteza
A Natureza acontece na candura da simbiose
Ao horizonte do amor basta a luz da ternura
O sabor da fruta não depende da semente
Vem do calor da mão calejada do plantador
Pôr-do-sol que não se põe no peito da gente!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
MANUEL BANDEIRA
(Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho)
Recife/PE (1886 – 1968) Rio de Janeiro/RJ

Soneto italiano

    Frescura das sereias e do orvalho,
    Graça dos brancos pés dos pequeninos,
    Voz das manhãs cantando pelos sinos,
    Rosa mais alta no mais alto galho:

    De quem me valerei, se não me valho
    De ti, que tens a chave dos destinos
    Em que arderam meus sonhos cristalinos
    Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?

    Também te vi chorar... Também sofreste
    A dor de ver secarem pela estrada
    As fontes da esperança... E não cedeste!

    Antes, pobre, despida e trespassada,
    Soubeste dar à vida, em que morreste,
    Tudo, — à vida, que nunca te deu nada!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
ANDRÉ RICARDO ROGÉRIO
Arapongas/PR

Quando, então, do céu descer
um brilho no seu olhar
é porque no entardecer 
meus sonhos vão te buscar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Spina de
ANA MEIRELES
Belém/PA

O pescador 

Pesqueiro do a(m)ar 
- Lançador de redes,
um eterno sonhador. 

Lança sua tarrafa com fé,
espera a maré, sob ondas
sente sua alma, terno ardor,
conhece o amor, vê águas 
de beijar praias, o pescador.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
EVA YANNI GARCIA
Caicó/RN

Sei que me esperas, suponho,
te sinto além do infinito;
se és a musa do meu sonho,
és meu sonho mais bonito!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
VANDA FAGUNDES QUEIROZ
Curitiba/PR

Sublimação

Tento louvar a beleza do universo,
cantar o céu, o infinito, o sol, a flor.
No silêncio existe som que escuto em verso,
do matiz inexistente vejo a cor.

Numa gota d’água posso ver, submerso,
do gigante mar azul todo o esplendor.
Penso em rosas onde o espinho mais perverso
cresce, banindo a alegria e impondo a dor.

A solidão povoei, o peito imerso
nos meus sonhos enfeitados com o verdor
da esperança, alado aroma ao céu disperso.

A viver concebo o Bem. Em meu fervor,
sonhando a Paz, quando há guerra, quão diverso
vê-se o mundo no altar-mor do meu Amor!...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
TIAGO
António José Barradas Barroso
Paredes/ Portugal

O amor ia no cartão,
a rosa era o meu presente,
agora, anda pelo chão
pisada por toda gente.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
NEMÉSIO PRATA
Fortaleza/CE

Linha do Tempo! 

Corre o tempo, sem dar tempo 
de ver que o tempo passou, 
agora, passado o tempo, 
passado no tempo estou; 
porém não me importa o tempo 
passado, pois este tempo 
passado, já se passou! 

Olho o tempo no presente 
e vejo quão bom é o tempo, 
pois o tempo, simplesmente, 
me dá tempo de ter tempo 
pra gastar tempo com gente 
que por não ter tanto tempo 
não vive o tempo presente!

Mais um dia amanheceu, 
mais um dia se passou, 
mais um dia anoiteceu, 
mais uma noite chegou, 
mais uma noite passou, 
mais uma noite se foi, 
e mais um dia se foi, 
e se foi todo meu tempo, 
sem ter um pingo de tempo, 
pra notar que o tempo foi 
embora, sem perder tempo, 
pois o tempo não tem tempo 
pra quem também não tem tempo, 
por isso não perca tempo, 
tire um pouco do seu tempo 
tão pouco, sem perder tempo, 
antes que o dia anoiteça, 
antes que você se esqueça, 
antes que você pereça, 
e viva todo este tempo 
que lhe resta, dando tempo 
para quem já não tem tempo 
de ver o tempo passar; 
não é tempo de esperar, 
vamos, pois, remir o tempo, 
antes de o tempo findar!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Triverso de
JOSÉ APARECIDO BOTACINI
São Paulo/SP

Espelho cruel 
Refletindo janeiros: 
Rugas na face. 
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Sextilha de
MILTON SEBASTIÃO SOUZA
Porto Alegre/RS, 1945 – 2018, Cachoeirinha/RS

No entrevero, metido, que alegria,
deixo a chuva molhar meu coração,
pois eu sei, esta chuva que desliza
traz na seiva esta paz de cada irmão,
e a palavra precisa que preciso
para ser bom aluno na lição.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
PAULO WALBACH PRESTES
Curitiba/PR, 1945 – 2021

Uma lágrima reluz
numa pétala dourada.
Orvalho cheio de luz,
clareando a madrugada.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
COLORADO/ PR

Sou filho de Colorado
Tenho orgulho do meu torrão
Amo tanto este berço adorado
Que hei de tê-lo sempre em meu coração.

Colorado és a terra de esplendor
Tudo em ti me encanta e seduz
Aqui o sol tem mais vida e calor
E as estrelas têm mais brilho e mais luz.

Neste solo onde existe tanto amor
Há um desejo perene de sucesso
Onde a prece altiva é o labor
E o caminho palmilhado é do progresso.

Tua gente lutadora e varonil
O teu nome sempre guardará
Colorado terra amada e gentil
Filha altiva do gigante Paraná.

Honra e glória aos seus descobridores
Que anteviram os caminhos da vitória
Para eles este hino de louvores
Por nos legarem este templo de glória.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poetrix de
ROMILDO AZEVEDO 
Brasília/DF

obstáculos

São tantos os percalços
Sol, chuva, vento, sereno…
E nós ainda andamos descalços.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
EDIVAL PERRINI
(Edival Antonio Lessnau Perrini)
Curitiba/PR

Proa

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Que venham as tormentas, que venha o que vier,
tenho o sonho comigo, o sonho é meu pastor.

O mundo da aparência não me engolirá.
Conheço bem suas manhas, meu ofício é interior:
girassol que é girassol tem proa pro amanhecer.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Com ele eu teço o mundo, reinvento a via láctea.
Mistérios são bem-vindos, o sonho é meu pastor.

Ou eu busco a verdade ou ela não me achará.
Minha verdade, o sonho, é pomar e é brasão.
Seu universo, os versos, fio do sim e do não.

O sonho é meu pastor, nada me faltará.
Encontro nele a luz, meu alimento e cor.
Que escorra a ampulheta, o sonho é meu pastor.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
A. A. DE ASSIS
(Antonio Augusto de Assis)
Maringá/PR

Tire as trovas da memória
do seu bom computador. 
Deixe que façam história
indo em livros ao leitor.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Conto em Versos de
ARTHUR DE AZEVEDO
(Artur Nabantino Gonçalves de Azevedo)
São Luís/MA, 1855 – 1908, Rio de Janeiro/RJ

As festas

Era o Alfredo casado
Com formosa mulher, nova e sadia,
Mas não a merecia:
Andava enamorado,
Como um velho babão lascivo e tolo,
De uma reles corista
Com pretensões a artista,
Que trabalhava no teatro Apollo.

Fazia versos maus o pobre diabo,
E era empregado num pequeno banco:
Não podia dar-se ares de nababo,
Não podia mostrar-se muito franco,
Pois o que ali ganhava
Para os gastos da casa mal chegava;
Mas o parvo supunha
Que do Apollo a corista lhe quisesse
Não por vil interesse,
E o seu carnal desejo em versos punha,
Convencido de que ela
Com tal moeda se satisfizesse.

Escusado é dizer que ele da bela
Nada mais conseguira,
Tangendo a sua lira,
Senão coisas vulgares,
Sorrisos ternos, lânguidos olhares,
Porque já não há musa
Que às coristas seduza...
Já lá se vai o tempo em que um soneto,
Embora não tivesse chave de ouro
No último verso do último quarteto,
Tinha a chave que abria,
Depois de longo e pertinaz namoro,
O duro peito da mulher mais fria.
A mísera poesia,
Por tantos explorada,
Hoje é moeda desvalorizada.

O visionário Alfredo
Vai uma noite ao teatro muito cedo
E faz chegar às mãos da semi-artista,
Dentro de um ramalhete,
Perfumado bilhete,
Pedindo uma entrevista.
E no dia seguinte, à hora do ensaio,
Vai ter com ela e diz: — Daqui não saio,
Enquanto uma resposta não me deres,
Ó tu que és a mais linda das mulheres,
Flor das musas do Apollo!

Abre a tipa uma bolsa de veludo
Que traz a tiracolo,
Dessas em que as madamas guardam tudo:
Lencinhos, luvas, pó de arroz, bilhetes,
Pentinhos, alfinetes,
E dinheiro miúdo;
Dois retalhos de seda
Tira de dentro, sorridente e pronta,
E do Alfredo aos atônitos ouvidos
Estas palavras múrmura segreda:
— Qual mais te agrada destes dois vestidos? —

Ele o melhor aponta,
— Pois vai compra-lo e traz-me-o. A resposta
Terás então daquele bilhetinho
À cálida proposta…

Encontras a fazenda no Godinho.
Catorze metros bastam. Adeusinho! —
E a corista fugiu que nem um raio,
Porque a estavam chamando para o ensaio.

Após ligeiro pasmo,
Perdeu o Alfredo todo o entusiasmo,
Por ver, naquele instante,
Que, para a amada se tornar amante,
O metro dos seus versos
Não era ainda bastante:
Ela exigia metros bem diversos:

Metros de seda cara,
Que custar deveriam...
Quanto? — os olhos da cara!
E os lábios seus tremiam!
Para a ingrata o Parnaso era o armarinho,
E o Apolo era o Godinho!

Meteu, desiludido, na algibeira
Os retalhos. Saiu. Foi para o banco,
E, inspirado, nervoso, num arranco,
Passou a mais feroz descalçadeira
Na exigente corista em verso manco.
À noite, em vez de lhe mandar fazenda,
Na forma da encomenda,
Mandou-lhe a versalhada.
Leu-a a corista e deu muita risada.
Andou de mão em mão a poesia,
E foi lida por toda a companhia.
Alfredo, esse dormiu tranquilamente,
Aliviado e contente,
Durante a noite inteira.

Foi a esposa a primeira
Que da cama se ergueu. Eu cá duvido
Haja no mundo uma mulher casada,
Embora muito honrada,
Que não reviste os bolsos ao marido,
Quando este ainda se acha recolhido...
Tinha do Alfredo a esposa tais trabalhos,
E por isso encontrou os dois retalhos.
Quando ele despertou, ela, sorrindo,
Rosto sereno, olhar sereno e lindo,
Lhe disse: — Finalmente,
Alfredo, minha vida,
Vais dar-me de presente
Um vestido de seda! Agradecida!
Que belas festas de princípio de ano!
Não imaginas como estou contente!
Ter um vestido assim era o meu plano!
Duas amostras vêm — naturalmente
Para escolher: pois bem... esta prefiro…

Depois daquele triste desengano,
O Alfredo enveredou no bom caminho,
E a senhora, modelo das honestas,
Teve esse ano de festas
Um vestido de seda... Mal sabia
Que a uma corista reles o devia!
(Contos em versos. Publicado em 1909. Disponível em Domínio Público)