sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 28 *


 Minha sogra é mesmo o fim,
eu digo e sinto vergonha:
duvida tanto de mim,
que acredita na cegonha.
ANTÔNIO TEIXEIRA PINTO
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As fontes vão para os rios,
os rios vão para o mar;
os meus desejos sombrios,
para o céu do teu olhar.
BRANT HORTA
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Conheço um barco, veleiro,
parado no cais, sozinho.
Assim sou eu, prisioneiro
no porto do teu carinho.
CARLOS CUNHA
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Eu amo os meus dissabores,
idolatro o meu tormento,
pois quem causa minhas dores
vale bem meu sofrimento.
CARLOS ESTEVAM DE OLIVEIRA
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Saudade — palavra triste
que se tem no coração.
— A coisa pior que existe
nas noites de solidão!
CELESTE MARIA MASERA
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Sofres. Eu sofro também
esse orgulho desmedido
de não dizer a ninguém
o quanto temos sofrido!
CELITA PEREIRA GONDIM
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Não insistas em saber
porque sou triste e onde vou!
Já basta no meu viver
amar a quem não me amou!
CERES ANTAS
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São sentidos, são tristonhos
os versos do trovador.
— Quem se alimenta de sonhos,
nunca se faria de amor.
CÉSAR COELHO
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Que me importa o seu olhar
sempre triste, quase mudo,
se no momento de amar
seu coração me diz tudo?
CEZAR DE ALMEIDA
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Saudade — única moldura
em que o retrato de alguém
ainda tem mais formosura
que a formosura que tem.
CLEÔMENES CAMPOS
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Será que existe tortura
maior que a de te esperar?
E haverá maior ternura
que a minha, ao te ver chegar?
CONSUELO BELLONI
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O teu andar se parece
com o voo de um querubim...
Se uma rosa andar pudesse,
decerto andaria assim!
CORRÊA DE ARAÚJO
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Saudade! És a ressonância
de uma cantiga sentida
que, embalando a nossa infância,
nos segue por toda a vida!
DA COSTA E SILVA
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Por um futuro sonhado,
sem deslize e sem tropeço,
torno ausente o meu passado
e presente um recomeço!
ELISA FLORES
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Oh, tu que este livro vês,
abre-o de leve, com tato,
que ainda vive, em "Urupês",
o coração de Lobato!
ELIZABETH MARTHA NOTZ PASCHOAL
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Surda e muda a criatura,
falando com seus irmãos,
tece frases de ternura
que ela diz na voz das mãos...
ELMO GOMES
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O seu hino ao céu ecoa;
mulher que sabe encantar,
mesmo sem trono e coroa,
sempre é rainha do lar!
ELOY MARIA OLIVEIRA FARDO
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Com toda esta minha idade
aventurei-me no amor
e a desgraça da saudade
não me fez nenhum favor!,,.
FÁBIO SIQUEIRA DO AMARAL
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Paixão não é uma boa,
por ser muito passageira,
o amor é a canção que entoa
no sarau da vida inteira!
FRANCISCA ISABEL BASTOS
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Tu partiste... angústia e mágoa
sofri calado e arredio...
Só damos valor à água
quando o poço está vazio...
FRANCISCO ASSIS MENEZES
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O teu sorriso, que encanto,
só me traz felicidade.
Vai-se embora todo pranto
e leva junto... a saudade!
FRANCYELLE VOLPATO
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Se crês, uma prece apenas
é possível transformar
um mar de dores e penas
num doce e tranquilo mar,..
GILVAN CARNEIRO DA SILVA
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Os anos marcam no rosto
a decadência sofrida.
Velhice é o mais duro imposto
que o tempo cobra da vida.
HILDEMAR DE ARAÚJO
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A mentira, na verdade,
é um fato contumaz.
Rouba-nos felicidade,
e dissabores nos traz.
HORTÊNCIA SALES PESSOA
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Eu sempre tive esperanças
de um mundo ainda melhor
mas, precisa haver mudanças
para o bem, não para o pior!
JEFFERSON PORTUGAL
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Pela sombra do destino
o qual traça a diretriz,
viajo desde menino
na ilusão de ser feliz...
JEREMIAS RIBEIRO FILHO
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Na rua existe mendigo,
maltrapilho, muito pobre,
por vezes melhor amigo
do que muita gente nobre.
JOÃO BATISTA SGUASSABI
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Quando as almas são unidas
pelo amor, completamente,
deixam de ser duas vidas
para ser uma somente.
JOÃO COSTA
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Enganam-se os ditadores
que, no seu furor medonho,
mandam matar sonhadores,
pensando matar o sonho!
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA
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Se agosto é mês de desgosto,
então me dê seus "porquês",
pois neste mês fica exposto
todo o florir dos ipês!
MANOEL FERNANDES MENENDEZ
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Eu, agora - que desfecho! -
já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?
MÁRIO QUINTANA
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91.244
Para todo mal há cura,
pode demorar, mas vem…
Só não há para a amargura
de ter saudades de alguém.
PAULO GUSTAVO
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Ocultando as cicatrizes
da tarde que vai morrer...
Deus pinta lindos matizes
nas rugas do entardecer!
PROFESSOR GARCIA
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Já sou folha quase morta
por tantos anos de idade,
mas ainda eu abro a porta,
para abraçar a saudade!
RAIMUNDO ANDRADE PAIVA
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Quando piso descuidado...
as trilhas da solidão,
sinto, a cada passo dado,
minha mãe me dando a mão !
ROBERTO RESENDE VILELA
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Na tua mão estendida,
para este aperto de adeus,
vejo que a linha da vida
tem rumos que não são meus.
SANTIAGO VASQUES FILHO
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Eu não vejo por escapes
a esta lei clara e sucinta:
Deus traça o destino a lápis
e és tu que cobres de tinta.
SÁVIO SOARES DE SOUSA
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Ah, se eu pudesse voltar
aos tempos de antigamente...
Não teria em meu olhar
esta angústia tão presente!
SOPHIA IRENE CANALLES
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A saudade anos depois
canta nos canaviais
a tanger carros de bois
em notas de nunca mais !...
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
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Esta vida é mesmo um drama
entre o homem e a mulher:
a que eu não quero, me chama,
a que eu amo, não me quer...
SYDNEY G. WISS BARRETO
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São testemunhas caladas
do nosso amor e carinho
as duas letras bordadas
no velho lençol de linho.
THERESA COSTA VAL
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Tem que ter muita coragem,
para dançar com o coitado...
Já começa a sacanagem;
no sorriso desdentado...
VERLAINE TERRES
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Infância, em mim. é saudade
de um tempo ingênuo inocente…
Lá em casa a Felicidade
sentava à mesa co' a gente!
WALDIR NEVES
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Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul) A dança proibida das Iele


Antes de darmos início ao nosso conto, precisamos conhecer o encanto e o perigo que habitam as florestas romenas. As Iele são criaturas místicas do folclore local, frequentemente descritas como fadas ou ninfas da natureza de beleza hipnotizante. Elas vestem longas túnicas brancas e transparentes, possuem cabelos longos e voam pelo ar durante a noite. As Iele se reúnem em clareiras isoladas para dançar sob o luar. Elas não são puramente más, mas são implacáveis: punem severamente qualquer pessoa que quebre promessas, que trabalhe nos dias de seus festivais sagrados ou que ouse espionar sua dança mística, deixando esses infelizes loucos, paralisados ou mudos.
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A lua de verão brilhava no topo do céu, iluminando a floresta densa que cercava Valea. Era a noite de Rusalii, um período sagrado em que ninguém na aldeia ousava trabalhar ou andar pelas matas, em respeito às Iele. Todos sabiam do aviso de Moșneagul: "A terra descansa para que as damas da floresta possam dançar. Quem quebrar o resguardo, pagará com o próprio corpo".

Contudo, um jovem flautista chamado Matei, movido pela arrogância e pelo desejo de compor a música mais bela do mundo, ignorou o voto de silêncio e respeito daquela noite. Ele acreditava que se pudesse ouvir o canto das ninfas, se tornaria o maior músico de toda a Romênia. Com sua flauta de madeira presa à cintura, Matei esgueirou-se por entre os arbustos, ignorando o amuleto de folhas de absinto que o velho Moșneagul distribuíra para proteção.

Não demorou para que um som celestial ecoasse pelo ar. Era uma melodia suave, feita de vozes harmoniosas que pareciam flutuar como o vento. Atraído pelo transe, Matei seguiu o som até uma clareira circular, onde a grama era perfeitamente pisada.

Lá estavam elas. Sete jovens de beleza indescritível, com longos cabelos loiros que brilhavam como fios de ouro sob o luar. Elas flutuavam em uma dança frenética e graciosa, sem tocar os pés no chão. O ar ao redor delas o perfume de flores silvestres e magia pura.

Fascinado, Matei esqueceu-se de todo o perigo. Ele deu um passo à frente, revelando-se, e levou a flauta aos lábios para acompanhar o ritmo divino.

No mesmo instante, a música das Iele cessou. O silêncio que se seguiu foi sepulcral. As fadas viraram-se em uníssono para o rapaz. Seus rostos, antes angelicais, tornaram-se frios e severos como o mármore.

— Quem ousa quebrar o voto de resguardo de nossa noite? — ecoou uma voz que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo.

— Eu só queria tocar com vocês! — gaguejou Matei, percebendo o erro tarde demais.

As Iele sorriram, mas não havia calor em seus olhares. Elas começaram a flutuar ao redor de Matei, fechando o círculo. Seus movimentos tornaram-se rápidos como um turbilhão. O jovem tentou correr, mas suas pernas não respondiam; ele tentou gritar por socorro, mas sua voz sumira. A energia da dança começou a sugar suas forças, e uma queimação terrível tomou conta de seus membros, paralisando-o.

Quando o pior parecia inevitável, o som forte de um chocalho de gado e o cheiro forte de absinto amassado invadiram a clareira. Moșneagul surgiu por entre as árvores, segurando um ramo da erva sagrada em uma mão e batendo seu cajado no chão com a outra.

— Nobres damas da floresta! — clamou o Moșneagul, curvando a cabeça em sinal de profundo respeito, sem olhar diretamente para os rostos das ninfas. — Eu peço clemência por este jovem tolo que não conhece o peso de um voto. Aceitem o absinto e o alho como oferenda de paz de nossa aldeia, e permitam-me levar o desgarrado.

As Iele pararam o turbilhão. Elas olharam para o velho sábio e reconheceram nele o guardião das antigas alianças, alguém que sempre respeitara as leis da natureza.

— Ele quebrou o pacto, Moșneagul — sibilou a líder das fadas. — Ele buscou nossa música por vaidade. Ele pagará o preço.

— Que o castigo seja uma lição, e não a sua ruína — suplicou Moșneagul, mantendo a serenidade.

A criatura tocou levemente os lábios de Matei com a ponta de um dedo gelado. O círculo se desfez e, num piscar de olhos, as Iele desapareceram no ar, deixando apenas o som de risadas distantes e o orvalho da madrugada.

Matei caiu ao chão, tremendo. Ele estava vivo, mas quando tentou falar com o Moșneagul, nenhum som saiu de sua boca. Seus dedos, outrora ágeis na flauta, estavam rígidos e dormentes. Moșneagul o ajudou a se levantar com um olhar de profunda tristeza.

— Você buscou a beleza quebrando a promessa de respeito, Matei — disse o velho sábio, enquanto o guiava de volta para a aldeia. — As Iele pouparam sua vida em respeito aos nossos antepassados, mas levaram sua voz e sua música para que você aprenda a ouvir antes de querer ser ouvido.

Moral:
O talento e a ambição perdem todo o valor quando pisam no respeito e na quebra de votos sagrados. As tradições e os limites impostos pela sabedoria antiga não existem para limitar nossa liberdade, mas para nos proteger de forças que estão muito além da nossa capacidade de controle. Quem desonra um compromisso com a vida ou com a natureza acaba silenciado pelas consequências de seus próprios atos.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia.
Resumo biográfico pode ser encontrado no link

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Interlúdio * 16 *

 

Renato Benvindo Frata (Briga Infinda)


Não sei qual é o grau de intimidade entre Hypnos, o deus do sono, com Eos, a deusa da manhã, a que abre a noite para que o sol apareça assumindo o dia. Mas pelo pouco do sono de que desfruto, ou ela perdeu a relação com o tempo da noite, ou alguém está bêbado nessa história.
E não sou eu.

Disso sobra para mim que de olhos arregalados em plena madrugada, conto carneirinhos, quando não os carneio e asso na brasa viva da raiva com carvões de xingamentos e espetos.

O fato é que entre meu sono e as ordens de Hypnos para que eu durma, há um dissenso. Grave, incontrolável, eis que me tira o sono do horário em que deveria dormir e o põe à tarde, exatamente quando a obrigação do trabalho e da vida exigem que me mantenha sóbrio, de olhos bem abertos e com toda atenção às tarefas afins. É mole? 

Convivemos há tanto juntos, a nossa amizade é tão antiga que não deveria ser assim, afinal, se coloco o pijama e me deito numa cama limpa e macia com lençol e cobertas próprias para cada estação, a minha parte da relação entre o horário e o sono é cumprida como regem as normas e os costumes nesta parte do mundo. Portanto, se invariavelmente lá pelas tantas, abro os olhos para brigar com a lentidão do relógio, a culpa deve ser daquele que deveria, por ofício, zelar do meu descanso. Afinal, ele é um deus e, como tal, tem por obrigação cuidar para que suas ordens sejam acatadas.

Chama-me à atenção nessa introspecção de efeitos limitados ao sono atrasado, que só depois de milhares de horas não dormidas, de bolhas roxas sob os olhos, quilos de remela sistematicamente retirados, é que percebo que poderia, se previdente fosse, ter puxado com ele uma conversa de apaziguamento ou, ao menos, tentado uma solução para que acabe essa antipatia gratuita que o leva a vencer todas as pelejas noturnas me deixando abilolado.

É tão matreiro nesse vaivém entre vir e o não ficar, que parece fazer parceria com Mnemósine, a dama princesa das lembranças (das más e boas), que todas as noites insiste em trazer para minha cama um monte delas pondo-as frente aos meus olhos com a imagem de uma pena de escrita e um tinteiro de viscosa tinta para, com elas, registrar no meu livro da vida, com caligrafia mal acabada, coisas que já se encontravam sujeitas á deterioração no cofre do esquecimento.

Com a meiguice das princesas, pois, ela as ressuscita uma a uma com o fim de infernizar e criar momentos difíceis pela inconveniência porque essa machuca em dobro, age como torquês a picotar partes do coração e morsas a espremê-lo e, ao fazê-lo, arrancam-me gemidos sem que possa, nesse torpor, identificar seus porquês. Macera e esmigalha sentimentos quando não age como dona de uma verdade em que para a certeza, a incerteza não existe, e com essa gana, fica em minha mente até que o sol se intrometa vazando pelos vãos e se esparrame pelo lodo a clarear o quarto, afastando de vez o sono.

Quando, porém, essa princesa escreve as boas lembranças a me abarcarem, as noites não dormidas se transformam em alicerces da reconstrução da vida emocional saudável, um suporte a me encorajar para o enfrentamento de angústias, incertezas e segurança, nos muitos momentos tristes de peito cravejado de vazio.

Aí, aos poucos, ressono com os lábios espichados, lânguidos, sensíveis, e ouso dizer que, mesmo perdida a peleja nessa intrincada relação com Hypnos, ficar acordado nessa condição vale a pena.

Por isso, sinto que até sorrio... e faço do quase sono um lindo sonhar.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais. Paranavaí/PR: EGPACK Embalagens, 2024. enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 3)

curso ministrado por José Feldman
3. ESTRUTURA DO ENREDO EM DIVERSOS GÊNEROS

Utilizar a estrutura do enredo em contos de diferentes gêneros literários exige adaptações específicas para cada contexto. Aqui estão algumas orientações sobre como aplicar a estrutura do enredo (exposição, incitação, desenvolvimento, clímax e desfecho) em contos de suspense, policiais, críticos, filosóficos e românticos.

3.1. CONTOS DE SUSPENSE

3.1.1. Exposição: 
Introduza uma situação aparentemente normal, mas inclua detalhes que insinuem a presença de algo ominoso. 
Exemplo: uma casa isolada onde algo estranho começou a acontecer.

3.1.2. Incitação: 
Um evento que provoca medo ou ansiedade. 
Exemplo: um telefonema misterioso ou uma descoberta assustadora.

3.1.3. Desenvolvimento: 
A tensão aumenta à medida que o protagonista investiga ou tenta entender a situação. Elementos como pistas falsas e revelações gradativas são eficazes.

3.1.4. Clímax: 
O momento de maior tensão, onde o protagonista confronta diretamente o perigo ou o desconhecido. 
Exemplo: um encontro decisivo com o antagonista.

3.1.5. Desfecho: 
Revelações que explicam o mistério, podendo deixar uma pergunta em aberto para manter o clima de tensão. 
Exemplo: descobrir que o perigo estava mais próximo do que se pensava.

3.2. CONTOS POLICIAIS

3.2.1. Exposição: 
Apresente a cena do crime e os personagens envolvidos (detetives, vítimas e suspeitos).

3.2.2. Incitação: 
O crime acontece, despertando a curiosidade do leitor. 
Exemplo: o assassinato de uma figura pública.

3.2.3. Desenvolvimento: 
O detetive investiga, encontrando pistas e interrogando personagens. Introduza reviravoltas que complicam a resolução do caso.

3.2.4. Clímax: 
O momento em que o detetive desvenda a verdade e confronta o criminoso, muitas vezes em uma cena tensa e dramática.

3.2.5. Desfecho: 
O caso é resolvido, mas pode deixar questões morais ou éticas para reflexão. 
Exemplo: um criminoso que não é punido por uma falha no sistema.

3.3. CONTOS CRÍTICOS

3.3.1. Exposição: 
Apresente um cenário ou situação social que precisa ser discutida. 
Exemplo: uma cidade dividida por conflitos sociais.

3.3.2. Incitação: 
Um evento que provoca a crítica social, como uma manifestação ou um ato de injustiça.

3.3.3. Desenvolvimento: 
Explore as reações dos personagens à situação, mostrando diferentes pontos de vista e dilemas éticos.

3.3.4. Clímax: 
O ponto de decisão onde a situação chega a um ponto crítico, revelando as falhas do sistema ou comportamento humano.

3.3.5. Desfecho: 
Uma conclusão que oferece uma reflexão sobre a condição humana ou a sociedade, podendo ser otimista ou pessimista.

3.4. CONTOS FILOSÓFICOS

3.4.1.. Exposição: 
Apresente uma ideia ou conceito filosófico que será explorado. 
Exemplo: a busca pela identidade ou a razão da existência.

3.4.2. Incitação: 
Um evento ou dilema que levanta questões existenciais. 
Exemplo: a perda de uma pessoa querida ou um encontro inesperado.

3.4.3. Desenvolvimento: 
As reflexões do protagonista ou dos personagens em relação ao dilema, permitindo que conversas e diálogos profundos se desenrolem.

3.4.4. Clímax: 
Um momento de epifania ou descoberta que leva a uma compreensão mais profunda da questão abordada.

3.4.5. Desfecho: 
Uma conclusão que desafia o leitor a pensar sobre o tema filosófico, podendo ser uma resposta inconclusiva ou uma nova perspectiva.

3.5. CONTOS ROMÂNTICOS

3.5.1. Exposição: 
Apresente os personagens, suas vidas e a premissa do romance. 
Exemplo: duas pessoas em fases diferentes de suas vidas, mas que se cruzam em um evento.

3.5.2. Incitação: 
Um momento que une os personagens, como um olhar ou um ato gentil que cria uma conexão.

3.5.3. Desenvolvimento: 
Os altos e baixos da relação, levando a conflitos que testam os sentimentos dos personagens. 
Exemplo: mal-entendidos, ciúmes ou interferências externas.

3.5.4. Clímax: 
O momento decisivo que pode mudar o rumo da relação, como uma confissão ou uma separação temporária.

3.5.5. Desfecho: 
A resolução do conflito, que pode levar a um final feliz ou a uma reflexão sobre o amor. 
Exemplo: um reencontro que reafirma os sentimentos.

3.6. CONSIDERAÇÕES

Cada gênero exige nuances específicas na estrutura do enredo, mas a essência da narrativa permanece a mesma: construir uma jornada emocional que envolva o leitor. O planejamento cuidadoso de cada parte do enredo ajudará a alcançar um conto impactante e coeso, independentemente do gênero.
= = = = = = = = = = = = = = 
Continua…
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
JOSÉ FELDMAN (71) é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo, ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final do século XX. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Ocupa cadeira na Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura, Academia do Movimento Internacional, Confraria Brasileira de Letras e Academia de Letras Internacional Brasil-Suíça. Agraciado com o título de Comandante Supremo do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito supremo "Euclides da Cunha", em Berna/Suiça; título Magnus Magister, em Portugal; Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica. No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa. Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente.

(José Feldman. Dissecando a Magia do Texto. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine, 2026.)

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Asas da Poesia * 210 *

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Haicai de
HELENA KOLODY
(Cruz Machado/PR, 1912 – 2004, Curitiba/PR)

Flecha de sol

A flecha de sol
pinta estrelas na vidraça.
Despede-se o dia.
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Poema de
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Itabira/MG, 1902 - 1987, Rio de Janeiro/RJ

Consolo na praia

Vamos, não chores… 
A infância está perdida. 
A mocidade está perdida. 
Mas a vida não se perdeu.

O primeiro amor passou. 
O segundo amor passou. 
O terceiro amor passou. 
Mas o coração continua.

Perdeste o melhor amigo. 
Não tentaste qualquer viagem. 
Não possuis casa, navio, terra. 
Mas tens um cão.

Algumas palavras duras, 
em voz mansa, te golpearam. 
Nunca, nunca cicatrizam. 
Mas, e o humor?

A injustiça não se resolve. 
À sombra do mundo errado 
murmuraste um protesto tímido. 
Mas virão outros.

Tudo somado, devias
precipitar-te — de vez — nas águas. 
Estás nu na areia, no vento… 
Dorme, meu filho.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
AUTA DE SOUZA
Macaíba/RN, 1876 – 1901, Natal/RN

Se há defeito em quem amas, 
não te lamentes, nem grites, 
que amor à frente da sombra 
é sempre luz sem limites.
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
LAIRTON TROVÃO DE ANDRADE
Pinhalão/PR

Gema de amor

"O seu fruto é doce à minha boca." (Ct. 2.3)

Cálida gema, feita de amor,
Quero sentir todo o seu sabor;
Vou dar-lhe beijos apaixonados,
E você, seus lábios abrasados.

Você é doce - feita de mel,
Real geleia - pedaço do céu;
Quanta delícia no saborear,
Que bom se o tempo não mais passar!

Você está trêmula de emoção,
Sinto o pulsar do seu coração...
Perdi o controle, perdi meu senso
Por este amor de prazer imenso.

O que acontece? - Você suspira!
O que é isso? - Você delira!
Eu estou suando - quanto calor!
Estou feliz... Obrigado, amor!
= = = = = = = = = = = = = = = = = =

Trova Popular de
AUTOR ANÔNIMO

Se suspiro fosse bala
como estaria meu peito!
Estava todo varado,
morena, por teu respeito.
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Soneto de
BENEDITA DE MELLO
Vicência/PE, 1906 – 1991, Rio de Janeiro/RJ

Despojos

Vai-se partindo aos poucos, laço a laço,
Aquele nosso grande amor de outrora.
Ontem foi um desgosto, hoje embaraço.
Amanhã vai-se uma ilusão embora.

Mais uma falsidade revigora
Em minha alma essa dor, esse cansaço.
O próprio ciúme, com um sopro escasso,
Está fadado a perecer agora.

Nada mais acharás, quando voltares,
Que o fundo sono desse amor acorde:
Nem desejos, nem sonhos, nem pesares...

E embora em ti de novo o amor transborde,
Sentirei nos meus lábios, se os beijares,
O sabor da perfídia que me morde.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova do
PROFESSOR GARCIA
Caicó/RN

Já escalei morros medonhos,
caminhando passo a passo.
Mas nunca pude em meus sonhos
escalar nuvens no espaço!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CECY BARBOSA CAMPOS
Juiz de Fora/MG

Olhos perdidos
na neblina do tempo
buscando entender
contornos indecifráveis
que se perdem à distância.
Tentativas vãs
para a ultrapassagem
de fronteiras invisíveis
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Trova de
DOROTHY JANSSON MORETTI 
Três Barras/SC, 1926 – 2017, Sorocaba/SP

Quando me entrego ao passado,
sinto-o tão perto e envolvente,
que – esquecido e enevoado –
longe de fato... é o presente.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
LINO VITTI
Piracicaba/SP, 1920 – 2016

A uma página poética

(à poetisa Maria Cecília Bonachella)

Nesta página, sonham os poetas,
sonha também a lira das poetisas.
É um céuzinho diria, onde os estetas
jogam estrelas a suar camisas.

Aqui valem tão só líricas metas,
temos brilhos de sol, frescor de brisas...
Coisas transcendentais, vozes secretas,
o encantado, o feliz, santas divisas.

É cascata jorrando belas rimas,
frondosa e florescida árvore linda,
mais linda quando dela te aproximas.

Este caminho é grande, nunca finda...
Guarda o olor capitoso das vindimas
país de amor com que o "Jornal" nos brinda.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN, 1934 – 1996, Rio de Janeiro/RJ


Hoje tratam de "Excelência"
quem deixa o povo com fome.
Ou no mundo há só demência,
ou ladrão mudou de nome!...
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
CRIS ANVAGO
Setúbal/Portugal

A noite não tem de ser escura, triste e fria,
A noite pode ter calor,
Um abraço, uma flor

Ofereço-te o meu coração
numa noite de outono
que se transforma em verão

A noite pode ser amena
quente ou serena
depende de como me sentes.
Como me vives!
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Trova de
ARI SANTOS CAMPOS
Balneário Camboriú/SC

Não sei mais o que fazer:
meu salário é um engano...
- Tenho medo de viver
numa tenda de cigano.
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
J.G. DE ARAÚJO JORGE
Tarauacá/AC, 1914 – 1987, Rio de Janeiro/RJ

A dor maior

Não quis julgar-te fútil nem banal
e chamei-te de criança tão-somente,
- reconheço, no entanto, infelizmente,
que, porque te quis bem, julguei-te mal.

Pensei até, (e o fiz ingenuamente...)
ter encontrado a companheira ideal...
Quis julgar-te das outras diferente,
e és como as outras todas afinal...

Hoje, uma dor estranha me consome
e um sentimento a que não sei dar nome
faz-me sofrer, se lembro o amor perdido...

A dor maior... A maior dor, no entanto,
vem de pensar de Ter-te amado tanto
sem que ao menos tivesses merecido!...
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
EDMAR JAPIASSÚ MAIA
Rio de Janeiro/RJ

Da velha fonte no lago,
à luz do mesmo luar,
retorno...e nos olhos trago
as águas que fui buscar!
= = = = = = = = = = = = = =  

Soneto de
VINICIUS DE MORAES
Rio de Janeiro/RJ, 1913 – 1980

Soneto a Katherine Mansfield

O teu perfume, amada – em tuas cartas
Renasce, azul... – são tuas mãos sentidas!
Relembro-as brancas, leves, fenecidas
Pendendo ao longo de corolas fartas.

Relembro-as, vou... nas terras percorridas
Torno a aspirá-lo, aqui e ali desperto
Paro; e tão perto sinto-te, tão perto
Como se numa foram duas vidas.

Pranto, tão pouca dor! tanto quisera
Tanto rever-te, tanto! ... e a primavera
Vem já tão próxima! ... (Nunca te apartas

Primavera, dos sonhos e das preces!)
E no perfume preso em tuas cartas
À primavera surges e esvaneces.
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
GERSON CESAR SOUZA
São Leopoldo/RS

Dizem que eu sonho em excesso...
Mas insisto em voos altos!
E as pedras nas quais tropeço
impulsionam novos saltos!!!
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
PAULO LEMINSKI
Curitiba/PR, 1944 – 1989

Amigo
Inimigo
Nada tive com o mar 
Nem ele comigo 
Fui homem de seco 
Hoje posto a secar 
Neste beco
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
NILTON MANOEL
Ribeirão Preto/SP, 1945 – 2024

O bico do beija-flor
tem o condão do mistério;
é a natureza do amor,
ampliando da flora o império
= = = = = = = = = = = = = =  

Poema de
MÁRIO QUINTANA
Alegrete/RS, 1906 – 1994, Porto Alegre/RS

O límpido cristal

Que límpido o cristal de abril!... Um grito 
não vai como os da noite — para os extramundos... 
Todas as vozes, todas as palavras ditas — cigarras presas 
dentro do globo azul — vão em redor do mundo
e a ninguém é preciso entender o que elas dizem;
basta aquele bordoneio profundo
que vibra com o peito de cada um...
palavras felizes de se encontrarem uma com a outra 
nas solidões do mundo!
= = = = = = = = = = = = = =  

Trova de
JOÃO OSVALDO SOARES (VAVAL)
Fortaleza/CE

Caro amigo, meu irmão,
é bem longe o nosso céu,
cuidado com sua mão
senão vai pro "beleléu".
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Poema de
DANIEL MAURÍCIO
Curitiba/PR

Língua

Língua de anjo
língua de homem
língua de bicho
língua que já não é língua
língua que me língua
espalhando prazer.
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