segunda-feira, 12 de outubro de 2026

Estante de Livros (“O demônio e a srta. Prym”, de Paulo Coelho)

O Demônio e a Srta. Prym (obra publicada em 2000) é o livro que encerra a famosa trilogia "E no sétimo dia..." de Paulo Coelho, precedido por Na Margem do Rio Piedra Eu Sentei e Chorei (1994) e Veronika Decide Morrer (1998). Afastando-se um pouco da vertente puramente mística ou espiritual de outras de suas obras, o autor constrói aqui uma parábola filosófica e psicológica sobre a essência moral da humanidade, questionando se somos intrinsecamente bons ou maus.

1. Estrutura e Enredo: O Pacto Macabro em Visos

A narrativa se passa no período de uma única semana na isolada e decadente aldeia montanhosa de Viscos, que conta com apenas 281 habitantes.

A Chegada do Estrangeiro: 
Um homem misterioso (Carlos, um outrora bem-sucedido industrial de armas traumatizado pela perda brutal de sua família) chega ao vilarejo carregando onze barras de ouro e acompanhado simbolicamente por um demônio.

A Proposta: 
O Estrangeiro esconde o ouro e usa a jovem Chantal Prym, a órfã e garçonete do único hotel local, como sua mensageira. Ele propõe um desafio terrível: dará todo o ouro à comunidade se, no prazo de sete dias, os habitantes cometerem um assassinato. O objetivo do homem é provar a si mesmo se a humanidade é perversa por natureza ou se apenas finge ser boa por falta de tentação.
 
2. Principais Personagens

– Chantal Prym = Protagonista feminina. Representa o livre-arbítrio e o dilema moral de "Eva". Ela transita entre o desejo de usar o ouro para fugir dali e o horror do crime. 
– O Estrangeiro = Catalisador / Antagonista. Encarna o ceticismo, a dor do luto transformado em cinismo e a figura do tentador clássico. 
– Berta = Idosa viúva do vilarejo. Simboliza a sabedoria ancestral, a intuição e a conexão espiritual. Ela consegue ver o anjo e o demônio que cercam as pessoas. |
– A Comunidade = Os habitantes de Viscos. Funciona como um microcosmo da sociedade. Sob a pressão da cobiça e do medo, eles rapidamente abandonam a civilidade. 

3. Temáticas Centrais 

O Bem contra o Mal e a Hipocrisia Social
Diferente de uma visão maniqueísta tradicional, o romance sugere que o bem e o mal coexistem dentro de cada indivíduo. A "bondade" dos habitantes de Viscos era passiva, sustentada apenas pela falta de grandes provações ou oportunidades. Quando confrontados com uma riqueza capaz de garantir o futuro de suas gerações, o verniz de moralidade da comunidade racha, revelando como o medo, a ganância e o egoísmo guiam as decisões coletivas.

O Efeito de Manada e a Justificação do Crime
A parte mais perturbadora da análise social do livro reside em como a comunidade planeja o assassinato. Para diminuir o peso da culpa individual, os moradores decidem escolher a idosa Berta como vítima (justificando que ela já viveu o suficiente) e planejam um fuzilamento conjunto. Ao dividirem a responsabilidade, eles tentam anestesiar a própria consciência, um reflexo nítido de como atrocidades históricas reais são cometidas em nome do "bem comum".

O Livre-Arbítrio e a Redenção
A resolução do livro gira em torno da capacidade de escolha. Chantal Prym, no momento crucial, usa a razão e a própria ganância em favor da justiça. Ela consegue demonstrar ao vilarejo e ao Estrangeiro que o ouro perderia o valor se estivesse manchado de sangue, forçando uma reflexão profunda. A obra conclui que a santidade ou a maldade não são características estáticas da alma, mas sim o resultado prático das escolhas diárias diante das circunstâncias.

4. Estilo Literário

Escrito sob a forma de uma fábula moderna, o livro tem um ritmo tenso e introspectivo. Paulo Coelho mistura diálogos mundanos com pequenas lendas e alegorias inseridas na boca das personagens para ilustrar pontos filosóficos (como a história da criação do mundo ou de santos medievais). Embora o autor seja frequentemente associado à literatura de autoajuda, O Demônio e a Srta. Prym opera estritamente no campo da ficção alegórica e moral.

5. Resumo

A Chegada do Estrangeiro e o Cenário de Viscos
A história se passa em Viscos, um pequeno vilarejo montanhoso, isolado, decadente e habitado por apenas 281 pessoas mais velhas e presas à rotina. O equilíbrio do lugar é quebrado com a chegada de um homem misterioso conhecido apenas como o Estrangeiro (Carlos). Ele carrega consigo um trauma imenso: sua família foi assassinada por terroristas, o que o fez perder a fé na bondade humana. O Estrangeiro viaja acompanhado psicologicamente por seu próprio "demônio" e traz na bagagem onze barras de ouro puríssimo, avaliadas em uma fortuna capaz de salvar Viscos da extinção financeira.

A Proposta Tentadora e o Dilema de Chantal
O Estrangeiro esconde dez barras de ouro na floresta e decide usar a jovem Chantal Prym — uma órfã que trabalha como garçonete no único hotel da cidade e que sonha em ir embora dali — como sua intermediária. Ele mostra a ela uma das barras e faz uma proposta macabra: o ouro pertencerá inteiramente aos moradores de Viscos se, no prazo de sete dias, eles cometerem um assassinato.

O objetivo do Estrangeiro é realizar um experimento filosófico: provar se o ser humano é essencialmente mau e se a "bondade" das pessoas é apenas uma fachada sustentada pela falta de oportunidade ou de tentação. Chantal entra em um conflito terrível. Ela hesita em contar o plano, tentada a roubar uma barra para si e fugir, mas o medo e a sua própria consciência a impedem. Eventualmente, ela cede à pressão psicológica do Estrangeiro e revela a mórbida proposta aos habitantes na igreja da cidade.

O Efeito de Manada e a Escolha da Vítima
Ao contrário do que Chantal esperava — que a comunidade ficasse horrorizada e expulsasse o homem —, o verniz de moralidade de Viscos começa a rachar sob o peso da ganância. Inicialmente, as pessoas fingem ignorar a proposta, mas o medo do futuro e a cobiça começam a ditar as ações coletivas de forma silenciosa.

Em reuniões secretas, os moradores passam a racionalizar o crime por meio do "efeito de manada". Eles decidem aceitar o pacto e começam a procurar uma vítima que traga o menor impacto social e emocional possível. A escolha recai sobre Berta, uma idosa viúva que passa os dias sentada na entrada da vila observando a natureza e que possui a capacidade mística de enxergar os anjos e demônios das pessoas. O vilarejo justifica o ato de forma cínica, alegando que Berta já viveu quase toda a sua vida e que seu sacrifício garantirá a sobrevivência de todas as próximas gerações de Viscos.

O Clímax e a Epifania do Sétimo Dia (O Desfecho)
No sétimo dia, a comunidade leva Berta dopada para a floresta para executar o plano. Para diluir a culpa individual, eles organizam um fuzilamento conjunto, onde todos atirarão ao mesmo tempo para que ninguém saiba quem disparou a bala fatal.

No momento crucial, Chantal Prym intervém. Usando a inteligência e o conhecimento que tem sobre a ambição humana, ela faz um discurso poderoso. Chantal argumenta que, se eles cometerem o crime, o ouro perderá todo o valor legal e prático, pois bancos e autoridades desconfiarão da riqueza repentina de um vilarejo pobre, levantando investigações que inevitavelmente revelariam o assassinato. Ela demonstra que o crime traria a ruína e o remorso, e não a salvação.

Os moradores, confrontados com a lógica da própria ganância e o peso do medo, desistem do fuzilamento e retornam para suas casas, envergonhados. O Estrangeiro, ao ver que a humanidade foi capaz de escolher o caminho correto diante da tentação máxima, compreende que o livre-arbítrio permite que o homem dome seus demônios internos. Ele alcança a sua própria redenção e paz espiritual. Carlos cumpre sua palavra e entrega as onze barras de ouro legitimamente para Chantal Prym, que deixa Viscos para trás para começar uma nova vida em busca de seus sonhos.

Sites consultados:
Pela Mente, Leituras em Dia, Livraria Travessa,  Prateleira sem fim, 
Good Reads, Boina Cult,  Hiper Criativa, etc.

domingo, 11 de outubro de 2026

J. G. de Araújo Jorge (Trevos de Quatro Versos)


"REALEJO..."

Coração – pobre realejo –
com canções velhas e novas...
Tudo o que sinto, e o que vejo,
vais tocando.. . em minhas trovas…
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"QUEM CALCULA ?"

Ao ler uma bela trova
depois que pronta ficou,
- quem calcula a dura prova
por que o poeta passou ?
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"O ETERNO TRIÂNGULO... "

Aos meus ciúmes doentios
Tu me disseste ainda nua:
- De olhos abertos sou dele!
De olhos fechados, sou tua!

Ciúme tolo, policial,
Tão pretensioso, irritante,
Se eras casada... e afinal
Eu era apenas... amante...

E eis a suprema ironia
Ao meu coração ferido:
- tu foste trair-me um dia,
Mas, com quem? - com teu marido...

(Ó Amor, como desandas!)
Ontem, ciúmes... mil espreitas...
Hoje, nem sei onde andas,
Nem em que cama te deitas…
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"SER MÃE..."

Quando todos te condenem
quando ninguém te escutar,
ela te escuta e perdoa,
pois ser mãe – é perdoar!

Quando todos te abandonem
e ninguém te queira ver,
ela te segue e procura
pois ser mãe – é compreender!

Quando todos te negarem
um pão, um beijo, um olhar,
ela te ampara e acarinha
pois ser mãe – sempre é se dar!
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"DIÁLOGO IMPOSSÍVEL"

Chama-me tu, por favor,
Se estamos juntos, e a sós...
- não ponhas este Senhor
tão importuno... entre nós...

Tu tão moça, eu tão vivido...
Tantos anos de permeio.
- Bem poderias ter sido
o grande amor que não veio...

Tu, moça, bela, tão calma...
Eu, inquieto, a alma ferida...
- O diabo leve a minha alma!
- Quero o amor de Margarida!
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"PORTUGAL"

Portugal, que, num segundo
da História, - do "era uma vez"
fizeste do mar - um mundo!
E o mundo - um mar português !

Portugal de D. Diniz
que em seus pinhais, em Leiria,
plantava naus que, feliz
o Infante Henrique, colhia!

Araste o Mar – tuas velas
abriram caminhos novos...
Teus grãos – eram caravelas!
E as colheitas – eram povos!
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"VOCÊ... E O NATAL..."

Festa na terra e no céu...
Só eu só... tão triste assim...
- Quem dera Papai Noel
trouxesse Você pra mim!

Quem dera Papai Noel
descendo pelos espaços
me desse um pouco de céu
pondo Você em meus braços...

Neste dia belo e doce
de festa, - sentimental,
- quem dera que Você fosse
meu presente de Natal !
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"FILOSOFIA..."

Você quer mesmo saber
como a vida se levar ?
Pois é... primeiro viver...
e depois... filosofar...

Vou pisando folhas mortas
sem amanhã... Sigo a esmo...
Fecham-se todas as portas...
Sou o fantasma de mim mesmo...

Disse Jesus certo dia
com bondade e com saber
- há mais alegria em dar,
muito mais - que em receber !

Não tinha paz nem descanso...
O amor... a vida.... – Voragem !
Hoje, a saudade é um remanso
a refletir a folhagem...

Diz que é rico... Pode ser...
Mas pode ser que não seja...
Ser rico é apenas poder
fazer o que se deseja...

Nessa eterna e dura lida
renasço a cada momento
lavando as dores da vida
no rio do esquecimento...

Onde o sonhar de outra idade?
A fé que tive, e perdi?
Hoje chego a ter saudade
daquele... que já morri...

Tu queres mais, sempre mais...
Sê comedido, prudente...
Até o bem quando é demais
acaba enjoando a gente...

Livre da dor, do desgosto,
mais feliz o homem seria
se assim como lava o rosto
lavasse a alma todo o dia.

Paro, as vezes, num momento
feliz, que se vai embora,
e enquanto o vivo, a perde-lo,
sinto saudades... de agora.

- "Crê na Vida"- eis o conselho
da esperança ante a desgraça,
se a face do fria do espelho
de calor ainda se embaça...

Pobre alma triste a cativa !
E há quanta gente como eu
a pensar que ainda está viva
sem saber que já morreu
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"SORRIA..."

Esperava tanta luta
e tão pouco foi preciso:
ao invés da força bruta
ele empregou... um sorriso...

Eis a arte de viver
num conselho dos mais sábios:
às vezes, para vencer
basta um sorriso nos lábios...

Nem tanta coisa é preciso
para evitar-se um revés...
- Tão pouco... basta um sorriso
e eis todo mundo a teus pés…
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"MÃOS..."

 Como aves desarvoradas
Depois de roteiros vãos
Tuas mãos vieram, cansadas,
Se aninhar em minhas mãos...

Há momentos... Acontece...
Puro, o amor pode ficar,
Como duas mãos em prece,
Esquecidas, a rezar...

Quando maior é o carinho
Às vezes, tenho a impressão
De que conversam baixinho...
Tua mão... em minha mão…
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JOSÉ GUILHERME DE ARAÚJO JORGE, imortalizado na literatura como J. G. de Araújo Jorge, foi um influente poeta, escritor, jornalista e político brasileiro. Nascido em Tarauacá, no Acre, em 1914, faleceu na cidade do Rio de Janeiro em 1987, aos 72 anos. Conhecido carinhosamente como o "Poeta do Povo e da Mocidade", ele equilibrou ao longo da vida o lirismo romântico e o forte engajamento social. Em Rio Branco (AC) viveu toda a sua infância, realizando os estudos primários. Mudou-se na juventude para o Rio de Janeiro para dar continuidade aos estudos secundários e superiores. Permaneceu radicado no Rio de Janeiro (antigo Distrito Federal e Estado da Guanabara) durante a maior parte de sua vida adulta e profissional. J. G. teve uma atuação profissional multifacetada e dinâmica Atuou como jornalista, publicitário, locutor e redator em importantes emissoras da era de ouro do rádio, como a Rádio Nacional, Rádio Tupi, Cruzeiro do Sul e Eldorado. Formou-se em Direito pela Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil (atual UFRJ). Dotado de forte vocação pública, elegeu-se Deputado Federal em 1970 pelo antigo Estado da Guanabara. Exerceu três mandatos consecutivos na Câmara dos Deputados, onde chegou a ocupar a presidência da Comissão de Comunicação e a vice-liderança do partido de oposição à época (MDB).
Sua trajetória literária começou excepcionalmente cedo. Ainda estudante do tradicional Colégio Pedro II, foi eleito o "Príncipe dos Poetas" da instituição em 1932, sendo saudado pessoalmente pelo escritor Coelho Neto. Sua escrita se consolidou por meio de uma linguagem simples, fluida, musical e profundamente voltada aos sentimentos populares e às angústias sociais de sua época. Foi fundador e presidente da Academia de Letras do Internato Pedro II e fundador e primeiro presidente da Academia de Letras da Universidade. Foi também um dos grandes articuladores e fundadores da União Brasileira de Trovadores (UBT) ao lado de Luiz Otávio, consolidando o movimento da trova no país. Logo na estreia, seu primeiro livro recebeu uma prestigiosa Menção Honrosa da Academia Brasileira de Letras (ABL). Durante seus anos de estudante na Europa, recebeu o título de "Estudante Honorário" da renomada Universidade de Coimbra, em Portugal.
Autor de uma obra vasta com mais de 30 títulos publicados, destacam-se: Meu Céu Interior (1934) – Obra de estreia poética ; Bazar de Ritmos (1935); Cântico dos Cânticos (1937); Amo! (1938); Cântico do Homem Prisioneiro (1941); Os Versos Que Te Dou (1949) – Um de seus maiores sucessos de público; etc.
J. G. de Araújo Jorge ocupa um lugar singular na literatura brasileira como o poeta do afeto e da acessibilidade. Embora muitas vezes combatido ou preterido pela crítica modernista mais rígida devido ao seu estilo assumidamente neorromântico, ele alcançou um feito raro: uma imensa e duradoura popularidade com o povo. Seus poemas e trovas eram amplamente recitados por jovens, apaixonados e estudantes de norte a sul do Brasil. Ao unir o lirismo romântico à poesia de protesto social e político, ele provou que o fazer poético não precisava ficar restrito aos círculos acadêmicos fechados. Sua contribuição fundamental ajudou a estruturar e eternizar a trova como um patrimônio cultural vibrante e democrático na Língua Portuguesa.

Fontes:
J.G. de Araujo Jorge . Trevo de Quatro Versos". 1. ed. Livraria São José, 1964.
                        Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Dicionário MPB, Antonio Miranda, etc. 

A. A. de Assis (Aí deu errado…)

As mãos que estavam programadas para produzir comida boa e obras de arte associaram-se a cérebros medonhos

Plantou-se uma semente programada para transformar-se em figo, outra para transformar-se em trigo, outra para transformar-se em milho, outra para transformar-se em rosa. E todas se transformaram no que previsto estava.

Uniram-se duas sementes programadas para transformar-se em garças, outras duas para transformar-se em ovelhas, outras duas para transformar-se em vaga-lumes, outras duas para transformar-se em estrelas-do-mar. E todas se transformaram conforme programado estava.

Casaram-se então duas sementes programadas para transformar-se em homens e mulheres, os quais, por sua vez, estavam programados para cuidar e desfrutar de tudo o que as demais sementes produzissem.

Na mesa estava o banquete. Juntassem-se os homens e as mulheres e seus descendentes para à vontade se servirem.

Porém a partir daí se complicaram as coisas. No que passou a depender dos homens e das mulheres, o plano começou a não dar certo. Ele e ela fizeram tudo diferente do que estava programado. E em vez de se amar, brigaram.

Agora está difícil desapartar a briga.

As mãos que estavam programadas para produzir comida boa e obras de arte associaram-se a cérebros medonhos e deram início à crescente produção de lanças, porretes, bodoques, tacapes, facas, espadas,  espingardas, fuzis, metralhadoras, canhões, torpedos, drones, mísseis, megabombas…

Mas você pode dizer que a maioria da humanidade é formada por gente pacata e boa. E é sim. Não conheço nenhuma estatística sobre isso, mas acredito que mais de 80 por cento são pessoas do bem e da paz, gente que trabalha, estuda, toma uma cervejinha no final da semana e não faz mal a ninguém.

O problema é que os outros 20 por cento ou vivem brigando, matando, roubando, xingando, gritando, atropelando, ou botando mais lenha nas fogueiras, com isso tirando o sossego e o sono dos demais.

O que fazer então? Sei não. Acho que podemos pelo menos pedir aos céus que amansem esses encrenqueiros todos, antes que eles completem o estrago.

(Crônica publicada na edição de hoje do Jornal do Povo )
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A. A. de Assis (1933)
ANTÔNIO AUGUSTO DE ASSIS, carinhosamente conhecido em todo o país como A. A. de Assis, é o grande patriarca das letras em Maringá e uma das maiores referências do movimento trovadoresco no Brasil. Fluminense de nascimento (nascido em São Fidélis em 1933), ele chegou ao Norte do Paraná em janeiro de 1955. Tornou-se o cronista visual, espiritual e poético do crescimento da "Cidade Canção". Ao chegar na poeirenta Maringá dos anos 1950, trabalhou inicialmente gerenciando uma loja de autopeças de seu irmão. Foi um dos pilares da imprensa escrita local. Atuou como jornalista, redator e diretor em veículos históricos como O Jornal de Maringá (o pioneiro da cidade), Tribuna de Maringá, Folha do Norte do Paraná (criado por Dom Jaime Luiz Coelho), além das revistas Aqui e Novo Paraná. Formou-se em Letras e construiu uma sólida carreira docente. Foi professor do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá (UEM) por décadas, aposentando-se das salas de aula em 1997.
A. A. de Assis é considerado o "remanescente brilhante" da escola tradicional da trova brasileira. Sua inserção na literatura maringaense é mítica: Em 1959, ele publicou a coletânea de poemas intitulada Robson (sob o pseudônimo homônimo). Esta obra detém o marco histórico absoluto de ser o primeiro livro impresso e publicado na história de Maringá. Sua contribuição mais famosa para a cultura religiosa e literária nacional foi a criação da Missa em Trovas. Trata-se de uma composição litúrgica inteiramente estruturada sob a forma poética de trovas, muito cantada e celebrada em paróquias do Brasil. Algumas obras publicadas:  Robson (1959 - Poemas); Itinerário (Poemas); Caderno de Trovas e Tábua de Trovas; A. A. de Assis – Vida, Verso e Prosa (Sua obra autobiográfica).
A importância de sua obra de estreia, Robson, é tão imensa para a identidade local que o livro foi oficialmente tombado como Patrimônio Histórico Imaterial do Município de Maringá. Poucos escritores no Brasil receberam essa honraria em vida sobre uma publicação literária. Em tempos de versos livres, A. A. de Assis manteve acesa a chama da trova clássica, caracterizada pelo lirismo profundo encaixado perfeitamente na métrica rígida da redondilha maior (sete sílabas). Suas composições servem de modelo técnico para novos poetas de todo o país. Suas crônicas jornalísticas e literárias registram a transformação de Maringá de um vilarejo cercado por poeira vermelha e cafezais para a metrópole moderna atual. Ele deu estridência literária à memória dos pioneiros.

Fontes:
Portal do Ângelo Rigon. 13/08/2026.
(Biografia produzida pelo Blog:  Garimpos pela internet) 

Irmãos Grimm (Os Sete Corvos)

Era uma vez um homem que tinha sete filhos, todos meninos, e vivia suspirando por uma menina. Afinal, um dia, a mulher anunciou-lhe que estava mais uma vez esperando criança.

No tempo certo, quando ela deu à luz, veio uma menina. Foi imensa a alegria deles. Mas, ao mesmo tempo, ficaram muito preocupados, pois a recém-nascida era pequena e fraquinha, e precisava ser batizada com urgência. Então, o pai mandou um dos filhos ir bem depressa até a fonte e trazer água para o batismo.

O menino foi correndo e, atrás dele, seus seis irmãos. Chegando lá, cada um queria encher o cântaro primeiro; na disputa, o cântaro caiu na água e desapareceu. Os meninos ficaram sem saber o que fazer. Em casa, como eles estavam demorando muito, o pai disse, impaciente:

- Na certa, ficaram brincando e se esqueceram da vida!

E, cada vez mais angustiado, exclamou com raiva:

- Queria que todos eles se transformassem em corvos!

Nem bem falou isso, ouviu um ruflar de asas por cima de sua cabeça e, quando olhou, viu sete corvos pretos como carvão passando a voar por cima da casa. Os pais fizeram de tudo para anular a maldição, mas nada conseguiram; ficaram tristíssimos com a perda dos sete filhos. Mas, de alguma forma, se consolaram com a filhinha, que logo ficou mais forte e foi crescendo, cada dia mais bonita. Passaram-se anos.

A menina nunca soube que tinha irmãos, pois os pais jamais falaram deles. Um dia, porém, escutou acidentalmente algumas pessoas falando dela:

- A menina é muito bonita, mas foi por culpa dela que os irmãos se desgraçaram...

Com grande aflição, ela procurou os pais e perguntou- lhes se tinha irmãos, e onde eles estavam. Os pais não puderam mais guardar segredo. Disseram que havia sido uma predestinação do céu, mas que o batismo dela fora a inocente causa. A partir desse momento, não se passou um dia sem que a menina se culpasse pela perda dos irmãos, pensando no que fazer para salvá-los.

Não tinha mais paz nem sossego. Um dia, ela fugiu de casa, decidida a encontrar os irmão onde quer que eles estivessem, nesse vasto mundo, custasse o que custasse. Levou consigo apenas um anel de seus pais como lembrança, um pão grande para quando tivesse fome, um cantil de água para matar a sede e um banquinho para quando quisesse descansar.

Foi andando, andando, se afastando cada vez mais, e assim chegou ao fim do mundo. Então, foi falar com o sol. Mas ele era assustador, quente demais e comia crianças. A menina fugiu e foi falar com a lua. Ela era horrorosa, mais fria que o gelo, e também comia crianças. Quando viu a menina, disse com um sorriso mau:
- Hum, hum... que cheirinho bom de carne humana!

A menina se afastou correndo e foi falar com as estrelas. Encontrou--as sentadas, cada uma na sua cadeirinha. Todas elas foram bondosas e amáveis com ela.

A Estrela D'alva ficou em pé e lhe deu um ossinho de frango, dizendo:
- Sem este ossinho, você não poderá abrir a Montanha de Cristal, e é na Montanha de Cristal que estão seus irmãos.

A menina pegou o ossinho, embrulhou-o num pedaço de pano, e de novo se pôs a andar. Andou, andou e afinal chegou na Montanha de Cristal. O portão estava fechado; quando desembrulhou o paninho para pegar o osso, ele estava vazio! Ela havia perdido o presente da estrela... E agora, o que fazer? Queria salvar os irmãos, mas não tinha mais a chave da Montanha de Cristal.

Sem pensar muito, meteu o dedo indicador dentro do buraco da fechadura e girou-o, mas o portão continuou fechado. Então, pegou uma faca em sua trouxinha, cortou fora um pedaço do dedo mindinho, meteu o pedaço do dedo na fechadura: felizmente, o portão se abriu.

Assim que ela entrou, um anãozinho veio a seu encontro:

- O que esta procurando, minha menina?

- Procuro meus irmãos, os sete corvos.

- Os senhores corvos não estão em casa e vão se demorar bastante. Mas, se quiser esperar, entre e fique à vontade.

Assim dizendo, o anãozinho foi para dentro e voltou trazendo a comida dos corvos em sete pratinhos, e a bebida em sete copinhos. A menina comeu um bocadinho de cada prato e bebeu um golinho de cada copo, mas deixou cair o anel que trouxera dentro do último copinho. Nesse momento, ouviu-se um zunido e um bater de asas no ar.

- São os senhores corvos que vêm vindo - explicou o anãozinho. Eles entraram, quiseram logo comer e beber e se dirigiram para seus pratos e copos. Então um disse para o outro:

- Alguém comeu no meu prato! Alguém bebeu no meu copo! E foi boca humana!

E quando o sétimo corvo acabou de beber a última gota de seu copo, o anel rolou até o seu bico. Ele reconheceu o anel de seus pais e exclamou:

- Queira Deus que nossa irmãzinha esteja aqui! Então, estaremos salvos!

Ao ouvir esse pedido, a menina, que estava atrás da porta, saiu e foi ao encontro deles. Imediatamente, os corvos recuperaram sua forma humana. Abraçaram-se e se beijaram na maior alegria e, muito felizes, voltaram todos para casa.
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Irmãos Grimm = Jakob (1785 - 1863); Wilhelm (1786 - 1859)
Folcloristas e escritores de contos infantis, Jakob Ludwing Carl Grimm (1785-1863) e Wilhelm Carl Grimm (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jakob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jakob em 1863.

Fonte:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.

sábado, 10 de outubro de 2026

Asas da Poesia * 220 *


Trova de
APARÍCIO FERNANDES
Acari/RN (1934 – 1996) Rio de Janeiro/RJ

Dia a dia vai se impondo
este conceito batata:
A terra é um mundo redondo
repleto de gente chata…
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Poema de
AMÁLIA PEITIGUARY
(João Francisco Coelho Cavalcanti – “João Barafunda”)
São Luiz do Quitunde/AL (1874 – 1938) Rio de Janeiro/RJ

Árvore antiga

Esta árvore que vês, já desfolhada,
Pobre, batida pelo tempo, outrora
Guardou muitos segredos e adorada
Foi, como aquela que acolá vigora.

E, sem receio, a ela a passarada
Que trina ao longe, que a despreza agora,
Seus ninhos confiou. Árvore, coitada,
És velha triste, ninguém mais te adora!

Meu coração também, outrora cheio
De sonhares gentis, alimentado
Por um constante e amoroso enleio,

Como tu vive triste desprezado,
E nele eu hoje tristemente leio
A mesma sina tua, o mesmo estado.
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Trova de 
AMARYLLIS SCHLOENBACH
São Paulo/SP

Na busca eterna da paz,
a humanidade se enterra;
seus próprios sonhos desfaz
na luta inglória da guerra!
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Poema de 
ROBERT FROST
São Francisco/EUA (1874 – 1963) Boston/EUA

Num cemitério em desuso

Os vivos vêm pisando a grama,
vêm ler no morro as inscrições;
o cemitério ainda os atrai;
os mortos é que não vêm mais.

 Os versos nele se repetem:
“Aqueles que hoje vivos vêm
a ler as pedras e se vão
mortos é que amanhã virão.”

Certas da morte as lousas rimam,
mas não sem deixar de notar
que nenhum morto já não vem.
Do que é que os homens medo têm?

 Seria fácil ser esperto
e lhes dizer: "Eles detestam
a morte, e já não entram nela."
Talvez caíssem na esparrela.
(Tradução: Renato Suttana)
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Trova de
MIFORI
(Maria Inês Fontes Rico)
São José dos Campos/SP

Meu passeio de bom dia
são estradas que ora faço,
combatendo a nostalgia
em cada lugar que passo.
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Poema de
IALMAR PIO SCHNEIDER
Porto Alegre/RS

Eu era feliz e não sabia

Nasceu o dia e o sol é tímido nesta hora...
Levantei tarde e vejo ali o velho mar
que se estende distante, universal, afora,
sem me deixar saber onde vai terminar...

Tem seus segredos que nem posso imaginar...
Talvez o pranto da Humanidade que chora
carrega triste e vai levando sem cessar,
como alguém que tem pressa, assim, de ir-se embora...

Mas é meu companheiro em horas de saudade,
quando as recordações preenchem minha existência
e me transportam à ditosa mocidade...

Tudo passou e agora enfrento com paciência,
o que restou, enfim, dessa felicidade
que havia em minhas mãos, de que eu não tinha ciência…
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Haicai de
GUILHERME DE ALMEIDA 
Campinas/SP, 1890 - 1969, São Paulo/SP

Histórias de algumas vidas

Noite. Um silvo no ar.
Ninguém na estação. E o trem
passa sem parar.
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Soneto de
SILVESTRE PÉRICLES DE GÓES MONTEIRO
São Luiz do Quitunde/AL (1896 — 1972) Rio de Janeiro/RJ

Nuvem de amor

Passaste como nuvem cor de rosa
no firmamento azul, em horas mansas.
Da graça, comovida e luminosa,
retrataste a doçura das lembranças.

E conduziste os sonhos meus, formosa,
e a centelha de afeto, em que descansas.
Talvez sejas feliz ou inditosa,
Tu, que levaste as minhas esperanças.

Fico-me só. Sozinho, e suave, e triste...
Mas, neste peito, há vibrações sadias
do que foi, e será, e agora existe...

Cardos e flores, com que o ser se junca,
resultam, pela vida, em harmonias,
se o amor, no coração, não morre nunca.
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Trova de
CAMPOS SALES
Lucélia/SP, 1940 – 2027, São Paulo/SP

“Boteco é a maior desgraça”,
grita o padre em tom agudo;
“Acabem com a cachaça”.
Grita o bebum: “Eu ajudo!”
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Poema de
HELENA KOLODY
Cruz Machado/PR (1912 – 2004) Curitiba/PR

Infância

Aquelas tardes de Três Barras
Plenas de sol e de cigarras!

Quando eu ficava horas perdidas
Olhando a faina das formigas
Que iam e vinham pelos carreiros,
No áspero tronco dos pessegueiros.

A chuva-de-ouro
Era um tesouro,
Quando floria.
De áureas abelhas
Toda zumbia.
Alfombra flava
O chão cobria...

O cão travesso, de nome eslavo,
era um amigo, quase um escravo.

Merenda agreste:
Leite Ciroulo,
Pão feito em casa,
Com mel dourado,
Cheirando a favo.

Ao lusco-fusco, quanta alegria!
A meninada toda acorria
Para cantar, no imenso terreiro:
"Mais bom dia, Vossa Senhoria"...
"Bom barqueiro! Bom barqueiro..."
Soava a canção pelo povoado inteiro
E a própria lua cirandava e ria.

Se a tarde de domingo era tranquila,
Saía-se a flanar, em pleno sol,
No campo, recendente a camomila.
Alegria de correr até cair,
Rolar na relva como potro novo
E quase sufocar, de tanto rir!

No riacho claro, às segundas-feiras,
Batiam roupas as lavadeiras
Também a gente lavava trapos
Nas pedras lisas, nas corredeiras;
Catava limo, topava sapos
(Ai, ai, que susto! Virgem Maria!)

Do tempo, só se sabia
Que no ano sempre existia
O bom tempo das laranjas
E o doce tempo dos figos...

Longínqua infância... Três Barras
Plena de sol e cigarras!
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Trova de
DOMITILA BORGES BELTRAME
Araxá/MG, 1932 – 2025, São Paulo/SP

O nosso amor escondido,
sem promessa de aliança,
tem o sabor proibido
da fruta da vizinhança!…
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Poema de
DAILOR VARELA
São Paulo/SP

Novos poemas de um velho poeta

Persegue-me
Um vazio imóvel
Tenho medo de me dissolver
Em tédio
O sobrenome
Traduz memórias
Que o homem leva pela vida
Inutilmente
Só há no nome:
O próprio homem.
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Haicai de
OLIVALDO JUNIOR
Mogi-Guaçu/SP

Roseira crestada, 
Sem botões, nem folhas verdes: 
Floreira sem nada. 
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Poema de
AMAURY NICOLINI
Rio de Janeiro/RJ

O Coração do Poeta

Todo poeta tem mil corações,
cada um com sua chave e seu segredo
onde acomoda as também mil paixões
que lhe inspiram os versos desde cedo.
Mesmo quando está com a casa cheia
mais um dos seus castelos de areia
constrói num cantinho do seu peito.
Um poeta é insaciável, é seu jeito
porque é preciso, pra fazer poesia,
que arda nele um fogo de paixão,
e dessas chamas sairão poemas
que, mesmo abordando muitos temas,
poucas palavras de amor resumirão.
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Trova de 
OLGA AGULHON
Maringá/PR

Faça chuva ou faça sol,
barro ou poeira na estrada,
se você for meu farol,
continuo a caminhada.
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Mensagem na Garrafa 214 = O Leão e o Ratinho


Autor Anônimo

Alguns ratinhos brincavam de esconder. O menor deles saiu correndo em busca de esconderijo onde ninguém o encontrasse. Viu algumas rochas e ficou muito alegre por encontrar também uma caverna. Só muito tarde percebeu que a rocha era um leão dormindo, e que a caverna era a boca aberta do leão.

O felino ficou muito bravo por ter sido acordado e disse que iria castigar tanto atrevimento. O ratinho pediu desculpas.

- Prometo que isso não vai acontecer nunca mais.

O leão perdoou o ratinho. Alguns dias depois acordou novamente com os guinchos e as correrias, pensou: "Vou dar uma lição nesses ratinhos, e se os pais deles não gostarem, morrerão também."

Acontece que os caçadores esperavam por ele há vários dias. Quando ele passou debaixo de uma árvore, jogaram a rede e o prenderam. Ele fez de tudo para sair mas foi impossível. Os caçadores deixaram o leão na rede e foram avisar seus companheiros. 

O leão lutou muito tempo, e seus rugidos estremeceram a floresta. Depois, cansado, ficou triste. Sabia que os homens iriam matá-lo ou então o levariam para algum zoológico bem longe.

Passado algum tempo, o Leão ouviu uma voz junto de seu ouvido.

Era o Ratinho.

- Leão, vim tirar você dessa armadilha.

Não acreditou. Como um animal tão insignificante poderia ajudá-lo?

- Chame alguém maior e mais forte. Você nunca conseguirá me tirar daqui - rugiu o leão.

- Sou pequeno mas tenho os dentes afiados - disse o ratinho.

O Ratinho roeu então as malhas da rede, uma por uma. Algum tempo depois o buraco ficou grande e o leão pode escapar. 

Quando os caçadores voltaram, a rede estava vazia.

MORAL: 
Algumas vezes o fraco pode ajudar o forte