sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Hildeberto Barbosa Filho / MA (Pequena Propedêutica Litúrgica ao Sagrado Corpo da Mulher Amada)


 nada
 é mais sagrado
 que o corpo da mulher
 amada

 o corpo
 da mulher amada
 é um evangelho de veredas
 abissais

 é uma planície habitada
 por silentes centopéias

 é sempre um país estranho
 estrangeiras águas
 donde vêm as violetas
 do amor

 o corpo
 da mulher amada
 está salpicado de picassos
 vermelhos
 e os milharais sobrevoam
 os corvos do coração

 o corpo
 da mulher amada
 sangra a cada mês
 a divina palidez das metáforas
 nuas

 o corpo
 da mulher amada
 tem vidraças
 tem chafarizes
 e tem colmeias
 e tem garças
 e tem antíteses

 procuremos
 no corpo da mulher
 amada
 os demônios do paraíso

 bebamos
 o corpo da mulher
 amada
 como os sedentos que naufragam
 nas miragens do deserto

 [...]
 o corpo
 da mulher amada
 é para ser olhado como se olha
 uma paisagem de gerânios
 solitários

 é para ser tocado como se toca
 as harpas do sol
 é para ser consumido como se consome
 uma rara liturgia

 é para ser amado como se ama
 o secreto lume da noite
 derradeira

 pobre do amante
 que não alcança as mandalas
 eróticas

 os imprevistos rituais
 os translúcidos castiçais
 os lóbulos lacustres
 do corpo da mulher
 amada

 o corpo
 da mulher amada
 nunca morre

 o corpo
 da mulher amada
 nunca apodrece

 o corpo
 da mulher amada
 nunca é pornográfico

 nunca é banal
 nem árido
 nem deserto

 nunca é abjeto
 o corpo da mulher
 amada

 o corpo
 da mulher amada
 é alma tangível

 mais sagrado
 que o corpo da mulher
 amada
 só o beijo da mulher
 amada

 [...]

Fonte:
FILHO, Hildeberto Barbosa. Nem morrer é remédio, Poesia reunida. João Pessoa, PB: Ideia Editora Ltda., 2012, p.259-265

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