Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Adelto Gonçalves (O Verso Livre de Joaquim Pessoa)

VOU-ME EMBORA DE MIM, de Joaquim Pessoa, edição russo-portuguesa, com posfácio de Vadim Kopyl, apresentação de Maria Lúcia Lepecki e tradução de Vadim Kopyl, Andrei Rodosski e Veronica Kapustina. São Petersburgo: Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen e Alexandria Publishing & Humanities Agency, 2007, 256 págs.I

Vou-me embora de mim é uma condensação dos principais livros do poeta português Joaquim Pessoa (1948) preparada pelo filólogo Vadim Kopyl, doutor em Filologia Românica e diretor do Centro Lusófono Camões da Universidade Estatal Pedagógica Hertzen, de São Petersburgo, e publicada em edição russo-portuguesa pela Alexandria Publishing &Humanities Agency daquela cidade que é a capital cultural da Rússia. A tradução dos poemas coube a não só a Vadim Kopyl como a Andrei Rodosski e Veronica Kapustina.

Ainda que Joaquim Pessoa seja cultor do verso livre, estilo pouco comum na terra de grandes poetas como Pushkin (1799-1837), Kopyl tem certeza de que a poesia que emana dos seus textos saberá tocar na alma do leitor russo. Até porque a poesia é a linguagem universal do sentimento. E, especialmente, a de Joaquim Pessoa está carregada da palavra lírica na sua mais pura natureza, como garante a professora brasileira Maria Lúcia Lepecki, há muitos anos radicada em Portugal, mais especificamente na Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa, responsável pela apresentação do livro.

II

Poeta, tradutor e artista plástico largamente premiado em seu país, Joaquim Pessoa traz nas veias o percurso da maioria dos intelectuais que começam agora a trilhar a faixa dos sessenta anos: saiu da rebeldia juvenil e dos sonhos da esquerda que idealizavam um mundo mais justo para a sóbria reflexão de que o mundo não depende de nossa vontade e dos nossos sonhos, à qual só se chega depois de levar bastante “porrada” na vida, como diria o outro Pessoa, o Fernando (1888-1935).

Depois de uma fase em que produziu versos ou poemas em prosa – linhas curtas e longas, reunidas em forma livre – extremamente politizados, que refletem os anos da viragem do fascismo salazarento para a festa do 25 de Abril – que, diga-se de passagem, logo se acomodou aos interesses dos mais endinheirados, como sempre –, Joaquim Pessoa passou a olhar a vida com menos expectativa de mudanças, passando a produzir uma poesia mais reflexiva e menos intempestiva. São daquela época de inflamação juvenil livros como Poemas de Perfil (1974-75) e Poemas da Resistência e Canções de Ex-cravo e Malviver (1978), cujo título bem explica a preferência do autor por palavras e sentidos dúbios e criativos que guardam significados implícitos dentro de sua intertextualidade.

Com o passar dos anos, obviamente, a ênfase revolucionária e o sarcasmo foram diminuindo, como observa Kopyl no posfácio que leva o título “Livro que veio para ficar”, mas a inventividade não se arrefeceu, como provam os poemas de Amor Combate (1985), que, por isso mesmo, não perderam o frescor da juventude que os colocou para fora. Pessoa tem uma especial predileção por criar palavras, neologismos.

III

Para a edição russo-portuguesa, Kopyl escolheu cinco coletâneas poéticas e “um livro-poema inteiro”: Nomes (2001), O Livro da Noite (1982), O Amor Infinito (1983), À Mesa do Amor (1994), Por Outras Palavras (1990) e Vou-me Embora de Mim (2000), o livro-poema de que fala Kopyl e que Maria Lúcia Lepecki definiu como um longo poema dividido em partes – nem tituladas nem numeradas – que constitui um encadeamento de recordações.

(...) Apanho um combóio e um barco, viajo para lá do acontecimento
que é sentir-me ser de ali. Vou-me embora de mim.
Este diálogo não acabou e não acabará nunca. Vou
com os camponeses da cidade, feliz como um animal doméstico,
por vezes como um cão vadio no inverno, cuja felicidade
é apenas atingir a primavera seguinte.
Vou com as gaivotas que procuram a vida
nas milhares de toneladas de lixo da civilização. Vou também
com a dor de todos os massacres e com os missionários confortáveis
que querem governar o mundo sem saber governar o próprio estômago.
E vou ainda com. E com. E com. E com.
E vou ainda.

IV

Do mesmo livro é o po
ema (sem título, como todos) que diz do desencanto da geração nascida nas décadas de 1940 e 1950 que acreditou na construção de um novo mundo e, “entre o sonho e a vontade”, viu se esboroar “os impérios dos que tiveram vontade de sonhar”:

(...) Construir o sonho é uma atitude honesta
mas edificar a realidade é trabalho para o escravo,
do qual o escriba não regista, nem fome, nem suor.

V

Joaquim Pessoa – que com Fernando Pessoa não tem nenhum parentesco, a não ser poético – nasceu no Barreiro, do outro lado do Tejo, e naquela cidade operária viveu até os 28 anos de idade. Pratica poesia desde os 12 anos, quando, entusiasmado por sua professora do liceu, passou a escrever composições que, depois, lia para os colegas em classe. Entre os seus autores preferidos àquela época, estavam Bocage (1765-1805), Nicolau Tolentino (1722-1804), Cesário Verde (1855-1886) e António Nobre (1867-1900). Quando chegou à idade adulta, suas leituras migraram para Pablo Neruda (1904-1973), Louis Aragón (1897-1982) e Paul Eluard (1895-1952).

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(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

Fonte:
http://www.storm-magazine.com/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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