Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Aparecido Raimundo de Souza (Liungua Preusa)

O advogado indica uma cadeira para o rapaz que acaba de entrar em sua sala. Antes de sentar, o moço tira da cabeça um chapéu ensebado e o coloca sobre a mesa cheia de papéis e processos.

— Aceita água gelada?

— Nãu, oubriugaudo.

— Um café?

— Tenhu qui paugar?

— Claro que não. É por conta do escritório.

— Entãu eu aceitu um caufé.
-
Chama a secretária pelo interfone e solicita que traga a bebida para dois.

— Vamos ao seu caso, senhor... Como é mesmo seu nome?

— Adeugeusto Fumouso.

— Pois não. O que está acontecendo?

— Meu aumiugo se meuteu nuuma encreunca e a pouliucia leuvou eule paura a deleugaucia.

— Sabe o motivo?

— Seugundo o pouliciaul de plauntão, roubo de uma mouto. Mas já fuoi tuudo deuviudamente esclaureucido.

— Mas seu amigo continua detido?

— Nãu. Acaubou de ser liubeurado. Souto, aufiunau, está em causa, grauças a Deuus. Soulto.

A secretária chega com a bandeja e serve os dois homens em silêncio:

— Senhor, açúcar ou adoçante?

— Auçuucar, pour fauvour.

— Não entendi, cavalheiro!

— Aucho meulhor toumar aumaurgo, meusmo.

Terminada essa tarefa, a jovem retorna à recepção.

— Bem, seu Adegesto...

— Adeugeusto...

— Seu amigo não está mais na delegacia?

— Grauças a Deus, nãu.

— Confesso ao senhor que não entendi uma coisa. Como se chama, afinal, esse seu amigo: Souto ou Solto?

— Orlaundo...

— Mas o senhor disse à minha colega, ainda há pouco, que seu amigo Souto foi...

— Nãu, nãu diusse. Fui bem clauro com eula. Faulei o seuguinte: Que o meu aumiugo Orlaundo... De ounde eussa criatutura tirou eusse taul de Souto?

— O que o senhor falou, afinal, para minha sócia?

— Que meu aumiugo Orlaundo esteuve, mas agoura nãu estáu mais.

— Mais o quê?

— Na deleugaucia, com o doutour deuleugaudo.

— Então ele foi realmente solto?

— Fuoi. Diaunte diusso eu vim auté auqui agraudecer, pois nãu vuou mais preucisar de seus serviuços. Taumbém sauber se deuvo alguma coisa coum reulaução a hounourários.

— Tudo bem, o prezado não me deve nada. Apenas gostaria de um pequeno esclarecimento. Estou pra lá de confuso. Desculpe a insistência. Seu amigo é o Souto?

— Nãu, doutor. Pour tuudo quaunto é mais saugraudo.

— Realmente acho que não estamos conseguindo nos entender. O Souto foi preso e agora está solto?

— Souto e Soulto nuunca estiveuram preusos, doutor. Preuso estauva o Orlaundo...

Risos.

— Por acaso isso é algum tipo de brincadeira?

— Nãu senhour. Clauro que nãu.

— Então?

—O Orlaundo, como diusse, está souto, Enteunde o que diugo? Eule, augoura, eustá soulto.

O advogado, impensadamente, resolve brincar com o cidadão. Fala, ou melhor, arremeda, de forma grotesca.

— “Iustu nus leuva a councluir que eule reualmente nãu está maius preuso?”.

O sujeito se enfurece. Dá um tapa na mesa. Por pouco não derruba o restante do café:

— O senhour pour aucauso reusoulveu tiurar saurro da miunha caura e me gouzar?

— De forma alguma.

O cidadão se levanta, muito nervoso, passa a mão no chapéu ensebado, vira as costas e sai da sala.

Fontes:
Aparecido Raimundo de Souza. Refúgio para Cornos Avariados. SP: Ed. Sucesso, 2011
Imagem = www,folhauniversal.com.br

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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