Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Gilvan Lemos (Gilvan por Gilvan)

Gilvan (de Souza) Lemos nasceu na cidade de São Bento do Una – PE, no dia 1º de julho de 1928, onde fez os primeiros estudos e residiu até 1949, quando se transferiu para o Recife.

Curso de Francês na Aliança Francesa e de Inglês no Curso Maia.

Escreve desde os 15 anos de idade.

Publicou seu primeiro trabalho literário (um conto escrito em 1945) na revista Alterosa, de Belo Horizonte, em março de 1948.
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Desde criança a leitura tem sido o que existe de mais importante na minha vida. Primeiro me apaixonei pelos gibis. Me interessava também pelos livros infantis de Monteiro Lobato, que os mais velhos indicavam para que eu me instruísse, embora eu não os lesse com esse intuito, e sim por me divertir principalmente com as presepadas da Emília. Depois passei a ler romances. O primeiro que li, O Conde de Monte Cristo, de Alexandre Dumas, me conquistou definitivamente. A ficção continua a ser minha leitura predileta. Não sei como uma pessoa passa pela vida sem ler, sem se interessar pela literatura.

Daí nasceu o escritor, modéstia à parte, eu. Como dizia Osman Lins, quem convive com mágicos termina tirando coelhos do bolso. Foi o que aconteceu comigo. Aliás, se não fossem as influências, a arte em geral não teria prosseguido. É nos emocionando por alguém que nos propomos a imitá-lo.

O ato de escrever passou a ser a minha finalidade na vida. Quando estou escrevendo, não me interesso mais por coisa alguma. Me entristeço, me alegro, me emociono... Não sei como há escritores que "sofrem" para escrever. Rachel de Queiróz chegou a dizer que escrever, para ela, era o maior sacrifício. Se era assim, por que escrevia?

Me iniciei na época em que predominavam autores brasileiros como Erico Verissimo, José Lins do Rego, Jorge Amado, Lúcio Cardoso... Amei-os e imitei-os desordenadamente. Claro que hoje faço minhas restrições. De José Lins do Rego, salvo dois ou três romances, de Erico Verissimo, idem. De Lúcio Cardoso, nenhum; de Jorge Amado... restou a saudade. Foi quando "conheci" Graciliano Ramos. Ah, este ainda me agrada. Me identifico com todos os seus livros.

Comecei a escrever de teimoso que era. Em minha cidade – São Bento do Una, agreste meridional de Pernambuco –, não havia a menor possibilidade de prosseguir. Cidade atrasada, sem colégios, sem biblioteca, sem pessoas ligadas à literatura. Contava apenas com minha irmã mais velha, que, sem o curso secundário, como eu, era duma inteligência superior, lia muito e me orientava. Foi com sua ajuda que escrevi meu primeiro conto publicado na revista Alterosa, editada em Belo Horizonte. Quando publiquei o segundo, em 1948, já me considerava um escritor.

Mudei-me para o Recife em 1949. Com 21 anos incompletos, me julgando velho para iniciar o curso ginasial, passei a ler com o interesse de me ilustrar. Em 1951, obtive um prêmio instituído pelo Estado para romances inéditos com meu livro de estréia, Noturno sem música, publicado cinco anos depois em edição particular. Que passou completamente despercebido pela crítica local. Isso me decepcionou sobremaneira. O fato é que eu desejava apenas publicar um romance. Achava que, o publicando, estaria realizado. Mas o diabo é que passei a desejar ser famoso. Apesar de estar convicto de que fracassara, não deixei de escrever. Só para mim. Doze anos mais tarde arrisquei-me a remeter um novo romance à Editora Civilização Brasileira, principal editora de literatura na época. O livro – Emissários do diabo – foi aceito e publicado em 1968. A partir daí, as portas do paraíso se abriram para mim, e meus primeiros romances foram publicados no Rio, em São Paulo e Porto Alegre (no tempo da famosa Editora Globo). O povo da minha terra passou então a me conhecer.

Hoje tenho 21 livros publicados: 11 romances, 3 de novelas e 7 de contos, alguns premiados nacionalmente, outros já na 3ª edição. No momento, estou com dois livros em compasso de espera. Ambos em São Paulo. O primeiro, A era dos besouros, está programado para o fim do ano. Constitui-se de três novelas curtas: Ritual de danação, uma paráfrase de Jó, atual, com final surpreendente; Alugam-se quartos, dramas íntimos de vários moradores dum pardieiro desses "cai-mas-não-cai"; e, finalmente, a que dá título ao livro, história duma família, mulher e filho, que vive os momentos duvidosos da era da ditadura. O segundo, Na rua Padre Silva, é composto de contos "entrelaçados", quase um romance, sobre pessoas humildes duma rua de pobres.

Os livros, só romances, que eu indico para os leitores do Cultura News, são aqueles de que mais gosto, como, por exemplo, os de Graciliano Ramos; Menino de engenho e Bangüe, de José Lins do Rego; Grande sertão: Veredas e Corpo de baile, de Guimarães Rosa, só para ficar nos do século passado, brasileiros. Não tenho lido autores novos. Estrangeiros, indicaria Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Márquez; A casa verde, de Vargas Llosa; O ajudante, de Bernard Malamud; todos os do Coelho, de John Updike e outros que não me ocorrem no momento.

O "pessoal do Sul" acha que sou "regionalista". Regionalista parelho aos escritores que se tornaram conhecidos a partir de 1930, sei que não sou. Ocorre que escrevo sobre o meio em que vivo. Retrato as pessoas com que convivo, recordo momentos da minha vida no interior... Em suma, escrevo sobre o que conheço, o que sei, o que me emociona. Para mim, o bom romance é o que nos provoca emoções. Detesto romances experimentais, enredos misteriosos, incompreensíveis, jogos de palavras... Acho que isso é coisa de quem não tem o que dizer. Para mim, romance é romance. Não se restringe a escolas, tempo, época. Quando o romance é bom, não tem idade.

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São mais de 20 livros de ficção publicados, além dos textos em coletâneas e periódicos.

I – Romances:

01. Noturno sem música. Recife: Ed. Nordeste, 1956. Prêmio Vânia Souto Carvalho, da Secretaria de Educação – PE. 2ª ed. Recife: Bagaço, 1996

02. Jutaí menino. Rio de Janeiro: O Cruzeiro, 1968. Prêmios: Orlando Dantas, do Diário de Notícias (Rio); Olívio Montenegro, da UBE – PE. 2ª ed. Recife: Bagaço, 1995

03. Emissários do diabo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1968. Prêmio da APL. 2ª ed. São Paulo: Editora Três, 1974 (Coleção Literatura Brasileira Contemporânea); 3ª ed. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987

04. Os olhos da treva. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975. Menção Honrosa (Prêmio José Conde/Recife). 2ª ed. S. Paulo: Círculo do Livro,1983

05. O anjo do quarto dia. P. Alegre: Globo, 1981, Prêmio Érico Veríssimo, da mesma editora. 2ª ed. São Paulo: Globo, 1988. 3ª ed. Recife: Bagaço, 2002

06. Os  pardais estão voltando. Recife: Guararapes, 1983

07. Espaço terrestre. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 1993

08. Cecília entre os leões. Recife: Bagaço, 1994.  2ª ed. Recife: Bagaço: 2007

09.  A lenda dos cem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1995. 2ª ed. Recife, Ed. Bagaço, 2005

10.  Morcego cego. Rio de Janeiro: Record, 1998

11.  Vingança de desvalidos. Recife: Nossa Livraria, 2001

II – Contos:
          
01. O defunto aventureiro. Recife: EDUFPE, 1974. Menção Honrosa do Prêmio José Lins do Rego, da Ed. José Olympio (Rio). 2ª ed. Recife: Bagaço, 2001

02. Os que se foram lutando. Rio de Janeiro: Artenova, 1981

03. Morte ao invasor. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1984

04. A inocente farsa da vingança. São Paulo: Estação Liberdade, 1991

05. Onde dormem os sonhos. Recife: Nossa Livraria, 2003

06. Largo da alegria. Recife: Bagaço, 2003

III – Novelas:

01. A noite dos abraçados. Porto Alegre: Globo, 1975

02. O mar existe. In: A inocente farsa da vingança. São Paulo: Estação Liberdade, 1991

03. Enquanto o rio dorme. Recife: Bagaço, 1993 (uma das novelas de A noite dos abraçados)

04. Neblinas e serenos. Recife: Bagaço, 1994 (duas das novelas de A noite dos abraçados). 2ª ed. Recife: Bagaço, 1995

05. A Era dos Besouros – Editora A Girafa – São Paulo – Maio de 2006

06. Na Rua Padre Silva – Editora Nossa Livraria – Recife – Outubro de 2007

IV. Contos nas coletâneas:

01. O urbanismo na literatura. Rio de Janeiro: Livros do Mundo Inteiro, 1975

02. O novo conto brasileiro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985

03. Seleta de autores brasileiros. Rio de Janeiro: Jornal de Letras, 1987

04. Memórias de Hollywood. São Paulo: Nobel, 1988

05. Contos de Pernambuco. Recife: Massangana, 1988

06. Erkundunger 38 Brasilianische Erzahler. Berlim: Verlag Volk und Welt Berlin, 1989

07. Le serpent a plume. Paris, 1994

08. Caravanes. Paris, 1998

09. Antologia do conto nordestino. Recife: Micro, 1998

10. Panorama do Conto em Pernambuco – Fundação Maximiano Campos  - Recife – Outubro de 2007

Fontes:
http://www.livrariacultura.com.br/
http://www.releituras.com

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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