Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 28 de abril de 2013

Nilto Maciel (O Público do Teatrinho de Marionetes)

O público do teatrinho de marionetes crescia dia a dia. Ao final de cada peça, Raul Marinho apresentava suas mágicas sensacionais. As crianças aplaudiam cada número do espetáculo.

Os sediciosos, no entanto, chamavam o mágico de feiticeiro e ilusionista. Para o comendador, Raul não passava de um falso milagreiro, desdenhador da religião católica, um enganador do povo, como os comunistas. Segundo padre Gregório, o homem tinha pauta com o maligno.

Chegou o dia, entretanto, de ser lembrado como um possível aliado na luta contra o inimigo poderoso e invisível. Ora, se fazia surgirem coelhos do interior de cartolas, se transformava lenços brancos em pombas voadoras, se retirava tiras e mais tiras de pano da boca, por que não poderia fazer com que os comunistas se mostrassem em carne e osso à plena luz do dia? Ana Souto se mostrou incrédula: E se não fossem de carne e osso?

Outra importante contribuição de Raul se daria após a vitória do Movimento ou quando todos os comunistas tivessem sido achados e presos. Só ele, com sua capacidade de dominar as pessoas, faria com que os bolchevistas de Palma confessassem seus planos diabólicos, suas ligações secretas com a Rússia, a China, Cuba, onde se escondiam seus arsenais etc.

O juiz contestou o plano: Ora, não precisavam de mágica para conseguir aquilo.

Toda a sala se pôs à escuta. A palavra sábia da Justiça certamente conhecia poderes maiores do que os da Magia. Com um ou dois socos na boca do estômago...

Nenhuma palavra latina saiu dos lábios do juiz.

Interrompeu-o Emílio do Vale. Queria acrescentar algumas informações de ordem científica à explanação do amigo. E durante bom tempo falou do açoite, da marcação com ferro em brasa, do tronco, da golilha, dos “anjinhos”, do cavalete, do suplício da roda e da crucificação. Durante o III Reich desenvolvemos diversas...

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Raul Marinho se dizia conhecedor dos segredos da mente, das artes mágicas e outras antiguidades. E provava seus conhecimentos por isso mais aquilo, em palcos improvisados, para qualquer plateia. Ainda assim preferia o público de cidades, lugarejos e vielas próximas a Palma. Emílio não o via com bons olhos: Não passa de um espertalhão. Jurema completava: Um ilusionista de quinta categoria.

Convidado a demonstrar se realmente conseguia hipnotizar alguém, o mágico apresentou-se de fraque e cartola. Padre Gregório cruzou os braços diante do homem: Queremos ver para crer.

Raul se dispôs a pôr em prática seus conhecimentos, enquanto os dirigentes da entidade o crivavam de perguntas. Como Emílio: Possível também fazer uma lavagem cerebral?

O hipnotizador ou se fez de mal-entendido ou realmente não alcançou o significado da pergunta. E pediu mais clareza ao chefe do Movimento. Seria possível converter ao bom caminho os enganados, ludibriados, seduzidos pelos comunistas?

Outras e outras questões científicas surgiram: como interrogariam os vermelhos durante a hipnose, se alguém podia despertar quando se sentisse ofendido, se seria possível colher informações sigilosas do hipnotizado...
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A primeira mágica realizada por Raul deixou todos de boca aberta: o cigarro aceso entre os lábios do juiz apareceu entre os dedos do promotor. Emílio se impacientou. Queria ver logo a sessão de hipnotismo. O mágico encarou a pequena plateia: Quem se apresentava primeiro? O prefeito olhou para trás, Eunápio baixou a vista, Aniceto cochilou, Emílio cutucou o padre, o promotor cheirou os dedos, o juiz acendeu um cigarro, e nenhum outro se fez voluntário. Raul apontou para o padre: Venha cá o senhor.

Com dois ou três sussurros ao pé do ouvido, o vigário dormia profundamente e fazia tudo o que bem queria Raul. Coce a ponta do nariz, reverendo.
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Como as reuniões costumavam terminar pela meia-noite, após esta hora a cidade começou a se inquietar. Portas e janelas se abriam de mansinho, luzes se acendiam, cochichos zuniam. Mais uma hora, e escancaravam-se portas, iluminavam-se salas, falavam línguas sem peias. Desperta Palma, mulheres, rapazes e crianças iam e vinham pelas ruas, para cá e para lá. Uns procuravam a Casa Paroquial, outros a Delegacia, mais outros o Hospital.

Tudo em vão. A casa do padre fechada. O delegado não sabia de ninguém preso ou esfaqueado naquela noite. No hospital enfermeiras e pacientes dormiam. Para o tenente, os homens da cidade deviam estar na casa de Seu Emílio.

Hilda também andava preocupada, insone e impaciente, sem saber onde se metera o marido.

A Associação Comercial parecia mais escura e silenciosa do que o cemitério. Uma vizinha da entidade, alvoroçada diante do clamor popular, explicava: Aí não esteve ninguém hoje.

Na verdade, a reunião realizava-se aos fundos da Casa Paroquial, onde nunca acontecia nenhum encontro político do Movimento. Além disso, Raul Marinho conseguiu hipnotizar todos os presentes, tendo também dormido, até que o sol raiou de novo sobre Palma.

Naquela noite, como em muitas outras, Lucas não quis comparecer à reunião da entidade, alegando, mais uma vez, acúmulo de afazeres. A correspondência andava atrasada.

E se enfurnou em casa, depois de tomar um fogoso banho no riacho do quintal. Deu ordens à criada para o não importunar, trancou-se no quarto e debruçou-se sobre a escrivaninha. De manhã, como a porta continuasse fechada por dentro, a velha, preocupada, chamou por Lucas, bateu à porta, bateu mais, forçou a fechadura e conseguiu derrubar a chave. E pelo buraco viu o rapaz estirado ao chão. Desesperada, saiu à rua, aos gritos. Enquanto corria e chorava, alertava o povo para a nova desgraça: Luquinha parece que morreu, minha gente.

Fonte:
Nilto Maciel. Os Luzeiros do Mundo. Fortaleza/CE: Editora Códice, 2005.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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