Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Nilto Maciel (O Invisível Isaías)

Nunca vimos Isaías e muito menos o seu coelho. Um vizinho nosso nos disse: Isaías mora num sítio, cercado de galinhas, perus, porcos, cabras, bodes. Tenho muita vontade de falar com ele, conversar. Se isto não for possível, quero vê-lo. Imagino-o de barba branca, chapéu velho, mas bem cuidado, roupas limpas, sandálias ou alpercatas, um cajado. E, se não for assim, não vou me decepcionar. Papai anda aborrecido ultimamente. Talvez  porque Isaías não aparece. Perguntei-lhe se Isaías ainda será menino. Ele olhou para mim com espanto e saiu resmungando. Fiquei mais triste ainda porque Natália riu na minha cara, como se eu fosse um bobo ou papai não gostasse mais de mim.

            Quantos anos terá Isaías? Talvez já seja muito velho. Ou terá morrido? Se morreu, vou sentir saudades dele. Nunca mais poderei vê-lo. Ora, nunca o vi mesmo. Natália, você também vai sentir falta de Isaías? Não sei ainda. Vou esperar até amanhã. Se não sonhar com ele será porque não sinto falta dele. E se no sonho ele for um velho cheio de manias? Não vou querer mais saber dele. E se ele lhe der o coelho? Nesse caso serei capaz até de lhe dar um beijo na testa. Não faça isso; ele poderá se zangar. E nunca mais aparecer. Sonhei com ele muitas vezes. Num dos sonhos corria atrás do coelhinho. Subiam e desciam montes. Subiam as árvores, riam, rolavam no chão. Não havia galinhas nem outros animais por perto. E você falava com ele? Não, ele não me via. Então me empresta este seu sonho. Se eu entrar nele, vou fazer de tudo para ser visto por Isaías.

            Num sábado Carlos acordou cedo. Parecia espantado, a olhar para debaixo da cama, os cantos das paredes, o armário. Jeová tomava café ao lado de Lia. Pretendia passar o dia numa oficina para conserto de carros. O menino lavou o rosto, fez xixi e correu para o colo da mãe. O homem fez cara de zangado e sorveu mais um gole de café: Era uma vez um menino inexistente que queria ser gente. Passava o dia querendo falar, correr, brincar. Mas nada disso conseguia fazer. Porque não existia ou porque não era gente? Jeová fez gestos com as mãos, os lábios, os olhos e não conseguiu pronta resposta. Pai, eu existo ou me inventei? Lia sorriu e deu um beijo no garoto. Natália correu para o colo do pai. Coitado do Carlos, preocupado com Isaías que nem existia de verdade! Quem disse uma tolice tão grande, minha irmã? Isaías é um homem da bíblia. Natália se irritou: Não havia só um Isaías no mundo. O garoto riu. Isaías morava num sítio muito bonito, cheio de plantas, árvores, riachos, cachoeiras, pássaros. Não sei se mora com mulher e filhos. Talvez viva só desde menino. Os pais dele morreram há muito. Não gosta das cidades porque detesta barulho, carros, multidão. Nós não o vemos por isso. Se formos ao sítio dele, nós o veremos. E o menino inexistente, pai? Vivia querendo brincar de esconde-esconde com a irmã. Ele também queria ver Isaías? Queria, mas não podia. Por que ele não existia ou porque Isaías era invisível? Natália correu para o meio da sala: Queria ir à praia ver as ondas. Sentia-se cansada de tanto ouvir falar daquele Isaías invisível. Carlos propôs passeio mais salutar: Irem ao sítio de Isaías. O homem não podia. Precisava passar o dia na oficina. A mulher se sentia cansada. Nada de praia, nada de sítio. Melhor procurarem Isaías dentro de casa. Talvez no porão, no fundo do quintal, atrás das bananeiras. Os meninos se espantaram: moravam em prédio de apartamentos. Onde ficava o porão? Pois é lá que Isaías se esconde. Ele e o coelho. Sabiam o nome do coelho? Jeremias.

            Passamos o resto do dia em busca de Jeremias. Vasculhamos todos os armários, todas as caixas, todas as gavetas. Papai saiu para a oficina. Mamãe jogou ao cesto a revista Cães&Gatos e se debruçou diante da televisão. Eu e minha irmã nos perdemos dentro de casa. Aparece, Isaías, vem conversar conosco. E não esquece de trazer o coelho. Vamos brincar muito, os quatro. Aparece, pois eu sei que você está aqui. Fale comigo. Eu existo ou me inventei, Isaías? Você mora mesmo num sítio muito bonito, cheio de plantas, árvores, riachos, cachoeiras, pássaros? Quantos anos terá Isaías? Talvez já seja muito velho. Ou terá morrido? Papai anda aborrecido ultimamente. Talvez porque Isaías não aparece. Pois nunca vimos Isaías e muito menos o seu coelho.

Fonte:
MACIEL, Nilto. A leste da morte. Editora Bestiário, 2006.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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