quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 3

                                   texto por José Feldman

Soneto Italiano ou Petrarquiano (Camoniano em Portugal) 

Originado na Itália, popularizado por Francesco Petrarca e adotado na língua portuguesa por Luís Vaz de Camões, este é o formato clássico mais conhecido. 


Regras e Estrutura

Divisão: 
É composto por duas quadras (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos), totalizando 14 versos.

Métrica: 
Tradicionalmente usa versos decassílabos (dez sílabas poéticas).

Esquema de Rimas: 
Nas quadras, o esquema mais comum é o interpolado (ABBA ABBA), onde o primeiro verso rima com o quarto, e o segundo com o terceiro. Nos tercetos, o esquema de rimas é mais flexível, sendo comuns as combinações CDE CDE ou CDC DCD.

Volta (Virada): 
A mudança de uma ideia ou perspectiva (a "volta" dramática) ocorre tipicamente na transição dos quartetos para os tercetos, ou no início do primeiro terceto. 

Exemplo (Luís Vaz de Camões)

Esquema de rimas: ABBA ABBA CDE DCE.

Amor é fogo que arde sem se ver; (A)
É ferida que dói, e não se sente; (B)
É um contentamento descontente; (B)
É dor que desatina sem doer; (A)

É um não querer mais que bem querer; (A)
É um andar solitário entre a gente; (B)
É nunca contentar-se de contente; (B)
É um cuidar que ganha em se perder; (A)

É querer estar preso por vontade; (C)
É servir a quem vence, o vencedor; (D)
É ter com quem nos mata lealdade. (E)

Mas como causar pode seu favor (D)
Nos corações humanos tanto dor, (D)
Se de si mesmo o contentamento pode? (E)
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continua...

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

Os Sonetos - Parte 2

texto por José Feldman

Os sonetos clássicos são a base da tradição, aderindo a normas estritas de estrutura, métrica e rima, estabelecidas por mestres como Petrarca, Camões e Shakespeare. Eles floresceram do Renascimento ao Simbolismo.

Métrica Rígida: 
O uso predominante do decassílabo (dez sílabas poéticas, especialmente o heroico) ou, em menor grau, do dodecassílabo (doze sílabas ou alexandrino) é obrigatório. A contagem silábica segue regras precisas de escansão.

Estrutura Fixa: 
A divisão em 14 versos é mantida, geralmente no formato italiano (ABBA ABBA CDE CDE) ou inglês (ABAB CDCD EFEF GG).

Esquema de Rimas: 
As rimas são ricas, precisas e seguem os padrões definidos para cada tipo (interpoladas, emparelhadas, alternadas).

Temática: 
Foca em temas universais e elevados: amor idealizado, a passagem do tempo (carpe diem), a natureza, a moralidade e a reflexão filosófica.

Linguagem Elevada: 
Utiliza um vocabulário formal, erudito e poético, evitando coloquialismos.

Exemplo de Soneto Clássico (Olavo Bilac - Parnasianismo)
Este exemplo de Olavo Bilac, um dos maiores sonetistas brasileiros do Parnasianismo, demonstra o rigor formal:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo (A)
Perdeste o senso e eu não te entendo. (B)
Mas, para que do entendo assim desperto, (A)
Pois que da vida a mágoa me sustento? (B)

Trocando em sonhos a miséria e o pranto, (C)
Alinho em ouro a estrofe, e em seda o canto, (C)
E o amor, que a dor suaviza e que a alma acalma, (D)
O céu com astros, o deserto com palmas. (D)

Se a gente foge, a dor a gente alcança... (E)
Não foge, não, que o mal a gente cansa. (E)
E a vida, enfim, é a sombra de um anseio... (F)

Que, ao ouvir estrelas, a alma do poeta (G)
Guarda a impassibilidade, e a dor secreta (G)
Transforma em rima a lágrima do seio. (F)

Nota: O esquema de rimas acima é uma variação (ABAB CCDD EEF GGF), mas a rigidez métrica (decassílabos) e a estrutura fixa em quartetos e tercetos são mantidas.
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continua...

segunda-feira, 12 de janeiro de 2026

Guirlanda de Versos * 52 *

 

Os Sonetos

texto por José Feldman
ORIGENS DO SONETO

O soneto nasceu na Itália, mais precisamente na mente criativa de um poeta chamado Giacomo da Lentini, no século XIII. Nasceu o soneto, com suas 14 linhas que fazem qualquer um sentir a pressão de um exame de matemática!

Tipos de Sonetos

1. Soneto Clássico

Rima ABAB CDCD EFEF GG. 

É como um jogo de tabuleiro; você precisa seguir as regras. O clássico é excelente para os românticos e os que amam um bom drama. Pense em Shakespeare, que claramente sabia que as melhores tragédias vêm com rimas!

2. Soneto Italiano (ou Petrarquiano)

Aqui, temos a famosa divisão entre a oitava (ABBA ABBA) e a sextilha (CDECDE). 

É como uma conversa entre amigos que começa bem, mas acaba em desentendimento!

3. Soneto Inglês (ou Shakespeariano)

A estrutura é algo como ABAB CDCD EFEF GG, mas com um toque inglês, cheio de ironia e joguinhos de palavras. 

4. Soneto Moderno

Aqui, as coisas ficam mais soltas. Os poetas modernos podem quebrar as regras e até fazer um soneto de 11 linhas, se quiserem! É como se eles entrassem em um bar, olhassem para as longa e rígidas regras do soneto, e dissesse: "Hoje, vamos só divertir!"

Em resumo, o soneto é como aquele amigo que aparece em todas as festas: ele pode ser formal e polido, ou pode tirar a gravata e fazer piadas enquanto todos se perguntam: "Ele realmente está fazendo isso?" Seja qual for o tipo, o soneto sempre consegue encantar ou confundir (ou os dois) com seu charme e complexidade.
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continua:... 

Imagem criada por JFeldman com Microsoft Bing

A. A. de Assis (Irmão mundo)


Fico às vezes pensando que São Francisco de Assis poderia ter recebido, há 800 anos, o Nobel de Biologia. Ele foi provavelmente o primeiro a reconhecer que todos os seres somos parentes: Irmão Sol, Irmã Abelha, irmã Árvore, Irmão Passarinho... 

Tudo o que existe tem alguma coisa em comum. Esse é o mais fascinante de todos os mistérios. Até nas bactérias a ciência já encontrou vestígios de similitude com o ser humano. De certo modo, temos alguma afinidadezinha até mesmo com os minerais.

A natureza é obra do Amor; por isso, tudo nela é correto e bom. É ela que, em nome do Criador, estabelece e monitora as regras da vida. Uma dessas regras diz que nós, seres humanos, somos ao mesmo tempo beneficiários de tudo o que existe e prestadores de serviços a toda a Obra da Criação. Somos todos interdependentes.

Pelos serviços que nós,  seres humanos, recebemos uns dos outros,  pagamos uma remuneração monetária (salários, honorários, proventos etc.) ou retribuímos mediante a troca de favores. Pelos serviços que recebemos dos seres não humanos, pagamos na forma de cuidados. Por sermos portadores de um grau maior de inteligência, nossa responsabilidade é também maior, competindo-nos, portanto, o dever de zelar da melhor maneira possível pela natureza inteira.

Mas até que ponto podemos pôr os outros seres a nosso serviço? Até onde a consciência e o bom senso permitirem. Uti non abuti (use, não abuse). Podemos usar, sim, de tudo o que for necessário, todavia com moderação, respeito e amor.

Felizmente temos progredido bastante nesse campo, não só pelas novas leis de proteção ambiental, como principalmente pela maior conscientização das pessoas. Hoje pouca gente aceita ver animais servindo apenas como puxadores de carga, objetos de diversão, mercadoria de comércio. Menos ainda vê-los sofrendo chicotadas e outros maus-tratos. O tratamento digno e amoroso aos outros seres passou a ser um dos indicadores mais importantes quando se avalia o grau de civilização de um povo.    

No dia 4 de outubro, temos o dia de São Francisco de Assis. 

Se ele estivesse hoje entre nós, seria um incansável protetor dos animais. Seria um vigoroso apóstolo da natureza, pedindo aos povos que continuem prosperando, mas sujando menos o ar e as águas; que continuem produzindo alimentos, mas usando com mais prudência os agentes químicos; que continuem construindo o que for necessário, mas sacrificando menos os bosques e as florestas. 

Beijo-lhe as mãos, santinho querido. Mande uma bênção especial para o Irmão Mundo.     
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(Crônica publicada no Jornal do Povo – Maringá – 02.10.2025)

Fonte:
Facebook do autor

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Almanaque Poético Brasileiro vol. 1 (Disponível para baixar. em pdf)


São 212 páginas com 68 poetas vivos e falecidos, diversos gêneros poéticos, Você pode baixar no link acima. 


Os poetas que fazem parte deste primeiro volume:

1. A. A. de Assis (PR)
2. Ademar Macedo (RN) +
3. Amilton Maciel Monteiro (SP)
4. Antônio Juraci Siqueira (PA)
5. Antônio Manoel Abreu Sardenberg (RJ)
6. Aparecido Raimundo de Souza (ES)
7. Benedita Azevedo (RJ)
8. Benjúnior (SC)
9. Carlos Lúcio Gontijo (MG)
10. Carolina Ramos (SP)
11. Cecim Calixto (PR) +
12. Cecy Barbosa Campos (MG)
13. Daniel Maurício (PR)
14. Dinair Leite (PR)
15. Divenei Boseli (SP)
16. Dorothy Jansson Moretti (SP) +
17. Edy Soares (ES)
18. Elisa Alderani (SP)
19. Fabiano Wanderley (RN)
20.Filemon Martins (SP)
21. Francisco Miguel de Moura (PI)
22.Francisco Macedo (RN) +
23.Francisco José Pessoa (CE) +
24.Gérson César Souza (RS)
25. Gilson Faustino Maia (RJ)
26.Gislaine Canales (RS) +
27.Graça Graúna (RN)
28.Hegel Pontes (MG) +
29.Hermoclydes S. Franco (RJ) +
30.Ialmar Pio Schneider (RS)
31. Jaime Vieira (PR)
32.Janske Schlenker (PR)
33.Jérson Brito (RO)
34.Jessé F. Nascimento (RJ)
35. João Batista Xavier Oliveira (SP) +
36.José Feldman (PR)
37.José Lucas de Barros (RN) +
38.Laércio Borsatto (SP)
39.Lairton Trovão de Andrade (PR)
40.Lino Vitti (SP) +
41. Luciano Dídimo (CE)
42.Lucília A. T. Decarli (PR)
43.Luiz Damo (RS)
44.Luiz Eduardo Caminha (SC) +
45. Luiz Poeta (RJ)
46.Maria Nascimento (RJ)
47.Miguel Russowsky (SC) +
48.Milton S. Souza (RS) +
49.Nilto Maciel (CE) +
50. Ógui Lourenço Mauri (SP)
51. Olivaldo Júnior (SP)
52. Paulo R.O. Caruso (RJ)
53. Paulo Vinheiro (SP)
54. Paulo Walbach (PR) +
55. Pedro Du Bois (SC) +
56. Professor Garcia (RN)
57. Rita Mourão (SP)
58. Roberto P. Acruche (RJ)
59. Sammis Reachers (RJ)
60.Silmar Bohrer (SC)
61. Sílvia Araújo Motta (MG)
62.Sílviah Carvalho (AM)
63.Solange Colombara (SP)
64.Sônia Sobreira (RJ)
65. Therezinha D. Brisolla (SP)
66.Vanda F. Queiróz (PR)
67.Vanice Zimerman (PR)
68.Vivaldo Terres (SC)

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

José Feldman (As Sombras da Solidão)

(a crônica abaixo, infelizmente, são fatos comuns hoje em dia, alguns elementos a mais fazem parte desta história, mas boa parte deles são componentes do cotidiano de muitos outros idosos)

Seu nome é Lúcio, um homem que aos 71 anos de idade, vive sozinho em uma pequena casa no interior do Paraná. Para muitos, sua vida pode parecer simples ou até mesmo pacata. Mas, para ele, cada dia é uma batalha silenciosa contra a solidão. Durante mais de uma década, sua única companheira tem sido Sol, uma cadela, que, com seu olhar amoroso e sua presença constante, é a única luz nesta escuridão.

Dezembro chega com a sua fanfarra de luzes cintilantes e sorrisos forjados, uma estação de rádio que só toca a melodia da sua solidão. A proximidade das festas de final de ano não traz alegria; traz uma maré crescente de desânimo e uma depressão silenciosa que se senta com ele à mesa de jantar vazia. Uma onda de melancolia toma conta. É uma época em que todos parecem se reunir; os sorrisos, as luzes, os abraços calorosos. Mas ali, dentro das quatro paredes de sua casa, a realidade é bem diferente. As ruas decoradas e cheias de vida contrastam bruscamente com o vazio do seu lar. Seus familiares, que vivem longe em outro estado, nunca vêm para o visitar. Suas desculpas são sempre as mesmas: “Não posso agora; estou ocupado”, “O trânsito é terrível nessa época”, “É muito longe”. A verdade, que ele já conhece, é que não há espaço para ele na vida deles.

Desde a morte de sua mãe, sete anos atrás, sentiu como se um pano escuro tivesse sido puxado sobre sua existência. Ela era seu porto seguro, a única que o entendia sem precisar de palavras. Com a sua partida, um pedaço dele se foi, e com ele, a conexão com o resto da família. Ele só queria um toque humano, uma palavra amiga, alguém que dissesse que se importava. Mas, em vez disso, o eco do silêncio se tornou seu único familiar.

O casamento com Clara não sobreviveu ao peso das expectativas e dos sonhos desfeitos. Quando conversava com ela, sentia o abismo entre eles, maior que qualquer distância física. Ela fala com um tom sereno, mas em suas palavras há uma nota de superioridade que o fere, quase como se ele fosse um projeto inacabado em comparação aos seus sucessos. Por Lúcio não ter um diploma universitário, a seus olhos era apenas um homem que fracassou em vários aspectos da vida. Ela tem o seu diploma universitário, a sua carreira, a sua vida estruturada, e não perde a oportunidade de lhe fazer sentir a sua falta de instrução. As conversas são um exercício de paciência; ela fala sobre as conquistas e seu trabalho, e ele escuta, tentando encontrar sua voz entre as lembranças que a cercam. Em dias como esses, a saudade se mistura com um profundo desânimo. É uma dança estranha: enquanto ela compartilha sua vida, ele é um espectador, preso em polaroides de um passado que não consegue mudar. Apesar disso, se mantém conectados, a sua conexão distante com o resto do mundo. Neste momento, ela é a ponte que liga seu presente ao passado, embora ele saiba que essa ponte balança sob o peso de suas frustrações.

Sol, por outro lado, não se importa com diplomas ou conquistas. Para ela, ele é suficiente. Quando olha nos olhos dela, percebe que, apesar da dor e da solidão, é amado de uma maneira pura e verdadeira. Ela não sabe das cicatrizes que ele carrega, dos fantasmas que habitam a sombra de sua vida. Para ela, não importa se o Natal não terá presentes, árvores decoradas ou ceias fartas. O que importa é estarem juntos, no calor do seu pequeno lar, onde ele faz o melhor que pode para garantir que ela se sinta amada tanto quanto ele sente.

Refletindo sobre todos esses anos, recorda de um tempo em que também foi pai. Sua filha, que não viveu o suficiente para conhecer o mundo, deixou uma cicatriz que nunca se apagará. Ela foi brutalmente levada dele com apenas alguns meses de vida, O destino, porém, tinha planos cruéis. A sua menina, a sua preciosa filha, foi-lhe tirada de forma brutal, assassinada com apenas alguns meses de vida. Suas esperanças, sonhos e anseios se desfizeram em um instante, como se um vendaval tivesse passado e levado tudo que ele mais amava. A dor foi insuportável. A mãe da menina, a mulher que ele amava, afundou na escuridão da sua própria dor. A perda dela foi o último golpe, e ela decidiu que não queria mais viver, preferindo a escuridão eterna à dor insuportável da realidade. Enquanto a via partir, entendeu que a vida era feita de uma montanha-russa de alegrias e tristezas, mas ele parecia viver só a parte mais pesada da queda, deixando-o num desespero que ainda hoje molda o seu ser. Esse capítulo da sua vida é uma ferida que nunca cicatriza, um lembrete constante da fragilidade da felicidade.

Agora, aqui está, um homem de 71 anos que vive cercado por sombras do passado. À medida que o Natal se aproxima, as memórias se tornam mais intensas: o cheiro da comida que sua mãe preparava, os cafés à tarde, as brincadeiras que ecoavam pela casa, o calor dos abraços de sua esposa. Essas lembranças são tanto o seu consolo quanto a sua condenação. O tempo não apagou a dor, ele apenas a tornou parte de quem é.

Nesta véspera de Natal, enquanto Sol se aconchega ao seu lado no sofá, sente a solidão se instalar ao seu redor. Neste momento, não tem presentes para dar. Não há árvores cheias de enfeites, nem laços coloridos. Passarão as festas juntos, no silêncio da sua casa, observando o mundo lá fora celebrar uma união que não lhes pertence. Ao invés disso, o que há é a promessa de mais um dia juntos, uma certeza que, apesar de tudo, traz um leve sorriso aos seus lábios. Ao olhar pela janela, as luzes piscantes da cidade não lhe atraem mais. Em vez de lembrar do que perdeu, sente uma alegria ainda que transitória de estar com seu amor maior, sua cadela Sol.

Percebe que, mesmo sem a presença da família, tem Sol, sua única família presente, verdadeira, que sempre estará ao seu lado, com seu amor incondicional. Ela é a única razão pela qual ainda levanta da cama todos os dias. Ela é o seu raio de sol que lhe aquece as manhãs.

Eles, na certa, se aconchegarão em um canto do sofá, com um filme antigo na televisão e o coração esperançoso, mesmo que ligeiramente quebrado. Porque a vida, com todas as suas durezas, ainda tem seus pequenos momentos de alegria. E enquanto Sol estiver ali, ele não estará completamente sozinho.

Ah, como gostaria de viver por um momento, a festa que tanto anseia. Mas o que ele tem é uma xícara de chá e a alegria simples que Sol traz para os seus dias.

Afinal, Lúcio e Sol são uma dupla imbatível, navegando em mares de solidão. E quando der meia-noite na certa ficarão deitados lado a lado como dois seres que se amam muito e esperando o sono os levar a um mundo de sonhos, de felicidade, de amor, de amizade, de espíritos livres.

No final, o que mais poderia desejar além disso? Um amor simples, uma amizade leal, e a esperança de que um dia, as sombras do passado possam dar lugar a dias mais iluminados. Para ele, isso deve ser suficiente.

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JOSÉ FELDMAN, poeta, trovador, escritor, professor e gestor cultural. Formado  em patologia clínica trabalhou por mais de uma década no Hospital das Clínicas de São Paulo. Foi enxadrista, professor, diretor, juiz e organizador de torneios de xadrez a nível nacional durante 24 anos; como diretor cultural organizou apresentações musicais e oficina de trovas. Morou 40 anos na capital de São Paulo, onde nasceu, ao casar-se mudou para o Paraná, radicando-se em Maringá/PR. Consultor educacional junto a alunos e professores do Paraná e São Paulo. Pertence à Confraria Luso-Brasileira de Trovadores (SP), Academia Rotary de Letras, Artes e Cultura (SP), Academia Movimento União Cultural (SP), Academia Virtual Brasileira de Trovadores (RJ), Confraria Brasileira de Letras (PR), Academia de Letras de Teófilo Otoni (MG), Academia de Letras Brasil-Suiça (em Berna), Casa do Poeta "Lampião de Gaz" (SP),, Ordem dos Cavaleiros Templários, Ordem Sagrada do Templo e do Graal. Possui os blogs Singrando Horizontes desde 2007, Voo da Gralha Azul (com trovas de trovadores vivos e falecidos). Assina seus escritos por Floresta/PR. Dezenas de premiações em crônicas, contos, poesias e trovas no Brasil e exterior.
Publicações: 
Publicados: “Labirintos da vida” (crônicas e contos); “Peripécias de um Jornalista de Fofocas & outros contos” (humor); “35 trovadores em Preto & Branco” (análises); “Canteiro de trovas”.
Em andamento: “Pérgola de textos”, "Chafariz de Trovas", “Caleidoscópio da Vida” (textos sobre trovas), “Asas da poesia”, "Reescrevendo o mundo: Vozes femininas e a construção de novas narrativas", "Almanaque Poético Brasileiro vol. 1".

Fonte: José Feldman. Caleidoscópio da Vida. Biblioteca Voo da Gralha Azul, 2025.
Imagem obtida com Microsoft Bing

domingo, 21 de dezembro de 2025

Asas da Poesia * 144 *


Poema de
DJALMA PASSOS
Boca do Acre/AC 1923 – 1989, Rio de Janeiro/RJ

Procedência

Venho do mundo dos desiludidos,
De onde a vida se tornou amarga e inconcebível,
De onde a tristeza estendeu suas asas negras
Como um pássaro agoureiro e cruel
Sobre os homens e as cousas...
Venho de um submundo abandonado
Onde não há Deus nem manhãs de sol,
Nem noites de luar nem dias sem crepúsculos,
Onde tudo vaga sem destino,
Sem finalidade e sem conforto...
Trago na garganta o gemido dos aflitos,
No peito a tortura dos injustiçados
E no olhar a mensagem dos eternamente perdidos...

É por isso que a minha alma tem essa vontade estranha
De pairar acima do infinito
E de viver no fundo dos abismos...
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Soneto de
CECÍLIA UGALDE
Rio Branco/AC

Urgência de você

Tenho fome de tua boca, da tua pele,
De sentir no meu corpo tua ousada mão
Ando com fastio de outros alimentos
Já não me sustenta o sagrado pão.

Estou faminta do teu sorriso inebriante,
Dos teus cabelos feitos de raios de sol
Caminho pelas ruas como um vigilante
Farejando o som distinto dos teus pés.

Busco teus traços na manhã que chega
Quero me alimentar da tua mente atrevida,
Da tua fúria no meu corpo confidente e solto

Quero respirar o sabor que me adoça a vida
Vestir o segredo do teu corpo soberbo e nu
Até saciar a fome que existe em mim.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
EDMILSON FIGUEIREDO
Xapuri/AC

Bicicleta

Da primeira bicicleta
tive medo,
era enorme para mim.
Maior que o mundo,
não alcançava a sela.
Mas foi com ela
que percorri a rua,
dobrei esquina,
rompi fronteira,
senti o vento,
a sombra do sol...
Na chuva,
cheguei nas nuvens.
                Visitei estrelas,
                pus os pés no céu,
só porque
venci o medo!
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Trova Popular

Essas meninas de agora,
todas querem se casar;
põe a panela no fogo,
e não sabem cozinhar.
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Soneto de
DALMIR FERREIRA
Rio Branco/AC

Soneto

Um soneto como qualquer poema
Pouco representa para um ouvido
Que sem a sensibilidade ao tema,
Não é de separara música de ruído.

A indiferença que pro saber acena
Insensível a mente do ser instruído
Sempre incorrerá na terrível pena
De não discernir a fala de um latido

Qualquer arte, só entrará em cena,
Quando em pé, liberto do grunhido,
Capaz de fala, de decifrar o fonema,

O homem, já sapiens tenha banido,
Dele a fera ou a tenha feito amena,
E em si um espírito haja reconhecido.
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Trova do
LUIZ POETA
(Luiz Gilberto de Barros)
Rio de Janeiro/RJ

Bem no centro da moldura,
tua foto me sorria;
nunca vi tanta ternura
numa só fotografia.
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Poema de
GLÓRIA PEREZ
Rio Branco/AC

Limbo

nem sabia o nome dela
Gostei dos seus olhos vagos
das bobagens que fazia
pensando que impressionava

       um dia assim de repente
sorriu com jeito de amante
eu o beijei como amada
pediu com fome de um dia
lhe dei com a de toda a vida

       ele ficou mais calado
e tem andado arredio
coma medo que eu me apaixone
e venha a lhe criar caso

       é tão menino, tão verde
nada sabe da paixão
— apenas me rói entranhas
sem tocar no coração
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
RICARDO CAMACHO
Rio de Janeiro/RJ

Destemido 

Nada há que me machuque ou que me vença,
Que me enclausure num caixote preto,
Que me proíba de fazer soneto
Ou que me faça sucumbir à crença

De ser um mal a perfeição pretensa,
Muito maior que o fútil e obsoleto...
Portanto, nestes versos, pois, prometo
Não desistir da evolução intensa!

Sou eu o autor do próprio desempenho,
Eu organizo as letras... vou e venho
Feito um soldado da arte nas estradas...

Concedo ao meu leitor o acolhimento,
Tirando-o da tristura ao dar o alento
Na porta das saudáveis madrugadas!
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Poema de
HELOY DE CASTRO
Rio Branco/AC

Ah... você calou meu canto,
vestiu de pranto o meu olhar,
eu era o mundo a lhe abraçar
um peito amigo a quem buscar
minha saudade é ímpar
meu organismo é meio
meu complemento é você...
seu lindo corpo é arma
meu ego me desarmou,
vai amante, fica amada
na luta sou perdedor
você, amor precoce
você, questão de sexo...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Soneto de
GILLIARD SANTOS
Fortaleza/CE

Ampulheta

A areia ali se move lentamente
Neste artefato frágil e incolor...
E em sua ação mecânica e silente,
Vai alcançando o bojo inferior.

Os grãos de areia nunca irão se opor
À lei da gravidade contundente...
Transcorrem, exercendo seu labor,
Cumprindo sua sina, tão somente.

Naquele artigo que hoje adorna a sala
A areia nunca volta, nunca entala
E vai, por ele, sendo consumida.

O tempo, em categórica faceta,
Trabalha assim, conforme essa ampulheta,
Levando, pouco a pouco, nossa vida.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
JOÃO PAULO SALES DA SILVA
Rio Branco/AC

Sinceridade e paixão

Mesmo parecendo ilusão
O que eu sinto é paixão
Deixaria tudo por você

O que quiseres de mim te darei
O que pedir para mim eu farei

Sinto ciúmes porque te amo
Suas beldades, seu jeito
Tudo em você é perfeito
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Trova de
A. A. DE ASSIS
Maringá/PR

Aos bons sonhos agradeço, 
mas às insônias também... 
– Ah, quantos versos eu teço 
enquanto o sono não vem! 
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Galope à Beira-mar de
JOSÉ LUCAS DE BARROS
Serra Negra do Norte/RN, 1934 – 2015, Natal/RN

Eu fiz bons estudos à luz da candeia,
andei muitas léguas com os pés no chinelo,
fiz carros de tábuas batendo martelo
e cintos de couro torcendo correia;
enchi as veredas de açudes de areia,
sonhando que um dia pudesse pescar
com redes de linhas que voam no ar
ou grandes tarrafas jogadas no rio,
até que enfrentasse maior desafio
em cima de um barco nas águas do mar.
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Hino de 
Campos do Jordão/SP

Campos do Jordão
Maravilha da minha terra
Campos do Jordão
Joia do Alto da Serra
Campos do Jordão
Obra suprema do divino mestre
Que fez de ti um paraíso terrestre!

Entre as matas verdejantes
E os pinheirais gigantes
Correm rios murmurantes
Sob o céu primaveril
És o meu rincão paulista
O encanto do turista
E o orgulho do Brasil!

Campos do Jordão
Maravilha da minha terra
Campos do Jordão
Joia do alto da serra
Campos do Jordão
Obra suprema do Divino Mestre
Que fez de ti um paraíso terrestre!

Há no alvor das floradas
Poesias imortais
E no tempo das geadas
Lindas manhãs hibernais
Pôs em ti a natureza
Reuniu tanta beleza
Que ninguém esquece mais!
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Poema de
NAYLOR GEORGE
Rio Branco/AC 1956 – 2019

Atração Fatal

Não foi um beijo no sol
Que me fez arder na lua
E te amava andando numa rua
Onde não morava o ódio

Nem foram teus olhos de fera
Me fotografando inteiro
Nem os gestos verdadeiros
Que habitam os vultos raros

Foi o teu esgar, teu gemido de fera, teu cheiro moreno
Exalando ao vento norte
Tangendo as sombras da morte
Trazendo de volta o sossego...
= = = = = = = = = = = = = = = = = = = =  = 

Fábula em Versos de
JEAN DE LA FONTAINE
Château-Thierry/França, 1621 – 1695, Paris/França

O velho, o rapaz e o burro

O mundo ralha de tudo,
Tenha ou não tenha razão,
Quero contar uma história
Em prova desta asserção.

Partia um velho campônio
Do seu monte ao povoado;
Levava um neto que tinha,
No seu burrinho montado.

Encontra uns homens que dizem:
«Olha aquela que tal é!
Montado o rapaz, que é forte,
E o velho trôpego a pé!

— Tapemos a boca ao mundo,
O velho disse: — rapaz,
Desce do burro, que eu monto,
E vem caminhando atrás.»

Monta-se, mas dizer ouve.
«Que patetice tão rata!
O tamanhão, de burrinho,
E o pobre pequeno à pata!

— Eu me apeio, diz, prudente,
O velho de boa fé;
Vá o burro sem carrego,
E vamos ambos a pé.»

Apeiam-se, e outros lhes dizem:
«Toleirões, calcando a lama!
De que lhes serve o burrinho?
Dormem com ele na cama?

— Rapaz, diz o bom do velho,
Se de irmos a pé murmuram,
Ambos no burro montemos,
A ver se ainda nos censuram.»

Montam, mas ouvem de um lado:
«Apeiem-se, almas de breu,
Querem matar o burrinho?
Aposto que não é seu!

— Vamos ao chão, diz o velho,
Já não sei que hei de fazer!
O mundo está de tal sorte,
Que se não pode entender.

É mau se monto no burro,
Se o rapaz monta, mau é;
Se ambos montamos, é mau,
E é mau se vamos a pé!

De tudo me têm ralhado;
Agora que mais me resta?
Peguemos no burro às costas,
Façamos ainda mais esta!

Pegam no burro; o bom velho
Pelas mãos o ergue do chão,
Pega-lhe o rapaz nas pernas,
E assim caminhando vão.

«Olhem dois loucos varridos!
Ouvem com grande sussurro, —
Fazendo mundo às avessas,
Tornados burros do burro!»

O velho então para, e exclama:
«Do que observo me confundo!
Por mais que a gente se mate,
Nunca tapa a boca ao mundo.

Rapaz, vamos como dantes,
Sirvam-nos estas lições:
É mais que tolo quem dá
Ao mundo satisfações.»
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