quarta-feira, 16 de setembro de 2026

Vanice Zimerman (Premiada no Vladimir Devidé Haiku Award 2026)

George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira, da APB-PR, figura entre os segundos colocados, recebem menção no concurso que reuniu 237 poetas de 40 países e mantém viva a ponte cultural construída em torno do haicai.

O Brasil voltou a ocupar espaço no circuito internacional do haicai. George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira estão entre os autores reconhecidos na edição de 2026 do International “Vladimir Devidé” Haiku Award, concurso que reuniu 237 poetas de 40 países. O resultado foi definido pelo júri formado por Tomislav Maretić, Boris Nazansky e Drago Štambuk e divulgado em 22 de agosto, data que marca a morte de Vladimir Devidé. O Brasil teve 19 participantes, atrás apenas da Croácia, dos Estados Unidos e da Índia em número de concorrentes.

O prêmio leva o nome de Vladimir Devidé, matemático, japanólogo, tradutor e poeta croata que se tornou um dos responsáveis pela difusão do haicai e da cultura japonesa na Europa. A trajetória da premiação nasceu associada ao trabalho de Drago Štambuk e Joseph Haldane e ao ambiente institucional da The International Academic Forum — IAFOR, que registra o prêmio como aberto a haicais inéditos escritos em inglês, sem estabelecer preferência entre a forma tradicional e as experiências modernas do gênero. A própria IAFOR relaciona à história da iniciativa o apoio da Haiku International Association, do Haiku UNESCO Promotion Council e da The Haiku Foundation.

Em 2026, a chamada internacional foi divulgada também pela The Haiku Foundation como a décima edição do International Vladimir Devidé Haiku Award. Cada participante poderia enviar um haiku em inglês, e os resultados seriam anunciados justamente em 22 de agosto. A divulgação oficial da edição ficou a cargo do Društvo hrvatskih književnika — Sociedade dos Escritores Croatas, instituição que publicou a relação dos premiados e informou que os trabalhos escolhidos seriam reunidos em edição própria.

George Goldberg, ligado ao Haikai Zen, aparece no grupo dos runners-up, correspondente à segunda faixa de premiação. Seu haicai trabalha a chegada de uma folha seca e a passagem por um cemitério — chamado, no poema, pela expressão inglesa “God’s Acre”. Em três versos, o movimento mínimo da folha desloca o leitor para uma percepção de finitude:

arrives suddenly
one more dry leaf
through God’s Acre

O poema faz aquilo que o haicai exige quando levado à sua economia maior: não explica a morte, não discorre sobre o tempo e não transforma a imagem em discurso. Apenas coloca a folha, o movimento e o espaço diante do leitor. A leitura nasce do intervalo entre essas três informações. George Goldberg foi relacionado oficialmente entre os autores da segunda premiação do concurso.

Vanice Zimerman Ferreira, integrante da Academia Poética Brasileira — Seccional Paraná, recebeu reconhecimento na categoria Commended. Seu poema parte de outra paisagem e de outra temporalidade:

in the morning light - 
the sunflower seeds
freshly planted

Há luz, sementes e um ato recém-concluído. Não existe no texto a necessidade de anunciar esperança ou futuro; a própria semente plantada realiza essa função sem que o poema a nomeie. Essa capacidade de retirar a explicação e conservar a imagem está no centro de parte importante da tradição do haicai: dizer menos para ampliar o campo de percepção de quem lê. O júri incluiu o texto de Vanice entre os trabalhos reconhecidos da edição de 2026.

No caso de Vanice, a premiação também encontra continuidade em um percurso dedicado ao haicai. Nascida em Curitiba, formada em Letras Português/Inglês, escritora e artista plástica, ela participa há anos de antologias e concursos ligados ao gênero, inclusive na Croácia. Em entrevista publicada em 2024, relatou que seu processo de escrita frequentemente começa na observação de folhas, gotas d’água, insetos, imagens, cores e alterações de luz — elementos que ajudam a compreender a origem de muitos de seus poemas. Em junho de 2026, a própria autora registrava participação em antologias croatas desde 2015.

Há ainda um dado que reforça a continuidade desse trabalho. Poucas semanas antes do resultado internacional, Vanice obteve primeiro lugar, na categoria adulto estadual de flora, no 10º Concurso de Haicai de Toledo — Kenzo Takemori 2026, com 

“silente manhã — 
jacarandá florido 
tinge a janela”. 

Não se trata, portanto, de uma aparição isolada em concursos: existe produção, participação, leitura, exercício de forma e circulação do haicai.

E é exatamente nesse ponto que cabe o elogio da Academia Poética Brasileira à sua integrante. Vanice Zimerman chegou a um júri de outro país levando três versos e uma cena: luz da manhã, sementes de girassol, terra recém-plantada. O júri respondeu incluindo seu nome entre os autores reconhecidos. Para a APB-PR, esse resultado representa trabalho transformado em presença brasileira fora das fronteiras do país. Não é necessário acrescentar qualificativos ao fato. A premiação já contém a medida do reconhecimento.

A presença simultânea de George Goldberg e Vanice Zimerman Ferreira entre os escolhidos de 2026 também chama atenção para a inserção do haicai produzido no Brasil em uma tradição que há mais de um século encontrou leitores e praticantes no país. Num concurso em que 40 nacionalidades se encontraram por meio de poemas de três versos, dois brasileiros atravessaram o processo de seleção. George com a folha seca que chega ao território dos mortos; Vanice com sementes de girassol lançadas à terra sob a luz da manhã. Entre aquilo que cai e aquilo que acaba de ser plantado, o Brasil terminou a edição de 2026 representado por duas imagens que cabem em poucas palavras — justamente onde o haicai começa.
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Vanice Zimerman (1962)
VANICE ZIMERMAN FERREIRA (que assina artisticamente como Vanice Zimerman) é uma poetisa, haicaísta, artista plástica, fotógrafa e ilustradora brasileira. Nascida em Curitiba/PR, em 1962, ela se consolidou na capital paranaense — onde reside e trabalha — como uma das principais referências contemporâneas no diálogo entre a poesia de matriz japonesa (o haicai) e as artes visuais. A carreira de Vanice Zimerman une umbilicalmente as Letras e as Artes Visuais. Graduou-se em Letras (Habilitação em Português e Inglês) pela Faculdade Machado de Assis (FAMA), concluindo o curso em 2010. Também estudou Artes Visuais na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP). Atua como escritora, artista plástica e educadora. Desenvolve um trabalho dinâmico ministrando oficinas de haicais e técnicas de aquarela, integrando a sensibilidade poética à expressão visual e às texturas das tintas (frequentemente usando elementos orgânicos como café, vinho e chás em suas telas). 
Embora escreva poesia desde os 13 anos de idade, sua inserção formal no mercado editorial e em concursos teve início a partir de 2007. Sua marca registrada é a dedicação ao haicai clássico — poema conciso de três versos focado no momento presente e na natureza. Ela pertence à Academia Poética Brasileira (APB) (onde é membra acadêmica ativa) ; Centro de Letras do Paraná (CLP) ; International Writers and Artists Association (IWA), entre outras.
Dona de uma produção literária vasta, ela possui textos espalhados em mais de 115 livros entre coletâneas, antologias nacionais e internacionais, e-books e revistas culturais. Destacam-se A Lâmpada e as Estrelas (Coletânea de Haicais, 2012) ; Poemas & Imagens (2013); Samoborski Haiku Susreti / Samobor Haiku Meeting (Antologias internacionais publicadas na Croácia, nas quais participa consecutivamente); Kabocha (Antologia internacional, 2016); Atuação como prefaciadora e capista de materiais didáticos sobre o gênero, como o manual O Passo a Passo do Haicai.
Premiada em concursos internacionais de haicai na Croácia (como as seleções de Kabocha em 2016 e as premiações em Ludbreg. Medalha Monteiro Lobato (2015): Distinção por seu papel na disseminação cultural. A relevância de Vanice reside sobretudo em sua atuação como divulgadora e mestra da vertente do haicai no Brasil. Ela é uma das vozes que mantém viva e descentralizada a tradição do poema curto de origem japonesa no Sul do país, demonstrando que a concisão poética (de apenas 17 sílabas) pode capturar a imensidão do cotidiano. Além disso, sua importância se expande através do conceito de Haiga (a união clássica entre a pintura e o haicai). Ao unir suas fotografias e aquarelas aos seus escritos, ela constrói pontes raras entre a literatura e as artes plásticas, educando novas gerações de escritores por meio de suas oficinas práticas.

Fontes:
Plataforma Nacional do Facetubes'Card' internacional, 
Por: Mhario Lincoln. 24/08/2026 – Editoria-Geral da Plataforma Nacional do Facetubes
https://www.facetubes.com.br/noticia/8115/dois-brasileiros-colocam-o-brasil-entre-os-laureados-do-vladimir-devide-haiku-award-2026
Biografia = Singrando Horizontes, Recanto das Letras, Facetubes, Kakinet, Clube de Autores, etc.

Nilto Maciel (Anedota Medieval)

As núpcias do arquiduque Filipe e da duquesa Isabel ensejaram dias e dias de festa no castelo. Instituiu-se até uma nova ordem – a do Velocino Dourado. Afinal, o senhor tornava-se mais poderoso. A moça trouxera algumas cidades como dote.

Passada a lua-de-mel, Dom Filipe anunciou a primeira separação. Devia participar de uma cruzada. Nas longínquas terras dos infiéis.

Perdida no imenso castelo, cercada de condes, duques, marqueses, viscondes, barões – Isabel estaria por demais exposta ao pecado. E, na ausência de Filipe, quem a velaria? Quem a defenderia? Quem a vigiaria? Ora, um guarda. Sim, um bom e robusto vigia. Um eunuco.

E Platão se instalou no castelo, para defender, velar e vigiar a duquesa.

Longe do marido, Isabel sofria. Para onde ia, também ia o eunuco.

A beleza da senhora aturdia Platão. Dias e noites a mirá-la. No entanto, ela mal olhava para ele. Além de plebeu, eunuco. A solidão, porém, aproximou um do outro. Conversavam e até riam. Ela fazia perguntas, ele contava episódios de sua vida. Não gostava do próprio nome. Muito menos de filosofia. Se pudesse, se chamava Plutão. Adorava mitologia.

Cada vez mais aturdido, o eunuco não continha palavras para satisfazer a curiosidade de Isabel. Servira no serralho do palácio do sultão Abu Talib, em Constantinopla. Guardava as esposas e concubinas do grão-senhor. Beldades fascinantes. Nenhuma, porém, mais formosa que ela, Isabel.

E descrevia cada centímetro do harém.

De Dom Filipe nem notícias. As batalhas se sucediam nas terras dos mouros e os mensageiros falavam apenas de morte e destruição.

Insensível às dores do mundo, Platão só vivia para adorar Isabel. E morria de paixão. Amor impossível. Verdadeiramente platônico. Ora, ela casada e nobre, e ele um pobre eunuco. Não, jamais poderia possuí-la.

Cada vez mais triste, Platão descuidava-se de vigiar Isabel. Refugiava-se em seu quarto. Chorava, imaginava fugir, esquecer aquele amor absurdo. Matar-se, talvez.

Desesperado, decidiu revelar seus sentimentos à duquesa. Qual, porém, não foi sua surpresa! Ela também o amava.

Longe, muito longe do castelo, os cruzados do arquiduque enfrentavam as cimitarras sarracenas. E matavam e morriam com fé, mas sem amor.

Apaixonados, Platão e Isabel ora riam, ora choravam. Riam porque amavam. Choravam ante a deformidade dele.

Noites e noites se passaram. E mais o amor dos dois se exacerbou. Porém, como consumá-lo?

Platão se rendeu de novo à tristeza. Passava horas e horas trancado em seu quarto, longe de Isabel. Um desgraçado! Melhor morrer.

Teve então um sonho. O Dr. Hipócrates, após complicada cirurgia, tornava-o um homem como outro qualquer.

Embora médico competente, o tal Hipócrates tinha suas fraquezas humanas. Assim, só aceitava um tipo de pagamento pelo seu trabalho: Platão se encarregaria da morte imediata de Filipe. Se a cruzada durasse muito tempo, o eunuco partiria para o oriente. E ele, Hipócrates, desposaria a viúva.

Ora, o cirurgião guardava o segredo de sua técnica. Nenhum outro médico no mundo conseguira ainda realizar, com êxito, aquele tipo de implante.

Platão não aceitou de pronto a proposta. Teria de cometer um homicídio. Além disso, D. Filipe era um nobre. A vingança viria sem detença e cruel. Talvez mesmo antes do crime. Pois guerreiro, cruzado, emérito espadachim.

No entanto, para que viver, se não passava de um eunuco? Melhor selar o acordo com Hipócrates.

E partiu para as terras mouriscas.

Ao regressar, já a notícia da morte de Filipe parecia uma antiguidade. E os guardas não o deixaram transpor o portão. O arquiduque Hipócrates não gostava de cruzadas e nunca se ausentava do castelo. Isabel não carecia de eunucos.

D. Filipe, no entanto, deixara um testamento. O arquiducado passaria às mãos de quem contraísse novas núpcias com a duquesa e mantivesse Platão como “eunuco de Isabel, por toda sua vida”.

Embora caviloso, o médico acatava leis e cumpria contratos. E aceitou conversar com seu comparsa. Se o testamento garantisse a este o direito de vigiar Isabel, só restava a ele, Hipócrates, partir em defesa do cristianismo ameaçado.

E leu e releu as últimas vontades do falecido Filipe XX, o Aspado. Não havia dúvida: Platão não poderia mais exercer vigilância sobre a duquesa. Ora, deixara de ser eunuco.

Assim, porém, não pensava Platão. O testamento dizia claramente que ele seria eunuco (guardião) de Isabel “por toda sua vida”.

Por toda a vida de quem? De Platão ou de Isabel?

No calor da discussão, os dois acabaram sem razão. Enfureceram-se. De ofensas verbais passaram a agressões físicas.

Finda a luta, os corpos jaziam em poças de sangue.
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        O escritor e pesquisador NILTO MACIEL nasceu em Baturité (CE) em 1945 e faleceu em Fortaleza (CE) em 2014, aos 69 anos. Ele consolidou uma trajetória marcante na ficção e na edição cultural do Brasil. Na cidade natal passou a infância e fez os primeiros estudos. Mudou-se para Fortaleza (CE) na adolescência para estudar e iniciar sua vida pública e literária. Residiu em Brasília (DF) de 1977 a 2002 por razões de trabalho. Retornou à Fortaleza nos seus últimos anos de vida, residindo no bairro Monte Castelo até o seu falecimento. Formou-se em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Atuou no serviço público federal ocupando cargos administrativos de destaque em Brasília Serviu na Câmara dos Deputados, no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDF). Co-fundou em Fortaleza a revista vanguardista O Saco (1976), que agitou a cena literária cearense. Editou e dirigiu por 16 anos a prestigiada revista Literatura (1992 a 2008) em Brasília, divulgando novos autores nacionais. Traduziu e escreveu contos e poemas publicados internacionalmente em esperanto, espanhol, italiano e francês. Viu seu conto O Cabra que Virou Bode ser adaptado para o cinema em 1993 pelo cineasta Clébio Ribeiro. Membro associado da Associação Nacional de Escritores (ANE) em Brasília, Apesar de sua imensa relevância e trânsito na Academia Cearense de Letras (ACL), atuou nela como forte colaborador de suas revistas e ensaísta, sem ocupar cadeira efetiva de imortal.
Prêmio Brasília de Literatura (1990) pelo livro A Última Noite de Helena; Prêmio Cruz e Sousa (Santa Catarina) pelo romance A Rosa Gótica; Prêmio Graciliano Ramos (Alagoas) pela obra Os Luzeiros do Mundo; Prêmio da Fundação Cultural de Fortaleza. Nilto Maciel publicou dezenas de obras entre romances, novelas, crônicas e contos. Algumas de suas obras incluem: Itinerário (1974) – Contos; Tempos de Mula Preta (1981) – Contos; Estaca Zero (1987) – Romance; Os Guerreiros de Monte-Mor (2008) – Romance; Pescoço de Girafa na Poeira (2006) – Contos; Menos vivi do que fiei palavras (2012) – Seus cadernos de diários e críticas literárias.
É considerado um pilar da literatura de resistência e da difusão cultural da segunda metade do século XX. Sua importância reside em três vertentes fundamentais:
1. Voz de Liderança e Agregação: Ele atuou como um grande elo entre diferentes gerações de escritores brasileiros de 1970 até a década de 2010. Suas revistas serviram de vitrine descentralizada, quebrando o monopólio editorial do eixo Rio-São Paulo.
2. Estilo Prosaico Rigoroso: Possuía um domínio técnico incomum que transitava pelo trágico, cômico, fantástico e reflexivo com a mesma fluidez. Sua prosa capturava com crueza e lirismo a fragilidade psicológica do ser humano.
3. Internacionalização e Pesquisa: Ao escrever também em esperanto e divulgar ativamente a ficção nacional no exterior, abriu caminhos para que a literatura nordestina contemporânea dialogasse diretamente com o mercado europeu e hispânico.

“Nilto possui esta capacidade de fazer com que nossas almas percorram desde um estado de profunda tristeza ao de êxtase. Não é apenas um escritor, são muitos escritores dentro de um só. A cada conto terminado, aflora o anseio pelo próximo. Aonde Nilto nos conduzirá agora? Cada conto é um conto, que faz com que nossa imaginação nos leve às vezes a adentrar dentro dele e participar, deixando que nos levemos pelo seu encanto, pela sua linguagem simples e deliciosa.” (José Feldman, em Nilto Maciel o mago das almas, 18/12/2010)

Fonte:
Nilto Maciel. Itinerário: contos. Fortaleza, CE: Ed. do Autor, 1974. Livro enviado pelo autor.
Biografia = Wikipedia, Jornal de Poesia, Literatura Sem Fronteiras, UFSC, Academia Cearense de Letras, Jornal Opção, etc.

Carlos Eduardo Novaes (Volta às aulas)

(Um retorno cada vez mais caro)

Juvenal Ouriço olhou o cartaz da porta: ”Escolinha A Toca da Raposa”. Entrou, sentou-se e alisando seus vastos bigodes ficou aguardando diminuir o movimento da secretaria. Quando a última mãe de aluno retirou-se, Juvenal levantou-se e dirigiu-se à secretária:

- Por obséquio, eu desejava fazer uma matrícula.

- Pois não - disse a moça, apanhando uma ficha de matrícula - como é o nome de seu filho?

- Não. Não é para o meu filho.

- Não? Pra quem é então? Seu sobrinho?

- Não senhora. É pra mim mesmo.

- O senhor? Mas aqui nós só temos maternal, jardim, alfabetização, essas coisas. É uma escolinha de primeiro grau.

- Eu sei - respondeu Juvenal muito sério - eu vim me matricular no jardim de infância.

Meio assustada a moça perguntou se Juvenal tinha o certificado de transferência de outra escola. Como Juvenal dissesse que sua última transferência em escola primária foi em 1948, a professora afirmou que seria preciso fazer um teste ”para saber em qual jardim colocá-lo”. Distraída, preenchendo  a ficha indagou: ”Tem mais de seis anos?”

- Seis anos o quê? - perguntou Juvenal. - De casado? De formado?

A professora apressou-se em dizer que a pergunta era mera formalidade porque ”de acordo com a lei, se o senhor tiver mais de seis anos de idade já poderá ser alfabetizado”.

Juvenal declarou que não estava interessado em ser alfabetizado. Ficou decidido então que iria para o terceiro grau do jardim de infância. A moça pediu-lhe os documentos: certificado de nascimento, atestado de vacina antivariólica, atestado audiométrico e três retratos três por quatro.

- Retrato recente? - perguntou Juvenal - ou de quando eu tinha cinco anos?

A professora informou o preço da anuidade, deu o modelo do uniforme e forneceu a relação do material escolar.

Juvenal leu com atenção a longa lista e observou:

- Esse material aqui é até pro dia do vestibular?

- Não, senhor.  É só para esse ano. O senhor vai querer ônibus?

- Não, obrigado - respondeu Juvenal - eu tenho carro.

Juvenal saiu e enquanto se dirigia ao banco para levantar um empréstimo que lhe permitisse fazer as compras que a escola pedia, pensou que se John Kennedy fosse vivo certamente  diria que ”o preço da educação é o eterno endividamento”.

Na papelaria, depois de brigar mais do que no dia em que foi atrás dos ingressos para o desfile das escolas de samba, Juvenal finalmente conseguiu comprar tudo. Na saída, porém, não aguentou com o peso do embrulho. Teve que chamar um carregador, desses que trabalham no Galeão, mas que no período que antecede a volta às aulas fazem bico na porta de papelarias. Já na casa de uniformes, Juvenal só teve dificuldades em arranjar uma calça curta e um avental  para seu tamanho. Ao seu lado, uma senhora pedia o uniforme da escola Gruta do Leão.

- A   senhora -  perguntou  o vendedor  -  quer completo?

- É sim - disse ela - completo, com camisa, calça, gravata, meias e os sapatos. Quanto é?

- Quatrocentos cruzeiros.

- Quatrocentos cruzeiros? - gritou ela, remexendo o dinheiro na bolsa.

- Então me dá só as meias.

- Tudo um absurdo - exclamou ela - o custo de vida está pela hora da morte.

- É verdade - completou Juvenal - e o custo das aulas está pela hora do recreio.

No primeiro dia de aula lá estava Juvenal Ouriço no fim da fila (era o mais alto da turma) entrando na sala de avental e merendeira. Assustou-se um pouco com o tamanho das mesas e cadeiras: a sala, como toda sala de jardim, mais parecia um quarto de bonecas. Seus coleguinhas foram se sentando e Juvenal permaneceu de pé à procura de um lugar.

– “Tia Lúcia”, disse, ”será que não tem uma cadeira um pouquinho  maior para mim?”

Tia Lúcia respondeu que na sala não havia privilégios e mandou Juvenal sentar-se junto com Fabinho, Beto e Mariana para a aula de pintura. Muito educado Juvenal puxou a cadeirinha, pediu licença e arrumou-se como pôde. Mal sentou-se Mariana correu e se agarrou na saia de tia Lúcia.

- Estou com medo, titia - disse - ele parece o Lobo Mau com aquelas pernas cabeludas e aqueles pés enormes.

- Não tenha medo - procurou acalmá-la tia Lúcia - ele é seu coleguinha.

Mariana, porém, não quis voltar e tia Lúcia foi obrigada a deslocar Rodrigo para a mesa de Juvenal que ficou formada  só por garotos:

- É melhor assim - ponderou Juvenal já inteiramente desinibido - assim a gente pode falar palavrão à vontade. Que é que nós vamos fazer?

- Agora é a aula de pintura - disse Fabinho.

- Ora Fabinho deixa essa aula pra lá - disse Juvenal puxando um baralho do bolso e embaralhando-o - vamos jogar alguma coisa. Que é que vocês sabem jogar?

- Burro em pé.

- Não. Burro em pé também é demais. Que tal um pôquer?

Depois veio a hora da rodinha científica. Tia Lúcia ficava no meio da sala contando histórias e os garotos se punham à vontade para ouvi-la.

- Tia Lúcia - pediu a palavra Juvenal - qual é a história que a senhora vai contar hoje?

- A da Branca de Neve.

- Não. Pelo amor de Deus, a da Branca de Neve não - gritou Fabinho, que é um garoto muito inteligente - já está muito manjada.

- É sim, está muito manjada - completou Juvenal solidário ao coleguinha. - Não dá pra contar uma historinha  da Cassandra Rios?

Tia Lúcia ficou ruborizada com a sugestão de Juvenal. Resolveu deixar a rodinha para mais tarde e iniciar a aula de música. Botou um disco na vitrolinha e enquanto procurava  outros, agachada de costas para a sala, sentiu alguém bater-lhe no ombro:

- Vamos dançar, tia Lúcia?

Era Juvenal.

Tia Lúcia já estava perdendo a paciência. Ralhou com Juvenal e disse que se ele continuasse se comportando mal iria falar com a orientadora pedagógica para chamar seus pais à escola. Juvenal abaixou a cabeça e prometeu se comportar  direitinho. E realmente não deu mais uma palavra.

Na hora da merenda, inclusive, enquanto os outros alunos tomavam seu café com leite, pão e manteiga, refrigerante, doce, biscoito, Juvenal recolheu-se a um canto e sem perturbar ninguém, traçou o maior galeto regado a uma cervejinha.

Juvenal passou o resto do dia tendo uma conduta exemplar.  Terminadas as aulas despediu-se dos coleguinhas e quando ia saindo, tia Lúcia interceptou-o:

– Você não pode sair sozinho.

- E por que não?

- Os alunos do jardim só podem sair com um responsável.

- Mas eu já sou responsável. Não preciso de outro.

- Claro que precisa. É do regulamento. Para evitar o rapto.

- E a senhora acha que alguém vai querer me apanhar no meio da rua?

- É evidente que vai - disse tia Lúcia observando seu uniforme, o avental e a merendeira - principalmente o Pinei.

Juvenal sentou-se emburrado no degrau da escada e indagou:

– E, agora, como é que eu saio?

Tia Lúcia sugeriu que ele chamasse a mãe.

– Minha mãe está muito velhinha.

Então chame a sua mulher.

– Minha mulher está trabalhando. A empregada serve?

Servia. Então, ligou para casa:

- Alô Maria? Aqui é o doutor Ouriço. Eu quero que você dê um pulinho aqui na escola para me buscar. Como? As crianças? Não interessa as crianças, isto é uma ordem, Maria: venha me buscar! - E bateu o telefone.

Aguardando a chegada da empregada junto com Juvenal,  tia Lúcia não conseguiu esconder sua curiosidade e perguntou:

–  O que o senhor está fazendo aqui na escola? O senhor já não sabe de tudo isso?

- Sei, mas meus filhos não sabem.

- E o senhor tem filhos?

- Tenho, cinco, pequenos.

- E por que não os coloca na escola?

- Porque eu teria que abrir falência.  Achei que seria melhor assim: ao invés de mandá-los, eu venho e à noite quando chego em casa conto pra eles tudo o que aprendi.

- E dá resultado?

- Pode não dar. Mas sai muito mais barato.
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    Carlos Eduardo Novaes (1940)
    O escritor, jornalista e dramaturgo CARLOS EDUARDO DE AGOSTINI NOVAES é amplamente reconhecido como um dos maiores cronistas contemporâneos do Brasil. Ele se destacou por usar o humor refinado, a ironia e a sátira política para retratar e criticar o cotidiano caótico das grandes metrópoles e a sociedade brasileira. nasceu em 1940, no Rio de Janeiro/RJ. Embora seja carioca nato, mudou-se em 1958 para Salvador/BA, onde viveu por dez anos. Em 1969, retornou em definitivo para o Rio de Janeiro, onde fixou residência e desenvolveu a maior parte de sua carreira profissional. Durante sua estadia em Salvador, formou-se em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) em 1965. Antes de viver da escrita, exerceu atividades variadas, trabalhando como agente rodoviário, proprietário de uma empresa de dedetização e sócio de uma fábrica de sorvetes. Atuou intensamente no jornalismo, iniciando sua carreira no jornal carioca Última Hora. Teve uma consagrada passagem de 17 anos pelo tradicional Jornal do Brasil (JB), onde começou cobrindo prognósticos bem-humorados da Loteria Esportiva e tornou-se um dos cronistas principais da casa. Na gestão pública, ocupou o cargo de Secretário de Cultura da cidade do Rio de Janeiro (1991). Foi presidente da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (SBAT).
Sua entrada na literatura deu-se de forma orgânica por meio de suas crônicas diárias na imprensa escrita nas décadas de 1970 e 1980. Ao dividir espaço com nomes consagrados do Caderno B do Jornal do Brasil, como Carlos Drummond de Andrade, firmou sua identidade autoral focada no humor urbano. Não pertence à Academia Brasileira de Letras (ABL) e seguiu sua trajetória focada no mercado editorial e nas produções teatrais e televisivas. Embora não possua uma galeria de grandes prêmios acadêmicos tradicionais, o autor alcançou o que muitos consideram o maior prêmio literário: o sucesso massivo de público, figurando frequentemente nas listas de bestsellers nacionais nas décadas de 1970, 1980 e 1990, além de ter textos adotados em exames de vestibulares e até em aulas de português no exterior (como na Universidade de Línguas de Pequim).
Com mais de 40 livros publicados, transitou pelo conto, crônica, romance e literatura infantojuvenil. Seus títulos de maior destaque são: O Caos Nosso de Cada Dia (1974) – Seu livro de estreia, que reuniu crônicas de sucesso; A Próxima Novela (1977) – Sátira ao vício dos brasileiros por telenovelas; O Menino sem Imaginação (1991) – Um de seus maiores sucessos infanto-juvenis, criticando o impacto excessivo da televisão na mente das crianças; Capitalismo para Principiantes (1995) – Livro didático e bem-humorado; Crônicas, taokey?: Retratos 3x4 do Governo do Capitão (2021) – Um de seus lançamentos recentes focados na sátira política moderna.
A relevância de Carlos Eduardo Novaes está em seu papel como renovador e popularizador da crônica jornalística e urbana no Brasil. Herdeiro do estilo humorístico de Stanislaw Ponte Preta e Luis Fernando Verissimo, ele conseguiu traduzir as crises econômicas, a burocracia, a transição política e os absurdos cotidianos do Brasil da Ditadura à redemocratização sob uma ótica extremamente cômica, acessível e inteligente. Ele estendeu pontes importantes entre a literatura e o público jovem com suas obras para escolas, mostrando que a leitura crítica do país pode andar de mãos dadas com o riso.

Fontes:
Carlos Eduardo Novaes. Juvenal Ouriço Repórter. RJ: Nórdica, 1977.
Biografia = Quadrinhopedia, Museu da TV, Arte Cult, Livraria Travessa, Wikipedia. Literatura Brasileira (UFSC), etc.

Nilcéia Albuquerque França (Versos Diversos)


TROVAS DIVERSAS

A Trova é meu grande afã,
e dela não abro mão!
Faz-me fada e até vilã,
muda até o coração!
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O dia a dia vai indo,
como a chuva na torrente.
e o Rei Sol já vai sumindo,
surgindo a Lua fulgente!
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Naquela tarde risonha,
te conheci, meu amor!
Creio que, comigo, sonhas.
inda sentes meu frescor!
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Ser humano é ser mutável.
Um dia é fruto; outro, grão;
Às vezes, admirável;
Outras, só complicação!
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Um menino, mui sapeca,
tentava a raia empinar,
bebendo, numa caneca,
pôs-se o leite a derramar!
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BUSCA

Rumávamos a não sei onde,
Dentro de uma roda viva
Hoje estamos em busca
De algo qu’inda não sabemos!

Refletir, refletir, refletir...
Tentando apanhar um sentido,
Aqui, lá e acolá,
De algo qu’inda não sabemos!?

E buscando, chegamos a Deus, o Infinito
E a descoberta, incerta,
De algo qu’inda não sabemos!?

Aspiramos à serenidade,
À sabedoria, ao Amor
De algo qu’inda não sabemos!
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 ESPERANÇA

Menina bonita,
alegre e faceira
na rua, saltita,
tu és companheira!

A Terra ilumina
Com sua inocência,
És forte, menina,
Iluminescência!

E nesta vida incerta,
alento nasce pra nós,
o futuro é iminente.

A humanidade desperta,
E escuta a tua voz,
Sendo mais diligente!
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O CAVALO

Dentre toda a natureza,
O cavalo é o mais legal;
Grandes olhos, macieza,
servidor sempre leal!

Cargas sempre a carregar,
Olhos grandes, mas tranquilos;
A andar ou a trotear,
Alivia o teu destino!

Seja adulto ou criança,
todos querem cavalgar;
todos tem a esperança,
de, um dia, a vir montar!
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O MALABARISTA

Um dia, um malabarista,
Tentava se equilibrar,
pois estava numa pista ...
que se iniciava a inclinar!?!

Na mesa ele se apoiava
Mas, em vão mão se continha.
De escorregar não parava,
Que até levou a vizinha!
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O POETA

O Poeta brinca e sonha;
vive só a perscrutar;
ser humano a amar,
Deixa a vida bem risonha!

Poeta muda o bisonho,
pois ele o quer transformar;
e a Beleza desnudar,
e a isto não me oponho!

O Poeta é uma essência,
desvendando mil mistérios,
falando de humanidade!

Revelando as consciências,
eis que surge revertério,
eis a universalidade!
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A escritora, poeta e professora paranaense NILCÉIA ALBUQUERQUE FRANÇA é uma destacada defensora da língua portuguesa, atuando ativamente em academias de letras no Sul do país e promovendo a integração entre a linguística teórica e a expressão poética. Nasceu em Ponta Grossa/PR, graduou-se em Letras (Português/Inglês). Concluiu o Mestrado em Letras/Linguística pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) em 1995. Atua fortemente como professora universitária e pesquisadora na área de Linguística Textual. Concentra suas pesquisas em temas essenciais para a pedagogia nacional: o ensino da escrita, o incentivo à leitura, a análise de narrativas e a educação voltada para deficientes visuais. Além da atuação literária e educacional, possui faceta artística como artista plástica.
Sua expressão artística transita de forma híbrida entre o rigor acadêmico da análise textual e o lirismo livre da poesia e do conto. Ela integra dezenas de associações intelectuais de relevo no país. Pertence ao renomado Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Paraná (IHGPR), à Associação Jornalística de Escritoras do Brasil (AJEB-PR), ao Centro de Letras do Paraná (CLPR). É associada à Federação Brasileira das Ciências, Letras e Artes (FEBACLA), à Academia Intercontinental de Artistas e Poetas (AIAP) e ao Núcleo Italiano das Ciências, Letras e Artes sediado em Roma, Itália. Membro efetivo do Projeto Amizade Poética, ocupando de forma perpétua a cadeira de número 40. Seus prêmios decorrem das comendas, títulos honoríficos e medalhas concedidos pelas federações e academias às quais está filiada (como a FEBACLA) pelo seu notório saber linguístico e por sua valiosa dedicação à docência e à difusão da poesia lusófona.
Embora possua produções autorais e artigos no ambiente da Linguística acadêmica, o grande marco da sua carreira literária dá-se por sua constante presença como coautora em antologias e coletâneas de prestígio internacional, tais como:* Internacional Sonata Poética da Liberdade (2021) – Edição bilíngue lançada em português e inglês; Isabel, a Princesa das Camélias (2021); A Árvore da Vida (2022).
A contribuição de Nilcéia Albuquerque França para o cenário cultural brasileiro reside em sua capacidade de unir a ciência da linguagem (Linguística) com a beleza da arte literária. Em um país que carece de metodologias inclusivas, seus estudos voltados à educação e à alfabetização de deficientes visuais expandem o alcance social da literatura. Além disso, sua voz poética e sua atuação em prol de academias paranaenses e internacionais fortalecem o intercâmbio de ideias e mantêm viva a tradição da poesia escrita de forma técnica, mas visceral.

Fontes:
João Israel da Silva Azevedo (org.). Superação: poemas, poesias e crônicas. Esperantinópolis, MA: Clube de Autores, 2020. (e-book)
Biografia = Amizade Poética, Escavador, Ás Editorial.

Washington Daniel Gorosito Pérez (O escritor mexicano Villoro e o outro, em uma ilha deserta)

O escritor e jornalista mexicano Juan Villoro, membro do El Colegio Nacional, referiu-se em sua série de palestras nessa instituição, intitulada "O desafio do outro: náufragos, exilados e migrantes na literatura", à ilha deserta na literatura como espaço de aventura, mas também de condenação: "No México tivemos prisões em ilhas e José Revueltas escreveu um romance sobre a prisão em que estava, nas Ilhas Marías, e este romance se chama Os muros de água. A ilha tem sido um espaço de desejo, um possível paraíso, um espaço de salvação para um náufrago, mas também tem sido um espaço de condenação."

Mas se existe uma ilha fundamental para o naufrágio, disse Villoro é a de Daniel Defoe, onde seu personagem Robinson Crusoé viveu por 28 anos, a mesma que o escritor francês Michel Tournier recriou no século XX em seu romance Fridays ou Os limbos do Pacífico. Após detalhar a vida de fracassos de Defoe, explicou que, assim como seu personagem Robinson Crusoé, "ele era um homem cheio de ambição; Defoe era pretensioso, usava uma peruca como se pertencesse à aristocracia, usava uma espada por pura elegância."

Sempre lutando para sobreviver, Defoe escreve Robinson Crusoé que, para Villoro, "é a história de um grande arrependimento, porque ele vai para o mar desobedecendo aos pais e cai em um naufrágio, e podemos dizer que esse naufrágio é uma espécie de batismo que o reconverte. Ele chega à ilha, tem que agradecer, batiza a ilha como Esperança, como uma das três virtudes teologais, e diz: 'Tenho que agradecer por estar vivo, e minha forma de dar graças, e aqui entra a ética protestante, é trabalhar. O trabalho é o que vai me redimir.'"

Além do fato de que, na história, a ilha deserta é uma tábula rasa que permite começar do zero: Robinson Crusoé "foi um livro muito direto que falava sobre problemas muito específicos de como sobreviver, mas o público adorava, que se sentia representado, entendia que havia alguém que falava sua língua".

Inspirado pelo naufrágio do marinheiro Alexander Selkirk, outro personagem aparece na obra de Defoe, um aborígene que ele batiza com o nome de Sexta-Feira e, "embora estejamos lidando com uma história no efeito de um senhor e um servo, uma história assimétrica de dominação, com o tempo Robinson Crusoé começa a ficar curioso, e uma dose de respeito pelos aborígenes que estão lá."

Ao longo dos anos, Juan Villoro recordou, Robinson Crusoé tornou-se "um personagem que já é equivalente a um mito; assim como muitos autores abordaram o tema de Fausto ou Don Juan, há muitos que abordaram o tema de Robinson Crusoé até o século XX, por exemplo, A Ilha de Cimento, de Ballard, o grande autor inglês de ficção científica. A Ilha, de Aldous Huxley, lhe deve muito. A Invenção de Morel, por Adolfo Bioy Casares".

A lista vai tão longe quanto Michel Tournier e seu Sexta-feira ou Os Limbos do Pacífico, onde "o que ele vai fazer é uma antropologia do outro; Ele muda a equação entre o náufrago branco e o aborígene e vai criar um romance profundamente diferente, algo muito difícil porque tem o precedente de uma das maiores obras que atravessou os leitores de forma muito bem-sucedida desde o século XVIII."

Tournier, também filósofo, descreve um Robinson Crusoé ambicioso e desequilibrado que, ao contrário de Defoe, que "administra sua ilha", cai em depressão e até é abandonado pelo cachorro com o qual naufraga. Crusoé, de Tournier, é salvo pelo tempo e preparado para a chegada de alguém radicalmente diferente dele: Sexta-Feira, um aborígene que ele transforma em servo e que maltrata repetidas vezes, apesar de seu humor festivo e alegre.

Durante os 28 anos em que Robinson, interpretado por Tournier, também permanece na ilha, abusos contra Sexta-Feira acontecem repetidas vezes, mas, ao contrário de Defoe, o náufrago do francês reconsidera e reflete repetidamente até ver o outro, Sexta-Feira, como "um poeta, um inventor, uma personagem maravilhosa. É exatamente isso que Sexta-feira no Náufrago alcança: que ele se torna espiritualmente alguém diferente e pode aspirar a ser poeta ou inventor ele mesmo."

"Visto de longe e com a mentalidade da antropologia do outro, Sexta-Feira ou Os Limbos do Pacífico também é uma educação para entender nossa própria sociedade; os valores que Robinson aprende com Sexta-Feira podem ser valores desta sociedade. Daniel Defoe escreve um romance no qual um náufrago busca preservar seus valores em extrema solidão, ele está enraizado no passado. Nesse sentido, é um romance conservador: para se salvar, não para se desumanizar, precisa preservar sua tradição, o que é. O que Tournier faz de forma incrível, por outro lado, é que ele escreve um romance voltado para o futuro."

Villoro recordou uma palestra de Tournier na qual refletiu que a verdadeira dedicatória de seu romance era aos trabalhadores estrangeiros na França. "Ele diz: 'Existem milhões de pessoas que vieram dos confins do mundo para que possamos viver melhor, e são pessoas que não vemos, são pessoas anônimas. Tentei, neste romance, dar um rosto e uma vida àquele Sexta-Feira que é aquele que nos permite comer, que limpa nossa casa, que nos sustenta, que nos ajuda, que dirige o carro, o taxista, todas as pessoas que nos permitem viver: os imigrantes.'"

Graças a essas duas versões literárias do naufrágio, Villoro disse: "vemos a descoberta de um ser diferente, a quem podemos temer, mas que também é alguém que tem muito a nos ensinar. Quando uma pegada aparece em uma ilha deserta que não é nossa, isso pode nos assustar, pode nos assustar, mas vimos aqui que essa também é uma oportunidade extraordinária de aprendizado porque o outro, o diferente, é necessariamente o que alimenta a si próprio.”
(tradução do espanhol por José Feldman)
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O escritor, sociólogo e jornalista WASHINGTON DANIEL GOROSITO PÉREZ é uma voz de grande relevância na literatura hispano-americana contemporânea. Nascido no Uruguai e naturalizado mexicano, sua produção artística e intelectual conecta com maestria a sensibilidade poética às reflexões críticas sobre a política internacional, a educação e os problemas sociais. Nasceu em 1961, na cidade de Montevidéu, no Uruguai. Viveu sua juventude no Uruguai. Desde 1991, mudou-se para o México, fixando residência na cidade de Irapuato, no estado de Guanajuato. Tornou-se oficialmente cidadão mexicano naturalizado em 1999. Iniciou sua trajetória acadêmica no Uruguai, graduando-se em Jornalismo aplicado aos Meios de Comunicação Social. No México, consolidou uma sólida carreira acadêmica nas Ciências Humanas: licenciou-se e obteve o título de Mestre em Sociologia da Educação, tornando-se também doutorando em Pedagogia. Atua há décadas como catedrático universitário, pesquisador e conferencista. É um jornalista ativo de opinião, sendo o autor da célebre coluna internacional “Encuentro con Gorosito”, publicada em diversos veículos de comunicação das Américas e da Europa. 
Sua inserção no mundo das letras é marcada por uma produção híbrida, dividida entre o rigor dos ensaios acadêmicos e o lirismo da poesia existencial e urbana. Possui forte vínculo com instituições intelectuais no território mexicano, participando ativamente de saraus, congressos e núcleos de escritores associados à Academia Nacional e Internacional de Poesía (como os núcleos de San Luis Potosí e da Cidade do México), além de ser colaborador frequente de coletivos de vanguarda e revistas culturais independentes. Ao longo de sua estrada literária, acumulou um expressivo reconhecimento em certames de prosa e poesia pela América Latina. Ele recebeu 2 prêmios provinciais, 5 prêmios nacionais e 14 prêmios internacionais de literatura. Suas produções também foram selecionadas para integrar mais de 16 antologias internacionais de poesia e contos.
Entre livros individuais, ensaios de sociologia e participações em antologias poéticas de prestígio, destacam-se: Una biblioteca sin libros (2022); Relatos de tradiciones (2022); Tras las huellas de Ana Neumann (2023); Trazos poéticos 3 (2023) – Obra comemorativa do Dia Mundial da Arte; Sombras del Aire, antología 2023 – Coletânea poética de grande repercussão em Guanajuato; Urbana – Livro comemorativo celebrando sua produção de crônicas e versos.
A relevância de Gorosito Pérez reside em sua condição de escritor de fronteiras e de fusão cultural. Como um legítimo representante da literatura da diáspora e do exílio voluntário, ele transporta a melancolia rioplatense (típica do Uruguai) para a vibrante e mística realidade do interior mexicano. Sua bagagem como sociólogo confere à sua poesia uma profundidade ímpar, na qual o lirismo nunca se desliga das dores do homem comum, da passagem do tempo e das desigualdades sociais. Além disso, seu papel como educador e colunista internacional constrói pontes fundamentais de integração cultural dentro do continente americano, mantendo a palavra escrita como uma ferramenta viva de resistência e conscientização política.

Fontes:
Sumar Literomania nr. 410-411 (21.07.2026)
https://www.litero-mania.com/el-escritor-mexicano-villoro-y-el-otro-en-una-isla-desierta/
Biografia = Literomania, Revista Mimeografo, Sombra del Aire, Revista Innombrable, El Sol de Irapuato, Espacio Latino, etc.

Luís da Câmara Cascudo (Cobra Norato)

No paranã* do Cachoeiri, entre o Amazonas e o Trombetas, nasceram Honorato e sua irmã Maria, Maria Caninana.

A mãe sentiu-se grávida quando se banhava no rio Claro. Os filhos eram gêmeos e vieram ao mundo na forma de duas serpentes escuras.
 
A tapuia batizou-os com os nomes cristãos de Honorato e Maria. E sacudiu-os nas águas do Paranã porque não podiam viver em terra.

Criaram-se livremente, revirando ao sol os dorsos negros, mergulhando nas marolas e bufando de alegria selvagem. O povo chamava-os: Cobra Norato e Maria Caninana.

Cobra Norato era forte e bom. Nunca fez mal a ninguém. Vez por outra vinha visitar a tapuia velha, no tejupar* do Cachoeiri. Nadava para a margem esperando a noite.

Quando apareciam as estrelas e o aracuã* deixava de cantar, Honorato saía da água, arrastando o corpo enorme pela areia que rangia. Vinha coleando, subindo até a barranca. Sacudia-se todo, brilhando as escamas na luz das estrelas. E deixava o couro monstruoso da cobra, erguendo-se um rapaz bonito, todo de branco. Ia cear e dormir no tejupar materno. O corpo da cobra ficava estirado junto do paranã*. Pela madrugada, antes do último cantar do galo, Honorato descia a barranca, metia-se dentro da cobra que estava imóvel. Sacudia-se. E a cobra, viva e feia, remergulhava nas águas do paranã.

Voltava a ser a Cobra Norato.

Salvou muita gente de morrer afogada. Direitou montarias e venceu peixes grandes e ferozes. Por causa dele a piraíba* do rio Trombetas abandonou a região, depois de uma luta de três dias e três noites.

Maria Caninana era violenta e má. Alagava as embarcações, matava os náufragos, atacava os mariscadores que pescavam, feria os peixes pequenos. Nunca procurou a velha tapuia que morava no tejupar do Cachoeiri.

No porto da Cidade de Óbidos, no Pará, vive uma serpente encantadora, dormindo, escondida na terra, com a cabeça debaixo do altar da Senhora Sant'Ana, na Igreja que é da mãe de Nossa Senhora.

A cauda está no fundo do rio. Se a serpente acordar, a Igreja cairá. Maria Caninana mordeu a serpente para ver a Igreja cair. A serpente não acordou mas se mexeu. A terra rachou, desde o mercado até a Matriz de Óbidos.

Cobra Norato matou Maria Caninana porque ela era violenta e má. E ficou sozinho, nadando nos igarapés, nos rios, no silêncio dos paranãs.

Quando havia putirão* de farinha, dabacuri* de frutas nas povoações plantadas à beira-rio, Cobra Norato desencantava, na hora em que os aracuãs deixam de cantar, e subia, todo de branco, para dançar e ver as moças, conversar com os rapazes, agradar os velhos.

Todo mundo ficava contente. Depois, ouviam o rumor da cobra mergulhando. Era madrugada e Cobra Norato ia cumprir seu destino.

Uma vez por ano Cobra Norato convidava um amigo para desencantá-lo. Amigo ou amiga. Podia ir na beira do paranã, encontrar a cobra dormindo como morta, boca aberta, dentes finos, riscando de prata o escuro da noite: sacudir na boca aberta três pingos de leite de mulher e dar uma cutilada com ferro virgem na cabeça da cobra, estirada no areião.

Cobra fecharia a boca e a ferida daria três gotas de sangue. Honorato ficava só homem, para o resto da vida. O corpo da cobra seria queimado. Não fazia mal. Bastava que alguém tivesse coragem.

Muita gente, com pena de Honorato, foi, com aço virgem e frasquinho de leite de mulher, ver a cobra dormindo no barranco. Era tão grande e tão feia que, dormindo como morta, assombrava. A velha tapuia do Cachoeiri, ela mesma, foi e teve medo. Cobra Honorato continuou nadando e assobiando nas águas grandes, do Amazonas ao Trombetas, indo e vindo, como um desesperado sem remissão.

Num putirão famoso, Cobra Norato nadou pelo rio Tocantins, subindo para Cametá. Deixou o corpo na beira do rio e foi dançar, beber, conversar. Fez amizade com um soldado e pediu que o desencantasse. O soldado foi, com o vidrinho de leite e um machado que não cortara pau, aço virgem. Viu a cobra estirada, dormindo como morta. Boca aberta. Sacudiu três pingos de leite entre os dentes. Desceu o machado, com Vontade, no cocuruto da cabeça. O sangue marejou. A cobra sacudiu-se e parou.

Honorato deu um suspiro de descanso. Veio ajudar a queimar a cobra onde vivera tantos anos. As cinzas voaram. Honorato ficou homem. E morreu, anos e anos depois, na cidade do Cametá, no Pará.

Não há nesse rio e terras do Pará quem ignore a vida da Cobra Norato. São aventuras e batalhas.

Canoeiros, batendo a jacumã*, apontam os cantos, indicando as paragens inesquecidas:

- Ali passava, todo o dia, a Cobra Norato...
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Vocabulário:
Aracuã – ave trepadora.
Dabacuri - festa oferecida por uma aldeia a outra.
Jacumã – leme, remo.
Paranã – pequeno braço de rio.
Piraíba – espécie de peixe.
Putirão – trabalho comum, gratuito, (mutirão) em proveito de um indivíduo que oferece alimentação e bebidas e depois um baile.
Tejupar – casa de palha, palhoça.
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O historiador e escritor Luís da Câmara Cascudo é considerado o maior folclorista do Brasil, responsável por transformar a cultura popular e as tradições orais brasileiras em matéria de estudo científico e literário de valor universal. LUÍS DA CÂMARA CASCUDO nasceu em Natal/RN, em 1898 e faleceu nesta mesma cidade. em 1986 (aos 87 anos). Passou toda a sua vida em Natal (RN). Ele viveu na famosa chácara Villa Cascudo, no bairro do Tirol, e posteriormente em sua tradicional residência na Cidade Alta, onde mantinha uma biblioteca de mais de 20.000 livros e recebia intelectuais do mundo inteiro. Iniciou o curso de Medicina, mas abandonou a carreira para se formar em Direito em Recife (1928). Atuou ativamente como jornalista, escrevendo crônicas diárias para o jornal A Imprensa e outros periódicos nacionais. Foi professor de Direito Internacional e de História na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Exerceu funções de historiador oficial da cidade de Natal e fundou a Sociedade Brasileira de Folclore (1941).
Sua trajetória literária começou cedo, impulsionada pelas leituras na infância e saraus que ocorriam em sua casa. Estreou na literatura em 1921 e construiu uma vasta rede de correspondências com os principais nomes do Modernismo brasileiro, como Mário de Andrade. Foi o fundador da Academia Norte-Riograndense de Letras (1936). Devido à sua postura provinciana convicta — ele recusava-se a deixar o Rio Grande do Norte —, nunca se candidatou à Academia Brasileira de Letras (ABL), embora fosse uma figura aclamada por ela. Prêmio Machado de Assis (1956): Concedido pela Academia Brasileira de Letras pelo conjunto de sua obra, o mais importante reconhecimento literário do país na época. Prêmio Brasília de Literatura (1970): Também recebido pelo conjunto de suas contribuições à cultura nacional.
Cascudo escreveu mais de 150 livros (chegando a mais de 200 publicações se contabilizados opúsculos e ensaios). Algumas de suas principais obras são: Alma Patrícia (1921) – Seu livro de estreia; Vaqueiros e Cantadores (1939) – Estudo pioneiro sobre a poesia oral do sertão; Contos Tradicionais do Brasil (1946) – Compilado de narrativas populares orais; Dicionário do Folclore Brasileiro (1954) – Sua obra-prima, referência mundial e marco na catalogação dos mitos, festas e crendices nacionais; História da Alimentação no Brasil (1967) – Extensa pesquisa antropológica sobre os hábitos alimentares e as heranças indígenas, africanas e portuguesas no prato brasileiro.
A importância de Câmara Cascudo reside no fato de ele ter legitimado a cultura popular como ciência. Antes dele, as manifestações folclóricas, as superstições e as histórias contadas pelos povos mais simples eram vistas como "subliteratura" ou ignorância. Provou que a verdadeira identidade e a "alma" do Brasil estavam guardadas nos gestos cotidianos, nas feiras, nos causos de lobisomem, na culinária e nas canções de ninar. Ao registrar e analisar sistematicamente a tradição oral, ele salvou do esquecimento a memória coletiva do povo brasileiro, influenciando diretamente a literatura moderna, a antropologia e as ciências sociais no país.

Fontes:
Luís da Câmara Cascudo. Lendas Brasileiras para Jovens. Projeto LpT (Livro para Todos).
Biografia = Wikipedia, Ebiografia, Dicionário MPB, Amazon, Cascudo.org, Museu da Língua Portuguesa, Tramatura, etc.