segunda-feira, 6 de julho de 2026

Fernando Pessoa (Na floresta do alheamento)


Sei que despertei e que ainda durmo. O meu corpo antigo, moído de eu viver diz-me que é muito cedo ainda... Sinto-me febril de longe. Peso-me, não sei porquê... 

Num torpor lúcido, pesadamente incorpóreo, estagno, entre o sono e a vigília, num sonho que é uma sombra de sonhar. A minha atenção boia entre dois mundos e vê cegamente a profundeza de um mar e a profundeza de um céu; e estas profundezas interpenetram-se, misturam-se, e eu não sei onde estou nem o que sonho.

Um vento de sombras sopra cinzas de propósitos mortos sobre o que eu sou de desperto. Cai de um firmamento desconhecido um orvalho morno de tédio. Uma grande angústia inerte manuseia-me a alma por dentro e, incerta, altera-me, como a brisa aos perfis das copas.

Na alcova mórbida e morna a antemanhã de lá fora é apenas um hálito de penumbra. Sou todo confusão quieta... Para que há de um dia raiar?... Custa-me o saber que ele raiará, como se fosse um esforço meu que houvesse de o fazer aparecer.

Com uma lentidão confusa acalmo. Entorpeço-me. Boio no ar, entre velar e dormir, e uma outra espécie de realidade surge, e eu em meio dela, não sei de que onde que não é este...

Surge mas não apaga esta, esta da alcova tépida, essa de uma floresta estranha. Coexistem na minha atenção algemada as duas realidades, como dois fumos que se misturam.

Que nítida de outra e de ela essa trêmula paisagem transparente! ...

E quem é esta mulher que comigo veste de observada essa floresta alheia? Para que é que tenho um momento de me perguntar?... Eu nem sei quere-lo saber...

A alcova vaga é um vidro escuro através do qual, consciente dele, vejo essa paisagem..., e a essa paisagem conheço-a há muito, e há muito que com essa mulher que desconheço erro, outra realidade, através da irrealidade dela. Sinto em mim séculos de conhecer aquelas árvores e aquelas flores e aquelas vias em desvios e aquele ser meu que ali vagueia, antigo e ostensivo ao meu olhar que o saber que estou nesta alcova veste de penumbras de ver...

De vez em quando pela floresta onde de longe me vejo e sinto um vento lento varre um fumo, e esse fumo é a visão nítida e escura da alcova em que sou atual, destes vagos móveis e reposteiros e do seu torpor de noturna. Depois esse vento passa e torna a ser toda só ela a paisagem daquele outro mundo...

Outras vezes este quarto estreito é apenas uma cinza de bruma no horizonte dessa terra diversa... E há momentos em que o chão que ali pisamos é esta alcova visível...

Sonho e perco-me, duplo de ser eu e essa mulher... Um grande cansaço é um fogo negro que me consome... Uma grande ânsia passiva é a vida falsa que me estreita...

Ó felicidade baça!... O eterno estar no bifurcar dos caminhos!... Eu sonho e por detrás da minha atenção sonha comigo alguém. E talvez eu não seja senão um sonho desse alguém que não existe...

Lá fora a antemanhã tão longínqua! A floresta tão aqui ante outros olhos meus!

E eu, que longe dessa paisagem quase a esqueço, é ao tê-la que tenho saudades dela, é ao percorrê-la que a choro e a ela aspiro.

As árvores! As flores! O esconder-se copado dos caminhos!...

Passeávamos às vezes, braço dado, sob os cedros e as olaias e nenhum de nós pensava em viver. A nossa carne era-nos um perfume vago e a nossa vida um eco de som de fonte. ávamo-nos as mãos e os nossos olhares perguntavam-se o que seria o ser sensual e o querer realizar em carne a ilusão do amor...

No nosso jardim havia flores de todas as belezas... — rosas de contornos enrolados, lírios de um branco amarelecendo-se, papoulas que seriam ocultas se o seu rubro lhes não espreitasse presença, violetas pouco na margem tufada dos canteiros, miosótis mínimos, camélias estéreis de perfume... E, pasmados por cima de ervas altas, olhos, os girassóis isolados fitavam-nos grandemente.

Nós roçávamos a alma toda vista pelo fresco visível dos musgos e tínhamos, ao passar pelas palmeiras, a intuição esguia de outras terras... E subia-nos o choro à lembrança, porque nem aqui, ao sermos felizes, o éramos...

Carvalhos cheios de séculos nodosos faziam tropeçar os nossos pés nos tentáculos mortos das suas raízes... Plátanos estacavam... E ao longe, entre árvore e árvore de perto, pendiam no silêncio das latadas os cachos negrejantes das uvas...

O nosso sonho de viver ia adiante de nós, alado, e nós tínhamos para ele um sorriso igual e alheio, combinado nas almas, sem nos olharmos, sem sabermos um do outro mais do que a presença apoiada de um braço contra a atenção entregue do outro braço que o sentia.

A nossa vida não tinha dentro. Éramos fora e outros. Desconhecíamo-nos, como se houvéssemos aparecido às nossas almas depois de uma viagem através de sonhos...

Tínhamo-nos esquecido do tempo, e o espaço imenso empequenara-se-nos na atenção. Fora daquelas árvores próximas, daquelas latadas afastadas, daqueles montes últimos no horizonte haveria alguma coisa de real, de merecedor do olhar aberto que se dá às coisas que existem?...

Na clepsidra da nossa imperfeição gotas regulares de sonho marcavam horas irreais... Nada vale a pena, ó meu amor longínquo, senão o saber como é suave saber que nada vale a pena...

O movimento parado das árvores: o sossego inquieto das fontes; o hálito indefinível do ritmo íntimo das seivas; o entardecer lento das coisas, que parece vir-lhes de dentro a dar mãos de concordância espiritual ao entristecer longínquo, e próximo à alma, do alto silêncio do céu; o cair das folhas, compassado e inútil, pingos de alheamento, em que a paisagem se nos torna toda para os ouvidos e se entristece em nós como uma pátria recordada — tudo isto, como um cinto a desatar-se, cingia-nos, incertamente.

Ali vivemos um tempo que não sabia decorrer, um espaço para que não havia pensar em poder-se medi-lo. Um decorrer fora do tempo, uma extensão que desconhecia os hábitos da realidade do espaço... Que horas, ó companheira inútil do meu tédio, que horas de desassossego feliz se fingiram nossas ali!... Horas de cinza de espírito, dias de saudade espacial, séculos interiores de paisagem externa... E nós não nos perguntávamos para que era aquilo, porque gozávamos o saber que aquilo não era para nada.

Nós sabíamos ali, por uma intuição que por certo não tínhamos, que este dolorido mundo onde seríamos dois, se existia, era para além da linha extrema onde as montanhas são hálitos de formas, e para além dessa não havia nada. E era por causa da contradição de saber isto que a nossa hora de ali era escura como uma caverna em terra de supersticiosos, e o nosso senti-la ela estranho como um perfil da cidade mourisca contra um céu de crepúsculo outonal...

Orlas de mares desconhecidos tocavam no horizonte de ouvirmos, praias que nunca poderíamos ver, e era-nos a felicidade escutar, até vê-lo em nós, esse mar onde sem dúvida singravam caravelas com outros fins em percorrê-lo que não os fins úteis e comandados da Terra.

Reparávamos de repente, como quem repara que vive, que o ar estava cheio de cantos de ave, e que, como perfumes antigos em cetins, o marulho esfregado das folhas estava mais entranhado em nós do que a consciência de o ouvirmos.

E assim o murmúrio das aves, o sussurro dos arvoredos e o fundo monótono e esquecido do mar eterno punham à nossa vida abandonada uma auréola de não a conhecermos. Dormimos ali acordados dias, contentes de não ser nada, de não ter desejos nem esperanças, de nos termos esquecido da cor dos amores e do sabor dos ódios. Julgávamo-nos imortais...

Ali vivemos horas cheias de um outro, sentímos-as, horas de uma imperfeição vazia e tão perfeitas por isso, tão diagonais à certeza retangular da vida. Horas imperiais depostas, horas vestidas de púrpura gasta, horas caídas nesse mundo de um outro mundo mais cheio do orgulho de ter mais desmanteladas angústias...

E doía-nos gozar aquilo, doía-nos... Porque, apesar do que tinha de exílio calmo, toda essa paisagem nos sabia a sermos deste mundo, toda ela era úmida da pompa de um vago tédio, triste e enorme e perverso como a decadência de um império ignoto...

Nas cortinas da nossa alcova a manhã é uma sombra de luz. Meus lábios, que eu sei que estão pálidos, sabem um ao outro a não quererem ter vida.

O ar do nosso quarto neutro é pesado como um reposteiro. A nossa atenção sonolenta ao mistério de tudo isto é mole como uma cauda de vestido arrastado num cerimonial no crepúsculo.

Nenhuma ânsia nossa tem razão de ser. Nossa atenção é um absurdo consentido pela nossa inércia alada.

Não sei que óleos de penumbra ungem a nossa ideia do nosso corpo. O cansaço que temos é a sombra de um cansaço. Vem-nos de muito longe, como a nossa ideia de haver a nossa vida...

Nenhum de nós tem nome ou existência plausível. Se pudéssemos ser ruidosos ao ponto de nos imaginarmos rindo riríamos sem dúvida de nos julgarmos vivos. O frescor aquecido do lençol acaricia-nos (a ti como a mim decerto) os pés que se sentem, um ao outro, nus.

Desenganemo-nos, meu amor, da vida e dos seus modos. Fujamos a sermos nós... Não tiremos do dedo o anel mágico que chama, mexendo-se-lhe, pelas fadas do silêncio e pelos elfos da sombra e pelos gnomos do esquecimento...

E ei-la que, ao irmos a sonhar falar nela, surge ante nós outra vez, a floresta muita, mas agora mais perturbada da nossa perturbação e mais triste da nossa tristeza. Foge de diante dela, como um nevoeiro que se desvanece, a nossa ideia do mundo real, e eu possuo-me outra vez no meu sonho errante, que essa floresta misteriosa enquadra...

As flores, as flores que ali vivi! Flores que a vista traduzia para seus nomes, conhecendo-as, e cujo perfume a alma colhia, não nelas mas na melodia dos seus nomes... Flores cujos nomes eram, repetidos em sequência, orquestras de perfumes sonoros... Árvores cuja volúpia verde punha sombra e frescor no como eram chamadas... Frutos cujo nome era um cravar de dentes na alma da sua polpa... Sombras que eram relíquias de outrora felizes... Clareiras, clareiras claras, que eram sorrisos mais francos da paisagem que se bocejava em próxima... Ó horas multicolores!... Instantes-flores, minutos-árvores, ó tempo estagnado em espaço, tempo morto de espaço e coberto de flores, e do perfume de flores, e do perfume de nomes de flores!...

Loucura de sonho naquele silêncio alheio!...

A nossa vida era toda a vida... O nosso amor era o perfume do amor... Vivíamos horas impossíveis, cheias de sermos nós... E isto porque sabíamos, com toda a carne da nossa carne, que não éramos uma realidade...

Éramos impessoais, ocos de nós, outra coisa qualquer... Éramos aquela paisagem esfumada em consciência de si própria... E assim como ela era duas — de realidade que era, a ilusão — assim éramos nós obscuramente dois, nenhum de nós sabendo bem se o outro não ele próprio, se o incerto outro viveria...

Quando emergíamos de repente ante o estagnar dos lagos sentíamo-nos a querer soluçar...

Ali aquela paisagem tinha os olhos rasos de água, olhos parados, cheios do tédio inúmero de ser... Cheios, sim, do tédio de ser, de ter de ser qualquer coisa, realidade ou ilusão — e esse tédio tinha a sua pátria e a sua voz na mudez e no exílio dos lagos... E nós, caminhando sempre e sem o saber ou querer, parecia ainda assim que nos demorávamos à beira daqueles lagos, tanto de nós com eles ficava e morava, simbolizado e absorto...

E que fresco e feliz horror o de não haver ali ninguém! Nem nós, que por ali íamos, ali estávamos... Porque nós não éramos ninguém. Nem mesmo éramos coisa alguma... Não tínhamos vida que a morte precisasse para matar. Éramos tão tênues e rasteirinhos que o vento do decorrer nos deixara inúteis e a hora passava por nós acariciando-nos como uma brisa pelo cimo duma palmeira.

Não tínhamos época nem propósito. Toda a finalidade das coisas e dos seres ficara-nos à porta daquele paraíso de ausência. Imobilizara-se, para nos sentir senti-la, a alma rugosa dos troncos, a alma estendida das folhas, a alma núbil das flores, a alma vergada dos frutos...

E assim nós morremos a nossa vida, tão atentos separadamente a morrê-la que não reparámos que éramos um só, que cada um de nós era uma ilusão do outro, e cada um, dentro de si, o mero eco do seu próprio ser...

Zumbe uma mosca, incerta e mínima...

Raiam na minha atenção vagos ruídos, nítidos e dispersos, que enchem de ser já dia a minha consciência do nosso quarto... Nosso quarto? Nosso de que dois, se eu estou sozinho? Não sei. Tudo se funde e só fica, fugindo, uma realidade-bruma em que a minha incerteza soçobra e o meu compreender-me, embalado de ópios, adormece...

A manhã rompeu, como uma queda, do cimo pálido da Hora...

Acabaram de arder, meu amor, na lareira da nossa vida, as achas dos nossos sonhos...

Desenganemo-nos da esperança, porque trai, do amor, porque cansa, da vida, porque farta e não sacia, e até da morte, porque traz mais do que se quer e menos do que se espera.

Desenganemo-nos, ó Velada, do nosso próprio tédio, porque se envelhece de si próprio e não ousa ser toda a angústia que é.

Não choremos, não odiemos, não desejemos...

Cubramos, ó Silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto e morto da nossa Imperfeição...
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FERNANDO PESSOA (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas e escritores da língua portuguesa e uma figura central do modernismo em Portugal. Sua obra é notável pela criação de heterônimos — personalidades literárias distintas com biografias, estilos e filosofias próprias — que assinaram grande parte de sua produção. Fernando António Nogueira Pessoa nasceu em Lisboa, Portugal, em 13 de junho de 1888. Após a morte de seu pai e o novo casamento de sua mãe, a família mudou-se para Durban, na África do Sul, em 1896. Ele viveu lá até 1905, onde recebeu uma educação em inglês e começou a escrever seus primeiros poemas nesse idioma. Ao voltar a Portugal, ele se matriculou no curso de Letras, mas logo o abandonou, dedicando-se à literatura e trabalhando em várias empresas como correspondente comercial. Pessoa estreou como crítico literário em 1912, na revista Águia. Introduziu o modernismo em Portugal e tornou-se um símbolo da cultura portuguesa. Apesar de sua importância, Pessoa publicou poucas obras em vida. Seu reconhecimento pleno veio após sua morte, com a descoberta de um grande número de textos inéditos em um baú. 
A criação de diferentes identidades literárias é a característica mais marcante de sua obra. Os mais conhecidos são: Alberto Caeiro: O "mestre" dos outros heterônimos, poeta bucólico e simples, que valorizava a natureza e o empirismo, com uma filosofia antirreflexiva; Ricardo Reis: Poeta clássico e neoclássico, com referências à mitologia greco-romana e uma busca pela tranquilidade interior; Álvaro de Campos: Engenheiro naval, poeta vanguardista e futurista, caracterizado pela exaltação da vida moderna e da velocidade, mas também pelo tédio e pessimismo; Bernardo Soares: Considerado um "semi-heterônimo", autor do Livro do Desassossego, que reflete sobre a vida, o existencialismo e a solidão. 
Embora tenha tido uma vida amorosa intensa, Fernando Pessoa nunca se casou ou teve filhos. Declarava-se um cristão gnóstico, mas não se filiou a nenhuma instituição religiosa, explorando a temática religiosa em seus escritos. Faleceu em Lisboa, em 30 de novembro de 1935, aos 47 anos, devido a uma cólica hepática. 

Fonte:
Fernando Pessoa, O banqueiro anarquista e outros contos filosofais. Disponível em Domínio Público.

Contos das Mil e Uma Noites (Yamlikha, a rainha das serpentes) – 1


Conta-se, ó afortunado rei, que vivia certa vez, na antiguidade dos tempos e antes do desenrolar de muitos séculos, um sábio grego chamado Daniel. Tinha muitos discípulos que lhe escutavam respeitosamente o ensino, mas não tinha um filho, para herdar-lhe os livros e manuscritos. Após esgotar os outros recursos, Daniel apelou para o Senhor dos Mundos e, no mesmo instante, sua mulher concebeu. 

Durante os meses de gravidez da mulher, o sábio, dando-se conta de que era muito velho, pensou: “A morte está próxima. Meu filho talvez não encontre meus livros e manuscritos intactos quando estiver na idade de lê-los.” 

Assim presumindo, pôs-se a condensar seus 5 mil manuscritos em cinco folhas. Depois, reduziu estas a uma única folha. Quando sentiu o fim chegar, jogou os livros e manuscritos no mar para que ninguém os possuísse e entregou a folha de papel à mulher, dizendo-lhe: 

“Não verei nosso filho. Deixo-lhe contigo esta essência de todos os conhecimentos. Entrega-a quando ele reclamar a sua herança. Se souber ler este manuscrito e compreender o que ler, será o homem mais sábio de seu tempo. Desejo que lhe dês o nome de Hassib.” 

Depois, o sábio entregou a alma a Deus. No devido tempo, a mulher deu à luz um menino que foi chamado Hassib. A mãe pediu aos astrólogos que lhe estabelecessem um horóscopo. Disseram-lhe: 

“ Mulher, teu filho viverá muitos anos e amontoará saber e riqueza, desde que escape a um perigo que lhe ameaça a mocidade.” 

Quando o menino atingiu a idade de cinco anos, a mãe mandou-o à escola. Mas ele nada aprendeu. Retirou-o da escola e tentou interessá-lo em alguma profissão. Mas ele insistia em passar os dias em permanente ociosidade. Quando atingiu os quinze anos, os sábios aconselharam a mãe a casá-lo para despertar nele o senso da responsabilidade. A mãe escolheu uma noiva adequada e casou-o com ela. Mas o casamento de nada adiantou. Hassib recusava-se a empreender qualquer atividade. Alguns vizinhos, que eram lenhadores, sugeriram então à mulher comprar para seu filho um asno e um machado e deixá-lo ir com eles às florestas e ser um lenhador. A mulher aceitou a sugestão, e um milagre se produziu. Hassib amou sua nova profissão e tornou-se um excelente lenhador, ajudando assim a sustentar a mãe e a esposa. 

Certo dia, enquanto cavava a terra em volta de um velho tronco, desenterrou uma placa de mármore solidamente fixada no solo. Chamou os companheiros e, juntos, levantaram a placa e descobriram um buraco debaixo dela. Olhando mais perto, viram que no fundo do buraco havia uma sala cheia de jarras alinhadas. Supondo que as jarras continham um tesouro antigo, ajudaram Hassib a descer até a sala. Lá ele abriu uma jarra e achou-a cheia de mel. Embora decepcionados, os lenhadores calcularam que o mel lhes daria um bom lucro e alçaram as jarras uma a uma. Quando a última jarra tinha sido levantada, recusaram-se a ajudar Hassib a subir e deixaram-no no buraco, raciocinando: “Se o ajudarmos a salvar-se, vai querer sua cota do lucro. E ele nada vale. Melhor que pereça lá.” 

De volta, contaram à mãe e à esposa de Hassib que, no decorrer de um temporal, surgira um lobo que devorou Hassib e seu asno. As mulheres choraram. Mas nada podiam fazer. Os lenhadores apuraram tamanho lucro com a venda do mel que desistiram de seu ofício árduo, e cada um deles abriu uma loja. 

Vendo-se traído e abandonado, Hassib não se deixou abalar. Percorrendo a gruta, reparou em uma fenda numa das paredes, a qual deixava passar uma luz tênue. Introduziu o machado na fenda e conseguiu alargá-la. E descobriu que se tratava, na realidade, de uma porta. Abriu a porta e achou-se numa galeria que terminava num lindo lago ao pé de uma colina de esmeralda. À beira do lago, viu um trono de ouro incrustado com pedras preciosas e cercado por 12 mil cadeiras de ouro, prata, esmeralda, cristal, aço, ébano. Sentou-se no trono e logo ouviu cantos melodiosos e viu uma longa fila de pessoas descendo da montanha para o lago. 

Quando se aproximaram, reparou que eram todas mulheres de excessiva beleza, mas cuja metade inferior terminava num órgão alongado e rastejante como o das serpentes. Quatro delas carregavam sobre os braços erguidos uma grande bandeja sobre a qual a rainha estava de pé, graciosa e sorridente. 

Hassib desceu imediatamente do trono, e as quatro mulheres depositaram nele a rainha. As outras mulheres ocuparam as 12 mil cadeiras. Todas cantavam em grego e tocavam címbalos. Depois, a rainha, que tinha reparado na presença de Hassib, acenou-lhe, convidando-o para aproximar-se, e disse-lhe: “Sê bem-vindo a meu reino subterrâneo, ó jovem que um destino benéfico conduziu até aqui. Conta-nos tua história e dize-nos o que desejas.” 

Hassib contou sua história do início ao fim. 

Encantada, a rainha disse-lhe: “Permanece conosco alguns dias. E eu te ajudarei a passar o tempo, contando-te uma história que te será útil quando voltares à terra dos homens.” 

Foi assim que a rainha Yamlikha, soberana subterrânea, contou em grego ao jovem Hassib, filho do sábio Daniel, e às 12 mil mulheres-serpentes sentadas em volta dela em cadeiras de pedras preciosas.
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As Mil e Uma Noites é uma coleção de histórias e contos populares originárias do Médio Oriente e do sul da Ásia e compiladas em língua árabe a partir do século IX. As histórias que compõem as Mil e uma noites têm várias origens, incluindo o folclore indiano, persa e árabe. Não existe versão definitiva da obra, uma vez que os antigos manuscritos árabes diferem no número e no conjunto de contos. O Imperador brasileiro Dom Pedro II foi o primeiro a traduzir diretamente do árabe para o português partes da obra mais conhecida da literatura árabe, e o fez com um rigor raro para a época. Já em idade avançada, aos 62 anos, ele começou o processo, o último registro de texto traduzido é de novembro de 1891, um mês antes de sua morte.

O que é invariável nas distintas versões é que os contos estão organizados como série de histórias em cadeia narrados por Xerazade, esposa do rei Xariar. Este rei, louco por haver sido traído por sua primeira esposa, desposa uma noiva diferente todas as noites, mandando matá-las na manhã seguinte. Xerazade consegue escapar a esse destino contando histórias maravilhosas sobre diversos temas que captam a curiosidade do rei. Ao amanhecer, Xerazade interrompe cada conto para continuá-lo na noite seguinte, o que a mantém viva ao longo de várias noites - as mil e uma do título - ao fim das quais o rei já se arrependeu de seu comportamento e desistiu de executá-la.

Fontes:
As Mil e uma noites. (tradução de Mansour Chalita). Publicadas originalmente desde o século IX. Disponível em Domínio Público
Imagem obtida com IA Microsoft Bing

domingo, 5 de julho de 2026

Chafariz de Trovas * 15 *


Casou-se. Tem nova vida.
E como me custa agora,
eu, que a chamei de "querida",
ter que chama-la "senhora"!
ANÍBAL VITRAL MONTEIRO
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Tropeço nos seus brinquedos...
Na saudade que me embala,
vejo marcas de seus dedos,
numa parede da sala!
ANTÔNIO CARLOS TEIXEIRA PINTO
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As paredes que sustentam
meus sonhos, meus ideais,
são tão sólidas que aguentam
os mais fortes vendavais!
ANTÔNIO SIÉCOLA MOREIRA
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Quando os sonhos esvanecem
e os amores acabarem,
os poetas aparecem
para ilusões recriarem.
ARTHUR THOMAZ
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Nós nos vemos com tal pressa
e tamanha raridade,
que, mal o encontro começa,
começo a sentir saudade.
BITENCOURT DE SÁ
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Veneno e inveja, empreiteiros
da enorme parede erguida
entre os nossos travesseiros
e entre a minha e a tua vida...
DARLY O. BARROS
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Sonhei que estava abraçando
alguém que tinha teus traços.
Quando acordei, soluçando,
tinha a saudade nos braços!
DULCE DE MELLO MONTEMÓR
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Vou meu rancho erguer no fundo
do sertão cheirando a flor,
e viver longe do mundo,
nos braços do meu amor.
DURVAL BORGES
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Saudade — tempo da infância,
que transcorre de repente...
A gente mede a distância
pela saudade que sente!
EDMUNDO RÊGO FERREIRA
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Na queda, não esmoreço:
levanto-me e sigo avante,
pois é a pausa de um tropeço
que torna o passo gigante!
EDWEINE LOUREIRO
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Contei ao céu meu desgosto
e o céu afligiu-se tanto
que pôs cinza sobre o rosto
e fogo desfez-se em pranto.
ELIAS BARBOSA
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Que me imporia ser um louco,
por gostar de ti, meu bem?!
Importa é que, pouco a pouco,
fiques louquinha também.
EVANDO MARINHO SALIM
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Sonhando escuto teu passo,,,
Doce raio de esperança!
— Tão distantes pelo espaço,
tão juntos pela lembrança!
EVANGELINA MAIA CAVALCANTE
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Amor de espécie tão vária!
— Quem teve a ideia de por
a tanta coisa contrária
o mesmo nome de Amor?
FERNANDES COSTA
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Há quem diga que sou feio,
que sou triste e vivo só.
Mas o calor de teu seio
dos outros me faz ter dó.
FERNANDO MEIRELLES
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Das glórias do meu passado,
a maior — meu peito diz —
seria haver conquistado
um amor que não me quis.
FLORÊNCIO ARGOLO
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— "Adeus!..." disseste-me, "esquece
minhas constantes ternuras..."
Ah, como se o sol pudesse
deixar a Terra às escuras!..,
FRANCISCO PEREIRA DA SILVA
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A dor da tua partida,
que não me saí da lembrança,
já me levou mais que a vida:
levou-me toda esperança!
FRAZÃO TEIXEIRA
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Na Ordem dos Capuchinhos,
sem espinhos não há flores.
Haja flores sem espinhos
na Ordem dos Trovadores!
FREI MARCELINO DE ANGATUBA
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Se tens de vir e voltar,
não venhas, por caridade!
— Uma esperança a brilhar
sempre é melhor que a saudade...
FLÁVIO JARBAS
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Quando o teu rosto de santa
junto ao meu empalidece,
a minha ternura é tanta
que o beijo termina em prece!
GARCIA ROSA
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És mais bela do que a rosa,
és mais pura do que a neve:
não sei descrever-te em prosa,
e o verso não te descreve!
GERALDO ALVIM
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Ermo de ti, cheio de ânsia,
meu olhar nos longes erra...
Oh, como eu amo a distância,
quando a distância te encerra!
GÍLKA MACHADO
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Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá.
Não permita Deus que eu morra
sem que volte para lá.
GONÇALVES DIAS
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Ante a “maçã” do pecado,
na dúvida, vou sofrendo:
- Se como... sou castigado;
- Se não como... me arrependo!...
HERMOCLYDES SIQUEIRA FRANCO
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Benditas são as paredes,
testemunhas sem pudor,
que amparam ganchos e redes
... e ouvem murmúrios de amor!
HÉRON PATRÍCIO
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Triste é alguém ser como aquelas
paredes velhas, pesadas,
que têm portas e janelas
eternamente fechadas...
IZO GOLDMAN
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Amo-te mais, cada dia;
longe de ti — que sou eu?
Sou como a concha vazia
de quem o mar se esqueceu.
JENY DE LIMA
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O beijo da despedida
é triste, mas mesmo assim
podias passar a vida
a despedir-te de mim...
JERÔNIMO BRAGANÇA
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Se o fracasso tem dois lados,
vale muito a decisão:
chorar os planos frustrados
ou bendizer a lição.
JÉRSON LIMA DE BRITO
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Minha ventura, querida,
é ser, com o maior fervor,
escravo de tua vida
e dono do teu amor!
JOÃO GUIMARÃES
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Você ficou aturdida
na bagunça de meu quarto.
Se visse a da minha vida,
você teria um infarto.
JOSÉ EL-JAICK
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Olhos que brilham de vida,
mas o corpo já se cansa.
Em cada ruga, uma lida…
no tempo vive a lembrança.
JOSÉ FELDMAN
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Diz ela, vendo a intenção
de seu noivinho devasso:
- mude o rumo dessa mão...
Minha coceira é no braço!
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— "Não há mãe melhor que a minha!"
Diz a filha à mamãezinha.
E a mãe, sorrindo: — "Filhinha,
melhor que a tua, era a minha"...
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Que momentos cruciais
nos umbrais das invernadas,
quando ecoam nossos ais
pelas decisões erradas...
LUCIANA PESSANHA PIRES
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Se há tantos pobres que pedem
e a todos te vejo dar,
nunca teus olhos me neguem
a esmola do teu olhar.
MANUEL GIRALDES DA SILVA
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Na humildade dos seus passos,
lembre sempre a decisão
de dar a mão, nos fracassos,
a quem lhe estendeu a mão...!
MARA MELINNI GARCIA
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Não vou culpar o destino
pelos erros cometidos;
culpo, sim, meu desatino
por impulsos incontidos.
MARINA VALENTE
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O nosso nome, juntinho,
gravei num galho de ipê;
e o povo todo, todinho,
inveja a mim e a você!
NAIR STARLING
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É teu amor ouro puro,
por isso sou rica assim;
e as outras todas, te juro,
morrem de inveja de mim.
ODÉLIA BELÉM BONESCHI
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Sempre que a pinga os refresca,
qual mentira tem mais graça:
- a do Juca, quando pesca,
ou do Joca, quando caça?...
ORLANDO BRITO
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Ei-lo, de todos os casos,
o mais estranho do mundo:
como, nuns olhos tão rasos,
cabe um olhar tão profundo?
PEREIRA DA SILVA
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Decidiste impor intrigas,
mas a distância, sem voz...
Diz que é melhor nossas brigas
que esse silêncio entre nós!
PROFESSOR GARCIA
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Por crer sempre em que lhe deve,
meu coração é um credor
que vai sofrer muito em breve
perdas e danos no amor.
SÉRGIO BERNARDO
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Dá-me os teus olhos profundos
e o mundo pode acabar!
Que importa o mundo, se há mundos
lá dentro do teu olhar!...
SILVA TAVARES
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Naquele encontro fatal,
ao olhar nos olhos teus,
tive a certeza final:
não era encontro, era adeus!
SÔNIA MARIA SOBREIRA DA SILVA
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De alguém que amamos, a imagem,
que está longe, vemos perto...
— Saudade é como miragem
que engana o olhar no deserto.
STÉLIO AUTRAN
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Quando passa o encantamento
de um amor que nos devora,
fica um saído de tormento
que nunca mais vai embora.
VITORINA SAGBONI TEIXEIRA
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José Feldman (O Bilhete da Estação)

Era uma tarde de chuva fina na estação rodoviária da cidade, daquelas em que o chão fica escorregadio como piso encerado, e numa fração de segundos, a pessoa desavisada se estatela no chão; o ar cheira a café frio e todos impacientes, parece que todo mundo está com pressa de chegar a algum lugar que não seja ali. 

Eu esperava o ônibus para a minha cidadezinha, sentado num banco de plástico duro pra dedéu, que até minhas calças já estava se queixando, observando o movimento. Foi então que vi um bilhete: caído perto de uma lixeira, meio amassado, com letras impressas em tinta azul, ainda legível. Como estava matando o tempo, peguei só por curiosidade. Dizia apenas: “Para a Senhora Dona Eulália, na Rua dos Fundos, número 7 — assunto urgente, que ninguém deve saber”.

Não tinha nome de quem escreveu, nem assinatura. Apenas aquilo. E foi o suficiente para em seguida virar um fuzuê aquela rodoviária.

Logo apareceu Dona Marocas, uma senhora gorda, de chapéu de palha e voz que ecoava mais alto que o alto-falante, conhecida por saber da vida de todo mundo, parece que sabia antes mesmo da pessoa ter ideia do que ia acontecer. Ela passou por mim, viu o papel na minha mão, parou como se tivesse levado um choque e apontou o dedo grosso:

— O que é isso, moço? Deixa eu ver! — e, sem esperar resposta, arrancou o bilhete da minha mão. 

Leu em voz alta, devagar, soletrando como se cada palavra fosse uma bomba. Quando terminou, colocou a mão no peito, os olhos arregalados, e gritou para todo lado: 

— Meu Deus! É da Rua dos Cafundós! Lá só mora gente de… bem, gente que não é da nossa parte da cidade, né? Gente que vive de coisas que não se fala! Assunto urgente, o que ninguém deve saber… Ah, eu sabia! Sempre disse que aquela rua é um ninho de confusão!

Em segundos, a coisa ganhou tal vulto, que formou-se uma roda ao redor dela. Lá estava o Seu Arlindo, dono da loja de tecidos, que usava terno mesmo para viajar curtas distâncias e tinha o orgulho de ser “da família tradicional da cidade”. Ele pegou o bilhete, olhou com desdém, como se o papel estivesse sujo de lama, e disse, com aquele tom de quem sabe tudo sobre a natureza humana:

— Não me surpreende. Rua dos Cafundós… lugar onde ninguém quer morar, onde as casas são pequenas, as pessoas trabalham com o que aparece. É claro que lá tem segredos. Coisas que nós, trabalhadores, que temos um nome a zelar, não precisamos saber. Aposto que é dívida, ou roubo, ou… coisa pior. Coisa de gente que não tem educação, não tem modos.

Uma moça bem arrumada, com óculos de armação dourada e livro de bolso na mão, que parecia professora, concordou com a cabeça, séria:

— É o que sempre digo: a origem explica tudo. Se vem de lá, já sabemos o que esperar. Segredos, desonestidade… é a cultura do lugar, infelizmente.

E assim começou. O bilhete, que não dizia absolutamente nada, passou de mão em mão, e cada um acrescentava uma nova camada de história, baseada apenas no endereço. 

Em dez minutos, o “assunto urgente” já tinha virado: roubo de mercadoria, filho fora do casamento, dívida com agiota, até um plano para contrabandear algo proibido. Tudo porque a Rua dos Cafundós era, para eles, sinônimo de “gente problemática”, “gente que não é como nós”.

A coisa ia de mal a pior, quando apareceu um rapaz magro, de roupa simples, sapatos gastos, que estava sentado num canto, quieto, esperando o ônibus também. Ele ouvia tudo, e quando ouviu falarem mal de Dona Eulália, levantou a voz, tímido mas firme:

— Com licença… Eu conheço Dona Eulália. Ela é costureira, viúva, cria os netos sozinha, trabalha dia e noite para não dever nada a ninguém. É uma das pessoas mais honestas que existe.

Seu Arlindo olhou para ele de cima a baixo, com aquele olhar de desprezo que dói mais que tapa, e respondeu devagar:

— Ah, é? E você é quem, rapaz? Também mora lá, não é? Dá para ver logo pela roupa, pelo jeito que fala… Claro que vai defender os seus. Gente de um tipo igual ao seu só se entende, né? Não sabe o que é ter responsabilidade.

Vários concordaram com a cabeça, murmurando frases como “é assim mesmo”, “não adianta explicar”, “são todos iguais”. O rapaz abaixou a cabeça, calado, e voltou para o seu canto. Ninguém quis ouvir nada; eles já tinham a história pronta, desenhada nos seus preconceitos, e nada ia mudar.

Foi então que apareceu uma menina de uns dez anos, de tranças no cabelo, carregando uma sacola de plástico, olhando para todo lado, até que viu o bilhete na mão de Dona Marocas e gritou, aliviada:

— Achou! Era o meu! Eu deixei cair sem querer!

Todos pararam, olharam para ela, confusos.

— O que é isso, menina? — perguntou Dona Marocas, ainda desconfiada.

— É um bilhete que a minha mãe escreveu para Dona Eulália, que é a minha avó — explicou a menina, pegando o papel de volta. — Ela pediu para eu entregar antes de viajar, porque a vovó está doente, e a mamãe foi comprar o remédio na cidade vizinha, e escreveu avisando que ia chegar mais tarde, para a vovó não ficar preocupada. Disse “urgente” porque a doença dela é complicada, e “o que ninguém deve saber”… ah, é porque a vovó tem vergonha de que as pessoas saibam que ela está doente, ela não gosta de dar trabalho a ninguém.

Silêncio total. Um silêncio tão grande que dava para ouvir uma formiga caminhando no chão da estação.

Seu Arlindo ficou vermelho, roxo, depois branco, como se tivesse engolido um ovo cru estragado. A professora guardou o livro rapidamente, como se quisesse desaparecer. Dona Marocas ficou com a boca aberta, sem saber o que dizer, pela primeira vez na vida. Todos aqueles que tinham inventado histórias, julgado, condenado uma rua inteira e uma mulher que não conheciam, apenas por causa de um endereço, agora estavam parados, calados, com o gosto amargo da própria estupidez na boca.

E para piorar, o rapaz magro, que eles tinham julgado também pela aparência, levantou-se, sorriu e disse para que todos ouvissem:

— Pois é. Dona Eulália é minha mãe. E o remédio que a minha irmã falou? É para uma doença que pega qualquer um — rico ou pobre, de rua bonita ou de rua de fundo. A doença não sabe ler endereço, nem olha a roupa que a gente veste. Diferente de certas pessoas, que acham que sabem tudo só de olhar para onde o outro mora.

Ninguém respondeu. Ninguém olhou nos olhos de ninguém. Cada um foi para o seu canto, arrumou as suas malas, sem saber onde enfiar a cara, mas com a certeza de que, daquela vez, quem parecia “gente de menos” era exatamente eles: cheios de regras, de rótulos, de certezas que não valiam nada — tal como o bilhete, que não tinha segredo nenhum, a não ser o segredo da própria ignorância deles.

O ônibus chegou. Eu entrei, sentei perto da janela, e fiquei pensando: “engraçado como as pessoas acham que o lugar onde a gente mora, ou o que a gente tem, ou como a gente se veste, diz tudo sobre quem somos. Na verdade, diz muito mais sobre quem julga — sobre o quanto eles precisam inventar defeitos nos outros para se sentirem melhores, mais importantes, mais ‘certos’”.

E, para mostrar a graça que a vida tem: quando o ônibus saiu, vi Seu Arlindo correndo atrás, com a mala aberta, porque tinha esquecido de fechar o fecho, e todos os seus tecidos caros caíram no chão, misturados com a lama da chuva. Ninguém parou para ajudar. Afinal, por ele ser “gente importante”, todo mundo achou que ele devia saber se virar sozinho. 

Justiça poética, não é mesmo?
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JOSÉ FELDMAN é um influente escritor, poeta, gestor cultural e um dos mais proeminentes trovadores contemporâneos do Brasil. Embora tenha nascido em São Paulo (1954), ele possui uma ligação profunda com o estado do Paraná, onde está radicado e atua de maneira incansável como um polo difusor da literatura trovadoresca. Sua história com o estado do Paraná começou a se consolidar no final da década de 1990. Residiu em cidades como Taboão da Serra (SP), Curitiba, Ubiratã e Maringá (PR) onde se fixou desde o ano de 2011.
       Sempre buscou uma formação multidisciplinar vasta, realizando cursos que vão de Filosofia e Contabilidade a Artes Dramáticas. Em 1975, formou-se como Técnico de Laboratórios Médicos, trabalhando por anos no Hospital das Clínicas da FMUSP. Atua fortemente como gestor cultural e editor virtual. É o criador e comandante de importantes veículos de informação poética, como os blogs Singrando Horizontes e Voo da Gralha Azul. Exerce papel de liderança institucional, atuando como Presidente da Confraria Brasileira de Letras, sendo um os fundadores e Conselheiro Internacional do Movimento União Cultural, agraciado com o título de Comandante do Saber, em Timisoara/Romênia; honra ao mérito máximo “Euclides da Cunha” na Academia de Letras Brasil-Suíça, em Berna/Suíça; título máximo das Letras na Confraria Luso-Brasileira de Letras, em Portugal; Título de Comendador pela Academia Pan-Americana de Letras e Artes; Prêmio Liderança pela paz, do Rotary Club; Prêmio Monteiro Lobato, do Movimento União Cultural, etc. Pertence também à Ordem dos Cavaleiros Templários, Ordem Sagrada do Templo e do Graal, Ordo Equitum Calami et Calicis, Casa do Poeta “Lampião de Gaz”, União Hispano-Americana de Escritores, Sociedade Poetas Del Mundo. 
No início de sua formação, estudou romance com Mário Amato e ficção científica com o renomado escritor André Carneiro, além de receber orientações literárias de Artur da Távola. Sua introdução ao universo das trovas (poemas de quatro versos de sete sílabas poéticas com rimas) deu-se pelas mãos do Magnífico Trovador Izo Goldman. Tornou-se um trovador premiado nacionalmente, acumulando vitórias em concursos de destaque, como os tradicionais Jogos Florais de Curitiba e de Nova Friburgo.  É visto na literatura contemporânea como um pioneiro na democratização digital da poesia clássica, atuando em três pilares principais:
1 - Almanaques Literários (Chuva de Versos e O Voo da Gralha Azul): Feldman é amplamente elogiado pela crítica e por seus pares por organizar e editar e-books coletivos de distribuição gratuita, Distribuição massiva e gratuita de compilações literárias em formato PDF. O seu Almanaque Chuva de Versos ultrapassou centenas de edições. Esses e-books são vistos como um valioso serviço de utilidade pública cultural, pois servem de vitrine para autores consagrados e novos talentos de todo o Brasil e de países de língua portuguesa.
2 - Preservação e Ativismo da Trova: No meio acadêmico, ele é descrito como um "incansável divulgador da Trova". Em uma época em que o verso livre predomina, a sua insistência na trova e no soneto confere-lhe o status de guardião da tradição poética luso-brasileira.
3 - Recepção dos Textos: Suas trovas pessoais são vistas como reflexivas, sensíveis e dotadas de uma sabedoria cotidiana. Elas abordam temas como o amor, a esperança, a passagem do tempo e as incertezas humanas através de uma linguagem limpa, porém tecnicamente perfeita.
No universo literário, a prosa de Feldman (seus contos e crônicas) é vista como um reflexo humanista, sensível e acessível da realidade, mantendo grande coerência com a sua identidade poética. Enquanto suas trovas seguem o rigor da métrica, seus textos em prosa desfrutam de maior liberdade criativa, destacando-se pelos seguintes fatores: 
    1. Foco no Cotidiano e na Infância: Seus contos e crônicas costumam resgatar memórias afetivas, a simplicidade do dia a dia e reflexões sobre a passagem do tempo. O próprio autor destaca que seu interesse pela literatura começou na infância justamente por meio da criação de contos; 
  2. Olhar Filosófico e Psicológico: Influenciados por sua formação multidisciplinar (que inclui estudos de Filosofia), seus textos curtos não buscam apenas entreter, mas provocar no leitor uma postura investigativa, questionadora e mais atenta ao mundo ao seu redor; 
    3. Democratização da Leitura: Assim como ocorre com seus e-books de poesia, suas coletâneas de crônicas e contos em formato digital são vistas pela crítica como ferramentas fundamentais de inclusão cultural. Ao distribuí-los gratuitamente na internet, ele rompe as barreiras do mercado editorial tradicional, fazendo com que sua prosa chegue diretamente ao leitor comum e sirva de incentivo para novos leitores.
Possui reconhecimento internacional, inserido principalmente no contexto da comunidade lusófona (países que compartilham a língua portuguesa). Em Portugal e Angola: Suas trovas, contos e crônicas circulam amplamente em portais literários europeus e africanos. Ele participa ativamente de intercâmbios culturais virtuais com escritores desses países, o que consolidou seu nome entre os entusiastas da literatura ibero-americana. O grande vetor de sua internacionalização são seus e-books e almanaques (como o Chuva de Versos ou o Florilégio de Trovas). Como essas coletâneas são publicadas digitalmente e de forma colaborativa, Feldman frequentemente seleciona, edita e publica textos de poetas e prosadores residentes na Europa, África e outros países da América Latina, integrando redes globais de literatura independente. Dessa forma, seu nome é respeitado fora do Brasil tanto por sua produção autoral quanto por seu papel como embaixador cultural e agregador de escritores da Língua Portuguesa no ambiente digital.

Fonte:
José Feldman. Pérgola de Textos. Floresta/PR: Biblioteca Sunshine.

Silmar Bohrer (Croniquinha) 163

As estações do ano têm seus encantos, delícias, magias. Sempre obedecendo as leis da mãe-natura, normas intangíveis que regulam nossos desígnios no planetinha azul. E as complexidades, bem vistas, acatadas e vividas tornam-se normais no dia a dia. 

Neste maio outonal aparecem os primeiros frios trazidos pelos ventos polares que castigam os viventes, corpo e alma. O outono, como as outras estações, é um período de cultivo de tradições que aparecem sazonalmente.  E elas fazem parte dos calendários da rosa-dos-ventos deste país continente.  

É do fruto da pinha - o pinhão - que temos as principais iguarias nesta época do ano. Cozido na água, ou na chapa do fogão, nas grimpas embaixo do pinheiro, ele conquista paladares. Nas noites frias do inverno é o sabor que acompanha conversas e rodas de chimarrão nos estados do sul. 

O entrevero, a paçoca, a farinha de pinhão, são acepipes que põem o ser em festa e em êxtase nas noitadas de vidraças suadas- não esquecendo que o vinho é presença infalível inspirando almas e corações.
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       O escritor e poeta SILMAR BOHRER destaca-se na cena cultural contemporânea por sua intensa produção literária voltada para a poesia, trovas e crônicas regionais, além de sua importante atuação na liderança de instituições literárias na Região Sul do país. Silmar Bohrer nasceu em Canela/RS em 1950, com sete anos foi para em Porto União-SC, com vinte anos, fixou-se em Caçador/SC. Suas primeiras produções e memórias de juventude, incluindo o serviço militar obrigatório, remetem a jornais regimentais e ao gosto pelas redações escolares. Reside atualmente no município litorâneo de Itapoá, no estado de Santa Catarina.
É bancário aposentado da Caixa Econômica Federal. Paralelamente à sua carreira profissional, sempre manteve o ofício da escrita como um sacerdócio diário. É um dos membros fundadores e exerceu o cargo de presidente da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), instituição fundada em 2014 no município de Caçador/SC, com o objetivo de fomentar a cultura local. Também possui forte vínculo associativo com entidades como a Associação dos Economiários Aposentados da Caixa em Santa Catarina. Membro da Confraria dos Escritores de Joinville e Confraria Brasileira de Letras.
Silmar iniciou sua jornada na escrita ainda na adolescência. Possui uma produção monumental com mais de 10 mil textos publicados digitalmente em plataformas de catalogação literária, acumulando dezenas de milhares de leituras. Sua obra foca predominantemente em formas líricas curtas e descrições do cotidiano, sendo o estilo predominante trovas transcendentais, prosa poética, crônicas do dia a dia e versos livres. Suas coletâneas e antologias de distribuição independente — frequentemente distribuídas de "mão em mão" de maneira não comercial durante eventos e lançamentos — reúnem séries textuais de sucesso na internet, tais como “O Contágio do Verbo”, “Pousadinha de Trovas”, “Ninhal de Trovas” e “Poesia sem Distanciamento”. Ele também se dedica à escrita de artigos de resgate histórico e crônicas sobre outras figuras literárias sulistas. Editou os livros: Vitrais Interiores  (1999); Gamela de Versos (2004); Lampejos (2004); Mais Lampejos (2011); Sonetos (2006) e Trovas (2007).
Mais do que concorrer a premiações comerciais de grande escala, o autor foca sua trajetória no reconhecimento institucional e comunitário. Suas láureas vêm de concursos literários internos voltados a servidores e aposentados federais, além de homenagens prestadas por academias de letras municipais em Santa Catarina pelo seu papel ativo na difusão da escrita poética regional.
A relevância de Silmar Bohrer reside no seu papel de ativista e descentralizador cultural no interior de Santa Catarina. Ao liderar a fundação da Academia Caçadorense de Letras e Artes (ACLA), ele contribuiu diretamente para levar oficinas, eventos e o amor pelos livros a uma das regiões socioeconomicamente mais desafiadoras do estado. Bohrer defende uma literatura baseada no compartilhamento afetivo e na simbiose entre as vivências cotidianas e o lirismo tradicional, mantendo viva a tradição da trova e da crônica de costumes na era digital.

Fontes:
Texto enviado pelo autor. 
Biografia = Divulga Escritor; ACACEF; Recanto das Letras; Caçador.net, dados enviados pelo autor.