sábado, 8 de agosto de 2026

Mensagem na Garrafa 206 = A Efemeridade dos Nós Digitais

Imagem criada com IA Microsoft Bing

Diz-se que a internet encurtou distâncias, mas a verdade é que ela criou uma nova geografia da alma. Nela, o afeto viaja na velocidade da luz, mas a empatia, às vezes, empaca na primeira esquina de um mal-entendido.

Ricardo e Magda habitavam essa geografia flutuante há anos. Entre eles, não havia carne, mas havia essência. Ricardo era o amigo seguro de Magda, o mestre generoso que partilhava lições, o poeta que devolvia versos em dias sem par e o riso frouxo que iluminava os dias cinzentos. Nos invernos da vida, quando o chão de Magda cedia, era a mão invisível de Ricardo que a sustentava através de uma tela. Construíram um castelo de confidências, tijolo por tijolo, palavra por palavra.

Até que veio o cataclisma. Uma brincadeira boba, um chiste mal medido por ele, ou talvez mal traduzido por ela. No tribunal silencioso das telas, a palavra escrita não tem tom de voz, não tem o brilho do olhar, não tem o recuo do sorriso. Magda sentiu o golpe, a piada transformou-se em desrespeito em sua mente.

O que se seguiu foi o verdadeiro desrespeito: o silêncio punitivo.

Sem o benefício da dúvida, sem o direito à defesa, Magda acionou o carrasco moderno: o botão de bloquear. Apagou anos de dedicação com o mesmo peso de quem descarta um anúncio indesejado. Ricardo, o amigo de tantas batalhas, foi reduzido a zero. Virou um fantasma digital, condenado sem julgamento, sentenciado sem saber exatamente o tamanho de sua culpa. Ela o julgou pelo pior de seus momentos, ignorando a soma de tudo o que ele sempre foi.


Moral:
O desrespeito nem sempre se veste de agressão escancarada; muitas vezes, ele se esconde na recusa em ouvir o outro. Descartar uma longa história de amizade e cumplicidade por causa de um único erro, sem dar a chance de explicação ou pedido de desculpas, não é amor-próprio — é a arrogância de quem prefere ter a razão do que manter o amigo. No tribunal do orgulho, a justiça é sempre cega, surda e solitária.

JOSÉ FELDMAN (Floresta/PR)

Giuseppe Caonetto (Itinerário de uma gota)


a estrada
começa na minha casa
e não tem fim
(Sérgio Rubens Sossélla)

Aqui estou. Hora de me jogar. E como dói este instante final. Sei que é minha missão. Fui gerada para este momento. Na minha jornada realizei outras tarefas. No início, basal. Sonhava com o brilho nos olhos. Nos meus devaneios, via-me refletida em outro olhar. Não que eu quisesse ser reflexiva. Buscava mesmo as emoções. Aquele momento único. Como um gol no último minuto do jogo final. Ser jogada no gramado e ali permanecer, misturada a suor e pisoteada pelo time, na comemoração do título. Seria a eterna glória. Ou cair no concreto da arquibancada. Entraria para a história ao ser mostrada pelas câmeras da televisão, tocando suavemente, como um beijo, um lindo rosto transfigurado pela alegria. O mundo veria meu grande feito, um monumental salto no meio da multidão. Os sonhos às vezes se realizam, às vezes são só sonhos. Por certo não me jogaria sozinha. Aliás, nunca estive só. No meu tempo de condutora, integrar bem a equipe representava êxito na função. Assim também atuei quando ajudei na limpeza. Orgulho-me desses serviços. Éramos unidas, como uma família. E combativas também. Tenho consciência do dever cumprido. Minha vida foi de total entrega. Tenho saudade. O que seria motivo mais que suficiente para estar onde estou. Mas não. Aqui me sinto como testemunha solitária de uma dor que me empurra para fora, como quem faxina a casa e descarta lixos sob tapetes. Dependurada neste fio, prestes a me lançar ao chão, dependo apenas de um abrir de olhos. Sinto o movimento das pálpebras arroxeadas sinalizando que a hora chegou. Aproveito o impulso para projetar-me no ar e espatifar-me no pó da estrada, que tem início na porta da casa, mas não tem fim.
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GIUSEPPE CAONETTO é o nome artístico do poeta, escritor e editor José A. Cauneto, uma expressiva voz contemporânea da poesia e da difusão literária no estado do Paraná. Ele possui uma sólida produção voltada principalmente à poesia lírica, à tradição dos sonetos e à edição de novos autores por meio de seu próprio selo editorial. Nasceu em Tamboara/PR, em 1962, embora tenha o seu registro civil na vizinha cidade de Paranavaí. Viveu parte de sua adolescência na zona rural do estado de Mato Grosso do Sul, onde estudou em escola pública. Posteriormente, retornou para o Paraná e fixou residência definitiva no município de Paranavaí, onde atua ativamente na cena cultural. Construiu uma carreira de quase 37 anos na Justiça do Trabalho (TRT da 9ª Região), tendo ingressado em 1986. Aposentou-se em 2023. Ao longo desse período, exerceu cargos importantes de liderança, atuando como Diretor de Secretaria nas Varas do Trabalho de Jacarezinho (1994–2001) e de Paranavaí (2006–2015). É graduado em Letras (1989) e especialista em Língua Portuguesa (1992) pela Fafipa/Unespar. Também obteve o título de bacharel em Direito em 1997. No campo da escrita criativa, concluiu o Curso Livre de Formação de Escritores pela Metamorfose Cursos (2022). 
A escrita despertou cedo em sua vida, por volta de 1976 na zona rural, inspirada por poemas contidos em livros didáticos. No entanto, sua produção poética adormeceu durante os anos em que priorizou a carreira e os estudos acadêmicos. O retorno definitivo à literatura aconteceu em 1999, impulsionado pelo surgimento da internet e a conexão com comunidades virtuais de escritores. Após sua aposentadoria em 2023, fundou a Doarte Edições, editora voltada à publicação e promoção de obras poéticas e literárias no circuito paranaense. 
Membro fundador da Academia de Letras e Artes de Paranavaí (ALAP); membro do Centro de Letras do Paraná. Foi selecionado e integrou o Curso Livre de Preparação de Escritores (CLIPE) em 2023, coordenado pela Casa das Rosas de São Paulo. Foi um dos autores premiados na categoria Poesia durante a 54ª edição do aclamado Festival de Música e Poesia de Paranavaí (FEMUP) em 2019, um dos festivais literários mais tradicionais e longevos do sul do país.
Livros Publicados: Santo Rosário: um tesouro mariano (2010) — Obra voltada à tradição religiosa; Para que os olhos falem: poemas ternos (2012); Doarte (2016) — Livro de poemas que mais tarde inspiraria o nome de sua editora; Trilhas sazonais: versos liturgos (2020) — Livro em coautoria com a escritora Lilia Souza; O livro do amor: o amor diluído em trinta poemas (2023); Nasci em 62: sessenta e dois sonetos e um sonetilho (2024) — Obra em celebração à sua trajetória de vida, explorando a estrutura clássica dos sonetos; Tantum: apenas tanto (2025) — Reunião de poemas maduros escritos ao longo de uma década.
A contribuição de Caonetto reside na interiorização da produção literária e no fortalecimento do mercado editorial independente fora das grandes capitais brasileiras. Ao unir o rigor formal da poesia clássica — como visto na escrita de sonetos — a uma linguagem sensível sobre o cotidiano, o afeto e a passagem do tempo, ele ajuda a consolidar o norte e o noroeste do Paraná como polos produtores de cultura de alto nível. Além disso, por meio de palestras, rodas de conversa em universidades e da atuação na Doarte Edições, o escritor cumpre um papel fundamental de agente cultural, abrindo portas para novos poetas e estimulando o hábito da leitura nas novas gerações.

Fontes:
Biografia = sites pesquisados: Doarte, Site Giuseppe Caonetto, Ana Justra Federal, etc.

Luiz Gonzaga da Silva (Trova e Cidadania) 6: Dor e Sofrimento


A dor pode ser imensa,  
mas o perdão é um amigo,  
o amor é eterna presença,  
sendo o coração o abrigo.
José Feldman – PR

Parece que o homem é um ser destinado à dor e ao sofrimento. Não há vida sem sofrimento. Compreender isso é um passo no sentido de criarmos meios para minimizar o destino humano. Somos jogados no mundo. A nossa primeira experiência é de desamparo. E é a partir desta experiência subjetiva que devemos nos superar e nos responsabilizar pelo nosso caminhar sobre a terra. O poeta pede mais compreensão para a dor e o sofrimento subjetivos.

Por que é que todo mundo
acha-se o mais sofredor,
se o sofrimento é profundo
e ninguém afere a dor?
Marcos Medeiros - RN

Quem me dera alguém pudesse
entender meu sentimento:
seria a trova uma prece
para o fim do sofrimento.
Neiva Fernandes - RJ

Não se mede facilmente
um sofrimento profundo,
porquanto o drama da gente
é sempre o maior do mundo!
Eduardo A. O. Toledo - MG

Para esse sofrimento subjetivo, eis um bom conselho:

Acenda a luz da esperança
ante a angústia de um momento.
Com revolta não se alcança
o cessar de um sofrimento.
Maria Antonieta B. Dutra - RN

Certamente não é possível fugir desse desamparo primordial, do nosso sofrimento subjetivo, mas ao menos devemos nos esforçar para evitar o sofrimento perpetrado pela ambição, pela desonestidade e pelas injustiças sociais,

Neste mundo, os desonestos
recebem palmas e flores
e o trabalhador, os restos,
o sofrimento e as dores.
Gonzaga da Silva - RN

Encenados, ao relento,
vejo com muita emoção
os "atos" de sofrimento
nos teatros do sertão!
Ademar Macedo - RN

Embora devamos ser proativos frente ao sofrimento causado pela maldade humana, o trovador tem razão quando expressa a triste realidade de um mundo cada vez mais cruel.

Num mundo sem soluções,
nestes tempos inclementes,
não vivem populações...
existem sobreviventes!
Sebas Sundfeld - SP
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LUIZ GONZAGA DA SILVA é um respeitado trovador e articulador cultural radicado em Natal/RN. No universo da poesia clássica e das competições de trovas, ele se destaca como uma das figuras mais ativas do movimento trovadoresco do Nordeste brasileiro.  Nasceu em São José do Campestre/RN, em 1940. Aos doze anos sua família mudou-se para o Rio de Janeiro, mudando definitivamente para Natal/RN, em 1975, onde reside até hoje e concentra suas atividades literárias e profissionais. É um dos principais pilares da trova em Natal. Ele atua frequentemente como coordenador, organizador de certames e interlocutor da poesia potiguar com trovadores de todo o Brasil. É um mestre na composição da trova tradicional. Seus versos transitam com facilidade entre o lirismo filosófico, o amor ao chão nordestino e o humor sutil. Por sua competência técnica e sensibilidade, acumula premiações e classificações de destaque em concursos nacionais de trovas promovidos por diferentes ramificações da trova no Brasil. Atuação como Julgador e Coordenador: É recorrentemente convidado para presidir comissões julgadoras ou coordenar concursos de âmbito nacional, avaliando trovas enviadas por poetas de todas as regiões brasileiras sob temas específicos.
Entre suas contribuições impressas para a preservação do movimento poético, destaca-se: "Trova e Cidadania" (Natal/RN): Obra que reúne parte de sua sensibilidade poética e reflete sobre o papel social da poesia na construção da cidadania; Coletâneas Didáticas: Participação ativa em antologias locais e nacionais, além de registrar suas produções na antologia digital coletiva A Trova Potiguar.
A relevância de Luiz Gonzaga da Silva concentra-se na salvaguarda e difusão da trova na Região Nordeste. Em uma era dominada por versos livres e mídias rápidas, o trabalho de preservação das formas poéticas fixas (como a trova e o soneto) exige dedicação e paixão. Ao capitanear concursos nacionais a partir do Rio Grande do Norte, ele insere o estado na rota dos grandes trovadores do país, garantindo que a tradição lírica originada em solo potiguar permaneça vibrante, acessível e atraente para as novas gerações de escritores.

Fonte:
Luiz Gonzaga da Silva (org.). Trova e Cidadania. Natal/RN, abril de 2019. Livro enviado pelo autor.

Irmãos Grimm (O fuso, a lançadeira e a agulha)


Era uma vez uma jovem que havia perdido os pais quando muito criança. No fim da aldeia vivia sua madrinha, completamente só, e que ganhava a vida fiando, tecendo e cosendo. A boa velha tomou conta da criança abandonada, ensinando-a a trabalhar e a educou dentro dos princípios da religião. Quando a jovem contava quinze anos, a madrinha adoeceu. Chamando a afilhada para junto do seu leito. disse-lhe:

   - Filha querida, sinto que a morte se aproxima. Deixo-te esta casinha, onde estarás protegida do mau tempo, e também o fuso, a lançadeira e agulha e serás feliz!

    Depois fechou os olhos. Enquanto a conduziam à sepultura a menina seguiu o caixão, chorando amargamente e rendendo-lhe as últimas homenagens.

    Desde então a jovem passou a viver só, em sua pequena casa, fiando, tecendo e cosendo. Em tudo o que fazia pairava a bênção da velhinha. Dir-se-ia que o linho, depositado no quarto, se multiplicava e, quando tecia uma tela ou um tapete ou, então, costurava uma camisa, logo aparecia um comprador.

    Naquele tempos, o filho do rei andava à procura de uma noiva. Não desejavam que escolhesse uma moça pobre. E uma rica ele não queria.

    - Será minha esposa - dizia o príncipe - aquela que for a mais pobre e a mais rica ao mesmo tempo.

    Quando chegou à aldeia onde morava a nossa jovem, perguntou, como costumava fazer em toda parte, qual era a moça mais rica e qual a mais pobre do lugar. Primeiro lhe indicaram a mais rica e depois lhe disseram que a mais pobre era a jovem da casinha situada bem no fim da aldeia. 

A rica estava sentada em frente à porta, toda enfeitada e, ao aproximar-se o príncípe, levantou-se, saiu ao seu encontro e lhe fez uma reverência. 

Ele a olhou e, sem dizer palavra, prosseguiu seu caminho. Quando chegou à casa da pobre, esta não se encontrava na porta, mas em seu quartinho. O príncipe parou seu cavalo e, olhando pela janela iluminada pelos raios do sol, viu a jovem sentada à roca, fiando ativamente. 

Ela levantou os olhos e, ao perceber que o filho do rei a estava observando, tornou-se rubra e abaixou os olhos, continuando o trabalho. Não sei dizer se o ponto, desta vez, saiu parelho, mas o certo é que ela continuou fiando sem parar, até que o príncipe foi embora. Foi, então, à janela e, abrindo-a exclamou:

      - Faz tanto calor aqui dentro! - e o seguiu com o olhar até que as plumas brancas do seu chapéu desaparecessem na curva do caminho.

   Depois voltou a sentar-se à roca e recomeçou seu trabalho. De repente veio-lhe à memória um versinho que a velha costumava dizer enquanto fiava e pôs-se a cantarolar:

     - Fuso, fuso sai por aí
      E me traz o meu noivo aqui.

     E o que aconteceu? No mesmo instante o fuso lhe saltou da mão e saiu pela porta. E quando a moça, assombrada, levantou-se para ver o que havia sido dele, viu-o dançando, alegremente, pelo campo, deixando atrás de si um brilhante fio dourado. Pouco depois desapareceu de sua vista. Como não tivesse outro fuso, a jovem apanhou a lançadeira e se pôs a tecer.

    Enquanto isso, o fuso continuou saltando pela estrada, até que enfim alcançou o príncipe, justamente quando o fio terminava.

    - O que vejo?! - exclamou o jovem. - Sem dúvida este fuso quer levar-me a algum lugar.

   E, fazendo o cavalo dar meia volta, foi seguindo o fio de ouro.

     Nesse meio tempo, a jovem continuava seu trabalho, cantarolando:

                        Lançadeirinha, tece sem cessar
                        E traz aquele com quem vou casar.

   Em seguida, a  lançadeira, saltando-lhe da mão, saiu pela porta e, diante da soleira, começou a tecer um tapete tão lindo como ainda não vira igual. Em ambos os lados abriam-se rosas e lírios; ao centro se entrelaçavam ramos verdes onde saltavam lebres e coelhos; cervos lhe pousavam e aves multicores, tão naturais que só lhes faltava cantar. A lançadeira saltava de um lado para outro e parecia que tudo ia crescendo por si mesmo.

    Já que a lançadeira lhe havia fugido, a jovem sentou-se para costurar. enquanto manejava a agulha, cantarolava:

     - Agulhinha, tão fininha, minha cara,
      A casa para o noivo me prepara.

      E a agulha, desprendendo-se de seus dedos, começou a voar pela casa tão rápida como o raio. Parecia que  espíritos invisíveis trabalhavam e, em poucos momentos a mesa e os bancos ficaram atapetados com fazenda verde; as cadeiras forrada  de veludo e nas janelas apareceram cortinas de seda. Mal a agulha havia dado o último ponto, a moça viu, pela janela, as plumas  brancas do chapéu do príncipe; o jovem voltava, seguindo o fio dourado do fuso. apeou, passou por cima do tapete e entrou na casa. No interior da saleta viu a moça que, embora em seu vestido pobre, tinha tanto viço como a rosa no roseiral.

     - Tu és a mais pobre e, ao mesmo tempo, a mais rica, - disse-lhe ele. - Vem comigo. És a minha escolhida.

      Ela lhe estendeu a mão sem dizer palavra. O príncipe beijou-a e depois a fez montar na garupa do seu cavalo, levando-a para o palácio real. Lá foi celebrado o casamento, para alegria de todos. o fuso, a lançadeira e a agulha foram guardados na câmara do tesouro  e ali conservados com grande horarias.
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Folcloristas e escritores de contos infantis, JACOB LUDWING CARL GRIMM (1785-1863) e WILHELM CARL GRIMM (1786-1859) nasceram em Hanau, no Grão-ducado de Hesse, na Alemanha. Receberam formação religiosa na Igreja Calvinista Reformada. Das nove crianças da família só seis chegaram à idade adulta. Os Irmãos Grimm passaram a infância na aldeia de Steinau, onde o pai era funcionário de justiça e Administração do conde de Hessen. Em 1796, com a morte repentina do pai, a família passou por dificuldades financeiras. Em 1798, Jacob e Wilhelm, os filhos mais velhos, foram levados para a casa de uma tia materna na cidade de Hassel, onde foram matriculados numa escola. Depois de concluído o ensino médio, os irmãos ingressaram na Universidade de Marburg. Estudiosos e interessados nas pesquisas de manuscritos e documentos históricos, receberam o apoio de um professor, que colocou sua biblioteca particular à disposição dos irmãos, onde tiveram acesso às obras do Romantismo e às cantigas de amor medievais. Depois de formados, os Irmãos Grimm se fixaram em Kassel e ambos ocuparam o cargo de bibliotecário. Em 1807, com o avanço do exército francês pelos territórios alemães, a cidade de Kassel passou a ser governada por Jérome Bonaparte, irmão mais novo de Napoleão, que a tornou capital do reino recém-instalado, Reino da Vestfália. Essa situação despertou o espírito nacionalista do romantismo alemão. A busca das raízes populares da germanidade estava em voga. Os irmãos reivindicaram a origem alemã para histórias conhecidas também em outros países europeus – como Chapeuzinho Vermelho, registrada pelo francês Charles Perrault bem antes do século XVII. No final de 1812, os irmãos apresentaram 86 contos coletados da tradição oral da região alemã do Hesse em um volume intitulado “Kinder-und Hausmärchen”, Contos de Fadas para o Lar e as Crianças. Em 1815 lançaram o segundo volume, Lendas Alemãs, no qual reuniram mais de setenta contos. Em 1840 os irmãos mudaram-se para Berlim onde iniciaram seu trabalho mais ambicioso: Dicionário Alemão. A obra, cujo primeiro fascículo apareceu em 1852, mas não pode ser terminada por eles. Faleceram em Berlim Wilhelm em 1859 e Jacob em 1863.

Fonte:
Contos de Grimm. Publicados de 1812 a 1819. Disponível em Domínio Público.

Conto & Crônica: Da Ideia à Publicação (Parte 4)

curso ministrado por José Feldman
4. CONSTRUÇÃO DOS PERSONAGENS

Construir personagens eficazes em diferentes gêneros literários exige uma compreensão das características e expectativas específicas de cada um. Aqui estão algumas diretrizes para desenvolver personagens em contos de suspense, policiais, críticos, filosóficos e românticos.

4.1. Contos de Suspense

4.1.1. Personagem Principal (Protagonista):

4.1.1.1. Traumas ou Medos: 
Crie um protagonista que tenha medos ou traumas que serão explorados ao longo da narrativa. Isso aumenta a tensão.

4.1.1.2. Inteligência e Curiosidade: 
Um personagem que investiga ou enfrenta o mistério deve ser perspicaz e curioso.
  
4.1.2. Antagonista:

4.1.2.1. Motivações Ambíguas: 
Dê ao antagonista camadas e complexidade, evitando o clichê de vilão unidimensional. Motivação pode ser pessoal ou psicológica.

4.1.3. Personagens Secundários:

4.1.3.1. Aliados e Inimigos: 
Introduza personagens que ajudem ou atrapalhem o protagonista, trazendo diferentes perspectivas.

4.2. Contos Policiais

4.2.1. Detetive (Protagonista):

4.2.1.1. Habilidades de Análise: 
O detetive deve ser observador e ter habilidades dedutivas excepcionais.

4.2.1.2. Personalidade única: 
Adicione peculiaridades ou falhas que humanizem o personagem, como vícios ou dilemas morais.

4.2.2. Suspeitos:

4.2.2.1. Diversidade de Motivações: 
Cada suspeito deve ter suas motivações crenças que o credenciam como possível culpado, trazendo tensão à narrativa.

4.2.3.Vítima:

4.2.3.1. História Relevante: 
A vítima deve ter um passado que se conecta com o enredo, formando laços importantes.

4.3. Contos Críticos

4.3.1. Personagem Protagonista:

4.3.1.1. Voz Crítica: 
Utilize um protagonista que representa uma visão ou uma crítica social, tornando-o reflexivo e questionador.

4.3.1.2. Vivência Pessoal: 
Sua experiência deve estar atrelada ao tema central do conto.

4.3.2. Personagens Secundários:

4.3.2.1. Representantes de diferentes pontos de vista: 
Inclua personagens que representam diferentes opiniões sobre a questão social em discussão.

4.4. Contos Filosóficos

4.4.1. Personagem Principal:

4.4.1.1. Questionador: 
Os protagonistas devem ser pensadores, que buscam entender a vida e suas complexidades.

4.4.1.2. Dilemas Morais e Éticos: 
Eles devem enfrentar dilemas que provoquem reflexões profundas.

4.4.2. Personagens de Suporte:

4.4.2.1. Mentores ou Antagonistas Filosóficos: 
Introduza personagens que desafiem as crenças do protagonista, como mentores ou opostos filosóficos.

4.5. Contos Românticos

4.5.1. Personagem Principal:

4.5.1.1 Desejos e Temores: 
O protagonista deve ter sonhos e inseguranças que influenciem suas interações românticas.

4.5.1.2. Desenvolvimento Pessoal: 
Mostre crescimento através da relação, como mudanças que surgem por meio do amor.

4.5.2. Interesse Amoroso:

4.5.2.1. Camadas Emocionais: 
O interesse amoroso deve ter profundidade, com suas próprias preocupações e histórias que ressoam com o protagonista.
  
4.5.3. Personagens Secundários:

4.5.3.1. Amigos e Rivais: 
Crie personagens que ajudem a aprofundar a trama romântica, como amigos que oferecem conselhos ou rivais que criam conflitos.

4.6. CONSIDERAÇÕES

Desenvolver personagens eficazes para cada gênero literário envolve criar complexidade, motivações e histórias interligadas que se relacionem com o tema central. A profundidade emocional e a autenticidade são fundamentais para cativar o leitor e proporcionar uma experiência impactante.
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continua… 

sexta-feira, 7 de agosto de 2026

Chafariz de Trovas * 28 *


 Minha sogra é mesmo o fim,
eu digo e sinto vergonha:
duvida tanto de mim,
que acredita na cegonha.
ANTÔNIO TEIXEIRA PINTO
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As fontes vão para os rios,
os rios vão para o mar;
os meus desejos sombrios,
para o céu do teu olhar.
BRANT HORTA
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Conheço um barco, veleiro,
parado no cais, sozinho.
Assim sou eu, prisioneiro
no porto do teu carinho.
CARLOS CUNHA
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Eu amo os meus dissabores,
idolatro o meu tormento,
pois quem causa minhas dores
vale bem meu sofrimento.
CARLOS ESTEVAM DE OLIVEIRA
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Saudade — palavra triste
que se tem no coração.
— A coisa pior que existe
nas noites de solidão!
CELESTE MARIA MASERA
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Sofres. Eu sofro também
esse orgulho desmedido
de não dizer a ninguém
o quanto temos sofrido!
CELITA PEREIRA GONDIM
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Não insistas em saber
porque sou triste e onde vou!
Já basta no meu viver
amar a quem não me amou!
CERES ANTAS
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São sentidos, são tristonhos
os versos do trovador.
— Quem se alimenta de sonhos,
nunca se faria de amor.
CÉSAR COELHO
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Que me importa o seu olhar
sempre triste, quase mudo,
se no momento de amar
seu coração me diz tudo?
CEZAR DE ALMEIDA
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Saudade — única moldura
em que o retrato de alguém
ainda tem mais formosura
que a formosura que tem.
CLEÔMENES CAMPOS
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Será que existe tortura
maior que a de te esperar?
E haverá maior ternura
que a minha, ao te ver chegar?
CONSUELO BELLONI
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O teu andar se parece
com o voo de um querubim...
Se uma rosa andar pudesse,
decerto andaria assim!
CORRÊA DE ARAÚJO
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Saudade! És a ressonância
de uma cantiga sentida
que, embalando a nossa infância,
nos segue por toda a vida!
DA COSTA E SILVA
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Por um futuro sonhado,
sem deslize e sem tropeço,
torno ausente o meu passado
e presente um recomeço!
ELISA FLORES
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Oh, tu que este livro vês,
abre-o de leve, com tato,
que ainda vive, em "Urupês",
o coração de Lobato!
ELIZABETH MARTHA NOTZ PASCHOAL
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Surda e muda a criatura,
falando com seus irmãos,
tece frases de ternura
que ela diz na voz das mãos...
ELMO GOMES
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O seu hino ao céu ecoa;
mulher que sabe encantar,
mesmo sem trono e coroa,
sempre é rainha do lar!
ELOY MARIA OLIVEIRA FARDO
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Com toda esta minha idade
aventurei-me no amor
e a desgraça da saudade
não me fez nenhum favor!,,.
FÁBIO SIQUEIRA DO AMARAL
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Paixão não é uma boa,
por ser muito passageira,
o amor é a canção que entoa
no sarau da vida inteira!
FRANCISCA ISABEL BASTOS
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Tu partiste... angústia e mágoa
sofri calado e arredio...
Só damos valor à água
quando o poço está vazio...
FRANCISCO ASSIS MENEZES
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O teu sorriso, que encanto,
só me traz felicidade.
Vai-se embora todo pranto
e leva junto... a saudade!
FRANCYELLE VOLPATO
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Se crês, uma prece apenas
é possível transformar
um mar de dores e penas
num doce e tranquilo mar,..
GILVAN CARNEIRO DA SILVA
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Os anos marcam no rosto
a decadência sofrida.
Velhice é o mais duro imposto
que o tempo cobra da vida.
HILDEMAR DE ARAÚJO
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A mentira, na verdade,
é um fato contumaz.
Rouba-nos felicidade,
e dissabores nos traz.
HORTÊNCIA SALES PESSOA
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Eu sempre tive esperanças
de um mundo ainda melhor
mas, precisa haver mudanças
para o bem, não para o pior!
JEFFERSON PORTUGAL
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Pela sombra do destino
o qual traça a diretriz,
viajo desde menino
na ilusão de ser feliz...
JEREMIAS RIBEIRO FILHO
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Na rua existe mendigo,
maltrapilho, muito pobre,
por vezes melhor amigo
do que muita gente nobre.
JOÃO BATISTA SGUASSABI
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Quando as almas são unidas
pelo amor, completamente,
deixam de ser duas vidas
para ser uma somente.
JOÃO COSTA
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Enganam-se os ditadores
que, no seu furor medonho,
mandam matar sonhadores,
pensando matar o sonho!
JOUBERT DE ARAÚJO SILVA
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Se agosto é mês de desgosto,
então me dê seus "porquês",
pois neste mês fica exposto
todo o florir dos ipês!
MANOEL FERNANDES MENENDEZ
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Eu, agora - que desfecho! -
já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
de lembrar que te esqueci?
MÁRIO QUINTANA
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91.244
Para todo mal há cura,
pode demorar, mas vem…
Só não há para a amargura
de ter saudades de alguém.
PAULO GUSTAVO
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Ocultando as cicatrizes
da tarde que vai morrer...
Deus pinta lindos matizes
nas rugas do entardecer!
PROFESSOR GARCIA
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Já sou folha quase morta
por tantos anos de idade,
mas ainda eu abro a porta,
para abraçar a saudade!
RAIMUNDO ANDRADE PAIVA
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Quando piso descuidado...
as trilhas da solidão,
sinto, a cada passo dado,
minha mãe me dando a mão !
ROBERTO RESENDE VILELA
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Na tua mão estendida,
para este aperto de adeus,
vejo que a linha da vida
tem rumos que não são meus.
SANTIAGO VASQUES FILHO
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Eu não vejo por escapes
a esta lei clara e sucinta:
Deus traça o destino a lápis
e és tu que cobres de tinta.
SÁVIO SOARES DE SOUSA
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Ah, se eu pudesse voltar
aos tempos de antigamente...
Não teria em meu olhar
esta angústia tão presente!
SOPHIA IRENE CANALLES
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A saudade anos depois
canta nos canaviais
a tanger carros de bois
em notas de nunca mais !...
SÔNIA MARIA DITZEL MARTELO
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Esta vida é mesmo um drama
entre o homem e a mulher:
a que eu não quero, me chama,
a que eu amo, não me quer...
SYDNEY G. WISS BARRETO
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São testemunhas caladas
do nosso amor e carinho
as duas letras bordadas
no velho lençol de linho.
THERESA COSTA VAL
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Tem que ter muita coragem,
para dançar com o coitado...
Já começa a sacanagem;
no sorriso desdentado...
VERLAINE TERRES
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Infância, em mim. é saudade
de um tempo ingênuo inocente…
Lá em casa a Felicidade
sentava à mesa co' a gente!
WALDIR NEVES
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Cailin Dragomir (Histórias de Moșneagul) A dança proibida das Iele


Antes de darmos início ao nosso conto, precisamos conhecer o encanto e o perigo que habitam as florestas romenas. As Iele são criaturas místicas do folclore local, frequentemente descritas como fadas ou ninfas da natureza de beleza hipnotizante. Elas vestem longas túnicas brancas e transparentes, possuem cabelos longos e voam pelo ar durante a noite. As Iele se reúnem em clareiras isoladas para dançar sob o luar. Elas não são puramente más, mas são implacáveis: punem severamente qualquer pessoa que quebre promessas, que trabalhe nos dias de seus festivais sagrados ou que ouse espionar sua dança mística, deixando esses infelizes loucos, paralisados ou mudos.
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A lua de verão brilhava no topo do céu, iluminando a floresta densa que cercava Valea. Era a noite de Rusalii, um período sagrado em que ninguém na aldeia ousava trabalhar ou andar pelas matas, em respeito às Iele. Todos sabiam do aviso de Moșneagul: "A terra descansa para que as damas da floresta possam dançar. Quem quebrar o resguardo, pagará com o próprio corpo".

Contudo, um jovem flautista chamado Matei, movido pela arrogância e pelo desejo de compor a música mais bela do mundo, ignorou o voto de silêncio e respeito daquela noite. Ele acreditava que se pudesse ouvir o canto das ninfas, se tornaria o maior músico de toda a Romênia. Com sua flauta de madeira presa à cintura, Matei esgueirou-se por entre os arbustos, ignorando o amuleto de folhas de absinto que o velho Moșneagul distribuíra para proteção.

Não demorou para que um som celestial ecoasse pelo ar. Era uma melodia suave, feita de vozes harmoniosas que pareciam flutuar como o vento. Atraído pelo transe, Matei seguiu o som até uma clareira circular, onde a grama era perfeitamente pisada.

Lá estavam elas. Sete jovens de beleza indescritível, com longos cabelos loiros que brilhavam como fios de ouro sob o luar. Elas flutuavam em uma dança frenética e graciosa, sem tocar os pés no chão. O ar ao redor delas o perfume de flores silvestres e magia pura.

Fascinado, Matei esqueceu-se de todo o perigo. Ele deu um passo à frente, revelando-se, e levou a flauta aos lábios para acompanhar o ritmo divino.

No mesmo instante, a música das Iele cessou. O silêncio que se seguiu foi sepulcral. As fadas viraram-se em uníssono para o rapaz. Seus rostos, antes angelicais, tornaram-se frios e severos como o mármore.

— Quem ousa quebrar o voto de resguardo de nossa noite? — ecoou uma voz que parecia vir de todas as direções ao mesmo tempo.

— Eu só queria tocar com vocês! — gaguejou Matei, percebendo o erro tarde demais.

As Iele sorriram, mas não havia calor em seus olhares. Elas começaram a flutuar ao redor de Matei, fechando o círculo. Seus movimentos tornaram-se rápidos como um turbilhão. O jovem tentou correr, mas suas pernas não respondiam; ele tentou gritar por socorro, mas sua voz sumira. A energia da dança começou a sugar suas forças, e uma queimação terrível tomou conta de seus membros, paralisando-o.

Quando o pior parecia inevitável, o som forte de um chocalho de gado e o cheiro forte de absinto amassado invadiram a clareira. Moșneagul surgiu por entre as árvores, segurando um ramo da erva sagrada em uma mão e batendo seu cajado no chão com a outra.

— Nobres damas da floresta! — clamou o Moșneagul, curvando a cabeça em sinal de profundo respeito, sem olhar diretamente para os rostos das ninfas. — Eu peço clemência por este jovem tolo que não conhece o peso de um voto. Aceitem o absinto e o alho como oferenda de paz de nossa aldeia, e permitam-me levar o desgarrado.

As Iele pararam o turbilhão. Elas olharam para o velho sábio e reconheceram nele o guardião das antigas alianças, alguém que sempre respeitara as leis da natureza.

— Ele quebrou o pacto, Moșneagul — sibilou a líder das fadas. — Ele buscou nossa música por vaidade. Ele pagará o preço.

— Que o castigo seja uma lição, e não a sua ruína — suplicou Moșneagul, mantendo a serenidade.

A criatura tocou levemente os lábios de Matei com a ponta de um dedo gelado. O círculo se desfez e, num piscar de olhos, as Iele desapareceram no ar, deixando apenas o som de risadas distantes e o orvalho da madrugada.

Matei caiu ao chão, tremendo. Ele estava vivo, mas quando tentou falar com o Moșneagul, nenhum som saiu de sua boca. Seus dedos, outrora ágeis na flauta, estavam rígidos e dormentes. Moșneagul o ajudou a se levantar com um olhar de profunda tristeza.

— Você buscou a beleza quebrando a promessa de respeito, Matei — disse o velho sábio, enquanto o guiava de volta para a aldeia. — As Iele pouparam sua vida em respeito aos nossos antepassados, mas levaram sua voz e sua música para que você aprenda a ouvir antes de querer ser ouvido.

Moral:
O talento e a ambição perdem todo o valor quando pisam no respeito e na quebra de votos sagrados. As tradições e os limites impostos pela sabedoria antiga não existem para limitar nossa liberdade, mas para nos proteger de forças que estão muito além da nossa capacidade de controle. Quem desonra um compromisso com a vida ou com a natureza acaba silenciado pelas consequências de seus próprios atos.
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CAILIN DRAGOMIR nasceu em 1949, na cidade de Timișoara, na Romênia.
Resumo biográfico pode ser encontrado no link

Fonte:
Texto enviado pelo autor.

Interlúdio * 16 *

 

Renato Benvindo Frata (Briga Infinda)


Não sei qual é o grau de intimidade entre Hypnos, o deus do sono, com Eos, a deusa da manhã, a que abre a noite para que o sol apareça assumindo o dia. Mas pelo pouco do sono de que desfruto, ou ela perdeu a relação com o tempo da noite, ou alguém está bêbado nessa história.
E não sou eu.

Disso sobra para mim que de olhos arregalados em plena madrugada, conto carneirinhos, quando não os carneio e asso na brasa viva da raiva com carvões de xingamentos e espetos.

O fato é que entre meu sono e as ordens de Hypnos para que eu durma, há um dissenso. Grave, incontrolável, eis que me tira o sono do horário em que deveria dormir e o põe à tarde, exatamente quando a obrigação do trabalho e da vida exigem que me mantenha sóbrio, de olhos bem abertos e com toda atenção às tarefas afins. É mole? 

Convivemos há tanto juntos, a nossa amizade é tão antiga que não deveria ser assim, afinal, se coloco o pijama e me deito numa cama limpa e macia com lençol e cobertas próprias para cada estação, a minha parte da relação entre o horário e o sono é cumprida como regem as normas e os costumes nesta parte do mundo. Portanto, se invariavelmente lá pelas tantas, abro os olhos para brigar com a lentidão do relógio, a culpa deve ser daquele que deveria, por ofício, zelar do meu descanso. Afinal, ele é um deus e, como tal, tem por obrigação cuidar para que suas ordens sejam acatadas.

Chama-me à atenção nessa introspecção de efeitos limitados ao sono atrasado, que só depois de milhares de horas não dormidas, de bolhas roxas sob os olhos, quilos de remela sistematicamente retirados, é que percebo que poderia, se previdente fosse, ter puxado com ele uma conversa de apaziguamento ou, ao menos, tentado uma solução para que acabe essa antipatia gratuita que o leva a vencer todas as pelejas noturnas me deixando abilolado.

É tão matreiro nesse vaivém entre vir e o não ficar, que parece fazer parceria com Mnemósine, a dama princesa das lembranças (das más e boas), que todas as noites insiste em trazer para minha cama um monte delas pondo-as frente aos meus olhos com a imagem de uma pena de escrita e um tinteiro de viscosa tinta para, com elas, registrar no meu livro da vida, com caligrafia mal acabada, coisas que já se encontravam sujeitas á deterioração no cofre do esquecimento.

Com a meiguice das princesas, pois, ela as ressuscita uma a uma com o fim de infernizar e criar momentos difíceis pela inconveniência porque essa machuca em dobro, age como torquês a picotar partes do coração e morsas a espremê-lo e, ao fazê-lo, arrancam-me gemidos sem que possa, nesse torpor, identificar seus porquês. Macera e esmigalha sentimentos quando não age como dona de uma verdade em que para a certeza, a incerteza não existe, e com essa gana, fica em minha mente até que o sol se intrometa vazando pelos vãos e se esparrame pelo lodo a clarear o quarto, afastando de vez o sono.

Quando, porém, essa princesa escreve as boas lembranças a me abarcarem, as noites não dormidas se transformam em alicerces da reconstrução da vida emocional saudável, um suporte a me encorajar para o enfrentamento de angústias, incertezas e segurança, nos muitos momentos tristes de peito cravejado de vazio.

Aí, aos poucos, ressono com os lábios espichados, lânguidos, sensíveis, e ouso dizer que, mesmo perdida a peleja nessa intrincada relação com Hypnos, ficar acordado nessa condição vale a pena.

Por isso, sinto que até sorrio... e faço do quase sono um lindo sonhar.
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RENATO BENVINDO FRATA, nascido em Bauru/SP é um dos principais pilares contemporâneos da cultura de Paranavaí (onde se radicou) e de todo o Noroeste do Paraná. Paranaense por adoção, ele consolidou uma trajetória sólida que une o rigor do ambiente acadêmico e jurídico à sensibilidade das crônicas e contos do cotidiano. A atuação profissional de Renato Frata é marcada por múltiplas frentes técnicas e intelectuais: Atua firmemente como advogado na região; Também possui formação e exerceu atividades como contador; Dedicou grande parte de sua vida ao ensino superior como professor universitário, encontrando-se atualmente aposentado das salas de aula.
O interesse de Frata pela literatura surgiu "desde moleque" por influência direta do pai e do irmão, que eram grandes leitores. Começou arriscando versos ao se apaixonar na adolescência, migrando mais tarde para a prosa, gênero no qual se consagrou. Sua caminhada é pontuada por conquistas institucionais e premiações: Na década de 1990, seu conto A Pá de Polenta foi premiado no renomado FEMUP (Festival de Música e Poesia de Paranavaí), dando um impulso definitivo à sua carreira pública de escritor. Fundador e presidente de honra da ALAP (Academia de Letras e Artes de Paranavaí), instituição que já presidiu por diversas gestões e onde continua engajado na promoção cultural local. O autor escreve de forma disciplinada, utilizando crônicas e contos para registrar memórias da infância e observações do dia a dia. Suas crônicas circulam frequentemente em veículos de imprensa da região, como o Diário do Noroeste (https://diariodonoroeste.com.br/).
Principais obras publicadas: A Pá de Polenta (Conto expandido focado em memórias de infância); Reflexão dos Cinquenta (Contos); O Sapo Chorão e Rosso Saladete, o Intrépido Tomate (Obras voltadas ao público infantojuvenil); Fragmentos (Livro que reúne 102 crônicas e excertos lançado originalmente em 2022/2023); Crepúsculos Outonais (Coletânea de contos e crônicas lançada em 2025)
A relevância de Renato Benvindo Frata transcende as páginas de seus livros, gerando impactos profundos no ecossistema cultural do Paraná: Seu livro Reflexão dos Cinquenta carrega o marco histórico de ser a primeira obra literária solo publicada por um escritor radicado em Paranavaí, abrindo as portas do mercado editorial para outros talentos locais. Cronista do cotidiano do interior. Suas narrativas capturam a sensibilidade da vida no campo, as tradições familiares e a evolução urbana do Noroeste do estado. Ao fundar e capitanear a ALAP, ele ajudou a tirar Paranavaí do isolamento literário, integrando a cidade em encontros estaduais de academias e promovendo o intercâmbio de novos autores com o público universitário e escolar.

Fontes:
Renato Benvindo Frata. Crepúsculos outonais. Paranavaí/PR: EGPACK Embalagens, 2024. enviado pelo autor. 
Biografia = Diário do Noroeste; Sesc Parana e UCPPARANA.EDU