Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 27 de novembro de 2010

Silveira Neto (Antologia Poética)


ANTÍFONA

Noite de inverno e o céu ardente de astros,
Com a alma transfigurada na Tortura,
Olhava estrelas, eu, crendo-as, em nastros,
Almas cristalizadas pela Altura.

Frio da noite é o pólo em que o uivo escuto
Do urso branco do Tédio, em brumas densas;
É bar glaciário que nos vem do luto
Da avalanche de todas as descrenças.

A noite é como um coração enfermo;
Rito de almas de maldições cobertas.
Alma que perde a fé muda-se em ermo,
Ermo de tumbas pela vida abertas.

Esse "réquiem" da Cor pelo ar disperso
Como que encerra, num delírio infindo,
Todo o soluço extremo do Universo,
Num concerto de lágrimas subindo.
É cenário do Fim que atroz se eleva
Desde que ao Nada o coração se acoite;
Pois, como o dia cede o espaço à treva,
Fecha-se a Vida nos portais da noite.

Se vem a noite num luar acesa,
Lembra uma cruz coberta de boninas;
A luz da lua é triste, — que a tristeza
É o sagrado perfume das ruínas.

É uma prece o luar, prece perdida
Por noite afora, em lívida cadência,
Como cada sorriso em nossa vida
Planta a cruz da saudade na existência.

Era de estrelas um enorme alvearco
A cúpula celeste escura e goiva;
E a Via-Láctea se estendia em arco,
Branca e rendada como um véu de noiva.

Depois gelada abrira-se, e na extrema
Nevrose eu vi formarem-se, de tantos
Astros, as duas páginas de um poema
Em que eram cor de lágrimas os cantos.

Cantavam as estrelas. Coros almos
O espaço enchiam de um rumor contrito
E histérico, a fundir astros em salmos,
Parecia rezar todo o Infinito.

No êxtase que os páramos outorgam
Aos visionários, eu surpreso via
Que, céus afora, como a voz de um órgão,
A salmodia d'astros prosseguia.

Erma de risos e de majestades.
Porque as estrelas são os magnos portos
Onde ancorou com todas as saudades
A dor de tantos séculos já mortos.

Desde Valmiki e Homero — esses profetas —
As intangíveis amplidões cerúleas
Ouvem, sangrando, a queixa dos Poetas,
Como um cibório de canções e dúlias.

Ermas de tudo que não fosse a mágoa,
As estrelas formavam o Saltério
Num brilho aflito de olhos rasos de água ...
E pelo espanto entrei nesse mistério:

Eis que um Visionário do Supremo Ideal,
ansioso de Azul e de infinito,
(Da ânsia de Azul que teve o Anjo Maldito
Após o castigo extremo)

E fatigado do torvo mundo espalto,
Onde a alma se nos vai muito de rastros,
Pôs-se a evocar a Paz Eterna do Alto;
Falou-lhe então a música dos astros:

LITANIAS

O mesmo céu-que nós olhamos, olho:
Mundos gelados de saudade; admire-os
A alma que tenha, abrolho por abrolho,
Toda a loucura e todos os martírios.

Jorro de pranto com que os versos molho,
A Via-Láctea é um desfilar de círios.
Quanta tristeza para os céus desfolho
Na doida orquestração dos meus delírios! ...

E vou seguindo a ver, pela amargura,
Que as estrelas são lágrimas da Altura,
Ardendo como os círios dum altar.

Nada mais resta: e a vida, fatigada,
De no meu corpo ser tão desgraçada,
Foge-me toda para o teu olhar.

A LUA NOVA

A Nestor Victor

No silêncio da cor, — treva silente —
Abriu-se a noite mádida e sombria,
Logo que o Sol, rezando: Ave, Maria ...
Fechou no Ocaso as portas de oiro ardente.

A terra, a mata, o rio, a penedia.
Tudo se fora pela treva e, rente
Ao céu, ficou a lua nova algente,
Como um sonho esquecido pelo dia.

Ela assim foi: morreu; desde esse instante
Pálido e frio, como a lua nova,
Ficou-me entre as saudades seu semblante.

Mas, ouve: quanto mais doida cresce
A noite que me vem da sua cova, :
Mais branca e inda mais fria ela aparece.

CANÇÃO DAS LARANJEIRAS

Laranjas maduras, seios pendentes
pela ramada, apojados de luz,

Que é das orinhas-nevadas e débeis,
caçoulas de incenso que o aroma produz?

Se elas recendem o ar todo se infla
num esto de gozo, nas frondes do vai,

Como se andasse o Cântico dos cânticos
abrindo-se em beijos no laranjal.

São elas o sonho da árvore em festa
pensando no fruto, que é todo sabor;

Assim a grinalda que enfiaram, das noivas,
é a aurora do dia mais claro do amor.

Infância, candura da estréia longínqua,
luz tênue que flui das auras do céu.

Depois do primeiro amor, o remígio
do sonho mais puro a que a alma ascendeu.

De sonho, bebido em taças que lembram
aquela de lavas, que um dia o vulcão

moldara em Pompéia, num seio de virgem,
talvez em memória de algum coração.

Fonte:
NETO, Silveira. Luar de hinverno e outros poemas (1901), in SIMBOLISMO / seleção e prefácio Lauro Junkes. São Paulo: Global, 2006. (Coleção roteiro da poesia brasileira)

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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