Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Luiz Paulo Faccioli (O Escritor no Espelho)

Angustiado e angustiante, Um erro emocional trata do velho conflito da incomunicabilidade

Um erro emocional
Cristovão Tezza
Record

192 págs.


Vou contar o milagre sem contudo dar o nome do santo, e a razão é das mais prosaicas: simplesmente não lembro qual foi o autor que uma vez ouvi afirmar ter por objetivo, ao conceber um novo livro, criar sempre algo diferente por completo de tudo que houvesse escrito até então, pois não achava graça alguma em repetir o já feito. Noutras palavras, não se contentava em ser apenas um escritor, queria ser uma espécie de vários em um. Talvez o desejo do criador de se reinventar a cada nova obra não seja uma ocorrência assim tão rara, por isso minha dificuldade em identificar aquele autor. A afirmação, por exemplo, poderia muito bem ter partido de Cristovão Tezza. Pensei nessa possibilidade ao concluir a leitura de seu romance Um erro emocional, o primeiro depois de O filho eterno, que levou todos os prêmios literários mais importantes do país. E nesse caso não seria mera idiossincrasia a necessidade de romper de forma radical com o passado, pelo menos com o mais recente.

Tezza teve de enfrentar dois grandes desafios para gerar a nova obra. O primeiro foi o estrondoso sucesso do livro anterior, situação que muitas vezes eleva a um patamar inatingível a expectativa do público e do próprio autor em relação ao novo trabalho. O segundo, o fato de O filho eterno trazer uma história pessoal e comovente: a experiência do pai que se vê na condição de ter um filho portador da síndrome de Down. Não havia como repetir o tema ou buscar outro drama pessoal equivalente: O filho eterno nasceu para ser único. Era um caminho natural, por assim dizer, que ele procurasse vencer esses obstáculos pela via do contraponto ou mesmo da completa ruptura. Mas, ao invés de inovar totalmente, Tezza voltou no tempo e retomou uma fórmula por ele já exercitada: a história que se passa num curto período de tempo, com alternância sistemática do foco narrativo e onde o que mais importa é a ação interior dos personagens. Foi assim no elogiado O fotógrafo, de 2004, cuja trama se desenvolve num único dia.

Um erro emocional se passa em algumas horas da noite em que o veterano escritor Paulo Donetti bate à porta da jovem e bonita Beatriz, uma garrafa de vinho e uma pasta na mão, e anuncia ter cometido o tal erro. Ele é paulista e autor do bem-sucedido romance A foto no espelho, mas vive uma fase ruim na carreira; ela é sua leitora e fã. Os dois se conheceram um dia antes em Curitiba, onde mora Beatriz e aonde Paulo viajou para participar de um evento literário. O encontro fora casual. Beatriz jantava na companhia de um antigo desafeto de Paulo, Cássio, um também escritor que ele havia impulsionado no início de carreira e que mais tarde devolveu a gentileza criticando-o duramente numa resenha. Depois de conhecer Beatriz, Paulo decidiu prorrogar sua permanência na cidade. O erro emocional a que ele se refere é esclarecido logo em seguida à sua entrada em cena, quando declara ter-se apaixonado por ela. Contudo, após o preâmbulo melodramático e contrariando a expectativa do leitor, a conversa envereda por outro caminho, e Paulo revela, agora de um jeito menos abrupto, o verdadeiro objetivo daquela visita: ele quer que Beatriz digite, revise e organize os originais de um novo livro, e é isso justamente o que ele traz naquela pasta.

Estrutura complexa

Seria muito menos difícil listar o que o livro não conta do que resumir o que efetivamente acontece nessa noite, a começar pelo desfecho, que o leitor terá sozinho de imaginar. Paulo e Beatriz quase não falam, um mais contido que o outro. Ele fracassou em mais de um relacionamento, teve sua rebeldia adolescente domada pelo pai e se deixa levar em alguns momentos por aquela arrogância patética dos gênios decadentes. Beatriz, por sua vez, perdeu a família inteira - pai, mãe e irmão - num acidente de carro e tampouco teve sorte no casamento. Ambos estão divorciados e temem novas frustrações amorosas, por isso a ansiedade, a dúvida e a trava. Como não conseguem avançar no relacionamento, a história que constroem juntos é tênue, e o que existe de mais concreto no encontro é o que vai em suas cabeças. Resulta que o leitor fica sabendo muito mais dos personagens do que eles conseguem descobrir um sobre o outro.

A narrativa tem uma estrutura bastante complexa: um narrador em terceira pessoa costura a ação presente mesclando os dois pontos de vista principais, que emulam o diálogo interior de cada um dos personagens. O passado é construído com flashbacks que vêm da memória dos dois. Há ainda uma projeção de futuro: Beatriz imagina a todo momento como irá descrever à amiga Doralice a experiência que está vivendo nessa noite, solução que garante alguns momentos de humor e conseqüente descontração numa história de uma densidade que chega em alguns momentos a ser claustrofóbica.

A edição da Record vem numa bonita e sóbria capa em azul, num contraste talvez proposital com o vermelho usado em O filho eterno. O título, pinçado da frase de abertura, fica a meio caminho entre a sacada genial e um daqueles conceitos fabricados da auto-ajuda, o que reflete de certa forma a entressafra criativa de Paulo.

Em resenha de Um erro emocional para a Folha de S. Paulo, o jornalista e professor Felipe Pena usa dois conceitos aparentemente contraditórios para qualificar a prosa de Tezza. Ele afirma que o novo livro "traz de volta a narrativa delicada do escritor", para logo adiante ressaltar seu "discurso suntuoso". Ora, é difícil imaginar algo que seja a um só tempo "delicado" e "suntuoso", mas os dois adjetivos convivem harmoniosamente neste caso.

A suntuosidade do discurso é evidente. Tezza segue apostando nas frases longas e de ritmo lento, sua marca registrada e que já se observou estar na contramão de uma tendência atual. Mas essa característica, longe de se configurar um demérito, com ele se transforma em virtude estilística. Coordenar diferentes vozes de forma simultânea é outro luxo, um exercício que exige talento e competência narrativa, e isso Tezza tem de sobra. Há contudo uma dissonância: para emular um diálogo interior a duas vozes, Tezza usa uma pontuação mais livre, desafiando a ortodoxia gramatical, o que pode trazer alguma dificuldade ao leitor. Um bom exemplo são os travessões, como se pode ver no belo trecho escolhido para ilustrar esta resenha. A idéia talvez tenha sido mesclar as vozes de modo a que elas se confundissem e formassem uma unidade. Mas nem sempre o leitor consegue abstrair o tanto que o autor quer, e em vários momentos fica perdido.

Quanto à delicadeza citada por Pena, ela tem origem na concorrência de vários outros fatores: sutileza, bom gosto, elegância, ourivesaria dos detalhes são alguns deles. Tezza não quer chocar o leitor, mas seduzi-lo. Para tanto, revela pouco e esconde muito. Ele não pretende ser transgressor, mantém o léxico num padrão elevado, está inclusive bem mais comedido no uso de palavrões (em contraste com a gratuidade com que eles aparecem em O fotógrafo). Toda sua força criativa está concentrada na história que quer contar da maneira mais original e melhor possível e buscando ao máximo a participação do leitor.

Um erro emocional é um livro angustiado e angustiante em cuja essência está o velho conflito da incomunicabilidade. Foi com ele que um dos melhores escritores brasileiros da atualidade conseguiu driblar um adversário difícil e retomar às suas origens.

O AUTOR
CRISTOVÃO TEZZA é catarinense de Lages e vive há muitos anos em Curitiba (PR). Tem formação em Letras, foi professor universitário nessa área e desde 2009 dedica-se exclusivamente à literatura. É autor de vários romances: Trapo, O fantasma da infância, Aventuras provisórias, Breve espaço entre cor e sombra, A suavidade do vento, O fotógrafo e O filho eterno, entre outros. Ganhou muitos prêmios importantes em sua carreira, em especial com O filho eterno, que levou o São Paulo de Literatura, o Portugal Telecom, o Jabuti, o Bravo!, o Zaffari & Bourbon e o APCA.

TRECHO - Um erro emocional - Esse trecho - e Beatriz abria outra vez aquele ramalhete amarelo de papéis querendo puxá-lo de volta à realidade e ao mesmo tempo lisonjeá-lo; ela queria falar daqueles versos avulsos sobre o poder da memória e ele entristeceu súbito porque não pode sair daqui sem explicar melhor o que disse quando entrou (e para Beatriz continuava sendo um jogo bem-humorado, ainda sem lastro, apenas a alegria de tê-lo por perto, o seu autor preferido, tão à mão e tão, quem sabe, frágil) - está muito bonito, e lembra a intensidade do A foto no espelho. Escute: Amanheceu -

Fonte: Rascunho

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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