Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 22 de dezembro de 2012

J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou") Parte 7


Amadeu Amaral
(Amadeu Amaral Ataliba Arruda Leite Penteado)
(Capivari/SP, 6 de novembro 1875 – São Paulo/SP, 24 de outubro de 1929)

" SONETO "

Tudo isto há de passar, de certo, muito em breve...
Branca névoa sutil, ir-se-á quando o sol nasça;
branco sonho de amor, passará, como passa
ondas em fúria uma garça de neve.

Passará dentro em pouco, imitando a fumaça
que se evola e se esvai nas curvas que descreve.
Fumaça de ilusão, força é que o vento a leve,
força é que o vento a leve, e disperse, e desfaça.

Que importa! Uma ilusão que nos alegra e afaga
há de ser sempre assim, no mar bravo da vida,
como a espuma que fulge e morre sobre a vaga.

Esta me há de fugir esta que hoje me inflama!
E antes vê-la fugir como uma luz perdida
que possuí-la na mão como um pouco de lama . . .

" SONHOS DE AMOR ..."
   
Sonhos, sonhos de amor... Enganosa miragem
do deserto. . . fulgor de insidiosa lagoa
a sorrir e a tremer sob a fresca ramagem,
na aparência feliz da água límpida e boa...

Castelo de fumaça a embalar-se na aragem
e que de brusco rola e no azul se esboroa . . .
Rútila espumarada oceânica . . . paisagem
que vista ao longe encanta e que de perto enjoa.

Borboletas ao sol... íngreme e dura serra,
que na luz do horizonte afunda as amplas cristas,
lembrando uma região de paz dentro da terra . . .

Paisagem, borboleta, águas, espumaradas!
Ilusório clarão das cousas entrevistas!
Passageiro esplendor.
=============

Amélia de Oliveira   
(Niterói/RJ, 1868 - 1945 )
Noiva de Bilac, para quem fez este soneto, após o rompimento do noivado, imposto por seu irmão mais velho, José Mariano de Oliveira.

" PRECE "

Não te peço a ventura desejada
nem os sonhos que outrora tu me deste,
nem a santa alegria que puseste
nessa doce esperança já passada.

O futuro de amor que prometeste
não te peço! Minha alma angustiada
já não te pede, de impossível, nada,
já não te lembra aquilo que esqueceste!

Nesta mágoa sorvida ocultamente,
nesta saudade atroz que me deixaste,
neste pranto que choro ainda por ti

nada te peço! Nada! Tão somente
peço-te agora a paz que me roubaste,
peço-te agora a vida que perdi!

SONETO *

Noite fechada! O espaço inteiramente
 É trevas, Que tristeza encerra esta hora
 Em que tudo é silêncio e a alma que chora
 Abafa as vozes do sofrer latente!

 Mas um canto vibrou, longe, plangente...
 Quem é que a solidão perturba agora?
 OH! Quem se atreve pela noite afora
 Um grito desferir, lugubremente?

 É, porventura, uma alma forasteira,
 Que vagueia, sozinha na espessura
 Da noite, procurando a companheira?

 Não... Talvez seja a gargalhada insana
 De alguma ave de agouro que procura
 Escarnecer da dor da vida humana!
=============

Amélia Tomas
(Cantagalo/RJ, 1897 – 1992)

" SONETO ANÔNIMO "

Vem de longe este amor. Me nasceu um dia,
em que, no teu olhar, pousando o olhar tristonho
vi, entre o ouro do teu, que harmoniosa subia,
a estranha procissão das estrelas do Sonho.

Desde então foi assim, de porfia em porfia,
eu, buscando esconder num presságio risonho,
tudo quanto em tua alma em livro aberto eu lia,
tudo quanto em minha alma, ora morrer, suponho.

Mas em vão. Ele surge intempestivamente
ao clarão de teu nome, iluminando um poema
de uma página morta, em que o enredo se trunca.

E volta a florescer, em primavera ardente,
tão vivo, tão real, bradando em voz suprema,
que este é o amor imortal que não se esquece nunca!

" SONETO DE OUTONO "

Aproxima-te, Amor, antes que inteiramente
se afunde, noite a dentro, esta tarde que cai.
Vem olhar de bem perto a glória desse poente
que, irisado de luz, agoniza num ai.

Vem bem depressa, Amor! Meu coração contente,
o rumor de teus pés, - que a esmagar folhas vai, -
num grande, estranho, inquieto anseio, já pressente
deslumbrado, no fim da tarde que se esvai!

Aproxima-te mais, antes que a noite desça. . .
Vê - o sol vai fugindo e em mim paira o receio,
de que ele, ao despedir seu ultimo lampejo,

não veja junto a mim tua amada cabeça,
para no fim da tarde emocional que veio
poder iluminar nosso primeiro beijo!

AMOR **

Outr'ora eu te buscava na confiança 
De achar em ti, Amor, o bem superno, 
E o jovem coração, todo esperança, 
Por que te cria um deus, julgou-te eterno.

Mas, de mudança andar para mudança, 
De um inferno rolar para outro inferno, 
Descrente acreditei que tudo alcança 
Quem te pode evitar, veneno interno. 

Hoje, que empós do Ideal, de tal maneira,
Que mais parece célere corrida, 
Vou na insânia infeliz desta canseira,

Eu te olho e te abençôo agradecida, 
Como a ilusão melhor, mais verdadeira, 
Entre as fugazes ilusões da vida …

PARÁFRASE DE UM PENSAMENTO DE TSÁO CHANG LIANG **

Noite amena, aproxima-te quietinha, 
Vem a meu quarto ouvir o meu pedido: 
Estou triste, calada anda a voz minha, 
Não há canto que agrade a meu ouvido. 

Noite serena, outr'ora, alegre, eu vinha 
Implorar-te que o ouro mais polido 
Das estrelas que, em véus, teu seio aninha, 
Jorrasses no meu verso comovido. 

Hoje, noite querida, eu não te imploro 
O sono de meus olhos, nem te exoro 
Dar repouso sereno aos meus cansaços. 

Peço-te apenas isso: O' noite! Escuta! 
— Sossega o coração que sofre e luta 
Adormece-o, cantando nos teus braços!

PANTEISMO **

Vem abrir para o sol os teus olhos contentes 
Diante da natureza e, em profano ritual, 
Alma! às árvores conta a estranha ânsia que sentes 
Em cada ondulação de cada vegetal! 

Onde um rumor de vento entre as folhas pressentes, 
Ouves um coração que te segreda e é tal 
A alta repercussão dessas forças latentes, 
Que vês na árvore um templo e na folha um missal. 

Talvez, há muito tempo, em séculos distantes, 
Por capricho de um deus foste árvore; de então 
Guardaste a compreensão dos galhos soluçantes...

E de transmigração para transmigração, 
No teu sangue ainda flui, em átomos errantes, 
A angústia vegetal que há no teu coração …


Fontes:
– J.G . de  Araujo Jorge . "Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou". 1a ed. 1963
* – Amélia de Oliveira: Soneto. Disponível em Antonio Miranda 
** – Amélia Tomas: Amor; Panteismo e Paráfrase de um Pensamento de Tsáo Chang Liang. Disponível em Antonio Miranda 

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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