Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 23 de dezembro de 2012

J. G. de Araújo Jorge ("Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou") Parte 8


Ângelo de Sousa
(Santos/SP, 8 dezembro 1871 – São Paulo/SP, 4 outubro 1901)

" BOCA INFERNAL "

Bipartido morango, os lábios frescos
de um rubro de framboesa machucada!
Há, nessa boca fina, e delicada
curvatura de raros arabescos.

Os prazeres vivazes e grotescos
- licenciosa volúpia exagerada! -
foram todos pousar, em revoada,
nesse ninho de gozos sultanescos.

Deixem-me, pois, viver a vida amante
a beijar uma tão divina boca
toda ambrosia, feita de desejos;

e enquanto eu sonho assim, a fulgurante
boca pequena a minha prendo, louca,   
numa valsa fantástica de beijos!
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Anna Amélia
(Anna Amélia Queiroz Carneiro de Mendonça)
(Rio de Janeiro/GB, 27 agosto 1896 – Rio de Janeiro, 31 março 1971).

" MAL DE AMOR "

Toda pena de amor, por mais que doa,
no próprio amor encontra recompensa.
As lágrimas que causa a indiferença,
seca-as depressa uma palavra boa.

A mão que fere, o ferro que agrilhoa,
obstáculos não são que amor não vença.
Amor transforma em luz a treva densa.
Por um sorriso amor tudo perdoa.

Ai de quem muito amar não sendo amado,
e depois de sofrer tanta amargura,
pela mão que o feriu não for curado.

Noutra parte há de em vão buscar ventura.
Fica-lhe o coração despedaçado,
que o mal de amor só nesse amor tem cura.
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Anthero Bloem
Anthero Augusto de Albuquerque Bloem
Campinas/SP, 7 fevereiro 1878 – Rio de Janeiro/GB, 23 outubro 1919)

" CRISTO DE MARFIM "

Quando depões sabre o teu Cristo Amado,
esse Cristo que pende de teu peito,
ungido de ternura e de respeito,
um beijo de teu lábio imaculado,

eu, sacrílego, sinto-me levado
- ou seja por inveja, ou por despeito -
a arrebatar o Cristo de teu peito
e em teu peito morrer crucificado . . .

Mas, quando vejo de teu lábio crente
cair sobre o Jesus a prece ardente,
talvez por nosso amor, talvez por mim,

ardo na chama intensa dos desejos
de arrependido, sufocar meus beijos
nesse teu alvo Cristo de Marfim . . .
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Antonio Braga   
(S. João da Barra/RJ, 1898 – ?)

" CARRO DE BOIS... "

A pensar neste amor, nesta tarde cinzenta,
tão distante de ti - primavera gloriosa -
paira o meu triste olhar pela estrada poeirenta,
onde um carro de bois segue em marcha morosa.

Rola o carro a gemer nessa música lenta
que me faz recordar tanta coisa saudosa!
Velho carro de bois! O seu gemer aumenta
esta ânsia que me põe toda a alma dolorosa.

Eu invejo, afinal, esse carro gemente,
que parece ter alma e parece que sente
a tristeza do amor que palpita em nós dois...    

Coração! Coração! A saudade é infinita.
E não podes gritar como esse carro grita,
e não podes gemer qual o carro de bois! . . .
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Antonio Lôbo 
(Antônio Francisco Leal Lôbo)
(São Luiz/MA, 4 julho 1870 – São Luiz/MA, 24 junho 1916)

" IMUTÁVEL "

Decerto estranharás que nos meus versos,
nestas quadras de amor que vou rimando,
nunca o teu nome passe, perfumando
os meus pobres vocábulos dispersos.

E quedarás talvez, triste, pensando,
- os negros olhos em pesar imersos -
que os meus afetos de hoje são diversos
desses que outrora eu te contei, cantando.

E, no entanto, este amor, velado, embora,
é ainda o mesmo que ele foi outrora,
da mesma forma ainda o meu astro anima.

Que eu oculte o teu nome, nada prova,
porque estás toda, inteira, em cada trova
e vives palpitando em cada rima.
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Antonio Zoppi
(Americana/SP, 12 setembro 1923 – 16 julho 2010)

" AGRADECIMENTOS "

Hoje eu regresso à minha vida antiga,
despreocupado com o meu futuro.
E embora vendo meu presente escuro,
olho o passada e me conformo, amiga.

A vida é assim: nos dá, depois castiga...
E quando lembro aquele amor tão puro
que dediquei a um coração perjuro,
aumenta a mágoa que meu peito abriga.

Porém, não ligo, sou indiferente.
A própria dor vai ensinando a gente
a não chorar o que já se perdeu.

Pois ao contrário de ficar sentido
estou feliz, e muito agradecido,
pela saudade que você me deu...
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Apollo Martins

" ALMA CRUENTA"

Vinte e seis anos só... Tão pouca idade,
tão pouca idade e tantos desenganos...
Como me fere fundo uma saudade!
Como me causam, suas garras, danos!

Não tive infância, em minha mocidade
cercado fui de afetos desumanos
de mim, sempre fugia a alacridade,
possua a fé e a crença dos profanos!

E, como um bardo sonhador, eu sigo
sentindo que a meus ombros um castigo
muito maior que o de Jesus me pesa...

E tu, visão formosa, loura e santa,
se passares por mim – de leve, canta...
Se pensares em mim – baixinho, reza…
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Aracy Dantas de Gusmão
(Porto Alegre/RS, 26 novembro 1886 – Rio de Janeiro, ???)

" NÓS DOIS "

Tu és a força, eu a fragilidade.
Tu tens cérebro, e eu tenho coração...
A tua vida pautas na vontade,
e a minha vida toda é uma ilusão.

Tens a lei do trabalho e da igualdade,
exaltas tudo quanto é nobre e são,
e eu fiz a minha gloria da humildade
de viver sob o jugo dessa mão.

Tu tens o olhar dominador, profundo,
eu tenho o olhar mais triste que há no mundo,
cheio sempre das sombras do sol-por...

Eu e tu. . . Tão diversos! Mas, no entanto,
como é que nos queremos tanto e tanto
se eu sou tão fraca e tu tão forte, amor?

" O SHEIK "

Foste rei de uma tribo - e eu fui, de certo,
a tua predileta companheira,
aquela que, a sorrir, seguiu de perto
a tua vida nômade e altaneira.

O teu rosto moreno é um livro aberto:
- vejo os leques rendados da palmeira,
o oásis a sorrir para o deserto,
e a tenda pequenina e hospitaleira.

Teus olhos - cor da treva e do pecado -
fazem meu coração descompassado
mil romances esplêndidos sonhar...

E em teu vulto sorrindo a minha frente
vejo a Arábia, o deserto, a noite ardente,
e a glória de ser livre para amar!

Fonte:
– J.G . de  Araujo Jorge . "Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou". 1a ed. 1963

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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