Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 29 de dezembro de 2012

Manoel Santos Neto (Universo Poético da Cidade de São Luís do Maranhão III)

O jornalista e escritor Erasmo Dias (1916-1981) foi um intelectual maranhense que se notabilizou não apenas por escrever textos que tratam do sentido da vida, da solidariedade, do amor, da amizade, da devoção à pátria, das angústias, das grandezas e heroísmos da natureza humana. Ele publicou obras hoje pouco conhecidas, nas quais refletiu a claridade de sua cultura e de seu talento literário. São textos que, na sua quase totalidade, espelham meio século de vida maranhense, e constituem, por isso mesmo, um testemunho e um documento. Erasmo Dias, esse autor que somente agora começa a ser resgatado por uma nova – embora ainda tímida - leva de estudos e pesquisas, é dono de uma formidável produção literária, na qual ele procura retratar a gente, a cultura, as ruas, os mistérios e as mazelas de São Luís.

Com a força de sua expressão poética, o escritor Nauro Machado, ajustado à fonte inspiradora de tantos outros amantes da cidade, compõe também uma homenagem especial a São Luís com os versos do poema Pão Maligno com Miolo de Rosas, publicada em livro homônimo. Esta não é a primeira vez que o poeta publica uma ode a São Luís, sendo que a diferença é ser uma única peça poética em 95 páginas. Antes, ele editou Lamparina da Aurora, que reúne cerca de 100 poemas sobre a cidade. Escrito em redondilha maior, Pão Maligno com Miolo de Rosas tem um significado marcante para Nauro que, na hora de expressar o amor pela terra natal, vai além do aspecto físico da cidade. “Tento mostrar São Luís não só em sua esfera arquitetônica, mas em sua atmosfera moral, a sua decadência”, afirma. Daí o título do livro, Pão Maligno com Miolo de Rosas, que resume a idéia de mostrar em versos as belezas e as mazelas da cidade. O poema, inicialmente, integrava outro livro, Trindade Dantesca, que traria três trabalhos do poeta. O desmembramento da obra começou com a publicação de A Rocha e a Rosca. Nas 95 páginas, o poeta recria em versos viscerais os caminhos da cidade que aprendeu a amar, apesar dos problemas vivenciados em seu cotidiano. O título resume o objetivo do livro: falar da magia e dos desencantos da Ilha.


“São Luís, meu universo,
como uma noturna faixa,
apregoando verme e verso
para a dor que em mim se racha,”

Diz em uma das estrofes do poema dedicado, à cidade e às netas Luísa e Júlia. A cada rima, o poeta reconstrói São Luís, com sua gente, cultura, ruas, belezas e tragédias.

“No Mercado, que é Central,
meu canto palafitou-se,
ó Gavião de pedra e cal,
cemitério que é tão doce” (...)

“Nas ruas de São Luís,
nas ruas do Precipício,
da Palma e também do Giz,
da virtude igual ao vício,”
.

Tanto quanto Erasmo Dias e Nauro Machado, outros maranhenses ilustres, e de produção recente, merecem ser objeto de releituras, como Bernardo Coelho de Almeida (1927-1996) e Lago Burnett (1929-1995). Aliás, Burnett, numa de suas crônicas antológicas, publicada no Sul do País, faz um formidável louvor a São Luís, lembrando que o tema da cidade e seus signos é um velho fascínio que transcende o universo da ficção literária para encontrar sólidas raízes na filosofia, nas artes plásticas e, obviamente, na arquitetura. Desde as cidades ideais de Platão à decantada Paris do século XIX, repensada por Walter Benjamin (1892-1940), através da obra de Charles Baudelaire (1821-1867), da Alexandria prostituída e cheia de odores de Lawrence Durrell (1912-1990) às labirínticas arquiteturas de Jorge Luís Borges (1899-1986), é possível reconstituir o inventário dos lugares por onde andaram o pensamento e a imaginação humanas, ao redimensionar, em grau maior ou menor de realidade, a sua organização espacial.


A Última Canção da Ilha
Lago Burnett

Trarei sempre verde
gaivotas e sal:
a lembrança não perde
a ilha inicial

Nem descuido as brisas
o mar de imundícies
(minhas pesquisas
bóiam às superfícies)

A obsessão do cerco
por ínvias águas
é o em que me perco
entre - agora - mágoas

Autêntico Atlântico
aleou-me todo
quanto de romântico
mergulhou-me em lodo

Oh! velas belas
ao ritmo transeunte
vosso, belas velas
que eu me unte

Trago-me à retina
de mastros e quilhas
cheia a sina
de todas as ilhas

Código pressago
de pássaro marítimo
na alma trago
canto e ritmo

Que é quanto me sobre
por ter-me feliz
ao sol que encobre
minha São Luís

Onde era só
com hábil engenho
quanto virou pó
tudo que não tenho

Idéias descalças
desfiando saias
longas como valsas
pelas praias

A primeira estância
ao céu abstrato
coisas como infância
ritmando com mato

Outros poucos casos
como águas insípidas
nos olhos rasos
saudades líquidas

(Os Elementos do Mito / l953)

–––––––––-
Continua…
Fonte:
Suplemento Cultural e Literário JP Guesa Errante
Edição 116. 20 de janeiro de 2006

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to