Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Adolfo Caminha (Velho Testamento)

... Insensivelmente o charuto caiu-me dos dedos e eu fiquei na primitiva abstração, numa espécie de sonambulismo artificial e deleitoso, – pernas ao comprido, torso derreado na velha poltrona de couro-da-rússia, olhos além, no grande busto a crayon de Virgínia, trabalho de um desenhista francês.

            A noite estava úmida e sem luz, misteriosa como uma criação de Poe; o contrário da minha querida sala, do meu atelier de escritor, onde se podia gozar um ambiente morno, leve, outonal.

            O cérebro, num de seus dias de ócio brejeiro, recusava o trabalho sutil das idealizações artísticas, parado quase, no meio torpor de uma alma que se volve toda para o passado num dilúculo de nostalgias.

            O olhar, preso ao busto, via nele, esteticamente corporificadas, as minhas loucuras de outro tempo, loucuras inconscientes da mocidade, entusiasmos de rapazola que antes de tudo é homem e, depois de homem, artista.

            Virgínia... Era ela, sim, – o primeiro fruto proibido que meus olhos tocaram –; ela, a primeira mulher que eu amei como deve amar um coração de vinte anos – rindo e folgando; ela, magrinha, inteligente, delicada, de uma simpleza que ia até ao pudor ingênuo das raparigas do campo; a “francesinha”, como eu a chamava quando ainda nenhum fio branco dava sinal de velhice à minha cabeça de longos cabelos fulvos, secretamente adorada nos misteriosos boudoirs do grand monde.

            Fui-me, então, pelo passado numa romaria espiritual de velho peregrino do Amor, os olhos presos ao busto, a imaginação longe, bem longe daquela atmosfera de silêncio e repouso, trancada aos rumores do inverno, discretamente abafada em penumbra macia de estufa...

            Virgínia...

E sempre a mesma ideia, sempre a mesma obstinação, como se diante de mim houvesse uma esplêndida galeria de quadros originais, representando cada um episódios em que Ela e eu figurássemos numa deliciosa permuta de afetos.

            Um, sobretudo, um desses quadros imaginários, vagamente esboçados pela fantasia do espírito, dominava os outros, pondo sobre eles o luto de um crepe intangível...

            O desenhista pintara Virgínia moça, Virgínia bela, Virgínia em toda a sua perfeição de mulher modelo, – grandes olhos de hebreia, negros e luminosos, fulgurantes, numa irradiação perene de vida; boca pequena e sensual, calando revoltas de temperamento, instintos da natureza animal; face alongada...

            Mas, eu via-a como só a vira uma vez:

            Floriam rosas numa opulência triunfal de cores. Tínhamos vindo, eu e Ela, de um pic-nic na montanha, onde fôramos esquecer um pouco a monotonia da existência, por um soberbo outono, cheirando a resedás.

            Partíramos cedo, a cavalo, num trote suave, beirando a floresta escura e profunda, de um verde carregado que se alastrava indefinidamente.

            Ao vê-la nos seus trajes de amazona, rebenque e espora, ostentando o garbo marcial de uma inglesinha do Hyde-Park, o véu desprendendo-se em asas de borboleta ombro fora, lembrei-me da encantadora criação de Gautier na Mademoiselle de Maupin. E, com efeito, havia no porte esbelto, quase vaporoso, de Virgínia essa desenvoltura enérgica e viril da célebre duelista, essa arzinho petulante, um pouco artificial e muitíssimo graciosa que a fazia tão bela.

            Fomos...

            Que linda a manhã! Na mancha sombria do arvoredo abriam-se florações de um exotismo tropical. Para além a poeira branca da estrada quebrando-se em flexuosidades de serpente, e para trás as linhas indecisas do viveiro humano destoucando-se às primeiras nuanças da luz, como esses burgos risonhos que se erguem no meio da floresta americana.

            Ela, então, sempre alegre, numa garrulice infantil, disse-me cousas do passado, episódios da sua vida de menina quando a levavam ao campo; e ria sonoramente, achando muita graça no que ela própria ia narrando.

            Súbito pungia o animal, vibrava o rebenquezinho, e, passando adiante num galope, numa vertigem, dizia-me – adeus, como se voasse para um país longínquo.

            E eu, para que ela não me fugisse deveras, ia-lhe no encalço, rápido também, mordendo o lábio na ânsia de alcançar a minha Diana.

            Clareava. O bosque todo enchia-se de rumores, e, à proporção que nos aproximávamos, à proporção que a indiscreta luz do alvorecer tirava-nos da fusca penumbra matinal, espatulando as suas tintas vivas de ouro e azul por cima da floresta, mais aumentava o nosso bom humor.

            Chegamos, enfim, ao pitoresco recanto de paisagem que devíamos transformar em domicílio provisório.

            De um lado o aspecto igual do mar, o vasto oceano em repouso, numa grande estagnação luminosa, poeirado de ouro, e, em baixo, a planície, o formigueiro humano, a cidade e os longes da floresta...

            – Belo assunto para um poema! Gracejou Virgínia.

            – ... que eu talvez ainda faça, completei rindo.

            E, depois de um longo quarto de hora de êxtase, fomos a percorrer a natureza.

            – Sabes o que me parece isso? perguntei.

            – Isto é quê?

            – Este pedaço de floresta abrindo para o mar e nós dois quebrando a monotonia do verde? Faz-me lembrar a primeira página do Velho Testamento...

            Então Virgínia, com um sorriso de encantadora malícia, criticou a civilização, as exigências da moda, o viver contemporâneo, o luxo, o belo artificial; e, atirando para longe aquele arzinho de educanda, que lhe ia primorosamente, concluiu:

            – Pois olhe, meu amigo, eu vim à floresta recordar a Bíblia, mas a Bíblia dos hebreus, o grande poema da Criação... Isto aqui é deserto como o Paraíso. – Dispensa folhas de vinha...

            Não percebi logo. Iria ela tentar alguma loucura?

            Perto de nós, à sombra de uma árvore gigante, o cristal de um veio d’água ia despejar em cascata na frescura de um reservatório.

            Vejo-a como naquela manhã, vejo-a desabotoar o casaco, despir-se toda, e, formosa baigneuse, correr para o tanque. – Oh! exclamei numa surpresa de artista, cravando os olhos na pequenina estátua de Virgínia, que outra cousa não era aquele corpo ideal, quase transparente de mulher nova.

            Já agora o esplendor da luz coroava esta cena bíblica em que mais uma vez o homem e a mulher pecavam no seio da natureza, reproduzindo o eterno idílio de seus pais...

            Não era mais bela a amante do primeiro homem que esse tipo miniatural de judia do século dezenove cantando o ditirambo do amor livre em plena luz, num recanto de floresta.

            Virgínia emergiu cansada e trêmula, um quer que era de doentia morbidez na face e no olhar.

            – É extraordinário, disse ela, sinto um vulcão dentro de mim!

            Delicadamente ofereci-lhe cognac: – uma bebida inocente, um magnífico preservativo...

            Reconheci que não era aquele o seu estado normal e logo, cheio de temores, ocultando a minha inquietação, afetando a maior naturalidade, consolando-a, acordando-lhe o interesse pelos efeitos maravilhosos do sol que explodia num vasto incêndio, propus voltarmos.

            Ela não fez objeção: concordou friamente.

            E voltamos abandonando o pequeno farnel   que leváramos: a galinhola tostada, os sanduíches de presunto, os rabanetes... e o delicioso Reno cor de cidra...

            Tudo ficou marcando a nossa loucura incompleta ali no misterioso adito, sobre a relva umbrosa, onde também ficara o nosso bom humor expansivo, a alegria dos nossos corações.

            – Não estou boa, repetia Virgínia com um ar triste que me preocupava. Melhor fora não termos vindo...

            Mal podia se equilibrar e um suor copioso inundava-lhe a face.

            Evidentemente sofria.

            Longe ainda de qualquer auxílio, procurei entreter-lhe o espírito, guiando-a para as belezas da Arte moderna. – Oh, a Arte, ela não imaginava o que era a Arte! – E entrei a falar dos meus artistas prediletos, narrando episódios de sua vida íntima, caracterizando-os em síntese, nunca perdendo o tom familiar das nossas conversas.

            Ela também gostava da Arte, lia muito, admirava os grandes artistas como Flaubert, como Zola, mas preferia Gautier, “o incomparável Gautier, o mestre dos mestres!”.

            Eram breves as nossas pausas; ela, porém, repetia de vez em quando “que não estava boa, que sentia febre”...

            – Nervoso... Qual doente! Olha, já leste o último livro dos Goncourt?...

            E assim chegamos. Tomei-a nos braços; Virgínia caiu numa longa prostração.

            Na verdade a pobre criatura ardia numa febre intensa e não tardou que essa febre aumentasse com uma violência de explosão, irrompendo logo num delírio agitado e convulso. Em menos de uma hora perdera as tintas vivas do rosto num desmaio brusco.

            Houve um momento em que julguei enlouquecer. Virgínia ergueu-se no leito ajoelhando-se, a pedir socorro; que estava morrendo, que não a deixassem morrer tão criança, na flor dos seus vinte anos, brutalmente, sem ter gozado...

            E era uma pena, uma tortura, vê-la em ânsias, reagindo contra a soberania da morte, abrindo os braços: – que não queria morrer! que não queria morrer! – um brilho estranho nos olhos, fria, gelada...

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            Sei de mim que beijava-a, enlaçando-a, prendendo-a nos braços como se alguém m’a quisesse roubar...

            Justamente nesse ponto doloroso acordei. O busto de Virgínia sorria defronte de mim, talvez de meus cabelos brancos, talvez de uma lágrima triste que descia lenta no meu rosto...

(Adolfo Caminha, Rio-Revista nº 2, março de 1895)

Fontes:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.
Imagem = http://www.iped.com.br

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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