Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

domingo, 24 de novembro de 2013

Olivaldo Junior (Carta Aberta ao Caro Amigo)

Era uma vez um certo Harry, chamado o Lobo da Estepe. Andava sobre duas pernas, usava roupas e era um homem, mas não obstante era também um lobo das estepes. Havia aprendido uma boa parte de tudo quanto as pessoas de bom entendimento podem aprender, e era bastante ponderado. O que não havia aprendido, entretanto, era o seguinte: estar contente consigo e com sua própria vida.
Herman Hesse (1877-1962), em O lobo da estepe, romance de 1927


            Cá estou, caro amigo, de volta a escrever. Escrevo como se meus dedos precisassem disso. Eles precisam? Não sei, mas escrevo. E escrevo hoje para você. Você, que conheci há uns anos, faltando dias para o Natal. Escrevo para quem fez por mim o que poucos fariam. Escrevo porque preciso me levar aos trancos e barrancos para fora desse enredo em que somente eu me desenredo.

            Faz tempo que conheço o romance O lobo da estepe, do alemão Herman Hesse. Será que você já o leu? Se o fez, saberá o quanto de mim existe naquele homem, em Harry Haller, que se diz artista e com um lobo a pernoitar no escuro abismo da alma. Minha alma, ou uma de minhas almas, foi a de um jovem homem que se identificou com uma casa de escritores e dela fez o seu refúgio, sua franca morada, aberta a quem viesse, ou a quem pudesse encontrar. Essa casa, para mim, apartou-se da alma e me pus despejado de meu próprio canto. Hoje, o lobo em mim está no frio, e o homem que sou está sem jeito de abrigá-lo ao peito, sendo que, como Harry Haller, eu me digladio com meus próprios eus. Você, caro amigo, será que vê como eu mesmo me vejo? Será que me sente como eu mesmo me sinto? Houvesse vocação para o álcool, um absinto cairia bem. Bem me faz falta, amigo, você neste meu bar.

            Carrego meus versos, bons ou ruins, na mala do espírito, esperto e rápido colibri, que, embora a primavera enterneça os galhos e os ramos hostis, priva-se de flores e se exaure em espinhos. Sobre as pétalas de tanta espera, ainda o espero, meu caro, sob os olhos do relógio, com palavras entreabertas numa boca sem palavras. Lavro minha terra etérea com as cordas gastas de um violão, colocando a voz para letras outras que não as minhas, mas as que julgo belas, ou em vias de o ser. Olho, às vezes, uma foto sua e me pergunto o porquê de nunca termos convivido o quanto eu gostaria. Ria, você ria de algumas tiradas que eu tinha quando estávamos juntos. Não sei, amigo, na mais dura verdade, porque nunca estivemos mesmo juntos. Havia a promissora vontade de estarmos lá e firmarmos, sim, parceria. Um violão ficou de resto do que sequer me restou. Ainda o espero, por certo, e sempre o farei.

            Este texto também vem a ser uma nota de fuga: este ano me pesou nas costas como se eu levasse uma grande trouxa de roupas lindas que já não me servem. O Natal e o Ano Novo estão à porta. Você, caro amigo, sempre me vinha ver a essa época. A época melhor é a que estivemos lá. Por vezes, ainda me vem visitar, mas em sonho, com sua cara alegre e seu sorriso a me fazerem crer que sou mais que um lobo da estepe, mas um amigo, a classe de gente a que me afeiçoei e, desconfio, não pertenço. Este texto é que é seu. Obrigado a você e a quem me lê. Adeus.

Trovas sobre lobo, homem, Natal, Ano Novo e adeus

            Após tanto tempo prometendo e sem jamais cumprir, me despeço agora. Porém, como um sinal de apreço a quem me deu atenção e se importou comigo, escrevo e mando estas trovas, um gênero sobre o qual revivi.

Todo lobo é bom e mau,
porque mal e bem são folhas
com que Deus, original,
veste o homem nas escolhas.

Vários homens que sondei
carregavam esperanças;
nenhum pobre, nenhum rei,
todos eram só crianças.

O Natal, quando é dezembro,
reaviva a minha fé;
de mim mesmo, me relembro,
menininho de Javé.

Numa ‘nova’ sepultura,
Ano Novo se desfaz:
um guerreia na loucura,
outro pede pela paz.

Meu adeus é minha forma
de dizer que te respeito:
todo mundo segue a norma,
mas eu sigo deste jeito.


Fontes:
Olivaldo Junior, o poeta do Adeus
Imagem = http://www.br.bestgraph.com

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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