Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Nilto Maciel (Palmas e Tochas)

Pintura de Sebastião Salgado
Abriu a porta e o som do piano o inundou todo. Não conseguia enxergar nada. A não ser o palco, o pianista, o piano, mesmo assim sob uma luz pouca. Tateou espaldares de cadeiras. Tocou os dedos numa orelha. Ouviu um muxoxo feminino. Seguiu a passo de medo. E se não encontrasse uma cadeira vazia? Já quase acostumado ao ambiente, ainda mal enxergava as cabeças dos espectadores. Todos em silêncio, atentos à música vinda do palco. O artista não tirava os dedos das teclas. O retardatário parava, forçava a vista e nada de ver onde sentar-se. Caminhou mais para as primeiras filas de assento. Diante do palco finalmente viu uma cadeira vazia. Sentou-se, ajeitou-se e olhou para o homem de terno preto no palco. Conhecia a música. Talvez de Haendel. Ou seria de Grieg? Nunca conseguia distinguir um compositor de outro. Apesar de dormir ouvindo música erudita. Abominava música popular, principalmente as vozes. Admitia um chorinho. Os espectadores nem sequer tossiam ou espirravam. Pareciam pasmos, extasiados. Fitou a vista outra vez no homem do palco. Parecia encurvado, vestido de smoking,  cabeleira desgrenhada cobrindo-lhe o rosto. Passava de uma música a outra, sem intervalos, incansável na sua arte, no seu ofício de pianista. A plateia mal suspirava, contrita. Talvez muitos homens e mulheres cochilavam, dormiam até. Não roncavam, no entanto. Observou com mais atenção as mãos do artista. Não, não podiam ser mãos. A menos que estivessem cobertas por luvas grossas. Mirou mais aos membros do homem de smoking. Sim, eram garras, jamais mãos humanas. Seriam de lobo? Ou o músico, coitado, carregava um defeito grave? Doente, malfeito, deformado, um monstro na aparência. Então como conseguia tocar tão perfeitamente? As pessoas não teriam percebido ainda a deformidade tão visível? Ou perceberam, mas não deram importância àquilo? Ou estariam ruminando suas conclusões, sem terem com quem falar, medrosas? Cochichou ao ouvido de um vizinho. Quem era? O surdo parecia dormir. Como podia um surdo ouvir música? Voltou-se para o outro lado. Quem era? O vizinho sussurrou: Offenbach. Não, não queria saber o nome do compositor, mas o do pianista. O vizinho quis se irritar, mas segredou ainda: Não lhe interessava o pianista. Um desconhecido. O homem insistiu: Você está vendo o estado dele? Tudo muito obscuro. Como não sabiam o nome do pianista? Seria em razão da obscuridade do palco ou do obscurantismo dos ouvintes? Resolveu levantar-se e dirigir-se à beira do tablado. Abaixar-se-ia, iria de joelhos, arrastando-se. Ninguém o veria naquela posição. Olhou com mais afinco para o artista, suas garras. Não havia dúvida, tratavam-se de garras. E bem fortes. Sondou o rosto do homem de preto. Visível o focinho de lobo. Como os outros não percebiam isso? E a cauda, a descer para o chão? Quis gritar, dar um aviso ao público. Não, melhor calar-se, suportar aquilo, aquela angústia, o medo, o pavor. Melhor retirar-se devagar, de joelhos ou pé ante pé e deixar aquele ambiente. Fechou os olhos. Não queria ver aquela monstruosidade. Súbito bateram palmas, mais palmas, estrondosas, contínuas, irritantes. E as luzes se acenderam, feito tochas.

Fontes:
MACIEL, Nilto. A leste da morte. Editora Bestiário, 2006.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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