Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 30 de novembro de 2013

Nilto Maciel (Contistas do Ceará) Eduardo Campos

Manuel Eduardo Pinheiro Campos (Guaiúba, antigo distrito de Pacatuba, 1923 – Fortaleza, 2007) estreou em 1943, com a coleção de contos Águas Mortas. Seguiram-se, neste gênero, em 1946 Face Iluminada, em 1949 A Viagem Definitiva, em 1965 Os Grandes Espantos, em 1967 As Danações, em 1968 O Abutre e Outras Estórias (constituído por uma seleção dos presumíveis melhores contos), em 1970 O Tropel das Coisas, em 1980 Dia da Caça, em 1993 O Escrivão das Malfeitorias, em 1998 A Borboleta Acorrentada e em 1999 O Pranto Insólito. Tem também peças de teatro, livros de folclore, romances, ensaios, biografias, memórias, além de grande número de produções especiais para o rádio e televisão. Seus principais romances são O Chão dos Mortos e A Véspera do Dilúvio. Durante dez anos dirigiu a Academia Cearense de Letras; foi Secretário de Cultura do Estado, Presidente do Conselho Estadual de Cultura, e é Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará. Figura em antologias nacionais e internacionais de contos. É bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais. Iniciou-se nas letras escrevendo, dirigindo e representando peças de teatro. Sua peça O Morro do Ouro foi representada 350 vezes; A Rosa do Lagamar, mais de 500. Sua obra teatral foi reunida em dois volumes, contendo O Demônio e a Rosa, O Anjo, Os Deserdados, A Máscara e a Face, Nós, as Testemunhas, no primeiro, A Donzela Desprezada, O Julgamento dos Animais, O Andarilho, além das já mencionadas. Tem pequenas histórias incluídas em dez antologias, das quais duas no Uruguai e uma na Alemanha.

            Embora não tenha alcançado notoriedade no resto do Brasil, no restrito espaço da crítica literária, Eduardo Campos tem seu nome gravado em alguns importantes compêndios de História da Literatura. Assim, está presente em A Literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho, pelo menos no ensaio de Herman Lima: (...) “folclorista de altos méritos, tem, naqueles livros (refere-se aos três primeiros da bibliografia do contista), alguns contos regionais e psicológicos da melhor marca, a exemplo de “Os Abutres” e “O casamento”, o último, principalmente, na sua força bem da terra cearense, dos mais belos da atualidade brasileira”.

Eduardo Campos é um mestre do conto psicológico. No conto “O Afogado”, do livro As Danações, o drama parece ir se deslocando não de lugar, mas de personagem, sob a óptica do narrador onisciente, que aqui e ali dá voz a algumas personagens secundárias. Na verdade, o protagonista e aquela que seria a co-protagonista pouco agem, nada falam. O lugar é uma praia, a lembrar Fortaleza. Um pedaço de praia, onde banhistas e barraqueiros se locomovem. Toda a ação se dá em poucas horas, que vai da chegada dos namorados, talvez no meio da manhã ou já de tarde, ao anoitecer, quando a lua retornou “redonda e luminosa”. As personagens, no entanto, vão cedendo lugar a outras. Assim, José Joaquim, que se afogaria logo após os primeiros momentos da história, e Rosinha, sua namorada, mal se dá a tragédia, vão desaparecendo (ele, obviamente, por sumir nas águas) e em seu lugar surgem personagens secundárias, a beber, conversar, falar do afogamento. O protagonista seria o afogado? Ou seria a podridão moral dos homens? No final, com o surgimento do cadáver, um “toco humano” “a girar lento”, com os “dois calcanhares nus, desfigurados”, o narrador arremata a narrativa com uma frase moralista: “Foi quando os homens, amesquinhados, começaram a pensar que não era o afogado que malcheirava, mas eles, que haviam apodrecido em vida”.

No livro Três Momentos da Ficção Menor, F. S. Nascimento analisa o conto “O Abutre”, no “Momento III” e defende a tese de que “já em 1946 esta concepção de “new short story” era praticada no Ceará, efetivando-se na criação de “O Abutre”, de Eduardo Campos.” Na justificativa de seu ponto de vista, o crítico conclui: “o que se evidenciam no curso desta narrativa são impulsos solitários gerando monólogos interiores que se convertem em projeções visionárias. São mergulhos no inarticulado, em que os reflexos assomam em forma de ilusões. São engolfamentos do ser, onde a palavra reponta como um disparo em meio de um silêncio funesto e perturbador. Por tudo isso, “O Abutre” se impõe como um modelo da “new short story”, sendo tão atual quanto “Cão Vadio” de Fran Martins, “Os Sete Sonhos” de Samuel Rawet, “A Coisa” de Garcia de Paiva” e qualquer uma das unidades narrativas de O Casarão, de Caio Porfírio Carneiro.”

 Eduardo Campos, no entanto, não se repete nas formas de narrar. Assim, no conto “A Viúva Enganada”, do mesmo livro As Danações, embora também se valha da onisciência, da narração entremeada de diálogos, e Fortaleza seja o lugar da ação, mais precisamente o Pirambu, o conflito central se vai delineando sutilmente. A protagonista, Paulina, viúva do pintor de paredes Chico Pedro, é, como o leitor, surpreendida, ao final, com a chegada da outra, para o velório. A surpresa, no entanto, deixa de ser surpresa, se se atentar para o título da narrativa. Assim, o desenlace se esboça não no começo, mas no título, o que não deixa de ser curioso, se não for original.

No conto que dá título ao livro o contista também não muda o ponto de vista, e a narração vem recheada de falas curtas e diálogos breves, acrescentado o discurso indireto livre, embora ainda sem muita ousadia. O conflito, ainda uma vez, se dá no desfecho e na forma utilizada no conto analisado anteriormente, isto é, ele, o conflito, se apresenta não no início da narrativa, mas no título, embora de forma implícita ou simbólica, vez que o vocábulo “danações” pudesse e possa ter variadas conotações.

Na opinião de Braga Montenegro, no ensaio “Eduardo Campos, Contista”, publicado como apresentação de O Abutre e Outras Estórias, “é no conto onde melhor se manifestam suas qualidades de talento”. E acrescenta que se manifesta, “com maior frequência, em Eduardo Campos o feitio de um escritor regionalista, no que não lhe vai qualquer restrição”. Mais adiante argumenta: “Suas inclinações de contista operam com maior força nos elementos de fabulação, nos problemas de essência, nos componentes, por assim dizer, narrativos, que dão às suas estórias um tom conteudístico de ação muito evidente, mas lhe retrai em parte a disposição criadora expressiva”.

Em O Abutre e Outras Estórias, possivelmente escrito logo após As Danações, Eduardo Campos utiliza outros focos narrativos. Assim, em “O Casamento”, se vale do ponto de vista do escritor onisciente, que dá voz às personagens em breves diálogos diretos e também em um monólogo interior. O mesmo ocorre em “Céu Limpo”. No entanto, em “Ela Era Seu Lar” o contista dá uma guinada de muitos graus, ao deixar de lado a tradicional narração em terceira pessoa, com diálogos, utilizando um misto de monólogo interior e narração de observador, sem nenhum diálogo. Como aqui: “Ao regressar do banho, cantarolando (terá forças para tanto?) não achará a mesa posta, com a dignidade anterior, e nem os pratos, os tomates ao natural, recortados caprichosamente”. E aqui: “E principia a notar que foi antes um trambolho, um ser inútil dentro de casa”.

No artigo “O Ficcionista Eduardo Campos” (Exercícios de Literatura), Francisco Carvalho analisa o volume de contos Dia da Caça assim: “São contos de estrutura relativamente simples, em que se evidencia a familiaridade do Autor na abordagem de certas manifestações do lirismo popular, ao lado de uma particular sensibilidade pelos termos ligados à terra e ao homem”. Em outra passagem argumenta o crítico: “Os seus processos narrativos são bastante simples e não revelam qualquer preocupação imediata de originalidade estilística”.

Passando dos primeiros livros para os mais recentes, como A Borboleta Acorrentada, observa-se que a linguagem do contista em nada mudou, consciente de que os modismos passam e o mais valioso na obra literária não está na aparente transgressão de normas. O ponto de vista onisciente ou da terceira pessoa Eduardo Campos não abandonou, mesmo quando a maioria optou pela primeira pessoa. Assim também o uso da narração seguida de diálogo, raras vezes se valendo da linguagem puramente oral, dando preferência à literária, sem afetação. O conto “Depoimento ou Descrime Com Muito Amor” é constituído todo ele de um diálogo, quebrado apenas na última fala, como numa chave-de-ouro. Talvez assim idealizado para que o desfecho se retardasse e atingisse o leitor com mais agudeza.  Apesar desse apego à narração, o contista não esqueceu as outras linguagens, como o discurso indireto livre. No conto “À Viúva de Anágua, Canário e Gato, Tudo Pode Acontecer” isto ocorre logo no início e em diversos momentos da narrativa. Percebe-se também a presença, embora não muito frequente, do monólogo interior indireto. As personagens continuam bem delineadas, definidas, como se fossem retratos do cotidiano. Até mesmo aquelas que nas mãos de alguns narradores poderiam se transformar em personagens bizarras, irreconhecíveis aos olhos dos leitores de outras culturas. Assim também se pode falar da apresentação dos conflitos das narrativas. Nada de explicações, volteios circenses, excesso de figurantes e cenários. Tudo muito comedido, como se escrevesse para o palco ou o cinema mais artístico, criativo. Nada hollywoodiano. Veja-se o conto “O Reencontro”. O homem que volta ao lar, após anos e anos (“o desgaste físico, a irremediável fragilidade do homem vencido”), bate à porta da ex-esposa, subserviente, aniquilado, a confissão de desamparo (“Ela largou você? Mais ou menos.”), a recordação (“E nossos filhos? Fale-me deles...”). Tudo muito medido, sem meias-palavras. Tudo muito bem pintado, porém sem extravagâncias, apenas cadeiras, os quadros da sala, o velho sofá, o tapete. E closes, muitos closes, no rosto, nas rugas, nos braços do homem desiludido.

Na opinião de Herman Lima, “os contos “O Abutre”, de Eduardo Campos, e “Lama e Folhas”, de Moreira Campos, por exemplo, são dos mais belos e originais, que já se escreveram entre nós, em qualquer tempo.”

Fonte:
MACIEL, Nilto. Contistas do Ceará: D’A Quinzena ao Caos Portátil. Fortaleza/CE: Imprece, 2008.

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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