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domingo, 18 de agosto de 2024

Dissecando a Magia dos Textos (“Maria e Maria”, de Sinclair Pozza Casemiro)

Conto publicado neste blog em 22 de julho de 2020, no link 

RESUMO

Caminhoneiro Feliz
Tião, um caminhoneiro feliz, vive com suas duas Marias: a esposa e a filhinha. Apesar das dificuldades, ele se considera afortunado por ter um caminhão e uma família amorosa. As Marias são seu maior tesouro, e juntos enfrentam os desafios da vida.


A Vida na Estrada
A rotina de Tião é marcada por viagens e o convívio com os amigos. Maria, sempre rindo, cuida da casa e da filha, transformando a boleia do caminhão em lar. A amizade e o chimarrão são essenciais em sua vida simples.

Mudança e Mistério
A chegada de novos vizinhos traz mudanças. A história de um rancho amaldiçoado, onde uma mulher foi assassinada, assombra a vizinhança. Tião, cético, ignora os avisos, mas Maria começa a mudar, perdendo a alegria.

Tragédia e Consequências
A tensão aumenta quando Tião descobre a infidelidade de Maria, resultando em tragédia. Ele volta para casa e, em um momento de desespero, confronta a realidade devastadora. A dor da perda transforma sua vida para sempre.

ANÁLISE

Amor e Perda
A narrativa explora os laços familiares e a fragilidade do amor. Tião, inicialmente contente, enfrenta a desilusão e a tragédia.

Cultura e Vida Rural
A história retrata a vida rural no Brasil, com suas tradições, desafios e a luta diária por sobrevivência.

Mistério e Sobrenatural
Elementos do sobrenatural permeiam a narrativa, refletindo as crenças populares sobre lugares amaldiçoados e o impacto do passado nas vidas presentes.

PERSONAGENS PRINCIPAIS

Tião
Um caminhoneiro otimista e trabalhador, que valoriza sua família acima de tudo. Sua alegria é contagiante, mas ele se torna vulnerável às circunstâncias e à traição.

Maria (esposa)
Uma mulher forte e amorosa, que enfrenta as adversidades com graça. Sua risada é um símbolo de esperança, mas sua mudança de comportamento reflete a tensão crescente em sua vida.

Maria (filha)
A criança que representa a inocência e a alegria da família. Sua presença traz luz aos dias de Tião, mas sua tragédia acentua a dor do pai.

TEMAS CENTRAIS

Amor e Compromisso
A história examina como o amor pode ser testado e como os compromissos podem ser rompidos. Tião e Maria compartilham um laço profundo, mas as dificuldades e a traição geram uma fissura irreparável.

Superstição e Folclore
A presença do rancho amaldiçoado e as histórias locais refletem as crenças populares sobre o sobrenatural. Esses elementos criam uma atmosfera de mistério e tensão, influenciando as ações dos personagens.

A Vida Rural
O cotidiano de Tião e sua família é retratado com riqueza de detalhes, mostrando as dificuldades enfrentadas por quem vive no campo. As interações sociais, o trabalho duro e a simplicidade da vida rural são centrais para a narrativa.

DESENVOLVIMENTO DA TRAMA

A Rotina de Tião
Tião e suas Marias desfrutam de momentos simples, como passeios no caminhão e encontros com amigos. Essa felicidade inicial estabelece um contraste com os eventos futuros.

Chegada dos Novos Vizinhos
A mudança traz novos personagens e provoca rumores sobre o passado do rancho. A curiosidade e o medo começam a afetar a dinâmica da vizinhança.

Desvio de Comportamento
A transformação de Maria, que passa a demonstrar tristeza e desinteresse, gera preocupação em Tião e começa a criar uma fissura na relação.

A Tragédia
O clímax ocorre quando Tião descobre a traição. A cena final, marcada pela violência e perda, resulta em um desfecho trágico que ecoa os temas de desilusão e arrependimento.

FOLCLORE

Na narrativa de "Maria e Maria", vários elementos de folclore são destacados, criando uma atmosfera rica e carregada de simbolismo.

1. A Maldição do Rancho
A história sobre o rancho amaldiçoado, onde uma mulher foi assassinada, reflete crenças populares sobre lugares assombrados. Essa narrativa é central para a tensão da história, trazendo um senso de mistério e medo.

2. Lendas Locais
O passado trágico da mulher assassinada e o choro do bebê perdido são elementos que evocam lendas locais, conectando a comunidade a um passado sombrio e a histórias que circulam entre os moradores.

3. Superstições
A ideia de que tragédias atraem mais tragédias, como mencionado pelo amigo de Tião, demonstra a crença popular de que certas situações podem ser "amaldiçoadas" ou trazer má sorte.

4. Chimarrão e Tradições Regionais
O ato de compartilhar chimarrão entre amigos é uma prática cultural que simboliza união e acolhimento, ressaltando as tradições e a convivência social da comunidade.

5. Crenças sobre o Sobrenatural
Os personagens discutem fenômenos sobrenaturais, como a aparição da mulher que busca seu filho, mostrando como o sobrenatural permeia a vida cotidiana e afeta as emoções dos personagens.

Esses elementos folclóricos não apenas enriquecem a narrativa, mas também refletem a cultura e as crenças da comunidade, conectando os personagens a uma tradição mais ampla que molda suas vidas e interações.

Os elementos de folclore em "Maria e Maria" têm um impacto significativo na identidade cultural da comunidade de várias maneiras:

1. Preservação da História Coletiva
As lendas e histórias, como a do rancho amaldiçoado, ajudam a preservar a memória coletiva da comunidade. Elas conectam as gerações passadas às presentes, criando um senso de continuidade e identidade.

2. Construção de Valores e Crenças
As superstições e crenças locais moldam a forma como os moradores enxergam o mundo. Tais crenças influenciam decisões, comportamentos e interações sociais, promovendo uma cultura de precaução e respeito às tradições.

3. Fortalecimento dos Laços Comunitários
Práticas culturais, como o compartilhamento de chimarrão, reforçam laços sociais e criam um sentido de pertencimento. Esses momentos de convivência fortalecem a identidade da comunidade, promovendo solidariedade e apoio mútuo.

4. Reflexão sobre Medos e Desafios
As histórias de horror e mistério, como a do rancho, permitem que a comunidade explore e expresse medos coletivos. Isso ajuda a criar um espaço seguro para discutir problemas e desafios sociais, refletindo a resiliência da comunidade.

5. Identidade Regional
Os elementos folclóricos, incluindo costumes e lendas, contribuem para uma identidade regional única. Eles diferenciam a comunidade de outras, celebrando suas particularidades e características.

6. Relação com a Natureza
Muitas histórias e crenças estão intrinsicamente ligadas à natureza e ao ambiente local, promovendo um respeito profundo pelo espaço que habitam e enfatizando a interdependência entre as pessoas e seu entorno.

Esses aspectos não apenas moldam a vida cotidiana, mas também ajudam a construir uma base sólida para a identidade cultural da comunidade, promovendo um sentimento de união e continuidade frente aos desafios da vida moderna.

CONCLUSÃO

A obra de Sinclair Pozza Casemiro nos convida a refletir sobre a complexidade das relações humanas, a luta pela felicidade e as consequências de nossas escolhas. A jornada de Tião é um lembrete de que a vida pode mudar rapidamente, e que o amor, embora forte, pode ser quebrado por desilusões.

"Maria e Maria" é uma história que capta a essência da vida rural, explorando a complexidade das emoções humanas. Sinclair Pozza Casemiro nos lembra que a felicidade é efêmera e que os laços familiares podem ser tanto fonte de alegria quanto de dor. Essa dualidade, entre amor e tragédia, ressoa profundamente, tornando a narrativa uma reflexão poderosa sobre as relações e suas consequências.

Fonte: José Feldman. Dissecando a magia dos textos: Contos e Crônicas. Maringá/PR. IA Open.
 Biblioteca Voo da Gralha Azul. 2024.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Sinclair Pozza Casemiro (Rasga-Mortalha)


O assunto é destino. Na parada das andanças à procura do Caminho de Peabiru* na COMCAM*, nos rastros das histórias do povo e nas marcas escondidas na mata, nos rios, o trio descansava sob o tardio lusco-fusco que convidava a filosofar.

Dele ninguém escapa. Não, não existe destino, destino é pra quem não sabe aonde ir. Destino é tão certo, inútil tentar escapar. E por ai vai.

A sabedoria dos jovens, da urbanidade, recorria aos livros, autores, poetas, religiosos, pensadores os mais diversos. Mas, Seu Ferreira, lá da Comunidade Boa Esperança, sem letras escritas, mas cheio de palavras ouvidas e ditas, diante da discussão sem fim, mostrou que tinha a resposta e resolveu acabar com a prosa.

Empina a barriga, ajusta o jeans e a branca camisa, passadinha, ainda, avermelha e extravasa:

– Aqui tem umas curuja, daquelas que só pra vê. É, sim, Clariça. Assusta homi barbado. Mas, cumigo, não. Até rasga-mortalha enfrentei.

– Rasga -mortalha, Seu Ferreira? Que é isso?

– Uma curuja, Clariça, que trais a morte, agorera. Ali por vorta das seis, quando ela dá de vir, é só isperá... lá vem a tragédi nu passo.

– Nossa, Seu Ferreira. É sempre assim? Quer dizer que ela aparece e dá azar? Ou vem avisar o destino?

– Inté hoje num sei. Mais qui ela trais morte, é verdade. Eu tenhu cumigu que é mardade dela. Ela é feia, um zóio istralado, um jeito sério, seco di oiá. E um voo curto, direto pra quem ela qué azará. Toda casa tem uma história da rasga-mortalha. Ninguém qui morreu, num dexô di sê pressentidu pur ela. Ando di oio. Na minha casa num arrudeia, não, a marvada.

– Entào dá pra saber?

– Também num sei ozotro. Mas eu já dispistei uma delas uma noite.

– Conta, Seu Ferreira.

– Tava eu na varanda, a muié fazenu a janta, o sor se tinha indo, escuitei o voo da bicha. Zuum! Percurei a cartuchera, me aperparei. Ela, acho que apercebeu. Num feis baruio mais. Mais ela é ansim mermo, é farsa. Num dei moleza. Cuidei.

– E a mulher, Seu Ferreira?

– Nessas artura já tava inté grogui. Assustada. Chorava. Arribei a cartuchera, peguei a lanterna, já tinha ficadu iscuro. Anoiteceu rapidinho, uns deis minuto. Fiquei di oio. Num é qui a bicha tava incima do teiado, mermo, querendo posar? Avuava, avuava, mas num posava. Tava cum medo di mim. Óia, só! Medo do Ferrera! A coragi aumento. Mirei certinho na bicha e...pum! caiu no chão, sem tê posado. Interrei fundo a bicha, munto longe. Minha casa tava sarva.

– Entào o senhor mudou o destino, né. Seu Ferreira?

– Di fato é mermo. Nem rasga-mortalha mi assusta. Agora, esse tar destino, si oceis dexá...
__________________________
Notas:
COMCAM - Comunidade dos Municípios da Região de Campo Mourão.
Caminhos do Peabiru – (na língua tupi, "pe" – caminho; "abiru" - gramado amassado) são antigos caminhos utilizados pelos indígenas sul-americanos desde muito antes do descobrimento pelos europeus, ligando o litoral ao interior do continente. O principal destes caminhos, denominado Caminho do Peabiru, constituía-se em uma via que ligava os Andes ao Oceano Atlântico. Mais precisamente, Cuzco, no Peru (embora talvez se estendesse até o oceano Pacífico), ao litoral brasileiro na altura da Capitania de São Vicente (atual estado de São Paulo), estendendo-se por cerca de 3 000 quilômetros, atravessando os territórios dos atuais Peru, Bolívia, Paraguai e Brasil. Segundo os relatos históricos, o caminho passava pelas regiões das atuais cidades de Assunção, Foz do Iguaçu, Alto Piquiri, Ivaí, Tibagi, Botucatu, Sorocaba e São Paulo até chegar à região da atual cidade de São Vicente. Ainda havia outros ramos do caminho que terminavam nas regiões das atuais cidades de Cananéia e Florianópolis.

Em território brasileiro, um de seus traços ou ramais era a chamada Trilha dos Tupiniquins, no litoral de São Vicente, que passava por Cubatão e por São Paulo, em lugares posteriormente conhecidos como o Pátio do Colégio e rua Direita; cruzava o Vale do Anhangabaú; seguia pelo traçado que hoje é o das avenidas Consolação e Rebouças; e cruzava o rio Pinheiros. Outro ramal partia de Cananeia. Ramificações adicionais partiam do litoral dos atuais estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. (wikipedia)


Fonte:
Sinclair Pozza Casemiro. Causos do coração do Paraná (por entre as beiras do Ivaí e do Piquiri…). Campo Mourão: Sisgraf, 2005.

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Sinclair Pozza Casemiro (O Homem da Enxada)


Este causo é verdadeiro e eu mesma presenciei. Bem, não é que tenha presenciado a história no momento do acontecido, da aparição. Mas eu estava lá, ouvi no outro dia os depoimentos ainda calorosos e sôfregos da Dora, da Santine. E participei daquela magia, daquele friozinho assustador e gostoso que dá na gente pelas histórias de assombrações. Foi na terceira peregrinação da COMCAM no Caminho de Peabiru, na fazenda São Jorge, da casa da Penha. Penha é uma senhora maravilhosa, bondosa, generosa, dadivosa, alegrosa, osa...osa...osa. Ela é esposa (ôsa) do administrador da Fazenda, trabalha no postinho de saúde da fazenda, atende a todos com carinho, dedicação e, além disso tudo, é mãe acolhedora e amiga. Bem, não sei como sobra espaço, mas ela é tudo isso e muito mais. Mentira, sei sim: energia é como sentimento, quanto mais você dá, você divide, mais tem, mais se multiplica.

Pois muito bem: a gente foi se alojar, no segundo dia de peregrinação, na fazenda São Jorge, tudo organizado janta, banho, pouso e café da manhã por dona Penha. Os quitutes, os causos, o clima da fazenda, de amizade, etc, etc, a meditação do Amani e tal, tudo isso, nem precisa descrever. É só imaginar o melhor. Na hora de dormir, tinha a igreja, a escola e as casas. Era só cada um escolher o seu cantinho pra relaxar e sonhar.

Teve um timinho que escolheu, de pronto, a igreja. Claro, mais protegidos, seguros. E tinha uma novidade nessa peregrinação: o casal Santine e Déferson, que estavam de lua-de-mel, haviam se casado naquela semana. E gente boa tava ali: ele e ela prestativos, dedicados, amorosos. Também quiseram ficar na igreja. A igreja era, de fato, um encanto: pequenininha, limpinha, organizadinha, bem arrumada. Penha tinha mesmo pensado em tudo para receber bem os peregrinos.

Depois da janta, das visitas, dos causos, das orações, das fotos, da contemplação ao luar, etc, etc, o recolhimento. E, depois do recolhimento, o sono pesado, afinal, foram 16 km mais ou menos de caminhada e pra quem estava de apoio, um dia de tensão e preocupação que, graças a Deus, tinha terminado maravilhosamente bem. Pra completar, bem que faltava mesmo algum "inusitado". E ele aconteceu.

Depois do primeiro sono, longo e pesado, um e outro precisava ir no matinho. Tudo bem. Rotina. Mas, o casalzinho foi junto. E ele a protegendo sempre, é claro. Quando eles já estavam quase de volta, ele se apavora:

– Santine, olha lá...

– Olha o quê, morzinho? Onde?

– Ali, um homem com uma enxada... de branco... carpindo...

– Onde? Meu Deus! Onde, homem?

– Ali...

E apontava, os dois olhando para o mesmo ponto, ele vendo tudo e ela, nada.

– Morzinho, cê tá sonhando... num tem nada ali.

– Tem sim... Ele tá carpindo, de branco... Olha!

Mas ela não viu, mesmo. Olhou para o marido, ele estava atônito, incontrolado. Olhou para o homem da enxada, de branco e não viu nada. E ele desistiu de mostrar, ela não via mesmo. Começaram a voltar, devagarinho, de fato, alcançaram a porta da igrejinha, entraram. Quase não conseguiam contar o que aconteceu, não o que viram, pois quem viu foi só o marido.

Quem estava na igrejinha ficou em pânico. A Dora, que estava estourando de vontade, catou o cobertor e o colchão que estavam no chão, abaixo do altar, logo na frente, mas buscou ainda um lugar mais santo, mais protegido: debaixo, bem debaixo da mesa do altar. Mesmo estourando, nem quis saber de ir lá fora. Não sei como se arranjou, ela não conta. Só diz que encobriu cabeça, corpo, tudo que pôde, rezou, rezou até de manhã cedo...

De manhã cedo, outra história, São Jorge do céu!

Quando eles contaram pro povo da equipe de apoio, a Eloah, que cuidava do pouso dos peregrinos, falou:

– Não te falei, Sirlene? Eu escutei, de madrugada, uma chinela arrastando lá fora... e chegou até a porta da casa e bateu, deu uns toques... Não te falei? Não era ninguém!

Nessas alturas, mais gente havia ouvido as chinelas se arrastando e os toques à porta, de madrugada... Dona Penha chamou num canto alguns desses narradores:

– Gente, vou pedir um favor... Não espalhem. Esse homem da enxada vem assustando muita gente por aqui, mesmo. Ele chega, de branco, arrasta chinela, dá umas carpidinhas... e sai. Não espalhem que vocês também viram, senão as pessoas daqui ficam mais aterrorizadas ainda. Uns dizem que foi matado... Outros dizem que é alma penada, que matou muita gente... A gente não sabe dizer o que é. Nem reza adianta. Por favor, não espalhem.

Pois é... agora, quem quiser acreditar...

Fonte:
Sinclair Pozza Casemiro. Causos do Coração do Paraná (por entre as beiras do Ivaí e do Piquiri). Campo Mourão/PR: Singrafm 2005.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Sinclair Pozza Casemiro (Uma Mão Lava a Outra)


Isso é sério. E é também uma cacofonia, eu sei. Cacofonia é um vício de linguagem; uma sucessão desagradável de sons, segundo Dr. Francisco Borba e todos os dicionaristas, gramáticos e linguistas de que eu me lembre... Mas é muito verdadeiro e então, apesar do vício, figura malquista na língua, o povo anda repetindo "uma mão lava a outra" pelos séculos dos séculos, amém.

O que vou contar aqui aconteceu com o Seu Gancedo, nosso amigo e professor nessas andanças do Caminho de Peabiru. Com ele e sua esposa, Dinorah, grávida de sua primeira filha na ocasião.

Moravam num sítio, no município de Engenheiro Beltrão, viviam ali felizes, porém batalhando nas dificuldades próprias do lugar e dos tempos, ainda sem muita estrutura no campo. Quando chovia, por exemplo, o que era uma dádiva para as lavouras, era um suplício para os doentes ou para aqueles que precisassem sair de casa por qualquer outro motivo urgente.

E um dia, choveu, choveu. O casal precisava ir à cidade, ela tinha consulta, ele tinha interesses urgentes para tratar. E eles tinham um trator que enfrentava qualquer tropeço daquele chão misterioso. Então, foram.

Num determinado ponto, uma subidinha complicada, seu Gancedo precisou parar, deu um probleminha no motor. Estavam já muito tristes, desanimados, quando decidiram buscar ajuda na casa do sítio que dali se avistava, muito perto. O coração de Dinorah se encheu de esperança, se avivou, seus lábios se descontraíram.

Mas, não é que o dono da casa (e do sítio) mesmo reconhecendo o casal, não eram amigos, apenas conhecidos, não socorreu? Isso mesmo! Viu a mulher, grávida, ouviu o apelo do marido, mas não pôde atender, estava sem condições de ir até ao trator, não saberia mesmo o que fazer e ficou por isso mesmo. A princípio seu Gancedo não entendeu, ficou entre a perplexidade, a vergonha e a revolta, um tanto desolado. Dinorah, então, na sua costumeira candura, não conseguia mesmo compreender aquilo de jeito nenhum. Por que seria tanta indiferença? Aquilo não era comum, as pessoas no sítio costumavam ser solidárias, mesmo desconhecendo-se.

Ficaram os dois, conjeturando: será isso, será aquilo, afinal, o que poderia ser responsável por atitude tão mesquinha?

Inconformados, seguiram de volta à estrada, com o olhar e o peito doloridos pelo que entendiam como injustiça. O sitiante possuía até um veículo, o que poderia ter sido a solução fácil de seus problemas, afinal. Poderia ter oferecido uma carona e nem precisava ser para Seu Gancedo, levasse a Dinorah que ele se arranjava por lá mesmo. E, o olhar fixo no caminho, seguiam, devagar, equilibrando-se no barro liso, até chegarem de volta ao trator e...ficar esperando sabe-se mais pelo quê. De repente, ouviram o ronco de um outro trator, a esperança renasceu. Mas, quem era? O próprio sitiante, que passou por eles dirigindo uma carreta e seguiu, sossegado. Os olhos do casal acompanharam–no, silentes, não havia o que se fazer.

Mais à frente, não é que a carreta do insensível sitiante emperra e barranca? Isso mesmo! Caiu, encostou na ribanceira da estrada, num barranco, coisa que seu Gancedo não teria deixado acontecer se fosse ele o motorista. Aquilo era sinal de "barbeiro". Mas, lá estava a carreta, poderosa, nas mãos de um incompetente (e maldoso) motorista, encalhada na estrada. E... vuuuuumm.... vuuuumm.....vuuuuuuuuuuuumm..., nada!

Aí então aconteceu a maior: o "navalha" desce, com as mãos na cintura ou no bolso, sei lá, mas com atitude de não sei mais o quê fazer e... olha para o trator e o casal! Meu Deus, mas como agir agora? Ele não lhes tinha negado ajuda? E só mesmo um outro trator e a colaboração de um outro motorista para tirá-lo dali!

E seu Gancedo? O que você acha que ele fez?

É... espicaçou o homem, "tá vendo, seu orgulhoso?" Negou ajuda, como o outro fez? Deu risada, zombou da desgraça e humilhação do outro?

Quem conhece o seu Gancedo sabe o que ele fez: foi de encontro ao necessitado, mais que ele ainda, deu sua mão e o acompanhou até a carreta, a Dinorah, muito calma e segura acompanhando com os olhos toda aquela cena. Assim também era ela, o casal se combinava.

Dinorah esperou, às margens da estrada. Seu Gancedo assumiu o volante da carreta e tirou-a do barranco, era mesmo algo fácil de resolver para um bom motorista, nem precisou do trator. Devolveu-a para o arrogante e já bastante arrependido sitiante, que, assim, acabou sendo recompensado com o bem pelo mal que fizera.

Chateado, ofereceu ao casal a esperada carona e seguiram, juntos, até Engenheiro Beltrão, deixando o trator do casal para ser consertado depois, por um mecânico que Seu Gancedo traria.

Acontece? Sim, e muito... Por isso que é bom a gente não esquecer esse ditado antigo, mal escrito e mal exemplo porque é cacofônico, mas muito verdadeiro: uma mão lava a outra.

Fonte:
Sinclair Pozza Casemiro. Causos do coração do Paraná (por entre as beiras do Ivaí e do Piquiri…). Campo Mourão: Sisgraf, 2005.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Sinclair Pozza Casemiro (Cinquenta Rosários)


Um célebre filósofo contemporâneo e ocidental, B. Mondin, em uma de suas obras mais conhecidas, "O Homem, quem é ele? – elementos de antropologia filosófica", discorre da natureza humana. Transcendente, o homem sempre quer mais, idealiza mais para si mesmo: ser mais bonito, mais virtuoso, mais sábio, mais... e por aí vai. Isso é da espécie humana, mesmo, em qualquer lugar do mundo e em qualquer circunstância, sempre aflorará o desejo, a propulsão que faz essa espécie, nunca satisfeita, buscar, buscar, sonhar, sonhar... eternamente buscar e sonhar. Muitas vezes, a gente vê isso ser provado em casos mais bizarros. Essa tal teoria acaba por dizer o mesmo da teoria do "jogo de espelho" que a retórica, desde Aristóteles até agora a nova retórica, de Perelman, por exemplo, apregoa: na busca do "ser mais" o homem se identifica com padrões, modelos idealizados que, consciente ou inconscientemente espelham,

Daí, um passo pra sedução dar vez à manipulação do discurso, da retórica, dos sofismas... e da busca incontrolável de nossos desejos, os mais estranhos, às vezes.

Interessante é notar que em qualquer circunstância, mesmo, isso pode ser flagrado. Ser mais belo pra uns, mais inteligentes pra outros... e até mais "bandido" pra muitos. Um causo me chamou a atenção, verdadeiro, que eu vivi, duma frustração profunda, dum personagem singular, da nossa região - a COMCAM, Este personagem está vendo a vida passar, agora, crente de que não vai mais alcançar o seu desejo, o seu "ideal" de jovem, tão sonhado. E, cá pra nós, ainda bem...

A visão é de romance nordestino, mas acontece é aqui mesmo, no coração do Paraná, lá pelas bandas de Barbosa, Corumbataí. Quem quiser ver, ainda consegue: está vivo e saudável o maior jagunço que resta na redondeza. Cavalga, no seu sempre companheiro Alazão, cavalo manso, prudente, acostumado aos imprevistos que o dono lhe arruma. A gente estava, na caminhonete, procurando pistas do velho trio dos índios, do Peabiru, muito famoso nas redondezas, mais famoso ainda como "o trio dos jisuíta". De repente, avistamos o cavaleiro, num marrom só, o cavalo troteando, sossegado, desvia a passagem, de pronto. O caboclo vestia uma capa suja, suja, não se sabe precisar a verdadeira cor, só prevalecia o encardido da estrada, que é hoje a continuação de seu lar. Na cabeça, o chapéu velho de couro, carcomido, encolhido e cheio de marcas que o tempo foi deixando, como na pele, que parecia continuar do chapéu, enrugada, marrom, tão judiada. A cena é, vista de longe – pelas costas, e bem de perto - de lado, geometricamente, como um losango marrom.

– Bom dia, seu Rufino!

– Ooua... Oi, tudo bom, homi. É seu Gancedo?

– Sou eu, mesmo, tá? Andando um pouco por aí?

- É, pois é. É o que resta, homi. Avivenu os tempu, qui num tem mais nada pra fazê, só trabaiá pra cume, qui é a sina...

– Tá vivendo sozinho?

– Ah, sim. Ali, naquele ranchinho... A muié perfeiru fícá cos fio, si foi. Os fío di hoji, homi, num arrespeita os pai, qué vive dum jeito qui num é certo, di arrespeitu. Falei; si quisé morá cumigo, tem qui mi arrespeitá. Vive nos mordi qui um homi veve, eis num quis sabe. Num arrespeitá pai, mais não. Num tem arrimo... Perferi dexá i. A muié foi tamém, perferiu os fio. Aqui vou vivenu... Vivo bem... Ali tá minha rocinha, minha casinha. O fazendero daqui, gente boa, num mexe cumigu, não. Meu Alazão me acumpanha,

– Pois é... Seu Rufino... Estava aqui falando para as professoras que o senhor já foi jagunço. Elas não acreditam,

Nessa hora o rosto impassível do cavaleiro estremece e um lance de olhar brilhoso desperta na face até então inalterada:

– Eu? Jagunço não. Seu Gancedo.... quisera fosse... Num cheguei a tanto, não, homi... Num tenhu a metade dum rusaru.

Agora é a professora que pergunta. Entendeu logo que o "status" de jagunço, a que o seu Rufino, pelo jeito aspirara, mas não lograra êxito, dependia do tal rusaru:

- Qui é rusaru, sinhora? A sinhora num reza? Num cunhece rusaru?

– Sim... sim... Mas...

– Pois, óie; jagunço mermo, jagunço, seu Gancedo, tem que tê feito cinqüenta rusaru. Eu feis nem deis... A sinhora cunhece cuma é o rusaru: tem o pai-nossso, as treis ave-maria, adispois mais pai-nosso, mais uma porção de ave-maria, num é? Pois, intão: jagunço dus bom, mermo, é qui compretô os pai-nosso e as ave-maria nuns cinqüenta rusaru. Mais eu num cunsegui, não... Uns deis... sifô.

– Mas não dá tempo, ainda de fazer cinquenta rosários, seu Rufino? Afinal, que rosário é esse?

– É rusaru dioreia, sinhora. Oreia di bugre. Bugre, índio, sinhora... Por aqui tinha tantu dus jagunçu, dus bom, qui mi dexaru na mão... Num restô bugre pra mi dá o gosto di sê um jagunço di verdade. O povo mi chama... Mais num sô, não. Farta munto rusaru... I cadê us bugre? Matado bom tinha essas banda, cabaru logu ca bugraiada, arguns abandonam tudu e fugiru, Us que ficava, morria, memo..

No silêncio da tarde, olhando a vastidão dos campos desnudos das matas, lar dos "bugres" desfeito tão selvagemente, pelos civilizados brancos, pensei não ter podido encontrar maior testemunho do que buscava naquelas andanças. E, levada pela imaginação vi o azulão da floresta escondendo as sagas daquela gente indefesa mais uma vez exposta à cobiça e aos sonhos dos novos bandeirantes deste século passado, encobertos pelas regras desse também novo tempo. E entendi bem como é fácil apagar a memória de tantas barbaridades consentidas por inescrupulosos indivíduos dessa nossa espécie (a escolhida?) que quer e sonha sempre mais... mais... não importa o quê.

Mais ... "rusaru"? Creio em Deus Pai, Ave-Maria! Chega de rusaru, Minha Nossa Senhora das Dores! O próprio Deus e Nosso Senhor Jesus Cristo há de convir! O mais irônico é que muito provavelmente tenham se utilizado, para as suas proezas, os famosos jagunços, de resquícios do remoto Caminho de Peabiru - "o caminho que leva à Terra Sem Mal".

Fonte:
Sinclair Pozza Casemiro. Causos do coração do Paraná (por entre as beiras do Ivaí e do Piquiri…). Campo Mourão: Sisgraf, 2005.

quarta-feira, 22 de julho de 2020

Sinclair Pozza Casemiro (Maria e Maria)


Caminhoneiro feliz era o Tião. Não foi a vida que pedi pra Deus... mas já que ele me deu.... Um caminhão bem cuidado, as posses não lhe puderam conferir um novo, mas seu sonho por certo um dia viraria verdade e ele passearia pelas ruas de Campo Mourão com as Marias na boleia. Esse dia ia chegar, tão certo como o sol que me alumia, lhe agaranto, Maria. E Maria concordava, rindo. Era assim sempre aquela mulher. Sempre rindo, co'a filhinha ao colo. Mulher de caminhoneiro é também uma forte, Euclides. Não tem tempo ruim, sol, chuva, frio, calor, comida, fome, cobrador à porta, o silencio cumplicioso diante do credor indignado... e a vida vai-se indo...

Maria e Maria. Suas duas maiores fortunas que ele, sempre que podia, carregava junto. A filhinha não reclamava, gostava muito. Nem sabia se tinha outro jeito, é claro. A mãe não só não reclamava quanto gostava muito, também. Acompanhar Tião, seu homem. Valente, alegre, mal-humorado com quem não gostava e um doce, até estragado de tão doce, pra quem queria bem. Assim, a vida ia se indo.

Os botinas já tinham se acostumado de ver a família na boleia. Carona não pode, mas as Marias eram carona? Acho que não. Pelo sim, pelo não, uma cervejinha de vez em quando e o problema estava resolvido.

Assim a vida ia se indo, Maria sempre rindo. Tião, ia e voltava, frete não lhe faltava. A casinha, ali perto do 119, na saída pra Peabiru, era humilde. A cidade de Campo Mourão ainda não era assim asfaltada, com as comodidades de agora, mas já mostrava futuro. A vizinhança, pouca, muito rara mesmo, era pobre igual, ou melhor, mais pobre. Tião não era pobre. Era afortunado, tenho um caminhãozinho, uma família, vamo vivendo... Muita peça que quebra, pneu que estoura, recape que não aguenta, senão até que sobrava pra não dever nada. Mas... tá bom. A noite fazia esquecer os problemas junto do corpo quente e macio da Maria, sempre rindo...

A filhinha crescendo, já dando seus passinhos, entendia de um tudo. Gostava de passear no caminhão, parava pra isso qualquer birra ou tristeza, se é que havia.

A Maria era sua, só sua, a Maria, filhinha, era deles, só deles. Mas a fortuna eles dividiam com os amigos. A casinha, quando eles lá paravam, era sempre cheia de gente. E de causos, e de chimarrão, dava gosto. Maria, sempre rindo. Não gostava de ficar, queria ir com Tião, nem precisava chamar. Chegava, lavava, arrumava a casinha, preparava comida pras viagens, ajeitava as coisas. Ia de novo. Seu lar era mesmo a boleia.

Estavam todos na roda do chimarrão, naquela tarde meio chuvosa, quando chegou uma mudança. No barraco ao lado. Não para ninguém aí, esquisito. Já ouvi dizer que foi amaldiçoado, quando os pioneiros vinham pro lado do Santa Cruz, fazer as rezas na Gruta, uma mulher foi assassinada nesse rancho. Me contaram que foi de amor. O companheiro não aceitava que ela não lhe queria mais. E aquele filho, diziam, nem era dele, não. Então ele trouxe ela, mais o filhinho no rancho, e escondido de todo mundo, matou a infeliz. O filhinho, Tião? Ah, nem tinha como saber das coisas, era de colo. Cresceu, com parentes. Mas o ranchinho fica aí, assustando os outros. Diz que ela vem, de noite, procurar o filhinho,.. Diz que se escuta o choro dela e ela chamando o bebê. É... coração de homem é terra que ninguém pisa...

A roda, de repente, tem mais gente. Chega a dona nova da casa e o filho, rapaz de corpo bem feito, falador, bonito. Logo se enturma, aprecia o chimarrão. Muito bem feito, fazia tempo que não experimentava um igual, com essas ervas... Ervas daqui, do quintal, diz Maria. Pra gente usar. Quando quiser... A conversa se anima, vão terminar a mudança, vai que chove.,.

E choveu. Choveu tanto, que o ranchinho não serviu pra abrigo e os novos vizinhos foram procurar arrego no Tião. Como sempre, o caminhoneiro atendeu. Tratou o vizinho já como velho companheiro, o que só o caminhoneiro sabe fazer. As mulheres confabulavam, a Maria, filha, encantava com sua graça e esperteza. A noite chuvosa embalou a todos, até os desafortunados do novo lar, que não tinham mesmo o que fazer.

E assim a vida ia se indo. No outro dia, o moço arrumou o rancho, nem precisou mais de ajuda. Agradecido, só fez visita, na outra noite. Tião recebeu, Maria sempre rindo...

Os dias foram passando, Tião, Maria e Maria indo e voltando, os novos vizinhos se conversando... Tinha mesmo um barulho esquisito no rancho. Mas.,. arre! Tenho o corpo fechado, falava o moço, que achava bonito o jeito da Maria, sempre rindo...

Maria achava bonito aquele moço, sem medo, valente que nem o Tião.

Hoje não vou, Tião. Tenho que arrumar umas coisinhas. Tá bem, volto logo. E assim a vida ia se indo... Maria já nem sempre rindo... Já nem indo tanto mais, também, no caminhão com Tião.

Um dia, um amigo falou pro Tião que ele nunca que ia morar em casa perto de casa assombrada. Tragédia chama tragédia. Se fosse o Tião, mudava dali.  Ora! Pra mim, essas coisas? Desde quando, nunca me aconteceu nada! Eu, se fosse você, Tião, mudava dali. O ranchinho é coisa do tinhoso, nem é bom tá perto. Oras!!

Mas o amigo insistia... Reparando bem, era mesmo. Maria nem sempre ria mais, já não ia mais com ele como antes, andava aborrecida, doente. Doente? Mas tava mais bonita, cabelo sempre arrumado, batom, as unhas sempre pintadas... Não tinha que se preocupar, não. Que confusão, Meu Deus! Acho que o Pezão não é bem amigo, não. Deu pra me perturbar com coisas... Tião, você não merece. Tentei evitar, até te tirar de lá, mas... Você é muito bom, rapaz, não percebeu. Cuida da Maria e do moço bonitão.

Bastou. O coração bom de Tião se anuviou, ele mais nada viu. Depois, bem depois que a tonteira e o ódio amainaram, ele achou que não era verdade, era engano, era mentira, era pesadelo. E nessa ilusão conseguiu chegar. Estava igual seu cantinho, mas já não era o mesmo mais. Também Maria, já não sorria. Mas um fio de esperança contava pra ele que não, que era tudo ilusão, pesadelo. Tião despediu, da Maria e da Maria, vou viajar. Tinha um plano.

Chegou a Peabiru, como nunca antes, nem viu passar o tempo, a estrada. E, de lá, encostou o caminhão, voltou a pé. A peixeira na cinta, não ia ser preciso usar. Era tudo ilusão, pesadelo. Os passos iam fazendo ele se achar tolo, perda de tempo. A Maria era só dele, era, sim, como era quando ela sempre ria.

Na porta do seu cantinho, ele viu umas chinelas que não eram dele. No azul escuro da noite sem lua, Tião viu tudo claro, de repente. E, brusca, irrompidamente saltou ao leito onde dormiam os corpos descansados dos pecadores ingratos. Tião só viu massas de corpos nus, braços, pernas, gritos, molhados, em meio ao prateado fio. Depois, no tribunal, soube que foram muitas, perto de cinquenta. A Maria, filha, tadinha, estava muda. Os olhos sempre abertos, fugidios, corriam do Tião. A vida pra eles também se acabara. Não foi preso, que a Lei, naquele tempo, não condenava quem matava pra defender a honra. A pequena Maria, ficou sabendo que morrera também. Como os olhos não queriam mais ver, a boca não quis mais comer, o coração não quis mais viver. E naquele tempo, também era mais difícil remédio pra essas dores.

Até hoje, quem passa por aquela estrada, escuta no rancho e no cantinho do Tião, um choro e mais uns gritos. Conforme a hora, escuta também uma voz, principalmente quando se anuvia e o vento assobia, chamando longe... longe... "Mariinha, filhiiinha!..." O pai, esse vagueia, pelo rio 119, pela estrada pra Peabiru, como vagueou em vida até ser reconhecido, ainda quente, sob as rodas de um caminhão.

Fonte:
Sinclair Pozza Casemiro. Causos do coração do Paraná (por entre as beiras do Ivaí e do Piquiri…). Campo Mourão: Sisgraf, 2005.

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

Sinclair Pozza Casemiro (Mundo Guarani e Literatura) Parte II

2. O mundo Guarani e um pouco do seu saber tradicional: a palavra-alma, a palavra poética

Estudiosos do Guarani, como Hèlène Clastres, que viveu entre os Guarani do Paraguai em 1963 e entre os Guarani do Brasil em 1966, deixaram um legado importante ao registrar sua cultura, o que permite um olhar mais crítico sobre a realidade atual. Esses estudiosos ouviram o Guarani de seu tempo, sua língua, seus costumes, suas crenças,registraram essas informações. Fundamentando-nos em seus escritos e na vivência com indígenas Guarani do estado do Paraná, passaremos a apresentar algumas discussões sobre a Palavra Guarani na busca de entendimento de sua Literatura e do seu mundo.

A palavra, como vimos, é sagrada para o Guarani: nhë’ e –palavra-alma define a linguagem Guarani, em que o sentido místico é parte intrínseca de sua significação.Quem a nega se torna um jaguar – tekoachykoe-jaguar (Clastres, 1978,p.96); ou tatu (CASEMIRO, 2013). E há ainda a categoria das palavras nhë’eporä, as belas palavras numa dimensão ainda mais elevada de espiritualidade, e ayvuporä- as palavras sagradas, enfeitadas, reservadas aos Xamoíe Caraíe à Opy- Casa de Reza. Mas, o sentido de enfeitada não é simples metáfora, maneira de dizer que se sobrepõe como uma máscara ao sentido da coisa: é a própria coisa. Ou seja, em Guarani o adjetivo porä qualifica o enfeite, a beleza do que é enfeitado. No dicionário de Montoya Tesoro de La lengua guaraní, segundo Clastres (1978, p.91) se registra o termo como Póràng:hermoso, ornato. Assim, não é natural esse sentido, de enfeitado, é algo que foi elaborado com a intencionalidade de ter beleza, adornado: a forma poética da composição das palavras em expressões, em discurso, o seu arranjo sonoro no redobrar das vogais ao ser pronunciada, acentuando a sua musicalidade. O ornamento das palavras é necessário para se falar com justeza, o belo e o verdadeiro estão unidos, amalgamados no sentido do sagrado que a que elas servem, ou mais que isso, que elas são (CLASTRES, 1978, p.86).

Existem distinções a serem respeitadas e seguidas entre os Guaraninas suas lideranças e uso das palavras, ou dos cantos, que são sacralizadas por sua cultura, cujas presenças foram atestadas por missionários e viajantes do período colonial. Essas lideranças são imbuídas do poder da palavra-alma em diferentes níveis de autoridade.Nimuendaju (apud Clastres, 1978, p.34,35,36) também as atestou na convivência que teve com os Apopocuvas- Guarani desde as primeiras décadas de 1900. Ainda hoje essa presença pode ser atestada, entretanto, entre os Guarani, resguardando-se as mudanças que se fizeram necessárias no tempo e na territorialidade pelas condições de contato com a sociedade não indígena, difíceis, que inviabilizam muitas vezes a prática fiel de suas tradições mais antigas e mais caras.

De qualquer modo, adaptam-se aos novos tempos e permanece o prestígio do Caraí, do Xamoí, do Cuidador das Ervas (homem-medicina) bem como se identifica o abusante - aquele que duvida ou não crê na Terra Sem Mal a quem, portanto, não se autoriza o discurso. Costumam dizer, hoje, os Guarani, quando perguntados sobre as migrações à Terra Sem Mal, dantes uma prática vivida com as facilidades da liberdade de ir e vir numa territorialidade absolutamente livre de não indígenas, que a vivem no coração. E alguns não escondem o desejo de repetirem essa possibilidade real de migração, adaptando-a às condições modernas. Também presenciamos em nossas visitas aos Guarani do Paraná que, quando não conseguem construir sua Opy ou vivenciarem-na, dizem que a levam no coração. Pudemos atestar esse fato na nossa convivência entre os Guarani de Laranjinhas, YvyPorä, Verá Tupã’i, Ocoy, Tamarana, do Paraná.

Interessante descrever a experiência de Nimuendaju (apud Clastres, 1978), o que pode trazer entendimento para o contexto atual dessas lideranças e na construção do discurso Guarani em dias atuais. O autor relata que se podem perceber quatro categorias no que chamou de dons xamanísticos, e que, na verdade, abrange toda a população Guarani, como se vê em seu relato, desde os não crentes aos mais crentes: a primeira, negativa, reunindo aqueles que não possuem nenhum cântico, ou seja, os que não receberam ou que ainda não receberam inspiração: a maior parte dos adolescentes, alguns raros adultos decididos a não se comunicarem com os espíritos, que nunca poderiam dirigir as danças(Nessa categoria, hoje, pelas nossas experiências entre os Guarani do Paraná, existem ainda as divisões entre aqueles que ainda não a receberam por serem crianças ou adolescentes e aqueles que a negam. Esses últimos são hoje conhecidos como abusantes, conforme depoimento de Vó Almerinda (que é Xamoí), sobre o Caminho Sagrado para a Terra Sem Mal. A segunda categoria compreende todos aqueles que possuem um ou vários cânticos, homens ou mulheres, mas, isoladamente, sem o poder de utilizá-los em fins coletivos. Alguns desses até podem eventualmente dirigir algumas danças, são os que se aproximam mais da terceira categoria (Também já observamos essa realidade no tekoha Verá Tupã’i). A terceira categoria é a dos capazes de dizer as palavras enfeitadas, as belas palavras- nhë’eporä, de curar, de prever, de descobrir o nome dos recém-nascidos, são os Xamãs para Nimuendaju (hoje conhecidos como Xamoí), os Pajés. A essa categoria pertencem homens e mulheres com direito ao título de Ñanderu ou Ñandesy (Hoje se escreve Nhanderu e Nhandesy) – nosso pai, nossa mãe. À quarta categoria pertencem a dos grandes xamãs, cujo prestígio vai além da comunidade e apenas os homens podem a ela ascender. Além de possuírem as palavras enfeitadas, as belas palavras - nhë’ e porä, ainda só eles podem dirigir a cerimônia do batismo, conhecida como Nimongaraí (hoje falado Nhemongarai), a mais importante festa Apapocuva.

(Hoje ainda se pode observar essa prática, é ainda a sua maior festa, mas, as mulheres também podem pertencer a essa categoria, Vó Almerinda é uma delas, visita e reza em todos os tekoha e dirige o Nhemongarai. Esse quadro revela alguns dados sobre a autoria do discurso Guarani.

Em primeiro lugar, o significado de nhë’ ë para o Guarani é, para quaisquer indivíduos, palavra-alma. É um significado que remonta à sua narrativa de criação, na qual Nhamandu se pôs ereto e pronunciou as palavras das quais surgiram todos os homens e mulheres e toda a criação. A partir dela, toda cultura Guarani se constitui: a criança é desejada e, antes do nascer, já possui um espírito guia que se vai revelar quando essa criança se puser ereta e que vai lhe indicar o que será: um Xamoí, um Cuidador de Ervas, etc., conforme a direção de onde esse deus veio: zênite, leste ou oeste. E é na cerimônia que descrevemos acima - do Nhemongarai que essa revelação ocorre, por meio dos cânticos e rezas do Xamoí. Ou seja, todo o Guarani pode receber seu nome, está incluído nesse ritual, por pertencimento ao grupo, é apto ao discurso da ñe’e (palavra-alma). E quando o Xamoí não consegue a revelação é porque a criança não irá sobreviver. Mas, como vimos, há a categoria dos abusantes–tekoachykoe, daqueles que não acreditam na Terra Sem Mal.

Esses não portadores da palavra sagrada, não são autorizados ao seu discurso, aos cânticos, estão na condição de animalidade. Podemos, pois, perceber que a autoria das palavras é permitida de acordo com a posição ou condição espiritual do Guarani: pode ser autorizado a cânticos, a pronunciar as palavras nhë’ee também as belas palavras nhë’eporä eventual e solitariamente, como pode ser autorizado a discursos coletivos, de grandeza circunscrita ao tekoha ou ainda de maior grandeza, em discursos de uma coletividade maior, que abranja número maior de tekoha. Ou destituídos da nhë’e, os tekoachykoe, os abusantes. Os discursos sagrados e discursos sobre temas sagrados sofrem ainda outras restrições, como a de lugar-só podem ser tratados na Casa de Reza- Opye diante de Guarani. Diante de juruá apenas quando aceito pelo Xaoi como digno de ouvi-lo nesse espaço, de fazer parte de sua cultura.

Falantes e alegres, ruidosos, brincalhões, sempre risonhos entre si, emudecem diante dos não indígenas ou de indígenas abusantes. O silêncio Guarani, compreensível diante das contínuas perdas que lhe infringiram a sociedade não indígena, adquire significados próprios, que não merecem sequer ser especulados, mas respeitados. Pelo histórico que descreve Nimuendaju, entre outros que, como ele, com eles viveram experiências de longos anos, muito desse silêncio está ligado ao sagrado e ao modo como se constituem os seus discursos, como se produzem, para quê e para quem, de que lugar, sempre a partir de uma perspectiva mitossimbólica advinda da sua cosmovisão.

No contato inevitável e cada vez mais constante com a sociedade não indígena, outros discursos, com outras condições de se produzirem se fizeram necessários. Mas, de qualquer forma, a palavra para o Guarani sempre se revestiu e reveste de Verdade e beleza, é poética por natureza.

Tratando-se de autoria diante da sociedade não indígena e extrapolando o universo Guarani, a questão vem sendo, inclusive, polemizada, em termos de propriedade do que se diz, das consequências desse dizer pelos próprios indígenas.Costuma-se atribuir a autoria de um discurso indígena a toda a coletividade, como se um falasse por todos. E essa autoria se mascara na designação de informante. Assim, uma narrativa contada por um Guarani de determinado tekoha será creditada a seu grupo, desse tekoha. Isso, principalmente, quando se destinam direitos autorais, mesmo valorizando o indígena que se manifestou, a sua fala é como que creditada e distribuída a todo o grupo, também na questão de benefícios que dela possam surgir. E o termo informante (ou similar) decorre da prática conservadora de se considerar o indígena objeto de pesquisa e não sujeito de pesquisa. A pesquisa não é dele, é do sujeito que o interpela. Tal situação vem gerando algumas dificuldades e está sendo questionada. Sgambatti relata a seguinte cena, provocada pelo CaciqueGuarani Olívio Jekupe, da aldeia Krukutu, no Estado de São Paulo:

Essa é minha mulher – me disse Olívio Jekupe.
E lhe perguntou:
- Você sabe ler?
E ela respondeu:
- Não.
E continuou:
- Você sabe escrever?
E ela:
- Não.
Então ele voltou-se para mim e perguntou:
- Mas se você vier à nossa aldeia, ela te contar uma história, uma lenda ou algo de Nossa cultura e você como um antropólogo registrar essa história tal e qual ela te contou em um livro, quem é o escritor, você ou ela?
Eu fiz cara de: pois é…
E ele concluiu:
- Não é porque ela não sabe escrever em português ou guarani que ela não pode ser uma escritora. Tem alguns índios em nossa aldeia que só falam e escrevem guarani, não é porque sou eu, o cacique ou outro índio que escrevemos o texto deles em Português que somos os autores da história deles, não é mesmo? (SGAMBATTI, 2009)

Olívio Jekupe é escritor de livros infantis e juvenis, viaja por todo o Brasil divulgando a cultura Guarani. Como autor de livros, ele se assume como sujeito enunciador e de direito,indígena, possuindo os mesmos direitos que qualquer outro cidadão brasileiro, mas questiona quanto ao discurso da sua cultura, quanto à autoria desse discurso conforme seria,na cena citada, o da sua mulher, que não domina a escrita e se concedesse uma narrativa ao pesquisador, como informante.

Jekupe não fez esse questionamento inocentemente. E nem inocentemente Sgambatti fez cara de: pois é.... Ambos sabiam que falavam de autoria numa implicação muito mais complexa. Formado em Filosofia pela PUC, São Paulo, ele compreende, na condição de professor e intelectual reconhecido, a condição outra da maioria dos indígenas brasileiros. Sujeitos constitutivos da nacionalidade brasileira, não passam em muitos casos de meros informantes, objetos de pesquisa sobre o conhecimento que trazem.

Essa cena que Jekupe provocou nos faz pensar sobre a condição de autoria, de sujeito, não apenas do discurso narrativo de suas origens, cosmogônicos, como teria sido o caso, que recebem a tipologia de mitológicos,mas do discurso constitutivo da nacionalidade como um todo. Do discurso de pertencimento, capaz de interagir nas interlocuções sociais que decidem os seus próprios destinos dentro e fora da aldeia. Que possui implicações políticas sobre a voz indígena e propriedade intelectual de seus conhecimentos tradicionais, de seu saber. Um pouco dessa questão vamos discutir no próximo item.
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continua
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Fonte:
Anais do I Encontro de diálogos literários: um olhar para além das fronteiras. Campo Mourão: Fecilcam, 2013. 453 p.
Imagem = www.vermelho.org.br

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    Sinclair Pozza Casemiro é graduada em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá [UEM] (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (1995), doutorado em Letras, Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (2001) e pós-doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo [USP].
         Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – NECAPECAM, com sede em Campo Mourão, pesquisadora pelo CNPq da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM. Foi diretora e vice-diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM.

domingo, 18 de setembro de 2016

Sinclair Pozza Casemiro (Mundo Guarani e Literatura) Parte I

RESUMO: O mundo Guarani, por ser poético, se confunde com literatura, arte, ao tempo em que superam essas e quaisquer classificações. Tipologias serão apresentadas, tendo em vista as produções culturais Guarani, respeitando a sua singularidade ao colocarem nelas, os Guarani,a própria alma, a verdade, a partir do sentido que a palavra nhë’e (palavra-alma) possui para sua cultura. Já existe uma significativa produção escrita de Literatura Guarani, em que autores indígenas vêm se destacando, como o Guarani Jekupe, que propõe o entendimento da Literatura,ao tratar das produções indígenas, em duas divisões:a Literatura Nativa, escrita pelos próprios indígenas e a Literatura Indígena, escrita por não indígenas. Também se destaca Munduruku em Contos Indígenas Brasileiros(2005): ao apresentar o valor da Palavra- que encanta e dá direção à cultura indígena, sinônimo de Verdade para essa cultura, de poesia e encantamento, por meio de seus mitos,faz um apanhado deles em várias aldeias do Brasil e os denomina Contos Indígenas Brasileiros. A Palavra, espiritualizada e cosmogônica, empresta a culturas indígenas, desenfornadas e livres de preocupação com classificações, a constituição de sua própria identidade.

Introdução


Quando lemos as narrativas que os Guarani contam, ou que são contadas por autores não indígenas a partir do que deles ouvem, transcritas em diferentes aportes textuais, percebemos a dúvida na indefinição de sua tipologia: mito, lenda, fábula, conto, poesia. Ocorre que essas denominações são utilizadas na perspectiva não indígena do entendimento do mundo Guarani. Na perspectiva Guarani, tais narrativas têm um sentido cosmogônico, de Verdade, como diz Munduruku (2005). Mesmo quando ficcionais, seus objetivos são de encaminhar as vivências tradicionais, dirigir a sua espiritualidade, continuar essa tradição na resistência material e espiritual de sua cultura ou mesmo marcar sua identidade e subjetividade no convívio multiétnico da sociedade nacional. A tipologia de mitos, contos, lendas, etc., fruto da racionalidade ocidental e aprendida no contato, é recurso a que se apegam para equacionar a comunicação, adequá-la, tornar possível suas leituras no universo literário não indígena, porém isso não interfere no sentimento que experimentam ao vivenciá-las enquanto estruturas não apenas de textualidade, mas da própria vida. E, por outro lado, essa tipologia, de perspectiva não indígena, tem uma razão que extrapola os limites dessa adequação. Isso tem razões históricas, que resultam da concepção política
que orientou até então o contato entre as culturas indígenas e não indígenas.

O autor Guarani Jekupé (2010) esclarece a diferença entre Literatura Indígena e Literatura Nativa, partindo principalmente do critério de autoria: a Literatura Indígena é aquela contada e escrita pelo não indígena sobre o que ouviu dos indígenas. E a Literatura Nativa é aquela contada e escrita pelos próprios indígenas, são autênticas e partem de sua vivência, mesmo sendo narrativas de ficção.

Após a Constituição de 1988, que finalmente reconhece o indígena como sujeito autônomo, que reconhece as culturas indígenas como constitutivas da realidade nacional, ou seja,reconhece uma nacionalidade brasileira plural e multiétnica, legitima tardiamente, muito embora, a voz indígena na sua autonomia, singularidade. O que, então, significa dizer que suas tradições de contar, tradição de saberes, de narrativas envoltas num sagrado e espiritualizado, num poder de magia que encantam e que as diferenciam radicalmente, sejam manifestadas sem restrição alguma, sem equações ou adequações ao dizer não indígena, salvo por desejo criativo e/ou recurso poético do autor indígena, livre para se posicionar, imaginar e contar a quem, como, quando e por que quiser. Assim, conhecer um pouco do mundo Guarani e da sua Literatura Nativa, toda ela poética, se faz necessário para entendermos o que, por trás dela, se omite: uma cultura outra, autônoma, que muito tem a enriquecer o universo brasileiro e a Literatura nacional com a sua diferença, mas que permanece pouco conhecida.

Convidamos a essa reflexão e sugerimos pensar em sentidos livres,que não descaracterizem o valor de Verdade que seu discurso carrega. Uma denominação que seja apropriada, nesse intento, para abordar o conceitual de suas narrativas e seus demais discursos, numa unidade de sentido que leve essa Verdade na sua mensagem única e singular, para além das fragmentações tipológicas da perspectiva não indígena. Mas, sentimos, principalmente pelo dizer de autores indígenas como Jekupé, Cacique Benite, Munduruku e pela vivência no tekoha Verá Tupã’i de Campo Mourão-PR, que essa preocupação vai além da cultura indígena Guarani, ela vale para as culturas indígenas em geral. E extrapola a diversidade de tipologias, porque o sentido que possuem é totalizante, sendo manifestado numa unidade conceitual em que apenas a Palavra compreendida de forma cosmogônica e mágica pode dar suporte. Dessa forma, pensamos compreendê-los como saber indígena.

Por saber indígena entendemos as narrativas e demais produções discursivas indígenas, ficcionais ou não, de conhecimentos práticos ou não, de conhecimentos científicos e tecnológicos próprios, conhecimentos cosmogônicos, que são tradicionalmente contadas nas aldeias como valor constituinte de sua cultura, que dão direção e sentido a toda a sua vivência. E que são contadas aos não indígenas por outros objetivos, sendo que esses não indígenas, como estudiosos, pesquisadores e seus representantes legais ou mesmo como visitantes, repassam à sociedade não indígena como um todo. Entre os indígenas há narrativas que nem sempre são permitidas à divulgação seja na oralidade ou na escrita. Entre os Guarani, por exemplo, algumas dessas narrativas só são permitidas dizer e ouvir no seu espaço sagrado que é a Casa de Reza –Opy. E é ali onde apenas eles e apenas aqueles não indígenas-juruás, dignos ou aceitos pela sua cultura podem escutá-las pela voz do Xamoí. São esses discursos, esse saber que permitiram e permitem a continuidade de suas existências, de suas culturas.

1. Mitos, Fábulas, Lendas, Contos, Poesia

    Não raras vezes uma mesma narrativa indígena é transcrita para a Literatura não Indígena como Mito ou Lendaou Conto ou Fábula ou Poesia. Vamos brevemente fazer uma apresentação dessas tipologias. Mito etimologicamente vem do grego, mythus, “fábula”, pelo latim mythu (CUNHA, 1982,p.525;AURÉLIO, 1974, p.931). Para o etimologista Cunha:“sm. ‘narrativa, geralmente de origem popular, sobre seres que encarnam simbolicamente as forças da natureza, aspectos da condição humana´’fábula’ ‘representação idealizada de um estado da humanidade em um passado remoto ou num futuro fictício”. Etimologicamente, pois, mito e fábula se confundem num traço de não realidade. Na atribuição geralmente de origem popular, a definição atribui diferenças entre culturas erudita e popular, deixando entrever um traço hierárquico entre ela se creditando esse tipo de narrativa à última em especial. Quanto ao tempo, é passado ou futuro a representação que o mito traz e ela é fábula sempre idealizada, metafísica por entidades não definidas: seres que encarnam simbolicamente a natureza e a condição humana. Ou seja, contempla a dimensão humana fragmentariamente (aspectos da condição humana) e a condição metafísica; o tempo é nãopresente, não-real e fábula, como seu sinônimo, traz um traço de não-verdade.

Para o dicionarista Aurélio (1974,p.931), mito é narrativa de tempos fabulosos ou heroicos, de significação simbólica, geralmente ligada à cosmogonia e referente a deuses encarnadores da força da natureza e/ou aspectos da condição humana, representação de fatos ou personagens reais, exagerada pela imaginação popular, pela tradição popular, enfim, mito traz também traços de um tempo que não é este, de uma realidade que não é esta, de uma não verdade para os critérios de nosso mundo da razão. Quando fala em mito da caverna, na filosofia, de Platão, define o mito como figurando o processo pelo qual a alma passa da ignorância à verdade.

Enfim, o que percebemos é uma disjunção da razão, da objetividade com relação à imaginação, à subjetividade, contemplando-as de forma opostas, contraditórias e atribuindo ao racional, objetivo aspectos de uma cultura superior - a erudita em detrimento de uma cultura popular, o que também se faz de forma disjuntiva.

Mircea Eliade (2010), mitólogo, apresenta o seguinte conceito:
O mito conta uma história sagrada; ele relata um acontecimento ocorrido no tempo primordial, o tempo fabuloso do “princípio”. Em outros temos, o mito narra como, graças à façanha dos Entes Sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o Cosmo, ou apenas um fragmento: uma ilha, uma espécie vegetal, um comportamento humano, uma instituição.

O mitólogo remete ao sagrado e a um tempo passado, de princípio,em realidades totais ou fragmentadas e mesmo institucionais. Lévi Strauss, como antropólogo que estudou diversas comunidades indígenas na América do Norte e na América do Sul (no Brasil), apresenta um conceito mais historicizado, sem perder a ideia de origem: “O mito é a história de um povo, é a identidade primeira e mais profunda de uma coletividade que se quer explicar.” LEVY-STRAUSS, 2010).

Na definição da psicanalista Fragoso, o mito tem também a marca de origem e é tradutivo da forma como cada civilização se entende e se interpreta assim como entende e interpreta outras civilizações: “O mito constitui uma realidade antropológica fundamental, pois ele não só representa uma explicação sobre as origens do homem e do mundo, em que vive, como traduz, por símbolos ricos de significado, o modo como um povo ou civilização entende e interpreta a civilização” (FRAGOSO, 2013).

A fábula - mithu em latim, que levou ao grego o sentido de mythus, para Cunha (1982,p.342) e Aurélio (1974, p.604) tem o sentido explícito de alegoria, imaginação com fins morais e via de regra com personagens animais, trazendo como sinônimos lenda, mito. Há também outra origem etimológica: do lat. Fari (falar) e do gr. Phaó (dizer, contar algo), que traz a mesma definição.

A lenda em Aurélio (1974,p.829) tem a etimologia de “coisas que devem ser lidas” e a tradição popular. Cunha, em seu dicionário etimológico (1982,p.469) remete diretamente ao verbo ler, onde a define como narrativa, conto, legenda. Na literatura,as lendas inicialmente contavam histórias de santos, mas ao longo do tempo o conceito se transformou em histórias que falam sobre a tradição de um povo e que fazem parte de sua cultura. Narrativas transmitidas oralmente com o objetivo de explicar acontecimentos misteriosos ou sobrenaturais. Assim, há mistura de fatos reais com imaginários, história e fantasia; vão sendo contadas ao longo do tempo e modificadas pela imaginação do povo.

A definição de conto é apresentada pelos dicionarista Aurélio (1974,p.174) como uma forma deverbal de contar e o autor remete conto a uma narração falada ou escrita, um engodo, embuste, mentira, invenção, peta, puerilidade. O etimologista Cunha (1982,p.211) remete conto a contar(p.210), como relatar e narrar. Para os literatos, a tipologia conto tem sem sempre uma definição convergente. Duarte (2013), assim o define:
Perfaz-se de todos os elementos que compõem a narrativa, ou seja, tempo, espaço, poucos personagens, foco narrativo de 1ª ou 3ª pessoa, corroborando em uma sequência de fatos que constituem o enredo, também chamado de trama.. É um dos fatores de total relevância, é que o enredo apresentase de forma condensada e sintética, centrado em um único conflito. Tal característica tende a criar o que chamamos de unidade de impressão (DUARTE, 2013).

Essa definição marca uma tipologia estruturada em conflito e busca de resolução, nem sempre presente, algumas vezes a se complementar pelo leitor.O conto remete geralmente à realidade presente, mas também se marca pela narrativa de um passado histórico, real, ou mesmo irreal, surreal. Porém, sempre em torno do conflito único, de poucos personagens e de forma sintética.

Conforme percebemos, as definições de mito, fábula, lenda e conto apresentam em comum a disjunção entre o que é real e imaginário, o que pertence ao tempo primordial, de origem e o que pertence ao tempo histórico.

Ainda o sentido de realidade se procura separar entre o que é pertencente a uma dimensão do mundo real, surreal, físico e o que é pertencente ao mundo sagrado, metafísico, entendidos esses últimos como sendo uma dimensão não racional, não própria do mundo objetivo, terreno. Os dicionaristas remetem a destinação dessas tipologias geralmente à cultura popular, fazendo também uma disjunção entre as culturas como sendo erudita ou popular. Nesse sentido, o mitólogo, o antropólogo e a psicanalista divergem do dicionarista e etimologista, pois nenhum deles, ao definirem mito, hierarquiza as culturas, fica implícito ou não o sentido de civilização. Fábula e conto trazem o sentido, no dicionarista, a não verdade, o engodo, muito mais em conto, embora esse sentido esteja presente também em mito,lenda e fábula para o dicionarista e o etimologista. Para o literato, conto é narrativa de ficção.

Na perspectiva indígena Guarani, a Palavra é cosmogônica e leva a essas denominações um sentido totalizador, misterioso e com magia traduz a sua vivência, sem fragmentação. A Palavra, sendo sagrada, é mística e está em primeiro plano para a sua cultura, acima dessas denominações tipológicas.

Munduruku (2005,p.4), ao apresentar os mitos de várias etnias indígenas brasileiras que selecionou para narrá-los como contos, em Contos Indígenas Brasileiros, esclarece que para a cultura indígena em geral o que importa é a magia e o encantamento que ela, a Palavra, revela e a que ela conduz “Mesmo vivendo numa época em que a tecnologia impera e coloca a Palavra – aqui como sinônimo de Verdade – em segundo plano...” Mais adiante (p.5),assim se manifesta:
Muitos dos personagens que por aqui passam não são criação de uma mente insana, mas são personagens vivos de uma realidade repleta de mistérios com seus seres, espíritos, duendes, encantados, bruxas; seres com os quais as pessoas se relacionam, aprendem, crescem, brincam, brigam; seres que metem medo nas crianças e adultos; seres que embalam a fantasia e alimentam os mistérios da própria existência. Ou seja, a vivência indígena se povoa de mistérios e misteriosos seres, encantamentos, o poético está em sua Palavra e em sua existência real.

Por fim - continuando as tipologias -, a poesia, na perspectiva não indígena é conceituada como: “a arte de escrever em versos, aquilo que desperta o sentimento do belo” (CUNHA, 1982, p. 617). A segunda parte dessa definição vale para a perspectiva indígena em geral. E vale especialmente para o Guarani, considerando a sua língua como um todo, já que toda ela é poética,melódica e sagrada, bela, pela própria definição de linguagem: nhë’ e – palavra-alma e que se intensifica nas suas intenções continuadas conforme a autoria de quem as pronuncia: nhë’e – palavra-alma; nhë’eporä – belas palavras; ayvuporä- palavras sagradas, enfeitadas. Quem se deixa destituir danhë’e - palavra-alma se torna um tekoachykoe – o que confunde a natureza e o sobrenatural, que se torna um jaguar, um ser animalizado (Clastres, 1978,p.94). O sobrenatural para os Guarani fica entre a natureza e a cultura (id. p.29). Para os Nhandeva de Laranjinhas-PR, o tatu simboliza esse animal sob o qual o abusante se transmuda quando perdido de sua palavra-alma (CASEMIRO, 2013).

Dessa forma, percebemos que a palavra, para a perspectiva indígena, espiritualizada e cosmogônica, sinônimo de Verdade e que dá direção e sentido a sua cultura, como escreveu Munduruku, não se deixa aprisionar sob o signo das classificações racionalizadas e enformadas em tipologias da cultura não indígena. As tipologias da cultura não indígena, como as conhecemos, não foram pensados para esse discurso Guarani, que permanece inteiro e totalizante na relação palavra-alma/alma-palavra, por isso cheio de poesia, encantamento, verdade e imaginação, mistério. Contendo a sua verdade, o seu mundo, discurso essencialmente espiritualizado. A tentativa de aprisioná-lo resulta risco. O sentido maior de Literatura enquanto Arte, porque poética, inesgotável fonte de sentidos pode tentar estabelecer alguma aproximação possível à compreensão desse saber indígena. Não dizível, o sentido da Literatura Nativa Guarani, do discurso Guarani em nossos dias, permanece sagrado, intocável, porque poético na sua essência e natureza.

Mesmo após tantos séculos de tentativa de subjugação cultural, o seu discurso, a sua Literatura Nativa, como escreveu Jekupe, não se deixou apropriar, não se domesticou nem se acomodou, não se colonizou, resistiu e não se assimilou ao racionalismo não indígena. O que significa dizer que a sua alma nunca foi roubada: o Guarani, pois, pela sua Palavra, continua livre...
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continua
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Fontes:
Anais do I Encontro de diálogos literários: um olhar para além das fronteiras. Campo Mourão: Fecilcam, 2013. 453 p.
Imagem = www.vermelho.org.br
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    Sinclair Pozza Casemiro é graduada em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá [UEM] (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (1995), doutorado em Letras, Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (2001) e pós-doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo [USP].
         Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – NECAPECAM, com sede em Campo Mourão, pesquisadora pelo CNPq da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM. Foi diretora e vice-diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM.

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Sinclair Pozza Casemiro (Mundo Guarani e Literatura) Parte III, final

3. Um pouco do histórico sobre a autoria e a produção discursiva indígena

Pela incapacidade de se compreender que os índios não são incapazes, mas culturalmente diferenciados, em 1916 foi promulgada uma lei chamada Código Civil (Lei 3.071/16), afirmando que "todo homem é capaz de direitos e obrigações na ordem civil", considerando, no entanto,que algumas pessoas não tinham a mesma capacidade de exercer seus direitos. O art. 5º dessa lei afirmava são absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de 16 anos, os loucos de todo o gênero, os surdos-mudos, que não puderem exprimir sua vontade. E também que eram relativamente incapazes para certos atos os maiores de 16 anos e menores de 21, os pródigos (pessoas que assumem comportamentos irresponsáveis) e os silvícolas, ou seja, os índios. E, como considerava que os índios não eram totalmente capazes de exercerem seus direitos, esta lei determinava que eles fossem tutelados até que estivessem integrados à civilização do país. Essa tutelagem implicou a negação de sua autoria e do próprio uso de seus conhecimentos tradicionais, sendo suas criações apresentadas sob a tutela de pesquisadores e/ou responsáveis legais como representantes e tradutores do seu dizer e do seu saber.

Na época em que se escreveu esse Código Civil, a sociedade não indígena acreditava que os índios seriam extintos e que, portanto, não precisariam de direitos. Índio significava passado, mesmo no presente remetiam à ideia de não pertencimento a essa sociedade. Imaginava-se que os índios eram seres primitivos que iriam se educar, adquirir a cultura dos brancos até se integrarem de vez à sociedade brasileira, deixando de ser índios.

A Constituição de 1988, no entanto, em seus Artigos 231 e 232, ao reconhecer os direitos e a autonomia das culturas e territorialidades indígenas, estabeleceu que apolítica de transformar os índios em brancos não poderia continuar, pois uma outra concepção a fundamentou: eles viveriam para sempre índios, independente do acesso que tivessem ao mundo da sociedade envolvente. E assim deveriam ser respeitados e considerados pela sociedade brasileira como tais, em sua língua, crença, seus usos, costumes, tradições, suas formas de vida e de organização.

Hoje os esforços são no sentido de que o governo dê proteção e apoio de que os índios precisam, para que possam tomar suas próprias decisões, ou seja, não sendo mais tutelados, nem considerados relativamente incapazes.

3.1 A propriedade intelectual indígena

Salvaguardando a autoria indígena e os direitos e proteção sobre os seus conhecimentos tradicionais, o Projeto de Lei 2.057/91(em decorrência da Constituição de 1988) e a proposta alternativa a ele, apresentada pelo Governo, não só garantem direito autoral ao indígena, a proteção ao conhecimento tradicional, a representação segundo seus usos e costumes, o direito de participação em todas as instâncias oficiais de discussão da questão indígena, a proteção aos recursos naturais como seu patrimônio legítimo, como consideram crime o uso indevido desses conhecimentos tradicionais.

Assim, a propriedade intelectual indígena se vê assegurada. A importância disso se dá especialmente pela característica singular de suas narrativas. Como vimos, a palavra tem, para o indígena, um valor de Verdade, assim,produções discursivas indígenas se destacam pela sua singularidade.

Há, em todas elas, um encantamento e uma valorização da palavra, do discurso, que não permite sua leitura despreparada. É preciso compreender esse sentido que a palavra, o discurso, empresta a essas culturas, interpretando-as com a solenidade que exigem, diante dos seus signos carregados dessa Verdade, ou seja, um novo dizer se autoriza no país, um dizer outro, marcado por radicais diferenças culturais. Falar por si representa a legitimidade dessa diferença e uma nova realidade jurídico-social para os indígenas e também para os não indígenas.

Mas, autores indígenas como Jekupé, reconhecido e premiado na Literatura Brasileira, vem desvelando, como vimos acima, a realidade política que está implícita no apagamento das vozes indígenas em seus discursos e o novo momento histórico para a autoria e uso do seu saber tradicional. E há hoje, além de Jekupé, vários escritores indígenas, nas mesmas condições autorais e levando o conhecimento de sua cultura a outras culturas indígenas e a toda a sociedade não indígena pelas suas obras. Há um centro de escritores indígenas, o Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas-NEARIM, do qualJekupé é Presidente.

Daniel Munduruku, diversas vezes premiado na Literatura Brasileira e mesmo internacional, da etnia Munduruku, das terras indígenas de Cayabi, Munduruku, Manduruku II, Praia do Índio, Praia do Mangue e Sai-Cinza, no sudoeste do estado do Pará; as terras indígenas Coaté-Laranjal e São José do Cipó, no leste do estado do Amazonas e a Reserva Indígena Apiaká-Kayabi no oeste de Mato Grosso percorre o mundo e leva sua mensagem de autonomia e amor à cultura indígena, à Palavra que lhe é cara:
As sociedades indígenas são movidas pela poesia dos mitos – palavras que encantam e dão direção, provocam e evocam os acontecimentos dos primeiros tempos, quando, somente ela, a Palavra, existia.

E foi por causa dela, de sua ação sobre o que não existia, que tudo passou a existir. Foi como um encantamento, um vento que passa ou o sopro sonoro de uma flauta, e... pronto...tudo se fez.

Assim é a palavra, que flui em todas as direções e sentidos e que influenciou e influencia todas as sociedades ao longo de sua história. Ela cria, enfeitiça, embriaga, gera monstros, faz heróis, remete-nos para nossa própria memória ancestral e dá sentido ao nosso estar no mundo. Mesmo vivendo na época em que a tecnologia impera e coloca a Palavra – aqui como sinônimo de Verdade – em segundo plano, percebemos que ainda há esperança, pois ela vivifica a poesia dos mistérios que nos emocionam e fazem buscar, dentro de nós mesmos, a certeza de que vale a pena colorir o mundo.

Foi com esta paixão e certeza que este livro foi escrito. Ele traz a magia dos mitos narrados pelos anciãos de cada povo aqui apresentado. E mesmo que não queira abraçar todo o universo da sabedoria indígena, ele traz uma grande amostra daquilo que tem guiado nossas sociedades até nossos dias. Mas, não sem desafios o novo momento histórico é vivenciado pelos indígenas. Sobre a dificuldade que tiveram e têm em se adequar à realidade bilíngue pela força da colonização, bem como a sua superação, sem perder a indianidade, a narrativa do Cacique Miguel KaraiTataxiBenite é esclarecedora (2009,pp 44,45). Falando dela e falando da língua aprendida na colonização, fala de si, fala do ser Guarani em nossa sociedade atual:
Vivi muitos anos com a língua entortada,
Porque fui obrigado a falar palavras estranhas de uma outra língua.
Por isso, durante muito tempo fiquei emudecido.
Tentaram tirar de mim aquilo que havia guardado como um tesouro:
A palavra, que é o arco da memória.
Diziam que me faltava a inteligência,
Porque antes de gaguejar as palavras certas
Eu tinha de pensar, duas vezes, numa língua estranha.
O tempo passou. Agora, tenho duas línguas.
Uma língua nasceu comigo, no colo de minha mãe.
É a língua que expressa a alma guarani.
É a língua do tekoha, da opy.
O nome que tenho, foi ela quem me deu na cerimônia do Nhemongarai.
Com ela nomeio as plantas, as flores, os pássaros, os peixes,
os rios e as pedras, o sol e a chuva, a roça e a caça.
Tudo isso com ela eu faço: rio e choro, rezo e canto.
Com ela, eu sou o que falo: guarani.
A outra língua que tenho é a que
Sobrou de uma guerra de muitas batalhas.
Ela trouxe a espada e a cruz, o livro e as imagens, o sermão, o
catecismo, a doutrina, as leis.
Ela me ensinou a aprisionar o som,
Como quem pega a fumaça com a mão e a guarda no ajaka.
Com ela, aprendi a riscar as letras. E a desenhar as palavras
no papel.
Quando saio da aldeia, é ela quem me ajuda.
Com ela, procuro escola e biblioteca,
Mercado e igreja, posto de saúde e hospital, cartório e tribunal.
É com ela que me comunico com índios de outras línguas.
Com ela navego na internet,
Descubro o pensamento do juruá,
Caminho pelas ruas, leio as cidades,
Entro nos ônibus,
Embarco e desembarco na rodoviária,
Vendo o artesanato e converso com as pessoas.
Agora já não posso mais viver sem as duas.
Estou sempre trocando de língua,
Com um pouco de medo, como se
Fosse um caso de bigamia.
Uma língua sabe coisas que a outra desconhece,
Acham graça uma da outra fazem
Gozação e às vezes se zangam.
Afora isso, elas se dão bem que
Sonho nas duas ao mesmo tempo.
Às vezes, a palavra de uma soa
Engraçado na outra.
Às vezes, quando me perguntam
Numa, respondo na outra.
Às vezes fico com uma delas tão
Engasgada que se permaneço calado
Tenho a impressão de que vou explodir.
Há dias em que quero traduzir uma para a outra, mas as
palavras se escondem de mim, fogem para bem
Longe e gasto muito tempo correndo atrás delas.
Ambas pensam, mas há partes do
Coração em que uma delas não
Consegue entrar e quando se
Aproxima da porta, o sangue se põe a jorrar com as palavras.
Cada uma foi professora da outra:
O guarani nasceu primeiro e eu me
Habituei a dormir embalado por sua
Suave sonoridade musical.
O guarani não tinha letra, é verdade, mas era o dono da palavra falada.
Ensinou ao português os segredos da Oralidade, guiando-lhe a voz.
Já o português, nascido na ponta dos meus dedos, ensinou o guarani a
Escrever, porque este nunca havia
Frequentado a escola.
Tenho duas línguas comigo. Duas
Línguas que me fizeram e já não vivo sem elas, nem sou eu,
sem as duas.
A sua narrativa, toda ela poética, é um saber indígena contemporâneo. Se pretendêssemos situá-la na perspectiva não indígena, poderíamos afirmar que ela se realiza num misto de conto, mito, poesia e narrativa histórica. Conto, pois a sequência de fatos faz um enredo e traz um conflito, perfazendo-se de todos os elementos que compõem a narrativa, ou seja, tempo, espaço, trama. Possui apenas um personagem, escolhe o foco narrativo de 1ª pessoa e obedece a um dos fatores de total relevância para a tipologia conto, que é o enredo apresentado de forma condensada e sintética, centrado em um único conflito, o que é chamado de unidade de impressão.

Também se realiza no mito, pois fala da origem, dos símbolos de culturas diversas entre si significando o modo de vida atual, traduzindo uma realidade antropológica fundamental,na medida que não só representa uma explicação sobre as origens do mundo em que o autor está vivendo, como traduzindo, por símbolos ricos de significado, o modo como sua civilização entende e interpreta a civilização sua e a do outro.

E se realiza na poesia, pois se estrutura em versos e manifesta o belo pela forma, pela escolha de palavras,pelos jogos de linguagem como, entre tantos, catacreses (língua entortada), metáforas (a palavra que é o arco da memória), comparações (trocando de língua com um pouco de medo como se fosse um caso de bigamia), antropomorfizações ([as línguas] acham graça uma da outra, fazem gozação, às vezes se zangam) , pelos muitos sentidos figurados que provoca no seu descrever de fatos reais, históricos.

Nesse belo, traz o percurso da vida do Guarani, no percurso da sua linguagem sendo atravessada e finalmente parceira da língua do não indígena, colonizador. Traz a saga e o percurso da constituição da subjetividade do indígena Guarani, em que a cultura do outro se impõe e se interpõe pela língua estrangeira, que já então se faz necessária – já não vive sem elas (a sua e a do outro). Nesse sentido, é uma narrativa histórica.

O conjunto poético dessas tipologias emaranhadas no texto do Cacique Guarani Miguel Karai Tataxi Benite , pela polissemia que engendra e pelo amálgama que o constitui, produz um discurso próprio, singular. Diferente. Esse conjunto em que se notam marcas do conto, do mito, da poesia,revela algo único, indivisível, algo que se repete nas vozes indígenas em geral. É o seu modo de dizer, totalizante, como uma unidade de sentido cosmogônica como é o modo de ser indígena em qual tempo e lugar. Um modo de dizer singular que se pode compreender como saber indígena.

Considerações finais

O mundo Guarani e a Literatura se confundem, ao tempo em que vão ainda além, pela singularidade do discurso Guarani, poético, totalizante, cosmogônico e as tipologias que normalmente traduzem esse seu saber indígena não dão conta de traduzir os sentidos que os abarcam pela sua magia e subjetividade. Nhë’e – palavra-alma, linguagem Guarani e nhë’eporä, belas palavras, Ayvuporä, a bela linguagem, as palavras enfeitadas, encantadas produzem sentidos musicais e cheios de mistérios, únicos.

Escritores Guarani hoje divulgam seu saber, sua narrativa encantada, pela Literatura Nativa, como propõe o escritor Jekupé, diferenciando-a da Literatura Indígena. A primeira, de autoria dos próprios indígenas, a segunda, de escritores não indígenas. Essa divisão marca um novo tempo, o tempo da autoria, do reconhecimento dos seus conhecimentos tradicionais e da propriedade intelectual indígena, o que se materializa pelo Projeto de Lei 2.057/91. Independente desse projeto, a vida Guarani, sempre livre, porque sua palavra é alma, é eterna e intocável, indisciplinada e rebelde nos seus encantos, se faz ecoar pelas páginas da Literatura nacional, enriquecendo e tornando mais humana a convivência da nossa sociedade.

O mundo Guarani e a Literatura, assim como os mundos de todas as etnias indígenas do país estão por todos os cantos, distribuindo sua poesia na territorialidade que é tão sua. A sua poesia, pela Palavra –Verdade, como nos diz Munduruku, encantada, acostumada a povoar esse Brasil de seus mistérios, de seus encantos e personagens tão únicos, mesmo no silêncio a que foi submetida por longos séculos. E aquela Palavra, finalmente, poderá ser vivida de verdade, aquela que ainda não se ouviu, mas que a cultura indígena impõe na sua grandeza, singeleza e docilidade: alteridade.

REFERÊNCIAS

BENITE, Cacique Miguel KaraiTataxi. Duas línguas. In:Maino’ i rapé. RJ, Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, 2009.
CASEMIRO, 2013. O mito do Tatu. Disponível em: www.caminhodepeabiru.com.br.Captado em 20.9.2013.
CLASTRES, Hélène. Terra Sem Mal – o profetismo tupi-guarani. São Paulo, Editora Brasiliense, 1978.
CUNHA, Antonio G. da.Dicionário Etimológico Nova Fronteira. RJ, Nova Fronteira, 1982.
DUARTE, Miguel B. Liceu Aristotélico. In:http://liceuaristotelico.blogspot.com.br/2010/02/contos-proibidos-iii.html. Captado em 20.9.2013.15h37.
ELIADE, Mircea. O mito e a Filosofia, 2010. In: http://ricardorose.blogspot.com.br/2010/08/o-mito-e-filosofia.html. Capatado em 20.9.2013. 17h50.
FRAGOSO, Vera M. Os mitos e a psicanálise: o debate. In: http://www.searchgol.com/?q=psicanalista+fragoso&babsrc=SP_ss&mntrId=F8 9100234D48917B&affID=121225&tl=gkn539325&tsp=5016. Captado em 20.9.2013.17h28
HOLANDA, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário Aurélio. RJ, Editora Nova Fronteira, 1974.
MONTOYA, Antonio R. de. Tesoro de lalengoa guarani. In: CLASTRES, Hélène. Terra Sem Mal – o profetismo tupi-guarani. São Paulo, Editora brasiliense, 1978.
MUNDURUKU, Daniel. Contos Indígenas Brasileiros. SP, Global Editora, 2005.
STRAUSS, Levi. O mito e a Filosofia, 2010. In: http://ricardorose.blogspot.com.br/2010/08/o-mito-e-filosofia.html. Captado em 29.9.2013.18h04
JEKUPE, Olívio. In: Literatura Indígena x Literatura Nativa (2010) http://www.youtube.com/watch?v=xGXcQ_Bb_7g.captadoem30.9.20137h31
SGAMBATTI, Milton Junior. Literatura Indígena. In: http://sgambatti.wordpress.com/2009/04/23/literatura-indigena. Captado em 20.9.2013.
InfoEscola. Mito ou Lenda? Disponível em: http://www.infoescola.com/redacao/mito-ou-lenda/02. Captado em 02.9.2013.12h30.

Fonte:
Anais do I Encontro de diálogos literários: um olhar para além das fronteiras. Campo Mourão: Fecilcam, 2013. 453 p.
Imagem = www.vermelho.org.br

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    Sinclair Pozza Casemiro é graduada em Letras Anglo Portuguesa pela Universidade Estadual de Maringá [UEM] (1976), mestrado em Letras pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (1995), doutorado em Letras, Área de Filologia e Lingüistica Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho [UNESP] (2001) e pós-doutorado em Letras pela Universidade de São Paulo [USP].
         Coordenadora de Pesquisa do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre o Caminho de Peabiru na COMCAM – NECAPECAM, com sede em Campo Mourão, pesquisadora pelo CNPq da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão – FECILCAM. Foi diretora e vice-diretora da Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão, FECILCAM.