sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Paulo Leminski (Versos Diversos) 22

 

dois loucos no bairro

um passa os dias
chutando postes para ver se acendem

o outro as noites
apagando palavras
contra um papel branco

todo bairro tem um louco
que o bairro trata bem
só falta mais um pouco
pra eu ser tratado também
* * * * * * * * * * * * * * * *  

bate o vento eu movo
volta a bater de novo
a me mover eu volto
sempre em volta deste
meu amor ao vento
* * * * * * * * * * * * * * * *  

hoje o circo está na cidade
todo mundo me telefonou
hoje eu acho tudo uma preguiça
esses dias de encher linguiça
entre um triunfo e um waterloo
* * * * * * * * * * * * * * * *  

você
que a gente chama
quando gama
quando está com medo
e mágua
quando está com sede
e não tem água
você
só você
que a gente segue
até que acaba
em cheque
ou em chamas
qualquer som
qualquer um
pode ser tua voz
teu zum-zum-zum
todo susto
sob a forma
de um súbito arbusto
seixo solto
céu revolto
pode ser teu vulto
ou tua volta
* * * * * * * * * * * * * * * *  

esperas frustras
vésperas frutas
matérias brutas
quantas estrelas
custas?
* * * * * * * * * * * * * * * *  

oração de pajé

que eu seja erva raio
no coração de meus amigos
árvore força
na beira do riacho
pedra na fonte
    estrela
        na borda
             do abismo
* * * * * * * * * * * * * * * *  

dia
dai-me
a sabedoria de caetano
nunca ler jornais
a loucura de glauber
ter sempre uma cabeça cortada a mais
a fúria de décio
nunca fazer versinhos normais
* * * * * * * * * * * * * * * *  

ver
é dor
ouvir
é dor
ter
é dor
perder
é dor

só doer
não é dor
delícia
de experimentador
* * * * * * * * * * * * * * * *  

lembrem de mim
como de um
que ouvia a chuva
como quem assiste missa
como quem hesita, mestiça,
entre a pressa e a preguiça
* * * * * * * * * * * * * * * *  

como um coto caro ao roto
incrédulo tiago
toco as chagas
que me chegam
do passado
mutilado

toco o nada
aquele nada que não para
aquele agora nada
que tinha
a minha
cara

nada não
que nada nenhum
declara tamanha danação
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  
O poeta, escritor e intelectual PAULO LEMINSKI FILHO foi uma das mentes mais inovadoras, irreverentes e originais do cenário cultural brasileiro do século XX. Nasceu em Curitiba/PR, em 1944, filho de um militar de origem polonesa e de uma mãe de ascendência afro-brasileira. Faleceu precocemente aos 44 anos, também em Curitiba em 1989, decorrência de complicações de uma cirrose hepática. Passou a maior parte da sua vida em Curitiba. Aos 12 anos, mudou-se temporariamente para São Paulo/SP para estudar no Mosteiro de São Bento. Entre 1969 e 1970, residiu brevemente no Rio de Janeiro, retornando logo depois à capital paranaense, onde sua casa no bairro Cruz do Pilarzinho tornou-se um famoso ponto de encontro de artistas.
Leminski foi o que ele mesmo chamava de um "polivivente". Atuou intensamente como professor de história e redação em cursinhos pré-vestibulares, jornalista, crítico literário e tradutor (dominava e traduzia cerca de sete idiomas, incluindo latim, japonês e grego). Além disso, trabalhou com grande destaque no mercado publicitário como diretor de criação e redator e na música como compositor, firmando parcerias com nomes como Caetano Veloso, Itamar Assumpção e Moraes Moreira. Fiel ao seu espírito vanguardista, boêmio e contestador, Leminski nunca pertenceu formalmente a nenhuma academia de letras tradicional em vida, pois sua postura artística rejeitava o formalismo e as instituições tradicionais da literatura. O reconhecimento dessas instituições veio de forma póstuma através de homenagens e estudos sobre seu legado.
Sua estreia literária formal aconteceu em 1964 na revista Invenção, dirigida pelos poetas concretistas de São Paulo (os irmãos Haroldo e Augusto de Campos). Leminski mesclou o rigor estético da Poesia Concreta, a velocidade do texto publicitário, a síntese milenar do haicai japonês e a rebeldia da Geração Mimeógrafo (poesia marginal). Ganhou notoriedade em premiações populares de poesia de vanguarda no início de sua trajetória. O grande triunfo de premiação literária de sua obra ocorreu postumamente, quando a antologia Toda Poesia conquistou o prestigiado Prêmio Jabuti em 2014, além de figurar de forma inédita para um livro de poesia no topo dos mais vendidos do país. 
Principais livros publicados: Catatau (1975) – Romance experimental e sua obra em prosa mais famosa; Caprichos e Relaxos (1983) – Coletânea poética que consolidou sua voz no país; Distraídos Venceremos (1987) – Último livro de poesia publicado em vida; Agora é que são elas (1984) – Romance; Toda Poesia (2013) – Coletânea póstuma que transformou sua obra em um fenômeno pop.
A relevância de Paulo Leminski para a literatura reside na sua capacidade única de democratizar a poesia sem esvaziá-la de profundidade intelectual. Ele derrubou as barreiras entre a alta cultura erudita e a cultura pop de massa. Ao unir o rigor formal ao humor corrente, ao trocadilho cotidiano e ao lirismo afiado, ele retirou a poesia do ambiente acadêmico rígido e a levou para as ruas, as canções e os cartazes de publicidade. Leminski provou que a poesia poderia ser concisa, ágil, sutil e, acima de tudo, intensamente viva. Seu impacto permanece pulsante, servindo como uma das maiores influências para as novas gerações de escritores e poetas contemporâneos no Brasil.

Fontes:
Paulo Leminski. Distraídos venceremos. Publicado em 1987.
Biografia = Wikipedia, Estadão, Ebiografia, Almanaque O Voo da Gralha Azul, Sesc PR, Bem Paraná, Brasil Escola, Mundo Educação, etc.

Katherine Mansfield (A Aula de canto)

 Com o desespero – um desespero frio e cortante – cravado no fundo do coração como uma faca cruel, a srta. Meadows, de beca e capelo e portando uma pequena batuta, percorreu os corredores frios que levavam ao salão de música. Garotas de todas as idades, coradas pelo ar e transbordando aquela alegre animação que se sente ao disparar para a escola numa bela manhã de outono, corriam, saltavam, esvoaçavam; das salas de aula vazias vinham vozes matraqueando velozes; um sino tocou; uma voz como de pássaro gritou "Muriel". E então da escada veio um tremendo bum-bum-trabum, Alguém tinha deixado cair os halteres.

A professora de Ciências deteve a srta. Meadows.

- Bom diii-a - exclamou com sua fala arrastada, suave e afetada. - Não está frio? Parece até inverno.

A srta. Meadows, comprimindo a faca, fitou com ódio a professora de Ciências. Tudo nela era doce, pálido, como mel. Não seria surpresa ver uma abelha presa no emaranhado daquele cabelo louro,

- Cortante - respondeu a srta. Meadows carrancuda,

A outra abriu seu sorriso meloso.

- Você parece gelaaaa-da - disse. Seus olhos azuis se abriram muito; tinham um brilho zombeteiro. (Teria notado alguma coisa?)

Ora, nem tanto assim - a srta. Meadow disse – respondeu ao sorriso da professora de Ciências com uma rápida careta e seguiu adiante...

As Turmas Quatro, Cinco e Seis estavam reunidas no salão. O barulho era ensurdecedor. No estrado, junto ao piano, estava Mary Beazley, a favorita da srta, Meadows, que tocava o acompanhamento. Estava girando a banqueta do piano. Quando viu a srta, Meadows, soltou um sonoro "Pssss, meninas!" de advertência, e a srta, Meadows, as mãos enfiadas nas mangas, a batuta debaixo do braço, desceu pela passagem central, subiu os degraus, virou-se bruscamente, pegou o suporte metálico da partitura, plantou-o diante de si e deu duas batidas secas com a batuta, exigindo silêncio.

- Silêncio, por favor! Já!

E, sem se deter pra ninguém, seu olhar passeou por aquele oceano de blusas de flanela colorida, onde se agitavam mãos e faces rosadas, tremulavam tiaras de borboleta e se espalhavam pautas musicais. Ela sabia muito bem o que estavam pensando. "Meady está brava," Ora, que pensassem! Suas pálpebras estremeceram; empinou a cabeça, em desafio. Que importância tinha o que aquelas criaturas pensavam para quem estava ali sangrando até a morte, ferida no coração, no fundo do coração, por uma carta assim -... "Sinto cada vez mais que nosso casamento seria um erro. Não que eu não ame você. Amo até onde me é possível amar uma mulher, mas, para dizer a verdade, cheguei à conclusão de que não sou homem de casar e a ideia de ter um lar me enche apenas de..." - e a palavra "aversão" estava levemente apagada e por cima estava escrito "pesar".

Basil! A srta. Meadows avançou empertigada até o piano. E Mary Beazley, que aguardava por esse momento, curvou-se, os cachos lhe caíram na face enquanto murmurava "Bom dia, Srta. Meadows" e, mais do que estender, fez avançar até sua professora um belo crisântemo amarelo. Esse pequeno ritual da flor vinha se passando fazia uma eternidade, pelo menos um semestre e meio. Fazia parte da aula, tanto quanto abrir o piano. Mas nesta manhã, em vez de pegá-lo, em vez de colocá-lo no cinto enquanto se inclinava para Mary e dizia "Obrigada, Mary. Quanta gentileza! Vire na página 32", qual não foi o horror de Mary quando a srta. Meadows ignorou totalmente o crisântemo, não respondeu à saudação e disse numa voz fria como gelo "Página 14, por favor, e marque bem os acentos".

Momento desconcertante! Mary enrubesceu até lhe virem lágrimas aos olhos, mas a srta. Meadows voltara ao pedestal da partitura; sua voz ressoou por todo o salão.

- Página catorze. Vamos começar com a página catorze. "Um lamento." Agora, meninas, vocês já devem conhecê-lo. Vamos a ele todas juntas, não por partes, mas todas juntas. E sem expressão. Mas cantem com muita simplicidade, marcando o tempo com a mão esquerda.

Ergueu a batuta; bateu no pedestal duas vezes. Então entrou Mary com a nota de abertura; então entraram todas aquelas mãos esquerdas, marcando no ar, e entoaram aquelas vozes jovens e lamentosas:

Logo! Ah, logo murcham as rosas do prazer;
E breve se rende o outono à tristeza invernal.
Veloz! Ah, veloz o alegre compasso musical
Passa pelo ouvinte e vai desaparecer.

Bons céus, o que podia ser mais trágico do que esse lamento! Cada nota era um suspiro, um soluço, um gemido de imensa dor. A srta. Meadows ergueu os braços em sua beca larga e começou a reger com as duas mãos. "Sinto cada vez mais que nosso casamento seria um erro...", marcava ela. E as vozes gritavam: Veloz! Ah, veloz. O que se apoderara dele para escrever uma carta assim! O que levara a isso! Saiu do nada. A carta anterior tinha sido, toda ela, sobre uma estante de carvalho escurecido que ele comprara para "nossos" livros e um "belo aparadorzinho" que tinha visto, "muito alinhado, com uma coruja entalhada num suporte, segurando nas garras três escovas de chapéu". Como ela sorrira àquilo! Tão coisa de homem achar que alguém precisaria de três escovas de chapéu! Passa pelo ouvinte, cantavam as vozes.

- Mais uma vez - disse a srta. Meadows. - Mas agora era partes. Ainda sem expressão.

Logo! Ah, logo. Somando-se a tristeza dos contraltos, era até difícil evitar um estremecimento. Murcham as rosas do prazer. Na última vez em que veio vê-la, Basil trazia uma rosa na lapela. Como estava bonito naquele temo azul-vivo, com aquela rosa vermelho--escuro! E ele sabia disso. Não tinha como não saber. Primeiro alisou o cabelo, depois o bigode; ao sorrir, os dentes faiscaram.

- A esposa do diretor vive me convidando para jantar. Uma amolação. Nunca tenho uma noite só para mim naquele lugar.

- Mas você não pode recusar?

- Oh, para um homem em minha posição isso cairia bem ser antipático.

O alegre compasso musical, lamentavam as vozes. Os salgueiros, do lado de fora das janelas altas e estreitas, ondulavam ao vento. Tinham perdido metade das folhas. As pequeninas ainda restantes se retorciam como peixes num anzol. "... Não sou homem de casar..." As vozes tinham se calado; o piano aguardava.

- Muito bom - disse a srta, Meadows, mas ainda num tom tão frio e estranho que as meninas mais novas começaram a se sentir realmente assustadas.

- Mas, agora que já conhecemos, vamos cantar com expressão. Pensem nas palavras, meninas. Usem a imaginação. Logo! Ah, logo - exclamou a srta. Meadows. - Deve irromper - um forte alto, vigoroso - um lamento. E então, no segundo verso, tristeza invernal, a tristeza tem de soar como se soprasse um vento gelado. Tristee-eeza - falou de maneira tão sinistra que Mary Beazley em seu banquinho contorceu as costas.

- O terceiro verso deve ser um crescendo só. Veloz! Ah, veloz o alegre compasso musical. Quebrando na primeira palavra do último verso. Passa. E então na palavra pelo vocês começam a morrer... a se extinguir… até que vai desaparecer não passe de um sussurro bem fraquinho... Podem ir devagar o quanto quiserem no último verso. Agora, por favor.

De novo as duas leves batidinhas; ergueu novamente os braços. Logo! Ah, logo. "... e a ideia de ter um lar me enche apenas de aversão –”  Era aversão o que ele tinha escrito. Era igual a dizer que o noivado deles estava definitivamente rompido. Rompido! O malvado! As pessoas já tinham se surpreendido quando levou noiva. A professora de Ciências no começo não acreditou. Mas ninguém se surpreendera mais do que ela. Estava com trinta anos. Basil, com vinte e cinco. Tinha sido um milagre, um verdadeiro milagre, ouvi-lo dizer voltando da igreja naquela noite muito escura: "Sabe, de alguma maneira eu me apaixonei por você".

E pegara a ponta de seu boá de plumas de avestruz. Passa pelo ouvinte e vai desaparecer.

- Repitam! Repitam! - disse a srta. Meadows. – Mais expressão, meninas! Outra vez!

Logo! Ah, logo. As mais velhas estavam de cor escarlate; algumas das mais novas começaram a chorar. Grandes pingos de chuva se arremessavam contra as janelas e dava para ouvir os salgueiros sussurrando "...não que eu não ame você...".

"Mas, meu querido, se você me ama", pensou a srta. Meadows, "não me interessa o quanto, Pode ser bem pouquinho". Mas sabia que ele não a amava. Nem se deu ao trabalho de apagar totalmente aquela palavra "aversão", para que ela não visse! E breve se rende o outono à tristeza invernal. Teria de deixar a escola também. Jamais conseguiria encarar a professora de Ciências nem as meninas, depois que soubessem. Teria de sumir em algum lugar. Passa. As vozes começaram a morrer, a se extinguir, a sussurrar... a desaparecer.

De repente a porta se abriu, uma menina de azul veio alvoroçada pela passagem, baixando a cabeça, mordendo os lábios e girando a pulseira prateada em seu pulsinho vermelho. Subiu os degraus e parou diante da srta. Meadows.

- Bem, Mônica, o que é?

- Oh, por favor, srta. Meadows - disse a menina ofegante. - A srta. Wyatt quer vê-la na sala da diretoria.

- Muito bem - respondeu a srta, Meadows e se dirigiu às meninas. –  Deixarei a cargo de vocês que falem baixo enquanto eu estiver fora.

Mas elas estavam abatidas demais para fazer qualquer outra coisa. A maioria assoava o nariz.

Os corredores estavam frios e silenciosos; os passos da srta. Meadows faziam eco. A diretora estava sentada à escrivaninha. Não ergueu os olhos de imediato. Estava como sempre desembaraçando os óculos, que haviam ficado presos no laçarote rendado.

- Sente-se, srta. Meadows - disse muito gentil. E então pegou um envelope cor-de-rosa de sob o mata-borrão. - Mandei chamá-la porque acabou de chegar este telegrama para você.

- Um telegrama para mim, srta, Wyatt?

Basil! Ele tinha se suicidado, concluiu a srta. Meadows. Estendeu ligeiro a mão, mas a srta. Wyatt reteve o telegrama por um instante.

- Espero que não sejam más notícias - disse mais do que gentil.

E a srta. Meadows abriu de um rasgão.

"Desconsidere carta, devia estar louco, comprei chapeleira hoje - Basil", leu ela. Não conseguia desgrudar os olhos do telegrama.

- Espero que não seja nada muito grave - disse a srta. Wyalt inclinando-se para ela.

- Oh, não, obrigada, srta. Wyatt - corou a srta. Meadows. - Não é nada de ruim. É... - e soltou um risinho com ar de desculpa - é de meu noivo dizendo que... dizendo que...

Houve uma pausa.

- Entendo - disse a srta. Wyatt.

E outra pausa. Então:

- Você ainda tem quinze minutos de aula, não, srta. Meadows?

- Sim, srta. Wyatt.

Levantou-se. Quase correu para a porta.

- Oh, mais um minutinho, srta. Meadows - disse a srta. Wyatt. - Devo dizer que não aprovo que meus professores recebam telegramas no horário das aulas, exceto em casos de notícias muito graves, como uma morte - explicou a srta. Wyatt - ou um acidente muito sério ou algo assim. Como sabe, srta. Meadows, as boas notícias sempre podem esperar.

Voando nas asas da esperança, do amor, da alegria, a srta. Meadows se apressou de volta ao salão, percorreu a passagem, subiu os degraus, acercou-se do piano.

- Página 32, Mary - disse página 32 ~ e, pegando o crisântemo amarelo, segurou-o diante dos lábios para ocultar o sorriso.

Então virou-se para as meninas e deu uma batida seca com a batuta;

- Página trinta e dois, meninas. Página trinta e dois.

Aqui viemos hoje cobertas de flores,
Com cestos repletos de frutas e fitas,
Para celebraaaar...

- Parem! Parem! - gritou a srta. Meadows. - Está horrível. Está pavoroso.

Olhou radiante para suas meninas.

- O que há com vocês? Pensem, meninas, pensem no que estão cantando. Usem a imaginação. Cobertas de flores. Cestos repletos de frutas e fitas. E celebrar.

A srta. Meadows se interrompeu.

- Não fiquem com ar tão triste, meninas. É para soar alegre, caloroso, exultante. Celebrar. Mais uma  vez. Rápido. Todas juntas. Agora!

E nesse momento a voz da srta. Meadows se sobrepôs a todas as outras - cheia, profunda, resplandecendo de expressão.
* * * * * * * * * * * * * * * * * * * * *  

KATHLEEN MANSFIELD BEAUCHAMP (Katherine Mansfield) foi uma das escritoras mais brilhantes, revolucionárias e influentes do século XX. Nascida em Wellington, Nova Zelândia, em 1888, ela faleceu precocemente em Fontainebleau, França, em 1923, com apenas 34 anos de idade. A vida de Mansfield foi marcada pelo cosmopolitismo e pela busca constante por climas que aliviassem sua saúde frágil Passou a infância na Nova Zelândia e a adolescência (suas memórias de infância em Wellington inspiraram seus melhores contos). Mudou-se definitivamente para Londres em 1908, onde se inseriu na vanguarda intelectual e artística britânica. Devido à tuberculose, passou seus últimos anos peregrinando por refúgios de saúde na França, Itália, Suíça e Alemanha.
Ao contrário de muitos escritores de sua época, Mansfield dedicou-se quase que exclusivamente à escrita ficcional e à crítica literária. Começou a publicar textos e tocar violoncelo ainda na juventude na Nova Zelândia. Ao retornar a Londres, dedicou-se integralmente à literatura. Escreveu resenhas e críticas literárias afiadas para periódicos importantes da época, como The New Age e The Athenaeum (este último editado por seu segundo marido, o crítico John Middleton Murry). Em Londres, conviveu intensamente com a vanguarda modernista. Teve uma relação complexa e fascinante de amizade e rivalidade intelectual com Virginia Woolf, que chegou a declarar em seus diários que a escrita de Katherine era a única da qual sentia ciúmes. Conviveu também com D. H. Lawrence e T. S. Eliot. Nunca pertenceu a academias de letras ou instituições literárias formais. Ela rejeitava o tradicionalismo e as estruturas acadêmicas rígidas da era vitoriana e eduardiana, alinhando-se totalmente ao espírito rebelde e experimental do Modernismo. Não recebeu prêmios literários em vida. Na sua época, o circuito de premiações para contos era escasso, e o verdadeiro reconhecimento de sua genialidade e impacto estético ocorreu de forma póstuma.
Mansfield escreveu principalmente contos, diários e cartas. Suas coletâneas mais célebres são: In a German Pension (Numa Pensão Alemã, 1911) – Seu livro de estreia; Bliss and Other Stories (Felicidade e Outros Contos, 1920) – Obra que consolidou sua reputação jurídica na literatura; The Garden Party and Other Stories (Festa no Jardim, 1922) – Considerada sua obra-prima máxima; The Dove's Nest (O Ninho da Pomba, 1923) e Something Childish (Algo Infantil, 1924) – Publicações póstumas organizadas por seu marido.
A relevância de Katherine Mansfield para a literatura mundial é imensurável, sendo considerada a mestra absoluta do conto modernista em língua inglesa Antes dela, o conto dependia de enredos tradicionais (início, meio, clímax e fim amarrado). Mansfield rompeu com isso, focando na epifania — momentos cotidianos aparentemente banais que revelam grandes verdades psicológicas sobre os personagens. Foi pioneira no desenvolvimento de técnicas narrativas que misturam os pensamentos íntimos dos personagens com a voz do narrador, influenciando diretamente a escrita de Virginia Woolf. Suas histórias capturaram com precisão cirúrgica as dinâmicas de classe, o isolamento, a sexualidade, a solidão e as expectativas sufocantes impostas às mulheres no início do século XX.

Fontes:
Os melhores contos de Katherine Mansfield. Porto Alegre/RS: LP&M, 2016.
Biografia = Wikipedia, Enciclopédia Britannica, etc.

Estante de Livros (“Cinco Minutos”, de José de Alencar)

Cinco Minutos, assim como 'A Viuvinha', foram escritos no início da carreira do autor. Assim como os outros romances caracterizados pelo romantismo ingênuo de Alencar, esses dois não fogem à regra, são feitos aos moldes de folhetim, curtos, quase infantis. Têm como pano de fundo o Rio de Janeiro. Cinco Minutos faz parte da fase urbana do escritor.

Conta a história do casamento do autor com Carlota. No entanto, para o leitor, parece que está escutando uma história que não é para ele, já que Alencar dirige seu texto a uma prima. O leitor aqui é uma terceira pessoa, um 'voyeur' que fica entre José de Alencar e sua prima.

Ao mesmo tempo em que tenta levar o leitor a pensar que tudo é imaginário e faz parte das fantasias do autor, José de Alencar faz questão de narrar fatos verídicos da época, acontecimentos reais que marcaram o Rio de Janeiro no início do século. É tão minucioso nesse aspecto que até narra datas e horários etc.

Atualmente as histórias do autor romântico passam como que quase infantis e ingênuas para o leitor moderno. São narrações em que o amor sempre vence, decisões passionais de amantes, amor e amor e amor. À época, os folhetins eram lidos pelas senhoras burgueses. Exagerando-se um pouco na dose, poderíamos dizer que Alencar lembra remotamente, os livrinhos que embalam os sonhos de moças solteiras, no entanto não se pode deixar de dizer que sua escrita, linguagem, e modo estilístico são de extrema qualidade. Foi Alencar quem se dissociou do modelo português da escrita para definitivamente inaugurar o texto nosso, brasileiro.

Os livros Cinco Minutos e A Viuvinha falam sobre a vida burguesa. Suas personagens são personagens que, no fundo, representam o ideal acabado da vida burguesa, tropicalmente reproduzida na Corte brasileira. Em Cinco Minutos, o narrador-personagem está disponível, da primeira à última página, para satisfazer a todos os caprichos de sua imaginação. Sem compromisso profissional algum, o aspecto financeiro de suas peregrinações atrás de Carlota não chegam jamais a preocupá-lo.

Personagens

Protagonista: Personagem redonda, também narrador, pois conta a história em 1ª pessoa, não é citado seu nome. A história gira em torno do amor que ele sente por Carlota e a sede que sente em revê-la e estar ao seu lado.

Carlota: Personagem redonda, antagonista no começo, porque ela mesma impede o personagem principal de encontra-la, pois pensa ter uma doença incurável e não quer faze-lo sofrer, mas logo se rende ao amor dele.

Personagens secundárias: A prima a quem a carta que contém a história é endereçada, a mãe de Carlota, o velho da canoa.

Enredo

Situação inicial:
O protagonista é um homem fútil que não sabe o que é paixão, e vive uma vida rotineira e melancólica. Carlota, menina adoentada de 16 anos, o ama anonimamente, seguindo-o em festas e nas ruas.

Motivo desequilibrador:
A história muda a partir do momento em que ele se atrasa cinco minutos e perde seu ônibus. Ao ter que tomar outro ônibus acaba encontrando Carlota, que não conhece fisicamente ou socialmente, mas que se torna uma obsessão em sua mente.

Clímax:
O momento culminante é quando ela revela sua identidade, sua doença e seu amor por ele, mas logo em seguida o abandona, deixando-o com a escolha de ir a se encontro e presenciar seus últimos dias ou esquece-la e não ver seu sofrimento.

Desfecho final:
A volta do equilíbrio acontece quando ela se cura de sua doença e eles voltam casados da viagem e se estabelecem em “uma linda casa, toda alva e louçã”, que fica fora da cidade e “vivem felizes para sempre”.
 
Espaço
A cidade do Rio de Janeiro, a cidade de Petrópolis, Minas Gerais onde eles se estabelecem no fim, além de vários países da Europa.

Ambiente
Calmo no começo e no fim. Doentio quando ele procura saber a identidade de sua amada e quando ele tenta chegar rápido ao Rio de Janeiro.

Tempo cronológico
A história que é narrada se passa no ano de 1857.

Tempo psicológico
O livro é todo em flashback, pois o narrador conta a história que se passou dois anos atrás. Ele infere no meio da narração suas reflexões sobre a vida, os costumes, suas vaidades e seus conhecimentos sobre as mulheres.

Foco narrativo
O discurso é direto, o narrador em 1ª pessoa dá aos leitores uma visão parcial daquilo que está sendo narrado, a visão dele. Ele conta a história do centro, pois ele é o personagem principal, fazendo uso de vários canais para se comunicar com o leitor, palavras, reflexões, sentimentos, ações, etc…

O livro é na verdade uma carta endereçada a uma prima, citada algumas vezes e usada na tentativa do narrador interagir com o leitor.

Fontes:
Algo Sobre
Cola da Web

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

José Feldman (Sunshine, meu sol da manhã)

 

Jerson Brito (Semeando Trovas)

 

A melhor alternativa

para alcançar a vitória
é tornar a tentativa
atitude obrigatória!
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Aquela vila afastada,
nas brenhas do interior,
parece pobre... Que nada!
É manancial de amor…
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A riqueza genuína
da tapera ou da mansão
vem do amor que predomina,
não se mede com cifrão.
= = = = = = = = =

Da minha infância tranquila
recordo, os olhos marejo.   
Mil vezes aquela vila
do que concreto e azulejo!
= = = = = = = = =

Digo com sinceridade:
É melhor pro coração,
o amargor duma verdade,
do que o mel d’uma ilusão
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Ela é charmosa e pequena,
concisa, porém, completa.
Eis a trova, expressão plena
da mensagem do poeta.
= = = = = = = = =

Esperança assim defino:
rio que corre veloz,
banhando nosso destino
sem chegar à sua foz.
= = = = = = = = =

Existe um tênue limite
entre paixão e loucura;
para as duas, acredite
não é fácil ter a cura.
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Faltou bronze ao escultor
que, sem outra solução,
resolveu, na praça, expor
a estátua do herói anão!…
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- Fui bronze! Missão cumprida!
Disse o sujeito aos parentes,
sem mencionar que a corrida
só tinha três concorrentes.
= = = = = = = = =

Já tentei tirar de mim
a semente dessa flor,
que espalhou no meu jardim
o perfume do amor.
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Libertado das ruínas
de um amor sem solidez,
ao abrir outras cortinas,
meu coração se refez.
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Na crise, eu me fortaleço,
não perco os sonhos de vista;
toda queda é o recomeço
para quem crê na conquista!
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Na luta, quando entendido
o recado de um tropeço,
qualquer espinho vencido
escreve um fim... e um começo!
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Não maldiga o desafio
se a jornada é longa e dura;
a glória é fruto macio,
carregado de doçura.
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No baú da experiência,
guarde dor e alegria.
As lições dessa vivência
são úteis no dia-a-dia.
= = = = = = = = =

Nossa paixão dissemina,
nos sonhos, a insanidade
quando surge, clandestina,
disfarçada de saudade.
= = = = = = = = =

No teu sussurro extravasas
um sopro avassalador
que mantém vivas as brasas
da fogueira deste amor.
= = = = = = = = =

O fracasso e a vitória
fazem parte do existir.
É normal na trajetória,
de vez em quando cair.
= = = = = = = = =

Olhando estas mãos feridas,
lamento, orgulhoso, as falhas
e não as chances perdidas
no decorrer das batalhas!
= = = = = = = = =

O vivente caminheiro,
se palmilha senda escura,
na esperança tem luzeiro
que no coração fulgura.
= = = = = = = = =

Qual cometa incandescente,
a paixão passa e se vai,
deixa no peito da gente
uma dor que nunca sai.
= = = = = = = = =

Quem se empenha na leitura
nada perde e tem certeza
de que, para a mente escura
livro aberto é luz acesa.
= = = = = = = = =

Se de rancor está cheio
nosso coração doente,
estão vazias, eu creio,
a nossa alma, a nossa mente.
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Sentindo o golpe certeiro
da paixão que me extasia
louvo teu sorriso, arqueiro
de notável pontaria.
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Se o fracasso tem dois lados,
vale muito a decisão;
chorar os planos frustrados
ou bendizer a lição.
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Se põe fogo em nossa cama,
amor, esse teu perfume
é a mesma essência que inflama
o facho do meu ciúme!
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Será crescente a desgraça
da fome e grande o lamento
enquanto existir quem faça
da ganância um alimento.
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Sobre opiniões e crenças,
a sensatez nos diria
que o respeito às diferenças
tece teias de harmonia.
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Somos almas garimpeiras
nessa vida de perigos
onde, em lavras rotineiras,
valem ouro os bons amigos.
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Tentei enxugar meu pranto
na fronha do travesseiro.
Péssima ideia, porquanto
chorei mais, senti teu cheiro…
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Um amor especial
trouxe a flecha do cupido,
a saudade, esse punhal,
fez meu coração partido.
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Um cenário me devasta:   
a garrafa de champanhe,
duas taças, vela gasta
e ninguém que me acompanhe.
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Jerson Brito (1973)
  JERSON LIMA DE BRITO é um dos principais expoentes contemporâneos da poesia clássica, do soneto e da trova na Região Norte do Brasil, amplamente reconhecido por sua maestria técnica e dedicação à preservação das formas poéticas tradicionais. Nasceu em Porto Velho, no estado de Rondônia, em 1973. Sempre residiu em sua cidade natal, filho de José Brito e Maria Ducevalda. Graduou-se em Administração e em Direito pela Fundação Universidade Federal de Rondônia. Atua desde 1996 como servidor público federal, exercendo o cargo de Técnico Federal de Controle Externo na Secretaria de Controle Externo do Tribunal de Contas da União (TCU), em Rondônia.
Teve o primeiro contato com a poesia métrica na infância por meio dos folhetos de cordel que seu pai comprava. Consolidou-se na fase adulta como um exímio sonetista, trovador e cordelista, dedicando-se rigorosamente à rima, à métrica e ao lirismo clássico. É uma liderança ativa no movimento da trova nacional, atuando como Delegado da UBT na capital rondoniense. É um autor muito ativo na plataforma literária [Recanto das Letras], onde compartilha milhares de composições. Membro fundador da Academia Brasileira de Sonetistas Clássicos (ABSC), integrante ativo do Fórum do Soneto. Acumula dezenas de premiações de destaque em certames de Sonetos e Trovas pelo Brasil. Embora o autor concentre grande parte de seu acervo em coletâneas nacionais da trova, antologias poéticas e portfólios digitais de longo alcance, ele possui mais de 2.000 textos publicados na web focados na difusão da trova e do cordel.
A relevância de Jerson Lima de Brito reside em descentralizar a poesia clássica, provando que a tradição do soneto rígido e da trova rimada pulsa com força fora do eixo literário do Sudeste. Como delegado da trova e membro da ABSC, ele atua diretamente na formação de novos leitores e escritores na Amazônia Ocidental. Ele resgata a herança cultural do cordel nordestino trazida por seus antepassados e a funde com a identidade rondoniense, mantendo viva a riqueza da poesia metrificada na literatura contemporânea do Brasil.
Fontes:
Messias da Rocha (org.). Múltiplas palavras vol. III. Juiz de Fora/MG: Ed. dos Autores, 2022.
Livro enviado por Lucília Trindade Decarli

Mia Couto (O Menino no Sapatinho)

 Era uma vez o menino pequenito, tão minimozito* que todos seus dedos eram mindinhos. Dito assim, fino modo, ele, quando nasceu, nem foi dado à luz mas a uma simples fresta de claridade.

De tão miserenta, a mãe se alegrou com o destamanho do rebento — assim pediria apenas os menores alimentos. A mulher, em si, deu graças: que é bom a criança nascer assim desprovida de peso que é para não chamar os maus espíritos. E suspirava, enquanto contemplava a diminuta criatura. Olhar de mãe, quem mais pode apagar as feiuras e defeitos nos viventes?

Ao menino nem se lhe ouvia o choro. Sabia-se de sua tristeza pelas lágrimas. Mas estas, de tão leves, nem lhe desciam pelo rosto. As lagriminhas subiam pelo ar e vogavam suspensas. Depois, se fixavam no teto e ali se grudavam, missangas tremeluzentes.

Ela pegava no menino, com uma só mão. E falava, mansinho, para essa concha. Na realidade, não falava: assobiava, feito uma ave. Dizia que o filho não tinha entendimento para palavra. Só língua de pássaro lhe tocaria o reduzido coração. Quem podia entender? Ele há dessas coisas tão sutis, incapazes mesmo de existir.

Como essas estrelas que chegam até nós mesmo depois de terem morrido. A senhora não se importava com os diz-que-diz. Ela mesmo tinha aprendido a ser de outra dimensão, florindo como o capim: sem cor nem cheiro.

A mãe só tinha fala na igreja. No resto, pouco falava.

O marido, descrente de tudo, nem tinha tempo para ser desempregado. O homem era um farrapo, bêbado, entorna garrafas. Do bar para o quarto, de casa para a cervejaria.

Pois, aconteceu o seguinte: dadas as dimensões de sua vida e não havendo berço à medida, a mãe colocou o menininho num sapato. E o cujo era o esquerdo do único par, o do marido. De então em diante, o homem passou a calçar um só pé. Só na ida isso o incomodava. Na volta, ele nem se percebia de ter pés, dois na mesma direção.

Em casa, no calor da palmilha, o miúdo aprendia já o lugar do pobre: nos embaixos do mundo. Junto ao chão, tão rés e rasteiro que, em morrendo, dispensaria quase o ser enterrado. Uma peúga* desirmanada lhe fazia de cobertor. Se o frio lhe estreitasse, a mulher se levantava de noite para repuxar a trança dos atacadores*. Assim lhe calçava um aconchego. Todas as manhãs, de prevenção, ela avisava os demais e demasiados:

— Cuidado, já adentrei o menino no sapato.

Que ninguém, por descuido, o calçasse. Quando‑muito, o marido quando voltava bêbado e queria sair uma vez mais, desnoitado, sem distinguir o esquerdo do menos esquerdo. A mulher não deixava que o berço fugisse do vislumbre dela. Porque o marido já se outorgava, cheio de queixa:

— Então, ando para aqui improvisar um coxinho?

— É seu filho, pois não?

— O diabo que te carregue!

E apontava o filhote: o individuozito interrompia o seu calçado? Pois que, sendo aqueles seus exclusivos e únicos sapatos, ele se despromoveria* para um chinelado?

— Sim — respondeu a mulher. — Eu já lhe dei os meus chinelos.

Mas não dava jeito naqueles areais do bairro. Ela devia saber: a pessoa pisa o chão e não sabe se há mais areia em baixo que em cima do pé.

— Além disso, eu é que paguei os tais sapatos.

Palavras. Porque a mãe respondia com sentimentos:

— Veja o seu filho, parece o Jesuzinho empalhado, todo embrulhadinho nos bichos de cabedal.

Ainda o filho estava melhor que Cristo — ao menos um sapato já não é bicho em bruto. Era o argumento dela mas ele, nem querendo saber, subia de tom:

— Cá se fazem, cá se apagam!

O marido azedava e começou a ameaçar: se era para lhe desalojar o definitivo pé, então, o melhor seria desfazerem-se do vindouro. A mãe, estarrecida, como se fosse o fim de todos os mundos:

— Vai o quê fazer?

— Vou é desfazer.

Ela prometia-lhe um tempo, na espera que o bebê graúdasse. Mas o assunto azedava e até degenerou em soco, punhos ciscando o escuro. Os olhos dela, amendoados ainda, continuaram espreitando o improvisado berço. Ela sabia que os anjos da guarda estão a preços que os pobres nem ousam.

Até que o ano findou, esgotada a última folha do calendário. Vinda da igreja, a mãe descobriu-se do véu e anunciou que iria compor a árvore de Natal. Sem despesa, nem sobrepeso. Tirou à lenha um tosco arbusto. Os enfeites eram tampinhas de cerveja, sobras da bebedeira do homem. Junto à árvore ela rezou com devoção de Eva antes de haver a macieira. Pediu a Deus que fosse dado ao seu menino o tamanho que lhe era devido. Só isso, mais nada. Talvez, depois, um adequado berço. Ou quem sabe, um calçado novo para o seu homem. Que aquele sapato já espreitava pelo umbigo, o buraco na frente autorizando o frio.

Na sagrada noite anterior, a mulher fez como aprendera dos brancos: deixou o sapatinho na árvore para uma qualquer improbabilíssima oferta que lhe miraculasse o lar.

No escuro dessa noite, a mãe não dormiu, seus ouvidos não esmoreceram. Despontavam as primeiras horas quando lhe pareceu escutar passos na sala. E depois, o silêncio. Tão espesso que tudo se afundou e a mãe foi engolida pelo cansaço.

Acordou cedo e foi direta ao arbusto de Natal. Dentro do sapato, porém, só o vago vazio, a redonda concavidade do nada. O filho desaparecera? Não para os olhos da mãe. Que ele tinha sido levado por Jesus, rumo aos céus, onde há um mundo apto para crianças. Descida em seus joelhos, agradeceu a bondade divina. De relance, ainda notou que lá no teto já não brilhavam as lágrimas do seu menino. Mas ela desviou o olhar, que essa é a competência de mãe: o não enxergar nunca a curva onde o escuro faz extinguir o mundo.
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Vocabulário:
Atacadores – Cordão que se enfia em ilhós para amarrar espartilhos, calçados.
Despromoveria – reduziria, rebaixaria.
Minimozito – muito pequeno.
Peúga – meia curta.
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Mia Couto (1955)   
     ANTÓNIO EMÍLIO LEITE COUTO, mundialmente conhecido pelo pseudônimo de MIA COUTO, é o escritor moçambicano mais traduzido e celebrado internacionalmente. O autor é amplamente reconhecido por sua prosa poética e por reinventar a língua portuguesa com o uso de neologismos inovadores. Nasceu em 1955, na cidade da Beira/ Moçambique. Filho de imigrantes portugueses, cresceu em sua cidade natal. Em 1971, mudou-se para a capital, Lourenço Marques (atual Maputo), para estudar, onde reside e trabalha . Na juventude, juntou-se à FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique) na luta anticolonial. Abandonou o curso inicial de Medicina para se dedicar ao jornalismo pós-independência. Foi diretor da Agência de Informação de Moçambique (AIM), da revista Tempo e do jornal Notícias. Em 1985, deixou o jornalismo para se formar em Biologia, especializando-se em Ecologia. Trabalhou na gestão de zonas costeiras, lecionou na universidade e fundou uma empresa de impactos ambientais.
Estreou na escrita aos 14 anos com poemas publicados na imprensa local. Adotou o pseudônimo "Mia" devido à sua paixão de infância por gatos e ao fato de seu irmão não conseguir pronunciar seu nome. Sua literatura transita de forma única entre a tradição oral africana (mitos e lendas locais) e a escrita formal herdada do colonialismo. O autor é mestre em fundir realismo e fantasia, criando palavras novas (neologismos) para expressar a identidade de Moçambique. Pertence à Academia Brasileira de Letras, em 1998 como Sócio Correspondente. Foi o primeiro moçambicano e o segundo escritor de todo o continente africano a integrar a academia.
Prêmio Camões (2013), O mais prestigiado prêmio da literatura em língua portuguesa, concedido pelo conjunto de sua obra; Neustadt International Prize for Literature (2014): Conhecido como o "Nobel Americano"; Prêmio Vergílio Ferreira (1999): Atribuído em Portugal pelo conjunto de sua obra; Prêmio Nacional de Ficção (1995): Concedido pela Associação dos Escritores Moçambicanos por “Terra Sonâmbula”.
Alguns Livros Publicados: Raiz de Orvalho (1983) – Poesia (sua estreia em livro); Vozes Anoitecidas (1986) – Contos; Cada Homem é uma Raça (1990) – Contos; Cronicando (1991) – Crônicas; Terra Sonâmbula (1992) – Romance (considerado um dos 12 melhores livros africanos do século XX); Antes de Nascer o Mundo (2009) – Romance; Trilogia As Areias do Imperador (Mulheres de Cinza, A Espada e a Azagaia e O Bebedor de Horizontes – 2015 a 2017) – Romances históricos, etc.
Mia Couto revolucionou as letras lusófonas ao provar que a língua portuguesa não pertence apenas a Portugal ou ao Brasil. Ele "moçambicanizou" o português, moldando a gramática e o vocabulário europeu ao ritmo das línguas locais e da cosmovisão africana. Suas obras foram fundamentais para cicatrizar as feridas sociais da violenta Guerra Civil Moçambicana, usando a poesia da ficção para tratar de traumas históricos brutais. Colocou a literatura contemporânea de Moçambique no mapa-múndi da alta literatura, influenciando novas gerações de escritores em todo o planeta. 

Fontes:
Mia Couto. O menino no sapatinho. Lisboa/Portugal: Editorial Caminho, 2013.
Biografia: Tag Livros, Ebiografia, Wikipedia, Academia Brasileira de Letras, Mundo Educação, Brasil Escola, Portal da Literatura, etc.

Marcelo Spalding (Dicas de Escrita) A ambientação em textos históricos

Textos históricos, ficcionais ou não, são dos mais procurados pelos leitores, afinal a História com “H” maiúsculo nos oferece algumas das mais interessantes histórias de amor, poder, traição, ódio. Júlio Cesar, Cleópatra, Arthur, Napoleão, Joana D’Arc, reis, papas e lendas são personagens extremamente ricos e conhecidos do público leitor, convertendo-se em personagens muito produtivos para a literatura contemporânea.

Entretanto, quem se aventura a escrever um texto histórico deve ter alguns cuidados com o enredo e a ambientação, pelo bem da verossimilhança. O curioso é que em relação ao enredo alguns artistas fazem o que se chama metaficção historiográfica, combinando de modo irreal os fatos da história e por vezes inclusive modificando-os (Jô Soares, Tarantino). Se isso no começo espantou os leitores e espectadores, hoje é considerado característica da cultura pós-moderna.

Mesmo nesses casos, porém, é fundamental que a ambientação seja verossímil. Por mais que o artista esteja recriando os fatos da segunda guerra, por exemplo (como Tarantino em Bastardos Inglórios), não pode de uma hora para outra aparecer alguém com um telefone celular, ou alguém ouvindo Lady Gaga, ou alguém comentando sobre Barack Obama, ou alguém de minissaia.

Nesse sentido, para escrever um texto histórico procure se informar sobre a cultura da época que seu texto quer retratar: os costumes, a moda, o turismo, a gastronomia. Mas procure se informar com textos e documentos da época, não a partir de textos de outros escritores sobre a época, pois sempre que um autor contemporâneo resgata o passado, ele o faz com o olhar contemporâneo.

Claro que alguns se esforçam para tornar a ambientação mais realistas, outros não se preocupam nada com isso (como os blockbusters históricos de Hollywood, em que as mulheres têm cabelos bem cortados, sobrancelhas aparadas e axilas depiladas), mas a verdade é que é impossível dissociarmos totalmente o tempo que vivemos, seus valores, seu passado, seus aprendizados, do tempo representado.

Lembre-se, por fim, de que a língua também é parte da cultura e também se modifica com o tempo. O próprio vocabulário das personagens precisa ser adequado à época: tenha cuidado com gírias, regionalismos ou construções comuns hoje, mas não utilizadas na época de ambientação do texto.

Textos históricos contemporâneos e textos históricos clássicos A literatura tem uma tradição milenar, então podemos ler textos escritos em épocas históricas, como as revoluções francesas, a formação das nações, das repúblicas, etc. Esses textos são clássicos de Balzac, Stendhal, Walter Scott, Goethe, Machado, e são excelentes fontes de aprendizado para quem deseja reconstruir determinada cultura de época.

Mais comuns, porém, são textos escritos em uma época e que retomam épocas anteriores. Eça de Queirós, por exemplo, escreveu o ótimo Ilustre Casa de Ramires, sobre a formação de Portugal, voltando aos anos 1100. Embora seja um texto antigo (escrito nos anos 1800), ele não é autêntico na representação do passado.
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Este material é parte da Oficina de Criação Literária Online.  
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Marcelo Spalding (1982)
MARCELO SPALDING PEREZ é um escritor, jornalista, professor e editor brasileiro. Nascido em Porto Alegre/RS, em 1982, ele consolidou sua carreira residindo e atuando na capital gaúcha, onde se tornou uma das referências contemporâneas em Escrita Criativa e novas mídias. Spalding possui uma formação voltada às letras e à comunicação: Graduado em Jornalismo e em Letras. Mestre em Literatura Brasileira (UFRGS), Doutor em Literatura Comparada (UFRGS) e Pós-Doutor em Escrita Criativa (PUCRS). Atuou como professor universitário na UniRitter (na graduação e na pós-graduação). É o fundador e diretor da Metamorfose Cursos (criada em 2015), onde coordena o renomado Curso Livre de Formação de Escritores, uma das principais iniciativas privadas de formação literária do país. É diretor da Editora Metamorfose, selo pelo qual já editou mais de 150 livros de novos autores.
Sua trajetória na literatura começou de forma precoce, publicando seu primeiro livro ficcional aos 16 anos. Além de autor de ficção, Spalding destaca-se como pesquisador e ensaísta. Não integra academias de letras tradicionais, no entanto, possui forte atuação institucional no ecossistema literário regional, tendo sido vice-presidente da Associação Gaúcha de Escritores (AGES) entre os anos de 2004 e 2007. É membro do coletivo literário Grupo Casa Verde e atua ativamente como resenhista e editor do portal Artistas Gaúchos.
Com mais de uma dezena de livros individuais publicados (entre ficção, crônicas e obras didáticas), seus principais títulos incluem: As Cinco Pontas de uma Estrela (seu livro de estreia, em 1998); Crianças do Asfalto; Minicontos e Muito Menos; Liga da Literatura; Mitos Virtuais; Escrita Criativa para Iniciantes (didático); Formação de Escritores e outras crônicas sobre escrever e publicar; Viagens, Crônicas e Descobertas, etc.
Seu reconhecimento no cenário regional e nacional inclui importantes distinções : Prêmio AGES (Associação Gaúcha de Escritores): Vencedor de cinco prêmios na categoria Livro do Ano; Prêmio Açorianos de Literatura: Um dos prêmios culturais mais tradicionais do Rio Grande do Sul; Prêmio Jabuti: Foi finalista da maior premiação literária do Brasil.
A relevância de Marcelo Spalding para a literatura brasileira contemporânea fundamenta-se em três pilares principais:
   1. Pioneirismo na Literatura Digital: Spalding é o idealizador do Movimento Literatura Digital no Brasil. Ele escreveu uma das primeiras teses de doutorado do país dedicadas à literatura em plataformas móveis (como tablets) e publicou projetos experimentais marcantes na área.
   2. Estudo e Difusão do Miniconto: Ele foi o autor de uma das primeiras dissertações de mestrado focadas estritamente no gênero do miniconto no Brasil, ajudando a legitimar academicamente essa forma sintética de narrativa no cenário nacional.
   3. Formação de Novos Autores: Através da Metamorfose Cursos e de seus manuais teóricos, Spalding desmistificou o processo de escrita. Ele atua ativamente na formação prática, edição e inserção de centenas de novos escritores no mercado editorial brasileiro.

Fontes:
Texto enviado por Marcelo Spalding.
Biografia = Marcelo Spalding, Escavador, Wikipedia, Editora Metamorfose, Plataforma de Escritores, Amazon, Escrita Criativa, Literatura Digital, etc.