Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 9 de agosto de 2008

Jogos Florais de Nova Friburgo 1961

O SUCESSO DOS JOGOS FLORAIS

No momento em que publicamos este volume de trovas sobre SAUDADE, que foi o tema dos II Jogos Florais de Friburgo, realizam-se nessa linda cidade do Estado do Rio as festas dos III Jogos, e para lá se dirigem os dez vencedores do Concurso de trovas. Este ano, o tema foi: CIÚME .

Tem sido realmente extraordinário o sucesso alcançado pela iniciativa minha, e de Luiz Otávio, transplantando para o Brasil a semente desses torneios culturais que se originaram na Idade Média, e ainda hoje são realizados em muitas cidades européias, na França, na Espanha e em Portugal.

Em sua secção, “Porta de Livraria”, no jornal “O Globo”, do Rio, do dia 15 de janeiro deste ano, Antonio Olinto acentuou, ao referir-se aos III Jogos Florais de Friburgo: “Os Jogos Florais de Nova Friburgo, patrocinados pela “Porta de Livraria” de “O Globo” e realizados naquela cidade fluminense todos os anos, em maio, tornaram-se uma constante do calendário de poesia do País. Como resultado da iniciativa, baseada em idéia de J. G. de Araujo Jorge e Luís Otávio, houve no Brasil um surto de trovas. Cerca de 50 volumes de trovas saíram nos últimos três anos, lançados por editoras do Rio. No Estado do Rio, várias outras cidades promovem festas de poesia: Campos, São Fidelis, Teresópolis”.

* * *
O sucesso alcançado com a realização dos Jogos Florais, positivou-se com a classificação em 7.º lugar da poetisa portuguesa Ana Rolão Preto Martins Abano, residente em Benguela, África Ocidental Portuguesa.

Vieram trovas, não apenas do Brasil, dos estados mais distantes, mas de Portugal e Províncias Ultramarinas, até onde chegue a língua portuguesa.

Mas a colocação da poetisa da África portuguesa, nos deixou, a nós promotores dos Jogos Florais às voltas com um sério problema. Como trazer, de tão longe, com os gastos que tal viagem necessariamente implicaria, a poetisa vitoriosa?

O Regulamento do Concurso estabelece que os 10 vencedores têm direito a passagens pagas a Friburgo, e estadia de 18 dias em Hotel da cidade, para participarem das festas dos Jogos Florais e dos Festejos de aniversário da cidade, que se comemora a 16 de Maio.

Procuramos o então Ministro da Educação Brígido Tinoco, nosso velho amigo, fluminense de boa cepa, homem de cultura e poeta, e lhe expusemos nossas dificuldades. Na ocasião o Presidente Jânio Quadros iniciava, em boa hora, a sua política de aproximação com os povos da Ásia, e da África, e nossa promoção, de certa forma, ia ao encontro dos objetivos de nossa política externa.

E como que por um passe de mágica, diante da compreensão e boa vontade de Brígido Tinoco, e da aprovação de Jânio Quadros, conseguimos que o Governo Brasileiro convidasse oficialmente a poetisa vitoriosa a participar dos II Jogos Florais. Dificuldades imprevistas entretanto, e a exigüidade de tempo, impediram que Ana Rolão Preto Martins Abano pudesse vir ao Brasil na ocasião. Mas, de posse das passagens, com validade para um ano, a poetisa deverá estar presente aos III Jogos Florais, como convidado especial.

* * *
O tema saudade é um tema caro a brasileiros e portugueses. Saudade é uma palavra de que orgulha o idioma português pelo fato de os outros povos não encontrarem outra capaz de traduzi-la.

E o resultado, é que, enquanto aos I Jogos Florais concorram cerca de 4 mil trovas, aos II Jogos Florais, foram mandadas mais de 10 mil !

Quem não escreveu sobre saudade? No meu “Cantigas de Menino Grande” , tenho estas duas trovinhas:

“No peito dos marinheiros
nasceu, cresceu, emigrou...
Mas nos porões dos “negreiros”
foi que a saudade... chorou!

Demos à saudade portuguesa, que era ânsia, mais profundidade, com os gemidos de dor dos “negreiros”. A saudade brasileira, é portuguesa e africana. Por isso, confessei:

Partiu com sonhos de glória
Ficou, com a dor da tristeza!
Eis, afinal, toda a história
da saudade portuguesa!
* * *

Neste livro, os leitores encontrarão 100 das mais lindas trovas que a saudade já inspirou. Entre as vinte primeiras trovas classificadas há concorrentes do Rio, de São Paulo, de Juiz de Fora, de Niterói, de Campos, de Bandeirantes (no Estado do Paraná); e de Benguela, na África.

O vencedor dos II Jogos Florais, Anis Murad. (que se revelou aliás trovador como concorrente a esse torneio) obteve cinco trovas premiadas entre as vinte primeiras. Além de sagrar-se vencedor, viu outras trovas suas se Classificarem em 5.º, 11.º 16.° e 20.° lugares. Anis Murad estréia aliás, em livro, como trovador, com o volume n° 9 de nossa Coleção.
* * *

Deve-se à iniciativa dos Jogos Florais, um verdadeiro surto trovadoresco. Eu, por exemplo, recebo livros de trovas que me são mandados de todos os recantos do Brasil. A nossa “Coleção Trovadores Brasileiros”, já se seguiu o lançamento este ano, pela Livraria Freitas Bastos, da “Coleção de Trovas e Trovadores” organizada por Aparício Fernandes e Zalkind Piatogorsky.

Aparício Fernandes escreve aliás para a Rádio Globo dois programas diários de trovas: “Trovas e Trovadores”, as 10:50h. apresentado pelo meu velho amigo Luiz de Carvalho, e "Pensamento e trova do dia" às 15:05h, na voz de Mário Luiz. Unindo-se a Zalkind Piatogorsky, poeta e trovador,organizaram essa nova coleção que apareceu logo com um “time” completo de trovadores, pois foram lançados de uma vez, onze volumes, todos com a denominação genérica de CANTIGAS.

Eu próprio, através do meu programa na Rádio Tupi, aos sábados, às 18:30 horas, programa que já está no ar há três anos, tenho divulgado a trova e os torneios Florais. Campos, antes mesmo dos nossos Jogos Florais já realizara o seu I SalãoCampista de Trovas, sob o patrocínio da Academia Pedralva.

São Fidelis, linda cidade fluminense, vive um grande movimento cultural com os seus Festivais Fidelenses de Poesia, se ampliam anualmente em julho, tendo à frente o poeta Antonio Augusto de Assis. E o Festival Fidelense de Poesia, se amplia com uma exposição de livros, autógrafos, poemas, trovas e agora, pensam, seus organizadores em promover um concurso de trovas, tal como idealizamos em Friburgo, escolhem também uma “Musa dos Trovadores”, pleito a que concorrem moças escolhidas como “ Musas dos Trovadores ”, em várias cidades do norte do Estado: Miracema, Itaocára, Cambuci, Itaperuna, Pádua.

Cruzeiro, em São Paulo , comemorou o 60.° aniversário do Município com um grande Concurso de trovas e a publicação de uma “Antologia da Poesia Cruzeirense”.

Na Bahia, o Grêmio Brasileiro dos Trovadores, tendo a frente o dinâmico Rodolfo Cavalcanti, poeta popular, realiza periodicamente concursos de trovas. E já que falamos na “ boa terra ”, nunca será demais relembrar que a idéia dos “ Jogos Florais de Nova Friburgo ” ocorreu-nos, a mim e ao Luiz Otávio quando em viagem à Bahia, depois que vencemos um concurso de trovas.

Teresópolis, promove este ano, de 1.º a 6 de julho, o I Festival Brasileiro de Literatura, iniciativa da Academia- Teresopolitana de Letras, e de seu presidente, Artur Dalmaso. O Festival se baseia em concursos literários, podendo os candidatos se inscreverem em cinco gêneros: poesia, crônica, conto, ensaio, biografia e crítica, Como vêem, um Festival, em amplas proporções.

Várias cidades do Brasil, no momento, cogitam de torneios semelhantes. Coincidência ou não, no Rio se realiza agora todo ano no mês de julho, o Festival Brasileiro do Escritor este ano o festival terá lugar na sede do Museu de Arte Moderna, e certamente repetirá o sucesso dos dois primeiros , realizados em Copacabana.

Em Pouso Alegre, estado de Minas, já aconteceram os I Jogos Florais da cidade, também com um concurso de trovas, cujo tema foi ESPERANÇA.

As cem trovas selecionadas nesse festival constituem o volume n.º 11 de nossa Coleção. Santos, Juiz de Fora, Sorocaba, (leio pelos jornais e revistas) estão pensando na realização de festas e torneios semelhantes.
* * *
Alastra-se, portanto, pelo Brasil a “trovite”. Verdadeira epidemia, que não deve ser combatida, antes deve ser difundida cada vez mais pois, vai progressivamente interessando um maior número de brasileiros pelos problemas das letras e da cultura. As trovas são o primeiro degrau da poesia, o que está. mais perto do povo. Eu próprio já escrevi:

Cartilhas do coração
onde o povo se inicia,
os livros de trovas, são
um ABC de poesia:

Vamos portanto “alfabetizar” a alma do povo ensinando-a a sentir e a cantar com os trovadores. Porque, permitam-me mais esta quadrinha:

Modificando o ditado
direi: “Comer... e trovar...”
(está mais de que provado)
- “a questão é começar...”
J . G . de Araujo Jorge

Coleção “Trovadores Brasileiros”
Organização de Luiz Otávio e J.G. de Araujo Jorge
Editora Vecchi – 1959

Fonte:
http://www.jgaraujo.com.br/

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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