Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

sábado, 9 de agosto de 2008

Luiz Antonio Cardoso (A Sombra das reentrâncias)

Ela caminhava... levava nas mãos um grande galão com algum líquido, ainda indefinido, e pendurados nas costas, dois grandes sacos pretos. E ela caminhava com cautela, até mesmo assustada. Parecia esconder algo ou fugir de alguém. Sua aparência chamava a atenção: era magra, provavelmente cinqüenta anos, e tinha o semblante arredio, assim como arredios eram seus passos... passos que não paravam...

Ela passava pelas ruas fitando com estranheza as calçadas, os muros e portões... o que aquela mulher pretendia? Enquanto as pessoas ansiavam, naquele anoitecer, a hora da ceia de natal, e ocupavam-se dos derradeiros preparativos, a mulher enigmática, parecendo tão sofrida, andava pelas ruas, arcada pelo peso que carregava. Qual seria o fardo daquela mulher? Seria uma andarilha qualquer, procurando restos de comida e objetos ou fugitiva de alguma clínica para doentes mentais?

Os transeuntes não ficavam indiferentes a ela. Todos que cruzavam seu caminho olhavam-na com desconfiança ou medo... outros tinham pena, e alguns riam, dizendo que era o Papai Noel ao contrário: em vez de homem, era mulher. Magricela como só ela, enquanto o Noel era gorducho! Com uns sacos pretos que mais davam medo do que despertavam as esperanças natalinas da criançada, e com aquele jeito arisco de ser, que espantava qualquer adulto... imaginem, então, crianças!

Mas ela demonstrava uma surpreendente indiferença para com o universo humano. Os risos e até algumas provocações que alguns jovens lhe lançavam, pareciam que passavam despercebidos... o que passava pela mente daquela mulher? Quais seriam seus planos, ao observar com tantos detalhes as sarjetas, os caules das árvores e os jardins das praças?

Será que ela não tinha nada mais importante para fazer do que perder tempo daquele jeito? Será que não tinha uma família esperando-a para a noite de natal? Não seria católica? Pois a missa do galo já havia começado e a igreja estava lotada de fiéis...

Mas ela continuava a andar... um policial que passava apressado, fitou-a por alguns segundos e seguiu adiante... será que ele havia percebido, com toda sua experiência, que se tratava de uma mulher inofensiva?!

E ela, após andar por horas, acabou dando uma grande volta ao redor daqueles bairros, indo parar naquelas mesmas ruas! Os grandes ponteiros do relógio da matriz assinalavam meia-noite! Fogos de artifício iluminavam o manto estrelado, anunciando o natal... nos lares: abraços e beijos! Troca de presentes! Comida farta... brindes com champanhes... muitos pernis, lombos... tantos perus, frangos e outros animais haviam sucumbido para saciar o insaciável desejo humano! Muitos vinhos estavam sendo sorvidos.

E a mulher, voltando à mesma rua na qual iniciou sua caminhada, parou pela primeira vez, tirou de um dos sacos pretos, três potes vazios de manteiga. Num deles despejou uma boa quantidade de ração para cães, que tirou do outro saco, e colocou o pote numa reentrância que havia observado na árvore... outro pote encheu de água cristalina, que trazia no galão, e inseriu na segunda reentrância... o terceiro pote serviu para acomodar ração para gatos, que ela pendurou, com muito cuidado, num galho da mesma árvore... e assim seguiu seu trilhar, com bastante rapidez, devido à prática e a observação prévia, construindo um natal mais feliz aos cães e gatos desamparados...

Realmente ela tinha algo de Papai Noel, e se aproveitando do vazio das ruas, devido às ceias e festejos natalinos, ia procurando o melhor lugar para montar a mesa das criaturinhas de Deus... buscava a sombra das reentrâncias, o esconderijo dos galhos, as frestas dos muros, sabendo que ali a inconsciência alheia teria mais dificuldade de avistar e de chutar, com risos galgados ao álcool e merecedores de piedade.

Amanhecia... uma bela manhã de natal começava a despontar na cidade... homens e mulheres dormiam, sendo que muitos acordariam com monumentais ressacas! Muitos gatos e cães, outrora abandonados, dormiam saciados, por que uma boa alma havia passado uma noite de natal a festejar a caridade para com aqueles que a humanidade, há séculos, classificou de úteis e inúteis, de saborosos ou indigestos, de divertidos ou chatos!

E aquela mulher sumiu... ninguém mais a viu! Ninguém sabia seu nome, se era casada, se tinha filhos, se sofria, se amava, se acreditava em Deus... parecia que ela havia se diluído às sombras... ou teria se perdido nas reentrâncias da vida? Ninguém sabia responder... mas onde estivesse, com ela certamente seguia a silenciosa gratidão de dezenas de criaturas... com ela seguia a paz da missão cumprida e a agradabilíssima sensação de harmonia universal para com a natureza... para com o cosmos... para com Deus...
Taubaté-SP, 2007

Fonte:
Diário LAC - Literatura, Artes e Cultura . http://www.diariolac.com.br/

Nenhum comentário:

Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

Enviar a pagina em pdf por e-mail

Send articles as PDF to