Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

João Carlos Taveira:(Seleção de Poemas)

(id: MCCXII)

SONATA nº. 44, em mim menor

Tenho nas mãos um vazio,
no peito, mudo, um gemido,
que são as marcas de estio,
de tempo em mim construído.
Traço por traço me lavra,
nervura que já não vibra,
mas teço, fibra por fibra,
dentro da carne, a palavra.

Trago nas mãos, transversal,
ríspida flauta de vento,
em cujas notas, de sal,
construo o meu instrumento.


IMPROVISO PARA FLAUTA E PIANO
Para Ariadne Paixão

Que lábios me sustêm,
em lúcida harmonia
de arpejos e arrepios,
se a voz, em mim, é muda?

Em suave tessitura,
desvelo meus anseios,
sou frágil instrumento,
no vento, sem memória.

Que música desfaz,
no seio do mistério,
o nó da melodia,
o grito na garganta?

Me basto nos martelos,
nos fios invisíveis,
que tecem nas entranhas
meu corpo em oferenda.

BASTIDOR

Fico-me aqui: sozinho, só,
so(l)zinho de tão pouca luz,
que a sombra do meu dia é pus
dentro da vida — eterna mó.

Moída a carne, os ossos nus,
os olhos viram cinza e pó;
só sobra, a cisma sobre o dó
que faz em mim ponto de cruz.

Fico-me só: mas não perdido,
tecendo sonho em vão tecido,
pois que não sou o ser que lavra.

Além de mim, um outro tece
a mesma voz e a mesma prece,
das quais me faço na palavra.

A DUPLA FACE

Dentro do verso,
meu universo:
tudo é possível
e tudo é nada.

Dentro de mim,
dor e cetim:
minha loucura,
meu alicerce.

Sou e não sou,
ao mesmo tempo,
voz e luxúria.

Não basta ao vento
a sua fúria?
Basto-me louco.


IMPROVISO PARA VIOLONCELO

Grave e suave
o ritmo vai
serpenteando
pelo papel
nas rotas notas
de uma canção.

Cresce dos dedos
o acorde torto
e em sonolência
imita o vôo
já sincopado
dentro do pássaro.

Pausa e silêncio
na partitura:
é a voz de um anjo
talvez arcanjo
a brotar trôpega
junto da música.

DESCONCERTO

Ouço tua voz
ao telefone,
na noite insone,
na noite celular.

Áspera música
(cujas notas sangram)
flui de mim, sem mim,
enquanto falas.

Ainda guardas, vivo,
teu dissabor
na dor, na cor,
na pétala da fala.

Entretanto, canto
como aprendiz
o que não fiz
para os teus ouvidos.


ÍNTIMA CANTIGA

Num verso terso
desteço a infância:
do útero ao berço
— em ressonância
de sonho e fome —
refaço o laço
na voz do pássaro
que em mim ressoa
além do nome.

Num verso terso
canto e descanto
secretas fibras
de uma cantiga.

Guardo comigo
frementes sons
de asas, palavras:
ínvias palavras.


BERCEUSE

Para Morgana

Dorme, menina
dos olhos de água,
claros como a lua,
lisos como o mar
sem tormento.

Dorme, minha filha,
o sono do esquecimento,
nas vagas do sangue
sem códigos,
sem nome.

Filha minha,
carne da minha carne,
dorme e esquece
os vestígios do dia,
os sonhos interrompidos
e a sede do teu sorriso
que a noite
plantou em mim.


TESTAMENTO
Para Anderson Braga Horta

Deixa o teu silêncio
e o que restar da voz
impregnados
nos objetos, nas exigências,
nos versos inconclusos
de algum poema.

Deixa – e não te queixes –
amores unilaterais mas puros
para os teus pósteros
rivais
nesta congênere aventura.

Deixa teus livros,
quadros na parede,
os discos de Beethoven,
todos as óperas, inclusive “Aída”:
a tua predileta.

Deixa o teu amor
à música de Mozart,
aos filmes de Carlitos,
ao corpo de Sofia Loren...

Deixa os teus papéis
e até a folha branca
em que não se fixou
a face da palavra
necessária.


TERESA

Quando viste Teresa
pela primeira vez
foi como se a conhecesses
de longo, longo tempo.

Hoje, depois de tanto tempo,
toda vez que vês Teresa
é como se fosse
a primeira vez.


HAICAI

A lua caiu
no chão áspero da rua.
E eu catando estrelas.


NAVIO FANTASMA

Brusca, a barca trafega
nas trevas da existência.
Sem trégua, o timoneiro
avança. E, na dormência

de músculos e artérias,
atinge o magma, o centro
do abismo de existir,
fora de si e dentro.

As velas retorcidas,
a que ventos sucumbes,
nos vendavais da dor,
ao gozo e seus vislumbres?

Há tantos sóis e luas
na árdua travessia
Melhor não fora o porto
que a vida oferecia?

A vida não deságua
em lisos acalantos.
E não floresce a pedra
nas águas de seus prantos?

Ó velas desfraldadas,
de que sonhos se nutrem
a ânsia dos navios,
a fome dos abutres?
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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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