quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Dimas Macedo (Literatura e Escritores Cearenses)

Quando falo sobre Tendências da Literatura Cearense Atual, como me sugerem os organizadores deste seminário, quero me referir a escritores vivos e à ambiência literária de Fortaleza tais como se encontram em 1997, isto é, pretendo investigar se existe entre nós uma produção literária consistente e qual o grau de inserção de referida produção literária nos quadros da literatura brasileira.

Começo por fazer um repasse histórico, partindo das primeiras manifestações. Rememoro os Oiteiros, tertúlias palacianas ao redor do Governador MANUEL INÁCIO DE SAMPAIO, como início da nossa atividade literária, para alguns; para outros, é a poesia de JUVENAL GALENO aquilo que marca os primórdios da nossa literatura. A Academia Francesa, da década de 1870, é uma instituição pioneira e importante, mas não pode ser julgada um movimento literário, ainda que dos seus quadros tenham saído dois dos principais críticos do século dezenove - ROCHA LIMA e ARARIPE JÚNIOR. O mesmo no entanto já não ocorre com o Clube Literário (1886), a Padaria Espiritual (1892) e o Centro Literário e a Academia Cearense de Letras, criados em 1894.

Cabe referir, no período do romantismo, além de JUVENAL GALENO, os nomes de JOAQUIM DE SOUSA e BARBOSA DE FREITAS, poetas hoje completamente deslembrados, com ressalvas para os esforços de SÂNZIO DE AZEVEDO em restabelecer a legitimidade da poesia de ambos. JOSÉ DE ALENCAR é um caso à parte. Sendo o nosso maior representante literário, é também o escritor cearense em cuja ficção o Ceará se vê mais bem imaginado ou idealizado, não especificamente retratado, contudo, pois tanto Iracema quanto O Sertanejo, os seus dois romances ambientados no Ceará, são calcados em pura intuição lendária, como já afirmei em outra ocasião.

O simbolismo no Ceará corre paralelo à Padaria Espiritual e o nome de maior destaque é o de LÍVIO BARRETO, autor de Dolentes (1897). A Padaria Espiritual gravita em torno de ANTÔNIO SALES, que é um dos nossos maiores poetas e o autor primoroso de Aves de Arribação. A ele, no final do século passado, juntar-se-iam os romancistas OLIVEIRA PAIVA e de ADOLFO CAMINHA, ambos com cadeiras cativas no panorama da literatura brasileira. Não falo de RODOLFO TEÓFILO, que encarnou a alma cearense, nem de FRANKLIN TÁVORA, que empalmou a tese de uma certa literatura do norte, pois sou dos que não acreditam na consistência estética das suas produções, ainda que reconheça os inegáveis méritos literários de ambos.

DOMINGOS OLÍMPIO, autor de Luzia-Homem (1903), PAPI JÚNIOR (1854-1934), CORDEIRO DE ANDRADE (1908-1943) e HERMAN LIMA (1897-1981), são quatro ficcionistas que não podem ser olvidados, em nenhuma hipótese, assim como não pode jamais ser esquecida a figura de GUSTAVO BARROSO, principalmente como contista e memorialista. Ele próprio um dos grandes escritores do Brasil durante o percurso deste século, ao lado de JOSÉ ALBANO, que considero um poeta exponencial e originalíssimo.

O que vem depois é a fase do pré-modernismo, projetando luzes na figura solitária de MÁRIO DA SILVEIRA. E bem assim a estética do parnasianismo, que produziu alguns dos mais expressivos poetas cearenses, a exemplo de OTACÍLIO DE AZEVEDO, CARLOS GONDIM, ANTÔNIO SALES, CRUZ FILHO e JÚLIO MACIEL. E as tentativas de renovação modernista de 1928/1930, ao redor de DEMÓCRITO ROCHA, JÁDER DE CARVALHO, SIDNEY NETO, JOÃO JACQUES FERREIRA LOPES, RACHEL DE QUEIROZ e FILGUEIRAS LIMA, sem esquecer o surto modernista definitivo que se instaurou no Ceará a partir da década de 1940, empalmado pelo Grupo Clã de Literatura. BRAGA MONTENEGRO é o crítico literário dessa escola. DURVAL AIRES o seu novelista. MILTON DIAS o seu cronista mais expressivo. PEDRO PAULO MONTENEGRO o seu grande teórico literário. MOREIRA CAMPOS e EDUARDO CAMPOS os seus contistas mais eminentes. FRAN MARTINS e JOÃO CLÍMACO BEZERRA são os romancistas dessa geração. É com estes dois últimos ficcionistas a que me refiro que o chamado romance cearense ganha foros de legitimidade e complementação. Os poetas do Clã foram ALUÍSIO MEDEIROS, ANTÔNIO GIRÃO BARROSO, OTACÍLIO COLARES e ARTUR EDUARDO BENEVIDES. STÊNIO LOPES, JOAQUIM ALVES, LÚCIA FERNANDES MARTINS, MOZART SORIANO ADERALDO, CLÁUDIO MARTINS e ANTÔNIO MARTINS FILHO, na condição de grandes escritores, também se filiaram a esse movimento.

Outro nome a relembrar é o do poeta IRANILDO SAMPAIO, que estréia na década de 1950 e que ainda hoje permanece em plena atividade, tendo publicado, em 1997, A Nave dos Esquecidos, seu décimo sexto livro de poemas. Já COSTA MATOS, nascido poeta ainda na década de 1940, atravessou as décadas seguintes fiel ao ideário da sua vocação, tendo recentemente (1997) estreado como romancista, sendo desta forma merecida a sua inserção nos quadros da literatura cearense atual.

O movimento concretista é do final da década de 1950. EUSÉLIO OLIVEIRA, JOSÉ ALCIDES PINTO, BARROSO GOMES, ANTÔNIO GIRÃO BARROSO e PEDRO HENRIQUE SARAIVA LEÃO são os seus máximos representantes. E aqui já estamos chegando na década de sessenta, cuja referência mais visível é a do grupo SIN de Literatura. Seus componentes, passados quase trinta anos, continuam sendo preponderantemente poetas, com exceção de PEDRO LYRA e LINHARES FILHO, que enveredaram pela crítica, pela estética e pelo ensaio literário também. HORÁCIO DÍDIMO, BARROS PINHO, ROGÉRIO BESSA, LEÃO JÚNIOR e ROBERTO PONTES, membros do SIN, fizeram opção pela poesia e dela se tornaram nomes destacados.

Talvez neste ponto da exposição coubesse um parêntese para que pudéssemos evocar o nome de JUAREZ BARROSO, morto aos 41 anos, e que depois se transformaria num dos maiores contistas do Brasil. Autor de Mundinha Panchico e o Resto do Pessoal (1969) e de Joaquim Gato (1976), livros de contos, e de Doutora Isa (1978), romance, que juntos nada ficam a dever aos grandes monumentos literários brasileiros da década de 1970. Outro nome que considero importante, surgido na década de 1970, mas pertencendo a uma faixa etária bastante anterior, é o do poeta CAETANO XIMENES ARAGÃO (1927-1995), autor de uma poesia épica e de entonação marcadamente cósmica, comprometida com as exigências da modernidade literária.

O Grupo Siriará de Literatura, que eclodiu no final da década de setenta, além de um manifesto e de uma revista que morreu com o primeiro número, não deixou a meu juízo uma contribuição significativa, enquanto movimento de renovação estética e literária. Foi uma atitude muito mais do que um grupo literário com disposição de aglutinar uma proposta concreta de ação ou coisa que o valha. Mas é indiscutível também que do Siriará provém alguns dos melhores escritores cearenses da década de 1980, com raízes num período bem anterior, que remonta à criação da revista O Saco, uma das mais originárias publicações brasileiras das últimas décadas.

Com o Siriará morre também o ciclo dos grandes movimentos literários cearenses, pois as tentativas que vieram depois não se consolidaram, não passando na sua maioria de saraus ou de convivências de boa vizinhança, o que muito já representa para uma literatura que deseja buscar a sua identidade e não a encontra senão em algumas posturas pessoais, pois o elo partido é justamente a impossibilidade de uma afirmação regional de algo que só tente a se globalizar a se inserir num contexto muito maior.

Falo agora de nomes isolados, não da história da literatura cearense como um todo, mas da literatura que se pratica em Fortaleza e nos seus arredores. Vou isolar de propósito os que, embora nascidos cearenses, emigraram para outros centros culturais mais desenvolvidos, não se contaminando do pecado e dos vícios do provincianismo, uma praga à qual está sujeita boa parte de qualquer ambiência literária. A falta de uma crítica militante em Fortaleza, capaz de acompanhar a nossa produção literária, é um dos males culturais mais graves e também de difícil solução.

Não estou dizendo que desconheço a crítica literária mais jovem. Pelo contrário. Observo com interesse o embrião de uma crítica nova, ainda vacilante e descontinuada, que se excerce principalmente no Suplemento Sábado do Jornal O Povo, me parecendo oportuno destacar, entre os iniciantes, os nomes de ELEUDA DE CARVALHO e MANOEL RICARDO DE LIMA e, entre os veteranos, os nomes de LIRA NETO e FLORIANO MARTINS.

Arrisco-me agora a apontar alguns escritores em evidência no nosso cenário literário. Começo por ALCIDES PINTO, que considero um dos maiores nomes da literatura brasileira deste século. Avalio a sua condição de poeta, mas, principalmente, me interessa a sua dimensão de romancista. FRANCISCO CARVALHO costuma ser julgado como sendo o nosso grande poeta nos dias de hoje, situação com a qual plenamente concordo, ainda que considere uma temeridade esse tipo de classificação, pois o poder metafórico e a opção pelos chamados temas eternos da poesia, fazem de ARTUR EDUARDO BENEVIDES um expressivo poeta também. EDUARDO CAMPOS e JOÃO CLÍMACO BEZERRA são outros dois grandes escritores cearenses, ao lado de PATATIVA DO ASSARÉ, com toda a certeza, o mais canônico e o mais alto de todos os nossos poetas populares, ao lado, possivelmente, de JUVENAL GALENO, cuja poesia já foi absorvida pelo nosso estrato erudito.

Fora do espaço cearense, RACHEL DE QUEIROZ, CAIO PORFÍRIO CARNEIRO, MÁRIO PONTES, ROBERTO AMARAL, CLÁUDIO AGUIAR, JOYCE CAVALCANTE e GERARDO DE MELLO MOURÃO, grande expressão da poesia épica de língua portuguesa, são nomes que honram a tradição literária do Ceará, com a agravante de terem a terra de berço como leit-motiv de sua criação.

Não iria longe se elaborasse outra lista e nela posicionasse os nomes de MOACIR C. LOPES, JOSÉ ADERALDO CASTELO, ROLANDO MOREL PINTO, HOLDEMAR MENEZES, CÉSAR LEAL, HILDA GOUVEIA DE OLIVEIRA, ANA MIRANDA e HELONEIDA STUDART, escritores que também se projetaram na literatura brasileira e que igualmente confirmam o Ceará como um celeiro de veros escritores. A este rol me parece justo também acrescentar os nomes de GILSON e STELA NASCIMENTO, JOSÉ HELDER DE SOUSA e LUSTOSA DA COSTA, FRANCISCO SOBREIRA e LUCIANO BARREIRA, ELVIA BEZERRA e NATALÍCIO BARROSO, CÂNDIDO ROLIM e YEDA ESTERGILDA, DULCE MARIA VIANA e EDILSON CAMINHA e de mais uns poucos, com destaque para duas revelações cearenses, surgidas no Estado de Pernambuco - MAJELA COLARES e RONALDO CORREIA DE BRITO, poeta o primeiro e contista o segundo aqui mencionado.

Por que li praticamente tudo o que escreveram os autores que mencionei e os que vou mencionar adiante e também porque fui convidado para falar sobre o assunto que aqui se quer discutir, acho que posso e devo dar o meu testemunho e emitir a minha opinião, o que faço, aliás, com muita reserva, pois sei que no âmbito de uma província literária como a cearense existem gostos pessoais os mais variados, vaidades patológicas às vezes agressivamente cultivadas e candidatos à crítica literária que muito pouco leram, mas que se apressam em oferecer, de forma autoritária e arrogante, a sua opinião atabalhoada.

Gostaria de desprezar essas visões pessoais, por não refletirem um juízo isento e desapaixonado. SÂNZIO DE AZEVEDO, do alto da sua estatura de sábio e de pesquisador, se quisesse, poderia ser o crítico da literatura cearense atual, pois é o nosso maior historiador literário e, entre todos, o mais criterioso. Ele prefere o passado. Compreendo. Pois acho que não seria lícito lhe cobrar também o presente. Nenhum crítico, por mais que se esforce, será capaz de responder por uma certa história literária sozinho.

Por onde prossigo? Me permitam falar da figura de GILMAR DE CARVALHO, que nasceu escritor em 1973 e que na década de 1980 resolveu liquidar a sua fatura literária, optando a partir de então pela pesquisa da literatura de cordel, assunto no qual tem se tornado estudioso dos mais respeitados. Escreveu, a meu juízo, o melhor romance cearense da década de 1970 (Parabélum, 1977), que somente encontra similar, no terreno da ficção e no mesmo período, na prosa genial de JUAREZ BARROSO, no romance Recordações da Comarca (1972), de ODÁLIO CARDOSO DE ALENCAR, e no livro de contos O Mundo Refletido nas Armas Brilhantes do Guerreiro, de autoria de GERALDO MARKAN, publicado em 1979.

Os poetas que sentaram praça no Grupo SIN de Literatura, com o tempo foram assumindo posições muito pessoais. BARROS PINHO retirou-se um pouco da cena literária depois de coroar sua trajetória com os poemas de Circo Encantado (1975) e de confirmar a sua vocação de poeta com Natal do Castelo Azul (1984). LINHARES FILHO fez opção pelas formas fixas do poema, pagando tributo, inclusive, à geração de 45 e a uma certa linguagem bastante erudita e austera. ROBERTO PONTES e HORÁCIO DÍDIMO continuaram produzindo e editando uma poesia de boa qualidade, recheada de experimentos e reinvenções pessoais muito proveitosas. PEDRO LYRA se inclinou por uma certa poesia dialética e por uma poética bastante singular e audaciosa e os demais, LEÃO JÚNIOR e ROGÉRIO BESSA entre eles, preferiram continuar em silêncio, esperando talvez o fim da tempestade.

AIRTON MONTE, que estreou como contista, mais precisamente em 1979, e teve sua obra muito bem recebida pela crítica, parece ser um nome que não está muito interessado em continuar escritor, apesar da sua excelente performance, no início dos anos de 1980, com dois livros de contos muito apreciados. Optou, por último, pela crônica diária de caráter jornalístico, distanciando-se assim de CARLOS EMÍLIO CORRÊA LIMA e de NILTO MACIEL, seus companheiros de geração e de aventura literária no terreno da curta e da longa ficção, e que já firmaram-se na literatura brasileira como escritores muito originais. Babel, o livro de contos de NILTO MACIEL, e Pedaços da História Mais Longe, o romance de CARLOS EMÍLIO, ambos publicados em 1997, confirmam entre nós e nos escaninhos da literatura brasileira, a presença de dois excelentes ficcionistas.

NILZE COSTA E SILVA é outro nome da década de 1980 que anda mais ou menos desaparecido, impedindo um julgamento acertado da sua produção ficcional. Situação, aliás, que me parece ser idêntica a de JOSÉ LEMOS MONTEIRO, que estreou e se firmou como romancista na década de oitenta e que misteriosamente desapareceu do cenário editorial e literário, isto depois da publicação dos romances A Valsa de Hiroxima (1980), A Serra do Arco-Iris (1982) e O Silêncio dos Sinos (1986).

Volto-me agora para os nomes de IRELENO PORTO BENEVIDES, autor de dois importantes livros de poemas (Construção Cotidiana, 1983, e Itinerários do Exílio e da Comunhão, 1988), e de DIOGO FONTENELE, a cujas produções poéticas me refiro no meu livro Leitura e Conjuntura (2ª edição, 1995). O meu propósito, no entanto, é seguir adiante, pois as melhores tintas são para o nome de MARLY VASCONCELOS, autora de uma obra concisa mas de indiscutível formatação estética e literária. É uma escritora a ser considerada, pois domina como poucos o universo da poesia, com a qual apareceu e se firmou na década de setenta e na seguinte e que agora tornou-se igualmente romancista de largo tirocínio. Considero Coração de Areia (1993) um romance extremamente bem realizado e esteticamente muito bem construído, afora os seus méritos no campo da literatura infanto-juvenil, habilidosa escritora que é na seara dessa modalidade de arte literária.

ANGELA GUTIÉRREZ e BEATRIZ ALCÂNTARA têm se dividido entre a poesia, a ficção e o ensaio literário, com livros publicados em cada um desses gêneros. Trata-se de duas professoras universitárias, da área específica da literatura, exigentes com o resultado da sua produção, ambas disputando um lugar entre as escritoras de sua geração, ao lado de NATÉRCIA CAMPOS, com certeza, cujo livro de contos Iluminuras (1988), é um marco da literatura não só do Ceará.

A crítica e o ensaio literário estão limitados ao espaço universitário, com uma ou outra exceção. Por esses gêneros, além de ANGELA GUTIÉRREZ e BEATRIZ ALCÂNTARA, têm passeado autores como CARLOS D'ALGE, PEDRO PAULO MONTENEGRO, LINHARES FILHO, JOSÉ LEMOS MONTEIRO, PEDRO LYRA, TEOBERTO LANDIM, F.S. NASCIMENTO, NOEMI ELISA ADERALDO, CELINA FONTENELE GARCIA, MARTA CAMPOS, VERA LÚCIA MORAES, BATISTA DE LIMA, JOSÉ LEITE DE OLIVEIRA JÚNIOR, ÍTALO GURGEL, ANA VLÁDIA MOURÃO, LOURDINHA LEITE BARBOSA e, principalmente, SÂNZIO DE AZEVEDO, o maior estudioso da literatura cearense e um dos mais prestigiados ensaístas literários do Brasil nas últimas três décadas.

A safra de poetas entre nós é imensa. Existem autores nesse campo para todos os gostos. Não vou falar dos consagrados, como FRANCISCO CARVALHO, JOSÉ ALCIDES PINTO e ARTUR EDUARDO BENEVIDES que, como disse, ao lado de JOÃO CLÍMACO BEZERRA e EDUARDO CAMPOS, formam, possivelmente, o quinteto dos maiores escritores cearenses eruditos, no campo específico da criação artística, no qual a pena equilibrada de CIRO COLARES é o nosso contraponto no terreno da crônica.

Falo de escritores de gerações recentes, especificamente de poetas, os que foram surgindo a partir da década de 1960 e conseguiram chegar até aqui. Acho que a elite desses poetas, abstraindo-se os componentes do SIN, a quem me reportei linhas acima, responde pelos nomes de PEDRO HENRIQUE SARAIVA LEÃO, LUCIANO MAIA, ADRIANO ESPÍNOLA, BATISTA DE LIMA, JUAREZ LEITÃO e CARLOS AUGUSTO VIANA. Particularmente, tenho uma admiração pessoal pela poesia de PEDRO HENRIQUE SARAIVA LEÃO e sobre ela organizei recentemente (1997) o livro intitulado Tempo e Antítese. Trata-se de um poeta antenado com a grande vertente da poesia universal deste século, a de língua inglesa, completamente abstraído da nossa atmosfera rural, da linguagem discursiva e da imitação gratuita que têm caracterizado boa parte da literatura cearense atual.

Deixei propositalmente de fora da listagem os nomes de OSWALD BARROSO e de FLORIANO MARTINS, para quem pretendo um tratamento diferenciado, assim como de fora o nome de ROSEMBERG CARIRY, cuja vocação de poeta foi totalmente sufocada pela de produtor cultural e de cineasta. GISELDA MEDEIROS e REGINA LIMAVERDE são duas poetisas que também merecem uma referência, ainda que seja de passagem, à obra literária que empreendem, a segunda das quais com assento na Academia Cearense de Letras, fazendo jus assim aos prêmios literários com que foi distinguida.

OSWALD BARROSO e FLORIANO MARTINS enveredaram por caminhos diversos, mas são nomes que julgo definitivamente consolidados, com dicção muito pessoal e remarcada por uma originalidade literária muito proveitosa. Não desconheço que OSWALD BARROSO tem se desligado muito da poesia e abraçado o teatro com dedicação e excelente reconhecimento. É, entre os escritores de sua geração, talvez, o intelectual mais arrojado e o mais dinâmico, com formação que, no geral, vai do popular ao erudito.

Já no pertinente a FLORIANO MARTINS, considerado um escritor bastante polêmico, porém muito participativo, eu o tenho como poeta de fala original e reconheço como meritório o seu trabalho de tradutor e de produtor cultural. Sei que muitos aqui não concordarão com a inclusão de FLORIANO na lista pela qual me debato, mas não posso falsificar a verdade e atender a apelos e picuinhas estranhos ao mérito da escrita. Ele já externou de público e por escrito que me considera uma ostensiva obscuridade (O Povo, 17.02.1996), ao lado de outros poetas cearenses cuja poesia certamente não admira, mas não é assim que eu o vejo, talvez porque se trate realmente de um poeta de qualificação muita positiva, sendo, ademais, um crítico literário de boa formação.

Quanto a LUCIANO MAIA, cumpre dizer que ele produz uma poesia cujas características fundantes são indiscutivelmente a épica e a tradição. É autor de uma vasta produção e que conhece como poucos a carpintaria de verso, o labirinto do vernáculo e a escritura literária como um todo. As formas fixas do poema, principalmente do soneto, são parâmetros aos quais se tem agarrado. Mas é um poeta forte, com nome feito na literatura e a quem o Ceará deve significativa revelação da sua saga e da sua rapsódia. Trata-se de um poeta bastante seduzido pelos motivos rurais, pelas nossas raízes armoriais e atávicas, com incursões pelo popular e o social.

ADRIANO ESPÍNOLA é um poeta de formação urbana, sintonizado com os apelos da pós-modernidade e com os conflitos que apontam para os novos signos da linguagem e para a fundação das tribos de uma nova babel. A cidade, a sua parafernália e os seus encantos, as insinuações do corpo e do prazer, a fragmentação e a transformação do gosto e do sentir nas relações humanas, associadas à sonoridade e à elegância de uma nova ode triunfal, tudo isso a conduzir o fluxo da lembrança e da memória pessoal que se quer restaurada, parece ser a matéria-prima da sua textura poética, uma das mais altas da literatura brasileira neste final de século.

BATISTA DE LIMA é um poeta engenhoso e sua poesia tem raízes tanto rurais quanto sociais, apesar da lírica em geral e da solidão interior serem motivações bastante proveitosas da sua escritura literária. Não sendo um poeta cerebral, é no entanto o mais cabralino dos nossos poetas e aquele que melhor sabe se voltar para a epopéia e as misérias das suas raízes telúricas. Trata-se de um escritor que se tem destacado como ensaísta também, com passeios igualmente pela ficção, julgando-se neste campo unicamente como um contador de estórias. O Pescador de Tabocal, no entanto, publicado em 1997, é um livro de contos que tem muito mais a dizer do que o autor imagina, apesar do enfoque ter sido efetivamente projetado para o enredo e não especificamente para o labirinto da escritura literária.

JUAREZ LEITÃO é épico e lírico a um só tempo. Domina com muita fluidez a metáfora e a poesia de base erótica e sensual, com grande poder de expressão, cujos motivos estão ligados à saga dos sertões cearenses e a um apelo dionisíaco muito provocante, onde o arauto de eros ressurge como a primeira das alucinações criativas. É um poeta de fala arrebatada e sedutora e de ampla fundamentação discursiva, transfigurada pela lucidez e pelo fogo sagrado da paixão, sempre a sufocar e a seduzir as vinhas amargas do silêncio. Já CARLOS AUGUSTO VIANA é um caso à parte, que há mais de quinze anos não nos permite ler a poesia que vem armazenando. Estreou com Primavera Empalhada, em 1982, e por aí ficou, nos inquietando com uma poesia marcada pelo signo da estética e de uma refinada força criativa, que o coloca, com justa razão, entre os poetas que mais renovaram a morfologia e a semântica da nossa poesia na década de 1980.

SOARES FEITOSA, um poeta que surge inesperadamente maduro para o universo literário, é um nome que muito tem sido discutido nas rodas literárias cearenses. Mais discutido do que lido, diga-se a bem da verdade. Parece que ambiciona um lugar na poesia brasileira de hoje, tamanha a avalanche de opiniões que tem colecionado em torno da sua poesia, quase todas emitidas por nomes exponenciais da nossa literatura. A sua obra, ainda em fase de elaboração, resultou num denso e substancioso livro de poemas, vindo a lume em 1997, após algumas tentativas editoriais dos seus muitos alfarrábios poéticos, feitas no geral fora dos parâmetros convencionais, sem desproveito, no entanto, para a qualidade da sua produção. É ele o Editor do Jornal de Poesia da Internet em língua portuguesa e para sua poesia tem atraído a atenção de navegadores da Internet e da literatura.

Outra novidade que surge na literatura cearense, com muito poder de convencimento e aplauso quase geral, responde pelos nomes de PEDRO SALGUEIRO e PAULO DE TARSO PARDAL, contista ambos e ensaísta o segundo. JORGE TUFIC, vindo do Amazonas e considerado um dos grandes poetas brasileiros, é a dádiva que veio se somar à nossa poesia, pois optou por Fortaleza como sua segunda e definitiva nação. Com ele, o soneto entre nós se revitalizou. E com VIRGÍLIO MAIA, nome que deixei propositadamente por último, a literatura brasileira ganha um excelente sonetista e a tradição literária brasileira é indiscutível que se fortalece também. Sendo VIRGÍLIO um dos maiores produtores culturais do Ceará, é também em contrapartida um dos escritores cearenses mais eruditos, cujos motivos da sua criação e da sua pesquisa são os valores da antropologia nordestina e os signos da heráldica e do armorial, sobressaindo-se entre nós como um dos melhores poetas dos anos de 1990, principalmente depois da edição de Palimpsesto e Outros Sonetos, publicado em 1996.

O auditório poderia agora perguntar se esqueci algum nome. Responderia que sim, pois considero impossível guardar todos os escritores cearenses na memória. RICARDO ALCÂNTARA, por exemplo, é um nome a ser considerado, medido e avaliado, de uma ou de outra maneira, assim como CARLA BIANCA é uma agradável revelação nos escaninhos da nossa poesia que, lamentavelmente, possui poucas fundações entre os novos, ficando com a ficção, possivelmente, os nossos melhores acertos, como é o caso de RICARDO KELMER, autor de O Irresistível Charme da Insanidade (1996) e de Guia Prático para Sobrevivência no Final dos Tempos (1997), ambos recheados de ficção de boa qualidade.

MARCO ANTÔNIO ROSA, autor de Reflexos (1995), AFONSO BARROSO, autor de A Roca (1996), e JOSÉ TELLES DA SILVA, autor de Poemas Estivais (1997), todos estreantes, são três nomes a serem considerados, com certeza, ao lado, possivelmente, de ALEXANDRE BARBALHO, autor de uma poesia minimalista, mas de instigante provocação estética (Passeio Público, 1996).

No entanto, entre os mais novos, sobre JORGE PIEIRO e sobre ALANO DE FREITAS eu gostaria de falar de uma forma muito especial, principalmente porque JORGE PIEIRO tem muito a ensinar aos escritores cearenses de gerações anteriores à sua. É um nome a ser considerado no âmbito da literatura cearense dos últimos dez anos, assim como ALANO DE FREITAS deve ser visto como um escritor de dicção singular, sendo, de outra parte, um dos nossos melhores artistas, pois inúmeros são os instrumentos que sabe manejar na área da cultura, tal como AUDIFAX RIOS, que é artista de refinado trato com o popular e com a ficção. AIRTON MARANHÃO, autor de A Dança da Caipora (1994), é um romancista que em poucos anos o Ceará verá soerguido e com RUY CÂMARA a longa ficção cearense poderá ganhar em breve uma surpresa e uma renovação inesperada. Espero. Assim como tenho em TÉRCIA MONTENEGRO uma escritora prestes a se revelar para o público.

Finalmente, caberia indagar o que representa o ano de 1997 para a literatura cearense. Em primeiro lugar não podemos esquecer que 1997 é o ano do centenário de morte de ADOLFO CAMINHA e da publicação da sua primeira biografia digna de confiabilidade e de respeito, com pontos altamente positivos para o curriculum de SÂNZIO DE AZEVEDO, que cada vez mais se consolida como um dos nossos maiores escritores. LINHARES FILHO traz a público O Póetico Como Humanização Em Miguel Torga, indiscutivelmente um grande momento da literatura cearense em 1997.

E se invoco a pesquisa literária de LINHARES FILHO, é porque penso também em CARLOS D'ALGE e na sua poética do ensaio, principalmente nos limites e na forma em que eu a vejo retratada em O Sal da Escrita (1997). Nesse sentido, aliás, penso que poucos ensaístas quanto D'ALGE foram tão longe utilizando a crítica e o ensaio como pretexto para a construção de uma poética e de uma forma literária individuais, em vista a demarcação de um terreno para a inserção da palavra, que nele é fundamentalmente memória, mitologia portuguesa e consciência est(ética) e literária.

Além da volta de ARTUR EDUARDO BENEVIDES e de FRANCISCO CARVALHO ao repasto do cena literária, com livros de poemas de qualidade respeitável, o ano de 1997 é sacudido pela ficção de NILTO MACIEL e de CARLOS EMÍLIO CORRÊA LIMA, que reaparecem para confirmar duas excelentes vocações de ficcionistas. ADRIANO ESPÍNOLA e LUCIANO MAIA, por sua vez, atingem possivelmente o ápice das suas carreiras literárias, com a publicação, respectivamente, de Beira-Sol e de Rostro Hermoso, dois livros pejados de criatividade e nos quais se divisa, talvez, a ruptura de ambos com a própria estética literária que vinham elaborando.

A esses dois poetas me parece oportuno também adicionar o nome de MAJELA COLARES, cujo livro O Soldador de Palavras, São Paulo, Ateliê Editorial, vindo a público com excelente acabamento gráfico, constitui um dos melhores momentos da poesia brasileira em 1997, juntando assim a sua voz ao nome do poeta cearense CÉSAR LEAL, residente em Recife, que também em 1997 publica a sua antologia poética, intitulada Alturas, e que é uma prova, há muito já confirmada, da sua inserção no rol dos maiores poetas de língua portuguesa.

PEDRO HENRIQUE SARAIVA LEÃO, por iniciativa de DIMAS MACEDO, tem a sua obra de poeta visitada por vários escritores e ganha o primeiro livro de fôlego sobre a sua poesia, intitulado Tempo e Antítese e considerado por LIRA NETO, um dos mais experientes críticos do jornal O POVO, como um dos melhores livros publicados no Ceará em 1997, ficando com essa atitude ressalvada também a competência do organizador do referido conjunto de ensaios, como fez questão de frisar o jornalista atrás mencionado, sendo 1997 igualmente o ano de estréia de INÊS FIGUEIREDO, que aparece em público com o rótulo de poetisa madura e muito consciente do ofício que empreende, juntando assim a edição do seu livro O Poeta e a Ponte às reedições de Editor de Insônia, de JOSÉ ALCIDES PINTO, Uma Chama ao Vento, de BRAGA MONTENEGRO, e O Peso do Morto, de autoria de PEDRO SALGUEIRO.

Mas o ano de 1997 é rico também pela republicação de Rimas, de JOSÉ ALBANO, de Trigo Sem Joio, de OTACÍLIO DE AZEVEDO, de Poemas do Cárcere e Ânsia Revel, de CARLOS GONDIM, de As Verdes Léguas, de FRANCISCO CARVALHO, e da Antologia Poética, de FILGUEIRAS LIMA, sendo também o ano da estréia de ANGELA GUTIÉRREZ como poetisa e da publicação de um novo romance e de um livro de crônicas de FRAN MARTINS, um dos maiores ficcionistas do Ceará em todos os tempos.

Já sobre RODOLFO TEÓFILO, que em 1997 teve os sonetos de Ocaso publicados pela primeira vez, foram editados dois livros substanciosos: Rodolfo Teófilo / O Varão Benemérito da Pátria, de autoria de WALDIR SOMBRA, e A Política do Corpo Na Obra de Rodolfo Teófilo, da lavra do professor e escritor JOÃO ALFREDO DE SOUSA MONTENEGRO, sendo de registrar por último que ANTÔNIO MARTINS FILHO é, na condição de memorialista, um nome também a ser relembrado, pois que em 1997 publica o quarto e último volume das suas memórias de mais de meio século.

Ao Prof. MARTINS FILHO devemos também as reedições, em 1997, de Não Há Estrelas no Céu (romance) e Dois de Ouros (novela), de autoria, respectivamente, de JOÃO CLÍMACO BEZERRA e de FRAN MARTINS. Trata-se, no caso, de dois momentos riquíssimos da nossa ficção, nos quais o ciclo do algodão e a saga do cangaço atingem, indiscutivelmente, os seus melhores retratos artísticos, com pontos altamente positivos para a sociologia do romance cearense como um todo.

Fora do espaço cearense, o ano de 1997 é alentador, sobremodo, no caso de alguns escritores conterrâneos. Além dos nomes de NILTO MACIEL, ADRIANO ESPÍNOLA e CARLOS EMÍLIO CORRÊA LIMA, aqui já referidos e que ganharam projeção fora das fronteiras cearenses, cabe mencionar os nomes de ROBERTO AMARAL (Não há Noite Tão Longa), GERARDO MELLO MOURÃO (Invenção do Mar), FRANCISCO SOBREIRA (Crônica do Amor e do Ódio) e CLÁUDIO AGUIAR (Franklin Távora e o Seu Tempo), que se distinguiram empalmando alguns dos melhores momentos da literatura brasileira em 1997, com relevância, respectivamente, para o romance, a poesia, o conto e o ensaio literário de caráter biográfico e investigação erudita e criteriosa.

Finalmente, gostaria de confessar que tenho presente a impossibilidade de aludir a cada um dos escritores cearenses de per si, assim como reconheço que esqueci alguns nomes, principalmente e em certos casos porque nem tudo que esquecemos é proposital. As circunstâncias do Seminário e a limitação do tempo podem, por sua vez, serem tomados como fatores que embargaram uma melhor clareza da exposição.

Fonte:
Jornal Oboé. http://www.oboe.com.br/

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