Singrando Horizontes

Vive muito mais feliz
quem bebe as águas das fontes,
e, também, minh´alma diz,
quem vai Singrando Horizontes !
(Ialmar Pio Schneider - Porto Alegre/RS)

Vai, Singrando Horizontes,
O infinito é a ambição
rumo aos mais distantes montes,
rumo à imaginação!
(Sinclair Pozza Casemiro - Campo Mourão/PR)

Você é a Gralha Poeta
que leva nossa poesia
ao mundo, em que o grande esteta
criou com tanta harmonia!
(Nei Garcez – Curitiba/PR)
Nas artes e na literatura, vão surgindo as classificações didáticas, as separações por faixas etárias, estilos, temáticas etc. Ha professores e alunos no Brasil, que aprendem só isso da produção artística. Decoram nomes, escolas e datas, mas não se embrenham nos livros, preferem o futebol ou o vídeo-game. A Literatura de boa qualidade nos empolga, lemos sem poder largar o livro, as páginas suscitam nossa emoção, respondem ou provocam perguntas.

Sem a Literatura acumulada nos séculos, o ser humano estaria muito mais próximo da animalidade que ainda o caracteriza nas páginas policiais. Em minhas oficinas ninguém gasta muito tempo com aquela americana lista de soft, hard etc. etc. Falamos em cenas que não saem da memória, em emoções que derramam lágrimas, falamos em idéias e como expressa-las com eficiência. Quem entra em um Museu não fica procurando renascentistas, impressionistas, dadaistas, cubistas ou abstracionistas. O espectador inteligente não procura escolas ou datas, procura obras primas. Nossa ambição deve ser a obra-prima.

(André Carneiro)


Fonte da Imagem da Pomba = http://www.senado.gov.br/portaldoservidor/jornal/jornal121/qualidade_vida_paz.aspx

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Aluísio Azevedo (O Coruja) Parte 36

CAPÍTULO VI

Uma noite, Afonso de Aguiar assistia à representação dos Huguenotes ao lado de sua prima; Teobaldo muito pouco se mostrava no camarote e parecia extremamente preocupado com a ausência de alguém. Tratava-se de um conselheiro, a quem ele devia ser apresentado durante o espetáculo e de quem esperava a realização de uma ideia que nesse momento o possuía todo Essa ideia era nada menos do que a criação de um jornal político, jornal de luta, com que ele pudesse fazer pressão sobre o partido dominante no país e determinar sua individualidade perante o público; ao lado, porém, deste interesse, todo moral e decisivo, tinha vagas esperanças de obter do governo algum vantajoso privilégio ou algum bom lugar em qualquer legação ou, se as coisas tomassem outro caminho, preparar terreno para uma provável candidatura de deputado geral.

Inconstante e leviano como sempre não firmava em um só ponto as suas pretensões e aspirava em grosso, abrangendo com a sua desnorteada e vacilante ambição tudo aquilo que se podia articular de qualquer modo ao objeto do seu desejo.  Assim, logo que lhe veio a ideia de fazer-se jornalista, pensou em ser concessionário, pensou em ser diplomata e pensou em ser deputado, sem se decidir por nenhuma das três carreiras, aliás tão diversas e tão opostas. E tanto teve de entusiasmo pelo comércio, ao fazer-se negociante, quanto agora o detestava e maldizia a cada momento.

Se eu conseguir criar a folha, planeava ele, espaceando no corredor do teatro, conservo-me ainda por algum tempo no comércio, apenas na qualidade de sócio comanditário, e dedico-me de corro e alma ao jornalismo. Com o meu talento e com a minha vivacidade, não dou um ano à minha folha para ser a primeira do Império. E já se via aclamado e aplaudido pelo público, já se via influindo sobre os destinos da pátria, e determinando com uma penada as mais graves questões políticas.

Uma enorme sede de luzir, de parecer grande, de dominar, o assoberbava ultimamente, fazendo-o esquecer-se de tudo e de todos, para só cuidar do seu nome. Apoderava-se dele a febre do avô, a paixão da altura; queria subir até onde chegava sua ambição. Não havia nisso a menor sombra de amor pelo trabalho, nem desejo de ser útil à pátria ou aos seus semelhantes, mas só vaidade, essa mesma vaidade que fora sempre a sua única soberana, e pela qual ele seria capaz dos maiores heroísmos e também das maiores perversidades.

E enquanto Teobaldo devaneava e passeava no corredor, entusiasmando-se com o alto conceito que fazia de si mesmo, o outro, o Aguiar, quedava-se no camarote, acompanhando em silêncio todos os gestos da prima. Estavam já no penúltimo ato, em meio do grande dueto de Raul de Nangis e Valentina; Branca não despregava o binóculo da cena e parecia arrebatar-se com a magia daquela música suprema e apaixonada; os seus desgostos, as suas profundas mágoas de amor, acordavam todas, uma por uma, no fundo de sua alma; e, quando o tenor soltou a última frase do dueto, uma lágrima brilhou nos olhos dela e um longo suspiro desdobrou-se-lhe nos lábios.

Só então, despertando do seu enlevo, atentou para Afonso, que a devorava com a vista.

— Como sofre... Disse ele entredentes, não tão baixo, porém que a prima não o ouvisse.

Ela balbuciou ainda uma frase de desculpa, mas o rapaz acrescentou em segredo:

— Para que há de esconder de mim os seus sofrimentos? Julgará que é de hoje que os observo e acompanho?... Melhor faria, minha prima, em derramá-los no meu coração, porque só os que também sofrem poderão compreende-los e...

— Eu é que não compreendo... Respondeu Branca, fazendo-se muito séria.

— As palavras de um bom amigo só não as compreende quem de todo não quer.

— Nesse caso repita-as a Teobaldo, que ele as compreenderá melhor do que eu.

— Duvido.

— Não acredita então na amizade de meu marido?...

— Não.

— Como assim?

— Teobaldo não estima a ninguém. Ele só cuida si, só pensa na sua própria pessoa, só de si se preocupa.

— Não é isso o que meu primo costuma dizer a respeito dele.

— Ah! Certamente, porque desejo engrandecê-lo aos olhos de todos.

— Mas então com que fim?

— Com o fim de ser — Para ele — Útil e para a prima agradável.

— Pretende então agradar-me?

— Decerto, visto que sou seu amigo.

— E como, se é meu amigo, procura convencer-me de que Teobaldo não estima a ninguém?... Esquece-se, meu primo, porventura de que, se eu chegasse a acreditar em semelhante falsidade, seria a mais infeliz das mulheres, porque adoro meu marido e suponho ser amada por ele?

— Se a prima acreditasse no amor de Teobaldo, não sofreria como sofre.

— Quem lhe disse que eu sofro?

— Diz-me tudo: dizem-me as suas lágrimas mal disfarçadas, a sua melancolia, os seus suspiros; dizem-me esses pobres olhos entristecidos e queixosos!...

Branca abaixou as pálpebras instintivamente, e o rapaz, aproveitando o efeito daquelas palavras, acrescentou:

— Quando uma mulher é correspondida no seu amor, toda ela ressumbra contentamento e felicidade; de cada beijo que dá ou recebe da pessoa amada, fica-lhe
na alma o gérmen de um sorriso e não da lágrima, que ainda há pouco lhe vi saltar dos olhos.

— Mas, quando assim fosse, retorquiu a senhora, dada a hipótese de que com efeito tenho qualquer motivo para sofrer, que lucraria eu em confessá-lo? Que lucraria? Oh! Lucraria muito! Lucraria em desabafar, lucraria em dividir com alguém a sua mágoa!

— Não! Isso só se pode fazer com um ente, um único, quando o possuímos, e eu o possuí tão pouco!...

— Quer falar de sua mãe?

— É verdade.

— E não se lembra de que eu, por bem dizer, sou seu irmão, que a vi pequenina e que me habituei a estimá-la e a respeitá-la, como se tivéssemos bebido o mesmo leite materno?...

— Mas que lhe podem interessar meus desgostos? São tão íntimos... Tão meus !...

— Por isso mesmo me interessam, porque eles são muito seus. Oh! Era preciso não ser seu amigo, seu companheiro de infância, seu irmão, para não me interessar por eles, como me interesso por tudo que lhe diz respeito!

E chegando-se ainda mais junto dela:

— Juro-lhe, minha prima, que, apesar da tremenda decepção que sofri com o seu casamento, apesar de a ter desejado ardentemente para minha esposa, só a idéia de que Teobaldo faria a sua felicidade levou-me a esquecer tudo! Nunca mais a possuiria, é exato; nunca mais a vida seria para mim outra coisa mais do que a morte sem as regalias da morte, sem o descanso, sem o esquecimento e sem a dor; consolava-me, porém, a idéia de ter contribuído para a ventura daquela que eu idolatrava, daquela que foi a única mulher que amei, que amarei sempre! E contava. pois, que, em a vendo satisfeita e alegre, eu teria também, do fundo da minha desgraça, o meu quinhão de alegria! Vendo-a gozar, eu gozaria também! Ah! Mas quando dei pelo procedimento de seu marido; quando descobri que ele covardemente a enganara, fazendo-lhe acreditar que a amaria por toda a vida; quando cheguei a compreender qual fora a verdadeira intenção daquele miserável, arrancando-a brutalmente da casa paterna; ah! Então, confesso-lhe, minha prima, transformei-me todo; confesso-lhe que senti indignação tão grande como seria a indignação de seu pai, se ainda vivesse!

— Meu pai! Oh! Não me fale nele, por amor de Deus!

— Sim, seu pai, que juntou a vida ao dote cobiçado pelo seu raptor.

— Meu primo!

— Perdoe-me! Deixe-me desabafar por uma vez, que estou cansado de reprimir a minha indignação! Juro-lhe que, se Teobaldo fosse um bom marido, teria em mim um amigo para a vida e para a morte; mas, fazendo-a sofrer, desprezando-a como a despreza, desdenhando de todas essas virtudes e de todos esses encantos que a prima possui como nenhuma outra mulher no mundo, preferia vê-lo atravessado por uma bala!

— Cale-se por amor de Deus!

— Não tem que se revoltar com o que estou dizendo! É na qualidade de amigo e de irmão que lhe falo! Ninguém terá maior empenho do que eu em protegê-la!

— Não posso aceitar uma proteção que acusa e ofende meu marido...

— Em sua defesa, eu acusaria o próprio Deus, se ele a desgostasse!...

— Pois se assim é, proteja-me estimando Teobaldo, perdoando-lhe as faltas e defendendo aos olhos dele a minha causa. Só por essa forma provaria o primo que me estima deveras.

Mas, justamente nessa ocasião, Teobaldo, em um camarote defronte do da esposa, fazia a corte à mulher do tal conselheiro de quem dependia a criação do seu jornal.

Experiente e vivo como era, sabia que as mulheres são o melhor conduto para se chegar aos maridos. — Porque, considerava ele — das duas uma: ou a sujeita é boa e por bondade cederá ao meu pedido; ou não é, e neste caso eu a farei solidária nos meus interesses, desde que a converta em minha amante. A senhora do conselheiro, posto não fosse de todo desengraçada e despida de seduções, era já uma gordachuda quarentona que em ninguém acenderia delírios de amor, e muito menos em Teobaldo, que, a respeito de mulheres, só tinha tido até ali boas fortunas. Não se tratava, porém, de satisfazer ao gosto e sim de arranjar proteção, e como ele, logo ao primeiro ataque, descobriu que a esposa do conselheiro pertencia à segunda daquelas duas ordens, tratou de dar toda força aos seus recursos de insinuação e aos seus artifícios de conquistador.

Foi tiro e queda! No fim de pouco tempo de conversa a senhora do conselheiro se interessava visivelmente pelo marido de Branca. Ouvia-o com toda a atenção, abanando-se indolentemente, a sorrir e a contemplá-lo em silêncio. Ele falava de tudo, promiscuamente, tocando apenas com a ponta da asa do seu espírito no assunto que se oferecia; não esteve calado um instante; depois ergueu-se de súbito e, o claque em punho, o ar todo restrito, pediu as ordens da excelentíssima senhora, lamentando ainda uma vez a ausência do conselheiro, a quem fazia empenho de ser apresentado.

— Pois então apareça-nos sexta-feira. Está convidado. Eu prevenirei meu marido de que o senhor não faltará. Vai?

Teobaldo vergou-se todo defronte destas palavras, disse que sim com um gracioso sorriso e, requintando a sua cortesia, beijou a mão que a senhora do conselheiro lhe havia estendido.

— É interessante este rapaz! Anotou ela consigo, depois de sair a visita.

— Estou garantido! Pensou ele, quando se viu em liberdade.

Entretanto, o Aguiar, que não perdera um só dos movimentos do marido de sua prima, chamou a atenção desta sobre o modo pelo qual ele se despedia da outra.

— Não há de ser por mal... Considerou Branca, afetando tranqüilidade, mas no íntimo ressentida.

É que acabava de cair por terra mais uma das pedras do pobre castelo das suas ilusões.

CAPÍTULO VII

Por esse tempo o Coruja, sempre lutando com o seu coração, com a sua natural antipatia, com o seu trabalho excessivo e com as exigências da velha Margarida e mais da filha, achava-se em uma situação especial.

O diretor do colégio, em que ele trabalhava havia tantos anos, um viuvão preso ultimamente à cama pelo reumatismo, acabava de sucumbir pedindo-lhe, antes de morrer, que ficasse com o estabelecimento e fizesse o possível para mantê-lo sem quebra dos créditos até aí conquistados.

André prometeu; mas, feito o inventário do colégio, verificou-se que este devia dez contos de réis, ficando por conseguinte quem tomasse conta dele obrigado a fazer frente a esse débito.

Ora, o Coruja não tinha dez contos de réis, nem donde os haver, pois que Teobaldo, único a quem ele poderia recorrer, já não se achava em circunstâncias de servi-lo. Entretanto, mesmo com algum sacrifício, pagava a pena de ficar com o colégio, porque, em primeiro lugar, o que havia dentro deste valia bem a metade daquela quantia, e, em segundo lugar, o estabelecimento era um dos mais acreditados da corte e contava um bonito número de alunos. Notando-se ainda que a ninguém convinha como ao Coruja ficar com ele a dirigi-lo, visto que de há muito fazia as vezes do diretor, e, valha a verdade, com vantagem sobre o verdadeiro, já por introduzir no estabelecimento muitas das reformas do ensino primário, já por desenvolver várias aulas que encontrou quase que em estado de abandono.

Ora, se o Banco do Brasil, que era o principal credor, cedesse dois anos de moratória, o Coruja, empregando todo o seu esforço, bem podia dar conta do recado. Tratou-se do negócio. O Banco mediante a hipoteca do colégio, dava um ano para a entrada da metade da dívida e outro ano para a entrada do resto. André teria, pois, se fechasse o acordo, de apresentar seis contos de réis daí a um ano e outros seis daí a dois, submetido, já se vê, aos juros da lei.

Verificou o que conseguira economizar depois da moléstia de D. Margarida, calculou ao certo o produto líquido do colégio e, tomando a resolução de reduzir ainda mais as suas despesas e largar de mão por algum tempo a sua história do Brasil, resolveu afinal assinar o contrato.

Tudo isso fez ele sem o menor entusiasmo, com uma inalterável confiança nos seus esforços. E desde então com efeito não descansou um segundo: dispensou alguns professores, cujo serviço tomou a seu cargo e começou a lecionar por dia nada menos do que oito aulas, inclusive a de música.

Pois, ainda assim, descobria tempo para fazer a escrituração da casa e, lá uma vez por outra, para adiantar uma página à sua querida história do Brasil. Embalde protestava-lhe o corpo contra tanto excesso de trabalho. Coruja não se deixava vencer e reagia energicamente; é verdade que, ao chegar a noite, já se não podia ter nas pernas e só com muito sacrifício agüentava-se acordado até às onze horas, trabalhando ainda; mas em compensação trazia agora o espírito mais tranqüilo a respeito do seu compromisso com Inês, a quem desposaria, mal visse o colégio desembaraçado.

A nova situação de André por qualquer forma animou a velha Margarida, que ultimamente se havia convertido para ele em um verdadeiro tormento.

— Ora, Deus queira que desta vez você desembuche, criatura! Disse-lhe ela, quando o rapaz lhe levou a notícia. — Já não vem sem tempo!

— Ah! Desta vez creio que ficará tudo realizado!... Considerou André — É que as coisas, Sra. D. Margarida, nem sempre caminham à medida dos nossos desejos...

— Ora, seu Miranda, se você quisesse, há muito tempo que já teria dado um jeito ao negócio !.

— Mas para que fazer as coisas no ar? E muito melhor ir pelo seguro! Olhe, logo que eu liquide o meu débito com o Banco, posso casar sem receio, porque já terei certo o necessário para sustentar mulher e os filhos que vierem. O colégio, uma vez desembaraçado, dará perfeitamente para isso o talvez até para se por de parte alguma coisinha... Não acha a senhora, D. Margarida, que sempre é melhor assim, do que casar-se a gente em um dia e já no outro estar arrependida?

A velha, em vez de responder às considerações de André, limitou-se a exclamar:

— Hei de ver este casamento pelas costas e ainda me parecerá um sonho!

— Agora há de vê-lo realizado!

— Com um ano de espera pelo menos... Arriscou Inês. — Em um ano o mundo dá tantas voltas!...

E sua cara era tão feia e tão apoquentada com semelhantes palavras, que fazia desconfiar que as tais voltas do mundo haviam de ser por cima dela.

— O que não sei é se ele ainda deitará um ano ... Considerou a velha, quando o Coruja a deixou com a filha. Acho-o agora tão não sei como!... O diabo do homem parece que fica mais feio de dia para dia!

— A mim, o que lhe acho, acrescentou a outra — É mais bodega do que nunca: já não se sabe de que cor é o paletó que ele trás no corpo, e o chapéu parece que está a se acabar aos nacos!

Tais considerações sobre o mau trajar do Coruja não eram privilégio exclusivo das duas senhoras; em casa de Teobaldo já todos haviam também notado a mesma coisa, sem que ninguém aliás se animasse a censurá-lo, porque bem sabiam a que ponto levava ele a economia depois de tomar o colégio à sua conta. Mas se aí lhe perdoavam a penúria de roupa, o mesmo não sucedia nas outras partes, e o pobre Coruja ia ganhando fama de sumítico e miserável.

Comentavam amargamente aquela extrema restrição de despesas; acusavam-no de nunca ter sido visto a gastar um só vintém com pessoa alguma, e muita gente garantia que ele aferrolhava dinheiro. Em verdade, não podia ser mais rigorosa a abstinência do Coruja, nem podia o seu tipo ser mais farandolesco e miserável do que era ultimamente; mas, também, quem o surpreendesse à noite no seu cubículo, depois de recolhido, ver-lo-ia tirar de uma gaveta diversos títulos do Banco e diversos maços de cem mil réis em papel, que ele contava e recontava com uma voluptuosidade de avarento; como, se à força de conferir o dinheiro, pretendesse engrossá-lo.

O Aguiar embirrava com ele progressivamente. Ao topá-lo em casa do amigo, tão maltrapilho e tão esquerdo de maneiras, torcia sempre o nariz e às vezes chegava a exprobrar à prima aquela relação.

— Também não sei, dizia, — Como Teobaldo, que é aquele mesmo, conserva este tipo dentro de sua casa...

— São muito amigos, respondia Branca secamente.

— De acordo, mas, que diabo! Semelhante figura é o bastante para desmoralizar uma casa... Parece um mendigo! Um verdadeiro mendigo!

— É um homem honesto, afianço-lhe.

— Oh! Nem podia deixar de ser! Com tal aspecto ser honesto não é favor: ele tinha obrigação de ser, pelo menos, santo.

— E talvez meu primo acertasse. O Coruja tem coisas de um verdadeiro santo.

— Menos a figura, que essa é marca de Judas.

— Com efeito, é antipático, mas também não é tanto assim... Repare bem e verá.

— Não. Tenho medo. Aquela cara seria capaz de me por doente se eu a fitasse.

A atitude do Aguiar ao lado da prima continuava a ser a de um seu parente chegado e amigo da casa; Branca, todavia, ao conversar com ele, sentiu por várias vezes orçar-lhe pelo pudor as antenas de uma estranha intenção, que ela procurava não compreender e contra a qual se retraía toda. Mas o sedutor nem por isso perdia as esperanças, e, sempre com o seu sistema artificioso, ia empregando todos os meios de insinuar-se-lhe no ânimo, até que chegasse uma boa ocasião para a empolgar.

A ocasião, porém, não queria apresentar-se, e ele teria talvez precipitado os acontecimentos, se o acaso não fosse ao seu encontro, avivando-lhe a coragem e fazendo-lhe antever um desfecho ainda mais rápido do que esperava para a sua campanha.

Aguiar estava muito ao corrente das pretensões jornalísticas de Teobaldo e, melhor ainda, sabia em que pé caminhavam as intimidades deste com a senhora do conselheiro; de sorte que, um belo dia, ouvindo Branca teimar que o marido tinha de passar a noite em importante conferência comercial com alguns amigos, ele sorriu e disse:

— E o que perderia a prima se eu lhe provasse o contrário?

— Perderia mais uma ilusão a respeito de meu marido, respondeu ela. — Até aqui ainda não o apanhei mentindo, e confesso que o julgo incapaz de tamanha baixeza.

— E se eu provasse que ele, em vez de passar a noite nessa fantástica conferência, estará por esse tempo aos pés da mulher do conselheiro?...

— Creio que ainda assim eu não acreditaria.

— E se as provas fossem irrecusáveis?

— Nunca perdoaria a ele semelhante infâmia.

— E jura que não fará o mesmo a meu respeito, se eu provar o que disse?

— Pode estar tranqüilo por esse lado, porque nós, as mulheres, só condenamos os atos maus e as faltas da pessoa que amamos. Em nós o ódio é sempre o avesso do amor e só aparece quando este se esconde; o nosso coração é uma capa de duas vistas, cujos lados não podemos usar ao mesmo tempo: ou bem que amamos, ou bem que odiamos.

— Quem me dera então ser odiado pela prima...

Branca sentiu o roçar das tais antenas e tratou logo de cortar a conversa, retirando-se para o seu quarto, a pretexto de sentir-se indisposta. Aguiar ficou na sala, mas a denúncia dele acompanhou-a, grudando-se-lhe ao coração com tanta insistência, que afinal já a oprimia.

— Um mentiroso! Pensava ela, deixando-se cair sobre o divã.

E vieram os soluços.

— Mentir, enganar-me, trair-me como o mais baixo dos homens não faria com sua mulher!... Oh! Isso não! Isso já é demais! Isso já não é uma fraqueza, é uma vilania e uma perversidade! Se ele está farto de mim, se não me pode suportar, por que então não fala com franqueza? Por que não confessa tudo dignamente? Por que me traz nesta dúvida ridícula e mais dolorosa do que a pior das evidências?...

E ainda chorava sobre estes raciocínios quando Teobaldo chegou à tarde.

Ela disfarçou as suas lágrimas, acompanhou-o ao jantar, depois conversaram juntos, como de costume, debaixo de um caramanchão que havia na chácara e, só à noite, ao vê-lo já pronto para sair, perguntou-lhe com os braços em volta do pescoço dele:

— Vais sempre à tal reunião?

— Vou, e creio que me demorarei alguma coisa; mas fica descansada, que não irei muito além da meia-noite.

E beijou-a na testa e teria desaparecido logo, se a mulher não o prendesse com mais força.

Ele estranhou:

— Então! Disse. Creio que não vou empreender alguma viagem aos pólos! A esposa tomou coragem e interrogou-o abertamente:

— Quero que me digas uma coisa, mas não mintas! Fala com franqueza.

— Não te compreendo, filha.

— Dize-me: onde vai tu agora?

— Oh! Estou farto de repetir! E estalando as sílabas: — Vou a uma reunião comercial, que tem hoje de deliberar sobre um sindicato, apresentado ao governo, pedindo privilégio para o fornecimento de certos materiais de guerra que tencionamos mandar ao Paraguai. Oh!

— Jura! Dá tua palavra de honra!

— Ora essa!

— Então não acredito.

— Paciência!

— E vejo que as minhas desconfianças têm razão de ser...

— Desconfianças?

— Sim. Não acredito na tua reunião.

— E com que direito?

— Com o direito de quem tem ciúmes.

— Ciúmes, tu?

— Eu mesma.

— E duvidas de mim?

— Só não duvidarei se renunciares a essa tal reunião.

— Não posso.

— Fica. Peço-te.

— É impossível! Teria um grande prejuízo!

— Fica Teobaldo.

— Não. Seria uma tolice, que eu a mim mesmo nunca perdoaria! Bem sabes que os meus negócios não vão bem, atravesso uma crise muito séria, extraordinariamente séria! A guerra tem me feito um mal diabólico! Se me descuidar, estará tudo perdido, tudo! Nesta reunião de hoje vou tratar do nosso futuro; é o interesse que me conduz e não devo faltar!

— Bem, vai!

— Adeus.

— Adeus.

Ele tornou a beijá-la na fronte e depois saiu.

Branca ficou imóvel, junto à porta, a segui-lo com os olhos. Viu-o descer muito lépido a escadaria de pedra, atravessar a chácara e ouviu depois rodar o carro lá fora.

— Qual dos dois será o mentiroso? Este ou o outro?... Balbuciou ela, deixando pender a cabeça para o peito e entregando-se a uma cisma atormentadora e ensombrecida pela dúvida: Qual dos dois será o infame? Talvez ambos ...

Despertou com a voz do primo.

— Então? Ele sempre foi? Perguntou este com um sorriso.

Branca respondeu sem falar, procurando esconder a sua preocupação. Deu uma pequena volta pela sala, afinal foi colocar-se ao lado do primo:

— Onde é a entrevista, sabe?

— No Catete.

— Em casa de quem?

— Na minha.

— Na sua casa?

— Ele pediu-ma e eu não podia negar. Não acha?

— Fez bem.

E ela acrescentou, depois de uma pausa aflita, aproximando-se mais de Aguiar:

— Meu primo, o senhor disse que é meu amigo, não é verdade?

— E sustento.

— Pois bem, prove-o, não dando uma palavra a respeito do que eu vou fazer.

— Juro que não darei, mas peço em troca uma promessa do mesmo gênero.

— Fale.

— A prima não dirá a Teobaldo quem foi que o denunciou.

— Pode ficar descansado.

Dito isto, Branca foi ao tímpano e vibrou-o.

Apareceu um criado.

— O Caetano que se apronte para sair e venha imediatamente aqui; você vá chamar um carro. Depressa!

— Vai certificar-se? Perguntou Aguiar à prima, feliz com aquela intimidade que o aproximava mais dela e como que o fazia seu cúmplice, estabelecendo entre eles um segredo, um pacto e um juramento.

Branca respondeu que sim, queria certificar-se com os seus próprios olhos.

— E que meios tenciona empregar para isso?

— Espiá-los.

— Mas, de que modo?

— Postando-me defronte da casa.

— E se eles já tiverem entrado e se fechado por dentro?

— Espero que saiam.

— Mas é que dessa forma a prima será descoberta e terá de passar longas horas a esperar na rua, metida em um carro de aluguel, talvez arriscando a sua reputação...

— Que então hei de fazer?

— Seguir os meus conselhos. Eu me comprometerei a levá-la a um lugar, donde a prima poderá observá-los a vontade e sem ser vista.

— Ir em sua companhia?...

— Parece-me que sempre é mais prudente do que ir em companhia do Caetano... Lembre-se de que esse velho a ninguém preza neste mundo como a Teobaldo e que não resistirá por conseguinte ao desejo de contar-lhe tudo!

— Pouco me importaria eu com isso!.

— Sim, mas importo-me eu. Se Teobaldo chegasse a descobrir a armadilha, descobriria também quem a armou. Ao passo que, indo a prima só comigo, eu a faria entrar misteriosamente pelos fundos da casa e levá-la-ia a um lugar seguro donde, já disse, os poderia ver, sem que ninguém desconfiasse da sua presença.

O velho Caetano acabava de aparecer à porta da sala, todo paramentado com a sua libré nova, a cabecinha já muito branca e vergada ao peso dos seus setenta anos.

— Espere, Caetano, disse-lhe Branca, encostando-se a um móvel, como para melhor resistir às idéias que a acabrunhavam.

É que ao seu espírito altivo e leal repugnava tudo aquilo, sentia-se mal, como se estivesse premeditando uma infâmia.

— Você já não é necessário, declarou Aguiar ao criado, enquanto ela pensava.

O velho Caetano fez uma respeitável continência e apartou-se sem dar palavra, arrastando os seus cansados pés e afagando lentamente com a mão a nuca encanecida.

Branca teve afinal um gesto resoluto de cabeça, foi ter com o primo o perguntou-lhe com a voz tão firme quanto era firme o seu olhar:

— Dá-me a sua palavra de honra em como não deixará de ser cavalheiro um só instante enquanto estiver ao meu lado?

— Dou-lhe a minha palavra de honra em como a respeitaria como minha irmã ou minha mãe!

— Bem. Aceito a sua companhia.

E retirou-se por alguns segundos para ir por uma capa.

— Podemos ir, disse ao reaparecer na sala.

O primo deu-lhe o braço e os dois saíram juntos.
–––––––––––––
continua

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Autor Anônimo (Oração do Cão Abandonado)

DEUS
Sei que sou um ser criado por ti, para ser amado
pelos homens mas nasci sem a sorte de alguns de minha espécie.

Hoje meu dono levou-me a um passeio de carro.
Chegamos em uma praça, ele tirou minha coleira,
me fez descer do carro, e virando-me as costas,
foi embora e nem se despediu.

Tentei segui-lo mas o carro corria muito e não pude alcançá-lo.
Caí exausto no asfalto. Ainda não entendi. Por que ele me abandonou?

Eu sempre o recebi abanando o rabo, fazia festa e lambia seus pés.
Sempre lati forte, para defendê-lo e afastar os estranhos da porta.

Eu brincava com as crianças... ah! elas me adoravam.
Que saudades. Será que elas ainda se lembram de mim?

Deus, eu fico imaginando como seria bom se eu pudesse
comer agora. Puxa, estou faminto.

Não tenho água para beber, e estou tão cansado.

Procuro um cantinho onde possa me abrigar da chuva,
mas muitas vezes sou chutado.
As pessoas não gostam muito de mim aqui nas ruas.

Estou fraco, não consigo andar muito,
mas encontrei enfim um lugar para passar essa noite.

Está muito frio e o chão está molhado.
Já não tenho pêlo para me aquecer, estou doente,
e creio que ainda hoje vou me encontrar contigo.
Aí no céu meu sofrimento vai terminar.

Peço-vos então, pelos outros, por todos os cãezinhos e animais
abandonados nas ruas, nos parques, nas praças.

Mande-lhes pessoas que deles tenham compaixão,
pois sozinhos, viverão poucos meses, serão atropelados,
sofrerão maltratos dos impiedosos. Proteja-os.

Amenize-lhes esse frio, com o calor das pessoas abençoadas.

Diminua-lhes a fome, tal qual a que sinto, com o alimento do amor que me foi negado.

Sacie-lhes a sede com a água pura dos Seus ensinamentos.

Elimine a dor das doenças, dos maltratados, estirpando a
ignorância do homem.

Tire o sofrimento dos que estão sendo sacrificados em atos
apregoados como religiosos, científicos, tirando das mãos
humanas a sede pelo sangue.

Abrande a tristeza dos que, como eu, foram abandonados,
pois, dentre todos os sofrimentos, esse foi o maior e mais
duro de suportar.

Receba, DEUS, nesta noite gelada, a minha alma, e
minha oração pelos que aqui ficam. É por eles que vos peço,
pois não são humanos, mas são Seus filhos, e são leais e inocentes, e foram criados por Suas mãos e merecem o Seu abrigo.

Amém.

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